quarta-feira, 11 de Novembro de 2009
Os mortos de Andorra
A MORTE COMPORTA, em si mesma, muito de insolente e algo de escandaloso. Aqueles portugueses que morreram no túnel de Andorra deixaram de ter nomes e passaram a ser números. Quantos? Em rigor não se sabe. Foram para um sonho e não sabiam do perigo. Um deles esteve doze horas, doze horas!, com as pernas entaladas sob toneladas de betão e de ferro, sem se libertar das contracções dos músculos, até que. As dores eram inimagináveis. Animaram-no com frases nas quais a piedade e a compaixão foram o conforto desmembrado de quem sabe que as coisas estão irremediavelmente acabadas. O homem gelara; colocaram-lhe nos ombros e no tronco que sobrava cobertores sobre cobertores. Até que.
Os mortos de Andorra assumem um carácter exemplar pelo que reflectem de abandono, de exclusão, de rejeição - e de uma epidemia social, consubstanciada na modificação do estatuto das pessoas, que nada consegue extirpar. Duas frases talvez ilustrem a tragédia portuguesa. "O senhor tem medo?", perguntava, ingénua e tola, uma jovem jornalista a um operário antigo e versado. Que lhe respondeu, numa condensação de saberes: "Um gajo tem de ir procurar trabalho onde há trabalho!"
E, em Portugal, não o há. A mão portuguesa anda por aí além, numa viagem antiga que espera, em vão, fugir ao arbítrio. Percorre nações mais prósperas, inaugurando experiências nas fábricas, nas oficinas, na construção, sobretudo na construção, ocupando as frentes de trabalho mais duras, nas linhas de produção mais mortalmente ameaçadoras. Os outros recusam-nas; os portugueses aceitam-nas: a fome e a miséria no seu país são a mais forte aliança de todos os absurdos e de todas as violências. Naquele túnel de Andorra, desde as fundações e o alçar dos andaimes, quantos portugueses morreram? As estatísticas são omissas.
Mas eles voltam sempre; enganam o medo, foram habituados a esse roteiro que os obriga a deslocações forçadas. Procedem de aldeias das Terras Frias, fogem à angústia nacional, fazendo-se portadores de um ímpeto inextinguível e respondendo a um chamamento que vem de muito longe.
Nada nem ninguém protege estes milhares de portugueses sem trabalho que já deixaram de acreditar no céu; que blasfemam porque largados, desamparados, danificados; que não prevêem aquilo que dista; que se abandonam aos piores calvários e aos mais rudes sacrifícios; que acumulam fadigas e resignações e que morrem na inóspita desolação da ausência e do anonimato.
Que pensaria aquele português com as pernas sob toneladas de entulho?, na noite gelada, gelada e sem razão, na noite desprovida de misericórdia, naquela noite sem Deus, sem nada, sem milagres, sem explicação; uma noite arruinada e um homem meio soterrado a olhar atónito para aqueles que tentavam consolá-lo.
Que pensaria?
«DN» de 11 Nov 09
terça-feira, 10 de Novembro de 2009
Borboletas quânticas
Por Nuno CratoSERÁ QUE as tempestades na Florida foram causadas por uma insignificante borboleta, que agitou indevidamente as asas em Madagáscar? Ninguém acreditará que isso seja possível, mas é um dito que se tornou moda. Foi inventado pelo escritor de ficção científica Ray Bradbury, em 1952. Usa-se hoje para descrever o conceito matemático de caos.
A ideia é antiga. Já em 1860 o físico escocês James Clerk Maxwell falava da possibilidade de pequenas colisões entre moléculas criarem turbulência em gases. Trinta anos mais tarde, o matemático Henri Poincaré descobriu que um sistema gravitacional de três corpos, como o do Sol, Terra e Lua, podia ser muito instável. Mas foi o matemático e meteorologista Edward Lorenz que posteriormente tornou a ideia popular.
O interesse de Lorenz pelo problema despertou em 1961. Estava na altura a trabalhar num programa de computador para previsão do tempo e truncou um parâmetro. Em vez de introduzir 0,506127, escreveu 0,506, pensando que o resultado não iria diferir muito. Enganou-se. A previsão ficou completamente diferente. Lorenz corrigiu os dados e voltou a correr o programa. Obteve as previsões anteriores. Mas, em vez de ficar satisfeito com isso, interrogou-se sobre o que se tinha passado. Trabalhou o problema de forma mais geral e verificou que há sistemas matemáticos robustos, em que uma pequena modificação nas condições de partida não altera significativamente o resultado final. Mas há outros que são caóticos, como depois se veio a dizer, pois uma pequena alteração nas condições iniciais provoca diferenças gigantescas nos resultados.
A descoberta teve um impacto profundo na matemática pura e na análise de fenómenos físicos. Tornou-se claro que, mesmo em sistemas em que nada é deixado ao acaso, a previsão torna-se extremamente falível ou mesmo impossível, a partir de certa altura, pois seria necessário conhecer os parâmetros iniciais com absoluta precisão, o que nunca acontece, para conseguir prever com rigor a evolução do sistema. Do ponto de vista filosófico, o impacto da teoria do caos foi também importante, pois percebeu-se que a imprevisibilidade pode ser inerente à nossa apreensão do mundo, mesmo que os fenómenos sejam puramente determinísticos.
