terça-feira, 11 de maio de 2010

Pergunta de algibeira - Resposta

Armada de Vasco da Gama, século XV, constituída pelas naus "São Gabriel", "São Rafael" e "Bérrio", de 120, 100 e 50 tonéis, respectivamente. Reprodução de pintura a óleo de Alberto Cutileiro
Museu de Marinha
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"Flor de la Mar", navio do século XVI. Nau de 400 tonéis que pertenceu à armada de Vasco da Gama (1502), D. Francisco de Almeida (1505) e Afonso de Albuquerque (1510).
Reprodução de pintura a óleo de Alberto Cutileiro.
Museu de Marinha
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Nau de finais do séc XV, início do XVI (S. Gabriel ou semelhante)
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Idem

Alternância

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Por João Paulo Guerra

SERÁ QUE O PS e o respectivo líder já começaram a preocupar-se com os resultados das sondagens?


É que, quase de um dia para o outro, os socialistas começaram a desabar nas intenções de voto e nos índices de confiança dos inquiridos por sondagens em Portugal. Não foi preciso muito. Quem responde a sondagens não tem ainda qualquer razão para conhecer Pedro Passos Coelho, as suas ideias e propósitos, a sua personalidade e carácter. Mas a verdade é que o pouco que dele conhecem chega para lhe empenharem a respectiva intenção de voto, levando-o e ao seu partido a ultrapassarem o líder dos socialistas e o PS. E porquê?

Por toda a Europa os socialistas têm vindo a ser varridos do poder. Porque as pessoas repudiam a ideia de uma política social, de uma Europa social, porque as pessoas não aceitam os valores da solidariedade, porque rejeitam o socialismo? Não. Porque os socialistas que chegaram ao poder e o exerceram por essa Europa fora praticaram tanto socialismo como o mais empedernido neoliberal. E assim, desenganados deste socialismo que rouba aos pobres para dar a alguns ricos, os eleitores aventuram-se a mudar. Claro que não vão ganhar nada com a mudança. A não ser um pequeno mas significativo detalhe. Enquanto no poder os socialistas fazem a política pura e dura da direita, na oposição não deixam a direita levar a respectiva política até ao fim e ao fundo. Para além disso, nos primeiros tempos de um governo de direita os eleitores não dão tão depressa pela brutalidade com que o poder lhes vai aos bolsos e às liberdades. Pela simples razão que os socialistas, antes de saírem, fizeram a parte mais pesada do trabalho sujo.

Chama-se a isto alternância. Embora haja quem lhe chame simplificadamente alterne.
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«DE» de 11 Mai 10

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Bem Bom Mais

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Por Rui Zink

É BONITO que esta semana se cumpra sob o signo do BB+. Refiro-me, obviamente, à vitória do Benfica e à visita de Bento XVI. Têm a minha simpatia porque ambas trazem, a uma quantidade impressionante de pessoas, duas coisas importantes: alegria e esperança. Mas é verdade que não é só por altruísmo que me alegro com a felicidade e fé alheias. Sim, também é porque... daí saco vantagem. Pessoas felizes são mais generosas, mais atenciosas, têm menos tendência a chatear o próximo (ou seja, eu) do que pessoas frustradas, ressentidas. Corro menos riscos de ser atropelado, levar um tiro ou ser mal atendido na repartição – e não ser atropelado nem levar um tiro nem ser tramado com a papelada são (vá lá saber-se porquê) coisas a que ligo alguma coisa. Há anos o comandante da Brigada de Trânsito da GNR confirmou-me esta tese: quando a vida corre bem aos portugueses, somos menos agressivos ao volante e há menos desastres.

O Braga por acaso também começa por B, fazendo o triângulo perfeito, sendo que Braga sempre foi a cidade mais religiosa de Portugal. Também não desmerecia ganhar. Mas a vitória do Benfica conjuga-se melhor – a começar pelo nome do treinador – com a vinda de Bento, que até tem nome de antigo guarda-redes do Benfica. Por isso não alinho com a malta ateia em abaixo-assinados pela “laicidade”. Sabiam que também num ateu o fanatismo é uma chatice? E quanto a vós, amigos do Porto: cadê o mal de, depois da vossa fartura, o Benfica ganhar? Hã? Aprendamos, com o Pai, com a Mãe, com o Tio, com o Roque, com a Amiga, a viver e a deixar viver. Sobretudo numa altura em que as agências de “reitingue” nos tiraram o AA+, é bem bom termos pelo menos esta semana de festejos BB+. Viver e deixar viver, ouvisteis, pá? Aceitar como nossa a alegria dos outros. Ide por mim. É tão simples que nem parece complicado. Viva o Benfica! Viva Bento XVI! Viva Bortugal!

Extremos

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Por João Paulo Guerra

A IGREJA CATÓLICA é de extremos, aliás como todas as confissões religiosas. Recordo imagens que vi em tempos, através de um documentário na televisão, em que missionários colocados numa remotíssima aldeia africana defendiam com os próprios corpos os de pessoas condenadas a serem vergastadas pelo déspota local.

Um sacrifício extremo, apenas comparável ao sacrifício da vida do próprio Jesus Cristo, o exemplo mais puro e mais esquecido da fé cristã. E por estes dias, em Portugal, os extremos não se tocam: o extremo do mediatismo, com a visita do Papa, não tem qualquer contrapartida nos domínios da humildade.

Pelo que se lia nos jornais a dois dias da chegada de Bento XVI a Portugal, com base em fontes oficiais do Vaticano, o cardeal Joseph Ratzinger, antigo prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, reprova o herói juvenil Harry Potter, tal como todas as histórias de feitiçaria em geral, condena o "Código Da Vinci", considerando "insultuosas para a fé cristã" as denúncias sobre o fundamentalismo da Opus Dei, e censura Bob Dylan, o ‘rock ‘n rol'l e o ‘heavy metal' como "poderosos veículos de anti-religiosidade". Prefere Mozart e Bach, os favoritos no seu iPod Nano 8 GB, no modelo prateado produzido pela Apple. Também prefere os gatos aos cães. Não dispensa uma fatia de bolo de chocolate e, para beber, o Sumo Pontífice prefere Fanta laranja e quanto a vinho só se for doce. O Osservatore Romano desmentiu quando a polémica já ia adiantada que o Santo Padre tivesse trocado as sandálias do pescador Simão, mais tarde designado por São Pedro, por sapatos Prada mas o debate não chegou ao contraditório.

As deslocações pastorais do Papa não pretendem seguramente ser um périplo de promoções. Mas o Vaticano alinha no jogo.
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«DE» de 10 Mai 10

sábado, 8 de maio de 2010

Avé Maria...

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Por João Duque

RECORDO, COM DOÇURA, as primeiras vezes que me confessei. Vasculhava a cabeça à procura de pecados a despejar no regaço da sotaina do senhor prior. Mas não ia além de umas desobediências maternais. Sim, porque da lista dos mortais, não tinha eu experiência. Naquela idade, nem a mulher do próximo desejava...

A dívida de Portugal não só a pública, mas essa especialmente, é o nosso pecado colectivo. Abusámos na antecipação do prazer pela utilização dos recursos. Deleitámo-nos com miríades de bens para os quais não tínhamos capacidade de pagar.

E agora? Agora estamos viciados nesse tipo de vida, num padrão de consumo desajustado à riqueza produzida, investimentos feitos que não se usam, investimentos que queremos fazer sem sentido económico mantidos por embirração política.

E como a qualquer viciado, dói quando se tenta travar o vício.

Como muitos disseram durante a passada campanha eleitoral que a dívida era o nosso maior e mais urgente problema nacional. Riram de Manuela Ferreira Leite, escarneceram dela e do seu apego à visão contabilística do problema, atirando-lhe isso na cara como se fosse um despropósito, uma mania, coisa de velhos do Restelo...

