quinta-feira, 1 de julho de 2010

«A Quadratura do Circo» - O Queiroz que eu conheço

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Por Pedro Barroso

CUSTA SEMPRE bater num amigo. Sempre tive com ele o privar cordial e companheiro de alguém com a mesma formação e geracionalmente próximo.

Era eu já razoavelmente conhecido no mundo da canção e o Carlos, um pouco mais novo, debutava nos iniciados do meu Belenenses, o que nos aproximava sobremaneira. Ficou uma amizade tranquila, confirmada por encontros posteriores, onde ele me confidenciava do seu desejo de férias e sossego secreto num Algarve privado que me revelou. Mas onde talvez hoje não possa arriscar muito o passeio público, pois estaria sujeito a ouvir imprecações de menos nobreza a cada esquina, e insultos animosos de um qualquer pescador mais impulsivo.

Mas adiante; isso… foram confidências que não denuncio. E em nome da sua privacidade tem direito mantê-las.

Também eu sei o que custa entrar num sítio e ter de aturar um sujeito que nunca vimos, já bebeu demais, e nos trata por tu, só porque esteve na sétima fila de um qualquer concerto que dei há 20 anos em Santa Comba do Semicúpio. E nos bate nas costas como se fosse nosso amigo de infância ou mesmo irmão de longa data. E nos chateia o resto do jantar, sem ter objectivamente nada para dizer, só porque é insolente e grosseiro na sua etílica condição e calhou estarmos ali.

Mas o que me liga ao Carlos é tão distante já como o seu olhar superior e altaneiro, sempre posto num horizonte longe, indefinido, talvez ausente. Um olhar de iluminado, cientista e conhecedor que tem de contemporizar com a plebe assanhada e pobre, curtas pessoas de ideias pequenas, sem conhecimento nem saber para discutir as decisões doutas e autorizadas do grande Professor.
Passam-lhe por isso ao lado as críticas maldosas, feitas com acinte e aleivosia, por meia dúzia de energúmenos, ciente que está da sua suprema razão e de seu imenso saber. Olha em torno de si - com dificuldade, acrescente-se…- e, quando o faz, é apenas para pensar tão alto que todos nós conseguimos ouvir:

- Que importa o que dizeis? Para mim os cães ladram e a caravana passa.

Já nos idos de oitenta, quando privávamos diariamente com a humildade de um laborar conjunto e a intimidade do desabafo, dia a dia, anos seguidos, no Liceu de S. João do Estoril, o Carlos era assim. Tranquilo, educado, correcto, cordial; mas um tanto inseguro, defensivo, elaborado, meticuloso, gestor de palavras e projectos, investigador, evasivo, contornante.

Vínhamos ambos de um INEF, onde ambos tínhamos sido alunos de topo com três anos de diferença, mas a minha vocação de autor e poeta sobrepôs-se à minha ambição monetária. Aí, assumi causas, escrevi combate, abracei a vida difícil de músico e compositor, arrisquei opinião, defendi a cultura convivida e esqueci-me dessa secreta ambição que me poderia ter dado fortunas impensáveis e colossais. Acresce que fui ainda “colega” - uns mais novos, outros mais velhos…- de Jesualdo, Vingada, Mourinho, Caçador, etc. por aí fora.

Coube-me ainda, por acasos da vida, vir a ser professor dos internacionais irmãos Xavier, precisamente no sítio onde fui professor e colega de Queiroz.

Tudo isto para justificar que ainda tenho os galões e sei dos livros. Bem podia ter sido treinador, tivesse a vida virado por aí… Não fui. Mas sei do que digo, quando ainda hoje falo de Fisiologia do esforço, treino físico, táctica e técnica de jogo, motivação, etc.

Por isso me sinto autorizado a dizer que falhaste.

Depois daquela geração de ouro, com que foi fácil ser campeão do Mundo de juniores, havia que sedimentar outra densidade humana e outra leitura alta para… frutificar.

O tecido humano de uma equipa de futebol a alto nível é ainda vaidoso, inconsequente irreverente, difícil. Os jogadores de topo são normalmente jovens ricos e mimados, com todos os defeitos da imaturidade; mas há outros que entretanto começaram a aparecer com um discurso adulto, assente em muito saber e experiência e já não admitem ensaios nem improvisos. Já foram treinados por pessoas e métodos muito variados e sabem num minuto avaliar a segurança e o valor do seu comandante.

Eu também tremeria se visse o dentista enganar-se, trocar os instrumentos e dar ordens contraditórias. Tudo isto para dizer que um treinador não escapa ao olhar crítico, não só da massa associativa, como dos próprios jogadores. E todos pensam, avaliam, julgam.

Ora uma representação nacional é uma montra do país. E a massa associativa são todos os portugueses. Que, aliás, são eles a pagar - e bem, ao que parece…- o servicinho…

As tuas equipas Carlos, tornam-se um pouco aquilo que tu és.

Se queres transmitir que não sofrer toques no gilet já é triunfo; se achas que defender, para não sofrer humilhação, é uma forma de vitória; se admites que é preferível empatar a zero a arriscar a estocada que nos expõe; se queres ganhar sem risco, através de alguma cartomancia ocasional; se preferes convocar 18 jogadores com características médio/defensivas em cada 23, muito bem.
Isso és tu. Tal qual te conheci.

Continuas temperamentalmente na mesma. Cauteloso, ponderado, estudioso.

Mas no futebol de competição e de selecção nacional - e dispondo, como dispunhas, dos melhores e de todos os meios à disposição para fazer um enorme Mundial – há que arriscar a glória, para não sair por falta de coragem.

Ser agressivo, objectivo, ambicioso. E desportivamente astuto, líder, entusiasta, galvanizante. E, ao nível de grupo, companheiro, amigo e confidente, criando empatias totais, emocionais, sinceras com os jogadores. Coisas que nunca mostraste.
As tuas convocações, as tuas estratégias, as tuas substituições, os teus jogos ocultos - que transparecem, Carlos, desculpa, mas transparecem demais e são evidente falta de alegria no seio da equipa…- foram quase sempre negativos.

Mas há mais.

As lesões convenientes do Ruben, para não levantar mais polémica; do Nani, por mistério interno que ninguém sabe mas, sem nunca haver boletim médico, tudo indica que foi por forte falta disciplinar não assumida; do Deco, nitidamente por espírito de vingança, o que é feiíssimo.

As ordens do banco, as palestras de intervalo, as escolhas tácticas, as trocas de jogadores - que nem eles próprios aceitam, nem compreendem; o rigor oculto por um sorriso farisaico, para que tudo pareça controlado, quando o que está a ver desenvolver-se todos os dias é revolta e discordância…

A obsessiva tendência defensiva, as indecisões infantis em lugar e momentos chave. Precisar de municiar atacantes com passes a rasgar, largos e imaginativos e manter o Deco no banco, por birra, é infantil. Ver os ataques passarem por trás do R. Costa, pois não é bem um defesa direito, e ter dois defesas direitos no banco, é, no mínimo, ou teimosia ou autismo. Insistir no Pepe sempre Pepe para destruir, quando se sabe que ainda não pode estar a 100%...

Mas há ainda mais.

Precisar de atacar e retirar avançados. Deixar as linhas de defesa e médias próximas e desterrar lá para a frente os sacrificados pontas, sem apoio, nem bola, nem municionamento à vista, a vinte metros de distancia, dependendo das explosões de Fábio C. ou de outros eventuais e raros passes a rasgar, sempre fora do desenlace pretendido. Não estruturar ataque. Não se ver uma construção apoiada e consistente de teia de jogo, vivendo do génio e inspiração de cada um. Não incentivar ataque.

Não apresentar um único esquema de livre estudado, em tantas ocasiões que se prestavam para experimentar. Idem também não haver combinações visíveis na marcação de cantos.

Outra coisa.

Ronaldo lá por ter sido o melhor, - se calhar… coisa boa e má, por prematura, que lhe aconteceu… - não deixa de ser um jovem mimado que bate na relva em fúria quando as coisas lhe correm mal. Capitão de equipa? Nunca. Capitão era o Coluna, ou o Germano. Caramba! - Bastava um olhar reprovador e o colega enfiava-se pelo chão!

E já agora… Motivação psicológica de balneário era …aquilo?

“Portugal ganhar - Portugal ganhar??!”

Aquilo é pobre e bimbo, Carlos. Não está ao nível da tua formação académica, rapaz! Um discurso patriótico, iluminado, transbordante de História e força, entusiasta - tipo egrégios avós e às armas, talvez! … Agora “Portugal ganhar - Portugal ganhar??!”

É fraquíssimo, é pimba, motivacionalmente nulo, quase regressivo, infantil, sem criatividade, nem slogan, nem eficácia. O Deco fez muito bem em virar costas.

