segunda-feira, 15 de novembro de 2010
Da importância política da sopa
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Por Helena Matos
A SOPA É UMA ESPÉCIE de barómetro das nossas crises. Como não podia deixar de ser, neste ano da graça de 2010 ou da desgraça da dívida pública a 7,22% , aí está ela, a sopa, nas notícias sobre o aumento da procura nas cantinas escolares e nas instituições de solidariedade. Algumas escolas já terão cantinas a funcionar aos fins-de-semana. Tudo isto é acompanhado por aquele vox populi do “que comam pelo menos uma sopa”.
E contudo ainda há algumas décadas a sopa era um sinal do nosso atraso. Nos anos 60 e 70 era um dado adquirido que no dia em que fossemos todos evoluídos e europeus a sopa seria substituída pelos iogurtes e pelas saladas. Enquanto não se atingia esse depurado patamar civilizacional devia pelo menos tentar-se que os etéreos purés de cenoura substituíssem, nas nossas toscas mesas, aquelas sopas de feijão e grão que, a par da roupa pendurada à janela, eram um sinal inequívoco do luso atavismo, com a agravante estética que as ditas sopas nem para postal ilustrado serviam. Convém registar que nesses tempos em que o frango assado, os bifes e os combinados passavam por alimentos modernos, o top da boçalidade era ocupado por aqueles que preferiam o azeite ao óleo no momento de temperar a salada.
Ao fim de alguns anos gastronomicamente muito difíceis percebemos que podemos invejar o regular funcionamento das instituições holandesas sem que tenhamos de colocar nos nossos pratos aquilo a que chamam comida os muito democráticos e evoluídos holandeses. As palavras, neste domínio tal como na política, querem dizer uma coisa hoje e amanhã o seu contrário: aquilo que, como acontecia com as açordas e as feijoadas, anteriormente se chamava pejorativamente farta-brutos passou agora a designar-se sofisticadamente por dieta mediterrânica.
Enfim, atrás de tempos, tempos vêm. E ao menos nesta crise já não parece coisa de pobre comer-se sopa pois quando as crises nos visitam nós voltamos à sopa. E as crianças voltam às cantinas. Note-se que até há bem pouco tempo as cantinas escolares confrontavam-se não com o aumento da procura mas sim com a debandada dos adolescentes que na hora das refeições trocavam a antiquada cantina pelo bar mais próximo, onde invariavelmente gastavam mais dinheiro e comiam muito pior. (Por ironia nos estabelecimentos particulares de ensino, os alunos, até ao 9.º ano, comem quase sempre nas cantinas, o que custa menos às famílias do que a opção pelo bar de muitos alunos do ensino público.) O aumento da procura das cantinas escolares não é portanto necessariamente uma má notícia. O que já me parece uma má notícia é o anúncio da abertura das cantinas escolares nas férias e sobretudo aos fins-de-semana, como já está a acontecer ou poderá vir a ocorrer em alguns agrupamentos de Faro, Trofa, Setúbal e Rio de Mouro.
Se o objectivo é ajudar famílias em dificuldades disponibilizem-se-lhes alimentos que as crianças e as suas famílias confeccionem e comam em casa. Não se transforme a crise num pretexto para assistencializar as pessoas e quebrar os laços familiares. Quando as crianças vão comer à cantina escolar no sábado ou no domingo onde é que estão as suas famílias? Ficam em casa à espera que a junta de freguesia ou a paróquia abram uma cantina que sirva adultos? Ou talvez as famílias não existam ou funcionem muito mal e nesse caso falar de crise económica é um eufemismo para algo que de económico tem pouco.
Quando num dos seus livros de cozinha Jamie Oliver dá conta de que a resposta invariável dos seus interlocutores italianos sobre o local onde se comem as melhores massas ou a melhor polenta é a casa da “mamma” de cada um deles está a falar de muito mais do que de cozinha.
Por cada criança que não acha a sopa da sua casa a melhor de todas ou que pelo menos não tem memória dos cheiros da sua cozinha pagamos um enorme custo social, económico e moral. Crianças a comerem ao fim-de-semana na cantina da escola pode ser uma solução numa emergência mas não é uma resposta para a crise.
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«Público» e «Blasfémias»
A SOPA É UMA ESPÉCIE de barómetro das nossas crises. Como não podia deixar de ser, neste ano da graça de 2010 ou da desgraça da dívida pública a 7,22% , aí está ela, a sopa, nas notícias sobre o aumento da procura nas cantinas escolares e nas instituições de solidariedade. Algumas escolas já terão cantinas a funcionar aos fins-de-semana. Tudo isto é acompanhado por aquele vox populi do “que comam pelo menos uma sopa”.
E contudo ainda há algumas décadas a sopa era um sinal do nosso atraso. Nos anos 60 e 70 era um dado adquirido que no dia em que fossemos todos evoluídos e europeus a sopa seria substituída pelos iogurtes e pelas saladas. Enquanto não se atingia esse depurado patamar civilizacional devia pelo menos tentar-se que os etéreos purés de cenoura substituíssem, nas nossas toscas mesas, aquelas sopas de feijão e grão que, a par da roupa pendurada à janela, eram um sinal inequívoco do luso atavismo, com a agravante estética que as ditas sopas nem para postal ilustrado serviam. Convém registar que nesses tempos em que o frango assado, os bifes e os combinados passavam por alimentos modernos, o top da boçalidade era ocupado por aqueles que preferiam o azeite ao óleo no momento de temperar a salada.
Ao fim de alguns anos gastronomicamente muito difíceis percebemos que podemos invejar o regular funcionamento das instituições holandesas sem que tenhamos de colocar nos nossos pratos aquilo a que chamam comida os muito democráticos e evoluídos holandeses. As palavras, neste domínio tal como na política, querem dizer uma coisa hoje e amanhã o seu contrário: aquilo que, como acontecia com as açordas e as feijoadas, anteriormente se chamava pejorativamente farta-brutos passou agora a designar-se sofisticadamente por dieta mediterrânica.
Enfim, atrás de tempos, tempos vêm. E ao menos nesta crise já não parece coisa de pobre comer-se sopa pois quando as crises nos visitam nós voltamos à sopa. E as crianças voltam às cantinas. Note-se que até há bem pouco tempo as cantinas escolares confrontavam-se não com o aumento da procura mas sim com a debandada dos adolescentes que na hora das refeições trocavam a antiquada cantina pelo bar mais próximo, onde invariavelmente gastavam mais dinheiro e comiam muito pior. (Por ironia nos estabelecimentos particulares de ensino, os alunos, até ao 9.º ano, comem quase sempre nas cantinas, o que custa menos às famílias do que a opção pelo bar de muitos alunos do ensino público.) O aumento da procura das cantinas escolares não é portanto necessariamente uma má notícia. O que já me parece uma má notícia é o anúncio da abertura das cantinas escolares nas férias e sobretudo aos fins-de-semana, como já está a acontecer ou poderá vir a ocorrer em alguns agrupamentos de Faro, Trofa, Setúbal e Rio de Mouro.
Se o objectivo é ajudar famílias em dificuldades disponibilizem-se-lhes alimentos que as crianças e as suas famílias confeccionem e comam em casa. Não se transforme a crise num pretexto para assistencializar as pessoas e quebrar os laços familiares. Quando as crianças vão comer à cantina escolar no sábado ou no domingo onde é que estão as suas famílias? Ficam em casa à espera que a junta de freguesia ou a paróquia abram uma cantina que sirva adultos? Ou talvez as famílias não existam ou funcionem muito mal e nesse caso falar de crise económica é um eufemismo para algo que de económico tem pouco.
Quando num dos seus livros de cozinha Jamie Oliver dá conta de que a resposta invariável dos seus interlocutores italianos sobre o local onde se comem as melhores massas ou a melhor polenta é a casa da “mamma” de cada um deles está a falar de muito mais do que de cozinha.
Por cada criança que não acha a sopa da sua casa a melhor de todas ou que pelo menos não tem memória dos cheiros da sua cozinha pagamos um enorme custo social, económico e moral. Crianças a comerem ao fim-de-semana na cantina da escola pode ser uma solução numa emergência mas não é uma resposta para a crise.
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Vento
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Por João Paulo Guerra
NÃO ESTAVA previsto, como garantiu um membro do Governo, mas passou a estar: Sexta-feira há tolerância de ponto em Lisboa, excepto para 60 chefes de Estado e de Governo, respectivas comitivas e guarda-costas, para além de um batalhão de polícias mobilizado para garantir a segurança da Cimeira da NATO, em especial contra a ocorrência de um atentado terrorista que o ministro da Administração Interna tem a profunda convicção que estará iminente.
O ministro foi acusado de "alarmista", mas que seria dos sistemas de alarmes se não fossem os alarmistas? Se não houver atentado - como se espera - o ministro vai dizer que mais vale prevenir que remediar. Se houver, o ministro vai proclamar a sua presciência: "Eu não dizia?".
A convicção do ministro baseia-se na presença, que já terá sido detectada em Portugal por serviços secretos "amigos", de elementos ligados a grupos extremistas, treinados no uso de armas e explosivos, muitos deles antigos polícias e militares. E aqui, a convicção do ministro começa a fazer algum sentido. É que antigos polícias e militares, juntos, ao vivo e em número de "muitos", das duas, uma: ou andam infiltrados entre outros extremistas para ver em que param as modas, ou preparam alguns efeitos especiais que virão a dar razão ao ministro e justificarão, por parte da Cimeira, a adopção de medidas de maior dureza e largueza contra o inimigo sem rosto do "terrorismo". Porque quanto ao terrorismo com rosto, o que se conhece, o próprio Bin Laden, foi uma criação de um serviço secreto.
E agora, a vigilância aí está. Sexta-feira passada, em comunicação telefónica com um edifício na zona limite da área da Cimeira foi-me dito que se notava um certo "vento" na linha. Mas, como toda a gente sabe, "o vento não bate assim".
.Por João Paulo Guerra
NÃO ESTAVA previsto, como garantiu um membro do Governo, mas passou a estar: Sexta-feira há tolerância de ponto em Lisboa, excepto para 60 chefes de Estado e de Governo, respectivas comitivas e guarda-costas, para além de um batalhão de polícias mobilizado para garantir a segurança da Cimeira da NATO, em especial contra a ocorrência de um atentado terrorista que o ministro da Administração Interna tem a profunda convicção que estará iminente.
O ministro foi acusado de "alarmista", mas que seria dos sistemas de alarmes se não fossem os alarmistas? Se não houver atentado - como se espera - o ministro vai dizer que mais vale prevenir que remediar. Se houver, o ministro vai proclamar a sua presciência: "Eu não dizia?".
A convicção do ministro baseia-se na presença, que já terá sido detectada em Portugal por serviços secretos "amigos", de elementos ligados a grupos extremistas, treinados no uso de armas e explosivos, muitos deles antigos polícias e militares. E aqui, a convicção do ministro começa a fazer algum sentido. É que antigos polícias e militares, juntos, ao vivo e em número de "muitos", das duas, uma: ou andam infiltrados entre outros extremistas para ver em que param as modas, ou preparam alguns efeitos especiais que virão a dar razão ao ministro e justificarão, por parte da Cimeira, a adopção de medidas de maior dureza e largueza contra o inimigo sem rosto do "terrorismo". Porque quanto ao terrorismo com rosto, o que se conhece, o próprio Bin Laden, foi uma criação de um serviço secreto.
E agora, a vigilância aí está. Sexta-feira passada, em comunicação telefónica com um edifício na zona limite da área da Cimeira foi-me dito que se notava um certo "vento" na linha. Mas, como toda a gente sabe, "o vento não bate assim".
«DE» de 15 Nov 10
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domingo, 14 de novembro de 2010
A lição de Lula e o teste de Obama
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Por Rui Tavares
HÁ UNS MESES, no Rio de Janeiro, ouvi Lula explicar como entendia ele ser de esquerda, ou por outras palavras, como entendia ele a sua esquerda: “é fazer primeiro o necessário, começando pelo mais simples; depois é fazer o possível; logo, logo, o impossível vai estar acontecendo”.
Lula defendia que esse modus operandi o distinguia da esquerda de “à europeia”, que se caracteriza por aceitar as estruturas de poder como elas estão, mas também da esquerda “Chico Alencar”, do nome de um político brasileiro que saiu do PT para fundar o Partido Socialismo e Liberdade, que deseja chegar ao socialismo “de uma vez só” (na descrição de Lula, que talvez não fosse a dos sujeitos em causa).
Lula ia pontuando a sua explicação com exemplos adequados a qualquer pessoa e plateia. Fazer o necessário era começar pelos mais pobres; contrariamente ao que se costuma pensar, fazer política começando pelos mais pobres não é um bicho-de-sete-cabeças. “Na verdade é muito simples”, dizia Lula, “é fazer saneamento básico sempre e só fazer viaduto quando é preciso”. “No passado”, continuava ele repetindo uma das suas bengalas de linguagem que mais irritam a oposição, “os prefeitos só queriam fazer viaduto porque podiam por lá o nome deles e todo o mundo via; não queriam fazer saneamento básico porque corre enterrado e não dá votos. Mas com o saneamento básico feito é menos criança pobre que corre descalça e pega doença; com a bolsa-família é mais criança pobre que estuda; portanto, é muito simples”. Da mesma forma Lula passava para o possível e, concluía, “como vocês estão vendo, logo-logo o impossível vai estar acontecendo”.
O impossível, de certa forma, aconteceu. Quem diria que o Brasil iria chegar a 2010 como uma respeitada potência global? Nos últimos 16 anos a democracia brasileira tem funcionado bem — e lembrem-se que o ponto de partida foi Collor de Mello. Fernando Henrique Cardoso fez também o necessário: domar a hiperinflação. Lula fez o possível: tirar 20 milhões da pobreza. Se Dilma Rousseff no futuro próximo (e talvez Aécio Neves num futuro hipotético) domarem a corrupção e a violência nas grandes cidades — aí está o impossível que nós gostaríamos de ver acontecer.
Como se desenrascaria Obama no teste do necessário-possível-impossível desenhado por Lula? É cedo para dizer.
Desde logo, Obama começou pelo impossível: ser eleito. Fez apenas parte do necessário: a reforma do sistema de saúde. Fez apenas parte de outra parte do necessário: a reforma do sistema financeiro, na qual deveria ter ido mais longe com uma nacionalização-reprivatização de alguns bancos e com um estímulo à economia adequado à dimensão da catástrofe. E fracassou completamente em outra parte do necessário: fechar Guantánamo e limpar os estábulos de Áugeas do complexo militar e de informações americano, ainda dominado pela doutrina do medo que vem de Bush.
Naquilo em que Obama sofreu nesta eleição, pode argumentar-se que foi porque procurou demasiado o centro, permitindo que os seus adversários o caracterizassem como fraco e fugissem ainda mais para a direita.
Mas isso não é causa para nenhum regozijo. Não há Lulas no hemisfério Norte. Quem se queixa de Obama, olhe para a paisagem que temos: Sócrates, Sarkozy, Merkel, Barroso, Cameron e quejandos. Obama está à esquerda de todos, e mais ainda de uma dinâmica política americana ameaçada por um extremismo de direita agressivo e completamente desligado da realidade. Se Obama falhar o teste, pode ser culpa dele; mas o mal será de nós todos.
.Por Rui Tavares
HÁ UNS MESES, no Rio de Janeiro, ouvi Lula explicar como entendia ele ser de esquerda, ou por outras palavras, como entendia ele a sua esquerda: “é fazer primeiro o necessário, começando pelo mais simples; depois é fazer o possível; logo, logo, o impossível vai estar acontecendo”.
Lula defendia que esse modus operandi o distinguia da esquerda de “à europeia”, que se caracteriza por aceitar as estruturas de poder como elas estão, mas também da esquerda “Chico Alencar”, do nome de um político brasileiro que saiu do PT para fundar o Partido Socialismo e Liberdade, que deseja chegar ao socialismo “de uma vez só” (na descrição de Lula, que talvez não fosse a dos sujeitos em causa).
Lula ia pontuando a sua explicação com exemplos adequados a qualquer pessoa e plateia. Fazer o necessário era começar pelos mais pobres; contrariamente ao que se costuma pensar, fazer política começando pelos mais pobres não é um bicho-de-sete-cabeças. “Na verdade é muito simples”, dizia Lula, “é fazer saneamento básico sempre e só fazer viaduto quando é preciso”. “No passado”, continuava ele repetindo uma das suas bengalas de linguagem que mais irritam a oposição, “os prefeitos só queriam fazer viaduto porque podiam por lá o nome deles e todo o mundo via; não queriam fazer saneamento básico porque corre enterrado e não dá votos. Mas com o saneamento básico feito é menos criança pobre que corre descalça e pega doença; com a bolsa-família é mais criança pobre que estuda; portanto, é muito simples”. Da mesma forma Lula passava para o possível e, concluía, “como vocês estão vendo, logo-logo o impossível vai estar acontecendo”.
O impossível, de certa forma, aconteceu. Quem diria que o Brasil iria chegar a 2010 como uma respeitada potência global? Nos últimos 16 anos a democracia brasileira tem funcionado bem — e lembrem-se que o ponto de partida foi Collor de Mello. Fernando Henrique Cardoso fez também o necessário: domar a hiperinflação. Lula fez o possível: tirar 20 milhões da pobreza. Se Dilma Rousseff no futuro próximo (e talvez Aécio Neves num futuro hipotético) domarem a corrupção e a violência nas grandes cidades — aí está o impossível que nós gostaríamos de ver acontecer.
Como se desenrascaria Obama no teste do necessário-possível-impossível desenhado por Lula? É cedo para dizer.
Desde logo, Obama começou pelo impossível: ser eleito. Fez apenas parte do necessário: a reforma do sistema de saúde. Fez apenas parte de outra parte do necessário: a reforma do sistema financeiro, na qual deveria ter ido mais longe com uma nacionalização-reprivatização de alguns bancos e com um estímulo à economia adequado à dimensão da catástrofe. E fracassou completamente em outra parte do necessário: fechar Guantánamo e limpar os estábulos de Áugeas do complexo militar e de informações americano, ainda dominado pela doutrina do medo que vem de Bush.
Naquilo em que Obama sofreu nesta eleição, pode argumentar-se que foi porque procurou demasiado o centro, permitindo que os seus adversários o caracterizassem como fraco e fugissem ainda mais para a direita.
Mas isso não é causa para nenhum regozijo. Não há Lulas no hemisfério Norte. Quem se queixa de Obama, olhe para a paisagem que temos: Sócrates, Sarkozy, Merkel, Barroso, Cameron e quejandos. Obama está à esquerda de todos, e mais ainda de uma dinâmica política americana ameaçada por um extremismo de direita agressivo e completamente desligado da realidade. Se Obama falhar o teste, pode ser culpa dele; mas o mal será de nós todos.