Lançaram a ideia de que o endividamento era inesgotável e que não tinha efeitos sobre a taxa de crescimento ou o próprio custo do capital.

O custo da dívida disparou. Agora, meio atordoados, e sem perceber como vamos sair desta encrenca, acusam-se as agências de rating, a imprensa de atear as fogueiras para vender jornais, os especuladores, os alemães, os americanos e todos os que não ajudam a Grécia, ou Portugal. Acusa-se... Os maus são sempre os outros. Nós só emitimos dívida (se existe é para ser emitida) e crescemos pouco!

Ainda meio confuso, assisto a um espectáculo que nunca imaginei: os mercados vergaram a arrogância do primeiro-ministro, a sua forma de lidar com a oposição, a sua intransigência e inegociabilidade das suas propostas.

Para melhorar o teatrinho, a rapaziada faz greves e quer aparecer nos telejornais das cadeias de televisão a que assistem os nossos credores... Um mimo! Nada melhor para nos aproximarmos da Grécia. Portugal e a Grécia juntos representaram a grande final do Euro. Agora, juntos de novo, arriscam-se a representar o grande final do euro...

A dívida sufoca-nos. Proponho que a reestruturemos convertendo parte das emissões de Obrigações do Tesouro em dívida perpétua não amortizável. Assim nem as gerações futuras têm de suportar o pesado fardo do reembolso.

Esta semana ficámos a saber que foi decidida tolerância de ponto aos funcionários públicos por ocasião da visita de Sua Santidade o Papa Bento XVI a Portugal.

Não sei se é por isso ou não, mas aproveitando o dia 13 de Maio e antecipando os dias 20 e 21 de Maio, datas em que Portugal vai ter de pagar, respectivamente, 5,6 e 1,3 mil milhões de euros de dívida que se vence, apetece pedir aos peregrinos: em Fátima rezem por nós. Avé Maria...
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«Expresso» de 30 Abr 10

«Dito & Feito»

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Por José António Lima

A PRIVATIZAÇÃO DA RTP tornou-se já uma inevitabilidade a prazo. O novo líder do PSD, Passos Coelho, deixou claro que irá retirar o Estado das empresas de comunicação social e que não faz sentido manter uma estação de televisão que custa «uma média de 400 milhões de euros por ano» aos contribuintes. O ex-ministro Manuel Pinho também veio reconhecer que «não há razão nenhuma para a RTP ser pública», sendo «um bom exemplo de algo que pode ser privatizado» para aliviar o peso da despesa nos cofres do Estado. E até o ministro Teixeira dos Santos já admite privatizar a empresa, depois de resolvido o problema do seu enorme endividamento.

Com a mudança de ciclo político à vista, a privatização da RTP tornar-se-á, pois, irreversível. Num prazo de três a cinco anos, será um facto consumado.

E a verdade é que nada justifica que os portugueses paguem, todos os dias, cerca de um milhão de euros para sustentar uma televisão que em quase nada se diferencia das suas concorrentes generalistas, SIC e TVI. A não ser no facto de estas terem que viver apenas da publicidade e outras receitas próprias e a RTP receber do Estado cerca de 300 milhões de euros por ano, em indemnizações compensatórias, contribuição audiovisual e dotações de capital (além dos 50 milhões que capta em publicidade). Em tudo o mais, a programação é quase idêntica (à excepção, no período da noite, da ausência de telenovelas, substituídas por concursos e afins), a informação não se distingue, o pluralismo e a diversidade não oferecem mais garantias do que na TVI ou na SIC. E nem nas audiências, apesar dos meios poderosos que tem ao seu dispor e de um orçamento quatro vezes superior ao das concorrentes, a RTP consegue superar a TVI e a SIC...

O falacioso argumento do ‘serviço público’ é uma patranha a que o poder político tem recorrido para manter uma estação de televisão, a RTP, ao seu serviço. Qual ‘serviço público’? O das RTP Internacional, África, etc.? Para isso bastaria um quinto, ou menos, dos 300 milhões de euros que a RTP custa a todos os portugueses.

É por tudo isto que constitui um verdadeiro escândalo ver a RTP a oferecer 18 ou 20 milhões de euros para ficar com a transmissão de 60 jogos, forçando a SIC a sair de cena e a TVI a aumentar o preço da sua proposta. É, apenas, «um conceito de serviço público abrangente», justifica o presidente da RTP, Guilherme Costa. É, sim, na frieza dos factos e dos números, concorrência desleal. E descaradamente abrangente. Feita com o saco dos dinheiros públicos a fundo perdido.
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«SOL» de 7 Mai 10

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Bento e as montanhas

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Por Antunes Ferreira

A FÉ MOVE MONTANHAS, mas os mais apressados usam a dinamite. A frase não é minha, encontrei-a na casa de banho de um restaurante lisboeta, o que prova, uma vez mais, que a cultura nacional anda de calças na mão. A sentença logo me levou a fazer a ligação com a visita do papa que, asneirada, chega na terça-feira. Explico.

Não gosto de papas, das de maizena, das de linhaça ou dos de Roma. Abro parênteses: minto; não me referi, intencionalmente, às de sarrabulho, de chupar os dedos até aos cotovelos. Fecho parênteses. E deste então, nem se fala, ou seja, se há graus de não gostar dos bispos do Vaticano, este Bento ocupa o lugar cimeiro da escala. Ratzinger - que foi no Vaticano guardião da dita Fé – não, obrigado. No almoço comemorativo dos cinco anos deste blogue, reunião muito simpática e gratificante, um dos participantes insistiu com um outro no sentido de fazer um esforço final, nestes dias que faltam para a despudorada visita, na denúncia e crítica dela. Com factos, acrescentou. Concordei. Concordo.

Há que o dizer, tal como no estrangeiro, que a chegada do pontífice não é desejada por muitíssimos Portugueses. A Time, por exemplo – e continuo a seguir o raciocínio do primeiro conviva que a citou – pergunta se Bento se vem lavar na água benta portuguesa. Vem. Um sujeito que defendeu o encobrimento da pedofilia sacerdotal e bispal e sei lá qual mais eclesiástica, que continuou a proibir os seus seguidores de usar o preservativo, não é flor que se cheira.

Resumindo: para o papa, tolerância zero. O busílis é que ele é acompanhado de tolerância… de ponto. Poderão perguntar-me: mas porquê a referência supra sobre a dinamite? Que tem o explosivo a ver com a alva tourné? Tem; no percurso papal serão retirados, presumo que provisoriamente, todos os lixões, nos quais mãos criminosas poderiam deixar lembrança com detonador. Os Portugueses são pacíficos e acolhedores, mas, por via das dúvidas…

Homens de pouca Fé, atentai no discurso antecipado do desvelado encobridor dos amigos muito chegados das crianças. Ele prevê uma chegada apoteótica e a demonstração dos fidelíssimos filhos de Portugal, nação valente, digo, fiel até à última gota de cálice. Simpático, o senhor. Aliás, foi o Chefe dele que lhe ordenou a viagem a este País destemperado. Vai, para impedires que o meu filho seja de novo crucificado. O do Benfica, é óbvio. E é tanto assim, que o LF Vieira lhe vai oferecer uma camisola vermelh.., perdão, encarnada. E, pelo sim, pelo não, o JE Bettencourt também vai. O futuro a Deus pertence.

Pergunta de algibeira - Resposta

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Pergunta: Qual o mais eficaz: o Art.º 14 (à esquerda) ou o Art.º 50 (à direita)?
Resposta: numa terra como esta, é igual ao litro...

quinta-feira, 6 de maio de 2010

E o IRS a 20%?

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Por João Duque


Parece que agora se vai (tentar) atacar o rendimento do capital “em força”! 20%! Impressionante!

