sexta-feira, 16 de julho de 2010

Pintura

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Por João Paulo Guerra

UM JORNAL de referência figurava ontem o debate sobre o Estado da Nação com José Sócrates e Passos Coelho, desencontrados, o primeiro a olhar de soslaio para “O Paraíso”, de Jan Brueghel, e o segundo a passar ao lado de “O Inferno”, de Hieronymus Bosch.

Ora a verdade, pelo que se conhece de ambos, é que a ideia de paraíso do líder PS terá mais a ver com um ‘outlet' do que com a paisagem bucólica do quinhentista flamengo. E o líder PSD deve identificar o inferno mais com o estado social do que com os demónios do pré-surrealista. A pintura clássica e a frequência de museus e galerias não se reconhecem como hábitos de qualquer um dos dirigentes. São ambos homens que se reclamam de modernos e pragmáticos, mais dados à decisão que à contemplação, sobretudo quando as decisões visam as vidas dos outros.

A generalidade dos políticos mantém uma situação de conflito com as coisas do intelecto. Outros povos europeus, tão atrasados de raiz como os portugueses, progrediram porque os respectivos dirigentes investiram na Educação e Cultura, coisas pelas quais a maioria dos políticos portugueses nutre profundo desprezo. Preferem betão e obras públicas, burocracia e verbos de encher. Claro que há excepções que servem simplesmente para confirmar a regra.

Ainda ontem os jornais davam conta que Portugal continua a ser campeão europeu do abandono escolar. Na mesma edição dos jornais vinha uma arenga do líder da oposição, propondo absolutamente nada como solução, num discurso sobre «dar às famílias maior opção de escolha em relação às escolas onde querem colocar os filhos». Opção? Com fecho de escolas?

No entanto, o Estado da Nação pode figurar-se através da pintura. Talvez "O Grito", de Edvard Munch, a máxima expressão plástica da angústia e do desespero.

«DE» de 16 Jul 10

Irão volta com a pedra à frente

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Por Ferreira Fernandes

SANTO ESTÊVÃO é o primeiro mártir cristão. Acusado de blasfémia, foi julgado e morto à pedrada. Assistiu e apoiou a lapidação um tal Saul de Tarso, que, mais tarde, convertido, se tornaria São Paulo - maior que Santo Estêvão na história do cristianismo.
Quem sabe se Manucher Mottaki não será, amanhã, um homem digno? Hoje, ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, em périplo europeu, acaba de dizer que "a justiça iraniana não suspendeu a lapidação" de Sakineh Ashtiani.
Esta iraniana foi condenada, já aqui o lembrei, a ser morta por lapidação por ter cometido adultério. Homem de muita fé, eu escrevi então que já não ia ser por pedras, contente porque a embaixada iraniana em Londres acabara de dizer que Sakineh talvez viesse a ser morta só à forca.
Mas, agora, o ministro Mottaki veio repor as pedras no menu. Há dias, escrevi, eu estava disposto a saudar o embaixador do Irão (e por maioria de razão, o ministro) por ter abandonado a idade da pedra.
Não sendo assim, volto ao meu desprezo tradicional. Mas confiante na conversão do género humano: quem sabe se Manucher Mottaki não vai ser ainda um São Paulo da democracia? Sakineh Ashtiani é que pode deixar-se de ilusões, os mártires de hoje já não chegam a santos - ela será, e só, um corpo macerado e cortado. Pormenor (está no código penal): as pedras não podem ter tamanho que matem à primeira ou à segunda.
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«DN» de 15 Jul 10

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Traulitânia

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Por João Paulo Guerra

DE VEZ EM QUANDO, não vá alguém esquecer-se, a direita portuguesa faz questão e gala de recordar as suas origens trauliteiras.

Agora foi a maioria PSD/CDS na Câmara do Porto, ajudada por uma abstenção do PS, que reprovou o nome do laureado escritor José Saramago para uma rua da cidade que já foi capital da luta dos liberais contra os absolutistas.

Há muitos anos que Saramago foi escolhido pela direita como alvo dos nacional-caceteiros que, quando ouvem falar de cultura, puxam logo do varapau. Chegou-se ao desplante de um obscuro subsecretário de Estado, que não ficou para a história, cortar o nome do autor de "Levantado do Chão" da lista de concorrentes a um prémio europeu de literatura. Depois foi a vez de um autarca da região saloia dos arredores de Lisboa proibir o nome do autor de "Memorial do Convento" na toponímia de Mafra. E agora, para que a tradição da traulitada não receba certidão de óbito, foi altura de a Câmara do Porto se arvorar em município da intolerância e do obscurantismo.

O chumbo do nome do único português distinguido com o Nobel da Literatura para designação de uma rua do Porto deve ter perturbado o descanso em paz de algumas das maiores figuras da história e do pensamento da cidade: Fernandes Tomás e Ferreira Borges, mas também Garrett, Herculano, Camilo, Ramalho, Torga, José Gomes Ferreira, Eugénio de Andrade, Sophia. O Porto ganhou a designação de Cidade Invicta, ao mesmo tempo que a de Cidade da Liberdade, na luta contra o absolutismo. Mas por mais liberal que a direita portuguesa se queira apresentar, volta e meia a maquilhagem não consegue disfarçar a face miguelista.

Um dia o Porto terá uma rua Saramago. A história é que não recordará os nomes dos autarcas da Traulitânia.

«DE» de 15 Jul 10

Olá, professor Rogério!

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Por João Duque

DEPOIS DE VERMOS sumir o barco no além do mar que o engole devagarinho, o caminho para casa, após a despedida, é difícil e feito de olhos rasos de água.

Se, chegados ao lar, pegamos na pena para escrever o que nos vai na alma, a dor é ainda maior e a solidão ataca com mais força. Já o fiz e por isso sei o que custa.

Mas se escrevermos antes de procurarmos o cais das chegadas, a alegria e a ânsia do reencontro puxa a exultação da escrita e o dia fica mais bonito. É assim que quero escrever sobre alguém que partiu ontem mas que verei amanhã: o professor Rogério Fernandes Ferreira.

Não o conhecendo antes, trabalhei com ele assim que me doutorei, recém-regressado de Inglaterra. Formámos uma equipa inovadora na disciplina de Gestão Financeira do MBA do ISEG e nunca mais voltei a trabalhar com alguém assim. Ele atribuíu-me a responsabilidade de conduzir algumas aulas e ele, naturalmente, ficou com as outras. Mas os dois podíamos complementar-nos ou até discordar, até porque assistíamos os dois a todas as aulas. Nesse ano o ensino deixou de ser normativo!

Timidamente, nunca o pus em causa, pelo respeito académico que a sua opinião me impunha, mas com o tempo percebi que ele gostava muito mais de discutir, filosofar e questionar, do que afirmar sem graça regras e definições quadradas que, todos os que temos sensibilidade e inteligência, sabemos não serem verdadeiras e universais nestas coisas da Gestão.

A coisa era de tal modo que quando ninguém altercava era ele que se questionava, voltando à tese e depois à antítese, num vai e vem saltitante de verdade em mentira que me deliciavam, mas que deixavam os alunos totalmente desconfortados num espaço de areias movediças. A qualquer pergunta feita pelos alunos a resposta certa, ensinou-me, é: "- Depende!" Depois discorria para a frente e logo para trás, numa argumentativa de quem tinha aquele vício de ser, no fundo, humano. Com o tempo fomos afirmando as nossas diferenças nalgumas "crenças" e chegámos a escrevê-las para abrir aos outros a discussão sobre a nossa diferença de opinião sobre questões técnicas: a célebre discussão sobre o custo histórico e o justo valor. Mas a diferença não nos afastou. Muito pelo contrário. Porque pensámos muito no que acreditávamos ser melhor e porque tentámos ensinar ao outro a nossa perspectiva, isso levou-nos a transportar as alegações para o lado e pelos olhos do outro, o que mais nos aproximou em respeito e amizade.

Quanto mais falávamos, mais apreciávamos a inteligência do outro pela forma acrescida como se aduziam argumentos e contra-argumentos à liça. Quando se aposentou, transferiu-me a regência da cadeira de Contabilidade Geral que tinha sido de Gonçalves da Silva. Sinto orgulho por ter sido o seu seguidor nesse percurso. E porque sei que o irei encontrar num futuro incerto, mas próximo quando medido à escala do Tempo, alegremente digo: Olá, Professor Rogério!
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«DE» de 15 Jul 10

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Passatempo 12-14 Jul 10 - Solução: pág. 55

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Pág 55
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Serão premiados, com os 2 livros indicados, os 2 leitores que mais se tenham aproximado da resposta certa - em caso de empate, terá prioridade quem 1.º tenha dado o palpite.

O 1.º classificado poderá escolher o livro que pretende, sendo o outro atribuído ao 2.º.

Ambos têm, a partir de agora, 24h para escreverem para medina.ribeiro@gmail.com indicando morada para envio.
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Actualização (20h42m): Lau acertou em cheio (!) e Sofia errou por 4 páginas.

