sábado, 23 de outubro de 2010

Passatempo de 21-23 Out 10 - Solução

Pág. 67
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Os 2 leitores que mais se tenham aproximado deste valor têm 24h para escreverem para medina.ribeiro@gmail.com, indicando morada para envio. O 1.º classificado deverá, também, dizer qual dos 2 livros prefere. O 2.º classificado receberá o outro.
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Actualização: se não me enganei nas contas:

1.º: Luís Bonito .. palpite 73 => erro de 6 páginas
2.º: João Rodrigues .. palpite 55 => erro de 12 páginas

Bem-vindos ao inferno!

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Por João Duque

A UNIÃO EUROPEIA tanto exige contas públicas sãs como aceita estas trapaças contabilísticas que só iludem ignorantes.

Paulo Trouxa, conhecido pelo "Pê-Tê" lá do bairro, morreu. Chegado às portas do paraíso, tem de escolher entre o céu ou o inferno, depois de experimentar um e outro durante 24 horas.

O dia no Inferno foi uma delícia: companhias femininas meio desnudadas com corpos divinos e sensações inesquecíveis; desportos variados; refeições abundantes, compostas por iguarias e bebidas nunca antes provadas; amigos em cavaqueira e animação constante, em festas de fim da tarde a desfrutar paisagens lindas; música alegre e estimulante; tudo limpo, arrumado e grátis!

O dia no céu foi sensaborão: anjos e mais anjos assexuados, cobertos por pudicas túnicas, a tocarem em harpa música tristonha a convidar à reflexão intimista; refeições ligeiras, acompanhadas exclusivamente por água, adequadas à paz do corpo e do espírito; vida monótona, sem alterações de cor, música, ritmo ou movimento; sensação de bem-estar que até chateia...

A escolha foi óbvia: "Quero o inferno!"

Regressado ao inferno entra num local horrendo: lixo por todo o lado, gente horripilante, suja e faminta, agrilhoada, a trabalhar arduamente sob um sol escaldante, num deserto de nada, a uma temperatura insuportável... Um inferno!

- Mas eu não escolhi isto! - gritou o Pê-Tê.

- Pois não - respondeu-lhe o Diabo - Antes estava em campanha, agora apanhei o teu voto! Too late, eh, eh, eh!...

O fundo de pensões da PT foi transferido para a gestão do Estado, passando igualmente para este a responsabilidade do mesmo. Se o negócio tivesse sido feito com uma seguradora, e admitindo que realizado ao justo valor, não teria qualquer impacto nos resultados do ano, porque os ativos transferidos (dinheiro e outros valores mobiliários) seriam iguais às responsabilidades futuras.

Como é feito com o Estado, tudo é diferente: a receção dos ativos é reconhecida como uma receita, e esquece-se os passivos. Isso será uma responsabilidade de outros... Como se não existissem!

Enganamo-nos, sob a batuta da União Europeia, que tanto exige que apresentemos contas públicas sãs como aceita estas trapaças contabilísticas que só iludem ignorantes.

Como o sistema de pensões de reforma vai colapsar a prazo, uma vez que se prevê um número crescente de pensionistas a serem suportados por um número decrescente de ativos, o equilíbrio do futuro será, inevitavelmente, feito à custa da redução das pensões. Em 2028, o número de pensionistas já será igual ao número de ativos, admitindo que Portugal vai conseguir manter os atuais, não se verificando nova hemorragia de emigrantes semelhante à dos anos 60, o que é muito provável, face ao triste crescimento económico que antevemos para a próxima década. Partirão os mais novos, os mais aptos, os mais enérgicos e produtivos. Ficarão os mais velhos e os mais dependentes.

E haverá condições para manter os compromissos destes novos quadros da PT para o futuro? Claro que não. Uma vez integrados, virá um dia em que o plafonamento das reformas será imposto, depois as reduções das pensões a escalões mais baixos, e por aí fora... Também não imaginava um corte nos salários...

Eu que já estou no inferno deste sistema de pensões do Estado saúdo os novos que aí vêm: Bem-vindos ao inferno!
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«Expresso» de 16 Out 10

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Ó Lua que vais tão alta

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Por Antunes Ferreira

DEFINITIVAMENTE, a tradição já não é o que era. Ao longo do tempo, a Lua serviu de inspiração a poetas e prosadores, condicionou as marés, equacionou os partos, influenciou a agricultura, alumiou as religiões; e as devoções. A nossa, pois que existe, só no sistema solar, uma caterva delas. A Terra, modestamente, possui só uma. Talvez por isso se farte de trabalhar diversificadamente. E convém não nos esquecermos que apenas tem dois quartos. Tudo indica, sem casa de banho.

Tome-se o exemplo do Portugal que somos. O Povo, essa entidade anónima, matreira e sabedora, que anteriormente cheirava mal dos pés e dos sovacos, dispensou-lhe sempre uma enorme atenção. A expressão andar na Lua cada vez é mais frequente. Cidadãos cumpridores dos seus deveres cívicos e maritais integram essa imensa mole humana dos lunáticos. Dos políticos, nem é bom falar. Não foi, porém, ainda possível relacionar a Lua com a crise ou a discussão do OE 2011. Não se desespere: lá chegaremos.

Do anedotário que ela motivou é melhor nem falar. O fado, como não podia deixar de ser, também a incluiu nas suas letras: enquanto Lisboa namora o Tejo, a Lua arrasta a asa ao Sol. Neste caso é uma situação perfeitamente platónica; quando ela se deita, levanta-se o outro. Era o caso da mulher-a-dias casada com um guarda-nocturno. Nos tempos em que os havia.

Quando Neil Armstrong desceu cautelosamente do módulo lunar Eagle e pisou o solo, fez uma afirmação que ficou para a História do planeta azul: «Este é um pequeno passo para o homem, mas um enorme salto para a humanidade». A missão Apollo 11 resultara em cheio; a Lua perdia a aura que até então a envolvera. Conta-se que uma senhora idosa da província comentara que não era verdade. Se o homem tivesse chegado lá acima, caía. Newton não diria melhor. A partir de então, o nosso satélite vulgarizou-se. Com directo na televisão e tudo.

Estava-se nisto, quando chega a notícia de que a Lua não é o planeta seco e desolado que se imaginava e a prova chegou após uma experiência da NASA que, nos finais do ano passado, fez embater contra a superfície do planeta satélite um engenho de 2,3 toneladas que libertou uma grande quantidade de água. Face a isto, os cientistas acreditam na possibilidade de construir na Lua um posto exterior permanente para a humanidade.

Mas não só a H2O que ali existe em cristais finíssimos resultou da explosão na cratera Cabeus. Uma sonda LCROSS seguiu o engenho e analisou os destroços do embate que causou uma cratera de 20 a 30 metros de diâmetro. O resultado deixou os cientistas da NASA eufóricos. A descoberta ultrapassou todas as expectativas. O solo lunar é mais rico e complexo do que os geólogos pensavam. Uma variedade de elementos pode ser ali encontrada. Prata, hidrogénio e mercúrio são alguns deles. O Senhor Júlio Verne persiste em ser profeta, quiçá maior do que Maomé.

E é isto. Vamos, a partir de agora, estar atentos ao que se seguirá. Minas enormes, face às também enormes potencialidades do subsolo lunar vão ser exploradas, espera-se que sem o dramatismo da chilena San José, em Copiapó. Deixem-me que vos diga: as imagens directas do resgate dos 33 mineiros enterrados a 700 metros de profundidade, pela cápsula Fénix, trouxeram-me à memória a alunagem.

Como se poderá dizer nos dias que vão correndo, face às descobertas dos segredos do nosso satélite, a quadra popular «ó Lua que vais tão alta; redonda como um tamanco; ó Maria traz-me a escada; que eu não chego lá c’o banco»?

Liberdade

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Por João Paulo Guerra

PORTUGAL DESABOU 10 furos para um 40.º lugar na tabela mundial da liberdade de imprensa elaborada pela organização internacional Repórteres Sem Fronteiras (RSF).

Desde que os RSF publicam a sua tabela, em 2004, esta é a cotação mais baixa da liberdade de imprensa em Portugal. E é caso para perguntar o que ganha Portugal com as mentalidades, os comportamentos, os tiques de arrogância e intolerância que determinaram a queda na classificação? Não ganha nada. Só perde num domínio que é pedra-de-toque da democracia e dos direitos humanos.

Os Repórteres Sem Fronteiras não fundamentam a causa do trambolhão que coloca Portugal vizinho da Tanzânia e da Papua Nova Guiné em matéria de liberdade de imprensa. Mas os "casos" do ano, referentes a Portugal em matéria de liberdade de imprensa recenseados pelos RSF são bem claros: o roubo de gravadores de jornalistas da revista Sábado por um deputado do partido do Governo e os processos judiciais contra o jornal Sol, nomeadamente movidos por um ex-representante do Estado na Administração da PT. Ambos os casos foram protagonizados por meteóricas estrelas do partido do Governo, cuja ascensão na escadaria do poder terá sido directamente proporcional ao trambolhão que terão dado na consideração pública.

O que é particularmente preocupante é que a queda da cotação do país na tabela da liberdade de imprensa acompanha a decadência acentuada do nível de vida dos portugueses. O que parece dar razão a quem pensa, diz e escreve que as políticas restritivas, que impõem sempre os mesmos sacrifícios à mesma maioria da população, são inseparáveis da restrição dos direitos e liberdades dos cidadãos. A senhora Merkl, paradigma dos governantes da direita neoliberal à esquerda envergonhada, já explicou o que é que anda por aí no rastro da austeridade.
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«DE» de 22 Out 10

«Dito & Feito»

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Por José António Lima

O DÉFICE DE 4,6% do PIB que o Governo se propõe atingir no Orçamento para 2011 é possível sem novos PEC, sem mais impostos, sem mais cortes nos salários?