Eu faria o mesmo. Achava ridículo.

Outra coisa, embora mais subjectiva, mas lá vai. Convocar o Castro e o Costa e não levar o Carlos Martins, nem o Ruben, nem o Moutinho?! Convocar o Daniel não sei que e não convocar o Quim?! Há para aí alguma embirração escondida? Este não é um interesse nacional acima de quaisquer ódios caseiros, como tanto proclamaste?

Portugal não podia ganhar sem atacar. Ficar à espera que Ronaldo “aconteça”, sem apoios, nem ataque estruturado, é mau para ambas as partes e nunca vai acontecer.

Tal como o superlativo bloco defensivo que desenhaste, há que construir um bloco enredante e ofensivo que terás de imaginar. Ou alguém por ti. Com espontaneidade e alegria criativa. Que é uma coisa que não incutes, com esse ambiente, nem com esses escassíssimos e espartilhados atacantes, em lugares e funções de que não gostam, e onde não são rentáveis.

Para dirigir uma selecção de um Pais é preciso o estudo, a calma, a cultura e ponderação que inegavelmente possuis. Mas é preciso a ambição, o golpe de génio, a raiva, o combate, a capacidade motivacional, o cuspo, o grito, o abraço sincero e a agressividade atacante que inegavelmente sofreias.

E a relação humana com os jogadores, não sei, Carlos, porque ninguém sabe.

Mas cheira que não pode ser boa. Eu, se fosse internacional, declarava a minha indisponibilidade já amanhã, pelo menos enquanto andasses por lá.

Uma pequena e persistente fissura na clavícula impede-me de ser mais explícito.

Mas a essa cura-se, mais semana menos semana.

E tu se calhar também continuas - ou não - mais milhão, menos milhão.

Sempre ao dispor,
O meu abraço amigo,

Pedro Chora Barroso
Licenciado em Educação Física
Post grad em Psicoterapia Comportamental

PS – se a FPF me quiser contratar, como Consultor animador, Especialista motivacional e Analista comportamental para dinâmica de grupos… estou ao dispor na volta do correio e muito obrigado. Quaisquer 50000€/mês e fecho contrato.

Passatempo-relâmpago de 1 Jul 10

Solução da 1ª fase: trata-se de um tripé, uma peça de artesanato em madeira que comprei num mercado de rua, no Congo Brazzaville. Os 3 pés parecem feitos de uma peça só, engenhosamente imbricados.

Não, não e não!

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Por João Duque

PEDRO, O APÓSTOLO fundador, era a rocha de Cristo. Mas apesar disso também ele o negou três vezes. O primeiro-ministro José Sócrates levou o Estado a usar o pequeno lote de umas míseras 500 acções, a votar contra a vontade de 74% do capital da PT, invocando que "esta oferta não cobria os interesses da Vivo para a PT".

Já há umas semanas atrás, o primeiro-ministro José Sócrates havia ameaçado e parecia que, pelo menos à partida, a ideia "não" lhe parecia entusiasmante, uma vez que afirmou que se há ‘golden share' ela é para ser usada quando se achar conveniente.

Dias depois, a comunicação social dava conta que a Caixa Geral de Depósitos terá recebido indicações para "não" apoiar a proposta da Telefónica.
Agora, o representante do Estado, dando uso ao poder da ‘golden share', disse "não" à proposta da Telefónica.

Há vários regimes societários e que sugerem vários tipos de decisão colegial, de entre os quais destaco: o voto democrático usado nas cooperativas, e o voto com base em capital. O que distingue os primeiros dos segundos é haver ou não proporcionalidade de quota no peso do voto. Enquanto nos primeiros cada cabeça tem um voto, nos segundos, o voto depende do capital.

Em sociedades desenvolvidas e em que se cultiva o apreço pelos outros, entende-se que a votação maioritária define o interesse da organização, uma vez que afasta a possibilidade de uma minoria instrumentalizar o património colectivo para seu interesse.

Agora assistimos à posição sui generis da vontade de um se impor à vontade da larga maioria, contada quer em termos de capital, de cabeças ou de qualquer outra métrica.

O argumento de que esta oferta não cobre os interesses da PT quando 74% do seu capital vota a favor, transforma os actuais accionistas da PT em crianças menores, irresponsáveis e incapazes de defenderem o seu interesse. Ou será que a PT não é dos seus accionistas? Será que a PT tem outros desígnios que nós desconfiamos, que nós antevemos, que nós acreditamos, mas que não conseguimos provar?

E agora pergunto eu, não seria muito mais útil à empresa, aos accionistas e ao mercado que o Estado tivesse anunciado a sua firme intenção de usar a ‘golden share' para destruir o negócio, logo após ter tomado a decisão, do que deixar passar o tempo, deixando criar instabilidade na empresa e no mercado, deixando os especuladores à rédea solta, e até evitando perdas de tempo e arraiais e cenas tristes de um país e de um Estado que não faz a mais pálida ideia do que é o capitalismo?

A menos que esta atitude sirva para convencer alguém do valor da ‘golden share'. No dia seguinte a esta decisão o mercado vai dizer quanto valeu esta decisão e quanto vale a ‘golden share': basta comparar a capitalização antes com a mesma depois desta decisão...

Negar três vezes é atitude maldita. Pedro arrependeu-se e foi perdoado, mas será que o mercado o vai fazer ao Estado português?
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«DE» de 1 Jul 10

Grandezas

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Por João Paulo Guerra

BASTAVA QUE EDUARDO não tivesse defendido para a frente, de onde é mais provável e fatal a recarga, e que Puyol tivesse convertido aquele auto-golo que esteve iminente, e neste dia e a esta hora os portugueses não davam pelo facto de o aumento dos impostos ter arrastado o aumento dos preços...


Bastava que Eduardo não tivesse defendido para a frente, de onde é mais provável e fatal a recarga, e que Puyol tivesse convertido aquele auto-golo que esteve iminente, e neste dia e a esta hora os portugueses não davam pelo facto de o aumento dos impostos ter arrastado o aumento dos preços, para além dos preços que aumentaram por dinâmica própria, o que, conjugado com a perda de apoios sociais, o congelamento ou contenção dos salários, o desemprego, o trabalho precário, a restrição ao crédito, está a fazer da vida dos portugueses um inferno.

Sintomaticamente, no dia em que terminou o chamado "sonho africano" da selecção da FPF - uma expressão institucionalizada que tresanda a neocolonialismo - as notícias sobre a vida de aflições dos portugueses retomaram a sua dimensão e projecção reais. A vida de dificuldades dos portugueses leva famílias a cortar na escola e na saúde; o medo faz disparar a poupança das famílias; só um terço dos portugueses vai para férias este ano.

Lá fora, em países que voltaram mais cedo da África do Sul, na França dois milhões manifestaram-se contra o aumento da idade de reforma e a Grécia parou com a quinta greve. E em Itália, um milhão de pessoas nas ruas deu maior expressão a uma greve geral. Mesmo em Espanha, carrasco de Portugal no Mundial, a greve do Metro paralisa a capital. Ou seja, com ou sem futebol a cidadania e a intervenção pública dos cidadãos não param. Mas o português é superior a essas ninharias.

Cá por casa, depois de andarem umas semanas embalados por manias de grandezas que não têm, os portugueses vão ficar mais uns tempos a discutir o que falhou na táctica ou na composição da equipa. E depois, com este calor, há sempre a frescura da água do mar ou a sombra de um centro comercial.
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«DE» de 1 Jul 10

A queda de um anjo

Por Ferreira Fernandes

DO PONTO DE VISTA dramático, foram grandes momentos. Em A Queda de Um Anjo, Camilo mostrou-nos menos. Calisto Elói também caiu do céu aos trambolhões, de fidalgo minhoto austero a politiqueiro na capital, mas ele próprio não deu por nada.
Mais intensa que a do romance de Camilo foi a queda de Cristiano Ronaldo, ontem. Porque o próprio deu por isso. É cruel como as câmaras filmam tão de perto. Ontem, o palco, além de mundial, era especialmente dos seus dois países - do seu, seu, e o de onde ganha a vida. Um olhando-o como o capitão da esperança, outro, desejando que ele falhasse. E Cristiano Ronaldo sabe que falhou. Quebrou-se a magia, tal como ele vai confirmar nos próximos estádios espanhóis onde vai exercer, agora como mais um. Mais um que ele não é, porque Cristiano Ronaldo é um jogador excepcional (embora tivesse ficado a saber, ontem, que não é um anjo).
As cenas dos próximos capítulos podem ter destinos divergentes: a queda ter-lhe dado a humildade com que os bravos reconstroem a vida ou ter-lhe dado a convicção de um azar do caraças andar a persegui-lo nos grandes momentos. Esperemos todos que ele vá pela primeira via. Em todo o caso, a queda deste anjo protagonizou ontem o único grande momento. Agora que se passou a jogar a feijões não me peçam que olhe o futebol senão com crueza: uma equipa boa ganhou a uma equipa razoável, mais nada.
«DN» de 30 Jun 10

quarta-feira, 30 de junho de 2010

A propósito dos jogos "mata-mata" - Solução


1091 gramas
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1 - Passatempo normal: Quem mais se tenha aproximado do valor correcto tem 12h, a partir de agora, para escrever para medina.ribeiro@gmail.com indicando qual dos 2 livros pretende e morada para envio.

