terça-feira, 14 de setembro de 2010

Escola

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Por João Paulo Guerra

COMEÇOU O ANO escolar com alunos sem professores, professores sem alunos, escolas fechadas sem alunos nem professores, escolas em obras.

O costume. Nos tempos do salazarismo, as escolas chegavam para todos, porque eram frequentadas por uma minoria. Havia como hoje os colégios particulares, os estabelecimentos públicos designavam-se escolas da Câmara, mas a maioria da miudagem, nas aldeias, vilas e cidades, andava descalça e não ia à escola. Ainda sobrevivem desses tempos tenebrosos de obscurantismo meio milhão de analfabetos. Depois, com a democracia, o ensino passou a ser obrigatório e funcionar para as estatísticas. E o insucesso e abandono escolar varrem-se para debaixo do tapete.

No Público de ontem podiam ler-se opiniões muito interessantes, de investigadores e professores, sobre o papel dos pais no combate ao insucesso escolar. Pais interessados pela vida escolar dos filhos, desde o primeiro dia de escola, folheando em família os manuais, interessando-se pelo circulo de colegas e amigos dos filhos, sobrelevando os valores do esforço e da ética do trabalho. Um quadro idílico próprio da vida em democracia, como a "pobreza lavadinha" - expressão do Luís Filipe Costa - era a representação pastoril da cinzenta sociedade salazarista.

Porque a questão que está por saber é quantos pais terão disponibilidade, ou meios materiais e intelectuais, para servir de esteios a um combate dos filhos contra o insucesso escolar. Quantos estão em casa com os filhos em tempo útil, com horários cada vez mais escravizantes, com distâncias imensas a percorrer entre o trabalho e a casa, com preparação insuficiente já adquirida na balbúrdia do sistema português do ensino, com mentalidades herdadas do antigamente ou formadas já na actual sociedade da indiferença?
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«DE» de 14 Set 10

O peso de Júpiter, e o seu

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Por Nuno Crato

SE O LEITOR tem o hábito de olhar para o céu nocturno após o pôr do Sol, terá certamente reparado que aparecem agora nele dois pontos de luz muito brilhantes. A oeste, vê-se Vénus descer lentamente para o horizonte. A leste, vê-se Júpiter levantar-se. Cerca das nove, é possível comparar os dois planetas em lados opostos do céu. São inconfundíveis; não haverá nenhum astro no céu nocturno com brilho comparável.

Ambos estão a grande distância da Terra. Nenhum ser humano os observou de perto. No entanto, sabemos muito sobre eles sem precisar de os os alcançar. Sabemos, por exemplo, a sua massa. Segundo um novo método ontem publicado por um grupo de astrónomos (doi: 10.1088/2041-8205/720/2/L201), conseguimos medir a massa de Júpiter com um erro inferior a uma parte em dez milhões. É uma precisão impressionante, que envergonha as nossas balanças. Se o leitor, imaginando que tem cerca de 70 quilogramas, quisesse medir o seu peso com precisão equivalente, teria de comprar uma balança que fosse sensível ao peso de um pequeno grão de açúcar. Quer dizer: os astrónomos conhecem a quantidade de matéria de Júpiter com maior precisão do que o leitor conhece a sua.

O novo método baseia-se numa ideia surpreendente. Os astrónomos usaram um dos relógios naturais mais precisos que se conhece: os pulsares. Essas estrelas rodam sobre si próprias a tremenda velocidade emitindo feixes de luz — funcionam como faróis que emitem sinais a intervalos muito regulares. Recebendo os sinais de alguns pulsares conhecidos, os astrónomos notaram que eles se atrasam e adiantam com alguma regularidade. O movimento da Terra em torno do Sol, aproximando-nos e afastando-nos do pulsar, é responsável pelo avanço e atraso desses sinais.

Até aqui, nada de estranho. Mas os astrónomos repararam que há irregularidades cíclicas no atraso e no avanço da luz dos pulsares que não correspondem ao que é explicável pelo movimento elíptico do nosso planeta. É que não somos os únicos a orbitar o Sol. Os outros planetas, nomeadamente Júpiter, exercem o seu efeito gravítico sobre o conjunto do sistema solar, de forma que o nosso movimento no espaço é condicionado pelos seus.

Aqui, os astrónomos recorreram a uma técnica matemática que agora fez 200 anos: a chamada análise de Fourier. Com essa técnica, é possível analisar todas as observações de atrasos e avanços ao longo dos anos e ver quais são as que se repetem em sintonia com os ciclos de cada planeta. Imagine o leitor que tocava num piano cinco teclas ao mesmo tempo. Com a análise de Fourier, podia decompor o som resultante, filtrando à vez, cada uma das notas. O piano tocava as cinco teclas, o som era recebido num microfone, transformado num computador e, à saída dos altifalantes, aparecia apenas uma à sua escolha. Parece ficção, mas é a realidade. Foi assim que as televisões tentaram filtrar o irritante som das vovuzelas durante as transmissões do mundial. Por vezes com pouco sucesso, reconheça-se.

Para os astrónomos, a música é dada pelas oscilações de posição dos astros. Conseguindo decompô-las, conseguem medir o efeito de cada planeta no movimento do sistema solar no seu conjunto. Com isso, calculam a massa de cada planeta. É simples! Esta noite, ao olhar para Vénus e para Júpiter, lembre-se que a massa desses planetas é mais fácil de medir do que a sua, caro leitor.
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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 11 Set 10

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

«Dito & Feito»

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Por José António Lima

NÃO É FÁCIL perceber o que terá levado José Sócrates e Passos Coelho a fazerem da questão das deduções fiscais em Saúde e Educação a pedra basilar do Orçamento para 2011. E muito menos se afigura de fácil compreensão o que, verdadeiramente, cada um pensa e defende nesta matéria.

O líder do PSD começou por colocar, como uma das duas «condições minimalistas» para viabilizar o OE, não haver «mais aumentos de impostos», de forma directa ou indirecta. Incluindo nesta última a redução das deduções fiscais. Face à inflexibilidade de Sócrates, o secretário-geral do PSD, Miguel Relvas, veio abrir a porta a uma cedência, dizendo que o problema não é nos escalões das classes mais altas: «O que é inaceitável é o Executivo querer mexer a partir do 3.º escalão». No dia seguinte, o conselheiro económico de Passos, Nogueira Leite, mostrou a sua discordância: «O PSD não deve transigir nas deduções fiscais. Não deve haver transigência em relação a nada». Face à barafunda instalada, o próprio Passos Coelho esclareceu no SOL que «não deve haver aumento de impostos em nenhum escalão». Para, um dia depois, adiantar ao Expresso outra versão: «Se o Governo tivesse dito que cortava as deduções a partir do 6.º ou 7.º escalão, ainda era compreensível». Confusos? O próprio Passos Coelho parece estar.

Sócrates, por seu lado, afirma a pés juntos que o recurso dos contribuintes às deduções «é, sem dúvida, uma injustiça do nosso sistema fiscal que o PS quer legitimamente corrigir». Por sinal, este é o mesmo Sócrates que se indignava, há menos de um ano, clamando que os cortes nas deduções fiscais conduziriam a «um brutal aumento para a classe média». Agora, passou a ser «uma injustiça» não aumentar a carga fiscal da classe média. Contraditório? Não, é apenas Sócrates no seu melhor.

COM UM Orçamento que terá de baixar o défice público em 4 mil milhões de euros (de 7,3% para 4,6% do PIB), 600 mil desempregados e o risco de incumprimento da dívida portuguesa a bater recordes negativos nos mercados internacionais, Sócrates e Passos só podem andar a brincar com a falsa querela das deduções ficais. A brincar com o fogo.
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«SOL» de 10 Set 10

Quanto indica a balança? - Solução

1117 gramas
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Quem mais se tenha aproximado deste valor tem 24h para escrever para medina.ribeiro@gmail.com, indicando morada para envio do livro.
Chama-se a atenção que o envelope é grande, pelo que pode não caber numa caixa de correio "normal".
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NOTA: se houver 20 (ou mais) participantes, o 2.º classificado receberá um livro que poderá escolher [nesta] lista.
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Actualização (19h34m): as vencedoras foram: Elisa (1119 g => erro de 2g) e Lau (1111 g=> erro de 6g).

domingo, 12 de setembro de 2010

História de um grande português

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Por Baptista-Bastos

NA TERÇA-FEIRA, dia 7 p.p., assisti, na RTP-2, a parte do que me pareceu um excelente documentário, sobre Manuel Tito de Morais. Não vi desde o princípio, e tenho pena.