E é credível quando o Governo é já o único a prever um crescimento de 0,2% e todos os organismos internacionais apontam uma recessão inevitável e um crescimento negativo que pode chegar a -1,8%?

«Tivemos o cuidado de uma prudência acrescida na previsão da receita», alega o ministro Teixeira dos Santos. Ora, a verdade é que, em 2009 como em 2010, este Governo e o seu ministro das Finanças falharam clamorosamente, tanto nas previsões das receitas como no descontrolo das despesas. E ocultaram deliberadamente esse facto aos portugueses.

Em 2009, recorde-se, José Sócrates e Teixeira dos Santos começaram por colocar o défice em 2,2%, subiram-no em Maio para 5,9% e assim o mantiveram obstinadamente até passarem as legislativas de Setembro. Como há dias salientava o economista Vítor Bento: «Chegámos ao final do ano com um défice que era quase o dobro do que fora divulgado pelo Governo até às eleições». O défice de 2009 ficou em 9,3%.

Em 2010, sublinhe-se, Sócrates e o seu ministro das Finanças estabeleceram a meta de 7,3% para o défice. Para a cumprir, já lançaram três PEC e, apesar disso, continuam a esconder o verdadeiro estado das contas públicas e o descalabro em que se encontra o défice.

No meio deste inadmissível apagão informativo, vai-se sabendo que o défice estava em 9,4% no final de Junho. E que a despesa do Estado continuou a crescer irresponsavelmente nestes últimos meses. Sem a cosmética dos 2.600 milhões do fundo de pensões da PT, o défice real de 2010 ficará - apesar dos cortes dos PEC e do aumento da carga fiscal - em valores próximos dos 9% ou 10%.

O jovem socratista Fernando Medina, chamado há pouco a substituir como porta-voz do PS o desaparecido Tiago Silveira, que foi rapidamente consumido pelas labaredas do cargo, vem agora dizer-nos que «o objectivo central é a aprovação de um Orçamento credível na redução do défice». Credível?! Com o passado recente de falhanços, omissões e mentiras do Governo, pensará que ainda alguém o leva a sério? A ele, a Sócrates ou a Teixeira dos Santos?
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«SOL» de 22 Out 10

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Juízes são pagos para incomodar?!

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Por Ferreira Fernandes

O PRESIDENTE da Associação Sindical dos Juízes diz que há uma perseguição dos políticos aos magistrados: "Estamos a pagar a factura de ter incomodado, nas investigações e no trabalho jurisdicional que fazemos, os boys do Partido Socialista." Temos assim que para o juiz António Martins o Estado português se explica como uma luta entre polícias e ladrões.
Cá de baixo, sinto-me pequenino. Amanhã, uns colegas do Martins investigam e processam um ministro ou um deputado, e vejo o acusado a responder à la Martins: "Eu não fiz nada! Esses procuradores e esses juízes é que se estão a vingar porque eu pertenço ao Governo [ou ao Parlamento] que lhes tirou 20% de subsídio de renda de casa." Bola de pingue-pongue é o que me sinto entre raquetas de chantagistas. Com uma diferença. Se os deputados no dia 29, aprovando o Orçamento do Estado, cortarem os tais 20% aos magistrados, estão a zelar pelas contas públicas. Bem ou mal, é discutível, mas fazem aquilo para que são pagos. Já o juiz Martins quando se refere à actividade dos seus escolhe um verbo peculiar: incomodar. Mas eu pago-lhes para incomodar?! Eu pago aos magistrados para investigarem os criminosos e condenar. Qual a lista dos deputados e ministros condenados? É que isso de incomodar não é de órgão de soberania, é de quem sopra acusações e depois nada prova. E a esses eu tirava 100% do subsídio de renda.
«DN» de 20 Out 10

Extintores

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Por João Paulo Guerra

CONTAVA o Diário de Notícias na edição de ontem que o Governo, no seu afã de exterminar algum Estado, se propunha extinguir nove organismos extintos.


Não é original. Já em Junho de 2002 o Governo de Durão Barroso determinou a extinção de organismos extintos. Anteriormente, em plena época pantanal, o Conselho de Ministros dera 15 dias para que os vários ministérios apresentassem uma lista dos organismos públicos que poderiam ser "extintos, reformulados ou fundidos". Porém, em cima da herança do Secretariado para a Modernização Administrativa "cavaquista", o "guterrismo" limitou-se a fundar o Programa Integrado de Formação para a Modernização Pública. Uma década depois, será possível saber o que ganhou e perdeu o Estado entre o SMA e o PIFMP? Aliás, permanecem essas e outras questões a considerar nesta missão de liquidação, dissolução, fusão e confusão de organismos.

A grande questão é que não houve ainda um exterminador verdadeiramente implacável de organismos excedentários na máquina da administração de um país com organismos a mais e serviços a menos. E por cada organismo extinto, o governo extintor, ou o seguinte, cria outros tantos, candidatos a extinção futura. Um dia haverá uma comissão de extinção de organismos do Estado, que não deverá no entanto confundir-se com a comissão de ex-organismos extintos, nem com a comissão de extinção de organismos em vias de extinção ou sequer com a comissão de pequenos e médios extintores.

Importaria era saber como é que estamos de ERCTIS? E de PECLEC? E que há quanto a SIGIC? E como vamos de POC? Onde pára o GTADS? O actual Governo propõe-se extinguir a Comissão para a Optimização dos Recursos Educativos. Será que o organismo, criado há dois meses, não substituiu convenientemente o GAE e o DAPP?
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«DN» de 21 Out 10

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Os culpados escapam sempre

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Por Baptista-Bastos


O ORÇAMENTO, aquilo que dele conhecemos, impõe-nos a obediência total a uma tremenda iniquidade. Falemos de servidão, afinal o que as circunstâncias favorecem: não podemos desobedecer porque o imposto de submissão, engendrado pelo Governo PS, abate-se sobre nós, e responsabiliza-nos sob a fórmula de "o interesse nacional". Expressão cuja lógica é a de comprometer toda a gente menos aqueles que, rigorosamente, são os culpados. O clamor de protestos que se escuta por aqui e por ali conduz-nos ao carácter relacional do poder. E induz-nos a reflectir sobre a sua natureza. No caso português, sobre a monstruosidade das suas aberrações.

A crise do sistema prolonga a argumentação deste Governo que não soube prever as condições históricas, nas quais o capitalismo se movia, e oculta as suas derivas e as suas incompetências com uma retórica "balsâmica". Ouve-se o primeiro-ministro e não se consegue descortinar onde está o "normal" e o "patológico". Mas também não distinguimos os objectivos de Passos Coelho, com o carácter das suas ofensivas sociais e a qualidade da democracia que diz defender. Que raio de democracia é esta, a de Passos, e aquela sob cujo paradigma temos vivido?

A encruzilhada na qual o País convenciona a sua perplexidade é bem pior do que a questão económico-financeira. É a ausência de alternativa. O Governo estrebucha. O PSD não serve. O rotativismo resultou neste imbróglio onde inexiste a racionalidade política, e as excrescências do improviso e as técnicas impositivas (para não dizer: repressivas) se sobrepõem aos próprios conceitos de democracia. Quando vinte por cento da população vivem abaixo do limiar da pobreza, e cerca de 600 mil portugueses estão desempregados; quando a nossa mocidade vai embora e licenciados ganham a vida nas caixas registadoras de supermercados, está estabelecida uma desapropriação social horrorosa. Goste-se ou não, foi-nos imposta uma forma de sociedade totalitária, sob a capa de "democracia de superfície". Nem o PS nem o PSD contrariaram a perda de valores e de padrões, comum à hierarquização do dinheiro que a nova ordem económica incutiu e estimulou.

As nossas sociedades actuais ainda dispõem das virtualidades, intrínsecas à ética republicana e à moral democrática? Em Portugal, muitos que beneficiaram da ruptura do 25 de Abril não são aqueles que pela liberdade se bateram e inúmeros perigos correram. Não há um destes, um sequer, que tenha três e quatro reformas; ou que receba, mensalmente, 3500 contos (moeda antiga) de pensão vitalícia e actualizada, por seis meses de funções numa poderosa instituição bancária pública.

Vê-se a dificuldade da questão. Mas alguma coisa tem de ser feita. Os bárbaros estão às portas de Bizâncio.
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«DN» de 20 Out 10

terça-feira, 19 de outubro de 2010

E depois?

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Por João Paulo Guerra

OS PORTUGUESES vão acabar por entender, perante esta etapa da crise e face à brutalidade das medidas de austeridade, que tanto lhes faz como lhes fez votar PS ou PSD.


As políticas dos dois partidos são idênticas, apenas divergindo em questões de luta pelo poder. O PSD não está em desacordo com o Orçamento do PS: está a fazer o seu número de prestidigitação para tirar um Coelho da cartola, ao mesmo tempo que procura que seja o PS a fazer o trabalho sujo, que lhe desbaste o caminho. Enquanto isto, o PS vai tentando diferenciar-se do PSD invocando a defesa do Estado Social, com o que poderá enganar mais uns tantos que acreditem que o Estado Social se defende com um Orçamento intermediado pelos bancos, que esmaga as famílias com menos rendimentos e aumenta as desigualdades. Atente-se neste pequeno mas significativo pormenor: o Governo que corta a direito, atropelando assalariados e pensionistas, justifica-se com a alegada escassez de meios técnicos para não carregar um poucochinho sobre as chamadas pensões douradas.