Este homem que nos coube em sorte

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Por Baptista-Bastos

O DOCE EMBALO de julgar que cumpre um destino tem levado o dr. Cavaco ao incomparável incidente de ser preceptor das nossas vidas. Desde a rodagem de um carro até que os acasos da fortuna e os desacertos da História o empurraram para lugares cimeiros da Nação nada de entendível esclarece o enigma. Nenhum estudo fervoroso e incessante desanuvia a nossa pobre e obnubilada perplexidade. Foi um primeiro-ministro medíocre; é um Presidente da República sem estofo. Quando fala, o discurso é ambíguo, desbotado e triste, quando não funesto.

Acontece vezes de mais. Uma delas foi há poucos dias, numa daquelas cerimónias em que senhores consideráveis e visivelmente bem instalados discreteiam sobre a redenção da Pátria e a salvação do povo. Aí, o dr. Cavaco falou. Quando o dr. Cavaco fala, ninguém resiste à sagacidade portentosa das suas meninges. Infelizmente para a cultura e para a história nacional, o dr. Cavaco pouco mais adianta do que apontar números, estabelecer comparações, esticar o dedo hirto para a estatística, para a cifra, para a percentagem.

Reacentuando a insustentabilidade do País, estribou-se na falta de flexibilidade das leis do trabalho e, impelido pelo fulgor da corrente, designou generalizações e estatuiu paralelismos exemplares. A China, a Índia e a Turquia, além da Polónia, eram uma copiosa provisão de modelos económicos a seguir.

Em boa consciência, como pode alguém enunciar aqueles países, onde a democracia é constantemente sovada; onde quem trabalha aufere salários de escravo, as mulheres são tratadas abaixo de cão, os miúdos são colocados nas mais rudes tarefas - como pode alguém nomear a China, a Turquia, a Índia, a Polónia dos gémeos Kaczynski (Lech morreu em Abril) como paradigmas económicos, omitindo o preço das misérias e das tragédias por que passam os povos daqueles países?

Qualquer deles organizou e desenvolveu aparelhos policiais, técnicas repressivas, mecanismos de poder absolutamente pavorosos. Mas a verdade é que as sociedades ocidentais também se têm pautado por métodos muito próximos. Estes pormenores parecem não desassossegar a sensibilidade do dr. Cavaco. A hipocrisia está pressupostamente associada à ausência de complexos morais. E o que surge como "exportável", naqueles países, tem em conta o que pode favorecer os instrumentos de irracionalidade política da ideologia que o dr. Cavaco defende. Evidentemente, o dr. Cavaco defende uma democracia de superfície, apanágio do "movimento reformista" por ele referido, com entusiasmo, cujo objectivo mais não é do que a fixação de um ultraliberalismo profundamente reaccionário.

Que homem é este que nos coube em sorte?
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«DN» de 14 Jul 10

Comunidade

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Por João Paulo Guerra

O QUE É QUE a Suazilândia e a Ucrânia têm de comum com a Guiné Equatorial? É que nenhum destes países é de língua portuguesa.
Ora tendo esta característica comum e acontecendo que a Guiné Equatorial está em vias de fazer parte da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), não há razão para que a Suazilândia e a Ucrânia não adiram.
E o que é que têm em comum a Austrália e a Indonésia? É que ambos cobiçam o petróleo de Timor-Leste. Mas como, para além desse factor, nenhum desses países é de língua portuguesa, já agora porque não haverão de fazer parte da CPLP? E nem se estranhe que a Indonésia, potência ocupante de Timor-Leste durante mais de 25 anos, se proponha fazer parte de uma mesma comunidade que Portugal, potência administrante do antigo território ocupado.
Pois o Iraque também é alinhado com os Estados Unidos, após o primeiro ter sido invadido pelo segundo que, por sua vez, invadira o Kuwait.

A Guiné Equatorial é vista como uma espécie de Kuwait africano, em função das receitas da produção de petróleo e gás que colocam o território à frente da Dinamarca, do Reino Unido e da Espanha em matéria de rendimento. Com uma pequena ‘nuance': é que a democracia na Guiné Equatorial é tão viscosa, negra e malcheirosa como o crude. Mas isso que importa se tem petróleo e se hipotecou a independência à companhia Exxon?

Cada vez mais a CPLP se afirma como Comunidade de Países de Língua Petrolesa, isto é, falante do petro-português. E a abertura da CPLP em relação a outros falantes é tão elástica na língua como na democracia. O ditador Obianga dirige um país que, segundo o World Factbook da CIA, para além do petróleo, se dedica ao tráfico de pessoas, em particular de crianças, para exploração sexual. Que tipo de comunidade quer ser a CPLP?

«DE» de 14 Jul 10

Cortes salariais são só leve ideia

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Por Ferreira Fernandes

O ANTIGO MINISTRO das Finanças Ernâni Lopes tem uma solução expedita e deu-a. Ele diminuía "os vencimentos de funcionários públicos com um corte na banda dos 15, 20, 30 por cento." Mais cortante não podia ser, mas Ernâni Lopes conseguiu-o, pois os seus cortes seriam feitos assim: "A cru. Sem explicar nada. Ou melhor, explicando que ou é assim ou não é."
O bom com os antigos que não têm de provar nada (já uma vez Ernâni Lopes nos tirou do atoleiro) é que podem dizer as coisas sem terem de explicar nada. O mau é que aquilo que dizem soa demasiado a dito por quem já não está em jogo e não se importa.
Ernâni Lopes falava nas jornadas parlamentares do PSD. Quem tem o currículo de Ernâni Lopes poderia aspirar a próximo ministro das Finanças, o posto adequado para cortar salários a 20 por cento. Mas se Ernâni Lopes aspirasse a ser ministro do partido que o convidou para as jornadas nunca diria o que disse: assim, o PSD nem o quer ver perto numa próxima campanha eleitoral. Ernâni Lopes é bom para dizer coisas para "outro" partido aplicar (e se possível antes de uma campanha eleitoral). Mas como esse, porque governa, não o convidou para jornadas, o que Ernâni Lopes diz é só metaforicamente cortante. Seria melhor as jornadas parlamentares do PSD terem convidado alguém mais novo que dissesse coisas que não cortassem a sua ambição em as aplicar.

«DN» de 13 Jul 10

terça-feira, 13 de julho de 2010

Futuro

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Por João Paulo Guerra

O BEM GUARDADO mistério sobre o futuro de Portugal e dos portugueses poderá ter começado a desvendar-se através de uma notícia breve, publicada na sexta-feira passada.

Com ou sem formação, os portugueses foram condenados ao fim do emprego e à precariedade. Isso já se sabia. Mas agora ficou também a saber-se que a venda de cautelas e a engraxadoria podem ser actividades de futuro em Portugal. Ora isto representa uma clarificação não só para cauteleiros e engraxadores, mas para todos os putativos equiparados: amoladores, plastificadores de cartões, bufarinheiros, biscateiros e serventes podem igualmente dar livre curso ao espírito de empreendedorismo.

Por outro lado, a boa nova abre alargados horizontes ao sentido de desenrascanço dos portugueses que não tardarão a consagrar novas profissões, filhas da crise, por parte da mãe, e do fim do emprego, pelo lado do pai. Antigamente havia o Instituto das Novas Profissões. Agora há o instituto do desenrasca. E com a formação da escola superior do desenrascanço, os portugueses poderão enveredar por ocupações e até mesmo carreiras de futuro como sejam guia turístico ocasional, indicador de ruas, polidor de calçadas, arrumador transeunte, vendedor deambulante, disseminador de publicidade, figurante, mirone, emplastro ou basbaque, agitador de claques, respondente a inquéritos de rua, testemunha ocular, alegada vítima ou mesmo suposto criminoso. Tudo isto, para além de tudo o que representa economicamente, significa um incremento da intervenção social dos portugueses.

A menos que os termos da notícia tenham outros sentidos. E que profissões de futuro sejam os engraxadores - dispostos a dar graxa ao poder - e os cauteleiros - sempre prontos para todas as cautelas de maneira a não levantar ondas.

«DE» de 13 Jul 10

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Computadores no ensino

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Por Nuno Crato

TIRAR CONCLUSÕES fiáveis sobre as causas de fenómenos sociais é notoriamente difícil. O físico Richard Feynman salientava a dificuldade com que os físicos tiram conclusões a partir de estudos muito rigorosos, feitos por dezenas de cientistas e nas mais variadas condições laboratoriais. E contrastava essa dificuldade com o desembaraço com que alguns sociólogos parecem tirar conclusões a partir de dados vagos e controversos. «Tenho a vantagem de saber como é difícil descobrir verdadeiramente alguma coisa», dizia, «como se tem de ser cuidadoso a verificar as experiências, como é fácil errarmos e enganarmo-nos».

Nos estudos sociais, uma das razões por que é fácil errarmos e enganarmo-nos é o facto de os dados misturarem tantas variáveis que o efeito daquelas que queremos estudar é facilmente ofuscado por outras que lhes vêm associadas. É muito difícil, por exemplo, saber se a introdução de computadores no ensino melhora ou prejudica a aprendizagem, pois ao mesmo tempo que são introduzidos os computadores são feitas outras mudanças e não se sabe se for por estes ou por aquelas que as melhorias ou os retrocessos aconteceram. Também é difícil saber se os jovens que estudam em casa com recurso a computadores têm, só por esse facto, uma vantagem significativa. As famílias com posses para oferecer computadores aos filhos também lhes oferecem outros recursos de estudo (explicadores, mais acesso à cultura, melhores condições de vida).