2 - Passatempo surpresa: Quem mais se tenha enganado (excluindo o leitor anterior, pois podia dar 2 respostas) tem 12h, a partir de agora, para escrever para medina.ribeiro@gmail.com indicando morada... e receberá o outro.
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Actualização (20h04m): desta vez, não foi preciso fazer grandes contas.: Luís Bonito pode escolher o livro que pretende, e R. da Cunha receberá o outro.

O Discurso da Ambiguidade

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Por Baptista-Bastos

PEDRO PASSOS COELHO falou, com amenidade, acerca das alterações ao programa do PSD, que pretende intentar. Acentuou que o mundo está em mudança e que o partido, naturalmente, tem de acompanhar o mundo e a mudança. Para aviso das almas mais sobressaltadas esclareceu que Sá Carneiro, na "sua época", chegara a afirmar que o SPD alemão (o de Willy Brandt) era o seu paradigma e o molde que desejava aplicar ao partido que fundara. Neste momento, Passos Coelho sorriu levemente, e informou ser a CDU germânica o actual arquétipo do actual PSD, reconhecendo, assim, que caminhava, desenvolto, com os tempos novos. (Para os esquecidos, a CDU era o partido de Franz-Josef Strauss, o "toiro da Baviera", e um dos políticos mais reaccionários e perigosos da Europa daquele tempo, um paladino da Guerra Fria e do confronto sem concessões. É, também, o partido de Angela Merkel).

Não me parece que, actualmente, este seja o exemplo mais apropriado de partido e a ideologia mais adequada para enfrentar os nossos dilemas. Há dias, confidenciei, a um amigo comum, que Passos Coelho está a falar de mais e a não dizer rigorosamente nada.

O novo presidente do PSD está a encaminhá-lo para as zonas dos objectos perdidos, no propósito (acaso sem intenção, o que é pior) de romper os laços sociais, e de fazer desaparecer, simultaneamente, as garantias dos nossos direitos individuais, e um horizonte de valores cuja importância nunca denegámos. A exigência democrática não se compadece com a incerteza.

As últimas sondagens não são propícias a grandes euforias. Apesar da corrosão do PS, e de Sócrates ser o primeiro-ministro mais vilipendiado da democracia, os equilíbrios são surpreendentemente mais estáveis do que se previa. E a esquerda continua maioritária. Penso que o discurso de Pedro Passos Coelho provoca uma lógica de semelhança com o PS. Quando assevera que o PSD está, apenas, a ajudar o País, Passos Coelho embrulha-se numa dualidade de critérios que não encoraja a tomada de decisão por parte dos eleitores. De contrário, as conclusões da última sondagem, publicada anteontem no DN, seriam obviamente muito diferentes.

Se o Governo é a baralhada que se conhece, os torções a que procede o PSD, entre a palavra e a acção, impedem-nos de descortinar uma perspectiva de escolhas, de valores e de padrões. A tese de que não agir faz parte do agir parece-me anacrónica. Sobretudo quando, apesar de lacunas e desconsolos, o português comum já não participa nessa "adesão passiva" que fez a história das tiranias e das democracias de superfície.

E não há jornalistas estipendiados, nem comentadores do óbvio que consigam alterar esta direcção das coisas.
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«DN» de 30 Jun 10

Tripeça

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Por João Paulo Guerra

A DIRECÇÃO DO PSD fez saber que “conta com o CDS”. Assim como o país já sabe que o PS conta com o PSD.

De maneira que temos assim um "centrão" em versão ‘big Mac', ainda mais à direita, a apropinquar-se para comandar um país de maioria sociológica à esquerda. As aproximações entre PS e PSD e deste com o CDS não são coligações formais. Mas as coisas funcionam nestes termos: o PS precisa do PSD para fazer passar algumas das medidas mais gravosas das sucessivas austeridades; o PSD faz o jeito e até agradece que o PS carregue com o ónus das medidas mais impopulares e do trabalho sujo; mas como não quer ficar refém do PS, o PSD faz tagatés ao CDS, pressionando assim o partido do Governo; e o CDS inclui algumas das suas obsessões na agenda do PSD e, por conseguinte, do PS e do Governo.

No entanto, depois de tudo isto, constitui suprema ironia que a punição que o PS irá quase pela certa sofrer nas urnas, na primeira oportunidade, reverta a favor da direita. Mas isso, já Mário Soares chegou a responsabilizar os partidos social-democratas e trabalhistas que seguem políticas de direita por se constituírem nos grandes responsáveis pela viragem ainda mais à direita dos eleitorados nas democracias parlamentares europeias.

Seja como for, o Governo PS de minoria acaba por ter uma base de apoio em forma de tripé, o que sempre dá mais alguma estabilidade sob o ponto de vista aritmético. Porque sob o ponto de vista da estabilidade política ninguém se recordará de qualquer contribuição do CDS para tal desiderato. O que toda a gente se recordará é que o CDS fez cair o Governo PS/CDS e o da AD e só não deitou abaixo os de Barroso e de Santana porque não lhe deram tempo. Mas bem tentou. E aí está a democracia modelo tripé e a cair da tripeça.
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«DE» de 30 Jun 10

terça-feira, 29 de junho de 2010

Bom senso

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Por João Paulo Guerra

DEUS QUEIRA QUE Deus queira e que hoje, antes, durante ou após o Portugal – Espanha, a Polícia de Choque não se convença que é a Brigada Nun’ Álvares, a Ala dos Namorados, ou qualquer outros dos três lados do quadrado de Aljubarrota, e não decida intervir na “contenda”.


É que aquilo que pensámos que poderia ter sido um incidente isolado e que passara à história, em Julho de 2002, quando uma carga de polícia se abateu sobre os "nossos irmãos" brasileiros residentes na Costa da Caparica que comemoravam a conquista do Mundial de futebol, passou no final do Portugal - Brasil de sexta-feira passada a constituir um caso de brutalidade com antecedentes, uma reincidência. Como em 2002, na Costa da Caparica, em 2010, no Parque das Nações, a Polícia de Choque, a pretexto de regular o trânsito e evitar desacatos, interveio de "chanfalho" e ‘shot guns' com balas de borracha sobre foliões que celebravam, neste caso, a passagem simultânea das selecções de dois "países-irmãos" à fase seguinte do campeonato.

Hoje, no Portugal - Espanha, não poderá haver empate, só passa uma das selecções e a outra volta para casa. Mas esperemos por algum bom senso da parte dos comandos policiais, de maneira a refrear o ímpeto dos polícias de choque que, pelos vistos, estão com ganas de apresentar serviço.

Em 2002, Portugal entrou na notícia da vitória do Brasil no Mundial de Futebol apenas como campeão da repressão e da brutalidade, como então escrevi nesta mesma coluna. Na sexta-feira passada, a notícia pela alegria da passagem de Portugal, e Brasil, à fase seguinte do Mundial trazia um subtítulo com carga de polícia e feridos no hospital. Esperemos que as notícias de amanhã só falem de futebol. E, já agora, da alegria de uns que, neste caso, será a tristeza de outros.
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«DE» de 29 Jun 10

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Milionários

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Por João Paulo Guerra

O NONO PAÍS mais pobre da União Europeia ganhou 600 novos milionários em plena crise, apesar da crise, contra a crise e através da crise.

Razão tem o ministro da Economia quando diz que "Portugal tem um nível excessivamente elevado de desigualdades". O país em que cerca de 40% da população admite que todos os meses vive "uma luta constante" para conseguir pagar as suas dívidas, tem 600 novos sócios do clube do milhão ou mais. O facto é tanto mais surpreendente quanto o mesmo estudo que revela o crescimento de 5,5% do número de milionários e o aumento do valor das fortunas confirma, no mesmo espaço de um ano, de 2008 para 2009, que a produção industrial se reduziu e as exportações caíram. Portanto, os 600 novos milionários terão recebido heranças de inesperadas tias alegadamente ricas, terão sido bafejados por algum concurso televisivo, pela Santa Casa ou pelo Santo Espírito, ou ainda por uma carta da Nigéria.