In RuiTavares.Net
sábado, 13 de novembro de 2010
A Igreja, o Poder e o 'wrestling'
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Por Antunes Ferreira
SE AINDA SUBSISTIAM dúvidas sobre a intervenção política da Igreja Católica, Apostólica e Romana neste País, elas ficaram, agora, eliminadas. Kaput. Tirem daí o sentido; nem pó.
Muito se tem falado do conúbio entre António de Oliveira Salazar e Manuel Gonçalves Cerejeira, relação que começara nos bancos do seminário onde ambos tinham estudado. Naturalmente, qualquer deles negava essa ligação verdadeiramente umbilical, pois que vinha do ab initio de ambos.
Um exemplo, apenas. A censura. Politicamente, eram os censores administrativos, em estreita relação com o Polícia de Vigilância e Defesa do Estado, depois PIDE e finalmente DGS. Moralmente, os sacerdotes é que se desempenhavam dessa função. Em estreita conexão com a PVDE/PIDE/DGS. Nem se podia dizer vermelho, era encarnado, nem se podia deixar passar, até nas histórias aos quadradinhos, hoje BD, um tímido seio meio desnudo.
Recordo aqui o tremendo imbróglio que o Padre José Felicidade Alves (que me casou e baptizou os meus primeiros dois filhos, quando eu era católico, mas depois curei-me) originou com a denúncia desses procedimentos. O pároco de Belém, que haveria de despadrar-se e, nos últimos dias da sua vida, seria reincorporado na Ecclesia, não teve medo de fazer o que fez – porque tinha razão.
Os próceres do clero vingavam-se então da Lei da Separação da Igreja e do Estado que a «criminosa República» publicara a 20 de Abril de 1911. Cardeais, bispos, arcebispos e correlativos, durante o Estado Novo, esfregaram as mãos de contentes, bateram palmas e retomaram as cruzadas contra os maus costumes, contra a imoralidade que os republicanos tinham trazido para o país à beira mar plantado. Ou seja, contra os infiéis.
Passaram os anos e as Concordatas. Os curas e seus superiores sempre foram aconselhando os fiéis no domínio da política, inclusive do púlpito. Hereges houve-os, há e haverá. Os do passado, passaram; os do presente, cuidado com os votos nos esquerdalhos: os do futuro, a Deus pertencem. Pelo menos, é assim que diz o ditado, muito possivelmente oriundo do Vaticano in illo tempore.
Veio agora a Igreja Católica portuguesa erguendo a voz contra «jogos político-partidários pouco transparentes» e, aparentemente num repto de resistência ao acordo através do qual o PS e o PSD viabilizaram para o Orçamento, pedir aos Portugueses para não pactuarem com «consensos políticos mínimos». Numa posição muito dura, mas, claro, sem se referir directamente à negociação e aprovação do Orçamento do Estado, os bispos fazem a sua leitura do actual momento político, apelando para que o Governo socialista ajude os mais desfavorecidos.
Perante a complexidade da crise, os bispos exigiram, ainda o fim «da atribuição de remunerações, pensões e recompensas exorbitantes» numa ocasião em que "ao lado estão pessoas a viver sem condições mínimas de dignidade". Mas, a «exigência» não é, salvaguardam, «um puxão de orelhas a ninguém», sim «uma constatação» perante o anúncio das medidas de austeridade.
O bispo D. Jorge Ortiga, presidente da CEP, acentuou que «o bem comum da nação assume prioridades nos critérios da construção do nosso futuro». E acrescentou que «lucros indevidos, meros proveitos eleitorais e resultados oportunistas não servem a recuperação nacional».
Nesta hora de crise, finalizou o prelado que a Igreja compromete-se, «sem protagonismos», a articular os seus serviços para darem uma resposta qualificada aos mais desfavorecidos. Cristo dissera no seu tempo que era «mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus».
A Igreja portuguesa pretendeu recordar que o aggiornamento não foi apenas o fulcro do eurocomunista defendido pelo italiano Enrico Berlinguer e pelo seu camarada espanhol Santiago Carrillo; foi, sim, de João XXIII no Concílio Vaticano II. Mas, não refere, sintomaticamente o «compromisso histórico». Lá terá as suas razões. A promiscuidade entre a religião e a política é assim a modos do wrestling: parece que se trata de luta, mas é tudo fingido.
Por Antunes Ferreira
SE AINDA SUBSISTIAM dúvidas sobre a intervenção política da Igreja Católica, Apostólica e Romana neste País, elas ficaram, agora, eliminadas. Kaput. Tirem daí o sentido; nem pó.
Muito se tem falado do conúbio entre António de Oliveira Salazar e Manuel Gonçalves Cerejeira, relação que começara nos bancos do seminário onde ambos tinham estudado. Naturalmente, qualquer deles negava essa ligação verdadeiramente umbilical, pois que vinha do ab initio de ambos.
Um exemplo, apenas. A censura. Politicamente, eram os censores administrativos, em estreita relação com o Polícia de Vigilância e Defesa do Estado, depois PIDE e finalmente DGS. Moralmente, os sacerdotes é que se desempenhavam dessa função. Em estreita conexão com a PVDE/PIDE/DGS. Nem se podia dizer vermelho, era encarnado, nem se podia deixar passar, até nas histórias aos quadradinhos, hoje BD, um tímido seio meio desnudo.
Recordo aqui o tremendo imbróglio que o Padre José Felicidade Alves (que me casou e baptizou os meus primeiros dois filhos, quando eu era católico, mas depois curei-me) originou com a denúncia desses procedimentos. O pároco de Belém, que haveria de despadrar-se e, nos últimos dias da sua vida, seria reincorporado na Ecclesia, não teve medo de fazer o que fez – porque tinha razão.
Os próceres do clero vingavam-se então da Lei da Separação da Igreja e do Estado que a «criminosa República» publicara a 20 de Abril de 1911. Cardeais, bispos, arcebispos e correlativos, durante o Estado Novo, esfregaram as mãos de contentes, bateram palmas e retomaram as cruzadas contra os maus costumes, contra a imoralidade que os republicanos tinham trazido para o país à beira mar plantado. Ou seja, contra os infiéis.
Passaram os anos e as Concordatas. Os curas e seus superiores sempre foram aconselhando os fiéis no domínio da política, inclusive do púlpito. Hereges houve-os, há e haverá. Os do passado, passaram; os do presente, cuidado com os votos nos esquerdalhos: os do futuro, a Deus pertencem. Pelo menos, é assim que diz o ditado, muito possivelmente oriundo do Vaticano in illo tempore.
Veio agora a Igreja Católica portuguesa erguendo a voz contra «jogos político-partidários pouco transparentes» e, aparentemente num repto de resistência ao acordo através do qual o PS e o PSD viabilizaram para o Orçamento, pedir aos Portugueses para não pactuarem com «consensos políticos mínimos». Numa posição muito dura, mas, claro, sem se referir directamente à negociação e aprovação do Orçamento do Estado, os bispos fazem a sua leitura do actual momento político, apelando para que o Governo socialista ajude os mais desfavorecidos.
Perante a complexidade da crise, os bispos exigiram, ainda o fim «da atribuição de remunerações, pensões e recompensas exorbitantes» numa ocasião em que "ao lado estão pessoas a viver sem condições mínimas de dignidade". Mas, a «exigência» não é, salvaguardam, «um puxão de orelhas a ninguém», sim «uma constatação» perante o anúncio das medidas de austeridade.
O bispo D. Jorge Ortiga, presidente da CEP, acentuou que «o bem comum da nação assume prioridades nos critérios da construção do nosso futuro». E acrescentou que «lucros indevidos, meros proveitos eleitorais e resultados oportunistas não servem a recuperação nacional».
Nesta hora de crise, finalizou o prelado que a Igreja compromete-se, «sem protagonismos», a articular os seus serviços para darem uma resposta qualificada aos mais desfavorecidos. Cristo dissera no seu tempo que era «mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus».
A Igreja portuguesa pretendeu recordar que o aggiornamento não foi apenas o fulcro do eurocomunista defendido pelo italiano Enrico Berlinguer e pelo seu camarada espanhol Santiago Carrillo; foi, sim, de João XXIII no Concílio Vaticano II. Mas, não refere, sintomaticamente o «compromisso histórico». Lá terá as suas razões. A promiscuidade entre a religião e a política é assim a modos do wrestling: parece que se trata de luta, mas é tudo fingido.
sexta-feira, 12 de novembro de 2010
«Dito & Feito»
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«SOL» de 12 Nov 10
Por José António Lima
QUANDO um socialista tão influente como António Vitorino vem assumir publicamente que «o Governo despertou tarde para o problema da dívida soberana», isso é sinal de que o PS já interiorizou a insustentabilidade desta governação de José Sócrates.
Bem como a inevitabilidade de uma mudança, a breve prazo, do ciclo político. (A propósito, cabe perguntar quando acordou Vitorino para tão magna e crítica questão, ele que andou desde 2008 a negar os alertas e as evidências em todas as intervenções que foi fazendo por múltiplos jornais e televisões...).
E quando um socialista tão ortodoxo como Vital Moreira aparece a escrever que «a remodelação governamental não deve esperar para depois das eleições presidenciais» e que «nada aconselha manter a mesma equipa que não ficou bem no retrato da execução orçamental do corrente ano», isso só pode querer dizer que os sinos tocam a rebate na aldeia socialista. Que o PS já não vê como fugir a eleições antecipadas e a uma pesada factura eleitoral em 2011. E que está em curso o início da fase pós-Sócrates.
Há já, aliás, no aparelho socialista, quem se apreste, mais ou menos explicitamente, para a sucessão, começando a arregimentar apoios e a contar espingardas. São três os candidatos óbvios ao lugar de secretário-geral, que Sócrates se verá forçado a abandonar na sequência de uma severa derrota eleitoral.
António Costa, que se distanciou em devido tempo do Governo e de Sócrates, decidindo correr em pista própria na Câmara de Lisboa. António José Seguro, que tem o extraordinário condão de ser um eterno candidato à liderança do PS, apesar de não se lhe conhecer um único pensamento político de fundo ou distintivo para o futuro do país. E Francisco Assis, que tentou gerir com inteligência, nos últimos meses, um percurso político autónomo e imune aos desvarios do naufrágio socratista.
Sabendo-se que o líder que inicia um novo ciclo é, em regra, de transição, não resistindo ao desgaste do cargo na Oposição, não será ainda este, certamente, o tempo de António Costa avançar. O PS terá, pois, que escolher, brevemente, entre Seguro e Assis. O aparelho decidirá.
.QUANDO um socialista tão influente como António Vitorino vem assumir publicamente que «o Governo despertou tarde para o problema da dívida soberana», isso é sinal de que o PS já interiorizou a insustentabilidade desta governação de José Sócrates.
Bem como a inevitabilidade de uma mudança, a breve prazo, do ciclo político. (A propósito, cabe perguntar quando acordou Vitorino para tão magna e crítica questão, ele que andou desde 2008 a negar os alertas e as evidências em todas as intervenções que foi fazendo por múltiplos jornais e televisões...).
E quando um socialista tão ortodoxo como Vital Moreira aparece a escrever que «a remodelação governamental não deve esperar para depois das eleições presidenciais» e que «nada aconselha manter a mesma equipa que não ficou bem no retrato da execução orçamental do corrente ano», isso só pode querer dizer que os sinos tocam a rebate na aldeia socialista. Que o PS já não vê como fugir a eleições antecipadas e a uma pesada factura eleitoral em 2011. E que está em curso o início da fase pós-Sócrates.
Há já, aliás, no aparelho socialista, quem se apreste, mais ou menos explicitamente, para a sucessão, começando a arregimentar apoios e a contar espingardas. São três os candidatos óbvios ao lugar de secretário-geral, que Sócrates se verá forçado a abandonar na sequência de uma severa derrota eleitoral.
António Costa, que se distanciou em devido tempo do Governo e de Sócrates, decidindo correr em pista própria na Câmara de Lisboa. António José Seguro, que tem o extraordinário condão de ser um eterno candidato à liderança do PS, apesar de não se lhe conhecer um único pensamento político de fundo ou distintivo para o futuro do país. E Francisco Assis, que tentou gerir com inteligência, nos últimos meses, um percurso político autónomo e imune aos desvarios do naufrágio socratista.
Sabendo-se que o líder que inicia um novo ciclo é, em regra, de transição, não resistindo ao desgaste do cargo na Oposição, não será ainda este, certamente, o tempo de António Costa avançar. O PS terá, pois, que escolher, brevemente, entre Seguro e Assis. O aparelho decidirá.
«SOL» de 12 Nov 10
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jal
quinta-feira, 11 de novembro de 2010
Proximidade
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Por João Paulo Guerra
É REVELADOR que perante uma austeridade que já está a fazer sofrer milhares de portugueses, e vai fazer sofrer muitíssimos mais, as manifestações de preocupação e solidariedade surjam da parte de instituições e pessoas que mantêm com as populações relações de proximidade.
Estou a falar das notícias de iniciativas que começam a surgir todos os dias por parte de igrejas, autarquias e escolas, que lidam directamente com as pessoas e com o seu sofrimento, e não têm de tudo isso apenas visões abstractas, insensíveis e reduzidas a números, como é o caso do poder central.
Uns mais que outros, os governantes são cada vez mais uns petulantes que passam pelo povo a alta velocidade e rodeados de escoltas, dentro de carros de vidros fumados, para encontros com os seus iguais, do país e da Europa, tão distantes como eles próprios de quem os elege e lhes paga as contas. A classe política, passada a tormenta das campanhas eleitorais, em que é forçada a descer até junto do povo eleitor, uma vez eleita reduz o povo a percentagens, vazias de pessoas e de casos humanos. Lá do alto vislumbra-se a abstracção de um quinto da população em situação de pobreza, mas não se vêem os pobres. Nos círculos do poder tudo é conforto, bem-estar, abastança e ostentação. É por isso que, nas fotos de família, os governantes estão sempre satisfeitos consigo próprios, risonhos, por mais tristonhos que andem os respectivos governados.
Ao contrário, as instituições que lidam em proximidade com a população sabem que a austeridade não consiste tão simplesmente em meia dúzia de algarismos que se cortam nos orçamentos. E a pobreza tem caras, nomes, casos, tem filhos e família, tem aflições e desespero, enquanto a caravana do poder passa, cercada de seguranças e de altivez.
.Por João Paulo Guerra
É REVELADOR que perante uma austeridade que já está a fazer sofrer milhares de portugueses, e vai fazer sofrer muitíssimos mais, as manifestações de preocupação e solidariedade surjam da parte de instituições e pessoas que mantêm com as populações relações de proximidade.
Estou a falar das notícias de iniciativas que começam a surgir todos os dias por parte de igrejas, autarquias e escolas, que lidam directamente com as pessoas e com o seu sofrimento, e não têm de tudo isso apenas visões abstractas, insensíveis e reduzidas a números, como é o caso do poder central.
Uns mais que outros, os governantes são cada vez mais uns petulantes que passam pelo povo a alta velocidade e rodeados de escoltas, dentro de carros de vidros fumados, para encontros com os seus iguais, do país e da Europa, tão distantes como eles próprios de quem os elege e lhes paga as contas. A classe política, passada a tormenta das campanhas eleitorais, em que é forçada a descer até junto do povo eleitor, uma vez eleita reduz o povo a percentagens, vazias de pessoas e de casos humanos. Lá do alto vislumbra-se a abstracção de um quinto da população em situação de pobreza, mas não se vêem os pobres. Nos círculos do poder tudo é conforto, bem-estar, abastança e ostentação. É por isso que, nas fotos de família, os governantes estão sempre satisfeitos consigo próprios, risonhos, por mais tristonhos que andem os respectivos governados.
Ao contrário, as instituições que lidam em proximidade com a população sabem que a austeridade não consiste tão simplesmente em meia dúzia de algarismos que se cortam nos orçamentos. E a pobreza tem caras, nomes, casos, tem filhos e família, tem aflições e desespero, enquanto a caravana do poder passa, cercada de seguranças e de altivez.
«DE» de 11 Nov 10
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quarta-feira, 10 de novembro de 2010
Em dívida
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Por Rui Tavares
NO TEMPO das manifestações na Praça Tiananmen, em junho de 1989, quase ninguém sabia o que era a internet. O email era também praticamente desconhecido; ainda não havia web, muito menos twitter ou facebook. Raras pessoas tinham visto um telemóvel, e ninguém adivinharia que enviar mensagens de texto viria a ser um dos seus usos mais populares. Mesmo a televisão de notícias, com o seu ciclo de 24 horas por dia, estava apenas a começar. Era muito mais fácil encerrar um país e fazer com que as notícias pingassem a intervalos cada vez mais reduzidos.
Mesmo assim, seguimos os acontecimentos na China com invulgar intensidade, primeiro, e ansiedade depois. Muitos talvez — como eu — pela rádio, nos noticiários de hora a hora — ou já seriam de meia em meia-hora? — enquanto uma minoria talvez tivesse televisão por satélite e canais internacionais. A informação não era contínua; era aos soluços, intermitente, e escassa. Irão ser tolerados os manifestantes? Não estarão eles demasiado audaciosos? Conseguirão vergar o regime? O que explicará este compasso de espera? O que fará o exército? Está confirmado que já há tanques nas avenidas?
Foram chegando então as notícias, cada vez mais seguras, de que tinha havido um massacre na praça.
O movimento foi, porém, mais vasto do que os acontecimentos daqueles dias. Os “mártires de Tiananmen”, como lhes chama o Nobel Liu Xiaobo, pediam apenas aquilo que a nenhum cidadão pode ser negado: liberdade de associação, de manifestação, de expressão e de informação. Isso faz deles património não só do povo chinês mas da humanidade inteira.
Restou-nos a fotografia — e um filme curto — do “homem do tanque”, no qual um desconhecido segurando dois sacos de compras se posiciona calma e metodicamente em frente a uma coluna de tanques. Os tanques desviam-se, ele acompanha. Os tanques ameaçam, ele insiste. E depois os tanques param porque algum soldado lá dentro terá sentido que não conseguiria matar ali aquele homem. Houve muitas tentativas para encontrar a identidade e confirmar o seu destino, que eu saiba sempre infrutíferas. Será melhor assim; seria bom que o “dissidente desconhecido” fosse simplesmente a corporização de algo que existe em cada um dos humanos.
Trata-se, quanto mais pensamos nisso, de um documento simples e muito perturbador. A realidade lembra-nos todos os dias que nós humanos estamos predispostos à obediência; e ali está a prova em contrário, contra todas as evidências mesmo, de que afinal um desobediente consegue deter um império. Coisa difícil de acreditar.
