segunda-feira, 21 de Dezembro de 2009

Partidas do Pai Natal - (com um alerta aos matematicofobos)

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Por Nuno Crato

NÃO E SÓ NO CARNAVAL que se pregam partidas. Nesta época festiva, o Pai Natal anda pelas lojas a inventar promoções especiais. No outro dia encontrei-o junto às prateleiras do supermercado, mesmo ao pé dos pacotes de sumo de laranja. Estava a rir-se às bandeiras despregadas. “Imagina tu”, disse-me ele, “que acabei de fazer um acordo com o gerente que me vai permitir comprar um número ilimitado de presentes para a criançada.”

Explicou-se. O gerente tinha uma promoção de sumo de laranja com 20% de desconto. Cada litro, que originalmente custava um euro, ficava a 80 cêntimos. O Pai Natal propôs-lhe uma coisa diferente. Ele venderia pacotes com 1,2 litros pelo preço de um litro. Por cada litro oferecia 20% de sumo adicional.

“Mas isso é o mesmo! É uma promoção de 20%” exclamei. «Foi o que o gerente me disse», respondeu-me o velhote, “e eu propus-lhe um negócio; comprava-lhe todo o sumo que tivesse e depois, ainda lhe fazia um favor, vendia-lhe o mesmo sumo com uma promoção de 22%. Por cada euro que ele me desse dava-lhe 1,22 litros de sumo.”

Comecei a pensar que o Pai Natal estava pílulas, mas já o ano passado ele me tinha pregado uma partida em que me saí mal e resolvi calar-me. O homem continuava a rir-se: “Depois ainda fiz melhor, combinei que podia repetir o processo. Ou seja, depois da compra e venda, comprar-lhe-ia tudo outra vez a 80 cêntimos por litro e revender-lhe-ia a um euro por cada 1,22 litros. Se fizer isto muitas vezes arranjo dinheiro para comprar presentes para todos os miúdos do mundo.”

Comecei a perceber. O velhote, afinal, vendia o sumo a quase 82 cêntimos por litro, que é o que arrecada de vender 1,22 litros por um euro. Se repetisse a brincadeira podia fazer o dinheiro que quisesse. O homem viu-me a pensar e concluiu: “Este pessoal julga que um desconto de 20% é o mesmo que uma promoção de 20%; se calhar, quando vão ao banco, pensam que uma taxa de juro de 12% ao ano dá 1% ao mês. Grandes totós!”

Hesitei um pouco: então 12 a dividir por 12 não é 1? Mas desta vez o Pai Natal estava mais cooperativo: “Se me deres cem euros e eu os puser no banco a 1% ao mês, ao fim de um mês tenho 101 euros. Volto a depositá-lo e ao fim do segundo mês tenho 102,01. Repetindo o processo, ao fim dos doze meses tenho mais de 112,68 euros. É pouco mais do que os 112 que resultam dos 12% ao ano, mas imagina que puseste no banco cem mil euros, a diferença já é razoável.”

“É a diferença entre juro composto e simples”, aventurei; mas o Pai Natal não gostou do atrevimento: “Ah, com que então achas-te muito espertinho?! Pois vê se respondes a esta: ‘Se um relógio demora seis segundos a bater as seis horas, quanto tempo demora a bater as doze?’ Aposto cem euros em como te enganas.”

Fiz a aposta e perdi. Não é que bater seis badaladas demora menos de metade do que 12? Raio do velhote! Vou ver se recupero o meu dinheiro repetindo a aposta no Ano Novo. Há aí muito pessoal avesso às contas que vai cair na partida.

«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 19 Dez 09

sábado, 19 de Dezembro de 2009

Passatempo-relâmpago de 19 Dez 09 - Solução

O Salvador da Pátria

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Por Alice Vieira

O SR. LUÍS CONCEIÇÃO guia o carro n.º 25 de uma cooperativa de táxis de Oeiras.