Onde não há a ilusão de determinismo é no mundo quântico. As partículas sub-atómicas têm um comportamento que, tanto quanto se sabe, é intrinsecamente imprevisível. Num conjunto de átomos idênticos, um núcleo de um desintegra-se e o do lado fica imperturbável, sem ser possível determinar porque um se porta de uma maneira e outro de outra. Não é caos. É aleatoriedade pura.
Numa experiência recente, contudo, um grupo de físicos da Universidade do Arizona conseguiu verificar comportamentos caóticos no mundo atómico (“Nature” 461, 768–771). Submetendo átomos de césio a oscilações de um campo magnético e de um feixe laser, notaram que os átomos, portando-se como um pião, mostravam uma estabilidade dinâmica em algumas áreas, e um comportamento errático noutras, reproduzindo as distinções clássicas entre o caos e a estabilidade dinâmica. É a primeira vez que estas características caóticas são observadas num sistema quântico. Que nos vai isso trazer? A beleza da resposta é que não se sabe: a ciência também é imprevisível.
«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 7 Nov 09
segunda-feira, 9 de Novembro de 2009
«Quanto indica a balança?» de 9 Nov 09 - Solução e prémios adicionais
2577 gramas- 1.º Carluz .. 2514 g .. erro = 63 g
- 2.º Ferreira.. 2666 g .. erro = 89 g
- 3.º AC .. 2480 g .. erro = 97 g
O 1.º classificado poderá indicar qual dos 3 livros prefere;
o 2.º classificado deverá indicar 2 dos 3 (por ordem decrescente de preferência)
o 3.º classificado ficará com o que restar.
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A partir deste momento, têm 24h para escreverem para premiosdepassatempos@iol.pt indicando preferências e morada para envio.
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Actualização: 'Carluz' escolheu o livro «Caim» e Ferreira escolheu o «Eva era Negra».
Assim, só é preciso que, dentro do prazo indicado, 'AC' indique morada, para que lhe seja enviado o livro de Lutero.
«Dito & Feito»
Por José António Lima
A OPERAÇÃO 'FACE OCULTA’ começou a desvendar uma rede de negociatas que envolve o submundo político-empresarial e uma miríade de empresas com participações do Estado: REN, Galp, EDP, PT, Refer, etc., etc. E veio demonstrar até que ponto está corroído pela pequena e média corrupção, pelo tráfico de influências e os favorecimentos a troco de subornos, todo o vasto aparelho formado pelos incontáveis cargos de designação pública, desde os quadros intermédios a decisores de topo.
Acresce que o sentido de serviço ao bem público e o sentimento de defesa do prestígio e respeitabilidade das instituições se degradaram a tal ponto que muitos dos que as representam nem quando se vêem envolvidos em investigações e processos judiciais sentem o dever de se afastar de funções.
Se, há uns anos, António Vitorino ou Jorge Coelho resignaram de imediato aos cargos públicos que ocupavam, para salvaguarda do bom nome das instituições, independentemente das responsabilidades a apurar, agora, Armando Vara ou José Penedos só suspendem funções ao fim de vários dias e empurrados pela força de várias pressões.
Na conferência organizada há uma semana pelo SOL para o lançamento do livro de Ernâni Lopes, A Economia no Futuro de Portugal, tanto o autor como Vítor Bento impressionaram pela lucidez e profundidade de análise sobre o «definhamento de Portugal» nas últimas décadas, os desequilíbrios que resultam «da acumulação do endividamento» de um país que «consome muito acima do que é produzido» e da inexistência de uma «elite dirigente» respeitada, de uma classe política com «uma base robusta de fundamentação moral».
Falando da importância do trinómio «valores/atitudes/padrões de comportamento», Ernâni Lopes acredita que, «em paralelo com o que de pior encontramos» na realidade portuguesa, «existe muito de são, de honesto e de esforçado». Os exemplos recentes, reconheça-se, não são, no entanto, os mais animadores.
Até o pilar de valores e comportamentos que pretende ser a Igreja católica mantém em funções um padre, o de Boticas, que tinha em casa um arsenal ilegal de armas, que negoceia empréstimos e juros com os seus paroquianos como um usurário, que acumula terrenos, casas e dinheiro.
Não foi Jesus que expulsou os vendilhões do templo, derrubando as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que aí comerciavam? Já nem a Igreja segue os seus ensinamentos.
«SOL» de 6 Nov 09
domingo, 8 de Novembro de 2009
A paragem da Carris - Solução

A IMAGEM de cima mostra melhor o local referido. O que se passa (segundo o que diz a PM e eu também tenho confirmado) é que a 'rapaziada' (especialmente madames) vai à sapataria e estaciona o carro mesmo em frente da loja. Assim, se aparece a polícia (ou a EMEL), vêm a correr tirá-lo ou dizer que foi só um bocadinho...A Vacina
Por Alice Vieira
O MEU AMIGO ANTÓNIO acaba de receber uma carta avisando-o de que, a partir do dia tal, deverá ir ao centro de saúde, das tantas às tantas, para lhe ser administrada a dose de Tamiflu a que tem direito.
