domingo, 15 de agosto de 2010

Traduzam-se para a guerra

,Por Rui Tavares

LEMBRA-SE QUANDO as traduções automáticas do Google produziam resultados ridículos? Já experimentou recentemente traduções automáticas do Google e reparou como a qualidade delas melhorou enormemente?

É interessante conhecer a história desta evolução. Ela começa por ser uma lição de linguística e acaba sendo uma lição de política.

Primeiro, a linguística. Uma definição simples de “língua” consiste em dizer que ela é um conjunto de significados mais um conjunto de regras.

Quando a Google tentou ensinar línguas aos seus computadores, quis fazê-lo dessa forma, dando-lhes os significados, as regras, e tentando que eles fizessem o trabalho da mente humana. Só que os computadores não pensam (ainda?) linguisticamente como as mentes humanas. Numa tradução, a máquina poderia apanhar todas as palavras bem e, todavia, o sentido geral ser absurdo.

Até que a Google mudou de estratégia. Em vez de ensinar gramática aos computadores, usou aquilo em que eles já eram bons: estatística. Hoje, a máquina não “entende” a frase: limita-se a procurar entre milhares de exemplos de traduções semelhantes e sair-se com a mais provável. As traduções melhoraram muito. O segundo parágrafo deste texto fica assim em inglês, sem nenhum retoque meu: “It is interesting to know the history of this development. It starts as a lesson in linguistics and ends up being a lesson in politics.

Ah, e então a tal lição de política?

Ei-la: para encher as suas bases de dados com milhões de traduções, onde foi a Google buscá-las? Entre outras, às traduções para 22 línguas do Parlamento Europeu, pagas pelo contribuinte. O material disponível é gratuito, e se mesmo assim a tradução não for boa, você pode ajudar a Google a melhorá-la, oferecendo-lhe o seu trabalho, também gratuito.

Agosto é o melhor mês para lançar uma guerra: um lobo em pele de cordeiro. Nesta época em que as redações estão meio-vazias, os jornalistas que restam ficam de atalaia. Algo de terrível está para acontecer: uma guerra entre Israel e o Líbano, como em 2006; um golpe de estado no Kremlin, como em 1991.

Este ano, já houve um fogacho no Líbano e Moscovo está rodeada de fogo. Mas a guerra mais importante — e discreta — foi lançada na internet. A Google e a gigante de telecomunicações Verizon negociaram um acordo que pretende mudar as regras de trânsito na rede.

Nas regras de trânsito reais, um semáforo vale o mesmo para um condutor rico ou pobre. E assim é na internet. Mas nas regras de trânsito que a Google e a Verizon cogitam implementar, o condutor poderoso (como a Google) passa a dispor dos sinais verdes que a Verizon lhe der; nós outros encontraremos mais luzes vermelhas ou amarelas. Isto significa, como diz Paulo Querido no Correio da Manhã, “o fim da igualdade de oportunidades, para quem cria e produz, e o fim da liberdade de acesso para quem consome”.

Esta é uma guerra declarada ao melhor repositório de conhecimento, ação e desenvolvimento de que a humanidade dispõe. A sociedade contemporânea precisa de uma internet livre, justa e igual para a ONG, a banda de garagem, a empresa da esquina ou a companhia multinacional.

Essa internet somos nós todos. E as grandes empresas têm tendência a esquecer de quanto nos devem, principalmente quando têm a sua crise da meia-idade, e começam à procura de expedientes para empurrar a concorrência para trás. Quando a Google vier reivindicar privilégios, perguntem-lhes onde foram eles buscar as traduções.
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In RuiTavares.Net
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NOTA (CMR): o texto é apenas uma parte do que consta do papel que acompanha uma escova de aço.

sábado, 14 de agosto de 2010

Espertezas da treta

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Por João Duque

O MONTEPIO lançou uma OPA sobre o Finibanco. Sempre tive pelo Montepio uma simpatia especial porque, como associação mutualista, rege-se por princípios diferentes da banca comercial, e achei curioso, quando entrou no saudável 'jogo' do mercado tentando, pela via do preço, convencer os atuais acionistas a venderem-lhe a posição.

Neste negócio a coisa era transparente, pensava eu! Não há golden shares. O preço e o controlo seriam suficientes para convencer os interessados no negócio.

Durante o último ano as ações do Finibanco têm vindo a descer em patamares sucessivos. Aproveitando o momento atual com a cotação a 1,25 euro, o Montepio avançou com uma proposta generosa de comprar pelo menos 75% do banco a 1,95 euro.

O desfecho do negócio está na mão da família Costa Leite que detém 63% do banco. Se vender, o negócio pode fazer-se; se não vender, o negócio não se realizará. Só eles sabem se o vão ou não fazer e deles depende tudo. Eles detêm uma posição invejável e mais ninguém pode ter esta posição. Mais, sabem que há um conjunto de outros acionistas presentes na administração da empresa que se mostram disponíveis para vender (a fazer fé em declarações públicas).

O caso é que, uma sociedade detida pela dita família, desatou a comprar ações antes de dizer ao mercado o que vai fazer, conseguindo arrebanhar 350 mil ações a um preço médio de quase €1,90. Isso significa que se venderem estas ações ao Montepio vão ganhar a fabulosa quantia de 17.500 euros!

Quando soube desta magnífica negociata fiquei triste.

Primeiro porque não entendo como é que sendo acionista e gestor de uma empresa cotada não há sensibilidade para estas questões de assimetria de informação. Ou não se entende que se os que venderam a 1,90 euros soubessem o que sabe o acionista maioritário não teriam, muito provavelmente, vendido àquele preço?

Fiquei triste porque uma esperteza destas, que acho absolutamente ilegal, destrói a credibilidade do mercado e dá razões a quem pensa que isto é neoliberalismo, arruinando a boa-fé aos que acreditam no mecanismo de mercado e de financiamento da economia: a Bolsa. O que é que direi aos meus alunos nas aulas sobre mercado de capitais, se estas ações se repetem e são executadas por pessoas que deveriam ser profissionais?

Fiquei triste porque esta atitude foi realizada por um grupo financeiro. Poderia ter sido feita por um grupo industrial ou comercial, podendo invocar-se, sem desculpa, o desconhecimento de regras mínimas de natureza ética e deontológica de mercado, mas de um banqueiro, meu Deus?

Por fim fiquei triste pela mancha que deixa nesta família e pelo estado de penúria em que devem estar envolvidos, o que não imaginava, uma vez que se 17.500 euros farão a diferença e tentarão quem assim decide, então muito mal estarão, seguramente...

Mas há formas mais bonitas de ganhar a vida, que às vezes são uma treta, não é António?
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«Expresso» de 7 Ago 10

NOTA (CMR): julgo que o "António", a que João Duque se refere no fim do texto, é o cronista que publica ao lado dele, nos mesmos dias e na mesma página.

O incêndio de Moscovo

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Por Lev Tolstoi

in Guerra e Paz - Livro Terceiro, Cap. XXVI

OS FRANCESES atribuem o incêndio de Moscovo ao patriotismo feroz de Rostoptchine, os russos à selvajaria dos franceses. Na realidade, as causas do incêndio de Moscovo não podem imputar-se concretamente a ninguém. Moscovo ardeu porque se encontrava colocada em tais condições que qualquer outra cidade construída em madeira devia arder de forma análoga, independentemente de poder ou não recorrer às suas cento e trinta bombas. Moscovo devia arder porque os habitantes partiam. Era tão inevitável como a inflamação dum monte de aparas sobre o qual, durante vários dias, caíam faúlhas. Uma cidade construída de madeira, na qual, mesmo quando ali se encontravam os proprietários e a polícia, se produziam todos os dias incêndios, não podia de maneira alguma deixar de arder quando já não havia habitantes e nela se alojavam os soldados, fumando cachimbo e fazendo fogueiras na praça do Senado com as cadeiras do palácio, para prepararem as suas refeições diárias.

Em tempo ordinário basta que as tropas se alojem nas aldeias para que o número de incêndios aumente logo. Em que grau deviam, pois, aumentar as oportunidades de incêndio numa cidade construída de madeira, vazia, ocupada por um exército estrangeiro? O patriotismo feroz de Rostoptchine e a selvajaria dos franceses não entram aqui para nada. Moscovo ardeu por causa dos cachimbos, das cozinhas, das fogueiras, da falta de cuidado dos soldados habitantes mas não proprietários das casas. Mesmo se houve incendiários - o que é muito duvidoso, porque ninguém tinha motivo para incendiar, sempre era muito perigoso - não é possível pô-los em causa, porque, sem eles, teria sido a mesma coisa. Por lisonjeiro que seja para os franceses acusar a ferocidade de Rostoptchine e para os russos a barbaridade de Bonaparte, ou, mais tarde, pondo um facho heróico nas mãos do seu povo, não se pode deixar de ver que tal causa imediata de incêndio não podia existir, porque Moscovo devia, arder, como deve arder toda a cidade, fábrica ou casa cujos amos partiram, e onde se introduzem, para lá viver, pessoas estrangeiras. Moscovo foi queimada pelos habitantes, é certo, mas por aqueles que partiram e não por daqueles que ali ficaram. Ocupada pelo inimigo, não permaneceu intacta como Berlim, Viena, etc., por isso que os seus habitantes não deram o pão, o sal e as chaves aos franceses, mas preferiram abandoná-la.

Edição da Editorial Inquérito, tradução de José Marinho

Bebé vale nove milhões

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Por Antunes Ferreira

BEBÉ torna-se notícia. Com direito a cabeçalhos, páginas inteiras, lugares de destaque nas televisões e nas rádios. Acentuam os meios da Comunicação que se trata de um verdadeiro artista, com habilidade a dizer chega, um fenómeno. Peço, desde já, desculpa, mas palavra que não estou a tentar enganar quem quer que seja. Dispenso a citação do biberão, da chupeta, da roca, das fraldas e dessas coisas todas que, no caso, não têm razão de ser.

Porque este Bebé é já um moço de vinte anos, futebolista, que nem chegou a passar pela Liga portuguesa, em competições oficiais. Resumindo: Tiago Manuel Dias Correia, lisboeta, acaba de ser comprado pelo Manchester United ao Vitória de Guimarães por uns «modestos» nove milhões de euros. E, de repente, transformou-se na Cinderela desta época estival.