Nos anos seguintes, a China mudou muito. Ficou mais rica e poderosa; os ingénuos do capitalismo acreditaram que com o dinheiro viria a democracia, que “a China ficaria mais parecida connosco”. Afinal, foi o contrário que aconteceu. Nós é que estamos agora mais parecidos com a China, mais dispostos a trocar democracia por dinheiro — por exemplo dispostos a deslocar uma manifestação, em Lisboa, para que os dirigentes chineses possam viver no seu mundo de deferência e fantasia.
Sim, eu sei. Estamos endividados e os dirigentes chineses fazem o favor de comprar a nossa dívida. Por mim, podem comprar toda a dívida que quiserem. Isso não apagará a dívida maior, mais profunda e impossível de pagar que temos ao homem do tanque.
.Por Rui Tavares
NO TEMPO das manifestações na Praça Tiananmen, em junho de 1989, quase ninguém sabia o que era a internet. O email era também praticamente desconhecido; ainda não havia web, muito menos twitter ou facebook. Raras pessoas tinham visto um telemóvel, e ninguém adivinharia que enviar mensagens de texto viria a ser um dos seus usos mais populares. Mesmo a televisão de notícias, com o seu ciclo de 24 horas por dia, estava apenas a começar. Era muito mais fácil encerrar um país e fazer com que as notícias pingassem a intervalos cada vez mais reduzidos.
Mesmo assim, seguimos os acontecimentos na China com invulgar intensidade, primeiro, e ansiedade depois. Muitos talvez — como eu — pela rádio, nos noticiários de hora a hora — ou já seriam de meia em meia-hora? — enquanto uma minoria talvez tivesse televisão por satélite e canais internacionais. A informação não era contínua; era aos soluços, intermitente, e escassa. Irão ser tolerados os manifestantes? Não estarão eles demasiado audaciosos? Conseguirão vergar o regime? O que explicará este compasso de espera? O que fará o exército? Está confirmado que já há tanques nas avenidas?
Foram chegando então as notícias, cada vez mais seguras, de que tinha havido um massacre na praça.
O movimento foi, porém, mais vasto do que os acontecimentos daqueles dias. Os “mártires de Tiananmen”, como lhes chama o Nobel Liu Xiaobo, pediam apenas aquilo que a nenhum cidadão pode ser negado: liberdade de associação, de manifestação, de expressão e de informação. Isso faz deles património não só do povo chinês mas da humanidade inteira.
Restou-nos a fotografia — e um filme curto — do “homem do tanque”, no qual um desconhecido segurando dois sacos de compras se posiciona calma e metodicamente em frente a uma coluna de tanques. Os tanques desviam-se, ele acompanha. Os tanques ameaçam, ele insiste. E depois os tanques param porque algum soldado lá dentro terá sentido que não conseguiria matar ali aquele homem. Houve muitas tentativas para encontrar a identidade e confirmar o seu destino, que eu saiba sempre infrutíferas. Será melhor assim; seria bom que o “dissidente desconhecido” fosse simplesmente a corporização de algo que existe em cada um dos humanos.
Trata-se, quanto mais pensamos nisso, de um documento simples e muito perturbador. A realidade lembra-nos todos os dias que nós humanos estamos predispostos à obediência; e ali está a prova em contrário, contra todas as evidências mesmo, de que afinal um desobediente consegue deter um império. Coisa difícil de acreditar.
Nos anos seguintes, a China mudou muito. Ficou mais rica e poderosa; os ingénuos do capitalismo acreditaram que com o dinheiro viria a democracia, que “a China ficaria mais parecida connosco”. Afinal, foi o contrário que aconteceu. Nós é que estamos agora mais parecidos com a China, mais dispostos a trocar democracia por dinheiro — por exemplo dispostos a deslocar uma manifestação, em Lisboa, para que os dirigentes chineses possam viver no seu mundo de deferência e fantasia.
Sim, eu sei. Estamos endividados e os dirigentes chineses fazem o favor de comprar a nossa dívida. Por mim, podem comprar toda a dívida que quiserem. Isso não apagará a dívida maior, mais profunda e impossível de pagar que temos ao homem do tanque.
In RuiTavares.Net
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A consciência do tempo
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«DN» de 10 Nov 10
Por Baptista-Bastos
HÁ SEMANAS que temos vindo a ser submetidos a um processo de intimidação mental e de asfixia social, que largamente ultrapassa os limites do suportável. O fantasma é o FMI, intermitente como todos os fantasmas, a ameaçar-nos de medos maiores do que os medos habituais no viver português. Vem, não vem, está para vir, não virá. Esta dialéctica absurda é alimentada pelas nossas fraquezas perante conclusões aparentemente inexoráveis. Estamos nos antípodas do clima de serenidade, necessário a quem não renunciou da faculdade de se refazer para continuar a lutar por um mundo melhor. Mas a angústia metódica que nos inculcam, com estribilhos assustadores e práticas políticas temíveis, deixa marcas.
No último Prós e Contras, o sistema que nos conduziu a esta miséria foi colocado em questão. A falência de um modelo sem piedade e desprovido de outro objectivo que não seja o da acumulação de riqueza atravessou os depoimentos. Uma filosofia que paralisa e obriga à servidão, oscila entre o terror e a barbárie. Alguém, piedosamente, tentou dizer da necessidade de "humanizar o capitalismo". Pode "humanizar-se" um sistema cujas origens se baseiam, exactamente, no seu contrário? Um pouco por todo o lado, a contestação contra a preeminência do "mercado" sobre a razão dos valores morais atinge aspectos significativos. Os sinais que a época nos fornece são evidentes. E a própria Igreja, por natureza prudente e extremamente discreta, começa, aqui e além, a dar mostras da sua inquieta perplexidade.
Há semanas, a convite do Montepio Geral, desloquei-me ao Porto, a fim de debater, publicamente, com o bispo D. Manuel Clemente o problema da fome e da exclusão social. Há uma forma degradada de vida que a violência do neoliberalismo transformou em "normalidade". O bispo defendeu o espírito de entreajuda, tese também advogada por D. Carlos Azevedo, no Prós e Contras. São paliativos que nada solucionam e apenas evocam um conceito de caridadezinha, amiúde execrável. A Igreja tem de ser compelida, e até arrastada, pelo movimento das ideias, a encorajar o protesto generalizado e a indignação colectiva. Não deve quedar-se, através de murmúrios compassivos, pela solidariedade inócua com o sofrimento. O essencial está em causa. A boa vontade não chega. É outra expressão do quietismo, a forma mais sórdida de cumplicidade, e outro modo de disciplina férrea, com que as classes dominantes impõem as suas leis e regras. Reformar quê? Quando, na realidade, estamos a falar do demoníaco, contido numa ideologia que introduziu, como modelo de sociedade, a resignação e o aviltamento progressivo da condição humana. O campo da nossa batalha não é a procura do eterno: é a consciência do nosso tempo.
.HÁ SEMANAS que temos vindo a ser submetidos a um processo de intimidação mental e de asfixia social, que largamente ultrapassa os limites do suportável. O fantasma é o FMI, intermitente como todos os fantasmas, a ameaçar-nos de medos maiores do que os medos habituais no viver português. Vem, não vem, está para vir, não virá. Esta dialéctica absurda é alimentada pelas nossas fraquezas perante conclusões aparentemente inexoráveis. Estamos nos antípodas do clima de serenidade, necessário a quem não renunciou da faculdade de se refazer para continuar a lutar por um mundo melhor. Mas a angústia metódica que nos inculcam, com estribilhos assustadores e práticas políticas temíveis, deixa marcas.
No último Prós e Contras, o sistema que nos conduziu a esta miséria foi colocado em questão. A falência de um modelo sem piedade e desprovido de outro objectivo que não seja o da acumulação de riqueza atravessou os depoimentos. Uma filosofia que paralisa e obriga à servidão, oscila entre o terror e a barbárie. Alguém, piedosamente, tentou dizer da necessidade de "humanizar o capitalismo". Pode "humanizar-se" um sistema cujas origens se baseiam, exactamente, no seu contrário? Um pouco por todo o lado, a contestação contra a preeminência do "mercado" sobre a razão dos valores morais atinge aspectos significativos. Os sinais que a época nos fornece são evidentes. E a própria Igreja, por natureza prudente e extremamente discreta, começa, aqui e além, a dar mostras da sua inquieta perplexidade.
Há semanas, a convite do Montepio Geral, desloquei-me ao Porto, a fim de debater, publicamente, com o bispo D. Manuel Clemente o problema da fome e da exclusão social. Há uma forma degradada de vida que a violência do neoliberalismo transformou em "normalidade". O bispo defendeu o espírito de entreajuda, tese também advogada por D. Carlos Azevedo, no Prós e Contras. São paliativos que nada solucionam e apenas evocam um conceito de caridadezinha, amiúde execrável. A Igreja tem de ser compelida, e até arrastada, pelo movimento das ideias, a encorajar o protesto generalizado e a indignação colectiva. Não deve quedar-se, através de murmúrios compassivos, pela solidariedade inócua com o sofrimento. O essencial está em causa. A boa vontade não chega. É outra expressão do quietismo, a forma mais sórdida de cumplicidade, e outro modo de disciplina férrea, com que as classes dominantes impõem as suas leis e regras. Reformar quê? Quando, na realidade, estamos a falar do demoníaco, contido numa ideologia que introduziu, como modelo de sociedade, a resignação e o aviltamento progressivo da condição humana. O campo da nossa batalha não é a procura do eterno: é a consciência do nosso tempo.
«DN» de 10 Nov 10
'Déjà vu'
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«DE» de 10 Nov 10
Por João Paulo Guerra
QUEM TENHA participado, testemunhado ou simplesmente assistido como mero espectador ao fim do regime do chamado Estado Novo anda agora a tropeçar frequentemente em situações que deixam uma vaga percepção de déjà vu.
Não falo em movimentos de capitães ou conspiratas de generais, mas falo em deslocações de movimentos sociais que, de um dia para outro, alteram substancialmente a relação das forças no enfrentamento político. O mais recente déjà vu foi o duríssimo ataque da hierarquia da Igreja Católica à política desumanizada consignada no acordo de viabilização orçamental entre o Governo e o PSD. Os apelos à "resistência" a tal acordo, ao mesmo tempo que os bispos denunciavam a falta de verdade nos centros de decisão da gestão pública, são de uma dureza rara. Como comentava uma socióloga no DN, "o implícito foi bastante explícito".
No estertor do fascismo, também o regime foi perdendo e perdeu o pilar da fé. A persistência cega na guerra, cada vez mais brutal, destruidora e sanguinária, os massacres, a injustiça social e a repressão levaram a um implícito, bastante menos explícito, afastamento da Igreja em relação ao regime. Eram tão surpreendentes certas homilias, como dar pela presença de jovens oficiais nos comícios da oposição democrática. Ou simplesmente ver figuras da cultura a desertar das hostes do poder.
Com todas as abissais diferenças entre dois tempos que não têm comparação, as críticas frontais da hierarquia da Igreja à falta de verdade no jogo político a que agora se assiste fizeram recordar outros tempos, quando um poder se desmoronava em ruínas e uma classe política apodrecida persistia na mentira como derradeira colete de salvação. Diziam que "reinava a calma em todo o país".
.QUEM TENHA participado, testemunhado ou simplesmente assistido como mero espectador ao fim do regime do chamado Estado Novo anda agora a tropeçar frequentemente em situações que deixam uma vaga percepção de déjà vu.
Não falo em movimentos de capitães ou conspiratas de generais, mas falo em deslocações de movimentos sociais que, de um dia para outro, alteram substancialmente a relação das forças no enfrentamento político. O mais recente déjà vu foi o duríssimo ataque da hierarquia da Igreja Católica à política desumanizada consignada no acordo de viabilização orçamental entre o Governo e o PSD. Os apelos à "resistência" a tal acordo, ao mesmo tempo que os bispos denunciavam a falta de verdade nos centros de decisão da gestão pública, são de uma dureza rara. Como comentava uma socióloga no DN, "o implícito foi bastante explícito".
No estertor do fascismo, também o regime foi perdendo e perdeu o pilar da fé. A persistência cega na guerra, cada vez mais brutal, destruidora e sanguinária, os massacres, a injustiça social e a repressão levaram a um implícito, bastante menos explícito, afastamento da Igreja em relação ao regime. Eram tão surpreendentes certas homilias, como dar pela presença de jovens oficiais nos comícios da oposição democrática. Ou simplesmente ver figuras da cultura a desertar das hostes do poder.
Com todas as abissais diferenças entre dois tempos que não têm comparação, as críticas frontais da hierarquia da Igreja à falta de verdade no jogo político a que agora se assiste fizeram recordar outros tempos, quando um poder se desmoronava em ruínas e uma classe política apodrecida persistia na mentira como derradeira colete de salvação. Diziam que "reinava a calma em todo o país".
«DE» de 10 Nov 10
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terça-feira, 9 de novembro de 2010
Passatempo-relâmpago de 9 Nov 10
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Solução: o referido álbum Picasa pode ser visto [aqui], pelo que o passatempo foi ganho por 'Mg' que tem agora 24h para escrever para medina.ribeiro@gmail.com indicando morada para envio do livro (este, ou outro da lista indicada).
MUAMMAR KADHAFI
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«GQ» - Dezembro 2009
Por Maria Filomena Mónica
UM DOS MAIS PERIGOSOS Lobos Maus internacionais, Kadhafi, acaba de se transformar numa Boa Avozinha. Descansem que não vou perorar sobre geopolítica, mas apenas lembrar a carreira e o carácter deste líbio peculiar. Nascido em 1942, numa família de camponeses pobres, ingressou na Escola Militar de Bengazi, onde se juntou a um grupo de nacionalistas inspirados por Nasser. Em 1965, foi enviado para Inglaterra, onde frequentou o British Army Staff College, tendo, no ano seguinte, regressado a Tripoli. Em 1969, quando liderou o golpe de Estado que destronou o rei Idris, fazia gala em usar óculos de sol e em envergar fatos de caqui. O jovem não passou desapercebido, muito menos ao chefe egípcio. Em 1970, pouco antes de morrer, Nasser confidenciou a um amigo: «Gosto de Kadhafi. Recorda-me quando tinha a idade dele.»
Em 1973, Kadhafi organizou a Revolução do Povo. Dois anos depois, publicou o primeiro volume do «Livro Verde» explicando, ou tentando explicar, o que era o socialismo árabe. Nos finais de 1970, expulsou dezenas de milhares de italianos – entre 1912 e 1934 o país fora uma colónia italiana – destruiu as bases americanas e inglesas ali estacionadas e transformou a catedral católica de Tripoli na Mesquita Gamal Adbel Nasser. Com base numa mistura de pan-nacionalismo árabe, aspectos do Welfare State e o que designava como «democracia directa», iniciou um plano de nacionalização das grandes companhias, instituiu a proibição do álcool e montou um vasto programa educativo.
Pobre e maltratada pelos ex-ocupantes, a Líbia descobrira, em 1959, uma fonte de riqueza fabulosa, o petróleo. Em 1969, já tinha ultrapassado o Kuwait como o quinto maior exportador mundial, o que deu a Kadhafi uma oportunidade de jogar um papel de relevo na crise de 1973-74. Os EUA não lhe perdoaram. Em 1982, declararam a interdição da importação do petróleo líbio e a exportação para este país de qualquer tecnologia. Em 1986, como represália pelo bombardeamento de uma discoteca em Berlim frequentada por militares norte-americanos (um atentado supostamente praticado por líbios), R. Reagan mandou bombardear Tripoli e Bengazi, tendo morto sessenta pessoas, incluindo a filha adoptiva de Kadhafi. A Líbia respondeu, enviando sobre uma base naval americana dois Scuds, os quais falharam o alvo. O «cão raivoso do Médio Oriente», como Reagan o apelidava, explodiu de fúria.
Entretanto, a suas excentricidades iam em crescendo. Kadhafi não só determinou que, fosse qual fosse o país onde se encontrasse, haveria de dormir numa tenda, como montou uma guarda pretoriana, exclusivamente composta de mulheres. Assustados, alguns países árabes começaram distanciar-se. Em 1975, Sadat dele disse estar «100% doente e possuído pelo diabo». A metamorfose de pestífero em aliado iniciou-se na década de 1990, quando Kofi Annan e Nelson Mandela o convenceram de que os suspeitos de terem posto uma bomba no avião da Pan Am que, em 1988, se despenhara sobre Lockerbie, deveriam ser julgados, a fim de as Nações Unidas suspenderem as sanções que estavam a minar a economia líbia. Curiosamente, Kadhafi fora o primeiro líder a pedir um mandato de captura internacional para Bin Laden, o que, depois do 11 de Setembro, foi recordado. Em 2003, aceitou ser o responsável por Lockerbie; três anos depois, os EUA retomaram relações diplomáticas com o seu país.
As recentes comemorações do 40.º aniversário do golpe foram transmitidas pelas televisões europeias. A 1 de Setembro último [2009], entre dançarinos bailando em cima de andas e enforcamentos simbólicos de inimigos, pude ver a História da Líbia encenada como se o país tivesse sido o centro do comércio fenício, da civilização romana e da cultura árabe. Depois, a 23, e contra o protocolo, Kadhafi discursou, nas Nações Unidas, durante uma hora e trinta e seis minutos! Após ter declarado que o Conselho de Segurança era o equivalente da Al-Qaeda, acusou os EUA de estarem propositadamente a espalhar o vírus da gripe A pelo mundo. Kadhafi pode ser o «nosso» aliado, mas não nos devemos esquecer que, na Líbia, existe um regime que proíbe a existência de qualquer tipo de oposição, que tortura os adversários e que não permite a mais vaga liberdade de expressão. Não percebo o que levou o ministro dos Negócios Estrangeiros português, Luís Amado, elevado agora ministro de Estado, a comparecer nas festividades de Tripoli. A realpolitik não exigia tanto.
UM DOS MAIS PERIGOSOS Lobos Maus internacionais, Kadhafi, acaba de se transformar numa Boa Avozinha. Descansem que não vou perorar sobre geopolítica, mas apenas lembrar a carreira e o carácter deste líbio peculiar. Nascido em 1942, numa família de camponeses pobres, ingressou na Escola Militar de Bengazi, onde se juntou a um grupo de nacionalistas inspirados por Nasser. Em 1965, foi enviado para Inglaterra, onde frequentou o British Army Staff College, tendo, no ano seguinte, regressado a Tripoli. Em 1969, quando liderou o golpe de Estado que destronou o rei Idris, fazia gala em usar óculos de sol e em envergar fatos de caqui. O jovem não passou desapercebido, muito menos ao chefe egípcio. Em 1970, pouco antes de morrer, Nasser confidenciou a um amigo: «Gosto de Kadhafi. Recorda-me quando tinha a idade dele.»