Num estudo recente, um grupo de investigadores da Universidade Duke, na Carolina do Norte, nos Estados Unidos, procurou ultrapassar estas dificuldades [ver aqui]. Analisou uma amostra gigantesca, de 150 mil jovens, seguidos ao longo de cinco anos. Os dados permitiram observar os resultados dos alunos em matemática e na leitura em dois momentos: antes e depois da introdução de um computador para o estudo em casa. Desta forma, foi possível estudar o seu impacto no progresso dos estudos de cada estudante, independentemente do seu meio social.

Os resultados são surpreendentes. Após a introdução do computador pessoal no seu quarto de estudo, os jovens não melhoram os seus conhecimentos. Os rapazes têm mesmo a algum retrocesso escolar, um retrocesso modesto, mas estatisticamente significativo. Não se sabe a que isso se deve, mas os investigadores notaram a tendência a usar os computadores não como instrumento de estudo, mas sim como meio de comunicação e de diversão. O correio electrónico, as mensagens instantâneas, os jogos na Internet e outras actividades tornam-se uma fonte de dispersão constante.

Poder-se-ia também pensar que a oferta de computadores aos jovens de meios mais desfavorecidos seria um meio de igualização social. Mas este estudo notou que o retrocesso subsequente à introdução de computadores é maior é precisamente nesses jovens. Nas famílias com mais dificuldades, o apoio familiar na orientação do uso dos computadores para objectivos escolares é menor e os jovens dispersam-se mais.

Quer isto dizer que não se devem usar computadores no ensino? De forma alguma. Mas quer dizer que as novas tecnologias não são, por si só, solução para os problemas de aprendizagem. Nada substitui o professor e o estudo organizado.
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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 10 Jul 10

EU GOSTO DESTE PAPA

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Por Maria Filomena Mónica

A MAIORIA dos meus amigos considera patológico o interesse com que sigo as alterações verificadas na Igreja Católica. Se pensam que tal curiosidade é um prenúncio de conversão erram, como erram quando dizem que o assunto não me deveria atrair. Tal como o Don Giovanni diante do Comendador, sei que direi «não» quando chegar a altura. Mas o facto de ter sido criada no seio desta confissão faz com que goste de acompanhar o que se passa nos seus conclaves e de atender às mudanças dos seus rituais.

Para dizer a verdade, tenho saudades da igreja da minha infância. Quando o II Concílio do Vaticano teve lugar, em 1962, já a deixara, mas lembro-me de que fiquei indignada com o facto de a missa ter deixado de ser celebrada em latim. A fúria aumentou quando me cruzei com os católicos progressistas, a quem eu, por lhes atribuir a intenção de almejarem o Céu fazendo, na terra, o que lhes apetecia, passei a desprezar. Educada sob o olhar frio de Pio XII, a minha Igreja era a do Credo, cantado com firmeza, da Missa em dó menor de Mozart.

Não admira que tenha olhado a eleição de Bento XVI com alegria. A sua reputação de conservador levou-me a pensar que este novo papa iria mudar as práticas das ovelhas tresmalhadas. De facto, negou que o conceito de católico não-praticante fosse inteligível e acabou com a interdição da missa em latim. Em vez de um papa, como João Paulo II, que mais parecia uma estrela de cinema, temos, no Vaticano, um intelectual com a coragem necessária para manter os dogmas de uma igreja secular. Gosto de pontífices graves.

Como gosto dos que valorizam o culto tradicional. Para quem aprecie pandeiretas, coros desafinados e beijos a desconhecidos, há por aí evangélicos em barda prontos a oferecer o Céu e o Inferno a quem passar. A Igreja de Roma tem outros pergaminhos. No século XVIII, William Beckford, um dos homens mais ricos do mundo, veio a Portugal. Habituado à austeridade das igrejas anglicanas, adorou o que viu, quando observou, em Lisboa, uma missa no convento das Necessidades. Em 1787, escrevia: «Era um regalo ajoelharmo-nos no pavimento coberto de ricos tapetes persas e eu estive cheio de zelo e devoção.» Como ele, aprecio igrejas barrocas.

Mas voltemos a Bento XVI. Outro aspecto, o da a indumentária, é digno de louvor. Admiro o facto de ter reintroduzido o camauro, o barrete encarnado debruado a pele de arminho, de que se pode ver um exemplo no retrato de Inocento X pintado por Velásquez, na galeria Doria Pamphilj, em Roma. Finalmente, e não se trata de um aspecto meramente decorativo, há os sapatos com que o papa tem aparecido. João Paulo II optara por andar por esse mundo fora com uns sapatões castanhos. Logo nas primeiras aparições, Bento XVI exibiu um par de sapatos vermelhos, a tradicional cor pontifícia, tendo os especialistas de moda afirmado serem da Prada, facto que, até à data, o Vaticano não confirmou nem infirmou.

A maior parte das suas doutrinas, com destaque para a sua posição no que diz respeito à sexualidade, são detestáveis, mas isso não me impede de julgar que, para os católicos, é um papa magnífico. E, por favor, não me venham dizer que é reaccionário: não só possui um iPod Apple, como usa óculos de sol Serengeti. Bento XVI sabe aliar, o que não é simples, o fausto da Igreja Católica, o mundo contemporâneo e uma notável cultura teológica.

O seu curriculum vitae é impecável. Ordenado padre em 1951, J. Ratzinger doutorou-se dois anos depois, com uma tese sobre «O Povo e a Cidade de Deus em Santo Agostinho». Ensinou em várias universidades, participou, como perito, no Concílio Vaticano II e, em 1977, foi feito arcebispo de Munique, seguindo-se-lhe a elevação a cardeal. Já sob o papado de João Paulo II, foi escolhido para prefeito da «Congregação para a Doutrina da Fé» (o organismo que substituiu a Inquisição), a apoteose.

Finalmente, é obvio que Bento XVI se preocupa, e muito, com a imagem, um aspecto não despiciendo num mundo mediatizado. Os telespectadores podem não se aperceber, mas ter um papa com Prada nos pés e camauro na cabeça é o cúmulo da sofisticação. Acresce que o físico ajuda: apesar de filho de um polícia, nele tudo – as feições, as mãos, os cabelos – é aristocrático. Além disso, com base na sabedoria dos textos que consultou, exibe um olhar arrogante, o que, num papa, é indiscutivelmente uma vantagem.
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«GQ» de Novembro 2008

domingo, 11 de julho de 2010

E, no entanto, o mundo rebola

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Por Ferreira Fernandes

NOS DEPORTOS, os Estados Unidos exerceram sempre a sua golden share. Chegou-lhes o cricket do estrangeiro e transformaram-no em basebol. Veio o râguebi e fizeram o futebol americano (nacionalização dupla: acabaram com as hipóteses locais do râguebi e registaram a palavra football, obrigando o legítimo a inventar nome esquisito, soccer)... Ao futebol, além do desvio do nome, empurram-no para um destino pouco viril, promovendo-o nas equipas femininas e insinuando que era desporto dos filhinhos de mamãs da classe média que não trabalham.
Em todo o mundo o futebol apareceu onde operários instalavam os cabos submarinos; nos EUA desapareceu porque nunca foi o desporto de quem usa fato-macaco. E assim nasceu um dos mistérios contemporâneos: como é que a pátria da globalização não adoptou o mais global dos fenómenos? Parecia assunto arrumado. Pois não é: hoje, no átrio principal da Grand Central Terminal, em Nova Iorque, a maior estação de comboios do mundo (e tão nossa conhecida por causa de Hollywood: Intriga Internacional, Cotton Club, O Príncipe das Marés...) haverá um ecrã gigante para o Espanha-Holanda. A última vez que um desporto o merecera foi nas World Series de 1996, nas finais do campeonato de basebol. Ele há sinais que valem mais do que prognósticos de polvo.
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«DN» de 11 Jul 10

A inflexão à esquerda

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Por José António Lima

JOSÉ SÓCRATES apareceu, no caso PT-Telefónica, como o paladino do nacionalismo de esquerda. Chamando a si os galões de «não se envergonhar de defender os interesses nacionais», Sócrates disparou em todas as direcções.

Acusou Durão Barroso e a Comissão Europeia de terem, «de há muitos anos, posições ideológicas ultraliberais», desconsiderou o patrão do BES e seu apoiante desde que é primeiro-ministro, Ricardo Salgado, dizendo «compreender muito bem os interesses financeiros dos accionistas da PT em obterem ganhos a curto prazo» e fustigou, de caminho, o PSD, publicamente dividido sobre esta questão, ao incriminá-lo de «agir como Pilatos, lavando as mãos» e «querendo agradar a todos os sectores». Para concluir, acalorado: «Isso connosco nunca: ou sim ou sopas!».