E depois há outro motivo de reflexão: de que vale aos portugueses votarem PS ou PSD se o País é depois governado pela direita radical europeia? Nunca como hoje a Europa foi tão uniforme na coloração política. E três dos governos que escapam ao redil, apesar das afinidades das práticas políticas - Portugal, Espanha e Grécia - estão sob terrível pressão para arrasar o que resta da Europa social. A direita europeia subiu ao poder sobre os escombros da política direitista dos partidos socialistas e social-democratas e agora tem o terreno desbravado para acabar com os derradeiros resquícios de direitos sociais.

E depois? Depois as Merkl e os Sarkozy nomeiam os seus regentes e os Pê Esses passam à história por umas décadas.
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«DE» de 19 Out 10

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Outonal

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Por Rui Tavares

DURANTE O VERÃO, Pedro Passos Coelho começou a parecer-se com o tipo que ganhou o euromilhões mas não teve tempo para levantar o prémio.

Semanas ou meses antes, com um empurrãozinho do caso PT/TVI, o poder ter-lhe-ia caído no colo. As sondagens eram boas, Pedro Passos Coelho teria chegado a primeiro-ministro se as eleições tivessem sido antecipadas naquela altura. Mas ele preferiu esperar que o governo “caísse de maduro”, no que aliás tinha o acordo da maioria dos comentadores da sua área política, ou preferiu “cozer o governo em lume brando”, como dizem os sabichões destas coisas, ou ainda, noutra frase também muito usada nestas ocasiões, “decidiu que não era o seu momento”.

Passos recuou quando era possível fazer cair o governo por causa de um caso político de interferência nos media, de grande ou plausível gravidade para a maioria do eleitorado, desligado da crise do euro, e que acima de tudo parecia ser responsabilidade exclusiva do primeiro-ministro. Pessoalmente, Passos Coelho tinha tudo a ganhar e pouco a perder, mas não teve aquele instinto matador que um político talentoso supostamente tem de ter. Só não precisaria de ter ficado em pânico depois.

Passado alguns meses, Passos Coelho tem aos olhos do eleitorado a mesma credibilidade que tem Sócrates — se pensarmos bem, até custa a crer que tenha caído tão rápido – a que se acrescenta a perene característica de qualquer líder do PSD: são todos tão nabos que parecem ter sido escolhidos na prateleiras da mercearia e não nas diretas do partido.

As sondagens são agora ambíguas ou mesmo más para ele e serão piores os resultados eleitorais se as eleições se derem após uma crise política na qual ele tenha responsabilidade pessoal. Essa crise política estaria diretamente relacionada com a crise orçamental, que certamente agravaria; num momento em que os “mercados” já desejam ver a situação do país como desesperada, Passos Coelho daria uma ajuda a que ela se tornasse efetivamente desesperada.

Acresce a isto que Passos Coelho provocaria esta crise chumbando um orçamento que parece feito de acordo com os desejos da área opinativa do PSD, mais do que qualquer outra. E achará ele que este é o seu momento?

Reformulando a pergunta: Passos Coelho não quis fazer cair o governo num momento que era de responsabilização mínima e ganho máximo para ele, e agora arriscaria fazê-lo num momento que é de responsabilização máxima e resultados mínimos ou até negativos? Não faz sentido. E, como não faz sentido, eu diria que não vai acontecer, e que Passos Coelho estará preparando por estes dias um recuo airoso. Para a próxima, poderá até poupar-nos ao drama preliminar, que só lhe dá a imagem de um líder intempestivo — ou seja, aquilo que o eleitorado já tem e não deseja.

De forma que a conclusão para Pedro Passos Coelho deveria ser, agora sim: este não é o seu momento. Nos próximos tempos ele terá de esperar. Também, que diabo, isto não é como ter perdido o bilhete do euromilhões premiado e não ter mais do que uma probabilidade infinitesimal de voltar a ganhar. Para mal dos nossos pecados, e de forma quase independente dos talentos que qualquer político tenha, quem for líder de um dois grandes partidos em Portugal arrisca-se sempre a chegar a primeiro-ministro.
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RuiTavares.Net

sábado, 16 de outubro de 2010

PIDE é a piza turca

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Por Antunes Ferreira

O AUTOCARRO passava em boa velocidade na estrada de duas vias de cada lado do separador central. É um itinerário principal, que os turcos vão construindo a partir do desenho inicial só com uma rodovia de ida e vinda. Liga Antalya à Capadócia, passando por Konya, a antiga capital. Sucedem-se estações de gasolineiras, penso que nunca vi tantas. E cartazes publicitários. Palavras complicadíssimas, a língua é tramada, entre as quais avulta PIDE. Será que por cá…

Perguntei ao guia, Olgun Doğaray, o significado e a ameaça de uma polícia política dilui-se: PIDE é a piza turca. Agradeci: teşekkűrederim, muito obrigado. Quem havia de dizer?... O homem é licenciado em filologia hispânica, começou a aprender Português em Novembro do ano passado, depois de anos a trabalhar com turistas de habla española.

Esteve em Portugal para o efeito. E fala com bastante correcção, por vezes entremeada de um portuñol que tenta corrigir logo. Chegámos à na Capadócia. Mais precisamente no sábado passado, ou seja, há oito dias. Amigos, familiares, conhecidos e correlativos tinham-me dito que a região era um espanto. E, numa altura como a que vivemos, em que não se pode acreditar em ninguém, nem mesmo em nós próprios, não é que tinham razão?

Graças a uma promoção de três empresas do ramo editorial, a minha mulher e eu decidimos avançar para a visita, claro, sem consultar o Senhor Presidente da República. Turquia é estrangeiro de fora – e de acordo com Sua Excelência, as férias dos lusitanos, ou seja, de todos nós, devem ser passadas cá dentro, incluindo, obviamente, o Allgarve. Porém, como sempre gostei de dar uma facadinha no poder e fugir aos ditames ou aos diktats, ainda que sejam made in Belém, fomos até ao ex-império otomano. Razão acrescida: este ano anda tivemos subsídio de férias e conto que tenhamos 13.º mês. Há, até, quem reze para que isso não fuja. Novenas em curso e abaixo-assinados no Facebook são o pão-nosso de cada dia.

Com 2011 não se pode brincar. Garante o Sol – o distinto semanário da nossa praça, não a estrela refulgente que nos ampara e ilumina – que o OE já está apurado. Se o jornal o disse – está dito. Habemus Orçamentus. Fumetto, bianco. Podemos, portanto, estar descansados. Já nem é necessário perderem-se muitas horas em São Bento. São dispensáveis muitas dores de cabeça no hemiciclo.

Em verdade, em verdade, deixem-me que vos diga. Sugestiva é a Turquia, onde hoje, depois dos solavancos e tropeções políticos, não se sabe se a Constituição foi alterada, não se sabe se quem terá aprovado as emendas estava legal, não se sabe como que as ditas emendas terão passado no Parlamento, não se sabe se este, antes da aprovação já estaria dissolvido, não se sabe como vai ser eleito o próximo Chefe do Estado, não se sabe se alguém sabe que não se sabe. Portugal é surrealista; mas não tanto.

Os outdoors continuavam a passar. ET MANGO diziam bastantes dentre eles. Nada a fazer; reincido na pergunta ao Olgun, licenciado em filologia hispânica. E ele, pacientemente, ET é carne, MANGO é churrasco, mas também pode ser churrasqueira. Aprender até morrer. Não posso esquecer-me de que por ali passaram sumérios, hititas, vândalos, gregos, romanos, e uns quantos mais, além de, evidentemente os já mencionados otomanos. E, naturalmente, o Senhor Kemal Mustafa Ataturk. Enfim, turcos, como as toalhas.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

«Dito & Feito»

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Por José António Lima

PASSOS COELHO tem dois desafios de vulto pela frente. O primeiro é imediato e terá que o ultrapassar nos próximos dias.

O líder do PSD já percebeu, ou já o fizeram perceber, que a ideia de chumbar o Orçamento para 2011 é politicamente suicida. E já compreendeu que a sua margem de recuo é mínima e estreita, depois de ter falado de mais e vezes de mais sobre o tema, radicalizando imponderadamente a sua posição e o seu discurso.

Agora, terá que revelar todo o seu talento político para dar o dito por não dito. Para não se afundar num voto irresponsável e afundar, com ele, o país. Até porque a única maneira de obrigar José Sócrates a pagar o desastre a que conduziu a economia e as finanças nacionais é forçá-lo a ficar no Governo nos próximos meses, enfrentando os protestos da crise, o aumento do desemprego, o descalabro anunciado do défice de 2011.

O segundo desafio de Passos Coelho é de médio prazo e bem mais complicado. A receita de Sócrates para compor o défice, com os seus vários PEC, abateu-se, uma vez mais, sobre os funcionários públicos. Mas deixou quase incólume o gigantismo do aparelho de Estado com os seus incontáveis braços (empresas públicas e municipais, institutos, fundações, gabinetes e seus derivados), onde se alberga a sua clientela, em milhares de empregos improdutivos - que são a sua última e intocável base de apoio partidário e eleitoral.

Ao despesismo deste polvo gigantesco de serviços e repartições clientelares, com empregos e mordomias à discrição (direito a carros e motoristas, despesas de representação, refeições e viagens bem pagas), juntam-se os gastos milionários com pareceres de juristas e advogados amigos, com gabinetes de comunicação e empresas de promoção de eventos, etc., etc.

Pior ainda: à colossal dívida escondida das empresas do sector público (da Estradas de Portugal à Parpública, da RTP à CP) somam-se os encargos galopantes da política socrática de atirar as despesas para gerações e anos futuros: dos juros crescentes da dívida aos custos imparáveis das parcerias público-privadas ou da factura dos fundos de pensões. São milhares e milhares de milhões de euros que manterão o défice de 2011 - e de 2012 e de 2013... - em níveis insustentáveis.