Em 1973, Kadhafi organizou a Revolução do Povo. Dois anos depois, publicou o primeiro volume do «Livro Verde» explicando, ou tentando explicar, o que era o socialismo árabe. Nos finais de 1970, expulsou dezenas de milhares de italianos – entre 1912 e 1934 o país fora uma colónia italiana – destruiu as bases americanas e inglesas ali estacionadas e transformou a catedral católica de Tripoli na Mesquita Gamal Adbel Nasser. Com base numa mistura de pan-nacionalismo árabe, aspectos do Welfare State e o que designava como «democracia directa», iniciou um plano de nacionalização das grandes companhias, instituiu a proibição do álcool e montou um vasto programa educativo.
Pobre e maltratada pelos ex-ocupantes, a Líbia descobrira, em 1959, uma fonte de riqueza fabulosa, o petróleo. Em 1969, já tinha ultrapassado o Kuwait como o quinto maior exportador mundial, o que deu a Kadhafi uma oportunidade de jogar um papel de relevo na crise de 1973-74. Os EUA não lhe perdoaram. Em 1982, declararam a interdição da importação do petróleo líbio e a exportação para este país de qualquer tecnologia. Em 1986, como represália pelo bombardeamento de uma discoteca em Berlim frequentada por militares norte-americanos (um atentado supostamente praticado por líbios), R. Reagan mandou bombardear Tripoli e Bengazi, tendo morto sessenta pessoas, incluindo a filha adoptiva de Kadhafi. A Líbia respondeu, enviando sobre uma base naval americana dois Scuds, os quais falharam o alvo. O «cão raivoso do Médio Oriente», como Reagan o apelidava, explodiu de fúria.
Entretanto, a suas excentricidades iam em crescendo. Kadhafi não só determinou que, fosse qual fosse o país onde se encontrasse, haveria de dormir numa tenda, como montou uma guarda pretoriana, exclusivamente composta de mulheres. Assustados, alguns países árabes começaram distanciar-se. Em 1975, Sadat dele disse estar «100% doente e possuído pelo diabo». A metamorfose de pestífero em aliado iniciou-se na década de 1990, quando Kofi Annan e Nelson Mandela o convenceram de que os suspeitos de terem posto uma bomba no avião da Pan Am que, em 1988, se despenhara sobre Lockerbie, deveriam ser julgados, a fim de as Nações Unidas suspenderem as sanções que estavam a minar a economia líbia. Curiosamente, Kadhafi fora o primeiro líder a pedir um mandato de captura internacional para Bin Laden, o que, depois do 11 de Setembro, foi recordado. Em 2003, aceitou ser o responsável por Lockerbie; três anos depois, os EUA retomaram relações diplomáticas com o seu país.
As recentes comemorações do 40.º aniversário do golpe foram transmitidas pelas televisões europeias. A 1 de Setembro último [2009], entre dançarinos bailando em cima de andas e enforcamentos simbólicos de inimigos, pude ver a História da Líbia encenada como se o país tivesse sido o centro do comércio fenício, da civilização romana e da cultura árabe. Depois, a 23, e contra o protocolo, Kadhafi discursou, nas Nações Unidas, durante uma hora e trinta e seis minutos! Após ter declarado que o Conselho de Segurança era o equivalente da Al-Qaeda, acusou os EUA de estarem propositadamente a espalhar o vírus da gripe A pelo mundo. Kadhafi pode ser o «nosso» aliado, mas não nos devemos esquecer que, na Líbia, existe um regime que proíbe a existência de qualquer tipo de oposição, que tortura os adversários e que não permite a mais vaga liberdade de expressão. Não percebo o que levou o ministro dos Negócios Estrangeiros português, Luís Amado, elevado agora ministro de Estado, a comparecer nas festividades de Tripoli. A realpolitik não exigia tanto.
«GQ» - Dezembro 2009
Circo
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Por João Paulo Guerra
A DESQUALIFICAÇÃO da classe política está na ordem do dia e ainda ontem, em entrevista a este jornal, o dr. António Vitorino dizia que “há um empobrecimento das lideranças”. Basta olhar em redor. Ou entrar em cada sede partidária e percorrer a galeria dos líderes. Lá estão, a olhar para a posteridade, Mário Soares, Sá Carneiro, Freitas do Amaral, ou Adriano Moreira, ou até mesmo Francisco Lucas Pires, o velho Álvaro Cunhal. Independentemente do respectivo ideário, havia alguma grandeza naquelas figuras. Agora pensemos nos próximos cromos a juntar às galerias e só vemos retratos ‘a la minute' de pequenos, apressados e fugidios líderes, pouco ou nada significantes perante a História.
E esta é a geração que inventou precisamente os contratos por objectivos e a avaliação permanente: os objectivos ficaram nos patamares dos mais absolutos fracassos e a avaliação, a ter sido feita, daria um fiasco comprometedor. E não venham com a conversa de que a avaliação da classe política é feita nas urnas porque ao povo só lhe resta votar no que há, no que as cliques partidárias lhe servem à mesa das eleições, com acompanhamento de demagogia banhada em corantes e conservantes.
Imaginemos que as promessas eleitorais passavam a ser contratos por objectivos assinados pelos governos. Baixar o défice, não aumentar impostos, criar 150 mil empregos e outras balelas. A esta hora haveria filas de ex-ministros e ex-secretários de Estado no balcão para o subsídio de desemprego.
E algum governo cumpriu a promessa de fazer funcionar a Justiça, estabilizar o sistema educativo, garantir saúde aos portugueses, acabar com as pensões de miséria, criar postos de trabalho? Ou os portugueses andam todos a fingir que acreditam em números de ilusionismo de um circo de artistas decadentes e falhados?
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«DE» de 9 Nov 10
A DESQUALIFICAÇÃO da classe política está na ordem do dia e ainda ontem, em entrevista a este jornal, o dr. António Vitorino dizia que “há um empobrecimento das lideranças”. Basta olhar em redor. Ou entrar em cada sede partidária e percorrer a galeria dos líderes. Lá estão, a olhar para a posteridade, Mário Soares, Sá Carneiro, Freitas do Amaral, ou Adriano Moreira, ou até mesmo Francisco Lucas Pires, o velho Álvaro Cunhal. Independentemente do respectivo ideário, havia alguma grandeza naquelas figuras. Agora pensemos nos próximos cromos a juntar às galerias e só vemos retratos ‘a la minute' de pequenos, apressados e fugidios líderes, pouco ou nada significantes perante a História.
E esta é a geração que inventou precisamente os contratos por objectivos e a avaliação permanente: os objectivos ficaram nos patamares dos mais absolutos fracassos e a avaliação, a ter sido feita, daria um fiasco comprometedor. E não venham com a conversa de que a avaliação da classe política é feita nas urnas porque ao povo só lhe resta votar no que há, no que as cliques partidárias lhe servem à mesa das eleições, com acompanhamento de demagogia banhada em corantes e conservantes.
Imaginemos que as promessas eleitorais passavam a ser contratos por objectivos assinados pelos governos. Baixar o défice, não aumentar impostos, criar 150 mil empregos e outras balelas. A esta hora haveria filas de ex-ministros e ex-secretários de Estado no balcão para o subsídio de desemprego.
E algum governo cumpriu a promessa de fazer funcionar a Justiça, estabilizar o sistema educativo, garantir saúde aos portugueses, acabar com as pensões de miséria, criar postos de trabalho? Ou os portugueses andam todos a fingir que acreditam em números de ilusionismo de um circo de artistas decadentes e falhados?
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«DE» de 9 Nov 10
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Constance Reid, a escritora que os matemáticos admiram
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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 6 Nov 10
Por Nuno Crato
NA SEMANA PASSADA, o New York Times noticiava «Constance Reid, biógrafa de matemáticos, morre aos 92 anos». Lembrei-me do primeiro livro que li dessa grande autora. Foi «Hilbert», uma biografia do matemático alemão que dominou o panorama da matemática e da física no dobrar do século XIX para o XX. Creio que nenhum livro me ensinou tanto sobre história da ciência moderna como esse. Aprendi o papel que teve a criação de centros de investigação no século XIX; percebi como David Hilbert (1862–1943) criou um centro de investigação excepcional em Goettingen e como a escola que daí surgiu influenciou o rigor da matemática e da física nas décadas seguintes; entendi como Hilbert, ao enunciar em 1900 os 23 problemas maiores da matemática, definiu uma agenda de investigação que dominou o século XX e que ainda hoje influencia a investigação. Foi uma leitura fascinante.
Procurei outro livro da mesma autora e li «Courant», a biografia de um aluno de Hilbert que se tornou o seu principal apoio na organização do Instituto de Goettingen e que, mais tarde, em Nova Iorque, organizou o instituto que hoje tem o seu nome. Richard Courant (1888–1972) foi um grande matemático e um grande organizador — duas qualidades que só muito raramente se reunem na mesma pessoa.
Nesses livros de Constance Reid encontra-se uma mistura de factos humanos e de referências científicas que mergulham nas aventuras intelectuais do século XX e que nos fazem perceber a importância dos debates entre as grandes escolas. Percebe-se, por exemplo, a crença que David Hilbert tinha no poder da matemática. O seu epitáfio é constituído por uma frase célebre, que pronunciou em 1930 no seu último discurso público: «Wir müssen wissen. Wir werden wissen.» — «Temos de conhecer. Haveremos de conhecer.»
Foi o culminar da escola formalista, que pensava ser possível, com um conjunto de axiomas e regras formais, desenvolver inequivocamente toda a matemática. Curiosamente, um dia antes do discurso de Hilbert, o lógico Kurt Goedel deu um golpe fatal na ambição mais extrema de Hilbert ao mostrar que, qualquer que seja o sistema formal de base e as regras que se estabeleçam, há sempre factos matemáticos que não podem ser provados no interior desse sistema.
O nazismo e a guerra, entretanto, intervieram. Goedel refugiou-se nos Estados Unidos e é pouco provável que Hilbert alguma vez tenha tido a possibilidade de repensar a sua formulação. É também pouco provável, no entanto, que a sua confiança no poder da matemática pudesse ser abalada. Tampouco foi abalada nos grandes matemáticos que lhe seguiram. Esta história foi também contada por Constance Reid, mas uma versão mais moderna encontra-se no livro «Incompletude» de Rebecca Goldstein traduzido para português em 2009, pela Gradiva.
Antes de enveredar pela biografia de matemáticos, Constance Reid, que era professora de inglês e nunca tinha estudado matemática avançada, escreveu uma memória dos seus tempos de guerra numa fábrica de bombardeiros onde trabalhou. Em parte por influência da sua irmã, uma célebre matemática norte-americana, dedicou-se à popularização científica, tendo escrito «A Long Way from Euclid» e «From Zero to Infinity». Mas os seus maiores sucessos foram as biografias de matemáticos. A última, publicada em 1996 é uma homenagem à irmã, escrita na primeira pessoa. Chama-se «Julia Robinson: A Life in Mathematics». Tal como todos os seus outros livros, é uma obra esclarecedora e profundamente humana que mereceria ser traduzida e lida.
.NA SEMANA PASSADA, o New York Times noticiava «Constance Reid, biógrafa de matemáticos, morre aos 92 anos». Lembrei-me do primeiro livro que li dessa grande autora. Foi «Hilbert», uma biografia do matemático alemão que dominou o panorama da matemática e da física no dobrar do século XIX para o XX. Creio que nenhum livro me ensinou tanto sobre história da ciência moderna como esse. Aprendi o papel que teve a criação de centros de investigação no século XIX; percebi como David Hilbert (1862–1943) criou um centro de investigação excepcional em Goettingen e como a escola que daí surgiu influenciou o rigor da matemática e da física nas décadas seguintes; entendi como Hilbert, ao enunciar em 1900 os 23 problemas maiores da matemática, definiu uma agenda de investigação que dominou o século XX e que ainda hoje influencia a investigação. Foi uma leitura fascinante.
Procurei outro livro da mesma autora e li «Courant», a biografia de um aluno de Hilbert que se tornou o seu principal apoio na organização do Instituto de Goettingen e que, mais tarde, em Nova Iorque, organizou o instituto que hoje tem o seu nome. Richard Courant (1888–1972) foi um grande matemático e um grande organizador — duas qualidades que só muito raramente se reunem na mesma pessoa.
Nesses livros de Constance Reid encontra-se uma mistura de factos humanos e de referências científicas que mergulham nas aventuras intelectuais do século XX e que nos fazem perceber a importância dos debates entre as grandes escolas. Percebe-se, por exemplo, a crença que David Hilbert tinha no poder da matemática. O seu epitáfio é constituído por uma frase célebre, que pronunciou em 1930 no seu último discurso público: «Wir müssen wissen. Wir werden wissen.» — «Temos de conhecer. Haveremos de conhecer.»
Foi o culminar da escola formalista, que pensava ser possível, com um conjunto de axiomas e regras formais, desenvolver inequivocamente toda a matemática. Curiosamente, um dia antes do discurso de Hilbert, o lógico Kurt Goedel deu um golpe fatal na ambição mais extrema de Hilbert ao mostrar que, qualquer que seja o sistema formal de base e as regras que se estabeleçam, há sempre factos matemáticos que não podem ser provados no interior desse sistema.
O nazismo e a guerra, entretanto, intervieram. Goedel refugiou-se nos Estados Unidos e é pouco provável que Hilbert alguma vez tenha tido a possibilidade de repensar a sua formulação. É também pouco provável, no entanto, que a sua confiança no poder da matemática pudesse ser abalada. Tampouco foi abalada nos grandes matemáticos que lhe seguiram. Esta história foi também contada por Constance Reid, mas uma versão mais moderna encontra-se no livro «Incompletude» de Rebecca Goldstein traduzido para português em 2009, pela Gradiva.
Antes de enveredar pela biografia de matemáticos, Constance Reid, que era professora de inglês e nunca tinha estudado matemática avançada, escreveu uma memória dos seus tempos de guerra numa fábrica de bombardeiros onde trabalhou. Em parte por influência da sua irmã, uma célebre matemática norte-americana, dedicou-se à popularização científica, tendo escrito «A Long Way from Euclid» e «From Zero to Infinity». Mas os seus maiores sucessos foram as biografias de matemáticos. A última, publicada em 1996 é uma homenagem à irmã, escrita na primeira pessoa. Chama-se «Julia Robinson: A Life in Mathematics». Tal como todos os seus outros livros, é uma obra esclarecedora e profundamente humana que mereceria ser traduzida e lida.
«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 6 Nov 10
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
Blindados
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Por João Paulo Guerra
JÁ LI NUM JORNAL que os alertas que têm invadido os jornais sobre putativos motins e outros distúrbios iminentes em Lisboa são simplesmente uma cartada do MAI para justificar a despesa extraordinária de 5 milhões com a compra de blindados anti-motim para suposta segurança da Cimeira da NATO.
Como em campanha publicitária, os alertas têm subido de dramatismo à medida que se aproxima a data da Cimeira e que os blindados não chegam. Há jornais que publicam verdadeiros ‘features' dos serviços secretos com as mais estrambólicas ameaças que andarão a pairar sobre o coitado do português. Perigosíssimos terroristas, que no dia seguinte são designados por extremistas, depois por anarquistas, mais tarde por esquerdistas, estarão entre nós preparados para pôr Lisboa de pantanas, mergulhada numa onda de inaudita violência.
De maneira que me parece que a jogada é mais ampla. Trata-se não apenas de justificar o dispêndio de 5 milhões em tempos de apertos, como também de diabolizar o cidadão que, no uso dos seus direitos, critique a NATO, a Cimeira de Lisboa e a ideia de globalização da Organização dita Atlântica. Quem o ousar é obviamente um malandrim a soldo do famoso Bin Laden, portador de armas de destruição maciça como as que ninguém encontrou no Iraque, merecedor de ser entregue à voragem das lagartas dos blindados.
Outra hipótese, também já aventada nos jornais, é que os blindados vão chegar à PSP, mas não para a Cimeira da NATO. Então para que serão os blindados anti-motim? Para a greve geral ou outras greves e manifestações que aí venham de contestação à austeridade de uma banda só? Só faltava mais essa. Que a política de empobrecimento extremo dos portugueses se escudasse por detrás de novos émulos do capitão Maltês ou do tenente Carrajola.
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«DE» de 8 Nov 10
JÁ LI NUM JORNAL que os alertas que têm invadido os jornais sobre putativos motins e outros distúrbios iminentes em Lisboa são simplesmente uma cartada do MAI para justificar a despesa extraordinária de 5 milhões com a compra de blindados anti-motim para suposta segurança da Cimeira da NATO.
Como em campanha publicitária, os alertas têm subido de dramatismo à medida que se aproxima a data da Cimeira e que os blindados não chegam. Há jornais que publicam verdadeiros ‘features' dos serviços secretos com as mais estrambólicas ameaças que andarão a pairar sobre o coitado do português. Perigosíssimos terroristas, que no dia seguinte são designados por extremistas, depois por anarquistas, mais tarde por esquerdistas, estarão entre nós preparados para pôr Lisboa de pantanas, mergulhada numa onda de inaudita violência.
De maneira que me parece que a jogada é mais ampla. Trata-se não apenas de justificar o dispêndio de 5 milhões em tempos de apertos, como também de diabolizar o cidadão que, no uso dos seus direitos, critique a NATO, a Cimeira de Lisboa e a ideia de globalização da Organização dita Atlântica. Quem o ousar é obviamente um malandrim a soldo do famoso Bin Laden, portador de armas de destruição maciça como as que ninguém encontrou no Iraque, merecedor de ser entregue à voragem das lagartas dos blindados.
Outra hipótese, também já aventada nos jornais, é que os blindados vão chegar à PSP, mas não para a Cimeira da NATO. Então para que serão os blindados anti-motim? Para a greve geral ou outras greves e manifestações que aí venham de contestação à austeridade de uma banda só? Só faltava mais essa. Que a política de empobrecimento extremo dos portugueses se escudasse por detrás de novos émulos do capitão Maltês ou do tenente Carrajola.
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«DE» de 8 Nov 10
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domingo, 7 de novembro de 2010
A dieta de Sócrates
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«Expresso» de 31 Out 10
Por João Duque
TENHO UM AMIGO que define em duas penadas a diferença entre a administração pública e a privada: na administração privada, quando alguém não faz o que devia despede-se; na pública, contrata-se outro para fazer o que aquele não fazia...
Com a divulgação do Orçamento do Estado, ficámos a conhecer uma lista de 50 medidas de dieta que o Governo quer executar para reduzir o peso do Estado e que passarão pela fusão, extinção ou reestruturação de institutos e organismos públicos.