O documentário faz parte de uma série sobre portugueses proeminentes, e é bom que a memória histórica seja reavivada, numa altura em que tudo se encaminha para a amnésia colectiva. Semanas antes, vira um excelente trabalho sobre Jorge de Sena, com notáveis intervenções da sua viúva, D. Mécia de Sena, incansável guardiã da memória e da obra do grande escritor. As minhas ausências como telespectador devem-se ao facto de evitar a passividade imposta por aquele media, e a irritação que me assola quando, por acaso, sou "tomado" por este ou por aquele programa. O processo de imbecilização cultural e, até moral, a que as televisões estão votadas, mereceriam intervenções de carácter… policial. O que vi do programa sobre Manuel Tito de Morais [14. Dezembro. 1910- 28. Junho. 1999] entusiasmou-me. Pela qualidade da investigação, pelos depoimentos e, sobretudo pela aproximação feita à acção e à vida de uma personalidade que os nossos desatinos têm colocado na sombra, e interesses cavilosos têm ofuscado.

E, no entanto, o eng.º Tito de Morais foi um homem que não desistiu; um daqueles, cada vez mais raros, antifascistas que se bateu, com denodo e coragem, para o que o PS fosse, realmente, socialista. Sabe-se que nunca se calou, que sempre esteve em desacordo, e um desacordo veemente e categórico, quando assistia aos desvios à direita do partido de que era, rigorosamente, o grande fundador.

Nunca ensarilhou as armas, nunca abandonou a velha trincheira republicana de combate e de honra. Foi preso várias vezes pelo PIDE, torturado com crueldade; viveu no exílio em países tão diferentes quanto Angola, Brasil, Argélia, Itália, rodeado de mulher e de filhos numerosos, cercado de dificuldades de toda a ordem. São impressionantes as revelações feitas no documentário; como surpreendente é o silêncio pesado e doloroso que paira sobre Tito de Morais.

Não o conheci pessoalmente, mea culpa, sabia quem ele era, e juntava-o a essa imensa legião de portugueses que se bateram, com denodo e bravura, contra o fascismo salazarista. Fiquei a conhecê-lo um pouco melhor e a criar o desejo de saber mais sobre este português valoroso, que não soçobrou ante as mais terríveis injustiças e as mais insustentáveis ameaças. Talvez se perceba porque é que ele nunca foi ministro, apenas duas vezes secretário de Estado. E também talvez se entenda que a integridade da sua moral e o poder da sua honra, o tenham levado a recusar ser administrador da Galp porque entendeu que o vencimento proposto era escandalosamente indecente em relação ao então ordenado mínimo nacional: 30 mil escudos.

A gente observa o que se passa em redor; assiste a estas vergonhas de que são protagonistas (entre outros, claro) alguns próceres do PS; contempla, com a raiva nos dentes, às capitulações e às traições destes "socialistas" actuais - e é por eles que cora de vergonha, da vergonha que eles não têm, bem entendido. No documentário, há uma imagem particularmente emocionante: fixa um qualquer congresso do PS e a imagem alquebrada e envelhecida, porém altiva e indomável, de Manuel Tito de Morais. O jornalista pergunta-lhe: "Está contente com o seu partido?" A resposta é seca e rápida: "Não!"

Todos os deponentes neste filme são unânimes: ele foi um homem de bem, um homem honrado e impoluto e um grande carácter. Almeida Santos diz: "Um pouco radical, enfim…" Radical, uma ova, meu caro Almeida Santos. É hábito destes tempos chamar-se "radical" a quem recalcitra, a quem rejeita pertencer à manada, a quem defende princípios, valores e convicções. Parece que a inquietação moral e ideológica de Manuel Tito de Morais era aceita com complacência e, até, com a benevolência dispensada a uma traquinice. Nada disso.

Tito de Morais estava empenhado em transformar o mundo e em ajudar a fazer de Portugal um país europeu, moderno, civilizado, informado e culto. Mas percebeu que esta gente não era a sua gente. Protestava com energia, mas nunca deixou o partido de que era o principal fundador. Sabia que só unida a Esquerda conseguiria realizar as alterações e as reformas sociais de que o País necessitava. Tal como Fernando Piteira Santos, outro grande português que os portugueses esqueceram, bateu-se, até ao fim por essa unidade.No final, foi emocionantemente bom ouvir os filhos de Manuel Tito de Morais confessarem o orgulho que tinham pela vida do pai.
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«J. Negócios» de 10 Set 10

Justa homenagem

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Por Guilherme Valente

JOSÉ SÓCRATES, no início do mandato anterior, preconizou e foi apregoando algumas medidas acertadas na área da educação. Medidas que há muito tempo, aliás, vínhamos defendendo. Algumas dessas medidas foram sacrilégio para os «especialistas», os ideólogos, a nomenclatura que manda no Ministério. Percebeu-se logo, portanto, que tais medidas iriam ser sabotadas. Foi o que aconteceu.

Que medidas foram essas? José Sócrates enumerou-as na homenagem recente à Doutora Maria de Lourdes Rodrigues: directores nas escolas; cursos profissionais; avaliação dos professores; educação ao longo da vida. E mesmo medidas mais específicas, como, por exemplo, o Plano de Acção para a Matemática.

Vejamos as medidas e a respectiva sabotagem:

1. Os directores nas escolas. Uma medida essencial. Mas foi sabotada, com a conivência ou a permissão da ex-ministra: quem decide na escolha a do director? Que autoridade lhe é confiada e que autonomia tem para a sua acção? Mesmo assim, os efeitos benéficos dessa medida logo começaram a manifestar-se, facto que, evidentemente, ameaça o poder controlador do "eduquês" e, por isso, sabe-se agora, com a criação criminosa dos mega-agrupamentos, preparam-se para desfazer tudo, substituindo a figura do director por comissões de instalação. Designadas por quem?

2. A formação profissional. Desde logo não fazendo o que devia ter sido feito, como estou farto de escrever: a oferta criteriosa, a tempo de prevenir o abandono, de uma via técnico-profissional, de exigência e dignidade iguais à via de acesso ao ensino superior, via que, na Finlândia é frequentada, aliás, pela maioria dos estudantes. O que passou a existir, predominantemente pelas antigas escolas industriais e comerciais, foi em larga medida criado e oferecido por iniciativa de directores e professores, graças ao seu espírito de iniciativa e dedicação, mas sem o empenhamento autêntico, muito pelo contrário, do ministério. Cursos improvisados aos quais não foram dadas condições mínimas de funcionamento, meios humanos e materiais indispensáveis, sem reconhecimento e dignificação pelo ministério. Há professores a ensinarem disciplinas de marcenaria sem saberem pregar um prego. Afinal, como afirmou um dia a Senhora que a Ministra agora homenageada colocou na presidência do Conselho Nacional de Educação, «todos os meninos podem ser doutores» (alguns até nem querem).

3. Quanto à avaliação dos professores, não foi necessário encomendar um modelo com a recomendação de que fosse tonto, absurdo e impraticável, para não funcionar. Bastou pedir aos especialistas que elaborassem um modelo.

4. Quanto à iniciativa das Novas Oportunidades, que na mente do Primeiro-Ministro poderá ter surgido como o embrião de uma imperativa formação ao longo da vida, nem vale a pena referir no que, na sua esmagadora generalidade, o Ministério da «Educação», a tornou. É o que se sabe.

5. O Plano de Acção para a Matemática, promovido alegadamente para resolver os problemas que os responsáveis pelos programas, pelas orientações curriculares e pela formação de professores tinham causado, foi confiado pela ex-ministra a quem? Precisamente aos mesmos, aos mesmíssimos responsáveis pela tragédia no ensino da Matemática.

A Senhora Doutora Maria de Lourdes Rodrigues mereceu bem a homenagem que lhe fizeram...