A história conta-se em meia dúzia de frases. Nascido numa família muito carenciada, o miúdo caiu na rua de onde o tiraram para entrar na Casa do Gaiato de Loures. Fez-se homem na instituição fundada pelo Padre Américo – que não o conheceu? – e foi lá que se transformou num cidadão de bom comportamento e arrancou para a prática do futebol. Começou pelos juniores do Loures e dali seguiu para o Estrela da Amadora, tendo feito parte da Selecção Nacional de Futebol de... Rua, em 2008.

E neste defeso, foi contratado pelo Vitória de Guimarães que por ele pagou noventa mil euros. Onde apenas alinhou nos jogos de preparação. E, de repente, o clube de Sir Alex Ferguson não foi de modas. A troco dos tais nove milhões de euros pagos ao clube da cidade-berço, transferiu-se para os ingleses. Uma história de fadas, cujos episódios apenas começaram, pois que esta procissão futebolística apenas começou a sair do adro. Modesto, com um coração de ouro, é um exemplo real, de acordo com o Padre Arsénio que dirige hoje a Obra da Rua.

Ponto final, para já. O que se vai seguir terá de ser acompanhado com a atenção devida. «Não tenhas medo de ser quem és, agarra-te a tudo o que te faz bem e põe em prática tudo o que aqui aprendeste», são as palavras que lhe foram dirigidas pelo sacerdote, ouvido por A Bola.

Num País como o nosso, em que os incêndios dão água pela barba a todos nós, em que as chamas já causaram mortes entre os bombeiros, saber desta estória, dá-nos alento. Num País como o nosso, em que a Justiça é uma bandalheira desenfreada, ficamos todos um pouco menos deprimidos, com o milagre deste Bebé. Num País como o nosso, em que um advogado e anterior deputado está enrolado num crime de assassínio – ou vários outros – que saltitou do Brasil para cá, saboreamos gostosamente este Bebé sem chucha. Temos de lhe agradecer o que nos oferece.

Que é muito mais do que os nove milhões.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

O percurso alternativo

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Por João Duque

A MINISTRA DA EDUCAÇÃO defendeu recentemente a discussão sobre a hipótese de não haver reprovações no ensino secundário, propondo-se aos alunos um “percurso alternativo”.

Quando ouvi a notícia desabafei com a Isabel, a minha mulher, que se eu fosse primeiro-ministro e tivesse ouvido uma tirada destas, mandaria de imediato o ministro passar pela tesouraria em direcção à porta da rua...

A Isabel, mais sensata do que eu, respondeu-me de imediato que nenhum ministro da educação teria a coragem de uma atoarda destas se não tivesse as "costas bem quentes" e que o senhor primeiro-ministro deve estar completamente ao corrente e até estimular ideias destas para serem palco de debate público.

A Isabel sabe que não há melhor para animar a ‘silly season' do que ‘silly ideas'. Além do mais desfoca a atenção para o descalabro da execução orçamental e para o imparável aumento do saldo da dívida pública (que cresce este ano à razão de 2,2 milhões de euros à hora!). Acresce que a proposta provoca sempre o apoio massivo dos estudantes numa altura em que se lhes vai exigir levantar mais cedo para andar mais a pé até à sua escola (porque a da aldeia mais perto vai fechar), ou pedir para se enlatarem mais em turmas mais apinhadas porque não há dinheiro para pagar a mais professores e manter assim os actuais rácios de alunos por turma.

Isto é, como se prevêem dificuldades orçamentais com impacto na qualidade do serviço prestado usa-se o caminho mais fácil, isto é, promete-se o céu aos cábulas (o que não impede que os bons alunos aproveitem).

Confesso que a ideia de reprovar é má. Os meninos podem até ficar traumatizados e nunca mais fazerem nada na vida... Eu chumbei no exame do Código da Estrada. Xi!... Fiquei tão traumatizado!... Paguei nova inscrição em exame à custa de mais explicações que tive de dar e de uma cervejas a menos com os amigos, fiquei umas dezenas de horas a mais em casa, sozinho, a decorar as regras de trânsito e os sinais, e voltei, teimosamente a exame. Resultado: passei! Mas que ideia esta tão bizarra de "chumbar" alguém e de o fazer rever as matérias que não percebeu ou que não teve paciência para estudar...

Se hoje, apesar de haver reprovações, os meninos que chegam às universidades têm enormes dificuldades em escrever duas ideias seguidas, argumentando sem erros gramaticais, não sabendo a tabuada, não conseguindo em muitos casos ter a noção de conceitos abstractos como os de dízima infinita e respondendo nos exames como se estivessem a escrever um SMS, como será quando não tivermos reprovações?

E não sei se a ideia de um percurso alternativo com a legião dos "ex-reprovados" é melhor do que ir integrando alunos repetentes nas turmas de andamento normal. Mas afinal os meninos são retardados, ou carentes de métodos de trabalho?

A menos que o "percurso alternativo" seja uma questão de semântica, apenas para iludir o pagode não passando de um "chumbo alternativo".
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«DE» de 12 Ago 10

A soldado desconhecida

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Por Ferreira Fernandes

JOSEFA, 21 anos, a viver com a mãe. Estudante de Engenharia Biomédica, trabalhadora de supermercado em part-time e bombeira voluntária. Acumulava trabalhos e não cargos - e essa pode ser uma primeira explicação para a não conhecermos. Afinal, um jovem daqueles que frequentamos nas revistas de consultório, arranja forma de chamar os holofotes. Se é futebolista, pinta o cabelo de cores impossíveis; se é cantora, mostra o futebolista com quem namora; e se quer ser mesmo importante, é mandatário de juventude. Não entra é na cabeça de uma jovem dispersar-se em ninharias acumuladas: um curso no Porto, caixeirinha em Santa Maria da Feira e bombeira de Verão. Daí não a conhecermos, à Josefa. Chegava-lhe, talvez, que um colega mais experiente dissesse dela: "Ela era das poucas pessoas com que um gajo sabia que podia contar nas piores alturas." Enfim, 15 minutos de fama só se ocorresse um azar... Aconteceu: anteontem, Josefa morreu em Monte Mêda, Gondomar, cercada das chamas dos outros que foi apagar de graça.
A morte de uma jovem é sempre uma coisa tão enorme para os seus que, evidentemente, nem trato aqui. Interessa-me, na Josefa, relevar o que ela nos disse: que há miúdos de 21 anos que são estudantes e trabalhadores e bombeiros, sem nós sabermos. Como é possível, nos dias comuns e não de tragédia, não ouvirmos falar das Josefas que são o sal da nossa terra?
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«DN» de 12 Ago 10

A democracia agredida

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Por Baptista-Bastos

DURANTE alguns anos embalámos a sensação, um pouco vaga, levemente indeterminada, de que a Justiça não só era justa como velava por nós. Os malvados eram punidos e os justos protegidos. A harmonia que este pressuposto comportava justificava a circunstância de nem sequer nos preocuparmos. Desconhecíamos os nomes e os rostos daqueles que vigiavam pela segurança de todos. Pessoas de carácter impoluto que não apenas faziam cumprir as leis como defendiam a grandeza e a decência democráticas. O festim da confiança durou pouco. Tratava-se, afinal, de um sentimento que pertencia aos domínios da fé.

Sou do tempo em que a magistratura era o mimetismo arrogante do poder fascista. E assisti, em tribunais plenários, às mais repulsivas misérias morais, cometidas por "juízes" que compunham medonhas caricaturas da nobreza e da honra. Nunca foram julgados nem castigados. Aliás, depois de condenarem presos políticos a penas pesadíssimas, adicionadas a "medidas de segurança", que significavam, praticamente, prisão por tempo indeterminado, esses senhores iam tomar chá à Bénard ou à Ferrari, ou entravam na Bertrand para saber das novidades literárias. Tranquilamente, sem sobressaltos de consciência. Morreram no leito da serenidade, com reformas substanciais.

As coisas melhoraram, com o 25 de Abril? Superficialmente. A mentalidade de retábulo de eleitos não sofreu alterações: as características de domínio corporativo mantêm-se. Ainda não chegámos à "democracia de juízes", como ocorreu, por exemplo, em Itália. Mas caminhamos para uma interpretação perigosa do que a Justiça pode ser. Abrem-se as veredas a uma sociedade de incertezas, que fará a erosão dos mecanismos e dos princípios democráticos. Não duvidemos das graves ameaças que pesam sobre nós.

Esta beligerância activa entre o procurador-geral da República, o Sindicato dos Magistrados do Ministério Público e Cândida Almeida comporta a hipótese de uma continuidade perturbadora. E resulta das velhas malformações existentes na Justiça. As virtualidades estruturais, intrínsecas ao nosso sistema, deixaram de existir, ou nunca existiram, e deram lugar a excrescências malignas, que se desenvolvem em todos os aparelhos judiciais e jurídicos. Estas anomalias irão dilatar-se no tempo, com tal extensão, que podem facilitar novas amolgadelas na democracia portuguesa, cada vez mais amassada?

Em Portugal acredita-se muito pouco nas instituições. Ninguém abona ninguém. Uma desconfiança generalizada das populações, na honestidade e na "independência" de quem devia estar acima de toda a suspeita, está a abalar a própria credibilidade da democracia. Como nada acontece por acaso, a quem aproveita a situação?
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«DN» de 11 Ago 10

Por uma estrada viva

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Por Manuel João Ramos

Agir pelo bem comum

A SUBIDA ALARMANTE do número de mortos e feridos nas estradas portuguesas, nos últimos tempos, deveria tirar o sono aos responsáveis pelas políticas de prevenção do risco rodoviário. Suspeitamos que não tira. Mas deve, antes de mais, ser uma preocupação de toda a sociedade, na medida em que os custos físicos, emocionais e económicos são partilhados por todos nós.

Os poderes central e local, tolhidos pelo argumentário da crise e surpreendidos pela ineficácia das suas medidas e acções na área da chamada “prevenção rodoviária”, não estão dispostos a despender os recursos humanos e financeiros mínimos necessários para reduzir os comportamentos rodoviários de risco infelizmente típicos numa época crítica como é o período de férias de Verão.