Com este crescimento, Portugal passou a casa dos 11 mil milionários, o que é um feito notável por parte de um país tão pobre. Ora para uma população de 10 milhões, 40% dos quais em aflições - isto é, 4 milhões - ter 11.400 milionários diz algumas coisas. Diz, por exemplo, que por cada lote de 351 portugueses aflitos há um milionário, o que certamente será motivo de orgulho e atenuará o desconforto das aflições. Infelizmente, como em outros sectores da vida portuguesa, não se pratica uma política de proximidade que permita a cada aflito ou grupo de aflitos saberem quem é o respectivo milionário para nele se inspirarem.

Todas estas questões têm leituras diversas. À luz das Escrituras, o que se passa é que 11.400 portugueses mais dificilmente entrarão no Reino dos Céus do que um camelo passará pelo fundo de uma agulha.
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«DE» de 28 Jun 10

domingo, 27 de junho de 2010

Quanto indica a balança? - Solução


897 gramas
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Os 3 leitores que mais se tenham aproximado deste valor têm agora 24h para escreverem para medina.ribeiro@gmail.com indicando morada. Poderão indicar quais dos 5 livros preferem, por ordem decrescente de interesse, sendo os pedidos atendidos por ordem de chegada dos mails.
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Actualização (21h53): após a necessária correcção, os valores parecem ser:

  • C. Antunes, palpite 892g, erro de 5g
  • G. Mil-Homens, palpite 903g, erro de 6g
  • Luís Bonito, palpite 888g, erro de 9g
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Passatempo adicional-surpresa: depois do que atrás se refere, vão sobrar 2 livros. Um deles será enviado ao primeiro leitor que, em comentário (no seguimento dos 'palpites' do peso) afixe uma frase de sua autoria em que conste (em maiúsculas ou em negrito) um qualquer dos 5 títulos dos livros.

Actualização (21h41m): este "adicional" foi ganho por "Mg" com o comentário das 20h08m

«Dito & Feito»

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Por José António Lima

A FANTASIA de lançar um candidato de direita alternativo à recandidatura de Cavaco Silva continua a ocupar o labor de várias mentes. Bagão Félix sugere a Santana Lopes que avance e avisa que, «se isso acontecer, tem de ser encarado com naturalidade e não como uma heresia», pois «daí não virá nenhum mal» ao mundo. Por seu lado, Santana Lopes propõe que seja Bagão Félix a entrar na corrida, exige que a candidatura apareça «até Julho» e teoriza: «Há 2.ª volta nas eleições presidenciais exactamente para poderem ir à 1.ª volta os que sentem que o devem fazer».

Aqui chegados, cabe fazer duas perguntas elementares. Uma candidatura alternativa a Cavaco em nome do quê, para o centro-direita? E em representação de quem ou de que forças políticas? Será que o PSD e o CDS não se revêem politicamente na figura e nos valores defendidos por Cavaco Silva? Ao que se sabe, consta que ambos se revêem e o apoiam. O que sobra ou quem sobra então, nesta área partidária e política, que não se sinta representado? Santana e Bagão? Parece pouco para tão elevado e exigente desígnio. Pouco e muito marginal.

A ideia é arranjar uma espécie de Fernando Nobre de direita, apenas para dificultar a vitória de Cavaco à 1.ª volta, que saia vergado a uma votação residual e desprestigiante? Tratar-se-á, no fundo, de um ajuste de contas políticas mal resolvidas no passado? Ou, tão-só, da irresistível ânsia de protagonismo pessoal?

Não deixa de ser curioso que o mesmo Bagão Félix que agora acha que «daí não virá nenhum mal» ao mundo, pensasse, há menos de um mês, coisa radicalmente diversa, alertando que uma suposta candidatura alternativa «poderia ter sempre o ónus de fazer perigar a vitória do actual Presidente de República». O que terá mudado? Ou quem o terá mudado?

Freitas do Amaral veio, entretanto, avisar que «a ideia de impedir a vitória de Cavaco à 1.ª volta é perigosa». E Freitas sabe bem do que fala. Em 1986, obteve na 1.ª volta 46,3% contra 25,4% de Mário Soares. E perderia as eleições presidenciais para Soares pela escassa diferença de 130 mil votos, na 2.ª volta. Santana e Bagão também estão bem recordados.
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«SOL» de 25 Jun 10

sábado, 26 de junho de 2010

Os dois Saramagos que conheci

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Por Carlos Pinto Coelho

FOI A TARDE em que todos os demónios invadiram o meu Diário de Notícias. Pelos corredores fervilhavam inquietações e boatos. O senhor Raimundo, o mais antigo contínuo da Redacção do jornal, vem dizer-me que sou chamado ao gabinete do director. Meia hora depois tomo conhecimento de que estou despedido (ou “saneado” como então se dizia). Exactamente um ano depois da alegria dos cravos.

Na vetusta “sala verde”, onde Augusto de Castro vivera as suas gloriosas décadas de director do Diário de Notícias, estava agora José Saramago à secretária, rodeado de gente. Era ele o recém-chegado director-adjunto do jornal, designado pelo Partido Comunista para conduzir o Diário de Notícias pelos caminhos da revolução, general com poder para movimentar o que houvesse que movimentar. Mas não foi ele quem me recebeu, antes um jornalista chamado Luís de Barros, militante que o Partido designara director do jornal. De modo que foi Barros quem me transmitiu, de forma atabalhoada, a sentença ditada por Saramago. Não soube do que era acusado, nem ouvi menção a faltas, crimes ou desvarios, ideológicos ou outros. Soube apenas que estava na rua (“saneado”) e ponto final. Tinha entrado, pura e simplesmente, na enxurrada de “reaccionários” e “fascistas” em que milhares de portugueses fomos embrulhados pela turba cega que tinha tomado as rédeas dos órgãos de informação.

Lembro-me de que o meu convicto carrasco me conduziu à porta do seu gabinete, contíguo à “sala verde”, e que, nesse momento, olhei uma última vez para o Supremo Inquisidor. Continuava á secretária, rodeado de gente, sereno, hirto, distante. Dominador.

Anos e anos se passaram. Nas voltas da vida, Saramago é banido do Diário de Notícias e escreve os seus melhores romances, eu vou para a televisão e faço o Acontece na RTP 2. E um dia encontramo-nos, ele escritor prestigiado, eu jornalista conhecido. Foi no restaurante do campo de golfe de Tróia. Um almoço volante onde estavam dezenas de jornalistas e escritores, já não me lembro porquê.

Vejo-o sozinho a uma mesa. Pego no meu café, aproximo-me, cumprimento-o. Sou retribuído com um sorriso e convite para me sentar. Pergunto: “O Saramago acha-me um reaccionário ou um fascista?” Olha-me, perplexo: "Que pergunta, Carlos!” Recordo então a tarde em que todos os demónios invadiram o meu Diário de Notícias. Ele, atento, assombrado, a ouvir. Eu, sereno, a esmiuçar os mil detalhes que carregava na alma. E foi quando, levantando-se pesadamente, com todo o vagar do tempo inteiro, um Saramago formalíssimo, quase solene, mas também subitamente abatido como se alguma rajada de vento mau por ali andasse, murmurou qualquer coisa que não percebi à primeira. Ele repetiu: "Peço-lhe perdão.” E estendeu-me a mão. Avancei um abraço.

No exemplar do Memorial do Convento que anos depois me autografou, guardo o seu abraço “com amizade (muito mais do que as palavras...)”.

Público de 23 Jun 10

Dois Portugal - Espanha

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Por Antunes Ferreira

NA ÁFRICA DO SUL, Portugal defronta a Espanha na terça-feira, 29. Em Lisboa, Portugal defronta a Espanha no dia seguinte, ou seja a 20. Como assim? Parece um paradoxo, mas não é. O que une os dois acontecimentos é o confronto entre os dois países ibéricos. No restante, o caso fia muito mais fino.

Vamos por partes. Na primeira das datas as equipas de Portugal e da Espanha jogam nos oitavos de final da Mundial 2010, tendo por palco o estádio Green Point na Cidade do Cabo. Como dizia o anterior seleccionador nacional, o brasileiro Scolari, é um jogo do mata-mata. Quem ganhar passa aos quartos de final. O que quer dizer que o derrotado arruma as botas – e o restante equipamento – faz as malas e regressa ao lar–doce-lar.

De seguida, o embate verificar-se-á aqui na nossa capital durante a Assembleia-geral da Portugal Telecom. De um lado, alinhará Administração da PT e os accionistas que não querem vender, do outro a Telefonica de Espanha que quer comprar. O quê? Toda a gente que segue com alguma atenção este folhetim das telecomunicações sabe que o desacordo existe quanto à tentativa de Madrid de comprar a Participação de Lisboa na VIVO, uma operadora de sucesso no negócio de telefones móveis do Brasil, que ali são os celulares.