O país dos falsos centenários

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Por Ferreira Fernandes

O JAPÃO desilude com o seu sistema de contar velhinhos.
No princípio de Agosto, o país conhecido por ser recordista de centenários descobriu que um era falso: Sogen Kato, que deveria ter 111 anos, e a quem a Segurança Social pagava mensalmente a reforma, afinal já tinha morrido há 32 anos (nem octogenário era!) - a família guardava o corpo mumificado lá em casa.
Outros poriam uma pedra tumular sobre o assunto, mas os japoneses são rectos: tal como Toyota recolheu milhares de carros por defeito nos travões, os registos nipónicos puseram-se à procura de provas de vida dos seus cidadãos de modelo mais antigo.
Olhem, também a mulher mais velha de Tóquio, de 113 anos, não era vista desde 1986... Além de muitos é como se os centenários nipónicos fossem adolescentes fugitivos.
A meio de Agosto, as autoridades apresentaram uma estimativa tremenda: haveria 200 japoneses centenários por encontrar! Anteontem, as mesmas fontes apuraram o número real (por favor, sentem-se): afinal, são 234 354 os japoneses com mais de cem anos de quem não se sabe o paradeiro. Segundo os números oficiais, haveria mais de 77 mil japoneses com mais de 120 anos e 884 com mais de 150!
Já percebemos, os centenários japoneses ganharam fama graças a um sistema deficiente de dar baixa dos cidadãos. Nada como notícias destas para dar cabo de uma frase típica lusa: "Isto, só neste país..."
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«DN» de 12 Set 10

sábado, 11 de setembro de 2010

Selecção


Por João Paulo Guerra


RARAS vezes a equipa da Federação Portuguesa de Futebol mereceu tão justamente a designação de Selecção Nacional como agora. A Selecção é verdadeiramente o espelho do País: uma barafunda, onde toda a gente ralha e não se vislumbra quem tenha razão, e com péssimos resultados.

A bagunça actual tem antecedentes: a campanha de Saltillo, o vexame de Seul. E embora o futebol se constitua em Portugal como um Estado dentro do Estado, a verdade é que absorve e assume sem excepção muitos dos vícios nacionais: dirigentes intocáveis, culto da irresponsabilidade, opacidade nos procedimentos, mentalidade paroquial, relacionamento clientelar. A isto há a acrescentar, nos últimos anos, a fundada suspeita de que entre os critérios para a escolha do seleccionador é altamente valorizado o carácter conflituoso e mesmo agressivo do candidato. Scolari como Queiroz, no desempenho do cargo de seleccionador nacional, envolveram-se em conflitos verbais e mesmo em cenas de pugilato, passando incólumes por todas as situações. Mas agora, parece que a FPF quer despedir Queiroz, porém sem custos indemnizatórios.

A Selecção é uma das quintas do latifúndio da Federação dirigido com espírito feudal. Gilberto Madail é presidente desde 1996; Amândio de Carvalho é vice-presidente desde 1983. Ambos têm ligação à política: o primeiro saltou de uma lista de candidatos a deputados pelo PS para a lista rival do PSD; o segundo é autarca eleito pelo PS. E a política está activamente envolvida no processo com vista ao despedimento do seleccionador, apesar da propalada separação de poderes. O futebol é um quarto poder onde o poder político não resiste a meter o bedelho.

Onde tudo isto vai parar é imprevisível. Mas, para começar, Portugal empatou com Chipre.

«DE» de 7 Set 10

História parva ou talvez não

Por Ferreira Fernandes

FOI ABERTURA, ontem, no site da CNN e já dias antes tinha sido reportagem no New York Times. Assunto banal no Iraque, um carro armadilhado alerta um posto de controlo, gritos de "bomba!, bomba!", os militares iraquianos cercam o nervoso condutor e todos fogem da viatura. O raro são as imagens - geralmente os cameramen chegam só depois do carro explodido e corpos ensanguentados. Mais raro ainda, não há imagens de um só caso, mas de vários. Como se os cameramen estivessem prevenidos… Na verdade, estavam. Mais: eram os instigadores. Mas não, não eram terroristas, eram simples brincalhões. Pertenciam a um programa humorístico da estação televisiva Al-Baghdadia e filmavam "apanhados" em que os assustados condutores eram gente famosa. E únicos desconhecedores de que tudo não passava de piada. Os próprios soldados do checkpoint estavam a par da tramóia, que se converteu no programa mais popular do Ramadão, período em que as audiências televisivas sobem em flecha. Um dos "apanhados" mostrados na CNN, o actor Jassim Sharaf, acabou por rir da cena. Mas, como "apanhado", ele foi um homem aterrorizado, que tirou os sapatos para mostrar aos soldados e implorou que acreditassem na sua inocência. Há duas conclusões disto. 1) O género humano é parvo. 2) Felizmente, o género humano é parvo, o que o permite ter a resiliência para sobreviver ao dia-a-dia das guerras.
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«DN» de 10 Set 10

Aparências

Por João Paulo Guerra

O LIBERTÁRIO arrependido do Maio de 68 Daniel Cohn-Bendit inventou um estratagema para forçar os eurodeputados a ouvir o MRPumPum reorganizado de 1975 Durão Barroso: cada deputado ao Parlamento Europeu teria ontem que responder a três chamadas durante o discurso e debate de três horas do Estado da União da Europa dos 27. Segundo a proposta de Cohn-Bendit, quem falhasse duas das três chamadas pagaria uma multa de 75 euros.

A esquerdalhada que fez o trânsito de conveniência para o bem-bom da direita não perdeu por esse motivo os tiques estalinistas nem os estribilhos pseudo-revolucionários. Ontem, no plenário, vigoraria o slogan: «Nem mais, um só, eurodeputado no forrobodó». Estrasburgo queria comprar comparências com aparências. O Parlamento Europeu é um fórum de 736 almas mas muito menos corpos presentes. E a peregrina ideia de pagar pela ausência, ou de comprar a presença, conhecem-na os portugueses de ginjeira dos tempos das manifestações de «voluntários à força e das concentrações de figurantes que, não comparecendo, perdiam o emprego. A falta de franqueza e de imaginação na política tem destas coisas: dá-se uma volta e depara-se com comprometedoras conotações.

«Chegou a hora da verdade», proclamou ontem em Estrasburgo Durão Barroso falando para a audiência. E a verdade é que seria de calcular que o presidente da Comissão Europeia fosse dizer o que realmente disse: que o Estado da União é do melhor que há, que a União Europeia está hoje melhor do que há um ano, que a recuperação económica está em marcha. «Porreiro, pá.»

A comparência forçada foi revogada mesmo em cima do acontecimento. Alguns eurodeputados, incluindo portugueses, tinham-se manifestado dispostos a pagar para não ouvir Barroso.
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«DE» de 8 Set 10

Limpezas

Por João Paulo Guerra

O PSD
convocou para a sua designada Universidade de Verão o padre Lino Maia, presidente da Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade.
E o padre aproveitou o púlpito e não foi de modas: falando para os aprendizes de social-democracia na modalidade liberal alaranjada, perorou que "a Igreja precisa muito das mulheres... senão quem é que fazia as limpezas?". A estupidez da afirmação do presbítero só por si já era suficiente para definir o nível intelectual, o ambiente cultural e o cenário ideológico da auto-proclamada Universidade. Mas, para não deixarem dúvidas sobre o que lhes vai nas mentes, os jovens "pêpêdês" frequentadores do "cursilho" receberam a parvoeira com fortes aplausos. Sinal dos tempos: a história das mentalidades retrocedeu em Portugal aos tempos do marquês de Marialva. E, sob o ponto de vista marialva, mulheres na Igreja bastam as necessárias para as limpezas. Supostamente jocoso e evidentemente desbocado, o sacerdote foi no entanto cauteloso. Poderia ter dito que "a Igreja precisa muito das mulheres... senão quem é que fazia de governantas dos párocos?". Mas isso prestava-se a réplicas e tergiversações picantes ou mesmo maldosas, que o vigário cuidou de evitar. A Igreja sempre acompanhou e benzeu as visões mais reaccionárias do mundo e das sociedades, por vezes contra a visão preclara de alguns dos seus mais esclarecidos praticantes. O mito da inferioridade da mulher nasceu com a lenda da origem de Eva, criada nos termos das escrituras a partir de uma costela de Adão. E foi assim que estagnou ao longo do História, culminando na idealização da mulher confinada à Igreja, aos filhos e à cozinha da teoria do "Mein Kampf". Mas que grandes limpezas andam a pedir as mentalidades em Portugal!
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«DE» de 10 Set10

Na cama com stresse

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Por João Duque

SAÍA DA VELHA Portugália, depois de um jantar no final do mês de agosto. No primeiro andar onde ainda adolescente havia jogado bilhares, tinha acabado com um ensopado bife tradicional e bebido a indefetível companheira 'imperial'. Na rua, já na Almirante Reis, onde casas de decoração vendem mobiliário para todo o tipo de interiores, havia uma especial.