Ao constatar que os esforços preventivos da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária se resumiam, neste Verão, ao caricato anúncio de uma tartaruga insuflável atada ao tejadilho de um carro de família, a ACA-M, a ANBP, a ASPIG, o SPP-PSP e a QUERCUS decidiram lançar no passado dia 30 de Julho uma Campanha Nacional de Sensibilização para uma Condução Segura e Ecológica durante o mês de Agosto, com distribuição de folhetos com conselhos práticos por todas as delegações regionais das várias organizações. Estamos conscientes da limitação da nossa acção – ao fim e ao cabo, 20.000 folhetos não são mais que uma gota no oceano que constituem os 4 milhões e meio de condutores portugueses. Sendo uma iniciativa simbólica, ela tem ainda assim algumas importantes mensagens associadas.

Por um lado, é um lembrete à ANSR e ao governo de que é possível promover acções positivas, focalizadas e relativamente pouco dispendiosas, desde que prevaleça um espírito de colaboração e de dedicação; esta iniciativa certamente inédita que junta organizações cívicas e organizações socioprofissionais, e que vem envolver os ambientalistas nos problemas da segurança rodoviária, pretende muito claramente assinalar a necessidade urgente de um empenhamento aprofundado de todos nós na causa da redução do risco e do trauma rodoviários em Portugal.

Por outro lado, nesta iniciativa conjunta pode detectar-se uma crítica silenciosa ao modo como, sem qualquer controlo, a ANSR desbarata verbas importantes em campanhas públicas (como esta da tartaruga insuflável ou, em 2006, a do avião com crianças a bordo) que não têm outro objectivo que não dizer que o governo está a fazer alguma coisa em termos de “prevenção rodoviária” – o facto de as campanhas não contribuírem em nada ou quase nada para reduzir a incidência e a gravidade dos desastres rodoviários não parece incomodar quem está habituado a gastar dinheiros públicos sem que lhe sejam pedidas contas e responsabilidade. Digamos que esta campanha pretende ter o efeito de uma bofetada de luva branca tanto na cara de governantes que governam a olhar para as audiências, como de condutores que conduzem a olhar para o seu umbigo.

Confrontados assim com a passividade e ineficácia das acções das autoridades publicas face ao grande problema de saúde pública que é a sinistralidade rodoviária, e muito particularmente face à evidência de que ele não desaparece apenas porque o ministro responsável quer que ele desapareça, concebemos esta campanha no cruzamento de três ordens de factores muito relevantes de preocupação social face à condução em meio rodoviário: a segurança de bens e pessoas, os seus custos económicos e sociais, e os seus impactos energéticos e ecológicos.

O principio geral da mensagem desta campanha conjunta é portanto o seguinte: uma condução segura é também uma condução económica e uma condução preocupada com o ambiente e a escassez progressiva de hidrocarbonetos.

Este cruzamento de factores deveria ser óbvio para todos nós, e supor-se-ia que o governo central e as autarquias o pudessem já ter feito. Infelizmente, temos podido ver que falta aos responsáveis políticos e técnicos uma visão abrangente do fenómeno rodoviário e, nessa medida, a capacidade para implementar medidas estruturantes que permitam combater os seus riscos e impactos.

Através desta (simbólica mas empenhada) campanha nacional – note-se: não financiada por dinheiros públicos – a ACA-M, a ANBP, a ASPIG, o SPP-PSP e a QUERCUS quiseram chamar a atenção dos portugueses, e dos nossos governantes, para a necessidade de todos nós adoptarmos comportamentos mais seguros, mais económicos e mais conscientes dos impactos ambientais da condução rodoviária.

De quem é a culpa?

Estamos convictos de que uma grande parte da responsabilidade pelo aumento do número de desastres graves nas ruas e estradas portuguesas deve ser assacada aos tremendos e lamentáveis erros da tutela da Administração Interna na área da fiscalização. A extinção absurda da Brigada de Trânsito, as confusões na transferência de áreas de fiscalização entre a GNR e a PSP, as ambiguidades nas responsabilidades das divisões de trânsito da PSP e das polícias municipais, são alguns dos sinais da incompetência do governo na gestão do policiamento e fiscalização rodoviários.

Seria bom que os erros neste domínio custassem apenas o dinheiro dos contribuintes, Infelizmente, como é evidente para qualquer pessoa minimamente atenta, estes erros custam vidas. São erros que só continuam a ser feitos porque não há uma cultura de auto-responsabilização das nossas elites – como ficou por demais evidente no desastre provocado, a 27 de Novembro do ano passado, em plena Avenida da Liberdade, em Lisboa, pela incapacidade do Secretário-geral da Administração Interna em gerir a sua agenda para não chegar atrasado à tomada de posse de um grupo de governadores civis. Pelo seu simbolismo, este desastre (que felizmente – e miraculosamente) não resultou em nenhuma perda de vidas inocentes, em muito contribuiu para deitar por terra toda a credibilidade do Estado em fazer passar para a sociedade mensagens de incentivo para a adopção de comportamentos rodoviários seguros e socialmente responsáveis por parte dos cidadãos portugueses.

Do mesmo modo, também a ligeireza com que a ANSR nos vem dizer que afinal o número de mortos das estradas em Portugal tem sido contabilizado em baixa e que constituem mais 30% do que o governo alardeava ser, nos deve deixar um trago amargo na boca. Porque, convenhamos, porque razão devemos nós acreditar no mentiroso que nos diz que agora não está a mentir?

O problema é que aqueles que estão na linha da frente do combate à sinistralidade e ao crime rodoviário – em particular, os corpos policiais – não podem deixar de se sentir desmotivados e mesmo ultrajados pelo fato de o seu trabalho e empenho serem deitados a perder pela imperdoável irresponsabilidade daqueles que nos governam.

(texto escrito para a revista O Polícia, do SNP-PSP, Setembro de 2010)

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Explicação de tanta manchete

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Por Ferreira Fernandes


SOBRE O PAPA, Estaline perguntou: "E quantos batalhões tem ele?" O facto é que o herdeiro do Papa lá continua e Gorbachev, o último líder da URSS, anda a fazer publicidade às malas Vuitton. É que há batalhões e batalhões.
Algum poder especial devem ter os magistrados para serem tão apaparicados pelas reformas. Disse-me, ontem, o jornal i: das reformas milionárias (de mais de 5 mil euros), do total das atribuídas desde Janeiro de 2008, "mais de metade corresponde a aposentações de magistrados, incluindo juízes e procuradores".
Calculo os que servem o Estado em lugares superiores, de simples licenciados em Direito e economistas a museologistas, cardiologistas e professores de física quântica, e vejo mal como eles, todos somados, sejam menos, em número, que os juízes e procuradores. Então, como é que as becas e togas se abarbatam com mais de metade das melhores reformas? Que força é essa, que força é essa? Eu digo: sub-reptícia. Tal como a da Santa Sé. Para quê canhões quando se tem o poder da extrema-unção ou dar por morto quem manda?
Quem governa é quem decide quem fica com as melhores reformas. Mas, que se saiba, ninguém que manda ou mandou já ficou com a carreira cortada por juiz ou procurador. Pois não, não foi preciso. É só preciso alguns juízes e procuradores fazerem prova de vida de que são capazes disso. O que, demonstrado, dá para belas reformas.

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«DN» de 11 ago 10

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Um tribunal do 'carats'

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Por Ferreira Fernandes

QUEM nunca teve ganas de oferecer diamantes a Naomi Campbell que atire a primeira pedra, lapidada ou não. E, no entanto, essa parece ser a falta venial de Charles Taylor, antigo presidente da Libéria e cúmplice dos senhores da guerra civil na vizinha Serra Leoa. Desta, sabemos pouco. Em compensação, sabemos tudo do jantar de benemerência na casa de Nelson Mandela, até que foi a favor de crianças (veremos, à frente, a indecência de juntar esse pretexto e Taylor).
De madrugada, pois, Naomi Campbell foi acordada por diamantes em nome de alguém. Oferta de quem? A modelo diz não saber, para ela é fastidioso saber quem lhe estende presentes. Ontem, Mia Farrow desmentiu-a e por aqui estamos.
Ora, a razão de ser dos tribunais internacionais é preparar uma consciência para lá das fronteiras. Não lhes chega a mera eficiência daquele juiz que meteu Al Capone na prisão por não pagar impostos - aí, só importava desarmar o mafioso. Charles Taylor está a ser julgado por cumplicidade com o Revolutionary Unite Front, o das crianças-assassinas de Freetown: "Escolhe, a mão direita ou a esquerda?", e os soldaditos drogados cortavam a que lhes apetecia. Ou, com o mesmo fastio com que Naomi recebe presentes, uma orelha. A capital da Serra Leoa é a capital mundial de mutilados. As audiências com modelos e actrizes só nos afastam da consciência disso.
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«DN» de 10 Ago 10

A lâmpada de pirilampos

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Por Nuno Crato

QUANDO LIA as histórias do Tio Patinhas e do Pato Donald, uma das minhas personagens favoritas era o Professor Pardal. Era um inventor prodigioso, que construía lâmpadas escuras para escurecer lugares claros, vassouras mecânicas para escovar fatos, banheiras com mãos mecânicas que ensaboavam as pessoas e outros aparelhos fabulosos.

Uma das invenções do professor Pardal era um cata-pirilampos. Era uma espécie de computador que observava os voos desses insectos, registava a sua posição nos momentos em que estavam luminosos e previa onde eles iriam aparecer na próxima luminescência. Aí, o Professor Pardal tinha uma espécie de ratoeira voadora que os aprisionava. O invento era muito prático… depois de ter capturado umas centenas de pirilampos numa gaiola, o nosso inventor usava-os como lâmpada para iluminar o seu laboratório.