Como irá Passos Coelho no papel de primeiro-ministro, provavelmente já em 2011, resistir a este monstro despesista? Sabendo-se, ainda por cima, que o clientelismo partidário no aparelho de Estado não é só uma doença congénita do PS, mas também do PSD?
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«Sol» de 15 Out 10

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Virar tudo do avesso

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Por Baptista-Bastos

O PARADIGMA DE SOCIEDADE sob o qual temos vivido está a esboroar-se. E parece não haver resposta imediata para esta nova desagregação histórica. Em termos políticos somos herdeiros de um enredo corrompido que nos fez viver entre a opressão e o medo, o ódio e a resignação. Quem nos tem dirigido não possui estofo de estadista nem a dignidade de confessar a sua impotência. As últimas décadas são cerzidas com remendos, mistificações, ideologias esgotadas, sem nenhum dos dirigentes ter, alguma vez, apostado, seriamente, na verdade e na liberdade. Sem o menor rebuço nem a mais escassa repulsa, os governantes do PS e do PSD restauraram, nos últimos trinta e tal anos em que se sentaram no poder, o reino da indecisão, da infelicidade e da renúncia.

Os três ex-presidentes que foram ao Prós e Contras (RTP1, dia 11 de Outubro, p.p.) sublinharam essas características, e apenas nos incitaram a resistir e a procurar entender o mundo que nos foi imposto. Nenhum deles falou em resignação. Mas, como não estavam ali para pregar a virtude, nem para evocar excitações antigas, repetiram que a natureza do que nos acontece exige que impeçamos o mundo, o nosso pequeno, assustado e aflito mundo, de se desfazer totalmente. Como? De uma forma ou de outra disseram-nos que a "classe política" é um desfalecimento de causa, e que temos de nos haver e ungir com o que há. O que há, porém, é muito mau. Paciência, é assim.

O paradigma económico, social, político e cultural em que vivemos soçobra a olhos vistos. E ninguém analisa, explica e debate a origem do mal. Os nossos intelectuais mergulharam na nostalgia demencial dos seus insuportáveis universos e das suas angústias insignificantes, desligados das obrigações difíceis que, moralmente, lhes são exigidas. O jornalismo não explica porque não sabe. É penoso ler o que preopinantes impreparados escrevem sobre o que nos rodeia e, afinal, nos limita e escraviza. Os sinais do tempo não se reflectem numa imprensa pejada de comentadores do óbvio, notoriamente inclinada para um só lado da história. As televisões atingem os níveis da desonra. Não são, exclusivamente, "telelixo", constituem, em boa consciência, humilhações que nos infligem.

Soares, Eanes e Sampaio desconhecem como dar a volta ao texto no qual fomos enredados. A padronização do mundo, inculcada pelo capitalismo vitorioso, favorece não só o "pensamento único" (de que tanto se falou, há anos, com presunção e ignorância) como a democracia de superfície e a abdicação de pensar. Evidentemente, há perigos ocultos e ameaças latentes. Eanes falou nas explosões sociais inorgânicas que podem pôr em causa a própria definição de sociedade, tal como a entendemos. Pergunta-se: e essa não será a solução, virar tudo do avesso?
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«DN» de 13 Out 10

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Nonsense

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Por João Paulo Guerra

PORTUGAL no seu dia-a-dia é um permanente tributo à memória de Raul Solnado. Nos anos 60, quando Solnado gravou a História da sua ida à Guerra, Portugal travava uma guerra absurda e incompetente, que municiava os batalhões da Índia com caixotes de chouriços e dispunha cozinheiros e escriturários, armados com obsoletas espingardas Mauser, para enfrentar um eventual desembarque da Real Marinha inglesa que bloqueava o porto da Beira. A expressão "isto parece a guerra do Solnado" passou mesmo a ser um dos mais frequentes desabafos das tropas mobilizadas.

Desde então, Portugal tem feito um assinalável esforço por adequar a sua realidade ao nonsense de Raul Solnado. E o nonsense cada vez faz mais sentido em Portugal. Ontem mesmo, a propósito da crise, o secretismo dos Serviços Secretos vinha posto a nu no jornal Público: dificuldades de tesouraria, problemas financeiros, dificuldades operacionais. Admite-se mesmo o cancelamento de operações, o fecho de «estações» e despedimento de «espiões». Portugal, que já se tinha notabilizado no ramo ao divulgar pelos 230 deputados do Parlamento mais os incontáveis membros dos gabinetes parlamentares a lista dos agentes secretos, põe agora em letra de forma, ou se preferirem em caracteres, as misérias dos Serviços Secretos.

Solnado já tinha visionado este panorama pelintra e amador. "Cheguei à guerra do inimigo, bati à porta, a sentinela espreitou pela frincha e perguntou: ‘Quem é?". E eu respondi: "Sou a Maria Albertina". Malandrice. "O que é que queres?". "Eu venho cá buscar os planos da pólvora". E ele perguntou. "Trabalhas d' espia há muito tempo?". "Trabalho desde as 11".

A história do Solnado está à beira da realidade, com "espiões" a recibo verde a espiarem o inimigo a prazo.
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«DE» de 12 Out 10

O dia em que a perspectiva nasceu

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Por Nuno Crato

NÃO SE SABE qual foi o dia. Nem se sabe o ano. Há quem diga que foi em 1415 e quem afirme que foi em 1413. O dia célebre terá tido lugar em torno dessas datas. Terá sido então que o arquitecto e artista Filippo Brunelleschi terá pela primeira vez espantado os seus contemporâneos mostrando-lhes um desenho rigorosamente elaborado com os princípios da perspectiva linear.

Tal como relatou Antonio Manetti, que 50 anos depois escreveu uma biografia de Brunelleschi, o artista florentino estudou matematicamente a maneira de elaborar o desenho. Quis criar uma imagem que, vista de um ponto, aparecesse ao nosso olho muito semelhante ao objecto desenhado. Com esses estudos, fez desenhos e pinturas que os seus contemporâneos achavam estranhos. Habituados a ver as pessoas mais importantes aparecerem maiores, mesmo que estivessem mais longe, e a ver paredes e as portas desenhadas como rectângulos, os florentinos a quem Brunelleschi mostrava as suas representações ficavam espantados por verem as paredes e as portas aparecerem como trapézios. As linhas que sabiam ser paralelas apareciam nos desenhos e pinturas como linhas oblíquas, que pareciam convergir.

De facto, as linhas convergiam. Convergiam para aquilo a que se veio a chamar «ponto de fuga», pois é assim que as imagens tridimensionais se formam nas nossas retinas. Só que as pessoas da época não o sabiam.

Um dia — o tal dia! — Brunelleschi pintou uma imagem do que era o edifício mais famoso da cidade: o Baptistério de Florença. Fez na superfície um furo, de forma que se pudesse espreitar pelas suas costas. Colocou-se no sítio certo, em frente ao edifício e pediu aos amigos que espreitassem pelo furo com um só olho, observando o Baptistério. Em seguida, colocou um espelho em frente ao buraco, de forma que as pessoas vissem reflectida a tela por que estavam a espreitar. As duas visões eram praticamente indistinguíveis. O edifício estava tão bem pintado, e com a perspectiva tão bem desenhada, que observá-lo reflectido daquela posição ou observar o edifício tridimensional era praticamente a mesma coisa. O artista deu-se ainda a requintes. Na imagem que tinha pintado espelhou o céu, de forma que os observadores viam as nuvens em movimento, o que aumentava a ilusão.

Gosto desta história, pois ela explica como a descoberta da perspectiva linear foi um ponto de viragem nas representações renascentistas. A narrativa é rica, pois situa historicamente esta viragem da arte e salienta que foram os conhecimentos matemáticos de Brunelleschi, um homem que tinha estudado numa «escola de ábaco», que permitiram essa revolução. Mostra ainda que aquilo que é para nós natural hoje, na era da fotografia e do cinema, era na altura surpreendente. Conheço o edifício em Florença, tal como muitos milhões de pessoas em todo o mundo, e imagino a cena.

É claro que a realidade é mais complexa, que a perspectiva linear foi descoberta pouco a pouco pelos pintores do Renascimento, nomeadamente por Giotto, e que tem já antecedentes na arte grega, conforme mostram algumas referências de Platão aos cenários de peças de Sófocles e de Ésquilo. Isso tudo é certo, mas não abala em nada o poder desta fascinante história.

Estive há dias a ler um texto que «desconstrói» esta narrativa e fala da «construção social» da «construção da perspectiva». Não aprendi nada com essa crítica da «mística simplificadora da narrativa», que afinal não põe em causa a sua veracidade. Mas aprendi muito com a história. Vou continuar a contá-la.
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«Passeio Aleatório»- «Expresso» de 9 Out 10 (adapt.)

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Juros

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Por João Paulo Guerra

O FÓRUM NÃO GOVERNAMENTAL para a Inclusão Social considerou que 2010 está a ser o pior dos últimos 30 anos em Portugal em matéria de combate à pobreza.


É paradoxal porque o ano de 2010 foi proclamado pela Europa, da qual Portugal faz parte e à qual se submete, Ano de Combate à Pobreza e Exclusão Social. Dir-se-á que a crise caiu em cima do país de supetão, sem aviso prévio, não só impedindo o combate à pobreza e à exclusão mas impondo mesmo novas e mais duras medidas de austeridade. Mas quem o disse faltará á verdade. Porque a verdade é que Portugal anda de crise em crise e de austeridade em austeridade, moribundo pela doença ou às portas da morte pela cura, há duas ou três décadas e há cinco ou seis governos. E portanto nenhuma crise chega a Portugal de surpresa, como nenhuma promessa de tréguas na austeridade passa de pura e simples demagogia com fins eleitorais ou outros.