O meu amigo António é mais novo do que eu, professor recentemente reformado. Solteiro e sem filhos, vive sozinho lá no seu casarão numa pequena cidade dos arredores de Lisboa, entre quadros, livros e música.
O meu amigo António não é obeso, não tem asma, não tem nenhuma doença crónica, não sofre de coisa nenhuma em especial e, evidentemente, não está grávido.
O meu amigo António não guia táxi, não é deputado, não atende ao balcão, e não pratica enfermagem nos tempos livres.
Além disso o meu amigo António teve a asiática em pequenino (“foi uma festa, fecharam as escolas todas!”) e parece que isso garante uma certa imunidade à gripe-A.
O meu amigo António olhou para a carta, leu-a e releu-a, e de repente começou a sentir-se mal.
Muito mal mesmo.
Porque, sendo uma pessoa absolutamente saudável, o meu amigo António sofre de uma doença absolutamente incurável : é hipocondríaco em altíssimo grau.
E neste momento anda a incomodar meio mundo (médico de família, médicos da urgência a que costuma recorrer, família, amigos chegados, meio chegados, afastados, afastadíssimos, vagamente conhecidos) para que lhe digam a verdade.
Ou seja: ele deve estar muito mal e não sabe.
Ele deve estar em risco de patinar e toda a gente lhe anda a esconder o seu estado.
“Ó doutor, o doutor já me conhece, eu aguento, juro que aguento, mas não me esconda nada! Se os serviços de saúde me convocaram — e olhe aqui, não há dúvida, é o meu nome todo... — é porque devem saber mais do que eu… Diga-me lá, doutor: é grave?”
O pobre do médico já lhe disse quinhentas vezes que ele não tem nada, está em óptimas condições de saúde, até a tensão é a de um jovem, nem colesterol alto, nada de nada.
Mas ele não se conforma: se os serviços de saúde o chamaram, é porque é prioritário; se é prioritário é porque alguma coisa de mal deve ter…
De vez em quando telefona-me e, em voz cava, pergunta:”já te chamaram?”
E eu vou sempre dizendo que não, mas ele que não perca a esperança, um dia destes se calhar lembram-se de que tive hepatite-C há 50 anos, e um cancro já lá vão mais de 20 — e também me consideram prioritária.
Mas ontem o António telefonou muito mais animado. Assim como se lhe tivessem tirado um peso de cima. É que segundo leu nos jornais, parece que os centros de saúde lá da cidade dele receberam doses de Tamiflu que nunca mais acabam, e por isso vai ser tudo vacinado a eito.
Respirou ele fundo e respirámos nós. A vacina pode vir a ser-lhe muito eficaz a prevenir a gripe, mas ia-o matando de coração.
«JN» de 7 Nov 09
sábado, 7 de Novembro de 2009
A crise – leonina
Por Antunes Ferreira
BOM FIM-DE-SEMANA começou ontem. O Governo viu aprovado o seu Programa na Assembleia da República, ele próprio sem saber muito bem como isso terá acontecido. Mas aconteceu. No final de dois dias de debate do programa do Governo na Assembleia da República, José Sócrates afirmou que o Governo saiu dali «com uma investidura parlamentar e, portanto, tem legitimidade para iniciar funções. Este é o momento para começar a trabalhar e de dar ânimo, esperança, confiança aos portugueses no sentido de resolver a crise».
Entretanto, a Face Oculta continua o seu andamento em bom ritmo, muito se dizendo que é apenas a face emersa do icebergue e que estão para vir a público outros nomes sonantes de elementos ligados à actividade criminal. O próprio primeiro-ministro foi acusado, segundo o semanário Sol, de ter feito um telefonema para Armando Vara. Sócrates respondeu que era o que faltava ele não poder falar telefonicamente com um amigo e camarada de longos anos.
Nos Estados Unidos, um oficial psiquiatra do Exército norte-americano, o major Nidal Malik Hasn, de origem palestiniana protagonizou um verdadeiro banho de sangue, ao matar na maior base militar do Mundo, Fort Hood, treze pessoas e ferir outras 30, a tiros de rajada de duas pistolas- metralhadoras. Dizem testemunhas que o assassino teria gritado durante a matança Allah Akbar, Alá é Grande. Ainda nos States, um cidadão atirou a matar no centro da cidade de Orlando. Resultado: um morto e cinco feridos.
Volte-se a Portugal. Somos o número um na lista de infecções de VIH/sida entre os consumidores de drogas na Europa e aquele onde o número de mortes devido à droga mais subiu. Os dados de 2007 revelam um aumento de 45% na mortalidade, mas o Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência alerta que este número é "inflacionado" pelo método usado pelas autoridades para as calcular. E os valores reportam-se a 2007, dizendo as autoridades que no ano passado e já neste as coisas melhoraram.
Tanto se falou e fala e falará sobre a maldita crise e as desastrosas consequências que originou no País. É certo que ela se estende por todo o Mundo, mas, nós fincamos os pés na terra e repetimos até à exaustão – com o mal dos outros podemos nós bem. Porém, vendo bem as coisas, a verdadeira crise, a que não tem nem pode ter similares – lembram-se do anúncio? – é a do clube leonino.