Descobri mais tarde que o preditor de voo dos pirilampos tinha uma correspondência real no trabalho de dois grandes matemáticos: o russo Andrei Kolmogorov e o norte-americano Norbert Wiener. No tempo da Segunda Grande Guerra, trabalhando isoladamente, cada um deles resolveu o problema de prever uma trajectória (por exemplo, de um avião inimigo) com base em observações com ruído e possivelmente espaçadas (por exemplo, observações de radar). O movimento de um pirilampo, que apenas se observa por comparação das suas posições nos curtos momentos em que está luminoso, é um bom exemplo desse problema. O Professor Pardal sabia do que falava.
No que o inventor se iludia era na possibilidade de ter uma lâmpada de pirilampos de luz contínua. Imaginava que, iluminando-se os insectos aleatoriamente, em qualquer momento haveria sempre alguns pirilampos acesos e, por isso, a luz total não piscaria. Era uma boa ideia, mas uma ideia irrealista.

Com efeito, desde meados do século XX que os biólogos têm vindo a descobrir que há alguma sincronia na iluminação dos pirilampos. Os insectos não produzem luz independentemente uns dos outros. Quando estão a distâncias em que se podem observar mutuamente, começam a piscar em simultâneo. Por vezes, o fenómeno é espectacular. Observe-o o leitor numa destas noites de Verão: quando há muitos pirilampos numa área, há momentos em que todos ou quase todos se iluminam ao mesmo tempo e a noite se acende de pontos luminosos.

As razões do fenómeno não são ainda entendidas, mas uma experiência recente, relatada na revista “Science” (DOI: 10.1126/science.1190421), traz alguma luz a este fenómeno. Dois biólogos norte-americanos colocaram pirilampos fêmea num recipiente e observaram a sua reacção a luzes cintilantes que simulavam pirilampos macho. Quando as luzes estavam sincronizadas, a reacção luminosa das fêmeas era muito forte. Quando as luzes piscavam desordenadamente, as fêmeas mantinham-se indiferentes.

Os biólogos especulam que a sincronização dos machos é uma estratégia que facilita a identificação de cada insecto e o sucesso da correspondente atracção sexual. Se os machos piscassem de forma desordenada, as fêmeas teriam dificuldades em seguir um deles em particular, pois seria difícil perceber a sua posição. Com as luzes sincronizadas, é mais fácil perseguir um macho.

Percebe-se por que razão a lâmpada de pirilampos do Professor Pardal seria útil como pisca-pisca, mas não para iluminar o seu trabalho. Quem diria que havia sexo à mistura?

«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 7 Ago 10 (adapt.)

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

As minhas inconfessáveis aventuras no Facebook

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Por Ferreira Fernandes

Se um desconhecido lhe estender um “queres ser meu amigo?”, hesite. Posso ser eu a inventar passados e a tentar curar-me de traumas da infância

QUANDO EU TINHA seis anos e estava na 1ª classe, uma prima que tinha as pernas mais compridas que as minhas apresentou-me a Teresinha. Esta ofereceu-me a imagem de uma santinha, de cores suaves. Estavam as três a sorrir para mim e reparei que as mais novas (as duas que não tinham lírios à volta nem aura) gozavam-me. Corri atrás da minha prima que se me escapou como era costume, ignorei a Teresinha e, horas depois, descobri a imagem amarfanhada no bolso dos calções. Deitei fora a santinha sem perceber que marcava ali o meu destino. Nunca mais suportei a pergunta piegas: “Queres ser meu amigo?”

Não que me tenha tornado anti-amiguista primário. Tenho amigos, mas selecciono-os rigorosamente. Aos candidatos e candidatas convido a cavalgarmos até à melhor vista do Sol a cair atrás do Grand Canyon e eventualmente fumamos um Marlboro – se ao fim do lusco-fusco nenhuma palavra for trocada, tenho um(a) amigo(a) até ao fim da vida. Não suporto é, repito, o “queres ser meu amigo?”. Evidentemente, não estou no Facebook.

Quer dizer, estou mas sob pseudónimos. A única vez que me enterneceu uma mão suplicante de afectos foi a do Tavares, num encontro de antigos alunos do luandense Liceu Salvador Correia. Gordo e careca ele andava com um cartaz ao peito com foto colada. À volta da imagem a preto e branco de um adolescente guedelhudo estava um círculo vermelho que sublinhava esta frase em maiúsculas: “ESTE SOU EU!” Ele parava nos grupos, apontava a foto, dizia ser “o Tavares” e “do 6º C, 1963-64” e o mais que recebia era um ou outro meio-sorriso. A mim, ele reconheceu-me num abraço apertado: “Olha o terror das provetas! Ganda Seixas!”, lançou-me, comovido. Fui sempre “Fernandes” no meu liceu e, pretendendo ir para Economia, nunca entrei num laboratório. Disse-lhe: “Estás na mesma, Tavares!” Estava a ser sincero, nunca o tinha visto.

O equívoco não impediu uma tarde de recordações comuns em que pelo menos metade delas, as evocadas por mim, provinham da minha atenção em anteriores encontros de antigos alunos. “Lembraste do Lucas, o filho do professor?”, perguntei. Não nos lembrávamos nós de outra coisa – embora pela minha parte fosse impossível: quando entrei para o liceu já o Lucas tinha saído e era uma lenda. Passámos, eu e o Tavares, uma tarde inolvidável. Eu queria ser amigo dele, ele queria ser meu, e nem pedimos autorizações tais elas eram óbvias. Trocámos telefones. Nunca lhe liguei, com receio de vir a descobrir que o Tavares talvez tivesse estudado no liceu António Enes, em Lourenço Marques, e nunca pôs os pés em Luanda.

Mas as duas coisas concorreram para eu entrar para o Facebook e com falsos nomes. Entrar, para saborear amizades antigas (inventadas, mas antigas); sob nomes falsos, para não me desiludir. A coisa obriga-me a estudos minuciosos, a fotos da época e a uma forte convicção de que as novas tecnologias vieram para me servir.

Como, por definição, os meus personagens fantasmas não têm passado nem tão-pouco tiveram tempo de fazer amigos antigos a quem dê ganas de retomar contactos, eu próprio tomo a iniciativa em insinuar-me. Não podendo só apresentar um inexistente “Cristóvão Crisóstomo” (não procurem, esse ainda não inscrevi), invento-lhe um passado num lugar muito social – e parto à pesca (“queres ser meu amigo?”) entre quem já tem conta no Facebook e eu sei ter frequentado aquele tal lugar. Privilegio o nicho dos liceus porque, aí, a nostalgia é segura e as hesitações de memória são justificáveis. Tenho tido sucesso e eu, o falso, já pus em contacto verdadeiros antigos amigos, um com o outro. A minha coroa de glória foi quando alguém escreveu: “Éramos um trio do camandro!” E eu e o outro comentámos logo: “Se éramos!” Rimos os três por estas respostas simultâneas. De facto, só mesmo as amizades antigas permitem estas transmissões de pensamento.
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«DN» e «JN» de 8 Ago 10

SALVEM O ADÃO

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Por Maria Filomena Mónica

OS HOMENS, no sentido estrito do termo, podem estar em vias de extinção, um assunto que, para meu espanto, não tem figurado nas primeiras páginas dos jornais. A ideia, expressa em Génesis:2, de que a mulher teria nascido de uma costela do Adão não se encontra validada do ponto de vista científico, o que tem consequências na sobrevivência do género masculino. Durante o último fim-de-semana, reli, em simultâneo, a Bíblia, alguns livros escritos por biólogos e The Diary of Adam and Eve de Mark Twain, o opúsculo o mais genial que conheço.

Sempre me causou espanto o facto de ninguém afirmar claramente que o Adão era um idiota, como o prova a sua falta de apetite por saber coisas. Foi necessário aparecer a Eva para que ele notasse que o fruto proibido estava ali, a dois passos, à mão de semear. Como a serpente disse à mulher, «Deus sabe que, no dia em que o comerdes, abrir-se-ão os vossos olhos e sereis como Deus, ficareis a conhecer o bem e o mal». Na minha inocência, julgava que isto era bom. Era até, pensava, o fundamento da ética, mas, na Bíblia, as coisas nunca são simples. Eis o que se segue: «Vendo a mulher que o fruto da árvore devia ser bom para comer, pois era de atraente aspecto e precioso para esclarecer a inteligência (sublinhado meu), agarrou do fruto, comeu, deu dele a seu marido, que estava junto dela, e ele também comeu.»

Apercebendo-se que estavam nus, o que seria um mal, Adão e Eva cobriram-se à volta dos rins com folhas de figueira (sempre me parecem parras, mas Deus lá sabe), após o que se esconderam. Mas para Jeová não há segredos. Este descobriu rapidamente o encolhido Adão, perguntando-lhe, com ar severo, o que acontecera. O queixinhas disse logo que a culpa não era dele, mas da mulher «que trouxeste para junto de mim». Esperta, a Eva decidiu atribuir a responsabilidade à serpente, mas Aquele não se impressionou, decretando que, doravante, ela passaria, não só a procurar um homem com paixão, mas a sofrer as dores do parto. Pelos vistos, Jeová não previra a epidural, pelo que a única maldição que subsiste – e de uma maldição se trata – é a de nos apaixonarmos.

É quase impossível dar-vos o tom que Twain usa para descrever a forma como Adão olha Eva pela primeira vez. Dado tratar-se de um artigo com apenas 13 páginas, mesmo o mais preguiçoso Adão conseguirá lê-lo. Dou-vos apenas o cenário. Estamos no Paraíso, onde Adão reina feliz, sozinho e soberano. A certa altura, depara-se com um animal diferente daqueles que conhecia, um bicho que não cessa de falar, que o persegue sem motivo compreensível e que tem ideias cada vez mais loucas. Era, claro, a Eva.

Salto abruptamente para as descobertas científicas. Recentemente, saíram dois livros, Y: The Descent Of Man, de Steve Jones (2002) e Adam’s Curse, de Bryan Sykes (2004), que demonstram que o sexo masculino é uma espécie apenas agarrada à vida através de um cromossoma frágil, de seu nome Y. De acordo com as investigações modernas, não seria a mulher que nascera do homem, mas este da costela feminina. Se não acreditam em mim, interroguem o primeiro cientista que encontrarem na rua.