A montra era preenchida quase integralmente por uma gigantesca cama armada de cabeceiras encastradas, varões doirados no topo, uma coberta em tons caramelo para condizer com o ouro fingido e duas almofadas, enormes, fofas, bordadas com motivos variados e coloridos.

A cama preenchia quase integralmente toda a profundidade da montra. Os seus pés quase tocavam no vidro transparente, impecavelmente limpo, da montra iluminada e resplandecente. A cama era o orgulho da montra que não se eximia em atribuir-lhe cores e atributos aos olhos dos passeantes potenciais compradores.

Esta montra, como tantas, fica num dos inúmeros edifícios em que os estabelecimentos comerciais estão recuados e as arcadas e pilares dão abrigo divino aos peões em momentos de inadvertidas chuvas ou abrasadores sóis como os de Lisboa neste agosto.

Mas esta montra tinha outra coisa. Junto a ela, onde a montra exibia vaidosa a sua esplendorosa cama, aos seus pés, mas do lado de fora, abrigando-se no ventre da arcada, três homens tentavam adormecer com as cabeças encostadas ao vidro da montra. Dentro, a cama era ladeada por felpudos tapetes. Fora, ao fundo da cama, estendiam-se prováveis cartões aproveitados de caixas de frigoríficos desmontadas a servirem de estrado, colchão e tapete.

As cabeças daqueles homens que repousavam sobre as lajes estavam a escassos cinquenta centímetros dos pés da extraordinária cama. A cama tinha sido feita por outros homens para que homens nela se deitassem, a colcha para que com ela se cobrissem, e as almofadas para que nelas repousassem. Outros homens, sem o poderem, e apenas separados por um vidro, jaziam no chão longe de lá se poderem deitar, cobrir ou repousar.

O que os separava da cama? O vidro? A falta de vontade ou interesse? Apesar de uma simples pedra poder quebrar a barreira, nós sabemos que a 'pedrada' teria que ser enorme para derrubar todo um sistema de propriedade que cria estas incongruências inaceitáveis.

Contei esta história ao meu amigo Zé que me recordou como a história sempre foi feita da luta entre grupos ambiciosos por ter. Como são curiosos os verbos 'ser' e 'ter', os mais 'importantes' e aos que dedicamos mais atenção...

Recordei depois a ainda recente luta entre capital (acionistas) e os seus agentes (gestores) e de como muitos me parecem equivocados acicatando invejas num eleitorado que vota, mas não em assembleias gerais...

A dúvida reside em saber qual o sistema que não cria estes potenciais acidentes... Noutros sistemas, passado pouco tempo depois da 'pedrada', nem cama já há para comparar ao catre improvisado de papelão.

«Expresso» de 4 Set 10

Submarino ao fundo!

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Por Antunes Ferreira

QUANDO ERA MIÚDO, jogava à batalha naval com o meu primo Jacinto, já falecido. Obviamente que foi antes do óbito, porque depois, nem com uma mesa de pé de galo. Em Portalegre, em casa dos nossos avós, pelas férias grandes, que, de resto, eram pequenas. Do nosso ponto de vista, claro. Era um fartote de tiros, a maior parte dos quais apenas se limitava a provocar umas quantas ondas mais provocadoras, no mar de calmaria do papel.

Usavam-se umas folhas de almaço quadriculado, onde se desenhavam dois quadrados para cada jogador. Divididos noutros mais pequenos, numa quadrícula 10x10, eram numerados no alto, na horizontal, de um a dez, e na vertical com letras do A ao J. Era o que se dizia então, um jogo de tabuleiro com dois malandrecos, no qual cada um tinha de adivinhar em que quadrados estavam os navios do oponente. Era bué da fixe – ou muito giro, como então se dizia.

Assim, jogava-se em duas grelhas para cada concorrente, uma que representava a disposição dos barcos de um deles, e outra que representava a do adversário. E vice-versa. Em cada grelha os estrategas colocavam os seus navios e registavam os tiros do camarada do outro lado. A capacidade de adivinhação andava de mãos dadas com a análise acurada dos disparos falhados, o que possibilitava a provável localização da frota do inimigo. As meninges tinham de estar bem lubrificadas, senão…

Depois, o jogo continuava numa série de rondas, uma cá, outra lá, em cada uma das quais eram disparados três tiros. As armadas eram constituídas por um porta-aviões (cinco quadradinhos adjacentes em forma de sete), quatro submarinos (um quadradinho apenas), e um barco de dois, outro de três e ainda um de quatro canos. Quantas horas passámos tentando afundar a frota inimiga, como se se tratasse de deitar ao fundo os barcos da Armada Invencível…, que nunca chegou a sê-lo.

As acusações mútuas de batoteiro eram o pão-nosso-de-cada-dia. Viste o meu mar, espreitaste sem eu dar por isso, mas eu topei-te, é só água, água, água. Adivinha lá como estão dispostos os meus navios. E assim por diante. Por vezes, a exaltação aumentava e motivava a intervenção de um poder moderador, normalmente um progenitor ou mesmo os dois dos almirantes de calções e meia alta. Mas, também, a minha Mãe, de colher de pau em punho, refreava os ânimos mais exacerbados.

Quase sempre todo esse alvorotar terminava em tom álacre e numa chávena de café com leite e pão com manteiga, quiçá umas bolachas Maria, ou uma fatia de pão-de-ló. Mas nenhum de nós era desbocado, muito menos grosseiro, não dizíamos palavrões como os que usa um tal Carlos Queiroz, ex-seleccionador nacional de futebol que, finalmente, foi-se! O meu avô Braz, dos bigodes brancos retorcidos nas pontas e encerados, dizia então que os eflúvios do lanche eram dos melhores aromas de que se podia fruir. Termos, que, para mim eram mais do que desconhecidos, misteriosos. Mas que resolvia com umas visitas ao Dicionário de Morais, obra quase tão importante como os Sagrados Evangelhos, livro que não era dos meus mais favoritos. Mas que era obrigado a ler. Estávamos, de resto, no tempo em que se lia.

Três dos meus netos, aboletados e em acampamento provisório cá em casa até à véspera do início das aulas, dedicavam-se ontem a jogar qualquer coisa – no computador, na playstation graúda ou na PSP, que, no meio da minha ingenuidade, só agora descobri que era uma coisa daquelas portable, e não a prestimosa instituição de Segurança Pública, que quer fazer greve um dia destes, o que a Constituição não permite, mas os guardas dizem que sim.

Arvorando o meu ar mais sabedor e consciente da actualidade, perguntei-lhes que jogo era. O avô não deve conhecer; é a batalha naval. Uma ova é que não conhecia. Gente, conheci, conheço e conhecerei, mas praticado a lápis em papel quadriculado. Olharam-me estupefactos. Com lápis e papel? Não pode ser. Podia, malta, podia. Se quiserem, eu explico. Sorrisinhos condescendentes e comentário interior: ganda cena; o cota deu o berro, como a selecção nacional.

Comecei a informação. De que fui interrompido, escassos segundos depois, ó avô isso era uma trabalheira, aqui no computador é parecido – mas é muito mais fácil. Basta uma cassete. Optei por uma retirada estratégica. Já no século IV a.C. o Sun Tzu ensinava como ela devia ser feita, pelo que não se tratou de nada original. Napoleão, Mao e Gyap também a usaram e não se deram mal com isso, nem se envergonharam.

Estava, pois, num prudente recolhimento, quando me dei conta que o episódio náutico/lúdico viera à superfície, (operação singela, tratava-se de batalha naval hodierna, dos dias que vão correndo, nos quais tudo é possível, mesmo o impossível) por força de uma notícia de que tomara conhecimento momentos antes desta ocorrência. Entrara oficialmente ao serviço o novo submarino da Armada Portuguesa, o Tridente.

Rezavam os jornais, com foto e tudo, que activistas do BE se tinham passeado na Baixa, com um submarino em esponja sintética, protestando assim contra a aquisição do submersível, ao qual se seguirá um irmão gémeo, tal come este, made in Germany. Com os milhões gastos podiam fazer quatro escolas e três hospitais, disseram, o que me parece um tanto exagerado. Do que eles se haviam de lembrar, os patuscos, que com tal crítica ao Governo, tinham originado estas lembranças da minha juventude…

Naquela altura, no almaço quadriculado, quando um tiro acertava no quadradinho B7, tinha de se confirmar, em voz suficientemente audível, submarino ao fundo! Não sei se no computador será assim; mas, enquanto o pau vai e vem, é melhor que a Marinha de Guerra se ponha… a pau.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Passatempo Calimero de 9 Set 10 - Solução


Na maioria dos álbuns de Tintin, Hergé escolheu locais geograficamente definidos para o corpo da história: no Congo, no Tibet, na América, na China, na Amazónia, na América Central, na Austrália, Egipto, na Lua, etc.
Para «O Ceptro de Otokar», escolheu a zona dos Balcans (Syldavie).