Este acrisolado e súbito patriotismo de esquerda permitiu ao líder do PS receber um raro apoio, público e conjunto, do PCP e do Bloco de Esquerda. Mas Sócrates corre o risco de estar a combater moinhos de vento espanhóis e de ver a lança da sua golden share – «anacrónica e em breve obsoleta», nas palavras do conceituado Financial Times – transformada num instrumento inútil por decisão inexorável de Bruxelas. Segundo Ricardo Salgado, Sócrates estará mesmo a brincar com o fogo, ao extremar condições para uma eventual OPA da Telefónica sobre a PT.

Mas esta viragem à esquerda da estratégia socialista não é acidental nem politicamente inocente. José Sócrates já percebeu, pelos bem ilustrativos resultados das últimas sondagens, que o PSD o ultrapassou eleitoralmente e ameaça alargar a distância entre os dois partidos a cada mês que passa.

A inflexão à esquerda, nacionalista ou em tons de campanha presidencial, visa segurar eleitorado contra esse crescimento inevitável do PSD e esvaziar as inflacionadas intenções de voto do BE e do PCP.

Mas essa é mais uma quadratura do círculo para Sócrates: não se vê como conciliar um discurso de esquerda com constantes pacotes de austeridade e medidas típicas de direita. Ele lá saberá.
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«SOL» de 9 Jul 10

sábado, 10 de julho de 2010

Salvar a Nação

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Por Antunes Ferreira

EL-REI DOM SEBASTIÃO, ao pé do Dr. Pedro Santana Lopes, não passa de um ajudante de auxiliar de praticante. O Desejado limitou-se a desencadear uma crise com a aventura espúria de Alcácer Quibir. O facto de ter sido considerado durante séculos (e hoje mesmo, ainda) como sendo o Salvador da Nação não tem nada a ver com proposta que ele tenha feito por ideia própria. E, de resto, os meios da Comunicação eram, na época, pouco significativos. Um tal Luís Vaz preparava o lançamento de obra que se visse – e lesse. Mas não percebia muito de marketing.

O Dr. Santana Lopes, bem ao contrário, com um fortíssimo pendor para a criação de impacto junto do povo sempre que faz afirmações, neste particular é um alho. Os já citados media aguardam-no com a tenacidade de um qualquer rotweiller que se preze, sempre na esperança de manchetes resultantes das suas declarações. Neste particular, é um verdadeiro Mestre. Quando menos se espera, ei-lo na berra, depois de andar por aí, ou mesmo quando anda. É um Salvador da Nação sofisticado. Sem espada, mas com armadura ainda que virtual.

Tenho para mim que é a altura ideal para apresentar ao José Cid (que, qual Fénix, vai renascendo das próprias cinzas), uma sugestão: compor uma nova balada que, desta feita, poderá começar, a exemplo do que fez com o saudoso monarca, com um sonoro Pedro Santana Lopeeees. O cavalo do êxito não passa assim tão frequentemente por um músico; há que aproveitar a ocasião e montá-lo.

Cito órgãos de informação: «(…) criticou o Presidente da República por ter deixado que o PS formasse Governo sozinho, na sequência das eleições legislativas de Outubro, insistindo que o ideal era ter promovido um "Governo de salvação nacional",(…) “com base maioritária estável no Parlamento". Mas não defende um Governo de bloco central, formado apenas por PS e PSD ou também com a participação do CDS-PP. "Era necessário um Governo de salvação nacional onde admito a conveniência de ser chamado o próprio PCP e as diferentes forças sindicais à mesa das negociações", advogou (…)»

Os Portugueses estão fartos de ser salvos contra vontade. Eu, pelo menos, estou. Consecutivamente, quais cogumelos, brotam excelentes intenções de salvar a Pátria exangue, com os resultados que se têm vindo a ver e se vêem. É um tanto como o escuteiro que, ao ver uma velhinha parada no passeio, se lhe dirigiu e a ajudou a atravessar a rua, alegando tratar-se da sua boa acção de cada dia. O óbice é que, já no outro lado, a senhora lhe disse que não queria atravessar coisíssima nenhuma, apenas estava à espera da neta Filomena.

Um «Governo de Salvação Nacional», com todos como o bacalhau é uma ideia muito interessante e que, na medida do possível, deveria ser tomada seriamente em consideração. Oportunidades como esta não se podem desaproveitar. Modestamente, adendo: no contexto da comparação histórica, o primeiro-ministro podia ser, então, o Senhor Dom Duarte Pio. Sem cavalo branco, mas com muito nevoeiro – para não ser reconhecido.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

O Mercado Ficcional

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Por Carlos Fiolhais

NO MUNDIAL DE FUTEBOL, a Espanha ganhou a Portugal porque jogou melhor e porque meteu um golo contra nenhum. Como a FIFA não permite o uso de golden shares nas selecções de futebol, o governo português não pôde, no final do jogo, anulá-lo com o pretexto de que não gostou do resultado. Não pôde, por exemplo, afirmar que era “absolutamente estratégico” para a equipa das quinas não perder.

No jogo económico entre a Telefónica e a Portugal Telecom (PT) que, por coincidência, se realizou no dia seguinte, a primeira meteu um “golo” ao oferecer 7150 milhões de euros pela participação da segunda na Vivo, empresa brasileira de comunicações móveis, um preço bem acima do actual valor daquela participação e que quase chega ao actual valor de toda a PT. Os accionistas da PT, por uma expressiva maioria (74 por cento), não tiveram dúvidas em aceitar a oferta. As leis do mercado funcionaram, tal como funcionam todos os dias, por todo o lado do mundo.

O governo português fez, porém, questão de mostrar ao mundo que essas leis não funcionam aqui. No final do jogo, com uma flash interview, o primeiro-ministro José Sócrates anulou o resultado. A “FIFA da política europeia” não gostou. A vice-presidente da União Europeia, a holandesa Neelie Kroes, avisou Portugal que não podia usar "medidas proteccionistas e nacionalistas num mercado único". A golden share que foi usada para efeitos de veto é, pelo menos desde 2008, disputada no Tribunal das Comunidades Europeias, aguardando-se sentença no dia 8 de Julho. A União Europeia não tem dúvidas: “os direitos especiais que o estado português ostenta na PT desincentivam os investimentos por parte de outros Estados membros, violando as regras do Tratado da União Europeia”. E os juízes europeus irão, em breve, confirmar isso mesmo.

A explicação de Sócrates parece pífia. Começou por dizer que a golden-share (uma palavra de inglês técnico) “é para isso que serve, para ser utilizada quando necessário”. Pode-se, convenhamos, dizer isso de qualquer coisa, pois qualquer coisa servirá se for usada e não servirá se não for usada. Só uma coisa ilegal é que não serve para nada pois não pode ser usada. O primeiro-ministro acrescentou que “é uma questão absolutamente estratégica para o desenvolvimento da PT”. Pode-se, contudo, argumentar que o seu veto não foi a favor da PT, pois ninguém melhor do que os accionistas da PT saberá o que favorece aquela empresa. Eu não sou accionista nem sequer cliente da PT, que durante anos e anos me cobrou taxas telefónicas abusando da sua posição dominante (estou muito grato por o mercado me oferecer alternativas mais baratas e melhores!), mas, se fosse, acharia, no mínimo, paternalista a posição do governo. Significaria que o governo saberia melhor do que eu o que fazer com os meus bens. Em matéria de PT, ele não tem, aliás as “mãos limpas”, pois além da golden share também lá tem, não o esqueçamos, Rui Pedro Soares.

Além do mais, Sócrates deixou em maus lençóis os responsáveis da PT, que andaram primeiro a dizer aos accionistas que a golden share não se aplicava a este caso e depois que a vontade deles devia ser respeitada. Talvez agora não tenham outra saída a não ser demitir-se.

O órgão maior da imprensa económica (continuando a metáfora, o equivalente ao maior jornal desportivo), o Financial Times, chamou “estupidez colonial” ao gesto do governo luso, considerando que não se trata de defender o interesse nacional, mas sim, quando muito, o interesse de uma empresa privada com sede em Lisboa e um ramo num país estrangeiro que há muito deixou de ser colónia. Um governo de direita não faria diferente do que fez Sócrates. E, como os extremos se tocam, foi curioso ver o Partido Comunista e o Bloco de Esquerda a aplaudi-lo, precisamente numa altura em que ele lançou um ataque fiscal sem precedentes aos contribuintes. O controlo estatal da economia tem defensores nos dois lados do espectro político e, pelos vistos, também no meio. Em Portugal, o mercado, de que tanto se fala, não passa afinal de uma ficção.
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In Público e De Rerum Natura

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Explicações

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Por João Paulo Guerra

O PARTIDO SOCIALISTA reuniu os seus parlamentares com actuais e antigos dirigentes. O futuro do PS não se apresenta cor-de-rosa e o partido tem que saber a tempo o que fazer. E ao fim de algumas horas a partir pedra, o PS descobriu a pólvora: a austeridade é justa e equitativa, mas os portugueses não compreendem o seu alcance.