DEVO JÁ REFERIR que muito gostaria eu de ser tributado, "em força" no rendimento do meu trabalho com uma taxa exorbitante de 20%! E quando digo 20% refiro-me a uma taxa média e a uma taxa marginal de 20%! Imagino-me já a chorar, amargurado, a pagar 20% de impostos sobre cada 100 euros adicionais que conseguisse adicionar ao meu rendimento! Com toda a certeza, clamaria sobre a injusta e desproporcionada taxa...

Ora como sou tributado a uma taxa média bem acima dos 20%, e tributado a uma taxa marginal que deve rondar os 40%, calo-me e nem me queixo. Para quê? Ainda me aumentam a taxa!...

Como se deduz da epístola, do meu ponto de vista muito pessoal e egoísta, desejava que os "capitalistas" (também sou "Maria patroa") fossem tributados à mesma taxa que eu, "Maria costureira". Isso significaria a utilização de uma ‘flat rate' ou taxa única, para não discriminar ricos ou pobres (eu de eu). Porque é que os ricos devem pagar menos ou mais sobre o fluxo, isto é, o rendimento? Porque são ricos? Então tribute-se o património!

Mas na minha qualidade de economista, conhecendo o conceito de racionalidade limitada, a forma como os homens reagem às políticas, particularmente as fiscais, em mercados muito abertos, mas acima de tudo devido à dificuldade em implementar a medida, temo que a medida não tenha grande efeito.

Ora vejamos: imagine-se que compro 1.000 acções do BCP a 0,80 euros e que as mantenho na minha conta títulos do BES. Subsequentemente compro mais 1.000 acções do BCP a 0,70 euros e guardo-as noutra conta títulos, agora no BPI. Depois dou ordem de venda ao BPI destas 1,000 acções que lá tinha em carteira, quando as acções estão a 0,75 euros. E agora vou fazer a declaração fiscal. O BPI afiança que eu tenho mais-valia (compra a 0,70 euros e venda a 0,75) e eu, que uso o devido critério FIFO, asseguro a pés juntos que tenho menos valias (compra a 0,80 euros e venda a 0,75). E agora? E se os titulares das duas contas título forem diferentes nos dois bancos? Maior a confusão.

A trapalhada vai instalar-se e só o próprio contribuinte está em condições de afirmar as mais-valias, e de indicar os encargos dedutíveis. A trapalhada deve ser mais ou menos como a que existe de momento, em que desconfio que dificilmente alguém é tributado nessas mais-valias...

Os intermediários financeiros já afirmaram que era difícil responderem às exigências porque montar um sistema destes é dispendioso, e falível, e sem contrapartidas, nada feito...

É claro que esta trapalhada não vai dar em nada. Mas o que eu sugeria é que tivessem a coragem de avançar com a mesma taxa de 20% para o factor trabalho... Mas isso dá muito mais trabalho! Seria necessário reduzir seriamente a despesa (coisa impopular e dá derrotas eleitorais) e acima de tudo faz bem à saúde do país!

«DE» de 6 Mai 10

quarta-feira, 5 de maio de 2010

A nossa fúria e a nossa revolta

Por Baptista-Bastos

NÃO ME RECORDO de termos sido felizes. O 25 de Abril abriu as parangonas dos nossos testemunhos mútuos, mas a festa durou, apenas, pouco mais de ano e meio. A euforia termina sempre na indolência, outro modo de resignação. Desde que me recordo, vivi cercado pela crise, mas, também, pelos acenos dos "amanhãs que cantam." Com este ou com outro estribilho, os homens admitem o sofrimento e, às vezes, até, a abjecção das épocas, na esperança de que o futuro será melhor. Talvez eu seja um pouco tonto, talvez, ou um teimoso obstinado e caturra; porém, continuo a acreditar no surgimento de outra coisa que substitua esta selvajaria sufocante.

Acordamos e deitamo-nos sob a pressão da catástrofe iminente. A imprensa, as rádios e as televisões encharcam-nos de medo e de desassossego, a moderna aptidão para se abraçar um certo estado de vida. Viver no medo e no desassossego foi a ideologia dominante nos cinquenta anos salazaristas. Um medo e um desassossego larvares, prolongados, depois, pela natureza canibal de uma economia, que assaltara, de mão armada, a política, e ameaça a saúde da democracia. Como, aliás, se vê por aí.

Emmanuel Mounier, o filósofo do personalismo, que li, e releio, com mão diurna e nocturna, escreveu: "O homem renova, perpetuamente, o aspecto das suas indignações" - para nos ensinar do transitório das coisas e da necessidade de não perdermos o fio à meada de uma batalha nunca ganha mas também nunca perdida.

Chegámos a uma situação perigosa. O papel essencial do trabalho, na sociedade, é desprezado por uma laia dirigente, emproada e vil, ignorante da experiência da História, e que não sabe redefinir as bases do contrato social. O caso da Grécia, independentemente dos seus contingentes pecados, é significativo dessa vileza. A senhora Merkel, cuja cabeça não é, propriamente, um bulício de inteligência, desconhece que o projecto europeu (seriamente avariado) constitui a aprendizagem de viver juntos. Ao recusar auxiliar os gregos, nomeava a Alemanha como dona da Europa. Ignora- va que a Europa ajudara a Alemanha a recompor-se das ruínas, pressionando, inclusive, os Estados Unidos a colaborar na empresa.

Ainda há horas vi, na televisão, o rosto desfeito em lágrimas, em dor, em susto, em assombro, de uma desempregada da Allcoop, cadeia de supermercados no Algarve, que formulou esta dramática pergunta: "Quem nos ajuda?" Ninguém. Com esta Europa, com este, e outros ruinosos governos, cheios de piedade sentenciosa e de explicações superficiais, nada há a esperar.

Resta-nos a fúria da nossa repulsa e a força imparável da nossa revolta.
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«DN» de 5 Mai 10

terça-feira, 4 de maio de 2010

Passatempo-relâmpago de 4 Mai 10 - Solução




Resposta: 1181 gramas
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Quem mais se tenha aproximado deverá escrever, no prazo de 24h, para premiosdepassatempos@iol.pt indicando morada para envio.
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Já agora, aqui deixo o que me parece ser uma boa abordagem:

Antes de mais, é claro que estará em vantagem quem conheça os velhos pesos "hexagonais" e a sua gama (1hg - 1/4kg - 1/2kg - 1kg...); e, é claro, identifique o que se vê na foto do passatempo como sendo de 1hg.

Depois, com uma pesquisa na internet acerca do livro, obterá as suas dimensões e número de páginas. Por aí, poderá estimar o seu peso entre os 70 e os 90g. (Embora eu não tenha conseguido, é possível que até se encontre o peso "oficial").

Assim, para completar um bom palpite, só precisará de "apostar bem" no peso que está atrás (e que, como é dito, é também um peso de balança - com grande probabilidade do mesmo género do da frente). Ora, como se diz que a resposta tem 4 dígitos, esse peso oculto deverá ser de 1kg ou superior.

Em resumo: um 1.º bom palpite andará à volta de 1170 - 1190g, e ainda fica a possibilidade de um 2.º.

Imprensa

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Por João Paulo Guerra

Passou ontem, e passou quase despercebido, o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa.

OS PORTUGUESES têm esse bem inestimável quase sem dar por ele. Lêem o que querem e pensam que lêem o que acontece na política, na economia, no social, na sociedade, na cultura, dentro e fora do País. Porque, felizmente, a maior parte da população portuguesa não sabe o que foi a censura e dá a liberdade de imprensa como uma realidade adquirida e irreversível. Mas não é.

Recordo-me de 1971 quando participei na redacção e na angariação de assinaturas para o manifesto da Comissão Nacional de Defesa da Liberdade de Expressão, facto bastante inocente mas que me valeu uma ficha na PIDE e uma carta do antigo SNI a desaconselhar alguns patrões da imprensa e rádio de me darem trabalho caso eu o procurasse. E a verdade é que tive de o procurar, pois em 1972 foi despedido de um programa que fazia na Renascença, em 73 dos Noticiários do RCP e entre 73 e 74, trabalhei quatro meses num jornal que acabou por não sair.