Quando ouvi a proposta do Governo duas perguntas me assaltaram:
1ª) Se os principais atores governativos são os mesmos desde 2005, porque é que demoraram tanto tempo a fazer a dieta?
2ª) Quem foram os autores e responsáveis pela criação das instituições que agora querem extinguir?
Sabe-se que o descontrolo das contas públicas é arrepiante, e estranho que seja ainda necessário adiar para janeiro uma coisa que já deveria ter sido iniciada há anos (ou até nunca criada) e admira-me que o Governo necessite de colocar no orçamento, numa Lei, medidas que foram criadas por Decreto-Lei ou despacho ministerial...
Mas quanto à segunda questão, isto é, quem foram os 'artistas' responsáveis pela 'gordura', pela criação destes organismos que agora se dizem excessivos, redundantes e absorvedores de injustificados recursos, fui investigar...
Comecei pela primeira da lista, a extinção, com fusão noutro organismo, da Direção-Geral do Livro e das Bibliotecas... Foi criada por Decreto-Lei aprovado em Conselho de Ministros de 1 de fevereiro de 2007 e assinado por José Sócrates e Fernando Teixeira dos Santos...
Fui às 4ª, 7ª e 8ª medidas, a extinção, com fusões, do Gabinete de Estatística e Planeamento da Educação, do Gabinete de Gestão Financeira e do Gabinete de Avaliação Educacional, todos criados ou mantidos na nova Lei Orgânica do Ministério da Educação, vista e aprovada no Conselho de Ministros de 20 de julho de 2006 chefiado por José Sócrates...
Fui à 5ª medida: a extinção, com fusão, da Comissão para a Otimização dos Recursos Educativos. Foi criada por Despacho de Teixeira dos Santos de 27 de julho de 2010!
Fui à 6ª medida: a extinção, com fusão, do Observatório das Políticas Locais de Educação, criado por protocolo celebrado entre o Governo Português e a Associação Nacional de Municípios Portugueses em 15 de Abril de 2009!
E por aí fora...
Mais interessante ainda: na criação de todos estes organismos foi sempre explicitamente invocado no preâmbulo dos respetivos diplomas o famoso PRACE (Programa de Reestruturação da Administração Central do Estado) o qual dizia ter como objetivos "O desenvolvimento económico e da qualidade dos serviços públicos, com ganhos de eficiência pela simplificação, racionalização e automatização, que permitam a diminuição do número de serviços e dos recursos a eles afetos"!
Estou como o meu amigo. No sector privado quando se quer racionalizar, simplificar e aumentar a eficiência reduz-se o input para manter o output; na administração pública, para se manter o output aumenta-se o input...
.TENHO UM AMIGO que define em duas penadas a diferença entre a administração pública e a privada: na administração privada, quando alguém não faz o que devia despede-se; na pública, contrata-se outro para fazer o que aquele não fazia...
Com a divulgação do Orçamento do Estado, ficámos a conhecer uma lista de 50 medidas de dieta que o Governo quer executar para reduzir o peso do Estado e que passarão pela fusão, extinção ou reestruturação de institutos e organismos públicos.
Quando ouvi a proposta do Governo duas perguntas me assaltaram:
1ª) Se os principais atores governativos são os mesmos desde 2005, porque é que demoraram tanto tempo a fazer a dieta?
2ª) Quem foram os autores e responsáveis pela criação das instituições que agora querem extinguir?
Sabe-se que o descontrolo das contas públicas é arrepiante, e estranho que seja ainda necessário adiar para janeiro uma coisa que já deveria ter sido iniciada há anos (ou até nunca criada) e admira-me que o Governo necessite de colocar no orçamento, numa Lei, medidas que foram criadas por Decreto-Lei ou despacho ministerial...
Mas quanto à segunda questão, isto é, quem foram os 'artistas' responsáveis pela 'gordura', pela criação destes organismos que agora se dizem excessivos, redundantes e absorvedores de injustificados recursos, fui investigar...
Comecei pela primeira da lista, a extinção, com fusão noutro organismo, da Direção-Geral do Livro e das Bibliotecas... Foi criada por Decreto-Lei aprovado em Conselho de Ministros de 1 de fevereiro de 2007 e assinado por José Sócrates e Fernando Teixeira dos Santos...
Fui às 4ª, 7ª e 8ª medidas, a extinção, com fusões, do Gabinete de Estatística e Planeamento da Educação, do Gabinete de Gestão Financeira e do Gabinete de Avaliação Educacional, todos criados ou mantidos na nova Lei Orgânica do Ministério da Educação, vista e aprovada no Conselho de Ministros de 20 de julho de 2006 chefiado por José Sócrates...
Fui à 5ª medida: a extinção, com fusão, da Comissão para a Otimização dos Recursos Educativos. Foi criada por Despacho de Teixeira dos Santos de 27 de julho de 2010!
Fui à 6ª medida: a extinção, com fusão, do Observatório das Políticas Locais de Educação, criado por protocolo celebrado entre o Governo Português e a Associação Nacional de Municípios Portugueses em 15 de Abril de 2009!
E por aí fora...
Mais interessante ainda: na criação de todos estes organismos foi sempre explicitamente invocado no preâmbulo dos respetivos diplomas o famoso PRACE (Programa de Reestruturação da Administração Central do Estado) o qual dizia ter como objetivos "O desenvolvimento económico e da qualidade dos serviços públicos, com ganhos de eficiência pela simplificação, racionalização e automatização, que permitam a diminuição do número de serviços e dos recursos a eles afetos"!
Estou como o meu amigo. No sector privado quando se quer racionalizar, simplificar e aumentar a eficiência reduz-se o input para manter o output; na administração pública, para se manter o output aumenta-se o input...
«Expresso» de 31 Out 10
sábado, 6 de novembro de 2010
Quanto indica a balança? - Solução 653 g
Os 2 leitores (m/f) que mais se tenham aproximado deste valor têm 24h para escreverem para medina.ribeiro@gmail.com, indicando morada para envio.
O 1.º classificado (m/f) deverá, também, dizer qual dos 2 livros prefere. O 2.º classificado (m/f) receberá o outro.
O 1.º classificado (m/f) deverá, também, dizer qual dos 2 livros prefere. O 2.º classificado (m/f) receberá o outro.
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Actualização (20h00m): se não me enganei nas contas, o resultado é o seguinte:
- 1ª ... Cinderella ... palpite 670 g => erro = 17 gramas
- 2ª ... Lau ... palpite 710 g => erro = 57 gramas
Casar e descasar
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Por Antunes Ferreira
ORA TOMA! De acordo com a última actualização de dados do INE, realizada a 15 de Outubro passado, em 2009 houve 26.464 divórcios e 40.391 casamentos. Diz a informação da Estatística, para que se possa apreciá-la devidamente e situá-la em conformidade, que os dados mais antigos disponíveis no site dela datam de 1914, 14 anos depois da primeira lei sobre o divórcio, ano em que houve só duzentos divórcios em Portugal.
Seguindo no tempo e aprendendo cada dia que passa, o que para mim é obrigatório e portanto saudável, em 1940 já havia mais de 600 casamentos dissolvidos por divórcio; mas foi preciso esperar pela revolução de Abril para Portugal ter mais de 1.500 divórcios num só ano, o que aconteceu pela primeira vez em 1975.
Continuando com o resumo do relatório do INE, de acordo com a Comunicação Social, dois anos depois ocorria um novo "boom"; atingia-se uma quantidade já apreciável: um total de 7773. O aumento pode ser explicado com a impossibilidade que vigorou durante o Estado Novo de acabar legalmente com um casamento católico, devido à Concordata assinada com o Vaticano, que só foi revista em 1975. Lembram-se do Salgado Zenha?
Então, o casamento era um sacramento, daí que o divórcio fosse um pecado. A Igreja, pilar da velha Senhora, mandava a eito na política enunciada e desenvolvida por Salazar. O Cardeal Patriarca Manuel Gonçalves Cerejeira, colega e amigo do Botas, era figura de Estado, tinha lugar privilegiado nas cerimónias oficias, mandava na Censura moralista.
Isto quer dizer que os Portugueses se vieram habituando a casar-se e a descasar-se. Como em tudo o resto, bom ou mau não é para aqui chamado, chegámos atrasados. As modas ente nós, já o dizia o Jacintinho de Tormes, são sempre tardias e normalmente copiadas do estrangeiro. Não nos esqueçamos que a galinha da minha vizinha é sempre melhor que a minha. Exceptua-se o caso de Espanha de onde não vem nem bom vento, nem bom casamento, mas de onde hoje vem a maior parte do que não produzimos ou, bem pior, do que deixámos de produzir.
Porém, o facto é que do País aqui ao lado, segundo o ditado, não vêm bons casamentos. Virão, então bons divórcios, consideração quiçá falaciosa e, pior, despropositada, até mesmo acintosa? As premissas de um silogismo nunca falharam, as conclusões decorriam naturalmente delas.
Mas, a tradição afirma-se que já não é o que era. Tenho as minhas dúvidas; continua a ser, só que travestida. É certo que uma boa parte da juventude opta por juntar os trapinhos; mas os templos e as conservatórias continuam a ter bastante peso numa sociedade de onde o conservadorismo nunca arrancou pé.
Hoje, com as preocupações e as suspeitas existentes sobre o estranhíssimo conúbio entre os senhores Sócrates e Passos Coelho, as antevisões do futuro divórcio, que são muitas, só divergem na data da ocorrência. Sem copo de água, presumo, porque agora é mais copo de uísque na boda da separação legal.
Há, ainda quem argumente com a actual legalidade dos casamentos homossexuais. Que, dizem, são muito mais constantes do que os hetero. Espíritos malignos, mesquinhos, desprezíveis, intriguistas e torpes sempre houve e sempre haverá. Tal como os casamentos e os divórcios. Honni soit.
ORA TOMA! De acordo com a última actualização de dados do INE, realizada a 15 de Outubro passado, em 2009 houve 26.464 divórcios e 40.391 casamentos. Diz a informação da Estatística, para que se possa apreciá-la devidamente e situá-la em conformidade, que os dados mais antigos disponíveis no site dela datam de 1914, 14 anos depois da primeira lei sobre o divórcio, ano em que houve só duzentos divórcios em Portugal.
Seguindo no tempo e aprendendo cada dia que passa, o que para mim é obrigatório e portanto saudável, em 1940 já havia mais de 600 casamentos dissolvidos por divórcio; mas foi preciso esperar pela revolução de Abril para Portugal ter mais de 1.500 divórcios num só ano, o que aconteceu pela primeira vez em 1975.
Continuando com o resumo do relatório do INE, de acordo com a Comunicação Social, dois anos depois ocorria um novo "boom"; atingia-se uma quantidade já apreciável: um total de 7773. O aumento pode ser explicado com a impossibilidade que vigorou durante o Estado Novo de acabar legalmente com um casamento católico, devido à Concordata assinada com o Vaticano, que só foi revista em 1975. Lembram-se do Salgado Zenha?
Então, o casamento era um sacramento, daí que o divórcio fosse um pecado. A Igreja, pilar da velha Senhora, mandava a eito na política enunciada e desenvolvida por Salazar. O Cardeal Patriarca Manuel Gonçalves Cerejeira, colega e amigo do Botas, era figura de Estado, tinha lugar privilegiado nas cerimónias oficias, mandava na Censura moralista.
Isto quer dizer que os Portugueses se vieram habituando a casar-se e a descasar-se. Como em tudo o resto, bom ou mau não é para aqui chamado, chegámos atrasados. As modas ente nós, já o dizia o Jacintinho de Tormes, são sempre tardias e normalmente copiadas do estrangeiro. Não nos esqueçamos que a galinha da minha vizinha é sempre melhor que a minha. Exceptua-se o caso de Espanha de onde não vem nem bom vento, nem bom casamento, mas de onde hoje vem a maior parte do que não produzimos ou, bem pior, do que deixámos de produzir.
Porém, o facto é que do País aqui ao lado, segundo o ditado, não vêm bons casamentos. Virão, então bons divórcios, consideração quiçá falaciosa e, pior, despropositada, até mesmo acintosa? As premissas de um silogismo nunca falharam, as conclusões decorriam naturalmente delas.
Mas, a tradição afirma-se que já não é o que era. Tenho as minhas dúvidas; continua a ser, só que travestida. É certo que uma boa parte da juventude opta por juntar os trapinhos; mas os templos e as conservatórias continuam a ter bastante peso numa sociedade de onde o conservadorismo nunca arrancou pé.
Hoje, com as preocupações e as suspeitas existentes sobre o estranhíssimo conúbio entre os senhores Sócrates e Passos Coelho, as antevisões do futuro divórcio, que são muitas, só divergem na data da ocorrência. Sem copo de água, presumo, porque agora é mais copo de uísque na boda da separação legal.
Há, ainda quem argumente com a actual legalidade dos casamentos homossexuais. Que, dizem, são muito mais constantes do que os hetero. Espíritos malignos, mesquinhos, desprezíveis, intriguistas e torpes sempre houve e sempre haverá. Tal como os casamentos e os divórcios. Honni soit.
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
«Dito & Feito»
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«SOL» de 5 Nov 10
Por José António Lima
O MINISTRO Teixeira dos Santos saiu pouco satisfeito do acordo que rubricou com a delegação social-democrata chefiada por Eduardo Catroga.
Apareceu a resmungar que «vai ser necessário adoptar medidas adicionais para atenuar o custo de 500 milhões de euros deste acordo» e a queixar-se de que o PSD queria «dourar a pílula». Estranha-se o tom rezingão do ministro. Não tanto por confirmar a ideia de que tanto ele como Sócrates apostavam mais num desacordo do que num acordo. Mas por duas outras razões.
A primeira é a de que os 500 milhões representam uma percentagem ínfima no despesismo de milhares de milhões do aparelho do Estado (bastando cortar um pouco nos excessos dos gabinetes governamentais, nos custos exorbitantes com juristas e advogados, nos gastos com empresas amigas de assessoria de comunicação ou de promoção de eventos... e por aí fora). E 500 milhões não devem ser preocupação para um ministro que fala com a maior das ligeirezas de uma dívida imprevista de 580 milhões da empresa Estradas de Portugal ou de uma derrapagem de 1.700 ou 1.800 milhões no OE de 2010.
A segunda razão é o facto de Sócrates e Teixeira dos Santos se terem especializado em múltiplos expedientes para espoliar aos contribuintes os milhões que se viram obrigados a cortar, à pressa e contrafeitos, na despesa do Estado. Eis três exemplos ilustrativos. O Governo conta ir buscar 100 milhões de euros aos benefícios fiscais, cortados à sorrelfa, das instituições religiosas (excepto a Igreja Católica) e de solidariedade social. Aumenta, furtivamente, em 33 milhões de euros a taxa de audiovisual que todos os portugueses pagam à RTP (em muitos casos, sem sequer o perceberem) na factura mensal de electricidade. Para aliviar o orçamento do Ministério da Cultura, obriga as televisões, empresas de telemóveis e de acesso à internet a esportularem 80 milhões de euros numa taxa para o cinema. Vale tudo...
Será muito 500 milhões para um Governo que se comporta como um senhor feudal, reduzindo salários e aumentando impostos indiscriminadamente, e que nas horas vagas se transforma em salteador de estrada, a extorquir mais dinheiro aos incautos com taxas e outras artimanhas? Pelo que parece, são apenas trocos.
.O MINISTRO Teixeira dos Santos saiu pouco satisfeito do acordo que rubricou com a delegação social-democrata chefiada por Eduardo Catroga.
Apareceu a resmungar que «vai ser necessário adoptar medidas adicionais para atenuar o custo de 500 milhões de euros deste acordo» e a queixar-se de que o PSD queria «dourar a pílula». Estranha-se o tom rezingão do ministro. Não tanto por confirmar a ideia de que tanto ele como Sócrates apostavam mais num desacordo do que num acordo. Mas por duas outras razões.
A primeira é a de que os 500 milhões representam uma percentagem ínfima no despesismo de milhares de milhões do aparelho do Estado (bastando cortar um pouco nos excessos dos gabinetes governamentais, nos custos exorbitantes com juristas e advogados, nos gastos com empresas amigas de assessoria de comunicação ou de promoção de eventos... e por aí fora). E 500 milhões não devem ser preocupação para um ministro que fala com a maior das ligeirezas de uma dívida imprevista de 580 milhões da empresa Estradas de Portugal ou de uma derrapagem de 1.700 ou 1.800 milhões no OE de 2010.
A segunda razão é o facto de Sócrates e Teixeira dos Santos se terem especializado em múltiplos expedientes para espoliar aos contribuintes os milhões que se viram obrigados a cortar, à pressa e contrafeitos, na despesa do Estado. Eis três exemplos ilustrativos. O Governo conta ir buscar 100 milhões de euros aos benefícios fiscais, cortados à sorrelfa, das instituições religiosas (excepto a Igreja Católica) e de solidariedade social. Aumenta, furtivamente, em 33 milhões de euros a taxa de audiovisual que todos os portugueses pagam à RTP (em muitos casos, sem sequer o perceberem) na factura mensal de electricidade. Para aliviar o orçamento do Ministério da Cultura, obriga as televisões, empresas de telemóveis e de acesso à internet a esportularem 80 milhões de euros numa taxa para o cinema. Vale tudo...
Será muito 500 milhões para um Governo que se comporta como um senhor feudal, reduzindo salários e aumentando impostos indiscriminadamente, e que nas horas vagas se transforma em salteador de estrada, a extorquir mais dinheiro aos incautos com taxas e outras artimanhas? Pelo que parece, são apenas trocos.
«SOL» de 5 Nov 10
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jal
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
O Orçamento de 2012
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Por João Duque
É TRADIÇÃO das monarquias estabelecidas exaltar o novo rei assim que morre o anterior. “- O Rei Morreu! Viva o Rei!
O mesmo, digo eu, se aplica ao Orçamento do Estado. Claro que ainda muita tinta irá correr sobre este Orçamento e em particular quando, a partir de Maio de 2011 com resultados da execução do primeiro trimestre, estou em crer que se colocará em causa a verdadeira estabilidade financeira e política de Portugal...
O Governo vai ter de governar com um dilema: ou mantém o aperto sobre os portugueses agora anunciado em Orçamento, equilibrando-se na cadeira do poder (embora se afastando cada vez mais em sondagens de uma renovação de mandato), ou deixa resvalar a execução para ser um pouco mais brando e caem-lhe em cima os mercados, a oposição e o FMI...
Em suma, ou salvam Portugal e perdem as eleições, ou governam para as eleições e afundam de vez Portugal.