Já todos os governos, de todos os matizes e em todas as circunstâncias, incluindo este e outros governos do PS, chegaram a esta mesma conclusão: estão a aplicar políticas ajustadas e justas, adequadas e eficazes – que, como se vê pela situação actual, não produziram efeitos de eficácia alguma –, mas os estúpidos dos portugueses não entendem. E portanto, o que havia, houve e há que fazer é proceder a lavagens aos cérebros dos portugueses, para ver se de cérebro lavado os portugueses compreendem os méritos do Governo e das suas políticas. Ou seja, vem aí uma onda de propaganda para explicar aos portugueses que o Governo PS lava mais branco.

Estas reuniões partidárias, realizadas quando as sondagens e outros sinais começam a indicar o caminho do abismo, sofrem de um defeito congénito: é que a lógica dos partidos não coincide com a dos cidadãos. Para os cidadãos, chega um momento em que lhes é indiferente quem é que lhes vai aos bolsos ou lhes aperta os cintos. Mas para os partidos a questão do poder não é de modo algum indiferente. Quem tem o poder, independentemente da política que executa, tem a faca e o queijo na mão: corta, parte e reparte e, naturalmente, distribui entre os seus pares a melhor parte.

E agora, silêncio e prestem atenção: o PS vai explicar aos portugueses porque é que seu o desmantelamento do Estado social, os seus cortes nos apoios sociais, são melhores que os do PSD.
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«DE» de 8 Jul 10

UM BELO HOMEM

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Por Maria Filomena Mónica

A PUBLICIDADE que mostra o homem como objecto de desejo não tem, na minha opinião, sido comentada com suficiente ênfase. E, no entanto, ao contrário do que sucedia há cinquenta anos, deparamo-nos, nas revistas, na televisão e nos outdoors, com uma multiplicidade de figuras masculinas, procurando associar a beleza física a um determinado produto. Até o meu querido Dr. House anda por aí a mostrar que gosta de Schweppes.

Há quem diga que isso denota uma maior presença da homossexualidade na vida contemporânea. Não estou de acordo. O aparecimento do homem-objecto deriva da afirmação da mulher-sujeito. Dantes, era suposto serem os homens, e só eles, a escolher as parceiras sexuais. Isto mudou: agora, as mulheres têm igualmente uma palavra a dizer na matéria. E o que dizem é que preferem homens bonitos.

A beleza não escolhe sexos: existe tanto nos homens como nas mulheres. Deve aliás ser apreciada, em ambos os casos, como uma graça de Deus. Há quem pense que o adjectivo belo não se casa com a ideia de masculinidade. No caso do sexo forte, dever-se-iam aplicar adjectivos como interessante, viril ou sexy. Os homens poderiam ser feios, mas teriam, dentro da alma, um cocktail de qualidades feito à base de carácter, inteligência e garra, o que os tornaria atractivos, independentemente da compleição exterior. Isso é que os eles, homens, gostariam que nós, mulheres, pensássemos. Mas não corresponde à verdade.

Curiosamente, a campanha femininista contra a falocracia tornou mais complicado o reconhecimento de que há homens belos e, nalguns casos, espantosamente belos. A maioria das pessoas aceitou, sem queixas, que as mulheres fossem tratadas como objectos sexuais, isto é, vistas apenas como um corpo, cujo objectivo fosse atrair a atenção masculina.

Pelos vistos, compete agora aos homens desempenhar idêntica função. Para surpresa de alguns, as mulheres são tão capazes quanto os homens de apreciar um corpo. No século XIX, a possibilidade de prazer sexual era vista como uma degenerescência apenas observável em prostitutas, sendo negada às mulheres decentes. A situação alterou-se depois da morte da rainha Vitória. Basta pensar na série televisiva O Sexo e a Cidade, a qual demonstrou ao universo que as mulheres – pelo menos as que habitam Nova Iorque – se interessam pelo sexo tanto quanto os homens.

Tenho falado apenas como socióloga, mas posso facilmente mudar de papel. O meu trabalho de casa consistiu em comprar dezenas de revistas, após o que seleccionei centenas de anúncios – dos produzidos para a Aquascutum, Bally e Burberry aos dos Rolex, Salvatore Ferragano e Versace – tendo o ser masculino como figura central. Fui eliminando aqueles de que menos gostava, tendo conseguido ter apenas três na mão: o anúncio da Dolce & Gabbana – em que se vê um latagão com gel no cabelo, exibindo cuecas de atilho desabotoado e, em último plano, uma rocha-tipo-útero, sobre um mar e céu brancos; o de Giorgio Armani, no qual vemos apenas uma cara encostadas a um mão; e o da Chanel, com um macho despenteado, o peito com uma floresta capilar e um ar selvagem.

O exercício consistia em escolher o mais belo de entre esta lista. Excluí logo o da Chanel. Depois, hesitei entre o do Dolce & Gabbana e o do Giorgio Armani, mas a pose do primeiro acabou por o desqualificar. O mais belo é, sem dúvida, o do último anúncio, o qual tem feições simétricas, sobrancelhas impecáveis, olhos entre o inocente e o misterioso, um nariz apolíneo, uma boca sensual, orelhas dimensionadas e um queixo perfeito. O corpo, entrevisto uns centímetros abaixo do pescoço, dá-nos a mais erótica das três imagens.

Só no final percebi que se tratava de um anúncio à água-de-colónia que uso todos os dias. Detestando o cheiro dos produtos femininos, restavam-me duas opções: o uso de Acqua di Gio ou a essência de flor de papiro, uma preferência que implica uma deslocação ao Cairo. Fiquei pela primeira, do que não me arrependo. Ao ter de escolher, e por machismo, estive quase a pôr de lado o anúncio de Giorgio Armani, apenas por o homem que nele aparece ser bonito demais. Há, neste jovem, qualquer coisa que me faz lembrar o Paul Newman em novo, um actor que só comecei a apreciar a partir da sua meia idade. Julgar a beleza dos homens é mais complexo do que se julga.
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«GQ» de Outubro 2008

O mexilão é que se lixa

Por Manuel João Ramos

COMUNICADO CONJUNTO ACA-M e ASPIG


O MINISTÉRIO Público acaba de acusar o motorista do juiz-conselheiro Mário Mendes do crime de condução perigosa de veículo rodoviário, após conclusão do inquérito ao acidente de Novembro passado, na avenida da Liberdade, em Lisboa.

Por mais escandaloso que possa ser o despacho de acusação – que iliba o magistrado como comitente da infracção (ver a alínea a) do n.º 7 do Art. 135.º do Código da Estrada) –, ele não surpreende. É uma infeliz tradição que os detentores de cargos públicos se considerem acima da lei e pressionem os seus motoristas a conduzir de forma a pôr em perigo a sua própria segurança e a dos demais utentes da via pública, quase sempre abusando do disposto no Art. 34.º do Código da Estrada que estabelece o conceito de “marcha urgente assinalada em missão de interesse público”. E é também infeliz tradição que nunca sejam acusados de pressionar os seus motoristas, de perverter a lei, e de contribuir significativamente para a insegurança rodoviária em Portugal.

A ACA-M constituiu-se em Março último assistente no processo da Av. Liberdade, precisamente para assegurar uma investigação cabal dos factos e responsabilidades. No entanto, o DIAP-Lisboa recusou-nos consulta do processo com o alegado fundamento de este se encontrar em segredo de justiça.

Agora, aguardamos a notificação do despacho do DIAP.

A ASPIG (Associação Sócio-Profissional Independente da Guarda) apoia esta denúncia pública da ACA-M. A ASPIG, que tem desde sempre lutado contra estes abusos dos detentores do poder, está solidária com o seu camarada motorista que é militar da GNR..

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Quem foi que disse que «Talento é a arte de simplificar»?

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Quem quiser ver o resto (visto que esta maravilha continua), aceda [aqui]

Uma derrota anunciada

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Por Rui Tavares

UM BOM zombie nunca morre à primeira.

Em 2001, após o 11 de Setembro, a Administração Bush começou a pilhar em segredo os dados das transferências bancárias europeias. Fizeram-no através dos servidores do consórcio bancário SWIFT, que estavam em solo americano. E fizeram-no sem a mínima intenção de avisar os seus maiores amigos e aliados do que estava a acontecer. E teriam continuado a fazê-lo se não tivessem sido descobertos pela imprensa em 2006.

Depois do escândalo, a SWIFT – Society for Worldwide Interbank Financial Transfers – acabou por mudar todos os seus servidores para solo europeu. Só que aí os EUA negociaram com o Conselho da União Europeia um acordo segundo o qual nós continuaríamos a ser pilhados, mas com o consentimento dos nossos governos e da Comissão Europeia. Que o deram, evidentemente, e às escondidas, 24 horas antes de entrar em vigor o Tratado de Lisboa.

Só que aí matámos o zombie pela primeira vez. Numa das coisas boas que o Tratado de Lisboa tem, o Parlamento Europeu ganhou o poder de rejeitar acordos internacionais assinados em nome da UE. E foi o que fizemos. Nem foi difícil: bastou perguntarmo-nos se o Congresso dos EUA aprovaria enviar os dados das contas americanas para uma potência estrangeira. A resposta era negativa, o voto foi também. Acordo rejeitado.