As coisas são o que são e singularmente a terra da Vera Cruz está indissoluvelmente ligada aos dois enfrentamentos. No primeiro, o escrete já tinha garantida a passagem à fase seguinte do Mundial. E jogava com Portugal. Registou-se um empate insosso sem golos marcados e, assim, os lusos qualificaram-se também. Com declarações finais do seleccionador Dunga, um tanto exaltado, acusando os tugas de terem entrado em campo para não pretenderem ganhar, só empatar.

Pelo seu lado, Carlos Queiroz vituperou os brasucas pelas entradas violentas para intimidar os jogadores de uniforme vermelho e verde. Por trás dessas declarações conflituosas, a principal razão era que ambos não queriam defrontar os homens de Vicente del Bosque, campeões europeus em título. Caiu-nos em sorte, por mor dos regulamentos, que as duas selecções ibéricas vão mesmo ter de se matar uma à outra. Fatal, como o destino. E só uma passará.

Voltemo-nos para o embate do dia seguinte. Até hoje de madrugada, data em que escrevo esta crónica, os esforços da operadora espanhola parecem não ter o sucesso que a Telefonica pretendia. Os accionistas, que votarão contra o negócio, deverão fazê-lo na esperança de que os espanhóis ofereçam mais dinheiro pela tentativa de compra. E até Sócrates revelou ontem no Parlamento que já dera ordem à CDG e à Parpública para votarem contra.

Estes desaguisados são, pelo menos, um atentado contra a Jangada de Pedra do Saramago que acabou de falecer há dias. As relações económicas e principalmente as financeiras entre as duas entidades máximas das telecomunicações móveis de Portugal e da Espanha.

E também aqui não se poderá aceitar um hipotético empate, porque também se trata de outro mata-mata. Por certo muito mais grave do que o que decorre em território sul-africano. Os golpes mais ou menos sujos estão lançados. A CMVM diz que não pode intervir. A FIFA diz o mesmo.

Desde que Portugal se tornou independente que isto tem sido calino. Em muitas matérias. Mas em Futebol e Finanças, simultaneamente, é caso raro. Raríssimo. Para mim – único.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Sem custos

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Por João Paulo Guerra

«SE EU FOR DOIS DIAS ao Algarve é ou não justo que pague (portagens) na Via do Infante?” A pergunta, formulada pelo efémero primeiro-ministro de Portugal de 2004 só agora recebe resposta.

O Governo do PS, apoiado ao governo-sombra do PSD, responde que sim, que seja lá quem for que passe pelas auto-estradas "sem custos para os utilizadores" deve pagar portagem. Mas para que a sugestão de Santana Lopes viesse a ser formalizada não bastou que o ex-primeiro-ministro passasse o testemunho aos socialistas. Foi necessário que os socialistas mudassem de ideias.

Em 2004 Santana Lopes argumentava que as receitas extra das portagens das auto-estradas "sem custos" seriam utilizadas "para aumentar as pensões", promessa comovente mas que não chegou para suster a queda desamparada nas eleições de 2005. E assim chegou ao poder José Sócrates que simplesmente prometeu "manter as portagens grátis". Na campanha para as eleições de 2005, percorrendo o Algarve, o Alto Alentejo e a Beira Interior, essa foi a promessa de José Sócrates mais aplaudida: "com um governo do PS as auto-estradas sem portagens continuarão sem portagem".

Mas entretanto também o PSD chegou ao governo. E pela mão invisível do PSD na governação PS lá vingou a decisão de cobrar portagens nas auto-estradas "sem custos para os utilizadores". Santana Lopes estará finalmente esclarecido.

Tudo isto coloca uma delicada questão de regime. Os cidadãos votam em função de programas e promessas eleitorais e desse modo escolhem uma política e quem a execute. E depois o programa eleito é deitado fora e substituído por medidas que os eleitores maioritariamente rejeitaram. Com uma simples errata: onde se lê "sem custos" agora passa a ler-se "paga e não bufes".
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«DN» de 25 Jun 10

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Quanto indica a balança? - Solução


322 gramas
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OS DOIS leitores que mais se tenham aproximado deste valor têm, a partir deste momento, 24h para escreverem para medina.ribeiro@gmail.com indicando morada. Em caso de empate, tem preferência quem tenha dado o 1.º 'palpite'.

Quanto aos livros, estão disponíveis, como se disse, O Álibi Perfeito e A Sanguessuga.
O primeiro leitor que escrever para o endereço indicado receberá o que preferir, sendo o outro livro atribuído ao outro leitor.
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Actualização (20h02m): os vencedores são E(D)U, com o palpite 316 g, que errou por 6 e Matrioska, com o palpite 333 g, que errou por 11.

O carbono e os faraós

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Por Nuno Crato

CHEGARAM-NOS ESTA SEMANA notícias sobre a cronologia do antigo Egipto. As datas que se encontraram não foram estabelecidas com base em documentos nem em monumentos. Foram obtidas através de restos de objectos muito mais prosaicos: plantas.

Num artigo publicado na “Science” desta semana (328, p. 1554), um grupo de investigadores de Inglaterra, França, Áustria e Israel obteve datações de sementes, têxteis e frutos associados a diversos reinados do antigo Egipto. No total, foram analisadas 211 amostras provenientes de vários museus. Os resultados confirmaram algumas hipóteses estabelecidas pelos historiadores e questionaram outras. As maiores novidades referem-se ao chamado Reino Antigo, em que se encontraram datas anteriores às anteriormente assumidas. Sendo assim, o Novo Reino, que anteriormente se pensava ter começado cerca de 1500 anos a.C., tem agora data estimada de início entre 1720 e 1640 a.C.

A leitura do artigo da “Science” e do comentário que aparece na mesma revista (p. 1489), impressiona por mostrar o papel que a física e a geologia têm para a arqueologia moderna. As datas são discutidas relacionando os vestígios da erupção de Santorini (c. 1600 a.C.), cronologias diversas de artefactos em Creta e datações de restos orgânicos através do Carbono 14.

Esta última técnica foi desenvolvida pelo químico norte-americano Willard Libby, que a propôs em 1949. Como se sabe, o Carbono tem vários isótopos. Este elemento, que tem sempre seis protões no seu núcleo e portanto seis electrões em órbita, pode ter um número diverso de neutrões. Recebe um número conforme o total de protões e neutrões que possui. Existem dois isótopos estáveis, o Carbono 12 e o 13, e um instável, o Carbono 14. Este último desintegra-se constantemente, gerando Azoto, um electrão e um antineutrino.

Os isótopos estáveis são muito abundantes, enquanto do radioactivo se registam apenas vestígios. No entanto, apesar de o Carbono 14 ser instável, a fracção deste isótopo na atmosfera tem permanecido relativamente constante, dada a sua criação permanente por acção de raios cósmicos.

Os seres vivos incorporam constantemente o carbono e, portanto, têm uma fracção de Carbono 14 derivada da que se encontra na atmosfera. Quando morrem, contudo, o ciclo interrompe-se e o isótopo radioactivo vai decaindo a uma taxa constante. É um fenómeno físico muito curioso. Cada átomo radioactivo tem, em cada intervalo de tempo, uma probabilidade determinada de se desintegrar. Nunca se sabe o que vai acontecer a cada átomo em particular. Mas, tomando um número elevado de átomos, como o que existe em qualquer resto visível de planta, mesmo que diminuto, o decaimento segue uma lei muito regular. Em cada 5730 anos, metade dos átomos de Carbono 14 desintegra-se. De onde resulta que, medindo a percentagem desse isótopo radioactivo que existe em cada amostra de carbono, pode-se estimar há quantos anos o animal ou a planta deixou de absorver carbono da atmosfera, ou seja, há quantos anos morreu.

Segundo o que agora se descobriu, as plantas dos faraós do antigo reino morreram há mais anos do que anteriormente se pensava.
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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 19 Jun 10

O Certo e o Errado

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Por Baptista-Bastos

UM JORNAL ESCREVEU, em editorial, sobre José Saramago: "Esteve, muitas vezes, do lado errado da História." Infere-se, deste duro juízo moral, que o feliz editorialista conhece o lado certo da História, e que ele próprio se situa, intrepidamente, nesse lado. E que é o lado certo ou errado da História? O lado certo será límpido e asseadíssimo; o errado, por antinomia, sujo, abjecto, torpe.

O simplismo da afirmação retém, em si, a totalidade das ideias feitas; e a estrutura do conceito é reveladora da preguiça mental, invariavelmente associada à atracção exercida pelos "vencedores" da História sobre aqueles cujo horizonte de valores é unívoco e maniqueísta. Claro que a frase do editorialista autoriza-nos, pelas razões expostas, a considerá-la uma parvoíce. Até porque se entende, com clareza, o que, verdadeiramente, ele deseja atingir.