O governante

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Por João Duque

LI ESTE VERÃO o livro de Joaquim de Almeida (*) “A governanta”, uma biografia de D. Maria, “a companheira de Salazar”.

O livro é uma excelente obra para os amantes da história de Portugal contemporâneo e deveria ser livro de leitura obrigatória para os governantes e gestores públicos.

O livro é de facto uma preciosidade informativa sobre uma vida, sobre uma época, centrado numa personagem periférica e próxima de Salazar mas, no meu ponto de vista, um livro sobre o regime e sobre uma forma de ver a governação do país dessa época.

O livro dá-nos muita informação de como Salazar tratava o bem público e o discernia do privado e neste aspecto, não tenho dúvidas que deveria ser lido e reflectido por todos os que nos governam ou que tenham poderes de gestão sobre bens públicos.

Também já anteriormente tinha lido o livro de Fernando Dacosta "Máscaras de Salazar" e já nessa altura tinha ficado com a mesma impressão: se Salazar fosse vivo seria hoje abundantemente convidado a palestrar em cursos de organização e gestão pública e até mesmo em programas de ética... Senão vejamos.

Quem é que hoje imagina poder dividir as contas (contadores de electricidade e de telefone diferentes) entre o piso de rés-do-chão e 1.º andar da moradia de residência oficial do primeiro-ministro, para que as contas do rés-do-chão (área de trabalho) fossem pagas pelo Estado e as contas do 1.º andar (área pessoal) fossem pagas pelo ordenado do próprio? E o mesmo fazendo com as contas da água e até do combustível?

Quem é que hoje imagina que o primeiro-ministro possa mandar comprar, pagando do seu próprio bolso, um serviço de loiça e um faqueiro para se servir no seu dia-a-dia privado na residência oficial, e outros conjuntos paralelos, pagos pelo erário público, exclusivamente dedicados ao uso em refeições oficiais?

Quem é que hoje imagina que se possa retirar um talhão ao jardim do palácio de São Bento para aí se criar uma pequena horta que alimentaria a cozinha da Presidência, reduzindo os encargos com o seu sustento?

Quem é que hoje imagina que se possa retirar um talhão ao jardim ao mesmo palácio para aí se construir um galinheiro que não só alimentava com patos, coelhos e galinhas (e ovos) a cozinha da Presidência, como permitia ainda a venda destes produtos, se excedentários, ao Hotel Aviz, e assim reduzir o custo de manutenção da Presidência?

Quem é que imagina que o frigorífico da residência oficial possa ser pago com o dinheiro do próprio governante porque o considera ao seu uso pessoal?

A gestão pública não exige apenas o cumprimento de regras que se querem apertadas de controlo, transparência, rigor e competência. Exige uma primeira relação escrupulosa e distante com o que não é nosso, desde a viatura de serviço, às viagens e aos fins a que se destinam, ao telefone ou a qualquer outro tipo de equipamento sendo de usar em serviço quando se está, de facto, de serviço.

Sei que hoje é dificilmente imaginável qualquer daquelas situações, mas dão que pensar...
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«DE» de 9 Set 10
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(*) - NOTA (CMR): o nome correcto deve ser Joaquim Vieira.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Rol dos da raça de segunda

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Por Ferreira Fernandes

O CARDEAL Mazarin nasceu Giulio Mazarino, em Nápoles, e foi primeiro--ministro francês, de Luís XIV.
Marie Skolodowska nasceu em Varsóvia, foi Nobel da Física duas vezes mas entretanto já era Madame Curie e francesa.
Três tipos juntaram-se e fizeram três grandes filmes: Z, A Confissão e Estado de Sítio. O que escreveu as histórias nasceu em Madrid, Jorge Semprún, o que realizou nasceu em Atenas, Costa-Gravas, e o que deu cara nasceu numa aldeia italiana, Yves Montand. Três filmes franceses, três tipos franceses.
Também Serge Reggiani, nascido italiano, Dalida, nascida no Cairo, e Moustaki, nascido em Alexandria, se tornaram cantores franceses.
Johnny Halliday não conta, o pai é que era belga, Johnny nasceu em Paris, não entra neste rol de naturalizados (já a primeira mulher, Sylvie Vartan, nasceu búlgara).
Belga de nascimento era Marguerite Yourcenar, a primeira mulher eleita para a Academia Francesa.
Por escrever bem em francês, como Milan Kundera, que nasceu em Brno, na Moldávia.
Todos franceses. Mas, atenção, de segunda.
Esta semana, Sarkozy decidiu que há essa raça à parte: franceses a quem se pode tirar a nacionalidade porque não nasceram franceses. Como é que ele explica isso lá em casa à mulher, que nasceu italiana, e ao pai, que nasceu húngaro?
Diga-se, entretanto, que Napoleão escapa: nasceu em Ajácio, três meses depois de a Córsega se tornar francesa. Uff...
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«DN» de 8 Set 10

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Estrelas cintilantes

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Por Nuno Crato

NO ÁLBUM de Hergé “Explorando a Lua”, o jovem repórter Tintim surpreende-se quando desembarca no nosso satélite e vê um céu negro e uma multidão de pontos luminosos fixos. O céu aparecia-lhe muito diferente do que conhecia sobre a Terra. Não só o fundo estava mais escuro, como as estrelas não cintilavam. Assim acontece na Lua, como os astronautas que nela posteriormente estiveram confirmaram. Hergé sabia-o, apesar de na altura em que concebeu e desenhou a viagem de Tintim e dos seus companheiros, nenhum ser humano ter ainda pisado o nosso satélite. Sabia-o porque os físicos e os astrónomos conheciam bem os efeitos na atmosfera terrestre na visualização dos astros. Mesmo sem sair da Terra, era possível prever como seriam vistas as estrelas sobre a Lua.

Tudo isto pode parecer banal, mas sempre me maravilhou. Li as aventuras de Tintim antes e depois de o homem ter ido à Lua pela primeira vez, há 41 verões. E ainda hoje me surpreendo, ingenuamente, com a segurança com que se podia prever a visibilidade das estrelas na Lua, um mundo a 384 mil quilómetros de distância e em que nunca se tinha estado.

O tremeluzir das estrelas é produto da turbulência da atmosfera terrestre. A elevação do ar quente, as correntes atmosféricas, a contínua mistura de ar de diferentes densidades, tudo isso faz com que a luz não viaje exactamente em linha recta, mas mude ligeiramente de direcção antes de chegar até nós. A luz, que num momento nos chega de uma direcção determinada, passa, em fracções de segundo, a aparecer de uma direcção ligeiramente diferente.

O tremeluzir é muito intenso porque as estrelas estão tão longe de nós que o que nos chega é apenas um ponto de energia em oscilação permanente. Vistas através do telescópio, continuam a tremeluzir, mas não aumentam. Parecem mesmo diminuir, pois tem-se delas uma visão mais nítida. Este fenómeno espantou os primeiros que usaram telescópios. Quem ler o relato de Galileu publicado no seu “Sidereus Nuncius” (O Mensageiro das Estrelas) verifica a surpresa que o físico italiano teve quando viu que, no seu instrumento, as estrelas não só não apareciam maiores como se apresentavam despidas da sua “cabeleira” difusa. Sobre este e outros temas dessa obra magistral, vale a pena ler o magnífico estudo de Henrique Leitão que introduz a recente edição portuguesa da Gulbenkian.

Muito recentemente, físicos, astrónomos e engenheiros, percebendo a origem do cintilar das estrelas, conseguiram progressos extraordinários num novo estilo de instrumentos que usam aquilo que se designa como “óptica adaptativa”. A ideia, que tem já algumas dezenas de anos, consiste em deformar continuamente o espelho do telescópio de forma a compensar o ziguezague dos raios luminosos que nos chegam das estrelas. As dificuldades técnicas são tremendas, mas uma equipa da Universidade do Arizona conseguiu agora um sucesso extraordinário com um novo sistema óptico.