Ato contínuo, a Comissão começou a negociar um novo acordo com os EUA, sob mandato do Conselho Europeu para – adivinharam – se poder enviar dados em bloco para os EUA, desde que sob controlo de uma “autoridade judicial independente”.

E aí matámos o zombie pela segunda vez. Numa resolução do Parlamento Europeu, declarámos que a transferência em bloco de dados bancários europeus era contrária à lei. No quadro da luta contra o terrorismo justificar-se-ia enviar os dados pontuais dos suspeitos e acusados de atividades terroristas, mas não dos 99% de cidadãos inocentes. Parecia-nos justificado e sensato. E parecia a alguns deputados – a mim nem por isso – que arrumava o assunto.

Só que aí – eu sei, é a terceira vez que uso esta expressão, mas é assim que se contam os filmes de zombies – apareceu o acordo de novo. Onde se dizia “autoridade judicial independente” passou a aparecer a Europol, que não é nem judicial nem independente, e que passará a carimbar os pedidos dos americanos (nos quais tem interesse direto, pois recebe pistas policiais em troca – um caso clássico de pôr o bêbado a cuidar da garrafeira). E onde se dizia “dados em bloco”, a expressão deixa de aparecer para não violar a resolução do parlamento. Mas a realidade não muda. Segundo fomos informados em Washington, vão ser enviados cerca de 90 milhões de mensagens por mês, ou mais de mil milhões por ano.

O acordo vai ser votado nesta semana em Estrasburgo, em conveniente procedimento de urgência. Os grupos Popular, Socialista e Liberal preparam-se para o aprovar, declarando que temos aqui uma grande vitória. Em privado, sabem que o negócio é péssimo, mas dizem-nos que a chantagem dos governos sobre as suas carreiras políticas foi mais forte do que o costume – e eles, coitadinhos, assustaram-se. A imprensa também anda distraída, e assim os cidadãos não podem fazer o seu papel, que seria de escrever aos 736 eurodeputados a perguntar o que se passa. O zombie está mais forte do que nunca. Sendo realista, parece-me que desta vez ele ganha. Resta vender cara a pele.
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In RuiTavares.Net

Sem remorso e sem polémica

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Por Baptista-Bastos

MUITO NOVO, muito novo mesmo, aprendi que temos de fazer o que é preciso fazer. A assunção deste princípio implica certos riscos, sobretudo se vivermos numa sociedade precaucionista. No campo actual das nossas experiências políticas, os perigos não são semelhantes aos que impendiam sobre nós no tempo da ditadura; mas constituem, ainda assim, gravíssimas ameaças. O chamado "poder democrático" dispõe de meios e de processos intimidatórios extremamente sofisticados para punir os recalcitrantes. A "dissidência" e as suas duras consequências não são exclusivo apanágio do comunismo. Esta lógica do castigo a quem prevarica espalhou-se por todos os partidos, sem excepção.

O PS promoveu as suas Jornadas Parlamentares. Os seus notáveis, assim como os menos notáveis, identificaram as raízes dos nossos problemas contemporâneos com a maldade do sistema financeiro. Nenhum dos oradores que me foi dado ouvir analisou o fundo da questão. Nenhum deles, também, procedeu à mais ténue autocrítica. E respaldam-se em investidas serôdias e cansativas ao PSD, como se fosse este partido o único responsável pela violência dos ataques ao mundo do trabalho, aos funcionários públicos, à Saúde, à Educação e, até, valha-nos Freud!, à Justiça.

As Jornadas não vão dar em nada: constituem um cenário teatral pouco convincente, uma demonstração enganosa que pretende legitimar as malfeitorias de um Governo cuja acção tem tripudiado sobre a nobre ideia de socialismo. Os exercícios de retórica apenas reconhecem as funções do poder, e poucas vezes, muito poucas vezes, o poder reconhece os erros e os desvios próprios. Nos discursos de mera circunstância, somente Ferro Rodrigues, pelo qual desejo manifestar consideração, se aproximou da génese da crise, denunciando, timidamente, o carácter predador do capitalismo e da fase de domínio sobre todas as formas sociais em que se encontra. Mas ficou-se pela superfície. É pena.

Não esperava afirmações contundentes nem rupturas com um passado que, amiúde, chega a ser escabroso. Porém, talvez não fosse má ideia que alguns dos dirigentes socialistas tivessem a coragem de cauterizar as características patológicas de que o PS e os seus Governos têm enfermado.

O problema da identidade política e ideológica daquele partido foi esquecido. Não houve discussão teórica, e podem crer que, no estrangeiro, sobretudo em França [verbi gratia os textos vivíssimos de Alain Badiou e de Myriam Revault d'Allonnes] têm sido apresentadas curiosas soluções que, pelo menos, renunciam ao mutismo e à resignação. Não houve polémica nem remorso nem grandeza nestas Jornadas Parlamentares do PS. O PS não tem feito o que é preciso fazer.
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«DN» de 7 Jul 10

terça-feira, 6 de julho de 2010

O meu primo Leonardo e o meu tetravô Bernoulli

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Por Nuno Crato

POR CURIOSIDADE, mal soube da existência da base internacional “Mathematics Genealogy Project” fui ver o nome do meu orientador e conhecer a minha árvore genealógica científica. Na gíria, o meu orientador de doutoramento é o meu “pai”, o orientador do meu orientador, o meu “avô”, e por aí adiante. Está tudo em linha num portal da Internet muito simples, mas muito instrutivo. Contribuí para ele entretanto, acrescentando o meu nome e os dos meus filhos científicos. Tive mais um — aliás uma — na semana passada. Já lá a acrescentei, orgulhoso como qualquer bom pai.

À data que escrevo estas linhas, o portal tem 142847 matemáticos registados; permite recuar aos tempos de Galileu e ainda alguns séculos antes. Pesquisando a minha árvore, fiquei orgulhoso por encontrar antepassados famosos. Descobri que descendo de Poisson, de Lagrange, de D’Alembert, de Euler e de Jacob Bernoulli. Consegui recuar até 1408, data em que o meu tetra-tetra-tetra…-tetra-avô Guarino de Verona se doutorou com Demetrios Kydones. Descobri também que Leonardo da Vinci é meu “primo”, embora afastado. Vesalius, Mercator e John Dee também. São bons motivos para ficar orgulhoso. Ou pelo menos assim pensei.

Na realidade, o orgulho é de todos nós, pois qualquer matemático que procure a sua ascendência científica irá forçosamente encontrar, se recuar o suficiente, um nome grande da história. Verifiquei isso com alguns colegas, que procurei ao acaso. Somos todos filhos de Eva. Somos todos descendentes científicos do número reduzido de investigadores que, no passado, desenvolveram este ramo do conhecimento. É inevitável que assim seja, mas é surpreendente verificá-lo.

Esta base de dados da genealogia matemática (http://genealogy.math.ndsu.nodak.edu) é tão grande que tornou possíveis estudos estatísticos antes impensáveis. Um grupo de investigadores da Universidade Northwestern, Illinois, que inclui o nosso compatriota Luís Amaral, publicou recentemente na “Nature” (doi:10.1038/nature09040) um artigo em que se estuda o papel da tutelagem (“mentorship”) dos orientadores sobre os seus doutorados.

Uma das conclusões interessantes do estudo, que incidiu sobre o século XX para poder ter um período com alguma homogeneidade, é que a “fecundidade” dos orientadores, isto é, o número de estudantes de doutoramento que orientam, se distribui de forma muito semelhante ao longo dos tempos. A média, por exemplo, pouco varia, mesmo considerando períodos tão diferentes como os do início do século XX, as guerras, a guerra fria e os anos 1990. Outra conclusão interessante, embora não surpreendente, é que o número de estudantes se correlaciona positivamente com o número de artigos científicos publicados pelos orientadores.

Curiosamente também, há um limite de idade a partir da qual os mentores têm menos sucesso. No fim da carreira científica, os matemáticos orientam pior os seus estudantes. Estes, em média, vêm a ser menos produtivos.

Mas estudando o sucesso dos orientadores, medido em termos da produção científica e da “fecundidade” dos seus orientandos, o estudo conclui, talvez inesperadamente, que os que têm um grande número de estudantes não têm necessariamente os que são mais produtivos. Ou seja, parece que há um limiar de número de alunos acima do qual estes não são tão bem acompanhados e, por isso, não vêm a ter tanto sucesso. Como em todas as árvores genealógicas, esta conta-nos as glórias e as tristezas da família.
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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 3 Jul 10

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Dedicado aos pedaços de asno


Por Ferreira Fernandes

O MAIS EMOTIVO que tivemos até 10 de Junho de 2010 sobre África do Sul anunciava um desastre: jornalistas roubados, violência policial perto dos estádios... O Mundial 2010 ia ser um horror. Comentaristas televisivos desdenhavam do país, sul-africano mas galopantemente africano, incapaz para acontecimento tão importante...
Abrindo hoje a última semana do Mundial, faço um balanço. E não, não vou fazê-lo geral, o que é sempre impreciso, nem sublinho uma daquelas características que, não sendo de deitar fora, dizem pouco (género: os sul-africanos são gente simpática...) . Vou para pormenores técnicos com consequências que cada um pode reconhecer em sua casa: nunca um Mundial de futebol foi tão bem filmado. E não vale justificar com as melhorias tecnológicas desde o Mundial da Alemanha, há quatro anos: nunca um jogo europeu, daqueles que ainda se faziam em Maio passado, foi tão bem filmado. Os muitos ângulos com que se vê uma marcação de canto, as bochechas de Xavi a tremer no momento do remate, o círculo, filmado de cima, da oração da equipa antes do jogo, o olhar vazio, falhado o penálti, do ganês Gyan, a angústia do uruguaio Suárez seguida de salto de alegria, o choque entre duas chuteiras, o pedaço de relva que salta...
Nunca se filmou assim o futebol. E quem filmou chama-se South African Broadcasting Corporation. Como o nome indica, não é de Hamburgo.