Embora o cromossoma Y possa ser identificado com a força, o facto é que contem um princípio de vulnerabilidade. Originariamente, albergava, é certo, um conjunto de genes que desempenhavam as suas funções. A maldição começou quando o homem pretendeu lutar contra os dinossauros, desta forma assumindo o papel de sexo forte. Ao contrário do cromossoma X, capaz de metamorfosear os seus genes, a fim de evitar mutações fatais, o Y não consegue reparar os ataques que contra ele se vão acumulando, ou seja, não tem capacidade para cicatrizar as feridas que o tempo provoca. É por isso que a infertilidade masculina não para de aumentar. Dentro de cerca 125 000 anos os homens estarão totalmente extintos.

A possibilidade baralha-me. Sabia que o esperma era necessário para a reprodução da espécie, pelo que a notícia da morte do cromossoma Y me pareceu aterradora. Todavia, há quem defenda ser possível unir um óvulo a outro, em vez de o unir a um espermatozóide, mantendo-se viva a espécie humana, embora sob forma exclusivamente feminina. Isto tão pouco me agrada. Os homens fazem-me falta, quanto mais não seja para poder exibir a minha superioridade. Amanhã, vou organizar um movimento para a preservação da espécie masculina.
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«GQ» de Maio 2009

domingo, 8 de agosto de 2010

Sucesso incrível de exportação lusa

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Por Ferreira Fernandes

EM NOVEMBRO de 2001, capa da revista brasileira Veja: "Falar e escrever, eis a questão." Esta semana, 451 capas depois, Veja volta à carga: "Português: falar bem é vital."
Lembro aos distraídos: a revista Veja não é o Jornal de Letras lá do sítio, vende mais de um milhão de exemplares. É como as nossas Sábado e Visão, sim, também fala de lipoaspirações (foi capa na semana passada) mas, semana vai, não vai, farta-se de regar aquilo que é o seu ganha-pão. Isso, o português. E não é mania dessa revista só. O "professor Pasquale" é personalidade nacional por aquilo que ensina nas colunas da Folha de São Paulo e de O Globo, rádios e televisões. Ele nasceu numa impronunciável Guaratinguetá e é filho de italianos, mas o assunto que o tornou famoso, já adivinharam, é o português.
Agora que os negócios Portugal-Brasil saltaram para as manchetes, apetece perguntar por esse produto primacial da relação. Na língua, quem deve a quem? Os portugueses devem cobrar juros por terem cedido o português? Ou os portugueses têm de pagar salário a quem tão bem cuida da menina dos seus olhos? Porque recriava a língua, Rubem Braga dizia: "Confesso, escrevo de palpite." Estava a fugir aos juros, sugerindo que a língua portuguesa ele não a contratou, era ele. Eu também fujo de pagar à Veja pelo orgulho que me dão aquelas capas.
Este é um raro negócio com dois lados a ganhar muito.
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«DN» de 8 Ago 10

sábado, 7 de agosto de 2010

Os ossos do atleta pobre

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Por Ferreira Fernandes

O NORMAL, na América, são os lugares estranhos. O uísque Jack Daniel's faz-se em Lynchburg, no Tennessee, um condado ainda sob a Lei Seca (é proibido beber álcool).
O próprio dos lugares americanos é agitarem-se, nem que seja com trocadilho: Reno, no Nevada, apresenta-se como "a maior pequena cidade do mundo!".
Antigamente ninguém parava numa vila mineira na Pensilvânia que ainda não se chamava Jim Thorpe. Depois, em 1953, a cidadezinha comprou à viúva de Jim Thorpe o direito de ficar com o túmulo e o nome do atleta - e atraiu turistas. A Associated Press acabara de eleger Jim Thorpe o maior atleta da primeira metade do século. Índio mestiço, ele foi ouro no pentatlo e no decatlo, nos JO de Estocolmo, em 1912. Mas em 1913 retiraram-lhe as medalhas por não ser amador puro. Quando estudante tinha ganho 35 dólares semanais num campeonato liceal...
Thorpe morreu em 1953, na miséria e sem as medalhas (que só seriam devolvidas aos filhos em 1983). Ontem, o Times de Londres contava que os filhos queriam também recuperar os ossos do pai para levá-lo para a terra natal no Oklahoma. Ele nunca tinha vivido na cidade a que deu o nome.
O milionário Avery Brundage ficou 6.º no pentatlo, em 1912. Enquanto foi presidente do Comité Olímpico Internacional, nunca permitiu que as medalhas de Jim Thorpe lhe fossem devolvidas. Brundage está sepultado no cemitério que quis, em Rosehill, Chicago.

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«DN» de 7 Ago 10

Pátio do Tronco - 3 Ago 10



A Justiça e a Senhora da Agrela

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Por Antunes Ferreira

«Só falta o Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, SMMP, querer prender o Procurador Geral da República». Quem o disse foi o advogado, professor universitário e presidente do MRPP, Garcia Pereira. E poderia ter dito que só faltava que o SMMP quisesse executar, em público, Pinto Ribeiro, com um tiro na nuca e a bala paga pela família. O exemplo tem origem na RPC.

O diz-que-disse-que-disse, entretenimento nacional e desporto mais popular no nosso País, corrijo, depois do futebol, foi muito interessante, é e promete continuar a ser. E instrutivo. Até porque nunca é tarde para aprender. Desde a auto-qualificação pelo próprio Procurador, considerando que necessitava de mais poderes, de ser quase Rainha da Inglaterra, até ao atestado de incompetência passado pelo Sindicato, houve lugar para tudo. Um verdadeiro wrestling juridico-anedótico. Só que no vertente, ao contrário do ringue, não é previamente combinado.

Toda a gente que se acha importante da política & afins tem molhado a sopa neste escabroso tema. Ou melhor, nesta enorme caldeirada. Até à data em que escrevo este texto, mais precisamente, quarta-feira, 4 do corrente Agosto, ainda não participam na refrega justiceira, que eu saiba, o Regimento de Sapadores Bombeiros de Lisboa e o tesoureiro da Junta de Freguesia de Alcagoitas e pouquíssimas entidades mais. É um esclarecedor fartar vilanagem, com a excepção vicentina da arraia-miúda.

Querido País este, que em plena época estival (em que o pessoal só vai a banhos o mais longe possível, ou seja a Costa da Caparica, incluindo o Meco, e por determinação pública de Sua Excelência o Senhor Presidente da Re-pública), se dedica a estas trocas de galhardetes realmente empolgantes. Longe já vai o tempo do Mundial sul-africano e esquecido paulatinamente o imbroglio do Queiroz – o Carlos, que o pobre do Eça, felizmente, não faz parte destas trocas e baldrocas.

Assim vai a Justiça (???) neste torrão natal, à beira-mar debruçado. Valha-lhe a Senhora da Agrela, que não há santa como ela. Valha-nos.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

«Dito & Feito»

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Por José António Lima

É RIDÍCULO, é quase anedótico, que um processo judicial com a importância social e política do caso Freeport, envolvendo o próprio primeiro-ministro, chegue ao fim sem nada apurar de relevante. E com listas de perguntas, 27 a José Sócrates e 10 a Pedro Silva Pereira, não efectuadas por falta de tempo (!) ou por obrigação, imposta pela directora do DCIAP, Cândida Almeida, de se encerrar apressadamente o caso. Este episódio é o espelho do imenso descrédito em que se atolou a Justiça portuguesa.

Ainda mais ridículo, se possível, é o espectáculo dado por um procurador-geral da República que só ao fim de quatro anos no cargo descobre que tem «os poderes da Rainha de Inglaterra». Pinto Monteiro é um PGR que sacode sempre as responsabilidades de cima do seu casaco: ou as tenta disfarçar com inquéritos de averiguações que nunca dão em nada, ou atira as culpas para quem estiver mais à mão, neste caso o Sindicato dos Magistrados do Ministério Público. É um PGR que impõe o ineditismo legal de manter em funções o seu vice-PGR já incompatível para o cargo. É um PGR que se permite a prática insólita de rasurar despachos por si exarados, como aconteceu com as escutas do processo Face Oculta. É um PGR capaz de desdizer com um sorriso tudo o que antes dissera, como o que agora veio afirmar, ao contrário do que garantira em Março, sobre a autonomia do Ministério Público. Pior ainda e mais grave: é um PGR que esteve sempre, por acções e omissões, alinhado e protegendo o poder político em funções.

Pinto Monteiro deixou de ter as condições mínimas necessárias para exercer o cargo de PGR com dignidade e com o respeito dos portugueses. E a procuradora Cândida Almeida deveria ter-se reformado há dois ou três anos, por forma a evitar a série de infelizes e desprestigiantes episódios que tem protagonizado neste seu final de carreira. Alguém da confiança de ambos, algum responsável do PS por exemplo, deveria aconselhá-los a procurar a porta de saída.

P. S. – Mário Bettencout Resendes tinha um pensamento aberto e sem amarras, o gosto da notícia e o saber de a comunicar, princípios sólidos, seriedade e isenção – características essenciais à prática do bom jornalismo. Em Portugal, nesta como nas outras profissões, não há muitos que reúnam tantas qualidades. Vai fazer falta.
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«SOL» de 6 Ago 10

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Arsénico antigo envenena presente

Por Ferreira Fernandes

HÁ DIAS, contou o New York Times, abriram o sarcófago de Simão Bolívar, ao som do hino e em directo para a TV, no Panteão de Caracas. Como em tudo que é grandiloquente na Venezuela, Hugo Chávez estava por trás. Ele disse que urgia tirar a limpo a dúvida histórica: o pai da Pátria morreu de tuberculose ou envenenado?
Simão Bolívar (1783-1830), um filho de Caracas, foi personagem extraordinário, libertador da Venezuela e do Equador, 1.º Presidente da Colômbia, do Peru e da Bolívia. Chávez serve-se dele como uma marca, ao ponto de ter mudado o nome do país para República Bolivariana da Venezuela. Tem sido sina de Bolívar servir de bandeira a líderes pitorescos: Vicente Gómez, ditador entre 1908 e 1935, fez coincidir as suas datas de vida e de morte com as do El Libertador.
Mas estas pantominas ingénuas podem ter consequências graves: a confirmar-se o arsénico, as relações entre Caracas e Bogotá, que já são más, podem agravar-se. Porquê? Porque Bolívar morreu na Colômbia... A verdade histórica é que Bolívar fora expulso da Venezuela, exilou-se na Colômbia e o congresso venezuelano até cortou relações com os vizinhos por o ter acolhido, mas a história pode ser sempre refeita... Mas refeita porquê?
George Orwell, no livro 1984, explicou: "Quem controla o passado controla o futuro; quem controla o presente controla o passado." É essa a aposta de Chávez.
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«DN» de 5 Ago 10

NOTA (CMR): na foto: estátua de Bolívar na Av. da Liberdade, em Lisboa.