Que é um "vencedor" da História? Thiers, o carniceiro dos comunards? E estes serão, mesmo, os "vencidos"? Franco foi o "vencedor" da Guerra Civil em Espanha?; Pinochet foi-o, no Chile?; e Videla na Argentina? As interpretações clássicas conduzem, habitualmente, a concessões ao que convém dizer. E o que convém dizer, nesta como em outras matérias afins, faz parte da "submissão" a um particular modelo de pensamento.

Saramago foi um comunista desobediente; nunca dissidente porque não tolerava as derivas morais, periodicamente em moda. Esteve sempre onde a consciência o determinava. Em Chiapas, nas batalhas rurais, como a protestar contra as iniquidades de uma lei de imigração nas Canárias ou em Madrid. Cortou com Cuba porque não sabia reduzir o superior ao inferior. O seu rosto grave nunca perdeu a preocupação do mundo. Havia nele algo de sartriano: o gosto de se envolver, a exultação em se arriscar, a felicidade de desafiar. Não estava de perfil para o "acontecimento"; escolhera a exigência dos factos para melhor compreender o coração dos homens. Um ser desta estirpe contrairia inimigos ferozes e amigos efusivos. O seu lado era esse, o do compromisso, numa época funesta em que os intelectuais, por cansaço, indiferença ou estratégia, haviam desistido de ser cidadãos.

Talvez não tivesse razão, algumas vezes; talvez. Mas nunca deixou de exercer o acordo ético e ideológico que implica o despique e que recusa qualquer espécie de "arbitragem". Sobretudo, nunca emudeceu quando as vozes de muitos outros se cumpliciavam com a cobardia. Esteve no lado que envolve a relação problemática entre poder e liberdade. Quero dizer: escolheu a instabilidade, as ameaças e os riscos. E é um dos maiores escritores portugueses de sempre.
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«DN» de 23 Jun 10

Modelo

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Por João Paulo Guerra

A riqueza produzida e distribuída por cada português coloca o país como o 9º mais pobre da União Europeia.


Se a questão do PIB per capita se resolvesse aos pontapés na bola Portugal estaria certamente numa posição mais favorável e altamente eufórica do ‘ranking'. Mas a realidade é que, pelo terceiro ano consecutivo, o poder de compra dos portugueses permaneceu nos 78% da média da União Europeia, o que coloca Portugal atrás do Chipre e da Grécia, da Eslovénia e da República Checa, entre outros, e a milhas de países como o Luxemburgo, a Irlanda ou a Holanda, uma outra Europa, aqui ao lado e tão longe. Ou seja: Portugal não só não promoveu a aproximação aos índices europeus de poder de compra e nível de vida como estagnou nos últimos três anos no fundo da tabela, ultrapassado recentemente pela Grécia e por Malta. Um verdadeiro atraso de vida.

Dados como estes conferem uma desconfortável realidade: o contínuo atraso de Portugal no que diz respeito à produção e distribuição da riqueza e ao consequente bem-estar da população do país não tem a ver com esta ou aquela crise. Vem de trás e é resultado de uma política deliberada, cometida ao longo de décadas por diversos embora não muito diferentes governos, orientada para a produção de ricos em lugar da criação e distribuição da riqueza.

Governado em regime de alterne por socialistas ou social-democratas, o que na Europa quer dizer a mesma coisa, Portugal tem-se afundado numa crise social de acentuada e acelerada degradação das condições de vida da maioria da população, com ou sem crise, com empobrecimento de estratos da população decisivos para a dinamização da economia. Não é esse, no entanto, o modelo do país. Se é que o país tem algum modelo para além da mais retrógrada exploração.
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«DE» e 23 Jun 10

terça-feira, 22 de junho de 2010

Homenagens

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Por João Paulo Guerra

NÃO HÁ RAZÃO para criticar o prof. Cavaco Silva por não ter estado presente no funeral do único Prémio Nobel da literatura portuguesa.


Nada mais falso que unanimidades de fachada e o chefe de Estado limitou-se a reafirmar, pela ausência, que não faz parte daquele mundo e que não se sente presidente de todas as manifestações da sociedade que engrandecem os portugueses. Aliás foi sob a chefia de Governo exercida por Cavaco Silva que um romance de Saramago foi censurado da lista dos candidatos portugueses ao Prémio Literário Europeu e ninguém poderá crer que uma decisão de tal responsabilidade tenha pertencido a um obscuro subsecretário de Estado cujo nome já ninguém recorda, ou a um secretário de Estado mais lembrado pelos pontapés na cultura que por outra coisa qualquer.

De igual modo a ausência do líder do PSD teve como objectivo afirmar o retorno a uma linha do partido avessa às coisas do intelecto e da cultura, pouco sofisticada, mais dada à leitura de relatórios que de livros, para usar uma feliz expressão de Mário Soares. Cabe mais uma vez a José Pacheco Pereira proclamar e confirmar que no PSD também há quem vá à ópera, a concertos, ao teatro e quem leia livros. Alguns outros figurantes da cena político-mediática fizeram questão de anunciar as respectivas ausências não fossem as mesmas passarem por completo despercebidas.

Restam os presentes, milhares de pessoas simples que anonimamente foram sublinhar a importância da cultura, das letras e o papel de um grande criador, amigos e admiradores sinceros, ou pessoas que simplesmente reconhecem a dimensão universal do falecido, como gente que foi pôr-se em bicos dos pés tentando colar-se à notoriedade de um imortal.

Têm razão todos aqueles que desconfiam das homenagens.
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«DE» de 22 Jun 10

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Pergunta-de-algibeira - Solução


... Gomes Leal
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Este passatempo acaba por estar relacionado com o anterior (obra de Saramago) porque o monumento em causa está no Cemitério do Alto de S. João, tendo sido fotografado no dia do funeral do nosso Nobel. Assim, o prémio é o mesmo, ou seja: o exemplar de O Memorial do Convento (Ed. Visão) ou qualquer outro da lista que poderá ver [aqui].
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Actualização (21 Jun 10 / 7h37m): 'AM' tem 24h para escrever para medina.ribeiro@gmail.com indicando qual o livro que prefere e morada para envio.

domingo, 20 de junho de 2010

A santíssima ignorância

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Por Rui Tavares

UM DIA, Rui Pedro Soares será apenas um nome que ligaremos a um escândalo político que já lá vai. Pouco antes de desaparecer na obscuridade, porém, decidiu fazer declarações em que comparava a comissão parlamentar de inquérito ao caso PT/TVI aos “tribunais da Inquisição”.

Rui Pedro Soares talvez não entenda que, enquanto este for lembrado, o seu nome será para os portugueses (incluindo, não pense ele outra coisa, aqueles que votam no seu partido) o emblema da mediocridade e da arrogância que chega ao poder e ao privilégio por intermédio de favorecimentos e favoritismos, que exerce esse poder da forma mais gabarolas e irresponsável, tendo como único objetivo satisfazer o mando do político que o pôs naquele lugar, e que para desempenhar tal tarefa é pago num ano muito mais do que muitos portugueses esforçados e honestos ganham trabalhando a vida toda.

Por gente como ele, Ricardo Rodrigues, e outros, se falará um dia de “tralha socrática”.

Para a maioria dos portugueses (incluindo os do PS) Rui Pedro Soares não passou nunca de uma espécie de capanga de luxo, encarregado de despachar os trabalhinhos sujos dos outros. Para lá disso, a sua atitude só surpreendia pela desfaçatez e descaramento. E agora juntou-lhe uma ignorância gritante e ofensiva.

Vamos recapitular brevemente as principais diferenças entre um tribunal da Santíssima Inquisição e uma Comissão Parlamentar de Inquérito.

Num tribunal da Inquisição, Rui Pedro Soares poderia ser preso por denúncias anónimas ou meros rumores. Uma vez preso, ficaria nas masmorras até que os seus juízes se dessem por satisfeitos com as suas declarações. Ficar em silêncio não seria, evidentemente, um opção. Rui Pedro Soares seria provavelmente torturado para falar. O tribunal teria então de determinar se ele estava ou não arrependido e, para tal, agradeceria se ele pudesse denunciar mais três ou quatro pessoas. Depois de um tempo de prisão indeterminado, Rui Pedro Soares poderia ser sujeito a castigos corporais ou à pena de morte.

Tenha-se ainda em conta que o Tribunal da Inquisição (ou tribunais, por eram vários) tinham uma rede de milhares de espiões pelo país todo (os “familiares”) e que, além de um tribunal religioso era também uma agência étnica/racial que pôs durante um par de séculos milhares de portugueses a elaborarem certidões para provarem que não tinham antepassados judeus (as “habilitações de limpeza de sangue e geração”).