Porque, de tudo o que enunciei, nada foi tão importante como o momento exaltado que se vive no Sporting Clube de Portugal. Isso sim, isso é a crise. A demissão do treinador Paulo Bento motivou inclusive conferência de imprensa com a participação do próprio e do presidente dos leões, José Eduardo Bettencourt. Mesmo sem se zangarem as comadres, descobriram-se algumas verdades. Tamanha foi a atenção ao acontecimento, que ele mereceu transmissão televisiva em directo.
E, pelos vistos, os Portugueses - ou seja, nós - dispensaram muito mais atenção a esta singular ocorrência do que a todas as restantes com que iniciei estas linhas. E ainda a procissão ia a sair do adro e já surdiam da toca mais dois abandonos: o de Pedro Barbosa, o antigo futebolista que era, agora, o Director Desportivo do clube, bem como o de Miguel Ribeiro Telles, vice-presidente da SAD leonina. Caiu o Carmo e a Trindade no complexo desportivo Alvalade Século XXI.
O futebol verde-e-branco estava em permanente tem-te-maria-não-caias. A cabeça de Bento – que parecia realmente estar fora do prazo de validade – era, no mínimo, o que se esperava, apesar do famigerado Bento «for ever» do presidente do Sporting. Mas, de imediato, apareceram as carpideiras calinas dos nossos funerais. Uns quantos colegas do auto-demitido vieram pressurosamente afirmar que os leões não faziam ideia do excelente treinador que tinham.
Este é o nosso Portugal, onde a hierarquia dos acontecimentos tem uma escala muito especial. Este é o nosso Portugal onde a inversão de valores é regra e, parece, a corrupção também é. Este é o nosso Portugal onde o princípio de Peter tem aplicação plena. Somos assim – e ninguém nos dá a volta – que nós não deixamos.
sexta-feira, 6 de Novembro de 2009
quinta-feira, 5 de Novembro de 2009
A Tirania Infantil
ESTE VERÃO [2008] FUI AO NORTE onde convivi com algumas jovens mães. Reparei que não só observavam os movimentos dos filhos com um zelo patológico, como, ao fim do dia, pareciam besouros cansados. Pelos vistos, as férias grandes transformaram-se numa sucessão de actividades: ele são campos de férias, ele são aulas de pintura, ele são lições de equitação. No mundo moderno, as crianças são alvo de uma atenção que só lhes pode trazer prejuízos.
É natural que os pais desejem oferecer-lhes o melhor, mas há limites ao que podem fazer: uma educação primorosa pode dar lugar a um delinquente e uma infância descurada a um génio. É útil recordar que, em séculos pretéritos, os pais não se preocupavam com tal matéria. Aliás, ao longo da História, ninguém prestava atenção - excepto no caso dos príncipes – à educação. Na ficção oitocentista, há de tudo, desde relatos de bom comportamento, como as meninas da condessa de Ségur, a casos de rebeldes incorrigíveis, como Tom Sawyer.
Em Portugal, o meu exemplo preferido é o do queiroziano Fradique Mendes: «A sua primeira educação fora singularmente emaranhada: o capelão de D. Angelina, antigo frade beneditino ensinou-lhe o latim, a doutrina, o horror à Maçonaria e outros princípios sólidos; depois um coronel francês, duro jacobino que se batera em 1830 na barricada de St Merry, veio abalar estes alicerces espirituais, fazendo traduzir ao rapaz a Pucelle de Voltaire e a Declaração dos Direitos do Homem; e finalmente um alemão (…) se dizia parente de Emanuel Kant, completou a confusão iniciando Carlos, ainda antes de lhe nascer o buço, na Crítica da Razão Pura».
Se tivesse filhos menores, que não tenho, e se fosse rica, o que tão pouco é o caso, iria passar férias à quinta da Penha Longa, onde, segundo os jornais, há um «kids club», onde os pimpolhos aprendem golfe sem os pais terem de se mexer, o que lhes permitirá ler as recentemente editadas memórias de Churchill, Os Meus Primeiros Anos, uma revelação para quem pensa que os meninos têm de ser tratados como flores de estufa.
Agosto de 2008
A Jangada dos Tolos
O AUTOR LAUREADO (AL): Sr. Dr., cheguei a uma época da minha vida em que finalmente o meu labor incansável foi compensado. Vendo bastante por toda a parte e pagam-me bem. Mas aqueles ladrões do fisco ficam-me com tudo. O que me aconselha?
O Consultor Fiscal (CF): Que quer meu caro Mestre, isto é o país da inveja. Em vez de premiar o mérito, tributa-se. Mas talvez tenhamos algumas soluções. Qual a origem dos seus rendimentos?
AL: Uns são de cá, mas outros são do resto do mundo.
CF: Óptimo. Está disposto a mudar de país?
AL: Claro, estou farto desta piolheira. Este país não me merece.
CF: O que me diz de Londres, meu caro Mestre? Nem precisa de mudar a nacionalidade, basta residir lá. Tem uma vida cultural muito intensa: museus, música, teatro.
AL: Ora, ora… arte burguesa e decadente. Literatura e teatro que não estejam ao serviço da transformação social não me interessam nada.