As denúncias anónimas boas e as denúncias anónimas más

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Por Helena Matos

A PROPÓSITO DO FREEPORT, tal como da Casa Pia, a denúncia anónima tornou-se um estigma: “começou por denúncia anónima” – dizem como se o anonimato da denúncia atenuasse os factos denunciados. No caso do Freeport, a denúncia nem sequer foi anónima e os falsos anónimos acabaram condenados e provavelmente até serão os únicos condenados deste caso.
Não tenho simpatia pelo recurso ao expediente da denúncia anónima para abrir ou fazer andar processos. Noto, contudo, que os indignados da denúncia anónima no caso Freeport e no caso Casa Pia não se têm indignado com o estímulo das denúncias anónimas defendido e praticado por este governo. Na página do ministério da Justiça podemos denunciar anonimamente quem nos der na telha:

Formulário de apresentação de queixas à Inspecção-Geral dos Serviços de Justiça.
Utilize o formulário abaixo para apresentar a sua queixa, reclamação ou denúncia à Inspecção-Geral dos Serviços de Justiça. O preenchimento dos campos destinados à identificação não é obrigatório. Só será necessário o seu preenchimento caso pretenda receber informações sobre o andamento da queixa, reclamação ou denúncia apresentada. Se tiver dúvidas, consulte as perguntas frequentes inseridas na parte final deste formulário.


No caso da violência doméstica e do tráfico de droga as denúncias anónimas - e note-se que muitas destas denúncias mesmo que sobre factos reais nascem frequentemente por motivos muito obscuros - são consideradas essenciais. Será que as denúncias anónimas são todas boas à excepção daquelas que envolvem dirigentes do PS?
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Blasfémias.Net

CHARLES DARWIN

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Por M. Filomena Mónica

A PUBLICAÇÃO de A Origem das Espécies foi um dos mais impressionantes acontecimentos do século XIX. Quando o livro saiu, Darwin foi visto como o homem que tentara assassinar Deus. Começava uma polémica – será que descendemos dos macacos? teremos que deixar de acreditar em Adão e Eva? seremos obrigados a aceitar que o mundo não tem significado? – que durou até hoje.

A 12 de Fevereiro último [2009], celebrou-se o segundo centenário do seu nascimento e este ano festeja-se o 150.º aniversário de A Origem das Espécies. Se, em Portugal, o livro pouca atenção suscitou, tal deriva de o Vaticano desaconselhar a leitura da Bíblia, tendo os católicos aceite, como alimento espiritual, a magra dieta do Catecismo. Nos EUA, um país que nasceu umbilicalmente ligado à religião, as coisas fiaram mais fino. Apesar de o conceito da separação da Igreja e do Estado estar no cerne da Constituição, a América ainda é o país protestante no qual a Bíblia desempenha um papel mais importante. Não admira que tenha sido aqui que apareceu uma candidata a vice-presidente dos EUA insistindo em que o relato da Criação deveria ser tomado a letra.

Curiosamente, este tipo de fundamentalismo é uma criação moderna: o que preocupava os Vitorianos não era a interpretação da Bíblia – eram suficientemente cultos para saber que o texto sagrado era para ser lido como uma metáfora – mas a possibilidade de o Darwinismo poder transformar a vida num caos amoral. A expansão moderna das teses antidarwinistas foi uma reacção ao abrandamento, nos anos 1960, dos códigos morais.

Charles Robert Darwin nasceu no seio de uma família rica, culta e ilustre. Depois de ter feito vários estudos nas Universidades de Edimburgo e de Cambridge, optou por ser geólogo. Foi nessa qualidade que, aos 25 anos, partiu, a bordo do Beagle, para uma viagem que o levaria aos Açores, Cabo Verde, Baía, Rio de Janeiro, ilhas Falklands, Valparaíso, Galápagos, Cidade do Cabo, ilhas Maurícias e a Austrália. A 2 de Outubro de 1836, ao pôr os pés em Inglaterra, tinha já em mente os fundamentos da sua teoria, mas, com receio, não tanto da opinião pública, mas da forma como a mulher, uma anglicana fervorosa, reagiria, decidiu nada publicar. Foi preciso um susto para divulgar o que sabia. Em 1859, apercebeu-se que, se não o fizesse, outro – Alfred Russel Wallace – avançaria. Por muito amor que tivesse pela mulher – e tinha – sentiu-se obrigado a dar a conhecer a sua tese.

Do ponto de vista social, o pior ficava para trás. As décadas de 1830 e 1840 tinham assistido a momentos difíceis: os motins dos trabalhadores tinham-se multiplicado, os Dissenters enchido as igrejas de cânticos revolucionários e as classes médias exigido leis tidas como impensáveis. Neste contexto, como podia um jovem respeitável abrir um livro com notas de viagem e, de forma despreocupada, afirmar que os nossos antepassados eram chimpanzés? O dilema, entre o que sabia ser verdade e as exigências do meio social a que pertencia, dilacerou-o. Quando, um dia, se decidiu a contar a um amigo as conclusões a que chegara afirmou-lhe que, para ele, tal era idêntico a «confessar um crime».

Mal A Origem das Espécies apareceu nas livrarias, os anglicanos classificaram-na como ateia, afrancesada e imoral. Apesar do cuidado de Darwin em apresentar todas as provas e do apelo aos leitores para as considerarem imparcialmente, não era possível aos contemporâneos aceitarem, de ânimo leve, as conclusões do livro. Porque, do ponto de vista intelectual, Darwin era um revolucionário. Terá aliás sido o reconhecimento desta faceta que levou Karl Marx a, depois de ter pensado em dedicar-lhe a obra, lhe enviar O Capital.

Darwin continuou a observar a Natureza de forma obsessiva, tendo chegado a dizer que os corais o fascinavam mais do que a música de Handel. Na velhice, perseguido por sentimentos de culpa, escreveria uma Autobiografia destinada a ser lida pelos filhos e netos. Vinte e três anos depois da publicação do seu mais célebre livro, morria. Com o tempo, Darwin passara a ser considerado como alguém cujo estatuto intelectual só era comparável ao de Newton. Enquanto o coro cantava, em Westminster Abbey, «Happy is the man that findeth wisdom», a catedral, onde ficaria sepultado o seu corpo, enchia-se de professores, clérigos e aristocratas que vinham prestar a derradeira homenagem a um homem sábio e bom.

«GQ» - Abril 2009

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

O sequestro com trema - Solução


Pág 17 .
Quem mais se tenha aproximado tem agora 24h para escrever para medina.ribeiro@gmail.com indicando morada para envio. (Em caso de empate, tem prioridade o 1.º apostador).
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Actualização: o vencedor foi Luís Bonito, com o palpite de pág. 23 (erro de 6 páginas).

E se a verdade não for novidade?

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Por Rui Tavares

QUANDO 90 MIL DOCUMENTOS
secretos sobre a guerra do Afeganistão são revelados, que ficamos a saber? Que os militares ocidentais matam mais civis inocentes do que revelam; que as chefias militares comandam esquadrões da morte; que as alianças no terreno são ambivalentes e hipócritas. Sim, é verdade: ficamos a saber aquilo que já sabíamos.

Mas não é por isso que estas revelações deixam de ser históricas. Aqueles que agora as desprezam como sendo triviais são os mesmo que antes se recusavam a admiti-las. Dizer que a verdade é trivial é apenas a nova forma que encontram de continuar a recusá-la.

Estranhamente, esta resposta tornou-se também opinião convencional entre os jornalistas. “Isto é verdade”, dizem, “mas não é novidade”. E então? Ao escolher a novidade contra a verdade, os jornalistas prestam um favor ao comando de guerra e um mau serviço à sociedade. A guerra do Afeganistão é agora pior do que uma guerra perdida: é uma guerra que não quer acabar.

Um exemplo: os ataques aéreos feitos por drones (ou seja: pequenos aviões telecomandados e não tripulados). Para a opinião pública dos EUA, os drones eram ovos de Colombo. Os “nossos” pilotos não estão lá nem pode ser abatidos; só os “maus” é que morrem. Genial!

Mas os documentos secretos revelados pela Wikileaks demonstram que estes drones matam muitos inocentes e que, quando caem, dão origem a custosas e violentas operações de resgate para que a tecnologia não caia em mãos inimigas. Os militares sempre souberam disso, e ocultaram-no.

E nós sempre pudemos saber — sem acesso a documentos secretos — que todas as novas armas de guerra têm um retorno. Tal como nas minas anti-pessoais, o problema não é o inimigo deter a tecnologia: é o conceito ter sido legitimado aos olhos da sua população-alvo. Quando um grupo terrorista telecomandar um drone sobre uma cidade ocidental, descobriremos que esta é uma arma cobarde. Toda a gente o dirá, — e se esquecerá de quem foram os primeiros a utilizá-la.

Desvalorizar a verdade como trivial só nos fará pagá-la mais cara.

Outra linha de ataque às revelações é comparativa. Diz-se nas redações: “o caso Wikileaks não é como os papéis do pentágono, revelados em 1971, nem como o escândalo Watergate, que o Washington Post noticiou em 1972″. E aqui os jornalistas estão simplesmente equivocados. Deixaram que a memória os traísse e não fizeram trabalho de arquivo.

Como lembra corretamente Frank Rich, colunista do New York Times, é verdade que os documentos da wikileaks tiveram de partilhar as primeiras páginas com o casamento de Chelsea Clinton. Mas a revelação dos “pentagon papers” também partilhou a primeira página do mesmo jornal com o casamento da filha de Nixon. O trivial e o fundamental sempre partilharam as primeiras páginas.