O novo instrumento, situado no monte Hopkins, perto de Tucson, envia para o espaço um raio laser contínuo e analisa-o através do próprio telescópio. Um computador recebe o sinal e calcula a deformação necessária ao espelho para corrigir a direcção do raio vista através do telescópio. Envia as necessárias instruções para um sistema de 336 electroímanes colocados atrás do espelho, que o deformam continuamente.

Os resultados são magníficos. As estrelas vêm-se tão nítidas como com um telescópio situado fora da Terra. Tintim já não precisaria de ir à Lua para ver as estrelas paradas.
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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 4 Set 10 (adaptado)

Tempo e paciência

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Por Carlos Fiolhais

AS NOTÍCIAS de meados de Agosto davam conta de que a economia alemã tinha crescido 2,2 por cento do primeiro para o segundo trimestre deste ano, um número recorde desde a reunificação, enquanto a economia portuguesa tinha crescido no mesmo período uns míseros 0,2 por cento. É caso para dizer que a locomotiva da Europa bem puxa, mas as carruagens da cauda teimam em não andar.

Se se quer perceber porquê, não há nada como dar um salto à Alemanha. Apartei-me do estio português a meio de Agosto, logo a seguir às notícias do crescimento desigual, em busca das razões da desigualdade. Para chegar ao aeroporto de Lisboa tinha-me socorrido de um táxi, mas, à chegada ao aeroporto de Colónia-Bona, tal já não foi preciso, pois logo um comboio me esperava, com rigorosa pontualidade, para me deixar, escassos minutos depois, na Hauptbanhof de Colónia, onde pude tomar o metro. O hotel onde fiquei deu-me depois um passe de transportes urbanos para os dias da estada, prática comum a várias cidades europeias. O sistema de transportes regional está bem planeado e funciona, dia a dia, hora a hora, minuto a minuto, de acordo com o afixado. As entradas e saídas do metro estão abertas, pois a fiscalização é apenas ocasional. Menschen bewegen (Mover pessoas) é a divisa da empresa de transportes urbanos. Tudo está feito para poupar tempo. Em Lisboa, apesar dos investimentos brutais realizados com dinheiros europeus (isto é, alemães) em detrimento de outras zonas do país, não há nem comboio nem metro até ao aeroporto. E toda a gente perde imenso tempo.

Sempre que regresso à Alemanha sei que reentro num país onde não só os relógios funcionam como as pessoas funcionam de acordo com os relógios, cumprindo os planos que estabeleceram. E pergunto de cada vez a mim próprio como é que os alemães conseguem lidar com o problema do tempo português quando se deslocam, em trabalho ou em férias, ao nosso país. Numa livraria, que as há boas na baixa de Colónia, comprei, por isso, o livro Gebrauchsanweisung für Portugal (Piper, 5ª edição, 2010), em português Manual de Instruções para Portugal, do jornalista Eckhart Nickel. O autor fornece as palavras-chave para sobreviver numa visita a Portugal: tempo e paciência (Zeit und Geduld). Escreve: “Percorrer Portugal em meios de transporte públicos exige tempo e paciência”. Conjecturo que a segunda palavra só existe na língua alemã por causa da eventual necessidade de deslocação ao extremo oeste da Europa... Não foi há muitos anos que uma colega alemã ficou estupefacta por nem sequer encontrar horários de autocarros em Portugal. Tinha simplesmente de esperar com a necessária paciência pelo próximo. Agora, o jornalista queixa-se de que os horários de transportes são dados de um modo encriptado. Por exemplo, os horários de autocarro têm notas de rodapé do tipo: “De 16/9 a 30/6 aos sábados (ou sextas feiras se for feriado) ou segundas-feiras (ou terças-feiras se for dia seguinte a feriado)”. Essas indicações, convenhamos, desanimam qualquer passageiro, que, se desesperar na espera, terá de chamar um táxi. O autor previne os visitantes a Portugal: “Quem tem tempo, é aqui um rei, mas quem não tem não devia cá vir. Pois até os horários de abertura [de serviços] não passam de meras recomendações: dentro deles ser-se-á com sorte atendido por funcionários que se movem com a velocidade de uma lagosta num aquário”.

Já éramos assim antes do 25 de Abril e pouco mudámos. Curt Meyer-Clason, que dirigiu o Instituto Goethe em Lisboa nos anos 70 do século passado, escreveu nos seus Diários (Portugiesicher Tagebuecher, Athenäum, 1979), numa entrada de 1972: “O tempo português é uma substância que se deixa evaporar”. Como é que um povo que não faz planos claros, não tem serviços públicos decentes e não respeita quaisquer horários pode aspirar ao mesmo produto interno bruto que os alemães? Como é que um país cujo primeiro-ministro se compraz em chegar atrasado a eventos oficiais pode apanhar o comboio da Europa? Não pode. Ainda que tenha muito tempo e paciência.
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«Público» e De Rerum Natura

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Opinião

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Por João Paulo Guerra

EM PORTUGAL não haverá propriamente uma opinião pública, apesar da democracia já ter duplicado a idade adulta.

Há uma opinião publicada, que vai da colaboração regular na imprensa ao universo dos blogues e das redes sociais e que varia entre a absoluta independência e o press release. Claro que não incluo aqui o vómito anónimo e cobarde dos comentários na Internet. E há depois minorias ruidosas que se manifestam geralmente em frente de câmaras de televisão por modalidades diversas de exibicionismo. E as antigas maiorias silenciosas - que não se manifestavam por medo - estão hoje reduzidas ao estado amorfo de maiorias indiferentes. São aquelas maiorias que o mundo e as sociedades podem estar a desabar que querem lá saber.

O processo da Casa Pia - com o drama real de vítimas de abusos sexuais, tal como o drama possível de eventuais vítimas de erros judiciários - só excita a sociedade pelo número de anos de prisão decidido em relação ao cabeça de cartaz do caso e pela efectividade do cumprimento da pena. Entretanto, com a publicação das sentenças e os trâmites que vão seguir-se nos próximos anos, há um aspecto que parece não incomodar a sociedade - e em alguns casos parece mesmo aliviar alguns sectores -, embora seja a única certeza que sai de toda esta trama: este processo vai enterrar sem castigo décadas de abusos sexuais na Casa Pia, alguns dos quais referidos mas não investigados. O único responsável da Casa Pia julgado exerceu funções durante poucos meses e já depois da denúncia do caso. A responsabilidade da instituição, dos dirigentes e das respectivas tutelas vai caducar, com a crucificação de um protagonista e de cinco figurantes.

Entretanto, a "opinião pública" passeia-se nos corredores dos centros comerciais.
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«DE» de 6 Set 10

domingo, 5 de setembro de 2010

Lições de há cinco anos

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Por Rui Tavares

HÁ CINCO ANOS, mais ou menos, a política portuguesa estava assim. Mário Soares tinha apresentado a sua candidatura à Presidência da República, instado por José Sócrates entre outros, e entre outras razões porque havia sondagens (algumas delas publicadas, as outras confidenciais) que o davam como vencedor das eleições e, se não isso, pelo menos o único candidato capaz de interromper um passeio tranquilo de Cavaco Silva até Belém.

Ato contínuo, o PCP e o BE apresentaram os seus candidatos, os mais fortes que tinham, mas que de certa forma se anulavam mutuamente: os líderes. As candidaturas de Jerónimo de Sousa e Francisco Louçã foram o equivalente, em xadrez eleitoral, a uma troca de rainha por rainha. Um esforço de soma zero.

Qualquer destes três candidatos, de uma forma ou outra, se sacrificou pelo seu partido.

Entretanto, Manuel Alegre apresentou-se correndo por fora e acabou por ter o melhor resultado da esquerda. E Cavaco Silva foi eleito à primeira volta, sim, mas com a maioria mais reduzida de qualquer eleição presidencial da democracia. O passeio tranquilo esteve a pouco mais de meio ponto de se perder.

O que se passou? Para mim, erros de leitura de dois géneros, aliás já evidentes na altura.

O primeiro foi um erro na leitura das sondagens, especialmente visível no resultado de Mário Soares, muito pior do que o esperado.

O que uma leitura simplista das sondagens esquece é que quando colocadas perante hipóteses que consideram implausíveis, as pessoas permitem-se dar respostas igualmente implausíveis. Como ninguém acreditava que houvesse mesmo possibilidade de Soares querer ser de novo presidente, as pessoas tomavam a liberdade de dizer que era isso mesmo que prefeririam. (É o caso, quanto a mim, das sondagens em que um grande número de portugueses aparece dizendo que quer ser espanhol: a verdade é que ninguém considera que a hipótese esteja mesmo em cima da mesa.)