Mas imaginemos que tudo corre como está previsto neste Orçamento e que estamos em Outubro de 2011 a discutir o Orçamento de 2012. Se queremos baixar o défice de 4,6% para 2,6% do PIB, e se é hoje tão difícil reduzir 500 milhões à despesa, como vão querer fazer essa redução de 3.300 milhões em 2012, em cima da já dura realidade de 2011? À custa de mais impostos? Como será discutir subidas de IVA daqui a um ano quando ele já estiver a 23%? Como será falar em redução de salários aos funcionários públicos quando já lhes cortaram 5% na massa salarial? O que fazer?
E aí é que a porca vai torcer, definitivamente, o rabo!
E assim, não vejo qualquer hipótese de não se mexer nas pensões de reforma. Não nas futuras, mas nas actuais. Os pensionistas são a faixa da população que mais usa o Sistema Nacional de Saúde e que mais despesa induz. É natural. Com a esperança de vida a aumentar, com o número de idosos a alargar-se, com os utentes dos serviços cada vez mais exigentes, com médicos cada vez mais medrosos em fase de diagnóstico, tudo conduz a um aumento crescente da despesa com a saúde que se tem verificado e vai continuar. Pode argumentar-se que as pensões de reforma resultam dos descontos realizados ao longo de uma vida, e que portanto, a redução das reformas é equivalente a um confisco... Essa visão esbarra em dois escolhos: 1) não houve capitalização porque os descontos de uma vida foram servindo para tapar os défices do sistema; 2) mesmo os que hoje estão no activo vêm, de revisão em revisão do sistema de pensões, a queda dos valores futuros, embora não lhes reduzam as contribuições e descontos que fazem... Então porquê tratar diferente quem é igual?
Dada a limitação orçamental, temos de enfrentar a questão que é simples e dual: ou se pagam as reformas que temos para os pensionistas pagarem a saúde do seu bolso cortando no Serviço Nacional de Saúde (SNS), ou se mantém o SNS e se reduzem as reformas para manter o que já temos e que está a funcionar. Ou as duas! Para tudo, lastimo, não haverá orçamento.
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«DE» de 4 Nov 10
É TRADIÇÃO das monarquias estabelecidas exaltar o novo rei assim que morre o anterior. “- O Rei Morreu! Viva o Rei!
O mesmo, digo eu, se aplica ao Orçamento do Estado. Claro que ainda muita tinta irá correr sobre este Orçamento e em particular quando, a partir de Maio de 2011 com resultados da execução do primeiro trimestre, estou em crer que se colocará em causa a verdadeira estabilidade financeira e política de Portugal...
O Governo vai ter de governar com um dilema: ou mantém o aperto sobre os portugueses agora anunciado em Orçamento, equilibrando-se na cadeira do poder (embora se afastando cada vez mais em sondagens de uma renovação de mandato), ou deixa resvalar a execução para ser um pouco mais brando e caem-lhe em cima os mercados, a oposição e o FMI...
Em suma, ou salvam Portugal e perdem as eleições, ou governam para as eleições e afundam de vez Portugal.
Mas imaginemos que tudo corre como está previsto neste Orçamento e que estamos em Outubro de 2011 a discutir o Orçamento de 2012. Se queremos baixar o défice de 4,6% para 2,6% do PIB, e se é hoje tão difícil reduzir 500 milhões à despesa, como vão querer fazer essa redução de 3.300 milhões em 2012, em cima da já dura realidade de 2011? À custa de mais impostos? Como será discutir subidas de IVA daqui a um ano quando ele já estiver a 23%? Como será falar em redução de salários aos funcionários públicos quando já lhes cortaram 5% na massa salarial? O que fazer?
E aí é que a porca vai torcer, definitivamente, o rabo!
E assim, não vejo qualquer hipótese de não se mexer nas pensões de reforma. Não nas futuras, mas nas actuais. Os pensionistas são a faixa da população que mais usa o Sistema Nacional de Saúde e que mais despesa induz. É natural. Com a esperança de vida a aumentar, com o número de idosos a alargar-se, com os utentes dos serviços cada vez mais exigentes, com médicos cada vez mais medrosos em fase de diagnóstico, tudo conduz a um aumento crescente da despesa com a saúde que se tem verificado e vai continuar. Pode argumentar-se que as pensões de reforma resultam dos descontos realizados ao longo de uma vida, e que portanto, a redução das reformas é equivalente a um confisco... Essa visão esbarra em dois escolhos: 1) não houve capitalização porque os descontos de uma vida foram servindo para tapar os défices do sistema; 2) mesmo os que hoje estão no activo vêm, de revisão em revisão do sistema de pensões, a queda dos valores futuros, embora não lhes reduzam as contribuições e descontos que fazem... Então porquê tratar diferente quem é igual?
Dada a limitação orçamental, temos de enfrentar a questão que é simples e dual: ou se pagam as reformas que temos para os pensionistas pagarem a saúde do seu bolso cortando no Serviço Nacional de Saúde (SNS), ou se mantém o SNS e se reduzem as reformas para manter o que já temos e que está a funcionar. Ou as duas! Para tudo, lastimo, não haverá orçamento.
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«DE» de 4 Nov 10
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
«A Quadratura do Circo» - Ser Anarquista
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Por Pedro Barroso
Por Pedro Barroso
ALTO! Essa doce palavra anarquista, essa não. Por favor.
Ouvi e calei a vergonha, ao ouvir esse termo abusado nos noticiários do país como sendo o dos responsáveis pelo bombismo que grassa pela Europa.
É de uma indigência mental confundir a correntes libertárias de pensamento com um terrorismo generalista de bombas e destruição.
É uma canalhice sórdida e sem argumento nem histórico, nem filosófico.
Os atentados anarquistas, no sentido restrito do termo, foram raros, em momentos históricos de total encruzilhada e mesmo assim, controversos qb para lhes atribuirmos uma razão de causa e fundamento, ou sequer, concordância global de todos os envolvidos.
Perguntem ao rapaz Bin Laden – um especialista; aos fundamentalistas espalhados pelo planeta; ou, se calhar, até a alguns sinistros teóricos da destruição total para um mundo reconstruído à sua medida. Lembrei-me agora que o pessoal do Bilderberg Group tudo manda e tudo determina. Portanto, alguma coisa há-de saber acerca disto.
Alias, parece farisaico, por um lado, celebrar a República - que nos foi dada na bandeja carbonária - e por outro lado, chamar grupos anarquistas a quem quer se intitule responsável por estas encomendas letais aos lideres europeus.
Sempre que não conseguem entender nem o pacifismo, nem o existencialismo, nem a independência de vistas, nem a acção de iniciativas de rua, nem a proverbial inventiva apartidária e seu humor anarquista, a tendência dos governos status quo atribui, como colagem imediata, a grupos anarquistas a culpa de todas as Brigadas Rossas e Baader Meinhoff’s do Mundo.
Quando ainda adolescente, desconfiei da catequese e dos conhecimentos místico-superiores do senhor prior de Santa Catarina. Quando comecei a suspeitar que se calhar aquele senhor de saias não era afinal intermediário de coisa nenhuma, mas apenas mais um palhaço de Deus “nosso senhor” travestido de incenso e influências. Tal como Fátima.
Quando me fascinei pelas matérias do século, do conhecimento e da História. Quando percebi que as nossas glórias eram muitas vezes fundadas na pirataria e no roubo descarado, por tudo onde andámos, em nome da fé e do Império.
Quando repudiei Franco e Salazar, primeiro de forma incipiente e instintiva, depois mais integrado em acções concertadas. Quando, por uma qualquer inexplicável ideia de liberdade, adoptei a crítica, o sentido das perguntas, o caminho da dialéctica, mas ao mesmo tempo da inquietação. Quando me revoltei contra a guerra e a injustiça e parti, sem jeito de saber nada daquilo ao que ia, menino ainda, perdido pelas fronteiras de Portalegre até à velha Albion.
Quando descobri que o Hitler fora um psicopata homicida de milhões, patético naquilo da raça, eleito, imagine-se!, por sufrágio eleitoral; e que o Mao era, ele próprio, argumentativamente, um tigre de papel e Staline um requintado criminoso.
Quando aprendi a ler a esquerda na direita e a direita na esquerda, e a corrupção instalada, por vocação, nos partidos ditos de centro, por serem partidos putativos de governo e distribuição de benesses. Quando vi o estado de graça e ingenuidade pura em que celebrámos a Liberdade e a rota envolvente que percorremos até hoje; e, no entanto, a habilidade tortuosa e florentina com que um bando de jeitosos conseguiu alcandorar-se aonde queria e subverter todos os caminhos de Abril.
Quando vejo os ordenados dos gestores públicos, as desigualdades sociais, a fanecada parlamentar, as vaidades pessoais, insultos e argumentos, e sobretudo, a gloriosa conquista da desgraça aportada por este senhor dito engenheiro - e quem sou eu para o contestar, chiça?…- eu fico parvo, pequeno, calado, sem reacção.
E o peito um calo honroso cria, - eu sempre vos disse. Não há caminhos fáceis.
Ai, amigos, camaradas de todas as cores e feitios, sindicalistas vermelhos, roxos e amarelos, … fico ainda mais convicto no meu alinhadíssimo não-alinhamento!
Fui anarquista, e acho que o vou ser o resto de meus dias, companheiros.
Emigrei cedo nessa pátria da utopia e do milagre humano por acontecer; nessa cidade nova de sonho e amizade, nessa sociedade sem trancas nas portas, algures entre a intimidade forçada da ilha do Corvo e a hombridade colectivista de Rio de Honor.
Assim me cooptei e convenci, se preciso fosse. Alinhado, mas livre. Nem Deus, nem Nietsche, nem Bakunine, nem sequer Trotsky. Ou até Dalai Lama. Livre.
Tristemente descrente, diria um observador atento.
Quando vi os gritos, confusões e exageros após a Liberdade; e de caminho, comecei a ver tantos homens de bem transformados em carrascos; e tantos homens de bem transformados em criminosos, eu fiquei tremendo na fímbria da razão e do desespero.
E revoltei-me; e fiquei ainda mais descrente e anarquista.
A vida, as desilusões, os amores e desamores, tudo trocado e ao lado do que houvera de ser e conseguir-se, o difícil da vida, os partidos que existem, as guerras de poder, a involução estúpida da espécie, a constatação evidente da irreversível destruição do planeta, tudo me reconfirma, a cada dia nos dai hoje, a irreprimível sensação de doloroso acerto. E como gostaria de enganar-me.
Mas a utopia é doce. Em nome de todas as crenças e de todos os que têm a suprema graça de acreditar nalguma coisa, não conspurquem o seu sagrado nome - Anarquia.
Para que eu possa olhar-me ao espelho todas as manhãs conforme sou.
Ouvi e calei a vergonha, ao ouvir esse termo abusado nos noticiários do país como sendo o dos responsáveis pelo bombismo que grassa pela Europa.
É de uma indigência mental confundir a correntes libertárias de pensamento com um terrorismo generalista de bombas e destruição.
É uma canalhice sórdida e sem argumento nem histórico, nem filosófico.
Os atentados anarquistas, no sentido restrito do termo, foram raros, em momentos históricos de total encruzilhada e mesmo assim, controversos qb para lhes atribuirmos uma razão de causa e fundamento, ou sequer, concordância global de todos os envolvidos.
Perguntem ao rapaz Bin Laden – um especialista; aos fundamentalistas espalhados pelo planeta; ou, se calhar, até a alguns sinistros teóricos da destruição total para um mundo reconstruído à sua medida. Lembrei-me agora que o pessoal do Bilderberg Group tudo manda e tudo determina. Portanto, alguma coisa há-de saber acerca disto.
Alias, parece farisaico, por um lado, celebrar a República - que nos foi dada na bandeja carbonária - e por outro lado, chamar grupos anarquistas a quem quer se intitule responsável por estas encomendas letais aos lideres europeus.
Sempre que não conseguem entender nem o pacifismo, nem o existencialismo, nem a independência de vistas, nem a acção de iniciativas de rua, nem a proverbial inventiva apartidária e seu humor anarquista, a tendência dos governos status quo atribui, como colagem imediata, a grupos anarquistas a culpa de todas as Brigadas Rossas e Baader Meinhoff’s do Mundo.
Quando ainda adolescente, desconfiei da catequese e dos conhecimentos místico-superiores do senhor prior de Santa Catarina. Quando comecei a suspeitar que se calhar aquele senhor de saias não era afinal intermediário de coisa nenhuma, mas apenas mais um palhaço de Deus “nosso senhor” travestido de incenso e influências. Tal como Fátima.
Quando me fascinei pelas matérias do século, do conhecimento e da História. Quando percebi que as nossas glórias eram muitas vezes fundadas na pirataria e no roubo descarado, por tudo onde andámos, em nome da fé e do Império.
Quando repudiei Franco e Salazar, primeiro de forma incipiente e instintiva, depois mais integrado em acções concertadas. Quando, por uma qualquer inexplicável ideia de liberdade, adoptei a crítica, o sentido das perguntas, o caminho da dialéctica, mas ao mesmo tempo da inquietação. Quando me revoltei contra a guerra e a injustiça e parti, sem jeito de saber nada daquilo ao que ia, menino ainda, perdido pelas fronteiras de Portalegre até à velha Albion.
Quando descobri que o Hitler fora um psicopata homicida de milhões, patético naquilo da raça, eleito, imagine-se!, por sufrágio eleitoral; e que o Mao era, ele próprio, argumentativamente, um tigre de papel e Staline um requintado criminoso.
Quando aprendi a ler a esquerda na direita e a direita na esquerda, e a corrupção instalada, por vocação, nos partidos ditos de centro, por serem partidos putativos de governo e distribuição de benesses. Quando vi o estado de graça e ingenuidade pura em que celebrámos a Liberdade e a rota envolvente que percorremos até hoje; e, no entanto, a habilidade tortuosa e florentina com que um bando de jeitosos conseguiu alcandorar-se aonde queria e subverter todos os caminhos de Abril.
Quando vejo os ordenados dos gestores públicos, as desigualdades sociais, a fanecada parlamentar, as vaidades pessoais, insultos e argumentos, e sobretudo, a gloriosa conquista da desgraça aportada por este senhor dito engenheiro - e quem sou eu para o contestar, chiça?…- eu fico parvo, pequeno, calado, sem reacção.
E o peito um calo honroso cria, - eu sempre vos disse. Não há caminhos fáceis.
Ai, amigos, camaradas de todas as cores e feitios, sindicalistas vermelhos, roxos e amarelos, … fico ainda mais convicto no meu alinhadíssimo não-alinhamento!
Fui anarquista, e acho que o vou ser o resto de meus dias, companheiros.
Emigrei cedo nessa pátria da utopia e do milagre humano por acontecer; nessa cidade nova de sonho e amizade, nessa sociedade sem trancas nas portas, algures entre a intimidade forçada da ilha do Corvo e a hombridade colectivista de Rio de Honor.
Assim me cooptei e convenci, se preciso fosse. Alinhado, mas livre. Nem Deus, nem Nietsche, nem Bakunine, nem sequer Trotsky. Ou até Dalai Lama. Livre.
Tristemente descrente, diria um observador atento.
Quando vi os gritos, confusões e exageros após a Liberdade; e de caminho, comecei a ver tantos homens de bem transformados em carrascos; e tantos homens de bem transformados em criminosos, eu fiquei tremendo na fímbria da razão e do desespero.
E revoltei-me; e fiquei ainda mais descrente e anarquista.
A vida, as desilusões, os amores e desamores, tudo trocado e ao lado do que houvera de ser e conseguir-se, o difícil da vida, os partidos que existem, as guerras de poder, a involução estúpida da espécie, a constatação evidente da irreversível destruição do planeta, tudo me reconfirma, a cada dia nos dai hoje, a irreprimível sensação de doloroso acerto. E como gostaria de enganar-me.
Mas a utopia é doce. Em nome de todas as crenças e de todos os que têm a suprema graça de acreditar nalguma coisa, não conspurquem o seu sagrado nome - Anarquia.
Para que eu possa olhar-me ao espelho todas as manhãs conforme sou.
Miséria
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«DE» de 3 Nov 10
Por João Paulo Guerra
OS SINAIS de degradação social, fome e miséria não esperaram sequer pela entrada em vigor do Orçamento que vai reduzir Portugal a um país de indigência.
De facto, a penúria dos portugueses já vem por detrás, de crise sobre crise, e o Orçamento dos partidos que mais se têm governado enquanto desgovernam o país, apadrinhado pela banca, pelo embaixador dos EUA, por Sarkozy e pela Merkel, só vai agravar a míngua nacional a extremos nunca vistos, nem sequer nos tempos do governo do Bloco Central e da fome em Setúbal. Ontem, os jornais davam conta que já tinham disparado os pedidos de ajuda alimentar às Misericórdias, à Cruz Vermelha e ao Banco contra a Fome, ao mesmo tempo que se multiplicam os pedidos de ajuda de portugueses que se libertaram do álcool e da droga e que a crise levou a que caíssem de novo na dependência.
É este o país que José Sócrates vai deixar a quem vier a seguir, depois do PS apagar a luz e bater com a porta. Um país condenado à degradação pela mais brutal insensibilidade social, pela subjugação a interesses alheios e opostos aos do país e do povo. Mas na verdade não é apenas este governo do PS que desentranhou Portugal do rol dos países com direito à dignidade. A política de desastre vem de longe e foi partilhada pelas três famílias políticas que governaram Portugal nos últimos 30 anos. Foi a política desastrosa que desmantelou em Portugal todo e qualquer resquício produtivo - acabou com a agricultura, com as pescas, com parte essencial da indústria, liquidou os transportes, arruinou o comércio. Essa política deliberada, que destinou Portugal a ser um país de especulação e de campos de golfe, é a causa da ruína do país e da miséria de milhões de portugueses.
Muitos o pensam, embora poucos o digam.
.OS SINAIS de degradação social, fome e miséria não esperaram sequer pela entrada em vigor do Orçamento que vai reduzir Portugal a um país de indigência.
De facto, a penúria dos portugueses já vem por detrás, de crise sobre crise, e o Orçamento dos partidos que mais se têm governado enquanto desgovernam o país, apadrinhado pela banca, pelo embaixador dos EUA, por Sarkozy e pela Merkel, só vai agravar a míngua nacional a extremos nunca vistos, nem sequer nos tempos do governo do Bloco Central e da fome em Setúbal. Ontem, os jornais davam conta que já tinham disparado os pedidos de ajuda alimentar às Misericórdias, à Cruz Vermelha e ao Banco contra a Fome, ao mesmo tempo que se multiplicam os pedidos de ajuda de portugueses que se libertaram do álcool e da droga e que a crise levou a que caíssem de novo na dependência.