E quem viu Os Homens do Presidente — filme de 1976 sobre Watergate — sabe como ele acaba, já depois do escândalo revelado (quem não viu o filme talvez queira saltar este parágrafo): os dois jornalistas trabalham noite adentro enquanto as televisões dão a notícia da vitória esmagadora de Richard Nixon na sua segunda eleição.

No filme, os ruídos do telex e o fato de veludo castanho de Robert Redford estão para os anos 70 como os documentos secretos gravados em CDs da Lady Gaga e a figura de Julian Assange, fundador da Wikileaks, estarão para a nossa época. Seremos coloridos pelo trivial e definidos pelo fundamental. É que a verdade pode não ser novidade, e pode até não ser notícia. Mas não deixa de ser história.
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RuiTavares.net/blog

Ele, assim, não vai longe

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Por Baptista-Bastos

A CRER NAS ÚLTIMAS sondagens, Pedro Passos Coelho está a perder a base social de apoio. Os números são elucidativos. Empatou, praticamente, com Sócrates nas intenções de voto. A queda parece dever-se ao facto de falar em excesso. Por duas vezes, em Espanha, reprovou, com veemência, as decisões do Governo português em aplicar a golden share no negócio da PT-Telefónica-Vivo. Objectivamente, esteve ao lado dos espanhóis, materializando, com essa tineta fatal do neoliberalismo e das leis do mercado, os estados de incerteza e de angústia em que vivemos.

Passos seguia o balanço das ameaçadoras declarações sobre as alterações à Constituição, que haviam deixado toda a gente em polvorosa. Inclusive parte significativa dos apaniguados. Entendo que o presidente do PSD deseje marcar a diferença e ambicione ser o criador das horas de transição histórica. Mas o remédio deixou de estar na moda. A senhora Thatcher, seu modelo, é, hoje, tida como uma mediocridade política, que deixou a Inglaterra de rastos. E Tony Blair, inspirado naquela ênfase ideológica, transfez-se numa extravagância grotesca. Os novos dirigentes ingleses não sabem como resolver a embrulhada.

As afirmações de Passos Coelho em Espanha foram a rima desajeitada de quem ignora mover-se nos meandros da diplomacia política. Pareciam extraídas dos frascos de formol onde, nos museus da teratologia política, repousam as velhas aberrações doutrinárias. O português médio desagradou-se. Detesta que nos coloquemos de cócoras ante aquele a que, hipocritamente, chamamos de "hermanos". E o espanhol medianamente letrado não escondeu a sua perplexidade com a inesperada colaboração político- -económica do alto dirigente "social--democrata".

Resultado: Pedro Passos Coelho, que subira nas intenções de voto e deixara José Sócrates muito para trás, como uma espécie de ser à parte, regressou ao sonambulismo do velho PSD. Não só preocupara: assustara de pânico um eleitorado já ferido pelas novas regras dos apoios sociais, e desconfiadíssimo de tudo o que pareça alteração nas rotinas. Pese, embora, as palavras de tranquilidade, proferidas por distintos tenores do partido, o susto colectivo reflectiu-se nas sondagens, e despertou as dúvidas e as apreensões dos muitos que vêem na direita o rol de todos os perigos. Talvez Passos Coelho tenha depredado o concentrado de simpatia obtido pelo desastre político de Sócrates e pela notória repulsa que causou o consulado de Manuela Ferreira Leite. Ele fala de mais e, com perdão da palavra, pensa de menos. Nota-se-lhe a fragilidade do mimetismo doutrinário e, como síntese, a submissão às lógicas do momento, por absurdas que sejam. Assim, não vai longe nem deixa rasto.
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«DN» de 4 Ago 10

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Os 'cojones' de Sarah Palin

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Por Ferreira Frnandes

O DRAMA DO ARIZONA, estado que tem fronteira com o México, deve ser acompanhado com um dicionário na mão. Sarah Palin acaba de dizer que Jan Brewer, a governadora do Arizona, "tem 'cojones' que Obama não tem para lutar contra a imigração ilegal". A frase foi dita em inglês, a língua de Tucson, Arizona, com a excepção de 'cojones', dito como se fala em Nogales, no estado mexicano de Sonora. De Tucson para Nogales dista uma hora de carro.
A frase de Palin confirma que a coisa está grave: se uma política do Alasca já fala como uma vendedora de 'enchiladas', calculem a vaga de 'chicanos' que já vai pelo Arizona... Mas não deixa de ser surpreendente a linguagem de Palin. A sua companheira de partido, a citada governadora do Arizona, construiu a carreira com mais cuidados lexicais. Jan não guardou o seu apelido de baptismo, Drinkwine (bebe vinho, em português), e ficou com o nome do marido, Brewer (cervejeiro), mais suave. E certo, certo, é que não ficará para a História como Jan Tequilla.
Note-se, ainda, que 'cojones' é um autêntico 'palin'dromo nos EUA. Palíndromo é uma palavra que é lida da esquerda para a direita como da direita para a esquerda (por exemplo, sopapos). Na América, 'cojones' é dito pela esquerda ou pela direita, logo que o político seja mulher: já Madeleine Albright, a ministra de Clinton, o disse uma vez no Conselho de Segurança.
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«DN» de 3 Ago 10

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Relembrando um tema antigo

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A barraca de Barrancos

MAIS CEDO ou mais tarde, um país sujeito a uma ditadura acabará por aceder à democracia, tal como outro que aplica a pena de morte a irá abolir, e outro ainda acabará com a prática da tortura. Poderão não ser de imediato alterações irreversíveis mas, a longo prazo, sê-lo-ão.

O ritmo da escrita ia-me levando a escrever algo semelhante sobre as touradas de morte! Esquecia-me de que estou em Portugal, onde um apurado "sentido de oportunidade" de quem agora manda [Verão de 2002] levou o país a enveredar por bizarros caminhos.

Ora, já que não é possível (nem só por uns dias...) trocar Barrancos com Olivença, vai ser preciso dar tempo ao tempo. É que há uma evolução da Humanidade, uma espécie de "crescimento", que pode demorar bastante mais tempo do que se desejaria; tal como acontece com os garotos que, enquanto a sua sensibilidade não está apurada, praticam crueldades sobre animais indefesos - mas a quem a idade faz, depois, humanizar o comportamento.

Gostava muito de saber, em relação aos defensores das touradas de morte, qual será a sua "idade média"...

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Mas por que motivo é que o problema de Barrancos só apareceu recentemente quando, afinal, já existia até no tempo de Salazar? E, sendo o ditador tão "adepto da legalidade", como é que nunca se preocupou (que eu saiba) com o facto de ela não ser respeitada? Talvez porque nada melhor do que alentejanos entretidos com tradições tauromáquicas para dar descanso às outras tradições, as da GNR e da PIDE...

Assim, quando, há poucos anos, alguém se lembrou de que as leis se fizeram para serem cumpridas, começámos a assistir a verdadeiros malabarismos, o mais divertido dos quais foi o de Fernando Gomes: uma vez paga uma multa, a infracção desaparece. Uma espécie de taxa: paga-se e... "'tá legal".

Vimos o PCP a defender uma "zona demarcada" com direito a uma "legislação de excepção" (para não perder votos no Alentejo?); o PSD e o CDS a barafustar contra a esperteza-saloia do ministro acima referido; e Jorge Coelho a dizer uma coisa qualquer.

Mas os tempos mudaram, e o PSD e o CDS, uma vez no poder, passaram a defender exactamente o oposto do que dantes advogavam, descobrindo, de um dia para o outro, as virtudes das "tradições ininterruptas" - que decerto foram invocadas pelos que, junto do Marquês de Pombal, defenderam as "tradições" do Santo Ofício.

Quanto ao facto de as opiniões mudarem ao sabor das conveniências... sempre teve o nome de "oportunismo" - e esperemos que ninguém se zangue por se "darem os nomes aos bois".

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Mas há um outro aspecto interessante: o aparente paradoxo que consiste no facto de que, em geral, os que defendem os animais também os comem. Analisemo-lo, então:

A Natureza, ao fazer-nos omnívoros, fez questão de que nos alimentássemos de outros seres vivos.

Ora, juntando a isso a necessidade de autodefesa, o Homem teve de praticar, desde sempre, os actos de "matar para comer" e de "matar para não ser morto". Com o passar do tempo, a identificação do acto de matar com a sobrevivência levou a que ele lhe associasse um forte prazer, tornando-se a caça e a pesca actividades lúdicas - e passando ele a ser o único animal a matar mesmo sem necessidade.

Até aqui, ainda tudo se consegue compreender. Mas as dificuldades de entendimento crescem quando se nos deparam pessoas que sentem prazer, não na simples morte, mas no sofrimento do animal. E são ainda maiores quando se trata de classificar os que, na Europa e em pleno século XXI, se comprazem em prolongar esse sofrimento, encenando-o e transformando-o em espectáculo - com bancadas, bilhetes pagos e a bênção de políticos ao mais alto nível.

Mas, felizmente, podemos recorrer à obra de um famoso marquês: não o de Pombal, mas o de Sade.

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Crónica de CMR, publicada no "Expresso" (1.º Caderno), em 31 de Agosto 2002.

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NOTA: Respeitando o princípio lusitano de que «se não se consegue combater uma ilegalidade, o melhor é autorizá-la», Jorge Sampaio resolveu o problema da forma como se sabe...

OS SONHOS DE OBAMA

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Por Maria Filomena Mónica

POR NÃO GOSTAR de Hillary Clinton, por desconfiar de Barack Obama e por suspeitar de John McCain, decidira não prestar atenção à campanha americana. Até que aconteceram duas coisas: McCain escolheu Sarah Palin para vice-presidente e li Dreams from My Father de Obama. Tendo declarado ao meu filho que achava a Palin cómica, admoestou-me, afirmando não compreender como, em vez de prestar atenção ao único candidato diferente, me entretinha a seguir as piruetas de uma mentecapta. O facto de ter sido ele, o mais anarquista dos seres, a obrigar-me a abandonar o cinismo, e não alguém da minha idade, não é despiciendo, uma vez que explica a maneira como Obama chegou à Casa Branca.