Quando no ano passado, no auge de um feérico calendário de três campanhas eleitorais, o Governo inaugurou «o início do fim da crise» sabia que a promessa valia tanto como aquela do governo e do partido que acenaram, nos anos 80, com salário para as donas de casa. Aliás, deitando a crise para trás das costas, o Governo interrompeu no ano passado um longo período de congelamentos salariais na administração pública, com aumentos que agora vão ser cobrados com juros usurários pelo Estado.

E é assim que no Ano Europeu do Combate à Pobreza e à Exclusão Social o número de pobres vai disparar no País, ao mesmo tempo que os talibans neo-conservadores vão continuar a influenciar as políticas anti-sociais, na Europa e em Portugal, e a acusar os pobres de constituírem a causa da pobreza. Perguntava Almeida Garrett quantos pobres são necessários para fazer um rico? Cada vez mais.
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«DE» de 11 Out 10

sábado, 9 de outubro de 2010

À tesourada

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Por João Duque

FACE A UMA injustificada descontinuidade no fornecimento das águas com que a companhia das mesmas brindou José Maria de Eça de Queirós, exigiu este ao digno diretor da dita (e membro do Partido Legitimista) a justa e equitativa contrapartida contratual.

A um previsto incumprimento no pagamento, tinha a companhia o poder de cortar, por contrato, o fornecimento de água à cozinha e ao quarto de banho de Eça.

Como contrapartida, Eça exige: "Para que o nosso contrato não seja inteiramente leonino, eu preciso, no análogo àquele em que V. Exa. me cortaria a canalização, de cortar alguma coisa a V. Exa. Oh! E hei-de cortar-lha!"

O senhor ministro Teixeira dos Santos incitou a oposição parlamentar a cortar alguma coisa em alternativa aos já previsíveis aumentos de impostos. Onde cortar 4500 milhões de euros ao défice orçamental de 2011?

Atemorizado, mudei de canal, protegendo a família de um previsível e repelente cenário de centenas de parlamentares, de tesoura em riste, a escortanhar em tudo e mais alguma coisa. E com tanto apêndice e penduricalho seco, inútil, mas consumidor, pelo país fora, imaginei tesouradas a torto e a direito a ferirem o mais íntimo da sensibilidade familiar, que olhos delicados não podem suportar.

Ai quereis cortes, pois aqui vão!

Do Orçamento do Estado dependem 13.740 instituições que compõem as administrações públicas. Só primos mais afastados, dependem do "grande irmão" 639 fundações, 343 empresas municipais, 1182 empresas públicas, 356 institutos públicos, 485 associações sem fins lucrativos, e ainda 166 outras instituições de classificação indefinida.

Deixo de fora as 5271 instituições que compõe a administração central, 5094 a local e 204 que completam a regional. Querem convencer-me de que todas aquelas instituições são essenciais à manutenção do Estado português e à realização do seu desígnio? E as PPP? E as SCUT, onde uns andam e não pagam e outros pagam e não andam?

Mas não houve ainda a coragem para se rever as pensões de reforma calculadas sob fórmulas erradas, com base em tabelas de mortalidade desadequadas, em taxas de atualização desconformes, generosas mas irresponsáveis, e que resultam na maior das injustiças sociais a que vamos assistir.

A geração que se vai reformar dentro de anos vai sofrer o que outros não são chamados a repartir.

Quem vir os seus salários agora amputados em 10% vai ver toda a carreira profissional futura amputada nesse valor, mas vai também ver afetada a sua pensão de reforma em continuidade!

Quando se reformar vai ser muito mais pobre do que os que se lhe anteciparam em circunstâncias semelhantes, apesar de terem descontado mais durante toda a carreira contributiva.

O Governo propôs agora significativos cortes e aumentos de impostos. Podia ser diferente? Sim, e não seria a mesma coisa!
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«Expresso» de 2 Out 10

Maldita a hora

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Por Antunes Ferreira

MAL ENTREI NO TÁXI, ainda ajustava o cinto de segurança pois me sentara ao lado do condutor, e lhe dizia o destino, saiu-lhe um «maldita vida» carregado de pontos de exclamação. «Essa agora, porquê? Queria uma ida ao Porto, ou, pelo menos, a Coimbra?» E estava a milímetros de o mandar encostar ao passeio, para sair do carro, quando ele explicou «nada disso, Senhor, estou só a lamentar a minha vida, estou farto disto, fartíssimo!...»

O homem afivelava um ar desgraçado, pior do que o tempo que fazia, mais carregado do que as nuvens quase negras que cobriam completamente o céu. Cautelosamente, avancei com um pseudo caridoso «a vida está má, tem toda a razão». A minha mulher, no banco traseiro, optara por um concordar de aceno de cabeça. E seguíamos pela Avenida da República, com as bátegas o trânsito estava, se possível, ainda mais caótico do que o habitual.

«Veja o Senhor: há dez anos que me meti nisto, amaldiçoada decisão, não aguento mais, chego ao fim do dia num feixe de nervos, ninguém me diga nada, a minha companheira que não abra a boca, senão é o cabo dos trabalhos!...» E gesticulava com a mão direita, a esquerda segurando o volante. Franzi o cenho. Deve ter notado, «não se preocupe, as mudanças são automáticas». Assenti, cheio de cagaço. Um homem é um homem, um gato é um bicho.

«Já tive uma vida boa, quatro lojas, três carrinhas de distribuição, empregados, motoristas, até um contabilista, um TOC como afirmava, que eu, a bem dizer nem sabia o que era, mas aceitava sendo quem ele era, homem sabedor de contas, de parcelas, de somas e diminuições, naquele tempo mais as primeiras, com os lucros, impostos e deduções. O sujeito tinha um primo, ainda que afastado, na repartição das massas, resolvia todos os problemas, fazia vista grossa, empochava uns trocos largos, naturalmente».

Timidamente, avancei: «e então, como veio para à praça?» Virou a cabeça, desta vez é que se enfaixa no carro da frente, «foi o divórcio, Senhor, e os sacanas das Finanças, a Senhora desculpe». E esta confusão, antes havia o “nada de confusões, ruas prós automóveis, passeios prós peões, agora é porra prá confusões, passeios prós automóveis e rua prós peões”. Se me consigo safar disto, vou a pé a Fátima e lá duas voltas de joelhos, juro!»

«Olhe este gabiru, colega de profissão - na tropa colegas eram as pu…, peço outra vez desculpa à Senhora, camaradas, eu até não digo palavrões, o Queiroz é que sim, os meus pais deram-me chá em pequeno – que fazem coisas destas, o gajo nem pôs o pisca-pisca, se calhar comprou a viatura sem eles, saiu-lhe mais barata!... Mas, eu já o lixo». Agarrei-me à pega, o Diabo podia tecê-las, o chofer apertava com o outro, passou-lhe um rente, «toma qué práprenderes, viu como eu o fo.., mais perdão minha Senhora, o tramei?»

Se soubesse e pudesse, começava logo uma novena ao Santo Padre Cruz, mas, chegávamos ao destino. Voltou-se para mim, a Raquel descera, abria o guarda-chuva, fiz as contas, arredondei bem os euros. «Muitíssimo obrigado, Senhor. E, ainda por cima, estes mentirosos aumentam o IVA, e diminuem os salários, as pensões, os subsídios e sei lá mais o quê. Até o cartão do Sindicato subiu. Agora que a sua Senhora já não ouve, são uns cabrões, é a puta da crise!...» No rádio do carro, certamente a pedido de ouvinte idoso, a Amália: « Maldita a hora…».

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Calçada tricolor na Av. dos Descobrimentos, em Lagos

100 anos e um dia

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Por Rui Tavares

PARECE QUE a Iª República cometeu o grande pecado de ser uma balbúrdia, — mas por oposição a quê? Pelos vistos, deve haver quem ache que o resto do mundo era, naquele primeiro quartel do século XX, uma espécie de pacífico jardim.

Não era; desde ocupantes de cargos eleitos a cabeças coroadas, do primeiro-ministro de Espanha ao arquiduque da Áustria, houve homicídios para todos os gostos naquela época. Não excederam, contudo, a morte massificada da gente comum; entre os anos de 1914-1918 — não tinha a nossa República quatro anos — houve simplesmente uma Guerra Mundial, neste continente e nas suas colónias. Quando essa Grande Guerra e a sua estúpida e inútil mortandade acabou, tinham acabado também vastos impérios: o dos Czares, varrido por duas revoluções e desmembrado; o Austro-Húngaro, despedaçado; e pouco tempo depois o Império Otomano. No culminar desse processo, fez-se o ensaio geral aos genocídios que seriam levados às maiores consequências nos meados do século XX europeu. A República Portuguesa lá aguentou, mas entre a Iª e a IIª Guerra Mundial nasceram o fascismo na Itália, o nazismo na Alemanha, e regimes seus aparentados — como a ditadura nacional em Portugal — um pouco por toda a Europa. Desfez-se o sonho da Sociedade das Nações. Como eloquentemente diz a historiadora Zara Steiner, esta foi a época em que — por quase todo o mundo e sobretudo na Europa — “as luzes falharam”.

Perante isto, — ou melhor, esquecendo isto — há gente que faz da leitura da Iª República uma única lenga-lenga sobre como os líderes políticos portugueses da época eram defeituosos. Pois eram. Sem querer ser preciosista, esse é exatamente o sentido da República: sermos governados por gente imperfeita.

Precisamente porque não existe gente perfeita, nem gente que herde a predisposição para governar vitaliciamente um país, o princípio republicano é o de que nem o nascimento nem a classe social devem vedar alguém de eleger e ser temporariamente eleito.