Apanhou-me naquele descampado que é, à noite, a TVI, e quis logo saber se eu era figurante.
Eu estava estafada, e não dei grande troco.

Mas nem vale a pena falar, porque o Sr. Luis Conceição só quer que o oiçam, e a tudo responde:

- Só conto ao Sócrates.

O Sr. Luis Conceição, que diz já ter feito de tudo na vida, desde pertencer à Marinha Mercante que, segundo afirma, lhe está a dever milhares de contos, até andar pelas Américas, tem um plano infalível para pôr Portugal no primeiro lugar entre todos os países do mundo, no que toca a bem-estar, emprego, saúde, cultura, tudo.

Claro que é um plano que, à partida, exige algum investimento mas, ele já fez as contas, estará completamente pago “dentro de 14 a 21 anos”.

Garante que é um plano facílimo, já completamente estruturado na sua cabeça, - mas não cai na asneira de o divulgar.

Ele quer, pura e simplesmente, enfrentar o Primeiro-Ministro na televisão. Mas também só divulga o plano depois de o nosso Primeiro lhe passar uns milhõezitos para as mãos (“olhe que é mais barato que esse TGV que não serve para nada!”)

De repente vem-me à cabeça uma rábula de uma revista do Parque Mayer, em que a Dora Leal, fazendo de cigana à porta de uma barraca da Feira Popular, berrava: “Um escudo, um escudo, e a Dora diz tudo!”

É claro que isso já foi há muitos anos, o custo de vida aumentou muito, a inflação é o que se sabe e, por isso, por um escudo já ninguém diz seja o que for.

Mas por alguns milhões, o Sr. Luís Conceição dá a receita da felicidade.

Já tentou a televisão, mas respondem-lhe que, se ele não escrever exactamente aquilo que pretende lá ir dizer, nada feito. E ele não vai nessa, tá quieto ó mau, ele revelava o plano e depois outros apropriavam-se dele, não? Garante que não quer enriquecer, mas apenas uma vida desafogada. O que não é muito para quem tem nas mãos o santo-e-senha da entrada para o paraíso.

Interlocutor só aceita um: José Sócrates.

E é bom que Sócrates se apresse. Primeiro, porque o país está numa crise que não aguenta mais. Segundo porque, se a resposta tardar, ele vai direitinho a Espanha oferecer (“oferecer” é, como já vimos, uma força de expressão) os seus serviços.

Eu, se fosse ao engº Sócrates, apressava-me a mandar chamar o sr.Luis, antes que ele — mesmo sem TGV — desande para Espanha.

Há alguns séculos houve um tipo que fez isso como pretexto para dar a volta ao mundo — e ficou-nos sempre atravessado…

Quando quiser, Sr. Primeiro-Ministro, é só dizer, eu tenho todos os contactos. Até porque o Sr. Luis prometeu fazer a minha felicidade se eu o ajudar a fazer a felicidade de toda a gente.
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«JN» de 18 Dez 09

Mudar o clima

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Por João Duque

QUERO MUDAR DE CLIMA, de mood. Estou cansado de falar em obra pública e na capacidade que muitos destes projectos têm em destruir valor às futuras gerações de portugueses.

Quero mudar de clima e acreditar que a educação e a inovação vão salvar Portugal. Não tendo matérias-primas, mas com uma excelente localização para podermos ser porto de entrada e saída de produtos por via marítima, ou aérea, vou acreditar que temos ainda uma hipótese de podermos liderar o desenvolvimento de produtos inovadores que possam dar ânimo e alento aos jovens portugueses que como eu querem mudar de clima.

Quero mudar de clima. Tentar ser mais rigoroso e optimista na esperança de que os decisores do meu país vão decidir sobre os bens públicos com a mesma consciência e zelo que teriam ao decidir sobre os seus próprios bens.

Quero mudar de clima e acreditar que ainda é possível dar a volta a Portugal sem sermos postos para fora do euro, sem passarmos por um colapso económico, com descida acentuada do preço da mão-de-obra a competir com chineses sem qualificação nem direitos, nem fuga massiva da população e miséria a rodos.