As reuniões do núcleo fundador da Comissão foram em casa do actor Rogério Paulo e a novidade do Manifesto foi prolongar a discussão sobre a liberdade de imprensa, para além da questão geral das liberdades públicas, entrando pelo tema da concentração dos meios de comunicação. Mas nessa altura até o Dr. Francisco Pinto Balsemão constatava que "se uma revista pertence a um grupo açucareiro, nela não se escreverá que o açúcar engorda".

Hoje, a liberdade de imprensa é um bem consumível e a maioria dos leitores, espectadores e ouvintes não tomará consciência da fragilidade e precariedade desse bem inestimável. A liberdade de imprensa tem que ser defendida e defende-se de vários modos. Um deles é exercendo-a, que é aquilo que estou a fazer, neste momento e nesta coluna.
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«DE» de 4 Mai 10

Antony Flew

Por Nuno Crato

UM EXCELENTE ARTIGO de José Cutileiro no Expresso da passada semana trouxe-me a notícia de que o filósofo inglês Antony Flew tinha falecido. No artigo referia-se o ateísmo do filósofo e a sua conversão ao deísmo, isto é, à crença na existência de alguma inteligência criadora do mundo, mas não necessariamente num deus que influenciasse a vida dos homens, como é o Deus do cristianismo e de outras religiões.

Antony Flew nascera em Londres, em 1923, e tinha sido professor em Oxford e outras grandes universidades. O seu ateísmo tornara-se lendário – o seu artigo “Theology and falsification”, de 1955, foi, segundo alguns, o artigo filosófico mais lido da segunda parte do século XX. Por tudo isso, o anúncio da sua conversão em 2004 foi ainda mais polémica. O livro que a explica, There is a God: How the World's Most Notorious Atheist Changed His Mind (Harper, 2007), escrito em conjunto com Roy A. Varghese, tornou-se um bestseller e semeou um debate filosófico muito intenso. Flew, que sempre tinha sido mais sensível aos argumentos científicos do que aos metafísicos e de fé, anunciou a sua mudança com base nas descobertas recentes da cosmologia e da física. Destacava, por exemplo, o big bang e a ideia de que as constantes da física estavam “finamente sintonizadas” de forma a permitir o aparecimento da vida.

Tudo isto tornou Antony Flew num dos filósofos contemporâneos mais conhecidos. Mas cada um de nós tem os seus interesses, e a minha admiração pelo pensador inglês vem de outras polémicas e de outros tempos.

Nos anos 1960, a dita “nova sociologia do conhecimento” e a dita “nova sociologia da educação” começaram a afirmar que todo o conhecimento é socialmente construído e que, por isso, toda a educação deve deixar de se preocupar com a transmissão de conhecimentos pretensamente absolutos e passar a questionar o saber.

Alan Blum, por exemplo, um dos sociólogos norte-americanos que Flew mais criticou, dizia que categorias como as de “casamento, guerra e suicídio só são vistas, reconhecidas e tornadas possíveis através da prática organizada da sociologia”. De onde concluía que a sociologia não devia estudar um “mundo externo”, pois são os métodos e processos da sociologia que”criam e sustentam esse mundo” (“The corpus of knowledge”, 1971). Flew percebeu que se tratava de uma visão idealista, que acabava por negar a existência de um mundo externo, seja físico seja social, e que repetia as ideias dos chamados empírio-criticistas do início do século XX, nomeadamente Ernest Mach e Richard Avenarius. Não escapou também a Flew um facto poucas vezes notado. A dita “nova sociologia do conhecimento”, que veio a gerar os absurdos pós-modernistas, reproduzia o que já antes tinha sido criticado como posições filosóficas contra o racionalismo. A este propósito, o filósofo inglês tinha a ironia de citar directamente Vladimir Lenine, que dedicou muitas páginas a criticar e denunciar a versão original da “nova sociologia” como idealista e reaccionária.

Mais interessante ainda é a premonição que Antony Flew tem dos efeitos nefastos que as posições que mais tarde se vieram a classificar como pós-modernas iriam ter na educação. No seu livro “Sociology, Equality and Education” (Macmillan, 1976), prevê que desprezar o conhecimento da realidade e privilegiar a “desconstrução” e os processos pedagógicos acabaria por secundarizar os conteúdos curriculares e prejudicar a transmissão de conhecimentos. Boas razões para ler, ou reler, Antony Flew.
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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 30 Abr 10 (adapt.)

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Passatempo Calimero de 3 Mai 10 - Solução

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Cereja em cima do bolo
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Esta ERRATA completa um livrinho sobre o tema que nela se diz...
Para além do facto de introduzir confusão q.b. num assunto já de si tão confuso, o papelinho ainda vem solto (pronto a voar) em vez de estar colado ou fazer parte da obra!!
Fotografei-o na Feira do Livro de Lisboa, e quando lá voltar vou tentar fotografar a capa (o que, na altura, não pude fazer).

Crises

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Por João Paulo Guerra

POR UM DAQUELES imprevistos que acontecem, sobretudo a quem tem alguns problemas de incompatibilidade com a própria coerência, no mesmo dia em que os jornais davam à estampa a restauração formal do Bloco Central, ilustrada com fotos do novo enlace entre PS e PSD, a publicação de uma entrevista concedida dias antes pelo líder do PSD ao jornal espanhol ABC azedava o relacionamento entre os dois partidos e respectivos líderes.

Entre aquelas duas almas praticamente gémeas, que até tiveram um passado comum na JSD embora com meia dúzia de anos de décalage, afinal o entendimento é uma fina capa de verniz. Dizia Passos Coelho ao ABC que o primeiro-ministro português "perdeu credibilidade", é "arrogante" e anda "desorientado". E rematava considerando "muito difícil" que o primeiro-ministro "dure quatro anos".

À mesma hora, noutro ponto da cidade, e sem que tivessem certamente lido a entrevista ao ABC e tirado dali conclusões e consequências, deputados do PS e PSD criticavam as direcções dos respectivos partidos. Uns queixavam-se que o líder anda a promover o adversário. Outros denunciam a oposição "suave" que vislumbram no horizonte.

E eis que surge a cereja em cima do bolo. Uma sondagem da Marktest para o Diário Económico dava o PSD e Passos Coelho seis pontos à frente do PS e de José Sócrates nas intenções de voto actuais dos portugueses. Excluindo um fogacho no Verão de 2009, por ocasião das eleições europeias, há anos que o PS e Sócrates subalternizavam o PSD e os sucessivos líderes nas sondagens.

De maneira que a crise financeira, que como sempre em Portugal vai derivar em crise económica, ameaça também descambar em crise política. A verdade é que se acabassem as crises os portugueses eram capazes de estranhar.
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«DE» de 3 Mai 10

domingo, 2 de maio de 2010





«Dito & Feito»

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Por José António Lima

AINDA ESTA SEGUNDA-FEIRA, com os juros da dívida de Portugal a dispararem para máximos assustadores e após mais uma semana negra da Bolsa nacional, José Sócrates continuava a mostrar, na passagem dos primeiros seis meses deste seu segundo Governo, que vive noutra dimensão: «Não se verificam os cenários catastrofistas, porque já se prevê crescimento para Portugal e para a Europa», afirmava com um sorriso aéreo o primeiro-ministro.