Agora a Comissão Parlamentar de Inquérito, vulgo CPI. Rui Pedro Soares foi chamado a uma comissão composta por representantes eleitos da nação que pretendiam extrair um julgamento político de certos acontecimentos de que ele tinha sido um ator-chave. Sendo o julgamento político, a CPI não se destinava a punir nem a castigar. Acresce ainda que, com razão ou sem ela, a CPI se auto-limitou na utilização de certos meios de prova (as célebres escutas). Lá chegado, Rui Pedro Soares decidiu não falar, tal como noutra comissão tinha decidido falar durante largos minutos sobre futebol (*) e outros assuntos que ocuparam desnecessariamente tempo precioso. Toda a gente achou que ele estava no seu direito e não lhe aconteceu nada por isso.

As diferenças estão claras. Deveríamos estar todos satisfeitos por uma CPI não ser como a inquisição, a começar por Rui Pedro Soares. Em troca, ele deveria poupar este povo cansado à exibição da sua pesporrente ignorância.
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In RuiTavares.Net
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(*) NOTA (CMR): Podem ver-se essas saborosas declarações [aqui].

sábado, 19 de junho de 2010


1405 gramas
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Quem mais se tenha aproximado tem, a partir de agora, 24h para escrever para medina.ribeiro@gmail.com indicando morada para envio do prémio. (Em caso de empate, tem prioridade o 1.º "apostador").
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NOTA: se o vencedor já tiver o livro, poderá escolher qualquer outro da lista que poderá ver [aqui].
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Actualização (20h11m): se não me enganei nas contas, o passatempo foi ganho por "Musicólogo", com o palpite 1411 g => erro = 6 gramas.

Palhaço ou toureiro

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Por João Duque

UM DIA DESTES, perguntaram a um miúdo da família: "O que é que queres ser quando fores grande?" Sabem qual foi a resposta? "Quero ser reformado!" Bonito! Um puto de nove anos diz-me que o que mais almeja da vida é ser reformado!

Estava eu esta semana a contar a mesma história a uns amigos e, antes de dar a resposta, ouço-a pronta da boca de um dos compinchas: "O puto quer ser reformado!" Espantado, perguntei-lhe como é que adivinhara. "É pá, um miúdo meu amigo deu-me a mesma resposta há umas semanas!"

Lindo! O caruncho ataca fundo e espalha-se depressa...

O país está de rastos. As finanças públicas afundam-nos. As empresas, endividadas, estão sem meios para financiar a actividade que proporcionará trabalho. A Justiça tolhe-nos. A educação regride. E quando todos precisamos que uma nova geração venha cheia de esperança, força e criatividade para nos ajudar a pagar as colossais dívidas que juntámos, ei-los a responder em uníssono: "Queremos ser reformados!"

Mas afinal, porquê o meu espanto?

Durante anos, assisti atónito a um ardente desejo nacional de "passar à pré-reforma", situação deliciosa em que, numa mistura de empresa e Estado, num conluio intrageracional, [inter?] se decidiu que não se trabalhava, se ia para casa mantendo o rendimento por inteiro. As deliciosas justificações eram mais do que muitas: esta gente (na casa dos 50!) já não se consegue reciclar, esta gente dá mais despesa em luz, papel, água ou renda pelo espaço que ocupa (no emprego, leia-se), do que se forem para casa, etc., etc., etc...

Da pré passava-se à dita, até porque aquela não passava de um purgatório à beira do paraíso...

Depois veio a técnica de 'comprar a reforma.' No meio de confusões monumentais e por esquemas que qualquer actuário de terceira categoria reprovaria liminarmente, assisti à escandalosa compra de reformas magníficas por pessoas importantíssimas, à mistura com a arraia-miúda que também aproveitou da confusão, até porque os eruditos esquemáticos sempre tiveram de usar a lei dos grandes números para se safarem no meio das multidões...

E é este o estado de Portugal. Temos uma geração de reformados florescentes, muitos ainda 'jovens' e, valha-nos isso, a transpirar saúde, com reformas nunca mais igualáveis - garantidas por direitos adquiridos e que nunca mais ninguém poderá adquirir -, a fazerem as delirantes delícias de uma geração de netos que vêem nos avós tudo o que os seus pais não têm: tempo, saúde, dinheiro, alegria, rejuvenescimento... Ao contrário, os pais correm atrasados para todo o lado, queixam-se de falta de dinheiro para acudir às exigências, da instabilidade do emprego, perdem a alegria, gritam com os filhos, definham, envelhecem.

Portugal corre o risco de ficar corroído pelo bicho da preguiça calaceira com uma geração já cansada antes mesmo de começar.

Na minha geração queríamos ser médicos, engenheiros ou advogados, com um ou outro mais arrojado a preferir: "Palhaço ou toureiro!"
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«Expresso» de 12 Jun 10

Uma obra menor

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Por Antunes Ferreira

MORREU JOSÉ SARAMAGO. Curta a notícia, grande o pesar. Desapareceu o único Nobel Português – a solo. Egas Moniz fora-o também, porém a meias.

Normalmente, uma ocasião destas é motivo mais do que sobejo para dizer bem do falecido. Dos falecidos. Pelo Mundo inteiro esta prática – que vem, presumo, desde que o primeiro homem o foi, porque começou a falar – é tão habitual que a admiração surge quando se diz mal. E quando assim acontece, vem um tanto afastado da data do óbito. Há excepções, todas as regras as têm.

Tive o privilégio de conhecer Saramago, de com ele conversar, de almoçar com ele por diversas, bastantes mesmo, vezes. Homem difícil, não pela frontalidade, mas pelo feitio, de algum modo pouco simpático. Um dia, em meados de 1976, na Varina da Madragoa, onde quase diariamente almoçava com a sua mulher de então, a Isabel da Nóbrega, foi ele que se me dirigiu, pela primeira vez.

Fiquei um tanto admirado. Admirador confesso dos seus livros, para mim tratava-se de uma honra. «Não quero incomodá-lo. Sei quem é e que foi para o Diário de Notícias depois de eu ter saído de lá. Quero apenas, desejar-lhe sorte, porque bem precisa dela. É uma casa complicada. Mas, pelo que sei de si, acho que se vai desenvencilhar».

Agradeci-lhe e perguntei-lhe se queria tomar o café connosco, bem como a Isabel, que conhecia bem, era colaboradora do DN e quando ali ia entregar os textos dela dava-me uns dedos de conversa amável. O jornalista e escritor olhou-me através das lentes dos seus óculos, penso que terá reparado na minha mulher e disse, com uma certa secura: «Um dia destes». Só.

Anos depois, creio que em Outubro de 90, encontrámo-nos na Bertrand. Eu tinha acabado de ler o seu livro mais recente, a «História do Cerco de Lisboa» - de um jacto, de tal modo me entusiasmara. O enredo, admirável, era, simultaneamente um isco a que não se podia escapar e um passo enorme no seu caminho de ganhador.

Fomos almoçar. E exaltei o que me tinha obrigado a duas noites em claro, dei-lhe os parabéns, mas, sobretudo, o meu agradecimento pelo prazer que me proporcionara. Limitou-se a acenar com a cabeça, como que sendo o suficiente para me responder.

Mas, de súbito atirou-me com uma pergunta calina: de qual das suas obras gostara eu mais. Não tive dúvidas em responder-lhe (e nem hoje as tenho) que era precisamente a «História do Cerco de Lisboa». Mediu-me de novo. «Isso nem parece seu. Trata-se da minha obra menor».

Ontem, quando me chegou a notícia do seu desaparecimento, lembrei-me desta estória. E do seu feitio frequentemente desagradável. E do telefonema que lhe fiz aquando do Nobel. E da resposta dele, que foi apenas o renovar do comentário antigo. «Continua a dizer que do que gosta mais é da minha obra menor»? Continuava – e continuo.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

O casar, o pagar e o morrer

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Por João Duque

DIZ O POVO, e eu repito-o nas aulas de Finanças Empresariais, que “o casar, o pagar e o morrer, o mais tarde que puder ser”.

A ideia subjacente ao morrer é óbvia embora, quando a vida se torna penosa, particularmente do ponto de vista físico, muitos dos que rodeiam o paciente, e por vezes, até o próprio, peçam à caridade divina a antecipação da data de expiração.

Quanto ao casar, a ideia é mais rebuscada. Se o casamento é um passo para a felicidade, porque razão diz o povo que o ideal é adiá-lo? Vários motivos podemos apontar para isso, mas o que me diverte mais é quando penso que exercendo o direito do matrimónio se exerce uma opção que, como muitas outras, tem bem mais valor viva do que "morta". É sempre possível encontrar um outro parceiro bem mais abastado por quem valha muito mais o exercício da companhia e a perda de liberdade...