Quero mudar de clima, ajudado por um governo que aposta no desenvolvimento de Portugal e que o não sufoca com impostos, burocracia, corrupção, compadrio, amizades escandalosas, justiça entediante ou endividamento letal para ocupar uma população que constrói colossos.

Os egípcios também construíram pirâmides. Consumiram-se nelas que lhes foram servindo de túmulos e não passam hoje de atracção turística...

Diz a teoria que onde estiverem as ideias e os meios humanos e tecnológicos estará o capital, porque ele apoiará essas iniciativas porque é delas que ele vive. E isso não é mau.

O capital é, aliás, um dos melhores juízes sobre a capacidade de empreender e concretizar. Gosta de arriscar mas não o faz desprovido de sentido.

Quero mudar de clima para poder voltar a viver o sentimento de Primavera, em que os pássaros que querem batem as asas e voam. Sonham ir mais alto e mais além e conseguem-no porque não são tolhidos por redes assassinas, por leis estúpidas entorpecedoras.

Já imaginaram como era bom se Portugal sorrisse com a alegria e a esperança do Brasil, com a riqueza e a certeza de Angola e com a bondade e a generosidade de Moçambique?

É tempo de arrumarmos a casa muito bem arrumada, e com tudo no lugar e de jeito organizado, voltarmos um pouco ao triângulo dourado como lhe chama Murteira Nabo para daí colhermos a ajuda e a força que podemos.

Voltemos ao mar e aos nossos velhos e conhecidos portos. Procuremos, onde nos entendem, o que já não encontramos aqui, nesta terra velha e cansada e sejamos verdadeiramente uma porta de entrada para os que falam a nossa língua, afinal a nossa Pátria amada.

Quero mudar de clima e viver num país onde a liberdade aceita a diferença, discute as ideias mas diz sempre a verdade. Que pode ser dura, mas que é a verdade. E por isso se aceita.

Quero mudar de clima. Alguém me ajuda?
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«Expresso» de 12 Dez 09

Cismo sobre o sismo

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Por Antunes Ferreira

POR MAIS INCRÍVEL que pareça, não me dei conta do sismo. E estava acordado. Sem tirar nem pôr. Quando a minha mulher me chamou, agitadíssima, da nossa sala de estar, face ao tom que ela usava, larguei o que estava a fazer, ou seja, a arrumar umas coisas para a nossa viagem a Goa, e cheguei ao pé dela, ainda os copos e demais quinquilharia que ali temos tremelicavam, campainhando.

Não percebi o que se passava. E adiantei que teria sido mais uma façanha dos vizinhos de cima. Não fora; fora um terramoto. Como a Raquel não bebera sequer um copito de vinho ao jantar, nem tinha aspecto de quem delirasse, sosseguei-a dentro do possível. Ela estava, naturalmente, muitíssimo assustada. «Pareceu-me que aquela parede dançava e ia cair em cima de mim. E tu, sem teres sentido nada!...»

Daí a minutos, a televisão dava conta do acontecido. Um senhor abanão: 6 na escala de Richter e 5 na escala de Mercali. E, na manhã seguinte, o Instituto de Meteorologia vinha comunicar que se tratara do maior registado em Portugal há 40 anos. Realmente, o último de respeito fora em 1969. Curiosamente eu também não o sentira. Estava em Angola, que, ainda que na altura fosse «nossa», não ligara nenhuma ao movimento telúrico. Coisas.