CF: Claro, claro, meu caro Mestre. Esquecia-me que está de alma e coração com os explorados deste mundo. Como diz a canção: “De pé, famélicos da terra…”
AL: Não é canção, homem, é hino. Deixe lá isso. Em Londres as casas são caríssimas e está a ver-me a morar num bairro social com aquela gentinha? Outra solução.
CF (encavacado): Bermudas, Ilhas Caimão, Panamá?
AL: Detesto esses arrabaldes do imperialismo norte-americano. Um amigo da minha mulher falou-me das Canárias: diz que dá para uns arranjos fiscais muito interessantes. E está na União Europeia, essa coisa.
CF: Não conheço. Mas vou ligar para o nosso escritório em Madrid.
(Uns minutos depois)
CF: Já sei. Está tudo na net. É o Regime Económico Fiscal das Canárias, autorizado por Bruxelas por ser uma zona ultra-periférica. Como a Madeira, mas em bom…
AL: Madeira?! Eu não quero nada com a Madeira… Sempre ouvi dizer que aquilo era uma completa pouca vergonha.
CF: Não, não, é outra coisa. Até podemos sustentar que não é bem um paraíso fiscal. Mas se obtiver rendimentos e os reinvestir, ou fizer uma reserva, pode ter uma vantagem até 90%. Isso é que interessa!
AL: Reinvestir?! Então tenho que ser empresário? Homem, poupe-me. Eu não posso com essa gente. Não sou nenhum explorador do povo.
CF: Reinvestir é um modo de dizer. Tudo se arranja. Compra títulos de dívida pública das Canárias, com juros, ou certo tipo de activos e está reinvestido. Para os rendimentos vindos de fora, se conseguirmos que sejam tratados como royalties, a taxa é muito baixa.
AL: E isso não é ilegal? E não dará má-língua, falatório? Sabe, a minha imagem…
CF: Perfeitamente legal. E só nós, consultores fiscais, é que sabemos disto e não temos o hábito de falar de coisas que possam prejudicar os nossos clientes.
AL: E quanto aos rendimentos que vêm de Portugal? Como é que posso escapar?
CF: Mestre, os direitos de autor já pagam tão pouco… Mas faça uma fundação. Para a defesa do ambiente, ajuda aos mais pobres, essas coisas. Assim sempre tem um escritório em Lisboa. Dá sempre jeito.
AL: Boa ideia! E ainda hei-de conseguir que um político qualquer me dê uma sede. Até tenho uma debaixo de olho. Eu sei muito bem como se lida com essa gente…
«Expresso» de 31 de Outubro de 2009
quarta-feira, 4 de Novembro de 2009
Um herói solitário



A 1ª foto mostra a situação habitual à porta da minha casa. A 2ª mostra como - a meu ver... deveria ser sempre - o que só foi conseguido devido ao pilarete-pirata que se vê na 3ª foto, e que alguém ali colocou de noite. Ao fim de duas semanas, alguém se encarregou de o tirar, pelo que "a normalidade foi reposta".
Pilaretes - Alternativas
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Episódios da miséria humana
QUE SENTIDO É ESTE, para onde a História nos encaminha? Por todo o lado a corrupção alastra e substituiu-se aos ideais antigos e exaltantes de resolução das desigualdades, da exploração do homem pelo homem, da oposição entre o Norte e o Sul. Homens que respeitávamos pela lisura das suas vidas e pelo carácter exemplar das suas escolhas são, agora, acusados de suborno, fraude, perversão, e apontados à execração popular, por moralmente culpados de cupidez. A cupidez conduz a tudo, inclusive ao desprezo pelas regras sociais e pelas leis que as estruturam.
A "rede tentacular" descoberta, nestes dias, pela polícia, segue-se a outros escândalos tornados públicos e que o espectáculo mediático propende a simplificar, sem tentar analisar a raiz do mal. A nossa mórbida curiosidade exulta. Quando a Inquisição levava em fila os supliciados da intolerância, o povoléu, excitadíssimo, amontoava-se na Ribeira para assistir à queima. Como no século XVII, não conseguimos conciliar o respeito que nos devemos com a ideia de justiça que favorece a marca de uma identidade.
Somos, novamente, espectadores. Estamos, outra vez, regozijados com a miséria humana. Queremos sangue. Julgamos sem avaliar, acusamos sem saber, condenamos por inveja, por ódio, por oco ressentimento. Não nos envolvemos, o modo mais deplorável de recusa da cidadania. Mas apontamos, insinuamos, sugerimos, nomeamos. Situamo-nos no espaço público, mas sobrenadamos na sombra da infâmia e no aconchego da irresponsabilidade.
Haverá esperança numa sociedade em que tudo parece redundar em indiferença e conivências larvares? O Estado ausentou-se das suas funções fiscalizadoras. O Governo, mesmo perante a repetição destes enunciados, cumpliciou-se (pelos vistos) com os grandes interesses ligados à corrupção, ao suborno e à venalidade. O caso de João Cravinho é significativo. Propõe um projecto contra os corruptos e, numa compensação inquieta, é mandado para Londres, com um ordenado de luxo. Agora, nesta "Face Oculta", a porta não foi segura pela pessoa que ia à frente: só assim se justifica o facto de a imprensa ter sabido das investigações no tempo em que as devia saber.