Isto é uma coisa boa, e uma coisa simples. Às vezes há coisas assim. É pueril alegar que ser governado pelo filho do rei da Casa de Bragança tivesse sido melhor do que ter sido governado pelos Srs. Teófilo Braga ou Bernardino Machado, mas quer o sentimento anti-progressista que rasguemos as vestes por cada vez que este país deu um salto político. Pelo grande gozo que é “irritar a esquerda”, pratica-se o contorcionismo da mioleira. Mesmo assim, o liberalismo continua a ser melhor do que o absolutismo; e a república melhor do que a monarquia, a democracia melhor do que a ditadura. Melhores porque regimes mais livres e mais iguais, mais próximos do princípio de que a sociedade se pode — e deve — auto-governar.

Isto não faz destes regimes isentos de críticas; mas fá-los certamente dignos de comemoração, dignos de serem lembrados em conjunto. Mas, lá está; Pedro Passos Coelho faltou ontem ao lugar onde se proclamou a República; como a direita portuguesa em geral faz por ausentar-se do 25 de Abril. É uma atitude de ignorância voluntária que só poderia desculpar-se se ao menos fosse clara e assumida.

Mas enfim, não se pode exigir vontade a quem não a tem. A melhor comemoração da República é viver querendo governar-nos a nós mesmos. Uns dias melhor e outros pior, lá vamos insistindo.
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RuiTavares.Net

JOSÉ SÓCRATES

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Por Maria Filomena Mónica

A PRIMEIRA COISA que se nota, ao observar o actual primeiro-ministro, é a opacidade do seu olhar. Por que motivo terá ele medo que alguém penetre na sua alma? Em parte, por viver num limbo em que aquilo que dizem os documentos não corresponde à realidade. Nasceu no Porto, mas os pais decidiram registá-lo como tendo o parto ocorrido em Vilar de Maçada; o seu apelido não é Sócrates, mas Carvalho Pinto de Sousa; após ter obtido um diploma em circunstâncias estranhas, ficou engenheiro. Infelizmente, há pior. Em tempos, assinou, na Guarda, projectos arquitectónicos que não eram da sua autoria; sem que se perceba a necessidade, no último Conselho de Ministros de António Guterres, alterou os limites da ZPE do Tejo; a forma como foi feita a adjudicação da obra da central de tratamentos de lixo da Cova da Beira levanta dúvidas; comprou um andar, na Rua Braamcamp, em Lisboa, por um preço menor do que outros com a mesma dimensão; finalmente, entre 1999 e 2002, não declarou os seus rendimentos no Tribunal Constitucional.

José Sócrates pertence a uma família pequeno-burguesa de Trás-os-Montes. O avô paterno, José Pinto de Sousa, trabalhava, em simultâneo, num estabelecimento funerário e na organização de festas religiosas. O pai, de seu nome Fernando, fizera a instrução primária na aldeia de Maçada, tendo continuado estudos num seminário de Vila Real, abandonado ao fim de seis anos, a fim de seguir o curso de Arquitectura no Porto. Em 1955, casara com Adelaide de Carvalho Monteiro, cuja família tinha dinheiro, uma vez que o pai desta, Júlio César, fazia parte dos «novos ricos» do volfrâmio. Aparentemente devido à vida nómada do marido, o casal separou-se, tendo o filho do meio, José, ficado a viver com o pai, na Covilhã, enquanto os outros ficavam à guarda da mãe, em Cascais.

A vida na Covilhã era pacata, demasiado pacata. Mesmo as noites passadas com os amigos no café, a petiscar, ou as madrugadas em que, sentado no chão, comia chouriços assados, o enchiam de tédio. Como de tédio o enchiam as aulas. Terminou o liceu, onde o pai ensinava Desenho, com uma média de 13 valores. Para ultrapassar a neura, leu algumas obras da biblioteca paterna, de E. M. Remarque a Bernstein. Em Coimbra, matriculou-se no recém-criado Instituto Superior de Engenharia de Coimbra (ISEC), por onde viria a obter, mais uma vez com nota medíocre, o grau de bacharel.

Tal injustiça deu-lhe um ódio vesgo à autoridade: passou a detestar os intelectuais, os meninos finos, os ministros. E a Covilhã, para onde teve de voltar. Aquele tédio taciturno tornava-o impaciente. Como diria, numa entrevista: «Aos vinte e um anos, eu tinha tirado o sétimo ano, tinha estado quatro anos em Engenharia, também não queria ser muito engenheiro, mas era melhor ser engenheiro do que não ser», após o que acrescentou: «Eu esperei que a vida me surpreendesse, esperei pelo meu Sol.» O astro chegaria. Mais tarde.

Antes de enveredar pela carreira política, a única experiência profissional de Sócrates foi como técnico da Câmara Municipal da Covilhã, para onde, na década de 1980, fora levado pelo pai. Era o «filho do Arquitecto», como lhe chamava o Eng.º Silvino Morão, o qual se escandalizou ao ver a indumentária – calças de bombazina vermelha e sapatilhas brancas – por ele usada quando chegou ao emprego. Em boa hora, decidiu vir para Lisboa. Com esperteza, era possível alcançar o poder, como depressa se apercebeu, ao ouvir as conversas do sótão de António Guterres. Depois, tudo – desde a eleição para o Parlamento aos cargos de secretário de Estado e de ministro – se passou de forma rápida.

A 15 de Julho de 2004, Sócrates candidatava-se à liderança do Partido Socialista. Os jovens do partido odiavam o clã Soares e estavam-se nas tintas para a luta anti-fascista. Ao fundador do Partido e sobretudo ao benjamim, João Soares, preferiam o rapaz que gostava de Mercedes antigos. O que um grupo de velhotes proclamara, em Bad Münstereifel, era, para eles, menos importante do que o facto do rapaz de Trás-os-Montes ter fumado hashish em Amesterdão. Numa entrevista concedida a um jornal da Covilhã, Sócrates foi claro sobre o que pensava das elites: «Há uma grande segregação que tem a ver com a origem e com a província. Não há a mesma igualdade de oportunidades. Isto quer dizer que as pessoas do interior, para se afirmarem na corte lisboeta, têm de ser muito mais talentosas do que as pessoas de Lisboa.» A 12 de Março de 2005, tomava posse como primeiro-ministro. Conquistara, por fim, a cidade. Infelizmente, não era Eugène de Rastignac.
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«GQ» de Outubro 2009

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Escola EB 2,3 Tecnopólis, de Lagos

O cão e a raposa

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Por João Duque

ERA UMA VEZ, no tempo em que os animais falavam, um bosque muito bonito onde habitavam em perfeita harmonia todos os bichinhos da região: coelhos e coiotes, galinhas e raposas, perdizes e cães de caça.

Um dia, os lenhadores que por lá passaram, deixaram uma tabuleta pregada numa das árvores da periferia com o seguinte texto: "Estado Social". E os animais começaram a chamar ao bosque Estado Social. Um dia resolveram eleger um dos animais para dirigir os trabalhos de limpeza e manutenção da floresta. Candidataram-se ao cargo a raposa e o cão.

A raposa começou a campanha prometendo que a floresta ia ser limpa sem requerer qualquer esforço, porque o vento, ao soprar como de costume, se encarregaria de varrer o lixo não sendo pois necessário que qualquer animal tivesse de levantar uma pata ou morder um saco de plástico. Os animais, delirantes, apoiavam as atraentes ideias da raposa sublinhando com vivas e olés as delícias apresentadas. Entusiasmada, a raposa prometia mais: "- Garanto que podemos ter manjares com que nem sonham e iguarias inimagináveis no Estado Social!" A bicharada, encantada, rejubilava com mais olés e vivas.

O cão, acabrunhado, e pressentindo que não era possível manter tais promessas, repetia a sua receita: "- Se trabalharmos muito talvez se consiga o necessário para nos mantermos. O bosque encolhe todos os anos e nem sei se amanhã vamos todos manter o Estado Social, quero dizer, o bosque que temos hoje...". Fez-se a votação. Ganhou a raposa.

A cada novo dia que passava a raposa continuava a proclamar o bem que se vivia no Estado Social, embora todos os dias caísse mais uma árvore e se reduzisse o Estado Social. Passados uns meses, o cão, entristecido e preocupado com a redução do tamanho do bosque, voltou a falar aos animais: "- Eu não sei se vamos todos ter o espaço e as condições que temos hoje no Estado Social. Talvez devêssemos rever as regras do bosque e pedir aos animais mais poderosos para começarem a procurar comida e refúgio fora do Estado Social..."

Os coiotes, amigos da raposa, furiosos, começaram por insultar o cão acusando-o de uma infame campanha contra a vida no Estado Social. Ele, cão, deveria saber que os seus pais lhe deixaram em herança o Estado Social que deveria manter com fé. Passados dias, com a chegada do inverno, o frio atacou cortante e sem dó. Para responder à crise provocada pela intempérie, a raposa mandou cortar metade do Estado Social para mandar queimar as árvores e com a fogueira aquecer os animais enregelados. O cão ainda bradou que tinha previsto que isso ia suceder e que o Estado Social era agora metade do que já tinha sido. Mas a raposa e os seus amigos coiotes começaram a rosnar dizendo que os seus ruidosos protestos atrairiam os homens que lhe trariam a morte.

Final da história: a) o cão, a bem da bicharada, conteve a ira e calou-se; b) o cão, a bem da bicharada, mordeu ferozmente a raposa, e expulsou-a.