«DN» de 5 Jul 10

domingo, 4 de julho de 2010

Dois logros do "eduquês"

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Por Guilherme Valente

1. Ensina-se, supostamente, a «aprender a aprender». Mas não se ensinam os conhecimentos que os alunos precisam de aprender. Ensina-se, supostamente, a «aprender a aprender» matemática. Mas o que é preciso mesmo é aprender matemática.

O «aprender a aprender» tornou-se moda por soar bem e prometer o «milagre» de se poder aprender tudo sem ter de se aprender nada.

O eduquês substitui o que importa ensinar pelas técnicas e métodos que supostamente permitiriam aprender tudo sem esforço.

Dois exemplos reveladores do logro:

Se eu pretender recrutar um tradutor de inglês, não indagarei se os candidatos sabem «aprender a aprender», mas se sabem, pelo menos, inglês e português.

Se a Carris precisar de um motorista, não perguntará aos candidatos se sabem «aprender a aprender», mas se têm carta de condução e experiência de conduzir.

2. As «competências» são outro logro, que engana o incauto porque a expressão tem um significado próprio que o senso comum instantaneamente apreende e valoriza. Mas o que é um indivíduo competente? Alguém que adquiriu e domina conhecimentos e técnicas e é capaz de os aplicar no exercício eficaz de uma função. Haverá alguém competente, seja no que for, sem conhecimentos?

O que será uma competência em Filosofia Medieval? Só pode ser o conhecimento do pensamento dos filósofos da época e do contexto em que foi elaborado. O que exige tê-los estudado, dominar o latim, grego, história, etc. E ser competente em física quântica? E a cozinhar uma boa caldeirada?

Também o candidato a um curso universitário de Física deverá ter adquirido os conhecimentos que permitem responder à exigência de aprofundamento e especialização que pressupõe. Não chegará que saiba «aprender a aprender», pede-se-lhe que já tenha aprendido muito.

3. Importante não é o modo como se ensina e aprende, mas o que efectivamente se ensina, aprende e exercita. E é só o aprender muito que potencia a capacidade para aprender mais e diferente.

O método é um «caminho». As técnicas e meios de ensino devem ser adoptados e mesmo construídos em função das matérias e dos alunos. A pedagogia é uma disciplina respeitável, mas auxiliar, não é o objectivo do ensino.

4. Ora, como a pedagogia parece ser o único conhecimento que os «especialistas» da educação supostamente dominam, valorizam-no até ao ridículo, garantindo, assim, o poder e o emprego.

É esse o programa dominante na maioria dos cursos de formação de professores, que lançam no ensino vagas de docentes, grande parte sem poderem ensinar nada, por saberem muito pouco do que deveriam ensinar.

Mas como o ME é controlado pelos mesmos que os «formaram», fica tudo em casa, isto é, a escola e a «avaliação» não podem deixar de ser o que, com raras excepções, são.

Se o leitor quiser saber até que ponto o rei vai nu, peça a um desses novos docentes, ou a um dos pobres bons professores a quem é imposta a cartilha, um exemplo de uma «competência». Aposto que será: a «leitura de um horário de comboio»…

Refeito do choque, pergunte, a seguir, como se avalia a competência em História, Física, Electricidade…

5. O «aprender a aprender» e as «competências» são um pico da pedagogice, logros que servem ao eduquês e aos «especialistas» para que não se ensine, não se aprenda, nada possa ser avaliado.

São, afinal, manifestação da desvalorização relativista do conhecimento e do professor, da aversão rousseauniana aos «saberes letrados», supostamente origem da desigualdade e da desarmonia social. Tornar todos iguais, é o projecto inconfessável do eduquês. Mesmo que para isso seja preciso condenar todos à ignorância, à boçalidade e à miséria.

Todos?
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«Expresso» de 3 Jul 10

A sr.ª Merkel não poupou na alegria

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Por Ferreira Fernandes

ANGELA MERKEL é pela contenção de despesas, não das emoções. Ontem vi-a levantar-se por quatro vezes, abraçando à volta com a alegria que não teria nem que lhe tivessem anunciado a queda da dívida pública alemã para metade ainda antes de 2013 como quer o G20. Que G20?! Ontem foi dia do G4 (dois do Klose, um de Müller, outro de Friedrich, todos da Mannschaft, nenhum do Deutsche Budesbank).
Sentado ao lado, o Presidente sul-africano, Jacob Zuma, parecia surpreso com tanta excitação da sr.ª Merkel. A última vez que ele vira coisa parecida foi durante um ritual zulu e ele fazia mais uma vez de noivo. Quem o conhece sabe que Zuma estava um pouco desiludido. Do que ele gostava mesmo era assistir a um duelo feminino, como acontecera há uma semana, em Toronto - na cimeira, essa sim, do G20. Dessa vez, Merkel defrontava a sua colega argentina Cristina Kirchner. Jogou-se em Toronto com tácticas diferentes das ontem vistas. A sr.ª Kirchner alertou para os perigos da muita austeridade, enquanto a sr.ª Merkel foi a campeã do poupar e cortar.
Ontem, na Cidade do Cabo, foi o que se viu, a alemã, despesista, e a argentina nem foi de viagem, tão poupada como os seus no relvado, que foram também pelos gastos zero. Mas o que nos interessa, aos europeus, foi a viragem de Angela Merkel: "Foi alucinante!", disse ela. Ainda a vamos ver a vender as ilhotas alemãs do Báltico.
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«DN» de 4 Jul 10

sábado, 3 de julho de 2010

Lello, o avião e os credores

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Por Ferreira Fernandes

EM VIAGENS CURTAS de avião, os deputados passam a ir em classe económica. Antes viajavam em executiva. É uma medida que se insere na vontade de os de cima mostrarem aos de baixo que estamos todos no mesmo avião. Há nessas restrições alguma poupança real (a executiva custa, às vezes, quatro vezes mais), mas o que há, sobretudo, é a intenção de os políticos se mostrarem solidários com o apertar geral do cinto.

Ainda há dias, Sarkozy determinou que em território francês os políticos só viajariam de avião quando não houvesse ligações de comboio. Há demagogia nessas medidas, pois há. Passar de executiva para económica equivale dizer àqueles a quem a crise fez passar de empregado para desempregado que há uns que cortam as unhas enquanto eles tiveram os dedos cortados, pois é. Mas o simples anúncio da poupança é o reconhecimento de um dos fundamentos da democracia: quem manda tem de justificar-se perante quem o elegeu. A restrição isentava o presidente do Parlamento, mas Jaime Gama disse que também ele passará a viajar em económica. Gama percebeu. Já o deputado José Lello disse: "É degradante (...) O que dirão os nossos credores se a segunda figura do Estado viajar em económica?"

Lello não percebeu duas coisas. A primeira é que todos os credores apreciam que os devedores poupem. A segunda é que os credores não são para aqui chamados; os eleitores, sim.
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. «DN» de 3 Jul 10

Que horror, iguais aos outros!

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P
or Ferreira Fernandes

OS CAPITALISTAS, com um milhão de acções ou 500, fizeram o que lhes apeteceu: votaram por ou contra, segundo o interesse. É esse um dos encantos do capitalismo, o interesse de cada um (em francês percebe-se melhor, "intérêt" é também "lucro"). O Governo, votando contra, seguiu o seu interesse. O interesse de um Governo é o do país que governa, e há bons argumentos nacionais para a PT guardar a ligação à Vivo brasileira.
Mas também se pode suspeitar de que o Governo tenha agido no interesse próprio: o uso da golden share terá sido só manobra política para capitalizar com causa popular. Então, o Governo votou "não" por causa de Portugal ou do PS? Tirando a hipótese de uma comissão parlamentar não vejo como deslindar. Mas proponho uma solução quantificável. Quando a golden share for abolida, daqui a dias, se a Telefónica pagar os 7,15 mil milhões já prometidos, a PT não perdeu nada e o Governo marcou uma posição. Se forem menos de 7,15 mil milhões arrecadados, então, o Governo errou.
Daqui a dias vamos tirar a limpo. Não me venham é com as perdas morais por o nosso Governo interferir em negócios. Em 2005, por "patriotismo económico", o Governo francês opôs-se a OPA americana à Danone. É certo que é empresa de iogurtes e sabemos a importância que a França dá ao palato. Mas também nós damos importância patriótica às palavras, que é o negócio da Vivo.
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«DN» de 2 Jul 10

Ascot: a day at the races

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Por João Duque

LONDON, SATURDAY, 9:00 am. Estação de comboios de Waterloo. Entro na gare onde centenas de passageiros se acolhem e vejo, no meio do enorme hall de acesso às plataformas, um sujeito alto, envergando uma cartola. Seria publicidade ou o homem do fraque? O olhar desvia-se 10 graus oeste e outra cartola irrompe da planície de cabeças. Ainda sem perceber a razão de tanta cartola, dou de caras com uma elegante inglesa, encobrindo as madeixas louras sob um exuberante chapéu. Depois outro chapéu de diva, e mais outro, e ainda outro. E outra, e outra e outra cartola mais! Um mar de gente bem vestida a rigor, onda de chapéus e cartolas, fraques e vestidos compridos, como que preparados para um casamento.