Mas os políticos que decidem com sondagens na mão, como era Sócrates na altura (e foi Guterres antes dele) cometem este erro crasso de acreditar mais no número do que em tentar interpretá-lo.

O segundo erro foi na leitura das próprias eleições presidenciais, que são eleições muito especiais onde se revela aquilo que eu considero (porventura isoladamente) um entranhado republicanismo dos portugueses, que afinal vivem numa República com cem anos, e uma das mais três mais antigas da Europa. Os portugueses não gostam de mais do que uma reeleição (Soares que o diga) tal como não gostam de dinastias políticas (João Soares que o diga) tal como não gostam de ver candidaturas “do partido” em eleições pessoais (o PCP e o BE que o digam).

Curiosamente, os analistas que aplaudiram a escolha de Francisco Lopes pelo Comité Central do PCP parecem ter esquecido esta lição de há cinco anos. O resultado pode ser pior o melhor, mas o que interessa é se a candidatura tem condições para ter relevância para lá de um quadro partidário. Caso não tenha, é uma candidatura para picar o ponto.

Estas eleições, contudo, não podem ser para picar o ponto. A crise económica e o impasse político fazem delas um momento essencial para definir o que vai ser o país na próxima década. Cavaco e Alegre têm mais diferenças entre si do que, por exemplo, Sócrates e Passos Coelho. Antes do debate entre eles começar, as sondagens de 2010 estão tão incompletas como as de há cinco anos.
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RuiTavares.net

Passatempo-relâmpago de 5 Set 10 - Foto adicional

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Edmund Dantès (futuro Conde de Monte Cristo) e o Abade de Faria (já à beira da morte), presos em celas contíguas, entraram em contacto através de um buraco feito na parede. Quando o 2.º morreu, Edmund foi lançado ao mar em vez dele (metido num saco), e assim se evadiu. Depois, encontrou o tesouro indicado pelo Abade e, com esses bens fabulosos, iniciou a sua terrível vingança...
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A grande curiosidade é que Dumas foi contemporâneo do verdadeiro Abade de Faria, um respeitável português que vivia em França e se dedicava muito a sério ao estudo do "mesmerismo" (hipnotismo).
Claro que a história da sua prisão (e morte) na fortaleza de If é fantasia do autor de «Os três mosqueteiros». Resta saber porque é que isso sucedeu!

Egas Moniz escreveu uma interessante monografia sobre o Abade de Faria, que já em tempos foi sorteada entre os leitores do Sorumbático.

sábado, 4 de setembro de 2010

O nosso Alzheimer esqueceu Torres

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Por Ferreira Fernandes

QUANDO JOSÉ Torres morreu, ontem, já se tinha esquecido de nós. Também nós nos tínhamos esquecido dele. Mas há uma injustiça nesta comparação. Alguma vez teve ele razões para falar de nós, de olhos acesos e agradecidos? Não, nunca lhe demos nada.
Já o contrário não é verdade. Uma noite do Outono de 1965, estou na Luz, no meu primeiro jogo ao vivo pelo clube que me fizera agradecido ao futebol. Era contra o Manchester United, noite dedicada a revelar um cometa, George Best, e hora e meia de eclipse de Eusébio, Coluna, Simões e José Augusto. E estando tudo a correr mal (acabaria num desastroso 1-5), ao quarteto talentoso só importava, bola no pé, centrá-la para a única esperança, que morava, mesmo nas horas más, no alto daquele corpo pernilongo e tímido, Torres.
Meses depois, Portugal-Brasil, Mundial 66, Inglaterra. O nosso terceiro golo, começou de um remate de Eusébio, de ângulo impossível, que o guardião Manga defendeu para canto. Sozinho, Eusébio não conseguira. Eusébio marcou o canto, a bola foi à cabeça de Torres, que a colocou no exacto sítio da primeira tentativa - e, dessa vez, Eusébio fez o mais belo dos seus golos e todos correram a abraçá-lo. Ninguém ligou ao desconjuntado, ainda mais desconjuntado porque de braços longos e felizes no ar, Torres, o mais perfeito companheiro, bom para ajudar e para esquecer, o bom gigante que tornava os outros grandes.
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«DN» de 4 Set 10

Passatempo-relâmpago de 4 Set 10

Uma outra foto, da mesma sala

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

«Dito & Feito»

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Por José António Lima

NO PASSADO sábado, ao mesmo tempo que aproveitava uma oportuna visita a Ourique para desdramatizar a eventualidade próxima de qualquer crise política e avisar PS e PSD que não lhe parece «difícil» um entendimento em relação ao Orçamento do Estado para 2011, o Presidente da República aparecia em grande destaque numa reportagem intimista sobre as suas férias. Um dia em cheio para Cavaco Silva.

Não por acaso, certamente, o jornal escolhido para revelar, ao longo de seis coloridas páginas, os ‘segredos das férias’ do Presidente foi o Correio da Manhã, por sinal aquele que actualmente mais exemplares vende em Portugal. E, ainda que Cavaco Silva sublinhe que «toda» a sua «actividade está concentrada» no exercício das funções presidenciais, lá conseguiu disponibilizar umas dilatadas horas para mostrar a sua casa de praia e as arribas sobranceiras ao mar, a ‘quintinha’ onde preserva o seu recanto rural e a sua ligação às raízes, com as oliveiras e as anonas de que tanto se orgulha, e até para um passeio paisagístico coroado com a contemplação de flamingos numa lagoa.

Já se tornaram habituais estas promoções de imagem dos líderes políticos, metodicamente planeadas e protagonizadas com assinalável profissionalismo. Nas quais abrem as portas da sua privacidade e da sua vida familiar para mostrarem uma faceta mais informal, simples e descontraída, mais afectiva e próxima dos cidadãos eleitores. Qualquer Presidente da República ou primeiro-ministro a elas recorre, ocasionalmente. Tornaram-se indispensáveis, no marketing político, para alargar simpatias e melhorar a popularidade.

E, acrescente-se, dão um jeitão a candidatos presidenciais em vésperas de eleições. Mesmo quando asseguram que «há tempo para tudo e este não é o tempo de tratar da questão» da recandidatura. Se não é o tempo, imita muito bem.
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«SOL» de 3 Set 10

ÀVOLTAKÁTESPERO - Os cus dos elefantes

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Por Antunes Ferreira

DE ACORDO com fontes bem informadas e fidedignas – os meus quatro + uma netos – aqui em casa podem ser contados 327 presépios, 17 cristos, 29 budas e 35 elefantes. É obra. Há ainda, 32 ícones das origens mais diversas, incluindo a Albânia, bastantes quadros não quantificados (pelo menos até à hora em que escrevo estas linhas) de diversos autores e outros.

Nestes últimos, incluem-se, num bric-a-brac esplendoroso, peças assaz diferentes, desde dois samovares, um turco e outro (na altura soviético, hoje russo) estatuetas a dar com um pau, originárias da Tailândia até à Austrália, passando pelo Japão, Coreia do Sul, Creta, Venezuela, Brasil, Cabo Verde, Angola & correlativos. Registo que existem duas focas em pedra, dos inuis – para quem não saiba, o que me parece difícil, são o que vulgarmente chamamos esquimós.

Quanto a instrumentos musicais, nem é bom falar; pendurados nas paredes, em cima de estantes, um pouco por todo o apartamento, podem visitar-se à vista desarmada e em especial, um citar indiano e uma pipa chinesa, que não deve ser confundida com recipiente vinícola, com aduelas, pois se trata de uma espécie de como quem diz, mas não é exactamente. Um espécimen entre a guitarra portuguesa e o bandolim, mas só com três cordas.

Uma carapaça de tartaruga conveniente e pacientemente decorada a preto e branco jaz imponente sobre a lareira. Papiros egípcios, dizem que autênticos, nada de casca de banana para gringos, uma bailarina da Malásia, em madeira, com cerca de um metro de altura e até, na sua moldura à maneira, um desenho polícromo primorosamente executado pelo neto Vicente. Diz AVO, o circunflexo ausente, HENRIQUE. Encontra-se ao lado de caricaturas do subscritor. Há uma do Vasco, outra do Bandeira, outra do Júlio Gil, ainda outra do mano Zambujal e, finalmente, uma do goês Mário Miranda, na qual este vosso criado toureia, com o casaco, uma vaca sagrada, no caminho de Bombaim, agora Mumbai para Goa.