É este o país que José Sócrates vai deixar a quem vier a seguir, depois do PS apagar a luz e bater com a porta. Um país condenado à degradação pela mais brutal insensibilidade social, pela subjugação a interesses alheios e opostos aos do país e do povo. Mas na verdade não é apenas este governo do PS que desentranhou Portugal do rol dos países com direito à dignidade. A política de desastre vem de longe e foi partilhada pelas três famílias políticas que governaram Portugal nos últimos 30 anos. Foi a política desastrosa que desmantelou em Portugal todo e qualquer resquício produtivo - acabou com a agricultura, com as pescas, com parte essencial da indústria, liquidou os transportes, arruinou o comércio. Essa política deliberada, que destinou Portugal a ser um país de especulação e de campos de golfe, é a causa da ruína do país e da miséria de milhões de portugueses.
Muitos o pensam, embora poucos o digam.
«DE» de 3 Nov 10
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A velha e a sabedoria
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«DN» de 3 Nov 10
Por Baptista-Bastos
AS TELEVISÕES procuravam saber o que as pessoas pensavam dos apertões que o Orçamento previa e propunha. A resignação ou a indiferença resignada, como queiram, pareceu-me ser a nota dominante. Eis que a câmara fixa a velha. A velha semelhava uma personagem de Raul Brandão: só osso, susto e dor. Transfigurada de ventos, de afrontas, de insultos. A pergunta da jornalista sobressaltou-a. Talvez a entendesse como estranha e excessiva. Olhou a rapariga, ergueu o dorso curvado, recuperada uma antiga dignidade, e respondeu: "O que eu queria é que eles me deixassem em paz."
Eles. A abstracta identidade dos que nos mandam, nos julgam, nos submetem, nos mentem, e reescrevem, permanentemente, o nosso destino. Aquela velha seca e altiva, despertada, por uma pergunta inofensiva, para a responsabilidade de ter opinião, era a representação de uma nobreza e de uma decência que temos vindo, lentamente, a perder.
A velha não aceitava; a velha não admitia que fizessem dela o troço reles e desprezível de um aglomerado amorfo, ao qual tudo se faz e tudo se aplica. "O que eu queria é que me deixassem em paz." Mas, como a não deixavam em paz, ela reagia impelida pela raiva da impotência e pelo protesto que a debilidade não conseguiu aniquilar.
A raiva é surda e silenciosa. Acumula-se com as decepções, com a soma dos infortúnios, com a desatenção e a incúria que nos votam. Naquela expressão ("eles") tão difusa quanto marcada pelo ferrete da ignomínia habitava o desprezo que ninguém resgata. Culpados de tudo, sobretudo de não gostarem de nós, de nos omitirem, de cancelarem aquela velha ensombrecida pela idade, pelo enigma e pelo desalento, "eles" cercam-nos, assassinam a parte mais asseada das nossas vidas, destroem-nos como relação social.
A dramática frase da velha comportava, em si, os indeterminados sinais que favorecem a ruptura de uns com os outros. A legitimidade das normas foi substituída por uma ideologia que estimula o domínio do dinheiro sobre os valores. A democracia, afinal, só existe, privadamente, para uma dúzia de famílias que manda em Portugal e dispõe, como cães-de-fila, de pequenos servos para todo o serviço.
"Eles" não passam de paus mandados, os quais sustentam o dispositivo de poder que mantém a casta, a casa e o sangue. É instrutivo seguir a trajectória de quase todos os antigos dirigentes políticos, depois do "cumprimento" de funções. A especificidade da sociedade democrática foi, simplesmente, absorvida pela vitória do "mercado" com os seus guardiães implacáveis e os pequenos ou grandes ajustes que o sistema exige.
A frase da velha é, também, uma forma de resistência. Resistência à infâmia com que "eles" nos pretendem envolver.
.AS TELEVISÕES procuravam saber o que as pessoas pensavam dos apertões que o Orçamento previa e propunha. A resignação ou a indiferença resignada, como queiram, pareceu-me ser a nota dominante. Eis que a câmara fixa a velha. A velha semelhava uma personagem de Raul Brandão: só osso, susto e dor. Transfigurada de ventos, de afrontas, de insultos. A pergunta da jornalista sobressaltou-a. Talvez a entendesse como estranha e excessiva. Olhou a rapariga, ergueu o dorso curvado, recuperada uma antiga dignidade, e respondeu: "O que eu queria é que eles me deixassem em paz."
Eles. A abstracta identidade dos que nos mandam, nos julgam, nos submetem, nos mentem, e reescrevem, permanentemente, o nosso destino. Aquela velha seca e altiva, despertada, por uma pergunta inofensiva, para a responsabilidade de ter opinião, era a representação de uma nobreza e de uma decência que temos vindo, lentamente, a perder.
A velha não aceitava; a velha não admitia que fizessem dela o troço reles e desprezível de um aglomerado amorfo, ao qual tudo se faz e tudo se aplica. "O que eu queria é que me deixassem em paz." Mas, como a não deixavam em paz, ela reagia impelida pela raiva da impotência e pelo protesto que a debilidade não conseguiu aniquilar.
A raiva é surda e silenciosa. Acumula-se com as decepções, com a soma dos infortúnios, com a desatenção e a incúria que nos votam. Naquela expressão ("eles") tão difusa quanto marcada pelo ferrete da ignomínia habitava o desprezo que ninguém resgata. Culpados de tudo, sobretudo de não gostarem de nós, de nos omitirem, de cancelarem aquela velha ensombrecida pela idade, pelo enigma e pelo desalento, "eles" cercam-nos, assassinam a parte mais asseada das nossas vidas, destroem-nos como relação social.
A dramática frase da velha comportava, em si, os indeterminados sinais que favorecem a ruptura de uns com os outros. A legitimidade das normas foi substituída por uma ideologia que estimula o domínio do dinheiro sobre os valores. A democracia, afinal, só existe, privadamente, para uma dúzia de famílias que manda em Portugal e dispõe, como cães-de-fila, de pequenos servos para todo o serviço.
"Eles" não passam de paus mandados, os quais sustentam o dispositivo de poder que mantém a casta, a casa e o sangue. É instrutivo seguir a trajectória de quase todos os antigos dirigentes políticos, depois do "cumprimento" de funções. A especificidade da sociedade democrática foi, simplesmente, absorvida pela vitória do "mercado" com os seus guardiães implacáveis e os pequenos ou grandes ajustes que o sistema exige.
A frase da velha é, também, uma forma de resistência. Resistência à infâmia com que "eles" nos pretendem envolver.
«DN» de 3 Nov 10
terça-feira, 2 de novembro de 2010
Ruído ainda mais branco
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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 30 Nov 10
Por Nuno Crato
SE O LEITOR começar a dizer palavras ao acaso, rapidamente reparará que se repete. O acaso é difícil de atingir. O mesmo acontece se quiser inventar números aleatórios. Pode fazer a experiência. Construa, por exemplo, uma sequência de números inteiros com dois dígitos. Teste-os depois num dos vários instrumentos que pode encontrar online (procure no Google, por exemplo, em “test for randomness”). Verá que é difícil passar a prova.
Tudo isto seria apenas uma curiosidade se o acaso não fosse necessário. Mas é. Obter números aleatórios tornou-se imprescindível para organizar amostragens industriais, para realizar sondagens e, mais recentemente, para proceder a trocas seguras de informação. Sempre que o leitor faz uma compra pela Internet ou ordena uma transferência, o sistema gera automaticamente números aleatórios para garantir que há uma chave criptográfica nova que codifica a informação. É desta forma que se impedem os ciber-piratas de recolherem os dados das transacções e penetrarem na sua conta bancária.
Felizmente, inventaram-se processos matemáticos recursivos para gerar números ao acaso. Na realidade, estes processos não geram números verdadeiramente aleatórios, mas sim números pseudo-aleatórios, como se diz, pois são construídos de forma determinística. Isso acaba por não ser importante, pois quando passam todos os testes estatísticos tornam-se indistinguíveis de sequências verdadeiramente aleatórias.
As sequências de números verdadeiramente aleatórios, não correlacionados e com média zero, recebem o nome de “ruído branco”. É uma designação curiosa. Provém da engenharia electrotécnica, pois o espectro desse “ruído” tem componentes de todas as frequências em igual distribuição, tal como a luz branca tem todas as cores. Dito de outra forma: não se detectam ciclos particulares de repetição de padrões.
Ao princípio, os números aleatórios eram gerados em avanço e fornecidos em tabelas impressas, que os investigadores depois usavam. Tornou-se célebre um calhamaço que a empresa norte-americana RAND publicou em 1955 com um milhão de dígitos. Mais tarde, os números aleatórios começaram a ser gerados no computador à medida que são necessários. Software como o Excel tem embebido um processo de geração que, apesar de imperfeito, serve para muitas aplicações. Se o leitor escrever =RND() numa célula, por exemplo, gera um número aleatório uniformemente distribuído entre 0 e 1. Copie essa fórmula para as 50 ou 100 células abaixo. Faça um gráfico da coluna e poderá visualizar algo que se aproxima de ruído branco. Se carregar sucessivamente na tecla F9, poderá divertir-se a ver a sequência a mudar.
Recentemente, tem havido um grande interesse em inventar processos físicos de geração de verdadeiros números aleatório (“TRNG: true random number generators”). A investigação tem-se dirigido para criar ruído verdadeiramente branco, rápido de produzir e com circuitos muito elementares, de forma que possam ser incorporados em telemóveis e outros aparelhos.
No Parque Tecnológico de Belfast, um grupo de investigadores conseguiu agora criar um sistema muito mais pequeno e fiável do que os anteriores (“Electronics Letters” 46-14). A parte mais difícil foi criar o circuito electrónico simples e o processo de medir o ruído, ou seja, as oscilações imprevisíveis do circuito, e de o transformar em números aleatórios. Passa-se do calhamaço ao computador e deste a um circuito microscópio. É ruído branco feito a partir de ruído branco. Nada podia ser mais branco.
.SE O LEITOR começar a dizer palavras ao acaso, rapidamente reparará que se repete. O acaso é difícil de atingir. O mesmo acontece se quiser inventar números aleatórios. Pode fazer a experiência. Construa, por exemplo, uma sequência de números inteiros com dois dígitos. Teste-os depois num dos vários instrumentos que pode encontrar online (procure no Google, por exemplo, em “test for randomness”). Verá que é difícil passar a prova.
Tudo isto seria apenas uma curiosidade se o acaso não fosse necessário. Mas é. Obter números aleatórios tornou-se imprescindível para organizar amostragens industriais, para realizar sondagens e, mais recentemente, para proceder a trocas seguras de informação. Sempre que o leitor faz uma compra pela Internet ou ordena uma transferência, o sistema gera automaticamente números aleatórios para garantir que há uma chave criptográfica nova que codifica a informação. É desta forma que se impedem os ciber-piratas de recolherem os dados das transacções e penetrarem na sua conta bancária.
Felizmente, inventaram-se processos matemáticos recursivos para gerar números ao acaso. Na realidade, estes processos não geram números verdadeiramente aleatórios, mas sim números pseudo-aleatórios, como se diz, pois são construídos de forma determinística. Isso acaba por não ser importante, pois quando passam todos os testes estatísticos tornam-se indistinguíveis de sequências verdadeiramente aleatórias.
As sequências de números verdadeiramente aleatórios, não correlacionados e com média zero, recebem o nome de “ruído branco”. É uma designação curiosa. Provém da engenharia electrotécnica, pois o espectro desse “ruído” tem componentes de todas as frequências em igual distribuição, tal como a luz branca tem todas as cores. Dito de outra forma: não se detectam ciclos particulares de repetição de padrões.
Ao princípio, os números aleatórios eram gerados em avanço e fornecidos em tabelas impressas, que os investigadores depois usavam. Tornou-se célebre um calhamaço que a empresa norte-americana RAND publicou em 1955 com um milhão de dígitos. Mais tarde, os números aleatórios começaram a ser gerados no computador à medida que são necessários. Software como o Excel tem embebido um processo de geração que, apesar de imperfeito, serve para muitas aplicações. Se o leitor escrever =RND() numa célula, por exemplo, gera um número aleatório uniformemente distribuído entre 0 e 1. Copie essa fórmula para as 50 ou 100 células abaixo. Faça um gráfico da coluna e poderá visualizar algo que se aproxima de ruído branco. Se carregar sucessivamente na tecla F9, poderá divertir-se a ver a sequência a mudar.
Recentemente, tem havido um grande interesse em inventar processos físicos de geração de verdadeiros números aleatório (“TRNG: true random number generators”). A investigação tem-se dirigido para criar ruído verdadeiramente branco, rápido de produzir e com circuitos muito elementares, de forma que possam ser incorporados em telemóveis e outros aparelhos.
No Parque Tecnológico de Belfast, um grupo de investigadores conseguiu agora criar um sistema muito mais pequeno e fiável do que os anteriores (“Electronics Letters” 46-14). A parte mais difícil foi criar o circuito electrónico simples e o processo de medir o ruído, ou seja, as oscilações imprevisíveis do circuito, e de o transformar em números aleatórios. Passa-se do calhamaço ao computador e deste a um circuito microscópio. É ruído branco feito a partir de ruído branco. Nada podia ser mais branco.
«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 30 Nov 10
domingo, 31 de outubro de 2010
OS BRAÇOS DE GARY COOPER
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«GQ» de Novembro 2009
Por Maria Filomena Mónica
NUM MUNDO MACHISTA, as divas tendem a ser femininas. Na minha opinião, se há um actor com qualificações ao título, no masculino evidentemente, ele é Gary Cooper. Hesitei bastante antes de o escolher, mas, depois de ter visto há tempos, numa exposição em Madrid, a fotografia que Edward Steichen lhe tirou em 1930, tudo se tornou claro no meu espírito. Gary Cooper aparece vestido com um fato escuro, uma camisa branca e um lenço no bolso. O que nos atrai, na fotografia, é o olhar, que nos desafia, e as rugas, evocativas de um passado conturbado. À época, tinha apenas 29 anos, mas, ao lado da boca, notam-se já os traços verticais que, ao longo da vida, caracterizariam a sua face. Há depois, e não é de somenos, o seu corpo. Ao contrário de Marlon Brando, Gary Cooper nunca exibiu o torso em t-shirts apertadas, mas basta ver, em The Foutainhead (Vontade Indómita), de 1949, os tendões dos braços emergindo das mangas da camisa, quando a heroína, Patricia Neal, com ele se cruza na pedreira onde está a trabalhar, para adivinharmos o resto.
Não é aqui o momento para analisar um filme que idolatrei quando, pela primeira vez, o vi no cinema e que depois contemplei, em êxtase, no Ciclo de Cinema Americano dos anos 40, organizado pela Fundação Gulbenkian. Percebo agora que o fascínio vinha sobretudo da presença de Gary Cooper. Não apenas devido à sua beleza, mas à forma – fria, lacónica, seca – como interpreta a figura do arquitecto Roark, um homem que não cede a compromissos, venham eles das elites ou do mercado. Há depois o romance entre ele e a jornalista, chique e arrogante, que decidira nunca se apaixonar. Até à grande cena do beijo, quando, sem ser esperado, ele salta para dentro do quarto dela, tudo é possível. Apesar de Roark aparentar serenidade, a violência nunca está longe da relação. O enredo desenrola-se de forma a que tudo se conjugue para tornar impossível um encontro sexual que, no entanto, pressentimos ser inevitável.
Tenho de admitir que, revisto hoje, em DVD, o filme me pareceu demasiado palavroso. Nunca o produtor deveria ter deixado Ayn Rand ser a autora do guião, pois raro é o escritor capaz de reduzir a linguagem literária à cinematográfica. Não nego que, pelo meio, existam frases dignas de uma antologia: é mesmo disso que me queixo. The Fountainhead é, em grande medida, uma arma na luta pela imposição da filosofia a que a autora chamou «objectivismo», uma corrente de pensamento influenciada pelo clima da Guerra Fria, que afirmava ser o povo uma massa amorfa e o génio a medida de todas as coisas. Felizmente, as palavras de Gary Cooper leva-as o vento. Fica apenas ele e isso chega.
Gary Cooper apareceu em muitos outros filmes. Recordo, por exemplo, High Noon (1952), um filme sobre a construção do Estado de Direito nos EUA. É por considerar que, dentro do western, ninguém chega aos calcanhares de John Ford que, até agora, o não revira. Dele apenas recordava o tema musical, «Do not forsake me of my darlin’…», da autoria de Dimitri Tiomkin. Muitas coisas aconteceram na minha vida desde que ouvi esta canção pela primeira vez, mas jamais a esqueci, como jamais esqueceria o rosto de Gary Cooper – então com 51 anos – no papel do marshall Will Kane. Casado nessa manhã, o herói decide abandonar a mulher, a virginal Grace Kelly, a fim de cumprir o que pensa constituir o seu dever. Enquanto os habitantes da aldeia se refugiam, cheios de medo, numa igrejinha, ele parte a fim de combater o bandido Frank Miller. Ao longo do filme, Gary Cooper quase não fala, mas mexe-se. Reparem na cena final. A maneira de andar de Gary Cooper é hierática e o balançar do coldre sobre a nádega mágico. É isto que recordamos quando tudo o resto se esvai.
Curiosamente, há algumas semelhanças ideológicas entre High Noon, de Fred Zinneman, e The Fountainhead, de King Vidor. Como o arquitecto Roark, o marshall Will Kane luta, sem o apoio do povo, contra os maus. As massas populares são, mais uma vez, consideradas como intrinsecamente covardes. Apesar de ser uma individualista, a mensagem contida nestes filmes não me atrai, mas tão pouco chega para destruir o prazer de, hoje como ontem, admirar os braços de Gary Cooper.
NUM MUNDO MACHISTA, as divas tendem a ser femininas. Na minha opinião, se há um actor com qualificações ao título, no masculino evidentemente, ele é Gary Cooper. Hesitei bastante antes de o escolher, mas, depois de ter visto há tempos, numa exposição em Madrid, a fotografia que Edward Steichen lhe tirou em 1930, tudo se tornou claro no meu espírito. Gary Cooper aparece vestido com um fato escuro, uma camisa branca e um lenço no bolso. O que nos atrai, na fotografia, é o olhar, que nos desafia, e as rugas, evocativas de um passado conturbado. À época, tinha apenas 29 anos, mas, ao lado da boca, notam-se já os traços verticais que, ao longo da vida, caracterizariam a sua face. Há depois, e não é de somenos, o seu corpo. Ao contrário de Marlon Brando, Gary Cooper nunca exibiu o torso em t-shirts apertadas, mas basta ver, em The Foutainhead (Vontade Indómita), de 1949, os tendões dos braços emergindo das mangas da camisa, quando a heroína, Patricia Neal, com ele se cruza na pedreira onde está a trabalhar, para adivinharmos o resto.