Com todas as campainhas de alarme a soarem, sob a pressão constante e crescente dos mercados financeiros, em que ocupa publicamente José Sócrates os seus dias? Pois bem: a inaugurar a 1.ª pedra de um terminal portuário de cruzeiros, as obras de requalificação de um estabelecimento liceal ou – acompanhado por uma legião de ministros e secretários de Estado – a 1.ª fase da remodelação, que ainda vai a meio, do Terreiro do Paço... Sem esquecer, claro, a actividade de fazer nomeações, às dezenas, sem concurso público, de boys do PS para cargos de chefias em organismos do Estado, como o Instituto do Emprego – mas essa é uma prática entranhada que se tornou já um vício diário e sem remédio deste poder socialista.

Parecendo viver noutro mundo, Sócrates chega a fazer lembrar, em certos momentos, o inesquecível ministro da Propaganda de Saddam Hussein, que persistia em negar a realidade e as evidências já com as tropas e tanques norte-americanos atrás de si, nas ruas de Bagdade. Sócrates, tal como o patético Muhamad al-Sahaf, não está a perceber bem o filme em que está metido.

Demonstrou-o, aliás, duplamente, na sequência do encontro com Passos Coelho. Ao perder o pulso e a liderança da agenda política, permitindo que fosse o novo líder do PSD a tomar a iniciativa da reunião, deixando-se ir a reboque do seu opositor. E ao propor, no final do encontro, um conjunto de paliativos parcelares, claramente insuficiente para inverter a situação. E que não evitará, a curto prazo, a aplicação de medidas de austeridade adicionais ao PEC, mais duras e penalizadoras.

Após o abalo que o país sofreu esta semana, os portugueses começam a ficar realmente nervosos – indo ao encontro das palavras do Presidente checo, Vaclav Klaus. Todos menos um: o seu impassível primeiro-ministro.
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«SOL» de 30 Abr 10

O incrível jogo Granada - Barbados 1994

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In «100 essential things you didn't know you didn't know»
de John D. Barrow, capítulo 56

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Mau como o Pintam

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Por Antunes Ferreira

QUANDO EU ERA PUTO, perguntou-me um tio qual era o homem pior de Portugal. Na altura, se já tivesse alguma formação política, podia perfeitamente ter dito que era o Salazar. Mas, aos oito anos de idade, claro que não tinha. E fiquei a olhar para o tio Armando, irmão de minha mãe e meu padrinho. Por isso sou também Armando. Henrique Armando Antunes Ferreira.

Contam que eu estava um verdadeiro boi a olhar para um palácio. Isto porque o meu olhar bovino correspondia à incapacidade de responder. Sabia lá eu quem era a criatura. Porém, ele insistia, qual era o pior fulano que havia em Portugal. Como fora o meu interrogador que me iniciara nos mistérios da bola de cótechu, como então se dizia, e me industriara para me arregimentar no seu clube, que era o Sporting, pensei mais umas vezes, já então em termos futebolísticos.

Neste particular, o segundo sargento da Força Aérea Armando Antunes tinha atingido o plano que arquitectara. Não um qualquer plano de voo. Nada disso. O engenhoso sistema de captação de mais um adepto dos leões que, na altura, ainda eram do Campo Grande, surtiu efeito. Até hoje sou o que os adversários mais mesquinhos e soezes chamam «lagarto».

Daí que tivesse adiantado, talvez com algumas reticências (francamente, não me recordo de todo o episódio, mas tenho mais do que uma vaga recordação), que era o Félix, o defesa central dos «lampiões», de acordo com a terminologia armandina. O que deu motivo para umas largas e sonoras gargalhadas do meu tio e, naturalmente, uma intervenção discreta do Ferreira pai, no sentido de morigerar a situação. O meu progenitor sempre foi uma excelente pessoa, ainda que usasse fato cinzento.

O tio Armando, sossegou o riso e disse-me que não, infelizmente não, o Félix não era bom, lá isso não era, mas, de forma alguma, era o pior habitante de Portugal. E elucidou-me que era o Pintam. Esbugalhei, por certo, os meus olhos já exageradamente esbugalhados. O pai Ferreira, admirado igualmente, pediu ao cunhado que esclarecesse, por favor, pois, quem era esse Pintam. Não conhecia ninguém com tal nome, ainda que, em Portugal tudo fosse possível.

E o brioso militar tentou clarear a questão. Já não era directamente comigo que ele tratava; era com o meu progenitor. A resposta era um verdadeiro enigma, quiçá mais difícil de desembrulhar do que a pergunta que lhe dera motivo. A boquiaberta criança que eu era tinha ficado de lado. Creio que não me terei apercebido disso, mas dizem que fiquei um tanto chateado. Menino, não se diz isso, é – aborrecido. O certo é que estava a modos que.
E veio o esclarecimento. «Ó Ferreira, então você não sabe que em Portugal nunca há ninguém tão mau como o pintam?» Tudo acabou num tal coro de casquinadas e registo de decibéis, que as senhoras que estavam na cozinha vieram, açodadas, de avental e colher de pau, a perguntar o que acontecera.

Tudo isto me veio à lembrança porque, de repente, no meio da tempestade económico-financeira em que estamos mergulhados até às pontas dos cabelos, e quem sabe se um pouco mais até, surgiu o Senhor Brian Coulton em entrevista ontem publicada pela agência noticiosa Bloomberg a afirmar que «o quadro da economia portuguesa não é negro como o pintam».

O citado cavalheiro é um dos manda-chuvas da Fitch, que é uma agência de notação alemã. Esta opinião parece ser importante: ela surge na sequência do facto de uma outra agência de notação financeira, a Standard & Poor’s ter cortado drasticamente o rating de Portugal. Mas o especialista em tais temas não foi de modas. E ainda disse mais.

Portugal, com um défice de 9,4% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2009, tem, na sua opinião, uma situação menos grave do que aquela que a Grécia enfrenta e relembrou até que o Executivo de José Sócrates tem um historial de redução do défice público. Mas, foi mais longe: a Espanha está em piores condições do que o nosso País.

E o Governo português tem muito mais credibilidade do que o executivo de Papandreou e já tomou muitas medidas no sentido da redução do défice antes de a crise se declarar. A finalizar recordou que, em 2008, Lisboa conseguiu a proeza de reduzir o défice para 2,7% do PIB, que é até à data presente o mais baixo de Portugal em tempo de democracia.

Percebo muito pouco destes assuntos financeiros, não sei muito bem o que é o rating, aprendi mais ou menos o que é o défice, penso que entendo o que é uma agência de notação. Em resumo, sou deficitário e muito no domínio financeiro-económica. E, apesar do não vás sapateiro, jamais me esquecerei de que não há ninguém tão mau como o pintam.

Eureka!

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Por João Paulo Guerra

Por obra e graça do Bloco Central – com esse ou outro nome – os portugueses e o mundo ficaram a perceber no que consiste a crise em que o país está mergulhado. Havia quem pensasse que Portugal estava a ser alvo da acção de especuladores. Como havia quem admitisse que o endividamento, mais dia, menos dia, dava para o torto. Outros opinavam que o consumo privado e a despesa pública estão fora de controlo. Mas, afinal, feitas as contas pelo Bloco Central a grande questão é outra. E a descoberta levou o Bloco Central a tomar medidas. Já há quem critique o excesso como quem critique o defeito.

A verdade é que nenhuma outra entidade para além do Bloco Central - como tal ou de outro modo designada - sabe em que consiste a crise. A verdade é que tem sido o Bloco Central a governar e a desgovernar Portugal, a comandar as iniciativas e comportamentos que endividam e desequilibram. Estando o PS no Governo e o PSD na oposição, ou vice-versa, o Bloco Central está de facto no poder. E foi assim que agora, o Governo do PS foi pedir ajuda ao PSD para aplicar a agenda do próprio PSD e mesmo do CDS. É o Bloco Central na sua plenitude.