As coisas irão ficar pela superfície? Na esfera pública, a dimensão a que as questões chegaram e o envolvimento, no esquema, de "gestores", políticos, advogados são de tal maneira graves que se torna difícil encobri-los ou dissimulá-los. A separação de poderes é um dos embustes sob os quais vivemos: tudo ocorre através de canais de informação, e os compromissos assumidos obedecem a pagamentos de favores. A "rede tentacular" não dispõe, somente, de um sucateiro do Norte. Foi apanhado. Mas há outros. Talvez os portugueses tenham um sobressalto de protesto e de indignação. Talvez.
«DN» de 4 Nov 09terça-feira, 3 de Novembro de 2009
segunda-feira, 2 de Novembro de 2009
A ciência terrena
Por Nuno CratoCOMO TEMOS A CERTEZA de estar a horas? Acertando o nosso relógio com um sinal horário ou com algum dos servidores disponíveis na Internet - é claro! Esses relógios de referência verificam o tempo por um sistema de relógios atómicos, que são os melhores marcadores de tempo que temos. Conseguimos uma precisão impensável até há algumas décadas.
Antes dos relógios atómicos - o primeiro foi inaugurado em Washington em 1949 -, o marcador de tempo mais preciso que se conhecia era o céu. Vem daí a tradição de serem os observatórios astronómicos os responsáveis pela hora legal.
Como podia o céu servir de relógio? Olhando para o firmamento pode-se seguir o movimento da Terra, pois é a rotação do nosso planeta que nos dá a ilusão do movimento dos astros. Seguindo-os, pode-se marcar o tempo, pois a velocidade de rotação do nosso planeta, não sendo perfeitamente uniforme, é suficientemente precisa para todos os propósitos práticos imagináveis até há algumas décadas.
Este e outros usos práticos da astronomia estão agora patentes numa exposição que abriu na antiga Escola Politécnica, em Lisboa, no actual Museu de Ciência. Com o título "Medir os céus para dominar a Terra", a mostra assinala o Ano Internacional da Astronomia de uma maneira singular. O tópico da exposição são as aplicações terrenas da astronomia, que constituíram muitas vezes o maior incentivo ao desenvolvimento desta ciência.
Medir o tempo foi um dos primeiros usos da astronomia. A construção de relógios de sol, muito bem tratada na exposição, necessitou de conhecimentos pormenorizados sobre o movimento aparente da nossa estrela. Mais tarde, a medida mais precisa do tempo baseou-se na passagem meridiana das estrelas e noutros acontecimentos celestes possíveis de marcar com maior exactidão.
Outro dos importantes usos práticos da astronomia foi a navegação. A princípio, fez-se uma medida rudimentar da latitude do lugar vendo a altura da estrela polar: quanto mais baixa esta estivesse mais perto se estaria do equador. Portugueses e outros desenvolveram a navegação astronómica transformando esta ideia aproximada numa técnica rigorosa. Fizeram-se medidas precisas da latitude dos lugares usando a Polar, o Sol e, depois, estrelas austrais que a Cruzeiro do Sul indicava. Para isso, construíram-se e aperfeiçoaram-se instrumentos e tabelas astronómicas.
Nesta exposição, o Museu de Ciência da Universidade de Lisboa mostra vários astrolábios, sextantes e outros instrumentos que permitiram a navegação orientada pelos astros. Tem também actividades para os mais jovens, que podem ser navegadores virtuais tirando medidas de alturas com réplicas de instrumentos da época.
Igualmente interessante é a forma como os céus ajudaram a medir a terra. Serpa Pinto, pioneiro da travessia de África, explica no seu relato de viagem como observava os satélites de Júpiter para perceber as coordenadas do local em que estava. A mostra da Politécnica explica como observações desse tipo permitiam medir as coordenadas do lugar e exibe instrumentos de topografia e muitos documentos históricos da cartografia portuguesa. É uma exposição que nos mostra a astronomia como ciência terrena.
«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 31 de Outubro de 2009
domingo, 1 de Novembro de 2009
«O quarteirão-mistério» - Solução
A imagem afixada é uma parte do navio de cruzeiros MSC Orchestra - ver [aqui], que nesse dia estava atracado em frente Museu Nacional de Arte Antiga, de cujos jardins a foto foi tirada...sábado, 31 de Outubro de 2009
sexta-feira, 30 de Outubro de 2009
A Face Descoberta
Por Antunes Ferreira
DIZ-SE POR AÍ que este País já não tem ponta por que se lhe pegue; outros, um tanto mais radicais, afirmam mesmo que Portugal já não tem remédio. E citam-se exemplos os mais diversos para justificar tais afirmações. Que, como bastas vezes por aqui, não têm face, são fruto desse diz-se de que nós, Portugueses, tanto gostamos e que utilizamos por dá cá aquela palha. É uma das faces nacionais. A outra reside na maneira de respondermos a um simples «como vais?»
De há muito adoptámos o assim, assim. Enquanto por esse Mundo fora, as pessoas andam bem ou andam mal, frontalmente, nós refugiamo-nos nessa vaga referência, que, de resto, não se confina ao eterno assim, assim, antes se reveste de outras fórmulas: nem tanto ao mar, nem tanto à terra, antes assim do que pelo contrário, vai-se indo como se pode, etc.