"O que é isto?" Admiti por momentos que um grupo de cruzados pela abolição dos transportes privados, ou bando de train lovers fanáticos, tivesse decidido um casamento em comboio... Ainda pensei por momentos que fosse iniciar-se a produção de um flash mob.

"God Good João! Ascot my darling!", sussurrou-me a minha mulher ao ouvido. E lá foram elas (e eles) para a "Platform 5 to Ascot!"

As corridas de cavalos são um clássico inglês e estas, em particular, são um espetáculo com direito a transmissão televisiva em direto, mais pelo desfilar das humanas beldades e vaidades que das hípicas da mais pura raça com quem rivalizam.

Deixei-os a correr para Ascot e eu corri para Southampton. No caminho abro um jornal e vejo o anúncio a uma campanha publicitária de um banco. Este, oferecia uma taxa (de juro) de cupão de uma obrigação de 4,15%, mas que aumentará para 4,65% se a Inglaterra ganhar o campeonato do mundo de futebol. Lembrei-me que algumas empresas estão a fazer campanhas idênticas. Uma promete agora em Portugal devolver o dinheiro pago na compra da televisão da marca, se Portugal vencer este campeonato do mundo. Nisto vejo um anúncio semelhante da mesma empresa que promete o mesmo para o público inglês, se a Inglaterra vencer este mesmo campeonato.

De repente "realizei" (não digam isto porque está errado!). O truque está aqui! Empresas verdadeiramente globais podem e fazem isto. Prometem a todos os povos participantes do mundial que pagarão um prémio se a respetiva seleção ganhar o campeonato, e depois só devolvem a um! Ganham em 31 e pagam a um! Se esse for muito grande pode sempre reduzir o prémio desse mercado, mas a ideia é extraordinariamente simples. No cômputo geral acabam, naturalmente, a ganhar.
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«Expresso» de 26 Mai 10

Carlos, o mestre-escola

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Por Antunes Ferreira

TRATA-SE DO FAMIGERADO Queiroz a que temos direito, mas, atenção, é o Carlos, que o nosso Eça não tem nada a ver, felizmente, com esta embrulhada. Trata-se do alegado responsável pela selecção nacional que se portou de forma medíocre no Mundial da África do Sul. Trata-se de um sujeito portador de verborreia aguda, inconsequente e incompreensível, quando fala, em Português, sem tradutor.

Esta equipa nacional pode ser tudo, mas não é uma… equipa. É um molho de jogadores, alguns deles bons, um que outro óptimo, mas sem nada a uni-los. Porque quem a dirige não o consegue fazer – não o sabe fazer. Poderão dizer-me que enfileirei no clube dos treinadores de bancada, ora apontado como atacante do professor. Todos nós o somos. E 85 % rejeitam o homem. Que, para ser verdade, deveria, ele sim, incutir espírito atacante na selecção.

Isto porque, bem vistas as coisas, a selecção foi para a África do Sul (depois de uma penosa caminhada, com calinadas diversas na qualificação), com a ideia de defender as cores de Portugal ou com a ideia de se defender perante os adversários? Há muitos cidadãos que escolhem a segunda hipótese. Eu sou um deles. Foi carregada de medo e descarregada de objectivos. Ou, apenas com um: safar-se…

Sejamos realistas. Os «brilhantes» resultados obtidos, que devem ser motivo de contentamento para os portugas, segundo o oráculo, cifraram-se em dois empates, uma vitória e uma derrota. E, de acordo, com o alegado técnico, a prestação foi positiva. Mais, depois de um 0-0 frente à Costa do Marfim, o sujeito permitiu-se ao luxo de declarar que «fizemos um jogo inteligente».

E após a derrota com a Espanha afirmou que a táctica era desgastar la roja e, depois, atacar para a vencer. Viu-se. A derrota começou quando substituiu Hugo Almeida por Danny, alegando que o primeiro estava extenuado. O que o avançado depois negou. O que levou o Ronaldo a dizer-lhe, de dentro das quatro linhas, «Carlos, assim, não ganhamos…»

O capitão, que, de tão chateado, no final da partida, respondeu aos jornalistas que o questionavam sobre o motivo da derrota: «Perguntem ao Carlos Queiroz!» Não foi bonito. Um arvorado não responde assim ao chefe. O (ainda) responsável pelo grupo nacional, respondeu, como sempre, qual Pitonisa de Delfos, que havia camisolas que eram maiores do que quem as vestia, mas havia também os que a vestiam e lhes eram pequenas demais, ou algo assim. E terminou de forma grandiloquente: «Não estou cá para fazer amigos!» É, então, que está onde está - para fazer inimigos?

Os 7-0 dados aos rapazes do «querido camarada» Kim Jong Il motivaram o embandeiramento em arco. Ainda por cima, aos mesmos que tinham dificultado a vitória do Brasil. Mas também os mesmos que baquearam no confronto com os marfinenses. O Brasil, de Dunga, foi igualmente, uma desilusão. Porem, tão mau como o Carlos foi o Domenech da França. Pior, só na má educação.

Queiroz, em tudo o que se meteu, deu bota. Exceptuando-se nos juniores que levou a campeões mundiais por duas vezes, o que foi excelente e alimentou o ego tuga. Mas, no Sporting, lembrem-se, não conseguiu nada; nos EUA, nada; no Real Madrid, nada. No Japão, nada. No Manchester foi um bom ajudante.

Resumindo e concluindo. Queiroz é um bom mestre-escola. E só. No restante, e para alem do alimentar de casos com Nani (o que terá acontecido?), com Deco, com Cristiano Ronaldo e sabe-se lá com mais quem, dá-se bem a ensinar jovens. O que, não sendo pouco, é, paradoxalmente pouco. Para nós, os Portugueses, que queríamos mais.

In fine: Os Brasileiros estão putos, como dizem, com o já mencionado Dunga. No entanto, têm uma enorme vantagem sobre nós: o cara sai. A tristeza e até mesmo a raiva que se apoderaram das gentes do lado de lá do nosso Atlântico, vão passar, ainda que lhes custe muitíssimo engolir o fracasso num caminho que, supunham e almejavam, conduziria o escrete ao hexa.

Por aqui, o tipo fica. Até quando? O próprio diz que só no fim do contrato, ou seja lá para 2012. Paciência? Nem a Senhora do Caravaggio nos vale.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Negócio

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Por João Paulo Guerra

UM LEITOR da edição online de determinado jornal defendia ontem a intervenção do Governo no negócio da PT declarando que assim se salvaguardam os interesses da Pátria contra os que querem vender Portugal aos bocados.

O leitor, embora confuso, a ponto de baralhar Portugal com uma empresa brasileira, estaria assim sintonizado com o primeiro-ministro quando este declarou que o veto à venda da Vivo defendia "os interesses estratégicos de Portugal".

Mas que interesses estratégicos de Portugal é que a PT representa? E se representa, porque foi desnacionalizada? E se foi privatizada, porque se mantém um mecanismo que permite pôr a privatização na gaveta de vez em quando? E poderá ser-se a favor das regras e do funcionamento do mercado, como reiteradamente se alega, quando as decisões do mercado agradam e desde que se tenha no bolso a chave para impedir as decisões que desagradem? Será a coerência um adereço de pôr e tirar? E os princípios serão figuras de geometria variável? Ou será que alguém anda a confundir interesses estratégicos de Portugal com o interesse particular de um ou outro negócio de conveniência e com a colocação da "boysada"?

Num momento em que a situação financeira do país está pendente da confiança dos mercados, a intervenção do Governo poderá ter efeitos de repercussões incalculáveis. Em primeiro lugar, porque a ameaça da intervenção do Estado nos negócios não dá confiança aos investidores. Em segundo lugar, porque o veto à venda da Vivo abriu a porta das hipóteses ao lançamento de uma OPA sobre a própria PT.

A intervenção do Governo nem para o próprio Estado foi boa. Apenas precipitou a sentença que vai abolir a ‘golden share'. Ou será que em certos casos o Governo preconiza mais Estado?
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«DE» de 2 Jul 10