E a agenda é a seguinte. O grande problema de Portugal, por cima do endividamento, sobrevoando a despesa pública, olhando de cima para o consumo privado é o número de desempregados. Não pelo problema social do desemprego que atingirá mais de 600 mil trabalhadores, para além do milhão de precários para os quais o desemprego é o horizonte. O único social que está na moda é o da capa das revistas cor-de-rosa. Mas o problema do desemprego é que tantos desempregados custam caríssimo. A este preço quase não compensa mandar pessoas para o desemprego. Eureka! O Bloco Central descobriu a pólvora para rebentar com a crise.

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«DE» de 30 Abr 10

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Passatempo-relâmpago de 29 Abr 10 - Solução

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A referência à já proverbial inoperância da polícia no que toca ao estacionamento selvagem nesta avenida (especialmente aos fins-de-semana) é feita na pág. 107 do livro «A Arte de Morrer Longe», de Mário de Carvalho.

Mercado

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Por João Paulo Guerra

A expressão “o mercado funciona” como “o mercado regula” perdeu todo o sentido embora tenha ganho um enorme significado.

O MERCADO não funciona e portanto não regula. O que funciona, e à grande, é a especulação. E nas mãos dos especuladores, os destinos de países e de povos parecem barquinhos de papel lançados ao mar no Cabo das Tormentas.

À crise provocada pela delinquência financeira segue-se a crise provocada pelos especuladores. Ninguém o quer reconhecer mas o que está verdadeiramente em crise é o capitalismo. Depois de enterrar de vez toda e qualquer preocupação de índole social, depois de arrasar conquistas sociais históricas, o capitalismo submerge numa imensa crise porque não consegue satisfazer todos os patamares de ganância sem que ele próprio se afunde.

Há poucos meses, dos "capitalistas selvagens" aos "socialistas modernos" - que dificilmente se distinguem dos capitalistas do século XIX - todos diziam que nada voltaria a ser como dantes em matéria de direitos sociais ou seja, de direitos humanos de âmbito social: Ninguém será mantido em escravidão ou servidão; todos têm direito ao trabalho, à protecção contra o desemprego, a remuneração justa e satisfatória, ao repouso e ao lazer, a um padrão de vida capaz de assegurar a saúde e bem-estar. Mas agora ninguém se entende porque os vencedores dessa guerra contra direitos humanos não conseguem chegar a acordo quanto à partilha do saque. O "capitalismo selvagem" passou os limites da selvajaria.

E depois as receitas são sempre as mesmas, sejam quais forem os agentes ou as causas das crises: espremem-se mais um pouco os que vivem do trabalho assalariado. Nunca como hoje se percebe tão bem o que queria dizer Almeida Garrett ao falar do número de pobres necessário para fazer um rico.
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«DE» de 29 Abr 10

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Garzón

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João Paulo Guerra

O JUIZ BALTAZAR Garzón enfrenta em Espanha uma perseguição miserável.

É o revanchismo por parte dos derrotados da História, os adeptos mais ou menos disfarçados de turvas ditaduras. Toda a sua vida profissional, Garzón foi um homem de grande coragem que enfrentou poderes ocultos, cumplicidades do passado mais tenebroso, fazendo-lhes frente. Mais do que isso, Garzón deu a milhões de pessoas, por todo o mundo, uma réstia de esperança para crer na justiça. Talvez nem ele próprio se aperceba da dimensão que adquiriu e do símbolo em que se transformou: o símbolo da vitória da justiça sobre a grande injustiça dos fascismos, da opressão, da repressão surda ou sangrenta.

O juiz Baltazar Garzón tem um largo passado. Mas foi uma acção do presente que espoletou a ofensiva brutal que com contra ele foi desencadeada e que tem em vista impedi-lo de exercer a magistratura. O momento preciso em que a ofensiva foi desencadeada identifica quem se mexe nas sombras por detrás da acção contra o magistrado. Garzón estava a mexer numa ferida que a sociedade espanhola sempre procurou mitigar com paninhos quentes: a questão dos desaparecidos na guerra civil e no franquismo. Os escrupulosos bonzos que saltaram dos seus cadeirões, e que nunca usaram o Direito para que se fizesse justiça, querem travar a investigação do juiz Baltazar Garzón. Ao mesmo tempo, na rua, manifestações falangistas evocam os tempos em que a "justiça" era cometida por manifestantes fanáticos e arbitrários em cenas de linchamento.

Num momento particularmente sensível da História, com uma crise financeira a galopar sobre o fundamentalismo capitalista, a ofensiva contra o juiz Garzón prefigura um inquietante regresso ao passado. Foi com estas e outras que surgiram e se impuseram os fascismos.
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«DE» de 28 Abr 10

Lenine, segundo Aguiar-Branco

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Por Baptista-Bastos

O PRECONCEITO é a forma mais agressiva de violência e a manifestação mais abstrusa de tolice. A diferença suscita a desconfiança, já se sabe; e o culto da brutalidade nasce dessa espécie de insegurança em si mesmo, própria de quem, afinal, se julga ou se deseja excluído. O preconceito provoca, em todos os sectores, não só o sentimento profundo de incapacidade de saber, como a quebra irreparável dos laços sociais.

Na sessão comemorativa do 25 de Abril, Assembleia da República, o dr. Aguiar-Branco criticou essa figura de intolerância e, sem renunciar às suas convicções (como a seguir se viu), citou Lenine, Rosa Luxemburgo, José Afonso e Sérgio Godinho, mas, também, António Sardinha, corifeu do Integralismo Lusitano. Acontece que, criticando o preconceito, o discurso do dr. Aguiar-Branco criticava a perda de referências culturais que, à Esquerda ou à Direita, goste-se ou não, pertencem ao bragal comum da nossa civilização.

Se compreendo o embaraço das bancadas do PSD e do CDS, tenho dificuldade em entender os risos absurdos do PCP e do Bloco. Ambas as demonstrações conduzem ao mesmo fim. A função simbólica do poder, cuja identificação se revela nas fórmulas paradoxais de eliminar autores ou de os integrar, consoante a "família" política ou estética a que pertencem, divide um património que é de todos. Esse preconceito conduz à queima de livros e à perseguição de escritores e filósofos, de que a História está repleta.

Por que razão Aguiar-Branco não pode citar quem quer que queira, sem suscitar o riso tolo ou o espanto ignaro? Os resquícios de um passado tenebroso emergiram nos comportamentos dos deputados. Sou do tempo em que a Censura suprimia dos textos de jornais e revistas os nomes de Karl Marx, de Engels, de Lenine, de Estaline, e que, nas faculdades, o marxismo era praticamente ignorado. Obrigava-se os portugueses a renunciar ao pensamento, ao cultivo da razão, à adopção do desconhecimento como condição e prática. Servíamo-nos de truques grotescos: Karl Marx era Carlos Marques; Lenine, Vladimir Ilitch.

As proibições, as omissões e as rasuras fazem, infelizmente, parte de uma concepção despótica do mundo, longe de estar extinta. Mas a luta dos valores humanos e culturais é a charneira paradigmática da aventura da liberdade, e prova que, amiúde, aqueles aparentemente "progressistas" são, na realidade, os mais reaccionários.

A TEMPO: Na mesma sessão, o dr. Cavaco proferiu um discurso banal pela ausência de novidade, e medíocre porque é mesmo assim. Quanto ao verdete que ele tem ao cravo vermelho, e ao que o cravo vermelho representa, a crítica ao preconceito, formulada pelo dr. Aguiar-Branco, aplica-se-lhe, por inteiro.
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«DN» de 28 Abr 10

terça-feira, 27 de abril de 2010

Passatempo Calimero de 27 Abr 10 - Solução





Lisboa, Praça D. Pedro IV (Rossio)
27 Abr 10 - 11h

Visitas

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Por João Paulo Guerra

ESTA FOI
a quinta vez que o chefe de Estado visitou o 25 de Abril e ali depositou um discurso.