A «Face Oculta», como se sabe agora, é uma operação desencadeada pela Polícia Judiciária e que investiga uma alegada rede de corrupção entre diversas pessoas e entidades, através de modalidades como o tráfico de influências, as contrapartidas políticas de favores, as luvas, tudo isso que configura práticas com características criminosas.
O caso complexo continua em averiguação e já há treze arguidos, um dos quais, o empresário Manuel Godinho, de Ovar, se encontra detido. Na base do procedimento estará a «02 – Tratamentos e Limpeza Ambientais». Outras haverá. A expressão «rede tentacular» foi usada sem que a PJ a tivesse desmentido.
Entre os outros doze, encontram-se nomes sonantes: Armando Vara, José Penedos e Paulo Penedos. Sobretudo os dois primeiros – que já fizeram parte de Governos do PS – estão na berlinda, que o mesmo é dizer andam nas bocas do Mundo. Numa situação que popularmente era classificada como tem-te-maria-não-caias, hoje um tanto caída em desuso, Vara já veio a público declarar que está inocente. Outra coisa não seria de esperar…
Repudio energicamente os julgamentos populares, os juízes da praça pública, as acusações bombásticas, nomeadamente as veiculadas através de órgãos da Comunicação Social. No meio século que levo de jornalista, se há algo que não me pesa na consciência, coisas dessas nunca pratiquei. Poderei ter feito algumas coisas menos boas, mesmo más. Mas, adiantar-me ao que são as decisões dos tribunais não consta do currículo que julgo possuir.
Porém, cada vez mais há que alimentar as massas populares – expressão que não aprecio muito – com géneros os mais sangrentos possíveis. Com a feroz concorrência que existe no mercado da Informação, com a necessidade de angariar mais consumidores e, daí decorrente, a cada vez maior precisão de publicidade que ajude a minorar as gestões deficitárias (quase todas), uma escandaleira destas sabe que nem ginjas.
É difícil controlar esses apetites da sociedade em que vivemos e que todos nós ajudámos a construir, de uma forma ou de outra. Para além dessa dificuldade, seria preciso um verdadeiro trabalho de Hércules para que tal acontecesse. Por isso, a pena antes do julgamento e da sentença judicial é fruto tão apetecido que, perante ele, a maçã do Paraíso nem sequer poderia aspirar a corresponder à normalização comunitária.
Está aqui colocado mais um desafio – e de que dimensões – à Justiça portuguesa, acusada de morosa e desacreditada e em muitos casos ineficaz. Se não avançar com a celeridade que se exige, não faltará quem diga que ela não vai assim, assim: vai de mal a pior. Ou, mais grave: não tem remédio.
Abaixo o Ruído!
Por Maria Filomena Mónica
A ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE considera que o limite de ruído ambiental a partir do qual começam a existir efeitos nocivos para os seres humanos é de 55 decibéis. Vários estudos demonstraram recentemente que metade dos portugueses está exposta a estes níveis de barulho, sendo o trânsito a sua principal fonte, mas não é deste factor que desejo falar mas do tipo de ruído que nos cerca sem que lhe prestemos atenção.
Hoje, raro é o restaurante onde, enquanto almoço, não tenha de suportar música de fundo; não há antecâmara de consultório médico, onde não seja forçada a conviver com doentes falando ao telemóvel; não há jantares com amigos que não sejam interrompidos por SMS; não há sala de espera de aeroporto - com relevo particular para as VIPs - em que não ouça o bipbipbip dos mails recebidos pelos garotos que habitam estes espaços; não há elevador que não me ofereça uma musiquinha idiota; não há serviço, público ou privado, o qual, antes de me pôr em contacto com quem desejo falar, não me obrigue a escutar uma melodia; não há lanche de crianças em que não ouça os ringringring dos «Nitendos». Descendo na escala social, defronto-me, nas tascas, com aparelhos de televisão eternamente ligadas, nos hipermercados com os nininini das máquinas registadores e, nos logradouros de Lisboa, com os cães que passam o dia e a noite a ladrar.
Se exceptuar a sala de leitura da Biblioteca Nacional – e mesmo esta, devido à rota dos aviões, sabe Deus! – o meu quotidiano foi invadido por uma multiplicidade de ruídos. Isto chegou a um ponto tal que, há dias, indaguei da possibilidade de ingressar na Cartuxa onde, como se sabe, o silêncio é de regra. Ao tomarem conhecimento desta decisão, alguns amigos preveniram-me que a Ordem exigia uma condição, a obediência, que se não coadunava com o meu carácter. Sinceramente, não sei o que fazer para manter a sanidade mental. Se pudesse, comprava uma ilha na Escócia, o que mostra até que ponto o silêncio se tornou num privilégio dos muito, muito, ricos.