Como devo concluir a fábula?
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«DE» de 7 Out 10

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

A efeméride grandiosa

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Por Baptista-Bastos

A I REPÚBLICA durou dezasseis anos, cercada por inimigos poderosos. A Igreja, as monarquias circundantes, as conspirações e os revanchistas ajuramentados foram insistentes e infatigáveis nas tentativas de demolição. A História faz exigências isentas de considerações afectivas, e as suas subjectividades não implicam a adesão passiva nem escolhas racionais. É impressionante o rol de problemas enfrentados, em tão curto tempo, pelo novo regime. No entanto, execre-se ou não esses anos tumultuosos, exalte-se ou verbere-se as decisões tomadas, uma evidência ergue-se entre as demais: aquela gente era virtuosa, possuía convicções e, cada uma a seu modo, consoante as origens de classe, tinha projectos para a pátria.

Entre as grandes fotografias da época, que Benoliel fixou para a eternidade, há uma que me comove particularmente. Um batalhão vai para a guerra, os soldados são muito novos, e há algo de grandioso na cena: correndo ao lado do namorado, uma pequena portuguesa despede-se dele com a dor e o susto reflectidos no rosto. Ele toca-lhe levemente no queixo, a ternura a invadir o espaço, impetuosa e sublime. Só quem não quer não vê aqueles gestos subtis e demorados, a atravessar o tempo e o silêncio. A imagem devolvida de uma República jovem, que contrapõe aos limites da idade o exacto poder da sua força.

Foi essa força que aguentou aqueles dezasseis anos extraordinários. Há mais biografia naquela foto de Joshua Benoliel do que a bibliografia até agora publicada, plagiada de uns e de outros autores e consagrada ao simbolismo de estar a favor ou contra. Naquele par de amorosos, a fazer lembrar, também, Marc Chagall, condensa-se a espessura de um certo barroquismo ascético nascido não, somente, da idade jovem mas, sobretudo, da possibilidade de uma crença que ressoa na aparente mudez da imagem.

A ida para a guerra de 1914-18 constituiu, porventura, o abandono da nossa inocência. E foi um acto político de extrema importância. Portugal, parado pela oligarquia, dominado pela superstição romana e pelo hissope, sacudia o corpo e caminhava impelido pela sua própria têmpera. É uma história por contar, fora das abjectas interpretações da Direita, um episódio paradigmático no qual avulta um estadista proeminente, do melhor que o País produziu: Afonso Costa.

O que a República realizou, entre convulsões, intrigas, guerras, guerrilhas e sangue derramado pertence ao nosso património comum. Num sentido global de modernidade, a República possibilitou escolhas afirmativas que têm resistido a tudo: omissões, calúnias, infâmias. Amiúde subscritas por "historiadores" sem vergonha, sem decência e sem moral.

(À memória de Carlos Ferrão, grande jornalista republicano)
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«DN» de 6 Out 10

Cabrais

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Por João Paulo Guerra

O PARTIDO Socialista está estranhamente silencioso em relação à tremenda desigualdade social que resulta desta visão de austeridade governamental que penaliza irremediável e drasticamente os mais pobres. Ou será que, à semelhança de outras osmoses e outros fenómenos miméticos, o PS também absorveu do PSD a Lei da Rolha?

Raras vozes socialistas, marginais, lá se manifestaram criticamente em relação ao draconiano plano de austeridade do Governo do PS. Henrique Neto, sempre ele, denunciou o facto de a austeridade governamental não tocar na gordura do Estado nem nos interesses da oligarquia. Jorge Coelho comentou que se o consumo vai por água abaixo nos afundamos na recessão. Retirado da política para a política dos negócios, Coelho é o que resta do PS que em 2002 contestou a austeridade de Durão Barroso, responsabilizando-a por transformar uma crise financeira numa crise económica. Como transformou. E Henrique Neto é um homem de grande independência, porque, ao contrário da generalidade dos militantes e quadros satélites do PS, não precisa dos favores do aparelho, não anda a abichar colocações ou empenhos. De resto, no PS, zero em espírito crítico em matéria social.

Quando o PSD de Passos Coelho aprovou formalmente a adopção de uma famigerada Lei da Rolha, o PS chamou estalinista à decisão. Mas o estalinismo tem bigodes cada vez mais depilados e disfarçados. A rolha estalinista do PSD será a rolha democrática do PS. E se no PSD ninguém pode abrir a boca em matéria de eleição presidencial, no PS todos têm que aplaudir a austeridade que, de corte em corte, vai acabar por cortar a base eleitoral do próprio partido. Mas em silêncio. Afinal, toda esta casta política que agora até dá vivas à República descende dos Cabrais do século XIX.
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«DE» de 6 Out 10

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Cabeças relativistas

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Por Nuno Crato

AINDA HÁ ALGUMAS décadas, sempre que se falava da teoria da relatividade e das suas previsões sobre a dilatação do tempo ou a contracção dos objectos em movimento, dizia-se que se tratava de pequenas modificações, impossíveis de verificar na escala quotidiana.

Einstein descobriu, por exemplo, que o tempo passa mais lentamente nos locais onde a gravidade é mais forte e nos objectos em movimento. Mas os efeitos previstos são muito pequenos. Por exemplo, se compararmos dois relógios, um junto ao mar e outro a mil metros de altitude, o mais baixo atrasa-se em relação ao outro cerca de três segundos em cada milhão de anos. E não se trata de um problema dos relógios. É o próprio tempo que anda mais devagar em locais em que a força gravítica é maior. Mas o efeito é muito pequeno. Para se notarem os efeitos previstos por Einstein, seriam necessárias velocidades perto da da luz ou então escalas astronómicas. A verificação experimental das diversas previsões revelou-se difícil, mas foi sendo conseguida aos poucos.

Fizeram-se experiências com relógios muito precisos colocados em satélites e com átomos e partículas em aceleradores. Quando se montou o sistema GPS, já foi necessário introduzir nos cálculos as chamadas correcções relativistas, pois os relógios dos satélites evoluem num tempo diferente do que se regista à superfície terrestre. Sem essas correcções, acumular-se-iam enormes erros na posição estimada e o GPS tornar-se-ia inútil.

Os relógios instalados nos satélites do sistema GPS são atómicos, baseiam-se na medida da oscilação de átomos de Césio ou de Rubídio. Têm uma precisão da ordem de um segundo em um milhão de anos. Só assim o sistema pode ser preciso. Sendo isto espantoso, em 2009 e 2010 conseguiram-se construir relógios atómicos empregando átomos de Alumínio que têm uma precisão muito maior: um segundo em 3,7 mil milhões de anos. Com relógios tão precisos seria teoricamente possível medir as diferenças de tempo provocadas pela gravidade da Terra em objectos à sua superfície.

A semana passada, num artigo publicado na revista “Science” (doi: 10.1126/science.1192720), um grupo de investigadores do Instituto Nacional de Standards e Tecnologia (NIST), dos Estados Unidos, fez precisamente isso. Usando relógios atómicos de átomos de Alumínio, conseguiram verificar as diferenças no tempo entre dois relógios situados apenas 33 cm um acima do outro. As diferenças de tempo corresponderam com grande precisão ao previsto pela teoria da relatividade.

Isto quer dizer que, com estes relógios, se nos pusermos de pé podemos verificar a diferença de tempo entre os nossos pés, os nossos joelhos, a nossa barriga, o nosso peito e a nossa cabeça. O tempo anda mais devagar nos nossos pés, que estão mais perto do solo, e mais depressa na cabeça. Mas não nos entusiasmemos. A diferença é da ordem de um décimo milionésimo de segundo ao fim de 80 anos. Nada que se perceba. Por isso, leitor, se sentir a cabeça a acelerar, não deite as culpas sobre Albert Einstein.
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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 2 Out 10 (adaptado)

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Gliese

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Por João Paulo Guerra

O GLIESE 581g, planeta rochoso que gravita em torno da estrela vermelha Gliese 581, na Constelação da Libra, tem três vezes a massa da Terra, gravidade suficiente para manter atmosfera, indícios de água.

O Gliese 581g é pois habitável. O problema é que fica a 20 anos-luz do planeta Terra. Caso contrário, seria um bom destino de emigração, agora que a Terra se está a tornar inabitável não apenas por razões ambientais mas também porque foi tomada pelos ‘talibans' neo-liberais.

Os terráqueos têm-se convencido que estão sozinhos no Universo e gabam-se de terem erguido várias civilizações que conduziram ao grau da civilização actual, a civilização. Mas eis que a civilização está cada vez menos civilizada e até já há quem defenda que isso de Direitos Humanos é relativo: haverá os Direitos Humanos que, sim senhor, são para cumprir; mas outros, são simples figuras decorativas, questões de forma, com zero de conteúdo. E esses serão os direitos sociais. Bem dizia um pensador norte-americano que, depois de vencer o comunismo, o capitalismo procuraria derrotar a democracia.

A globalização, ao fim de 500 anos de navegações a ligar os homens e a Terra, salda-se pela integração económica segundo as receitas do neo-liberalismo. E os homens comuns vão perdendo a esperança, perante um mundo desumano comandado por fanáticos do chamado mercado. Pelo caminho que as coisas levam, é fatal que a democracia - que já é posta em causa com total falta de pudor - a breve prazo seja arrumada no baú das tralhas do passado. Um país, o nosso, que corta com a mais absoluta crueldade no bem-estar dos cidadãos, investe ao mesmo tempo em equipamento de repressão policial.
Se ao menos Gliese 581g ficasse ali ao virar da esquina de um outro mundo...
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«DE» de 4 Out 10

sábado, 2 de outubro de 2010

Debaixo do braço

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Por Antunes Ferreira

ENTROU NO ELEVADOR da Glória com o DN debaixo do braço, como fazia antigamente para se identificar em encontro novidade com moça que pusera um anúncio para troca de opiniões, menina séria, de 29 anos, solteira, prendada, com bons meios de subsistência. Responder ao número 259-B deste jornal. Tivera diversas entrevistas com anunciantas, pois se elas eram femininas, umas mais sérias, outras menos prendadas, outras ainda depenadas de massas. Mas o meio utilizado para ser reconhecido era sempre o periódico.