Antes desta, o chefe de Estado tinha visitado o 25 de Abril quatro vezes. Na primeira, em 2006, o chefe de Estado preocupou-se com a exclusão e apelou à inclusão social. Na segunda, em 2007, preocupou-se com a qualidade da democracia. Na terceira, em 2008, preocupou-se com a venda de ilusões na política e com a ignorância dos jovens. Na quarta, em 2009, preocupou-se com o alheamento dos jovens relativamente à vida cívica e política do país. Na quinta, em 2010, preocupou-se com os casos de riqueza imerecida.

E com tão amplo e condoído leque de preocupações é bem possível que o chefe de Estado visite o 25 de Abril por mais cinco vezes, de 2011 a 2015, pois motivos de preocupação não faltam a este País. Só um irremediável distraído como o chefe de Estado da República Checa não dá pelas preocupações dos portugueses em geral e do chefe de Estado português em particular. E havendo tanto motivo de preocupação, será irrecusável o apelo interior que o chefe de Estado vai sentir para que continue a preocupar-se. E assim, depois da quinta teremos, para o ano que vem, a sexta visita do chefe de Estado ao 25 de Abril e assim sucessivamente, carregando a cruz de um povo feliz por ter quem se preocupe com ele ou mesmo por ele.

A continuar este fadário, em 2011, na sexta visita ao 25 de Abril, o chefe de Estado estará, quiçá, preocupado com a crise política e com os preceitos e preconceitos constitucionais que não lhe permitem mudar de governo como quem muda de gravata. Em 25 de Abril de 2011 faltarão ao chefe de Estado quatro meses e tanto para poder exercer a plenitude dos seus poderes. O que não deixará de ser um motivo de preocupação. A menos que não seja assim.
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«DE» de 27 Abr 10

segunda-feira, 26 de abril de 2010

País a 26

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Por João Paulo Guerra

«MARCELLO CAETANO rendeu-se no Quartel do Carmo e seguiu para a Madeira», Diário de Notícias.

«Marcello Caeteno e alguns ministros exilados nas ilhas adjacentes», O Século.

«Clima de apoteose: a população oferece flores aos soldados», Diário de Lisboa.

«Este jornal não foi visado por qualquer comissão de censura», República.

«Total liberdade sindical, pede-se num documento de 15 sindicatos», República.

«Três mortos e muitos feridos à passagem de populares pela sede da DGS», Diário de Notícias.

«Libertos os presos detida a DGS/PIDE», Diário de Lisboa.

«A Assembleia Nacional teve uma curtíssima sessão dramática. Houve duas chamadas a que responderam 39 deputados e o presidente encerrou a sessão 15 minutos após a abertura», O Século.

«A Assembleia Nacional descobriu que não tinha quórum», República.

«Firmeza do escudo. Os acontecimentos de Portugal em nada alteraram a cotação do escudo no mercado londrino. O escudo firmou-se mesmo ligeiramente em relação ao dólar e à libra», O Século.

«A Santa Sé está a seguir atentamente os acontecimentos, desejando que a actual crise possa resolver-se por si própria», Diário de Lisboa.

«Expectativa em Luanda. Preocupação em Moçambique», O Século.

«Na África do Sul, o primeiro-ministro disse que os acontecimentos em Portugal podem ter consequências tremendas para o seu país», O Século.

«A NATO segue atentamente a evolução dos acontecimentos», Diário de Notícias.

«O porta-voz do Departamento de Estado disse que os acontecimentos, ao que se sabe, não causaram qualquer dano a cidadãos e instalações americanas, designadamente as da base das Lajes», Diário de Lisboa.

«Morreu o poeta Pedro Oom, fulminado por um ataque cardíaco. Não resistiu à emoção da hora. Tinha 47 anos, menos um que o regime», República.

«DE» de 26 Abr 10

domingo, 25 de abril de 2010

Depois do adeus

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Por Helena Matos

VAI VIR NOVAMENTE a fanfarra, mais os cravos e a liberdade. Sem esquecer a República e o seu farto busto que, por um extraordinário processo de reviravolta histórica, se pretende apresentar como uma antecipação do 25 de Abril. E depois? Depois nada, que a vida está difícil e nós não sabemos como vamos pagar dívidas que não contraímos. Não era de facto isto que estávamos à espera quando nos prometeram a democracia. Na verdade esperava-se muito mais.

Ao ver as imagens de Portugal em 1974 o mais espantoso é o ar sorridente e esperançado das pessoas. Hoje, rir assim só no futebol, com a desvantagem estética para este último, que a parafernália dos bonés e dos cachecóis, ao contrário do que sucedia com os cravos e as fardas, dá um ar vagamente apalhaçado a quem celebra.

Em Abril de 1974 aos portugueses foi prometido um país mais livre, mais justo, mais rico e mais respeitado. Somos hoje um país certamente mais livre do que éramos até Abril de 1974, mas certamente menos livre do que fomos anos depois.

A desmesura do Estado gerou uma multidão de avençados que se instalou em lugarzinhos de nomeação a partir dos quais se metastizam num universo de jeitos, favores e conhecimentos. Esta gente é hoje o maior obstáculo ao desenvolvimento do país não só porque produz pouco, mas sobretudo porque tem o seu seguro de vida na manutenção desse pântano político-empresarial de dinheiros públicos e interesse privados, tão privados que não são sequer confessáveis.

À parte a liberdade – e essa convém frisar que nos foi garantida pelas Forças Armadas que tão pouco dignificadas têm sido pela democracia – falhou-se em muito daquilo que dependia da competência da classe política. Os pobres são certamente menos pobres hoje do que eram em 1974, mas o sonho de conseguir subir na vida esse perdeu-se no enredo da burocracia, da carga fiscal asfixiante e da loucura dos licenciamentos e dos certificados.

Na justiça, pior seria difícil: seja por causa das leis, seja por causa de quem as aplica, seja pelo que for, Portugal vive uma crise gravíssima, pois gravíssimo é quando um povo descrê da justiça e não se reconhece nas leis que tem. O legislador sonhou-se e sonha-se nos tempos em que os iluministas esclarecidos impunham mudanças por decreto ao povo ignorante – veja-se o caso do recente Código de Execução de Penas – e os políticos, com especial relevância para o PS, fizeram o resto quando identificaram as responsabilidades éticas e morais do cidadão e político José Sócrates com a possibilidade de o actual primeiro-ministro poder vir ou não a ser constituído arguido. Esta circunstância é um dos momentos mais graves do pós-25 de Abril não só porque se identificou ética com direito penal, como se acabou a instilar a ideia de que a justiça e a investigação são passíveis de serem controladas por quem detém o poder político.

Por fim falemos do respeito. Quando se lêem os jornais pós Abril de 1974, é evidente a tónica então colocada no facto de Portugal ir deixar de ser uma nação isolada. Finalmente íamos deixar de ser criticados internacionalmente. O mesmo discurso exaltante foi depois repetido quando trocámos a incerta via terceiro-mundista do socialismo à portuguesa pela adesão à então CEE.

Os elogios feitos “lá fora” pelos dirigentes europeus à nossa prestação eram repetidos “cá dentro” por homens como Mário Soares e Cavaco Silva. Agora que o estrangeiro deixou de falar bem de nós, vivemos com embaraço as declarações do Presidente checo, tomamo-nos de brios patrióticos perante as agências de rating e descobrem-se pérfidas intenções nos economistas que nos anunciam a falência. Enfim, o habitual em casa onde não há pão.

Em Abril de 1974 os portugueses riam esperançados diante do mundo e das objectivas dos fotógrafos. Agora fazem-lhes manguitos. A culpa não é certamente da democracia e muito menos do povo. A culpa é de quem se esqueceu que “depois do adeus” à ditadura havia que falar verdade ao povo.
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In Público e Blasfémias

A necessidade da verdade em política

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Por Baptista-Bastos

GRAVES SÁBIOS, severos economistas, rudes prospectivistas do mundo e das coisas advertem-nos que Portugal está à beira do abismo, e que seguirá a Grécia na bancarrota. Tanto o Governo como o dr. Cavaco afirmam que não; o País não está assim tão mau quanto isso. Talvez entenda uns e outros. No entanto, estas opiniões tão díspares, estas afirmações tão opostas quanto o sol e a noite o são, vão-nos deixando cada vez mais inquietos e alarmados.