Maio de 2008
quinta-feira, 29 de Outubro de 2009
quarta-feira, 28 de Outubro de 2009
As luzes e a mariposa
Por Baptista-Bastos
O BOM GOVERNO é aquele cuja acção se não sente. O axioma é bom; mas é um equívoco. Todos os Governos têm a mão pesada; logo, não há Governos bons. Sobretudo para a arraia-miúda. E é esta miuçalha que ainda gosta dos que com ela se preocupam. Acredito que a função da escrita reside nesta modesta epítome. Levo tantos anos de batucar prosa que se desenvolveu fortemente em mim algumas induções rudimentares. Por exemplo: os Governos são todos iguais, com as ligeiras diferenças nascidas dos voos dos seus hábitos. Pragmáticos, dizem. A definição mais acabada de indiferença para com os laços sociais.
Este, agora, é uma mariposa encandeada pelas luzes das câmaras de televisão. Viu-se a esfuziante alegria dos "novos" ministros, limpos e asseados, na passarela da Ajuda, e os grupinhos dos excluídos, ligeiramente acabrunhados, a fazer contraste. José Sócrates, com o encanto secreto e frio que o distingue, apenas mudou de pele. Lá dentro, é o mesmo. E o discurso que proferiu no-lo reafirmou.
É estranho, ou não o será, o facto de os comentadores do óbvio terem passado, rápidos, sobre a aspereza das palavras do engenheiro. A debilidade do dr. Cavaco, depois do melancólico fiasco das falsas escutas, e da sua triste fuga às responsabilidades, foi sobrepujada pelo que Sócrates disse. E disse, muito naturalmente, ser ele quem manda, com os seus obedientes discípulos e com os áulicos que o incensam. Como "autoridade moral", o dr. Cavaco acabou. Desapareceu no funil por ele próprio construído. Aliás, o que disse foi pouco mais do que uma banalidade assustada. O dr. Cavaco está sempre mal neste tipo de cerimónias. Na Ajuda esteve pessimamente: ele era o indivíduo convidado a contragosto, o parente indesejado numa festa de arlequins.
José Sócrates tem as coisas na mão e a seu bel-prazer. Tudo vai gravitar à sua volta: a moral como ele a entende, e a ideologia da classe dominante, a que finalmente ascendeu. O PSD é um saco de lacraus, um ringue [Marcelo dixit] onde as questões se resolvem a murro, um concentrado de medíocres ambições. Não conta para nada, a não ser para a implícita conspiração permanente em que se enreda. Com os outros três do Parlamento pode ele muito bem. Aqui e ali estabelecerá relações de "civilidade", outra palavra no circuito de quem claudica ante todas as vergonhas. Ali e acolá inventará práticas e conivências que lhe permitirão sobrenadar numa sociedade sem debates, num país sem pudor, sem respeito e sem dimensão colectiva.
As coisas são o que são. E parece impossível escapar a estas tensões e às implacáveis exigências de um tempo que perdeu de vista o reconhecimento da solidariedade e da igualdade. O horizonte da democracia avançada está cada vez mais distante. Mas há quem não desista.
«DN» de 28 Out 09
terça-feira, 27 de Outubro de 2009
Passatempo Calimero - Solução (discutível...)
Imagem "A", depois de invertida "ao espelho".-oOo-
Quando as três faces de menor valor estão visíveis, a sequência 1-2-3 aparece no sentido oposto ao movimento dos ponteiros do relógio.
segunda-feira, 26 de Outubro de 2009
Só nos faltava mais esta!
Por Maria Filomena Mónica
AO LONGO DOS SÉCULOS, enquanto o adultério feminino era fortemente criticado, o masculino era visto com tolerância, uma posição tanto mais cómica quanto era muitas vezes acompanhada da tese de que as mulheres não tinham prazer na cama, ou, alternativamente, como dizia Proudhon, que haveria dois tipos de mulher, a esposa e a prostituta. Do orgasmo, não queria saber a primeira; a segunda não pensava noutra coisa.
Depois que, em 1970, Germaine Greer publicou The Female Eunuch, o prazer feminino foi afirmado à exaustão. Assustados com tal possibilidade, os homens encolheram. A sua reacção, quer na versão simples quer na recalcada, foi sobretudo visível no macho latino, a que o género português pertence. Com a sua habitual lucidez, A. B. Kotter dizia há tempos: «Os homens portugueses ficam meninos toda a vida e finalmente acabam com complexos de masculinidade». Ninguém o expôs melhor.
De facto, os homens não podiam ficar inertes, pelo que recorreram ao velho truque de tornar científica a primeira palermice que lhe ocorresse. Uma equipa de investigação sueca acaba de afirmar que o adultério masculino estaria associado a uma variante genética, ou seja, que, de cada vez que um marido põe os palitos à mulher, isso não significa que tenha deixado de gostar dela, mas apenas que tem, no cérebro, um gene regulando a acção de uma hormona, a vasopressina, que o obriga a ser promíscuo. Num ápice, a sua responsabilidade desapareceu.
Perante isto, as mulheres têm um caminho a seguir: exigir dos noivos que se sujeitem a um teste que presumivelmente detectará se, no respectivo organismo, existem vestígios da tal vasopressina. Dado que, em cada cinco, apenas dois são potenciais adúlteros, fica ainda uma maioria de entre a qual poderão escolher. Uma vez que ninguém gosta de levar para casa uma mercadoria danificada – e um marido geneticamente infiel como tal deve ser rotulado – aconselho as jovens a seguir o meu conselho.
Setembro de 2008



