Não é aqui o momento para analisar um filme que idolatrei quando, pela primeira vez, o vi no cinema e que depois contemplei, em êxtase, no Ciclo de Cinema Americano dos anos 40, organizado pela Fundação Gulbenkian. Percebo agora que o fascínio vinha sobretudo da presença de Gary Cooper. Não apenas devido à sua beleza, mas à forma – fria, lacónica, seca – como interpreta a figura do arquitecto Roark, um homem que não cede a compromissos, venham eles das elites ou do mercado. Há depois o romance entre ele e a jornalista, chique e arrogante, que decidira nunca se apaixonar. Até à grande cena do beijo, quando, sem ser esperado, ele salta para dentro do quarto dela, tudo é possível. Apesar de Roark aparentar serenidade, a violência nunca está longe da relação. O enredo desenrola-se de forma a que tudo se conjugue para tornar impossível um encontro sexual que, no entanto, pressentimos ser inevitável.
Tenho de admitir que, revisto hoje, em DVD, o filme me pareceu demasiado palavroso. Nunca o produtor deveria ter deixado Ayn Rand ser a autora do guião, pois raro é o escritor capaz de reduzir a linguagem literária à cinematográfica. Não nego que, pelo meio, existam frases dignas de uma antologia: é mesmo disso que me queixo. The Fountainhead é, em grande medida, uma arma na luta pela imposição da filosofia a que a autora chamou «objectivismo», uma corrente de pensamento influenciada pelo clima da Guerra Fria, que afirmava ser o povo uma massa amorfa e o génio a medida de todas as coisas. Felizmente, as palavras de Gary Cooper leva-as o vento. Fica apenas ele e isso chega.
Gary Cooper apareceu em muitos outros filmes. Recordo, por exemplo, High Noon (1952), um filme sobre a construção do Estado de Direito nos EUA. É por considerar que, dentro do western, ninguém chega aos calcanhares de John Ford que, até agora, o não revira. Dele apenas recordava o tema musical, «Do not forsake me of my darlin’…», da autoria de Dimitri Tiomkin. Muitas coisas aconteceram na minha vida desde que ouvi esta canção pela primeira vez, mas jamais a esqueci, como jamais esqueceria o rosto de Gary Cooper – então com 51 anos – no papel do marshall Will Kane. Casado nessa manhã, o herói decide abandonar a mulher, a virginal Grace Kelly, a fim de cumprir o que pensa constituir o seu dever. Enquanto os habitantes da aldeia se refugiam, cheios de medo, numa igrejinha, ele parte a fim de combater o bandido Frank Miller. Ao longo do filme, Gary Cooper quase não fala, mas mexe-se. Reparem na cena final. A maneira de andar de Gary Cooper é hierática e o balançar do coldre sobre a nádega mágico. É isto que recordamos quando tudo o resto se esvai.
Curiosamente, há algumas semelhanças ideológicas entre High Noon, de Fred Zinneman, e The Fountainhead, de King Vidor. Como o arquitecto Roark, o marshall Will Kane luta, sem o apoio do povo, contra os maus. As massas populares são, mais uma vez, consideradas como intrinsecamente covardes. Apesar de ser uma individualista, a mensagem contida nestes filmes não me atrai, mas tão pouco chega para destruir o prazer de, hoje como ontem, admirar os braços de Gary Cooper.
«GQ» de Novembro 2009
sábado, 30 de outubro de 2010
Estamos safos
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Por Antunes Ferreira
DE REPENTE, no meio das trevas em que o País se encontra mergulhado, surgiam dois faróis, qual deles mais importante, para alumiar as escassas esperanças que persistem em sobreviver. O franzir de cenho que posso divisar afigura-se-me suficiente para dar nota das interrogações e das dúvidas sobre a afirmação anterior. Mas, mesmo neste manicómio nacional, tudo pode ter uma explicação, creio.
Vamos, então, por partes. Primeira: o enquadramento da negrura. Não será preciso produzir muita informação, tal é o abanão que resultou da ruptura das negociações entre o Governo e o PSD para se vir a ter um Orçamento para 2011. Os cidadãos já sabiam, nós já sabíamos, que, acabado o tempo das vacas gordas, chegaria o das vacas magras. E, até, que estas últimas enfileiravam na categoria global-portuguesa das loucas. Vacas, obviamente.
Agora, enquanto uma larguíssima parte de nós aperta, uma vez mais, o cinto (são suficientemente conhecidos os que estão isentos de o fazer), a fatalidade que nos tira a tranquilidade que ainda existia alarga-se, estende-se, esmaga-nos. Diz-se que a necessidade aguça o engenho e a adversidade une os desgraçados. Será assim, mas por baixo. Ou seja, num nível inimaginável há uns tempos.
Perante as terríveis intenções constantes do famigerado OE 2001, pergunta-se qual a alternativa possível. Simples: são o FMI e esse estranho e novo organismo comunitários sobre os défices nacionais. Qual deles o pior. Isto é, se as medidas gravosas que o documento contem não forem aprovadas pela Assembleia da República, as que esses dois simpáticos e indulgentes compadres serão muitíssimo piores. É difícil aceitar, mas, pelos vistos, é assim. Cá se fazem, cá se pagam? Quem as fez? Nós, os Portugueses. Quem as vai pagar? Nós, os Portugueses. Bem podemos interrogar-nos que culpa temos nós, e que os malandros que nos empurraram para esta situação foram e são os políticos. Em especial, os Governos. E ainda mais especialmente o actual, do Sócrates. Sempre fomos assim: nem nos governamos, nem nos deixamos governar. Sertório já o escrevia para Roma. Resumindo: somos uma espécie de gente pilatosiana.
Segunda: os salvadores. Alínea a) Hugo Chavez. O presidente venezuelano veio a Portugal há uns escassos dias dar-nos as duas mãos para nos ajudar e consular um «homem bom», que é o nosso Primeiro. Honra lhe seja feita, o patrão da Venezuela fez uma mão cheia de encomendas, das casas até aos Magalhães, passando pelos navios. Positivo.
Alínea b) Hu Jintao, o Presidente da República Popular da China. Ele vem visitar-nos nos dias 6 e 7 de Novembro, acompanhado por uma comitiva de 50 empresários e vários membros do Governo chinês com o objectivo de realizar «acordos» e «contratos de investimento».de acordo com o comunicado oficial.
A antecedê-la, em Pequim, uma ministra da área financeira afirmou que a China se manifestou disponível para comprar títulos do tesouro português e «participar no esforço de recuperação económica e financeira» do nosso País. A este propósito, o Presidente da AEP, José António Barros afirmou que «tudo que venha aliviar a capacidade do Estado colocar a dívida é bom para Portugal». Isto porque, segundo ele, «para a economia chinesa, a dívida pública portuguesa é uma gota de água». E deve ser mesmo, penso.
Será a altura ideal para ver se os dois ilustres visitantes compram a dívida pública na totalidade. E tentar convencê-los de que essa será a melhor solução. Para eles? Não senhor, para nós. E, já agora, se estiverem também interessados em comprar este País, façam favor, sirvam-se.
Estamos safos. Portugal e os Portugueses afinal têm amigos bué da fixes, como dizem os meus netos e, agora, digo eu também.
DE REPENTE, no meio das trevas em que o País se encontra mergulhado, surgiam dois faróis, qual deles mais importante, para alumiar as escassas esperanças que persistem em sobreviver. O franzir de cenho que posso divisar afigura-se-me suficiente para dar nota das interrogações e das dúvidas sobre a afirmação anterior. Mas, mesmo neste manicómio nacional, tudo pode ter uma explicação, creio.
Vamos, então, por partes. Primeira: o enquadramento da negrura. Não será preciso produzir muita informação, tal é o abanão que resultou da ruptura das negociações entre o Governo e o PSD para se vir a ter um Orçamento para 2011. Os cidadãos já sabiam, nós já sabíamos, que, acabado o tempo das vacas gordas, chegaria o das vacas magras. E, até, que estas últimas enfileiravam na categoria global-portuguesa das loucas. Vacas, obviamente.
Agora, enquanto uma larguíssima parte de nós aperta, uma vez mais, o cinto (são suficientemente conhecidos os que estão isentos de o fazer), a fatalidade que nos tira a tranquilidade que ainda existia alarga-se, estende-se, esmaga-nos. Diz-se que a necessidade aguça o engenho e a adversidade une os desgraçados. Será assim, mas por baixo. Ou seja, num nível inimaginável há uns tempos.
Perante as terríveis intenções constantes do famigerado OE 2001, pergunta-se qual a alternativa possível. Simples: são o FMI e esse estranho e novo organismo comunitários sobre os défices nacionais. Qual deles o pior. Isto é, se as medidas gravosas que o documento contem não forem aprovadas pela Assembleia da República, as que esses dois simpáticos e indulgentes compadres serão muitíssimo piores. É difícil aceitar, mas, pelos vistos, é assim. Cá se fazem, cá se pagam? Quem as fez? Nós, os Portugueses. Quem as vai pagar? Nós, os Portugueses. Bem podemos interrogar-nos que culpa temos nós, e que os malandros que nos empurraram para esta situação foram e são os políticos. Em especial, os Governos. E ainda mais especialmente o actual, do Sócrates. Sempre fomos assim: nem nos governamos, nem nos deixamos governar. Sertório já o escrevia para Roma. Resumindo: somos uma espécie de gente pilatosiana.
Segunda: os salvadores. Alínea a) Hugo Chavez. O presidente venezuelano veio a Portugal há uns escassos dias dar-nos as duas mãos para nos ajudar e consular um «homem bom», que é o nosso Primeiro. Honra lhe seja feita, o patrão da Venezuela fez uma mão cheia de encomendas, das casas até aos Magalhães, passando pelos navios. Positivo.
Alínea b) Hu Jintao, o Presidente da República Popular da China. Ele vem visitar-nos nos dias 6 e 7 de Novembro, acompanhado por uma comitiva de 50 empresários e vários membros do Governo chinês com o objectivo de realizar «acordos» e «contratos de investimento».de acordo com o comunicado oficial.
A antecedê-la, em Pequim, uma ministra da área financeira afirmou que a China se manifestou disponível para comprar títulos do tesouro português e «participar no esforço de recuperação económica e financeira» do nosso País. A este propósito, o Presidente da AEP, José António Barros afirmou que «tudo que venha aliviar a capacidade do Estado colocar a dívida é bom para Portugal». Isto porque, segundo ele, «para a economia chinesa, a dívida pública portuguesa é uma gota de água». E deve ser mesmo, penso.
Será a altura ideal para ver se os dois ilustres visitantes compram a dívida pública na totalidade. E tentar convencê-los de que essa será a melhor solução. Para eles? Não senhor, para nós. E, já agora, se estiverem também interessados em comprar este País, façam favor, sirvam-se.
Estamos safos. Portugal e os Portugueses afinal têm amigos bué da fixes, como dizem os meus netos e, agora, digo eu também.
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
Passatempo de 27-29 Out 10 - Solução
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Quem mais se tenha aproximado deste valor tem 24h para escrever para medina.ribeiro@gmail.com, indicando morada para envio.
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Actualização (29 Out 10/15h04m): o passatempo foi ganho por Sabine Mendes, com erro de 1 página.
«Dito & Feito»
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Por José António Lima
BASTAVAM ALGUNS relatórios internacionais, esta semana divulgados, para os portugueses avaliarem devidamente, sem mentiras nem ilusões, o que representaram para o país estes cinco anos e meio de governação de José Sócrates.
«A década perdida de Portugal», titulava o El País no domingo, citando o Relatório da Economia Mundial do FMI, onde Portugal surge em antepenúltimo lugar entre 180 países no que respeita ao crescimento do PIB entre 2000 e 2010. Com Sócrates como primeiro-ministro, Portugal afastou-se, ano após ano, da União Europeia. E o Relatório prevê que os próximos cinco anos serão de estagnação da economia portuguesa.
Num outro relatório, este da Transparência Internacional, com sede em Berlim, Portugal aparece em 32.º lugar no ranking da corrupção, uma classificação que o coloca como um dos piores países da Europa Ocidental.
Dias antes, o relatório anual da organização Repórteres Sem Fronteiras fazia cair Portugal para a 40.ª posição no que respeita à liberdade de expressão existente no país. Em 2007, Portugal encontrava-se no 8.º lugar, em 2008 baixou para 16.º, em 2009 para 30.º e, agora, para 40.º.
Eis um retrato fiel e sucinto da degradação a que a governação de Sócrates conduziu o país. Atraso e definhamento da economia, proliferação da corrupção e do negocismo, redução da qualidade da democracia com tentativas de controlo e silenciamento da comunicação social. A que se podem juntar o descontrolo total do despesismo do Estado, o endividamento galopante do país nos mercados internacionais, um desemprego inédito e o aumento incessante de impostos a par de cortes nos salários.
Percebe-se, por tudo isto, que Sócrates não queria enfrentar as consequências próximas da sua desastrada e irresponsável governação. Que tente, uma vez mais, vitimizar-se e atirar as culpas para cima de outros. Que prefira, com frio calculismo político, a ruptura a qualquer negociação ou entendimento mínimo que o obriguem a manter-se em funções. Sem mais expedientes. E a arcar com as consequências.
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«SOL» de 29 Out 10
BASTAVAM ALGUNS relatórios internacionais, esta semana divulgados, para os portugueses avaliarem devidamente, sem mentiras nem ilusões, o que representaram para o país estes cinco anos e meio de governação de José Sócrates.
«A década perdida de Portugal», titulava o El País no domingo, citando o Relatório da Economia Mundial do FMI, onde Portugal surge em antepenúltimo lugar entre 180 países no que respeita ao crescimento do PIB entre 2000 e 2010. Com Sócrates como primeiro-ministro, Portugal afastou-se, ano após ano, da União Europeia. E o Relatório prevê que os próximos cinco anos serão de estagnação da economia portuguesa.
Num outro relatório, este da Transparência Internacional, com sede em Berlim, Portugal aparece em 32.º lugar no ranking da corrupção, uma classificação que o coloca como um dos piores países da Europa Ocidental.
Dias antes, o relatório anual da organização Repórteres Sem Fronteiras fazia cair Portugal para a 40.ª posição no que respeita à liberdade de expressão existente no país. Em 2007, Portugal encontrava-se no 8.º lugar, em 2008 baixou para 16.º, em 2009 para 30.º e, agora, para 40.º.
Eis um retrato fiel e sucinto da degradação a que a governação de Sócrates conduziu o país. Atraso e definhamento da economia, proliferação da corrupção e do negocismo, redução da qualidade da democracia com tentativas de controlo e silenciamento da comunicação social. A que se podem juntar o descontrolo total do despesismo do Estado, o endividamento galopante do país nos mercados internacionais, um desemprego inédito e o aumento incessante de impostos a par de cortes nos salários.
Percebe-se, por tudo isto, que Sócrates não queria enfrentar as consequências próximas da sua desastrada e irresponsável governação. Que tente, uma vez mais, vitimizar-se e atirar as culpas para cima de outros. Que prefira, com frio calculismo político, a ruptura a qualquer negociação ou entendimento mínimo que o obriguem a manter-se em funções. Sem mais expedientes. E a arcar com as consequências.
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«SOL» de 29 Out 10
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Autor convidado,
jal
Alguém tem que ceder
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«DE» de 29 Out 10
Por João Paulo Guerra
A COMÉDIA romântica com argumento e realização de Nancy Meyers intitulada “Something’s Gotta Give”, exibida em Portugal com o título “Alguém tem que ceder”, conta a história de um ‘playboy’ irrecuperável perdido entre a mais recente conquista e a inesperada mãe da jovem.
Pelo meio, o ‘playboy' é traído pelo coração propriamente dito, o jovem médico assistente antecipa-se na sedução da mãe da miúda e o filme acaba bem, romanticamente, em Paris.
E só mesmo o título é que pode sugerir alguma comparação com a banal ‘sitcom' de política de cordel entre dois partidos tão sequiosos de poder como ansiosos por se livrarem do incómodo de ter que prestar contas pela governação. A política portuguesa está cheia de fugitivos, de agentes políticos que fazem da política o trânsito para a vida regalada - até agora - dos conselhos de administração, com prebendas, sinecuras, tachos, penachos e regalias correlativas. Não há memória de qualquer político que tenha ficado mal na vida e não foi seguramente à custa do subsídio de reintegração.
A cena em exibição entre Governo e PSD é de baixa comédia e baixinha política. O Governo, por mais que diga, tem mais medo de eleições que do FMI. O PSD, por mais que conte, quer que o PS faça o trabalho sujo de pôr em vigor este Orçamento saqueador. O Governo quer que o PSD se comprometa com o Orçamento para que o ónus não bata apenas à porta do Largo do Rato. O PSD quer deixar o PS, sozinho, a contas com alguma fúria do eleitorado. E o povo que paga o bilhete para o triste espectáculo, também paga os cenários, o guarda-roupa, os adereços, os efeitos especiais, as comedorias, mais as vitualhas do banquete.
Alguém tem que ceder? Que ceda o povinho que é para isso que cá anda.
.A COMÉDIA romântica com argumento e realização de Nancy Meyers intitulada “Something’s Gotta Give”, exibida em Portugal com o título “Alguém tem que ceder”, conta a história de um ‘playboy’ irrecuperável perdido entre a mais recente conquista e a inesperada mãe da jovem.
Pelo meio, o ‘playboy' é traído pelo coração propriamente dito, o jovem médico assistente antecipa-se na sedução da mãe da miúda e o filme acaba bem, romanticamente, em Paris.
E só mesmo o título é que pode sugerir alguma comparação com a banal ‘sitcom' de política de cordel entre dois partidos tão sequiosos de poder como ansiosos por se livrarem do incómodo de ter que prestar contas pela governação. A política portuguesa está cheia de fugitivos, de agentes políticos que fazem da política o trânsito para a vida regalada - até agora - dos conselhos de administração, com prebendas, sinecuras, tachos, penachos e regalias correlativas. Não há memória de qualquer político que tenha ficado mal na vida e não foi seguramente à custa do subsídio de reintegração.
A cena em exibição entre Governo e PSD é de baixa comédia e baixinha política. O Governo, por mais que diga, tem mais medo de eleições que do FMI. O PSD, por mais que conte, quer que o PS faça o trabalho sujo de pôr em vigor este Orçamento saqueador. O Governo quer que o PSD se comprometa com o Orçamento para que o ónus não bata apenas à porta do Largo do Rato. O PSD quer deixar o PS, sozinho, a contas com alguma fúria do eleitorado. E o povo que paga o bilhete para o triste espectáculo, também paga os cenários, o guarda-roupa, os adereços, os efeitos especiais, as comedorias, mais as vitualhas do banquete.
Alguém tem que ceder? Que ceda o povinho que é para isso que cá anda.
«DE» de 29 Out 10
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