As memórias de Obama, Dreams from My Father, são uma espécie de bildungsroman, escritas aos 33 anos, ou seja, antes de ter entrado na política. Nelas, ele relata, sem auto-comiseração, a infância e juventude no Hawai e na Indonésia e, depois, aos 17 anos, a ida para o continente dos EUA. Por pretender que o filho admirasse o progenitor, a mãe, uma branca, contara-lhe histórias maravilhosas de África, o que fez com que o miúdo jamais tivesse sentido a raça como um problema, até porque, numa ilha com uma multiplicidade de etnias, tal era possível.

Há muito que leio memórias de políticos enquanto jovens, mas, se exceptuar My Early Life, de Churchill (uma obra cobrindo igualmente o período da juventude, mas redigida quando o autor ultrapassara os sessenta anos) não consigo lembrar-me de outro livro que se eleve acima das banalidades autoglorificatórias que os políticos têm por habito produzir. As memórias de Obama são uma obra-prima literária.

Até chegar à Universidade de Los Angeles, a sua identidade era de tal forma repartida que toda a gente o tratava por Barry, e não por Barack, nome que só adoptou após uma colega universitária lhe ter declarado que o último era mais giro do que o primeiro. Depois de ler a obra, passei a gostar do homem, o que, apesar do que dizem os apparatchicks, é importante. Admirei a sua insatisfação quando descobriu que não sabia a que grupo, étnico ou social, pertencia, como admirei o juízo revelado quando, após o ritual dos fuminhos – cannabis e cocaína – concluiu que a via hedonista o não interessava.

Só quem conhece os EUA compreenderá a sua conversão, tardia, ao Cristianismo. Filho e netos de ateus, Obama sentia um vácuo na sua vida, sentimento que a ausência de uma figura paterna contribuiu para agravar, tendo-se então convencido – o que é significativo – de que só através das igrejas conseguiria ter influência junto das comunidades negras.

Quando, após se ter licenciado por Columbia, decidiu ir para Chicago, o que o marcou foi a figura de Harold Washington, o Presidente da Câmara, negro, daquela cidade. Começou a pensar que talvez gostasse de fazer política. Uma das características da sua personalidade é a confiança em si próprio. Poderíamos imaginar que o jovem, que entrevimos através destas memórias, acabaria na delinquência, mas Obama quis sempre mais e melhor. Como explicou, «não nos podemos satisfazer enquanto a única forma de mobilidade social permitida aos negros for a mudança de um gueto pequeno para um maior».

Mais divididos do que nunca depois da guerra no Iraque, os americanos, brancos e negros, acreditaram em quem lhes dizia: «Yes, We Can». Numa época de pessimismo, Obama permitiu que os EUA pudessem exibir «a audácia da esperança». Há quatro anos, quando se apresentou à Convenção Nacional Democrática, era um senador desconhecido do Illinois. Nem os seus admiradores se arriscariam a pensar que, dentro de poucos anos, seria Presidente dos EUA. Mas foi isso que aconteceu. Porque, já então, ele o pensava.

Estou consciente de que o voto num homem carismático pode degenerar no populismo, mas o poder de atracção de Obama não reside em qualquer traço irracional, mas na serenidade. Por outro lado, o seu cepticismo quanto à forma de transformar o mundo levou-o a concluir que todas as intervenções, no seu país ou fora dele, têm de ser feitas lentamente. Desde cedo que desprezou «as pessoas que dão prioridade ao sonho relativamente à realidade, à impotência relativamente ao compromisso». Por muito estranho que pareça, dei comigo a pensar em Burke.

«GQ» - Fevereiro/Março 2009

Sarkozy e Chávez vão para a guerra

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Por Ferreira Fernandes

UM É CAMPEÃO conservador na Europa, outro é chefe anti-imperialista nas Américas. Na semana que findou foram vedetas dos noticiários e foram irmãos de armas, Nicolas Sarkozy e Hugo Chávez.
O francês fez um discurso em tom marcial, identificando imigração e delinquência e ameaçando retirar a nacionalidade a "franceses de origem estrangeira" envolvidos em crimes. O que trouxe para terreiro uma categoria de nacionalidade desconhecida - até agora não havia senão franceses, franceses (incluindo o filho de imigrante húngaro que chega a Presidente). Já Chávez absteve-se dos seus longos monólogos televisionados (no programa semanal Aló Presidente), mas encontrou uma fórmula melhor para chamar atenção. Depois de dias desaparecido, telefonou para a televisão pública VTV dizendo que lhe dá "tristeza e dor passar quatro, cinco e seis horas revendo planos de guerra." Entretanto, espalhou com grande alarido unidades militares na fronteira com a Colômbia.
Sarkozy diz palavras que podem incendiar o seu país. Chávez atiça a sua Venezuela contra os vizinhos. Não são doidos, nem um nem outro querem o que parece apregoarem. Acontece é que abriu a campanha presidencial de 2012, em França, e há legislativas em Setembro, na Venezuela. E essa bela invenção que são as eleições às vezes traz com ela um senão: passa a mão pelo pêlo ao pior que nós temos.
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«DN» de 2 Ago 10

domingo, 1 de agosto de 2010

O ruir de uma lenda antiga

Por Ferreira Fernandes

O JORNAL The Wall Street Journal dedicou um artigo a notas. E dedicou-se logo às maiores, de 500 euros. De 2007 para cá, desde a pré-crise, as notas de euro em circulação cresceram 11%, mas as de 500 cresceram 26%... O artigo explica que o aumento de notas de 500 ajudou a fortalecer o sistema financeiro da Zona Euro (tem a ver com uma coisa que se chama seigniorage, privilégio que têm os bancos centrais, com a qual não vos maço) mas também preocupa as autoridades policiais. A Europol (a agência policial da União Europeia) suspeita de boa convivência entre as notas roxas e os criminosos.
A nota mais alta de dólar é de 100, o que quer dizer, à conversão de hoje, que são precisas seis delas para valer o mesmo que uma só de 500 euros. Ensinou-me The Wall Street Journal: um milhão de dólares, em notas de 100, pesa 10 quilos, e o mesmo valor em notas de 500 euros só pesa 1,6 quilos.
De toda a história retive o seguinte: Frank Sinatra está inocente! Corre uma lenda de que o grande cantor, nos finais da década de 40, levou uma maleta (daquelas à diplomata) onde transportava dinheiro para Lucky Luciano, o capo da Máfia que vivia em Havana. Valores que a lenda repete: 3,5 milhões de dólares, em notas de 50. Ora isso dá em peso o seguinte (sei agora): 3,5 milhões, vezes o dobro das notas de 100 em notas notas de 50, vezes 10 quilos - igual a 70 quilos. Lenda falsa. Arquive-se.

«DN» de 1 Ago 10

A petrofonia

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Por Rui Tavares

PARECE QUE DEPOIS de amanhã [24 Jul 10] a Comunidade de Países de Língua Portuguesa se prepara para acolher como membro a Guiné Equatorial.

Num país e numa comunidade linguística em que o acordo ortográfico gerou e gera debate infindo, oposição estrénua e arrancar de vestes, a entrada da Guiné Equatorial na CPLP é uma coisa mais ou menos indiferente. O que é estranho, porque a língua portuguesa com mais ou menos trema ou consoante muda não continua sempre sendo a língua portuguesa. E mais estranho ainda, porque essa língua portuguesa pode ser muita coisa, mas não é a língua que se fala na Guiné Equatorial. À língua que se fala na Guiné Equatorial pode chamar-se castelhano, ou espanhol, mas dificilmente se chamará português.

Poderão dizer-me que houve uma decisão do governo da Guiné Equatorial em consagrar o português como língua oficial (sem que se note que essa decisão tenha mais influência do que estar escrita em lei — nada na Guiné Equatorial se fala ou escreve em português, se exceptuarmos uns quantos milhares de falantes de crioulo na ilha de Ano Bom). Mas acontece que essa decisão foi tomada por um ditador dos mais insanos e caprichosos, Teodoro Obiango, recorrentemente eleito por 95% dos votos no país de que é dono e senhor. E agora dizem-nos que a entrada da Guiné Equatorial é favorecida pelo Brasil, por Angola e por São Tomé por aquele país ter muito petróleo.

E aqui chegamos a outro ponto. Pretende-se que a CPLP seja uma comunidade de democracias (Angola esquece-se de fazer eleições como certas pessoas se esquecem de arrumar os papéis: para o ano é que é!). Pretende-se que essa comunidade seja assente na língua. Não tanto uma comunidade para onde entram ditaduras assentes no petróleo.

Se a CPLP está numa atitude expansionista, tem bem para onde se virar. Existe no extremo da Ásia um país que decidiu democraticamente reintroduzir a língua portuguesa: Timor-Leste.

Timor-Leste vem muito a propósito neste caso.

Em primeiro lugar por uma razão moral: quando a Indonésia introduziu ditatorialmente a sua língua naquele país nós protestámos, pelo que não podemos agora aplaudir a decisão de Obiango de introduzir ditatorialmente o português na Guiné Equatorial.

Em segundo lugar por uma razão tática. A geração pró-lusófona de Timor-Leste não dura para sempre, e a reintrodução da língua portuguesa não terá futuro a não ser que os países lusófonos façam o seu trabalho e dêem a ajuda que os timorenses pediram.

Em terceiro lugar por uma razão estratégica. Timor-Leste está numa região do mundo onde ainda há muitas comunidades influenciadas pela língua ou pela cultura portuguesa: na Indonésia, na Malásia, no Sri Lanka, para não falar da Índia. Essas comunidades não estão organizadas em estados, mas dispersas em rede. Muitos dos seus membros são governantes, ou pertencem às elites locais — o candidato da oposição à presidência do Sri Lanka dava pelo apelido de Fonseka. Não deve ser impossível estudar essas comunidades, saber onde estão, manter contactos regulares com elas. Talvez até compensasse fazê-lo numa das regiões mais dinâmicas do mundo.

Mas dá trabalho, lá isso dá. Trabalho que a diplomacia portuguesa deveria gostar de ter. Daria certamente mais gozo do que acolher caprichos de ditadores.
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