O português, já de si cabisbaixo e macambúzio, tenta equilibrar-se com o uso, acaso imoderado, de ansiolíticos. São os jornais que o dizem. E as farmácias que o atestam. Cada um de nós vai pagar um montão de euros a fim de não deixar que o velho barco naufrague, avisa a Imprensa. Além daquelas florestias, não sabemos, rigorosamente, o que se passa.

O prof. Medina Carreira, cujas intervenções nas televisões me parecem exemplares lições de cidadania, pese embora o cariz pessimista do seu registo, não pára de nos dizer que os nossos governantes não só ocultam a verdade do cenário, como nos mentem com descaro e pouca vergonha. Até agora, só os estrangeiros vão dizendo coisas que nos aterrorizam. Nem José Sócrates nem Teixeira dos Santos nos falam claro: ao que parece, atenuam, com panos tépidos, a extensão gravosa dos nossos problemas.

Não é assim que se mobiliza a sociedade portuguesa. Confrontado com uma situação que se adivinha complexa e problemática, o português comum vive na incerteza de um conflito social de consequências imprevisíveis. E se, de repente, nos estoirar na cara a bancarrota. Já estivemos numa situação muito próxima, e até há uma história (por mim comprovada com o próprio) que pode ilustrar a época e os protagonistas. Certa madrugada, retiniu o telefone na casa de Mário Soares. O então primeiro-ministro acordou sobressaltado. Era o economista Silva Lopes, governador do Banco de Portugal, a informá-lo de que o País ia entrar em falência, logo pela manhã. Disse-lhe Mário Soares: "Agora vou continuar a dormir e, de manhã, quando acordar mais fresco, logo se verá." As coisas resolveram-se da maneira que se sabe.

Claro que os tempos eram outros e as personagens em questão possuíam uma fibra que, infelizmente, creio ter-se perdido. A verdade é que os portugueses tiveram conhecimento da situação em que Portugal se encontrava, e não se prostraram no desespero. Estávamos informados, e não a vozes dissonantes. A actual comparação com a Grécia é tão absurda quanto o paralelismo estabelecido pelo dr. Cavaco com a Islândia e a Irlanda. Em vez de nos esclarecer acerca de uma conduta alternativa, de nos dizer sobre como havemos de proceder, esta gente continua a sacralizar a política, ilustrando o repugnante axioma segundo o qual "em política e às mulheres nunca se diz a verdade."

Vivemos entre as fórmulas paradoxais que justificam a existência das ideologias, mas que não ajudam, em certos momentos históricos, as urgências imperiosas das nações. Há dias, Pedro Passos Coelho foi recebido por José Sócrates. Não se conhece o conteúdo da agenda das conversações. Sabe-se, porém, que este novo PSD (se assim o posso designar) expôs um projecto económico para melhorar o PEC, o que é um comportamento saudável, a merecer os nossos elogios, desde o momento que constitua, mesmo, uma alteração qualitativa. Miguel Relvas falou em uma volumosa quantia de poupança. Esperemos que o Governo discuta com os dirigentes sociais-democratas, e não se quede nesse autismo característico de quem só se ouve a si mesmo.

Todos nos dizem que a situação é delicada, mas ninguém, até agora, apresentou alternativas de solução que não sejam as habituais: aumentos de impostos, despedimentos na Função Pública, ataque aos serviços sociais, desde a educação à saúde, por aí fora. Os Governos do PS e do PSD são responsáveis, todos eles, pelo estado em que nos encontramos. Talvez mais, o PS, porque detentor do poder há imenso tempo. Mas não creio que a condição fosse melhor, caso o PSD tivesse sido Governo em tempo semelhante.

Pedro Passos Coelho não oculta a vocação neoliberal, cujo simples enunciado faz apavorar qualquer pessoa. Não creio, no entanto, que a época portuguesa seja propícia à sua prática. Como me parece despropositada aquela tineta de alterar a Constituição, ou a outra, mais bizarra embora antiga, de privatizar a RTP e a TAP. Mas a verdade é que a subida de Passos Coelho à presidência do PSD descrispou a política, assinalou a derrota estrondosa das estratégias de Pacheco Pereira, guru da dr.ª Manuela Ferreira Leite, e abalou, seriamente, o que resta do cavaquismo. Nada mau.
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«Jornal de Negócios» de 23 Abr 10

sábado, 24 de abril de 2010

Ele mexe com a inveja

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Por João Duque

PARA QUE CONSTE: não sou amigo de António Mexia nem escrevo este artigo para do mesmo receber quaisquer vantagens ou benefícios da EDP.

Mas o que é facto é que me irrita profundamente ter de confessar publicamente que António Mexia me remete emocionalmente para o lado de 9.999.999 portugueses que discutem a questão da sua remuneração como executivo da EDP. Tudo porque tal como os outros 9.999.999 portugueses sofro do mesmo mal: inveja!

Irra! Mas porque é que não fui eu a receber o convite para liderar uma empresa como a EDP?

Agora olhemos para o racional da questão. Como não sou accionista da EDP apenas me interessa a óptica do Estado.

Se António Mexia não fosse remunerado, os 3,1 milhões de euros seriam mais lucro para a EDP. Isso faria com que a empresa pagasse mais impostos sobre lucros. Fazendo as contas apurei que conseguíamos ir sacar à EDP mais 775 mil euros em IRC. Sobrariam então 2,325 milhões de euros a distribuir pelos accionistas. Como o Estado é apenas detentor de 25% do capital, isso significa que o Estado apenas iria receber um quarto daquele valor. Enfim, nesta óptica, e somando as duas parcelas, o Estado iria arrecadar mais 1,356 milhões de euros...

Agora vejamos o que vai o Estado arrecadar com a remuneração de Mexia por aquele valor. Se, sobre o valor declarado, fossem pagos impostos, tomando as respectivas deduções e contribuições para a Segurança Social, o Estado irá arrecadar 42% em taxa marginal de IRS, ao qual adicionaria as contribuições para o sistema de Segurança Social. Isto é, se todos estes prémios estiverem sujeitos aos dois efeitos, o Estado irá receber aproximadamente 2,278 milhões de euros. E mesmo que muito do rendimento não seja base contributiva para a Segurança Social, o Estado continua a receber mais do que se não houvesse pagamento a António Mexia.

Quer dizer, ao pagar o que parece ser uma exorbitância a um só contribuinte, o Estado arrecada mais receita do que se a empresa não lhe pagar nada, uma vez que os milhões que deixava de pagar a Mexia passariam a ser recebidos pelos accionistas. Não pelo Estado!

E de quem é maior o mérito? De António Mexia que dirigiu a empresa ou de um accionista que, por fadado berço, herdou uma fortuna e detém apenas 1% do capital da empresa? É que se assim for este receberá muito mais que Mexia... Além de que, sendo Mexia português e muitos dos accionistas estrangeiros, pagar a Mexia é manter o rendimento em Portugal, ao passo que, remunerar accionistas estrangeiros, contrai-se o rendimento nacional.

Mexia, mexe connosco. Sente-se que o seu rendimento é quase um euromilhões. Mas se fosse assim, mesmo com inveja ninguém lhe 'tocava'. É o cheiro da 'mão invisível' do poder que dá nisto.

E se eu fosse até ao Largo do Rato fazer a inscrição? Agora que a Cimpor parece acimentada, fica vaga a presidência do banco de investimento da CGD em Angola...
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«Expresso» de 17 Abr 10