Bons tempos esses, em que saía do emprego, depois de dar o até amanhã da praxe aos colegas e, sobretudo, ao chefe, não fosse o Diabo tecê-las, e se dirigia ao Príncipe Real, ao Jardim da Estrela, ao miradouro de Santa Luzia ou ao passeio em frente da igreja do Loreto, tudo lugares decentes, como a maioria das conversadoras anunciara que era.

Era, igualmente, solteiro. E adepto dos encarnados, naquele tempo vermelhos só os comunistas, que a Censura diligentemente cortava das notícias, crónicas e afins. Defensor do quem não é do Benfica, não é bom chefe de família, ainda que celibatário, bem tentava ultrapassar a limitação, mas os resultados não eram, de maneira nenhuma, empolgantes; nem sequer emocionantes, nem interessantes. Antes, pelo contrário.

Saiu da mesma forma como entrara: tentando aprumar-se mas falhando o objectivo. Uma vez mais, tal como lhe acontecera nas diligências matrimoniais. Do antigamente restavam-lhe as recordações, pouco cabelo, e o Diário de Notícias encaixado junto ao sovaco. Pouco, convenha-se, mas era o que se podia arranjar. A flor na botoeira murchara; os sapatos reluzentes da graxa cambaram; o colete de bombazina puíra-se; o chapéu de abas reviradas voara. Agora, chapéu só de chuva e de loja chinesa, dois euros e varetas para duas tardes.

Seguiu pela rua da Misericórdia, descendo para o Chiado, sabendo que arrastava um tanto os pés como o avô João, republicano visceral e membro do Ginásio Clube Português, depois de arrumados os pinos, os flique-flaques, as flexões, os plintos, os espaldares. Tal como com ele acontecera, o avô fora um especialista em encontros de qualidades, feitios e sabores bem variados. Até que num deles travara na Miquelina.

Coisa que ele não conseguira, ou seja, não lograra alcançar por mais que estivesse disposto a carregar no pedal verdadeiro. Continuara de diário sob a axila, de rosa – encarnada, que vermelha, etc. – na lapela, de brilhantina, de esperanças, de nada. Olhando para trás, não se referia à Santa Casa da Misericórdia, óbvio, mas para as traseiras da vida, só o Benfica lhe dera realmente prazeres.

Ainda vira jogar o Félix, o Moreira, o Bastos, o Melão e, claro, o Águas, o Zé Augusto, o Coluna, o Eusébio pantera negra, o bom gigante Torres, que falecera há umas semanas, e muitos mais. Hoje, o Roberto já não lhe dava tantas preocupações, mas continuava a pensar que oito milhões e meio fora um exagero, talvez agora o guarda-redes se redimisse do aviário que tinham sido os primeiros jogos.

Parou, finalmente, na esquina em frente da outra junto à igreja do Loreto. Aguardou, sem impaciência que o semáforo passasse para o verde, apagado o encarnado. Ora essa; já se podia dizer vermelho, mas o raio do hábito…

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

«Dito & Feito»

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Por José António Lima

TRÊS CONCLUSÕES, todas elas politicamente pouco abonatórias para José Sócrates, resultam desde logo do pacote de medidas anticrise anunciado pelo Governo.

A primeira é a de que o chefe do Governo andou a negar a realidade que todos lhe apontavam e a iludir os portugueses, durante mais de um ano. Adiando, até aos limites da irresponsabilidade pública, as inevitáveis decisões para combater o galopante défice das contas do Estado.

Só o fez em desespero de causa, depois de tudo e de todos os outros, forçado pela pressão das autoridades europeias, da incomportável subida dos juros da dívida portuguesa e do ultimato do seu desamparado ministro das Finanças. O país pagou um preço elevado por essa cegueira obstinada.

A segunda conclusão é a de que José Sócrates optou, como sempre, pelo caminho mais fácil. Aumentou impostos em Maio, volta a subi-los em Setembro e, ao invés de reduzir drasticamente o número de serviços, institutos, fundações, empresas públicas e municipais que tornam insustentável o monstro despesista do Estado, optou por empobrecer ainda mais o funcionalismo público.

Em vez de suprimir organismos, diminuindo o peso do funcionamento e das clientelas partidárias em centenas de serviços inúteis ou parasitários, preferiu aplicar a receita do costume a todos os funcionários públicos - tanto aos competentes e indispensáveis como aos improdutivos e excedentários - apertando-lhes ainda mais o cinto.

Os 2.600 milhões ocasionais do fundo de pensões da PT ou os mais de 2.000 milhões de impostos agravados esgotar-se-ão rapidamente. Mas o gigantismo despesista da máquina do Estado continua lá, intocado: em 2012 ou 2013 voltará a asfixiar a economia do país. E com encargos acrescidos de parcerias público-privadas, fundos de pensões para pagar, etc., etc. Sobem-se, de novo, os impostos?

A terceira conclusão é a da falência absoluta do discurso do Estado Social. Com pensões congeladas, abonos da família eliminados, despesas em medicamentos e saúde aumentadas, IVA a 23%, deduções fiscais reduzidas, rendimento social de inserção e subsídio de desemprego diminuídos - com tudo isto e muito mais Sócrates ou algum responsável do PS ainda terão a desfaçatez de insistir no discurso do Estado Social? Provavelmente, têm.
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«Sol» de 1 Out 10

Facilitismo e aldrabice

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Por Carlos Fiolhais

QUEM RECENTEMENTE acertou na mouche ao falar sobre a crise financeira e económica que o país atravessa foi Ernâni Lopes, o ex-ministro das Finanças e Plano do Governo do Bloco Central, dirigido por Mário Soares, que em 1983 recebeu o FMI: «Não tem a ver com taxa de juro, oferta de moeda nem finanças públicas. Tem a ver com qualquer coisa mais importante. Os problemas resolvem-se com estudo e trabalho e não com facilitismo e aldrabice».

Fê-lo pouco antes do anúncio pelo governo do PS dirigido por José Sócrates de medidas de aumento de impostos para todos e de redução de vencimentos dos trabalhadores da função pública. As palavras do ex-ministro não podiam ser mais certeiras. Com efeito, não foi há muito tempo que o IVA desceu e os salários subiram, por mera conveniência eleitoral, numa altura em que as crises nacional e internacional já eram mais do que visíveis (a primeira, para mal dos nossos pecados, mais antiga do que a segunda). O governo minoritário que resultou das eleições continuou teimosamente a negar a realidade. Foi facilitando o mais que pôde. E foi aldrabando até mais não poder. Por pressão externa e não por convicção interna, anunciou um PEC 1, depois um PEC 2 e agora um PEC 3, uma vez que a dívida continuava a aumentar. Num mundo em crise os outros bem podiam fazer de formiga, com a Grécia, a Irlanda e a Espanha a diminuírem os salários, que nós continuávamos a fazer de cigarra, como se o crédito fosse ilimitado. De facto, o mundo mudou. Mas o nosso Governo, contrariamente ao que se impunha, não mudou, e não fez a tempo o que era preciso fazer, que era estudar o défice e trabalhar para o diminuir. Agora, tarde e a más horas, parece ter acordado. E o Presidente do PS, António de Almeida Santos, que tinha sido colega de Ernâni Lopes no governo do Bloco Central (lembram-se de não se poder sair do país com mais de sete contos?), não encontrou melhor justificação para a mais recente ida do Governo aos bolsos dos contribuintes do que dizer que «o povo tem que sofrer as crises como o Governo as sofre». Se o povo não sabia, ficou enfim a saber que tem de partilhar as crises do Governo...

E o que diz ao PEC 3 o PSD, que tinha assinado o PEC 2 numa quase reedição do Bloco Central? O seu porta-voz António Nogueira Leite, de quem se fala para ministro das Finanças (fez o tirocínio como secretário de Estado das Finanças de Guterres), foi tudo menos coerente e credível. Embora defendendo os cortes nos salários, pediu com candura ao Governo para “reconsiderar o aumento do IVA, porque não é bom para as famílias". A diminuição dos rendimentos salariais é, para ele, boa para as famílias. Estas, encolhidas pelos apertos de cinto, continuarão decerto a sofrer as crises, mesmo que mude o governo que as sofre. E não têm grande esperança que o facilitismo e a aldrabice acabem se houver uma mudança governamental.

Poderia ser de outro modo? Dificilmente poderia. Uma sociedade não pode ser melhor do que a escola que a molda. Facilitismo, o termo que tão bem se adequa à política em geral, é também o certo para designar a política escolar, também ela de Bloco Central. Mostra-o, por exemplo, o caso do aluno que entrou na Universidade, com 20 valores, pela porta do cavalo das Novas Oportunidades. E aldrabice é a palavra justa para descrever uma situação em que se passam diplomas a certificar sabedoria e competências a quem é manifestamente ignorante e incapaz. Uma aldrabice pegada, como cada vez é mais claro.

Dei-me conta outro dia de que a palavra aldrabar, de origem árabe, não é conhecida no Brasil. Mas a prática é. Mário Pratas, o autor do dicionário de português europeu para brasileiros “Schifaizfavoire” (Editora Globo, 1993; o título deriva do modo como se chama entre nós um empregado de mesa), comenta: “Depois de morar algum tempo em Portugal você começa a entender de onde veio essa nossa mania de levar vantagem, de dar golpinhos, de enganar o próximo, de tirar proveito das situações. Está certo que os brasileiros aperfeiçoaram a aldrabice...”
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«Público» e «De Rerum Natura»