Uma amiga do Paulo (o nosso, do meio), giraça, 1,82 metros convenientemente recobertos natural e curvilineamente, a Milena, na primeira vez que aqui chegou disse que era um verdadeiro museu. Exagero, meninos, exagero. Porém, vindo de um exagero de moça, perdoa-se.

Ando a congeminar de há uns tempos para cá, se devo fazer um seguro. Mas, cada vez mais, tenho dúvidas, isto apesar do Luís Carlos, o nosso benjamim, ser director jurídico de uma Seguradora multinacional. Bancos e companhias de seguros já tiveram melhores dias, ainda que os respectivos lucros sejam o que se vai sabendo.

Chegado aqui, poderão Vocências perguntar, mas o que é temos nós com isso? E, deixem-me que vos diga que perguntarão muito bem. Não aceitando visitas guiadas naturalmente pagas, porquê esta publicidade, mesmo esta propaganda descarada e desaustinada? Depois das convenientes e justificadíssimas desculpas aos que ainda aqui vêm, passo a explicar. São os elefantes. São o quê, ponto de interrogação. Os elefantes.

Os já citados proboscídeos, de materiais e formatos assaz diferentes – só um exemplo: um, vietnamita, é um banco, sem tirar nem pôr – têm uma característica igualzinha, uma espécie de máximo divisor comum que se estudava na malfadada matemática. Todos eles estão de rabo virado para a porta de entrada. É um hábito, uma prática, um costume oriental na generalidade e indiano na especialidade.

Prontos, sem s. Aqui chegado, encerro a escrevinhadela. Mas não posso deixar de apontar, in fine: há os que nasceram com o cu virado para a lua; os paquidermes são mais para a porta.

Causa Pia

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Por João Paulo Guerra

O CHAMADO processo Casa Pia chega hoje não ao fim mas, quando muito, ao início de uma nova fase que ameaça ser tão delongada como a que ficou para trás.

O processo em julgamento leva oito anos mas em Portugal não se faz justiça: vai-se fazendo uma coisa vagamente parecida. Entretanto, as vítimas não deixaram de ser vítimas, embora aviltantemente ressarcidas em metal sonante, enquanto os arguidos passaram à categoria de condenados no inquisitório tribunal da opinião pública. A justiça em Portugal admite e permite tudo isto.

Ao fim de oito anos de desenvolvimento do processo persistem alguns mistérios na investigação do hediondo crime da pedofilia em Portugal. O primeiro, que nasce com o próprio processo, é o mistério dos nomes, referidos quer por alegadas vítimas quer por supostas testemunhas, que jamais foram investigados. O facto fez e faz pairar dúvidas de encobrimento desde o início sobre o processo. A investigação definiu um ‘casting' de discretos arguidos, apenas com um mediático cabeça de cartaz, e ficou por aí. E assim, ao contrário de todos os demais países onde se revelaram e investigaram casos de pedofilia, em Portugal não há no leque dos acusados representantes de sectores da sociedade como sejam a política, a magistratura, a religião. Ao mesmo tempo, uma simples suspeita, não confirmada em acusação, permitiu a decapitação do que à época era o principal partido da oposição.

Na politização do processo cruzam-se todos os mistérios e movimentam-se todas as figuras que de um dia para o outro descobriram esta causa pia e se graduaram em grandes arautos da defesa das vítimas, passando a colaborar decisivamente com a investigação policial.

Esta sexta-feira começa nova fase do caso. Mas há dúvidas que jamais transitarão em julgado.
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«DE» de 3 Set 10

Passatempo-relâmpago de 3 Set 10 - Solução

Projectos (nunca realizados) de embarcações francesas para invasão de Inglaterra. A ideia é de 1798, do Directório. A divulgação foi feita pelo Daily Mail.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Crueldade

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Por João Paulo Guerra

NO ANO Europeu do Combate à Pobreza e Exclusão Social, Portugal já regista um recorde nacional absoluto, o do desemprego.

Segundo o Eurostat, a taxa de desemprego em Portugal atingiu em Maio e Junho os 11 por cento, o que constitui um novo máximo histórico. Mas para que o drama do desemprego não seja tratado apenas através da fria indiferença dos números, há ainda um outro máximo entre as notícias diárias sobre extermínio de postos de trabalho.

O caso passou-se em Arouca, na fábrica de calçado Pinhosil, onde as 18 trabalhadoras da empresa, no dia do regresso de férias, foram despedidas por ‘sms'. O patrão da Pinhosil já tem cadastro em matéria de encerramento de empresas. Em 2006 fechou a empresa Pinho Oliveira, num contexto que os trabalhadores jamais viram explicado. Mas a questão actual é que, talvez para desmentir a proverbial tacanhez tecnológica do mais esfarrapado tecido empresarial português, desta vez o patrão foi de modas e lançou mão do ‘short message service' para mandar para casa as trabalhadoras da empresa. Os salários de Julho e Agosto, metade do subsídio de Natal de 2009 e o subsídio de férias deste ano terão ficado por pagar, mas isso não coube no formato ‘short' da ‘message' patronal.

Está assim inaugurada uma modalidade de comunicação entre empregadores e empregados, desempregadores e desempregados, mais imediata, expedita e desburocratizada. As formalidades do despedimento são desmaterializadas e transmitidas por via telefónica em mensagem de texto de sentido único, evitando assim recriminações e até mesmo eventuais desacatos. Claro que haverá quem considere que se trata de uma relação desumanizada, brutal e de extrema crueldade. Mas a crueldade, tal como a estupidez, não paga impostos.
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«DE» de 2 Set 10

O extremo da aberração

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Por Baptista-Bastos

"HÁ RECEITAS para a felicidade?", perguntava, no Diário de Notícias, num dos seus habituais excelentes artigos, o padre Anselmo Borges. É uma busca quase desesperada, esta, que o ser humano empreende desde a idade da razão. O caminho para Deus é uma das hipóteses; a hipótese religiosa, bem entendido. Mas, pergunto, a hipótese política não conterá, em si mesma, algo de religioso? Saint-Just, na Convenção de Paris: "A Revolução Francesa proclama que a liberdade é uma ideia nova na Europa, e que a felicidade é possível entre os homens." A liberdade e, por acréscimo, a felicidade proclamadas como decreto suscitam todo o tipo de apreensões. "Mas é um princípio", para relembrar o que escreveu o filósofo católico George Santayana.

Tudo está em aberto, como se pressupõe do artigo do padre Borges, aliás minha leitura semanal. É evidente, porém, que o combate à desgraça, à injustiça, à corrupção, às iniquidades sociais configurará, sempre, uma possibilidade moral. E a consequente denúncia de um sistema predador, que torna o homem dependente de uma lógica económica insustentável, é uma imposição a que nenhum homem de bem, nenhuma instituição (como, por exemplo, a Igreja) deve fugir. Essa imposição estabelece um compromisso consigo mesma, afinal um ponto decisivo para se questionar o processo histórico.

A fome, a exclusão, são produtos típicos das novas relações de poder, nascidas da implosão do comunismo. As "regras práticas" indicadas num estudo do pensador Richard D. Precht (desconheço quem seja) e referidas pelo padre Borges, consistem, afinal, na ocupação do cérebro pelo trabalho, na constituição da família, na fruição dos prazeres simples, no entendimento das nossas limitações e na arte de se saber lidar com as dificuldades. Há qualquer coisa de passividade bucólica, nesta espécie de breviário da resignação, onde se lê estas frases surpreendentes: "Não se pode viver obcecado com o futuro. Quem só espera vir a ser feliz, nunca o será."

Pode-se, em recta consciência, acabar com a esperança que a ideia de futuro acalenta e estimula? Não são "os amanhãs que cantam"; é a própria natureza do homem que o impele para a idealidade. Brecht: "Os homens são feitos da mesma matéria de que são feitos os sonhos." A felicidade não se promulga por decreto, mas deve ser uma demanda infatigável e intransigente num mundo que, inclusive, está a perder a fé no homem. Emmanuel Mounier, que muitos cristãos deviam ler com mão profusa, reivindicava, simultaneamente, a revolução espiritual e a revolução das estruturas.

A nossa infelicidade advém de tudo estar submetido à hierarquia do lucro, e de o lucro ter sido erigido à categoria de necessidade total da pessoa humana. Eis a aberração levada ao extremo.
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«DN» de 1 Set 10

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Passatempo-relâmpago de 1 Set 10 - Solução

Era uma máquina eléctrica para fazer crescer (ou apressar o crescimento).
O passatempo foi, pois, ganho por Bruno.