E o pagar? O mais tarde que puder ser, ensino eu nas aulas de Finanças Empresariais, admitindo que esse pagar mais tardio significa uma fonte de financiamento fácil, barata e legal! Não advogo o pagar tardio para além do estipulado, pois uma coisa é o prazo acordado e que deve ser cumprido, outra, o prazo efectivo. Mas quando pugno para dilatação dos prazos de pagamento a fornecedores isso significa tentar dilatar prazos de pagamentos negociados no acto da preparação anterior à celebração dos contratos. Depois, é pagar na hora devida.

O que se passa em Portugal é um preocupante e generalizado incumprimento nos prazos de pagamento. A Intrum Justitia publicou recentemente um estudo que mostra que particulares, empresas e Estado todos pagam bem mais tarde do que o acordado e, pior, que o Estado é quem mais se atrasa no pagamento. Em média os particulares acordam pagar a 30 dias, mas pagam a 62 (um desvio de 107%). As empresas acordam pagar em média a 51 dias, mas pagam a 88 (um desvio de 63%). E o Estado acorda pagar em média a 57 dias e paga a 141 dias (com um desvio de 147%)! Quer dizer, mesmo em termos relativos o Estado é o que mais se atrasa.

Portugal tem um prazo médio de pagamentos muito superior ao da média europeia (97 dias para Portugal e 55 dias para a média europeia) e o nosso só é inferior ao da Espanha, Grécia e Itália. Isto é, em termos de prazos médios de pagamento eis que se encontram outra vez os PIGS da Europa!

E se a coisa está mal, acresce que piorou no último ano. De 2009 para 2010, o Estado aumentou o prazo médio de pagamento 12 dias... Não seria melhor o Estado financiar-se (se puder!) a taxa mais baixa e pagar o que deve a horas, do que pressionar as empresas a procurarem financiamento no sistema financeiro a taxas mais elevadas, porque ele (Estado) se atrasa 84 dias após a data estabelecida?

É também por este endividamento oculto e que também não aparece nas contas públicas que me leva a considerar que até os cenários mais pessimistas dos estudos do BPI relativos à dívida pública portuguesa são optimistas.
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«DE» de 16 Jun 10

Escolhas

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Por João Paulo Guerra

FALTA DIMENSÃO ética nas escolhas políticas, sentenciou D. José Policarpo. E a sentença é tanto mais incómoda quanto o Patriarca de Lisboa é uma pessoa serena e cordata, dialogante e de grande elevação intelectual, e não propriamente um fundamentalista que ande a pregar dos púlpitos a cruzada contra os infiéis e os hereges.

E o que mais poderá incomodar a classe política na avaliação do Cardeal é que ele tem toda a razão. As escolhas políticas perderam toda a dimensão ética porque os políticos em geral perderam todo o respeito pela palavra dada.

D. José tem um caso concreto que eventualmente inspirará a sua apreciação mas teve o cuidado de não o referir para que não se diga que anda a promover uma qualquer candidatura política da Igreja. E o caso concreto é a falta de ética de uma decisão recente do chefe de Estado que promulgou uma lei que disse repudiar. Só o eleitor mais parolo não terá entendido a intenção de agradar a gregos e troianos quando se aproxima uma eleição presidência, à margem de princípios, de valores e de uma ética na política. E isto é susceptível de ferir os sentimentos de um homem da Igreja, não porque tenha a moral como um sistema de dogmas, mas porque tem a ética como uma inquestionável questão de conduta.

Simultaneamente, e sem qualquer relação com as palavras de D. José que não seja a prática de pensar e de expressar o pensamento em voz alta, 100 mulheres católicas portuguesas manifestaram-se "desiludidas" com Cavaco Silva e inquietas com um tempo em que "os valores parecem tornar-se absurdos, em muitos casos alvos a abater".

Cavaco Silva colocou uma questão de "escolhas" num cenário eleitoral que aparentemente se apresentava estabilizado. Mas, como dizia o Amigo Banana, as "iludências aparudem".
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«DE» de 18 Jun 10

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Quanto indica a balança? - Solução


164 gramas
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Quem mais se tenha aproximado deste valor, tem 24h para escrever para medina.ribeiro@gmail.com indicando morada para envio do livro.

Actualização (17 Jun 10 / 20h06m): julgo que o passatempo foi ganho por "macy", com o palpite 163 g (erro = 1 g).

O "passatempo escondido" (print-screen 1199911) foi ganho por Carlos Antunes.

Frustração

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Por João Paulo Guerra

EM 1972, quando os despojos de D. Pedro I do Brasil e IV de Portugal foram transladados do Panteão de São Vicente de Fora para o Monumento do Ipiranga, em S. Paulo, as cerimónias do tricinquentenário da independência do Brasil incluíram um torneio de futebol. A selecção de Eusébio, Humberto Coelho, Toni e Artur Jorge chegou à final da Mini-Copa com a de Jairzinho, Rivelino, Gerson e Tostão e perdeu por 0-1, com um golo marcado aos 89 minutos por Jairzinho. Mas em declarações para a Emissora Nacional, um elemento da equipa portuguesa não deixou de sublinhar que Portugal merecia ter ganho o troféu de 11 quilos em ouro e pedras preciosas. E o entrevistado expôs o seu raciocínio: assim como assim, se os portugueses lá deixavam os ossos de D. Pedro seria justo que trouxessem o "caneco" para Portugal.

O futebol - que não é mais que uma competição, um espectáculo e até pode ser uma festa - excede-se nas referências e nas expectativas dos portugueses. E em épocas de crise - que são quase todas em Portugal - o futebol é usado como compensação para frustrações individuais e colectivas. E foi assim que se espalhou a ilusão de que Portugal estaria na calha para conquistar o Mundial.

De maneira que, a esta hora, milhões de portugueses terão acrescentado mais uma frustração à "austera, apagada e vil tristeza" em que vivem. Essa história de ganhar o Mundial, após a adversa e tacanha estreia da selecção, é afinal tão ilusória como uma promessa governamental.
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«DE» de 17 Jun 10

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Ler os velhos mestres

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Por Baptista-Bastos

A IDA DE UM GRUPO de banqueiros a Bruxelas possui contornos tão pouco esclarecidos como a lesão de Nani: rigorosamente, nada se sabe. Sabe-se, isso sim, que há assuntos cuja natureza nos parece sempre embrulhada em ambiguidades e evasivas. A certeza das certezas é que não nos sentimos bem, nem à vontade. A história das nossas vidas corresponde a uma decepção quase ininterrupta. Atingiu--se, em Portugal, os 10,8 por cento de desempregados, número assustador, mesmo assim enganoso: há mais, muitos mais portugueses sem emprego. Ninguém espera que o vistoso grupo de banqueiros tenha viajado a Bruxelas com o coração apoquentado pela nossa desgraça, e o alvoroço de quem se consome na procura de uma solução.

No mesmo dia soube-se que, desde Janeiro, faliram mais 1800 empresas, numa média de onze por dia. O rol dos infortúnios não termina aqui. Nem os perigos que nos ameaçam têm, nestes números, um definitivo ponto final. Com perdão da palavra, não acredito que aqueles senhores se preocupem com a salvação da pátria. Nem que procedam a um mea culpa, pela circunstância de serem os representantes típicos da falência do que têm defendido e nos arrastou para a situação miserável em que nos encontramos.

Há tempos, um outro airoso conjunto de génios, desta vez economistas, foi recebido pelo dr. Cavaco. Também se desconhece o resultado da reunião. Transpirou, para o público ignaro, que os senhores estavam muito mortificados com o estado da nação. Muitos deles haviam sido governantes; outros, decisores. Falavam como se nada tivessem a ver com as condições de desincorporação político-social em que nos achamos. Nenhum deles disse que a crise é sistémica, e corresponde ao carácter relacional do poder. Marx explicou. Mas se Marx provoca brotoeja, Max Weber também o disse, de outro modo. Leia-se, por obséquio, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo.

Carlos Pimenta, social-democrata e ambientalista, afirmou, recentemente, numa palestra promovida pela Intervenção Democrática: "Acho que quem alguma vez leu Marx, o próprio Marx ou Engels (não os divulgadores do Marx, pois sobre estes tenho a opinião de que são os maiores adulteradores do marxismo, propositadamente ou, tão somente, porque tornaram simplório e linear o que era dialéctico e complexo), quem estudou Marx e quem procurou interpretá-lo, inevitavelmente transportará Marx por toda a vida."

A leitura dos velhos mestres, associada à consciência de quem se não submete ao fatalismo da imutabilidade, provoca o conflito de forças e a explicação da índole do lucro e da mais-valia. Portugal não é insustentável. A noção de responsabilidade deveria corresponder à noção do exacto significado das palavras.
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«DE» de 16 Jun 10