Claro que desde 17 de Dezembro do ano que ainda decorre, a notícia entre os meus amigos e, até, entre os meus conhecidos, não foi o abalo: foi o estranho facto de eu não ter nenhum abalo. Tive gente que me inquiriu por diversos meios se tinha sido verdade. De princípio, refugiei-me na contra pergunta: o sismo? Parece que sim…

No entanto, o que queriam saber era se era verdade o não ter-me apercebido da ocorrência. E tantos foram os inquiridores – acrescento que estou quase certo de que o Torquemada não fez parte deles, mas foi o que se pôde arranjar – que pensei criar uma resposta tipo a colocar no atendedor de chamadas e/ou no gmail: é absolutamente verdade. Não senti o sismo – e não estava a ressonar.

Quando hoje escrevo estas linhas são quase sete da noite. De sexta-feira, 18. Ou seja um dia e horas sobre o caso. Ainda não realizei bem o que se terá passado comigo. Bruxaria não foi, ainda que em tais apertos me recorde sempre «que las hay, las hay». Mas como não acredito, até prova em contrário, há que o dizer, em feitiçarias, amuletos, figas e correlativos, decidi abandonar a hipótese.

Eureka! Eis que me surge uma explicação para tão insólito desatino. Passo a enunciar o discorrido à guisa de explicação. Estamos situados numa fractura da crosta terrestre? Estamos, mas não chega. Ou antes, chega para terramoto, mas não para uma tal distracção. Temos antecedentes com muita gravidade? Temos, mas também não chega. De que vale recordar 1755, se também não o senti? O malandro do tempo tem destas coisas, ponto final, parágrafo.

Não adianta continuar. O que, na verdade, se passou e passa e, pelos vistos, passará, é o (mau) hábito que temos destes movimentos inquietantes. Que se podem considerar, no caso vertente, mais tsunamis do que simples sismos. Como assim? Não se admirem. Não é de difícil compreensão, o tema.

Não é que estamos habituados quotidianamente às corrupções pmg, ou seja, pequenas, médias e gigantescas? Não é que estamos habituados aos despautérios inqualificáveis do ainda Presidente da República? Não é que estamos habituados à «excelência» da Justiça que temos por cá? Não é que estamos habituados à morosidade processual essa sim criminosa? Não é que estamos habituados às guerras do alecrim e da manjerona entre os seus dois representantes de maior relevo, o PRG e o Presidente do STJ?

Não é, ainda, que estamos habituados às promiscuidades entre agentes de coisas e causas que se presumem independentes? Às fraudes desportivas, ao incumprimento dos contratos, às quebras de todos os sacrossantos sigilos que existiam (bem ou mal)? Não é também que estamos habituados às promessas inconcebíveis e irrealizáveis? Não é que, enfim, estamos habituados ao etc. e tal?

Cismo sobre o sismo. E face a todos estes encontrões que no dia-a-dia sofremos e a que nos habituámos, por que bulas, devia eu ter-me dado conta do que aconteceu às 01:37 de quinta-feira?

sexta-feira, 18 de Dezembro de 2009

Passatempo-relâmpago de 18 Dez 09 - Solução

1300 g
O vencedor tem 24h para escrever para premiosdepassatempos@iol.pt indicando morada e qual dos 3 livros prefere.

quinta-feira, 17 de Dezembro de 2009

Passatempo-relâmpago de 17 Dez 09 - Prémio


O Natal na empresa


Por João Duque

Dois jovens universitários encontraram-se nos bancos da faculdade em Outubro de um ano qualquer.

MIGUEL, ALTO E BELO, dava brilho e vida em tudo o que tocava. António ficava sempre na sombra. Trabalhava muito mais, mas não tinha nem o rasgo nem o brilhantismo do colega.

Nos exames Miguel obtinha sempre notas elevadas, concluindo sempre mais depressa e melhor, os exercícios ou os trabalhos. António só alcançava notas modestas. E mesmo com livros ou materiais iguais aos do Miguel, nunca seria capaz de tanta "categoria" da qual se gabava o Miguel.

Miguel tinha sucesso, tinha dinheiro, tinha namoradas bonitas e era bom aluno. Não tinha muito tempo para olhar em redor, mas isso também não era para ele importante.

Com o passar dos anos mais avançavam no curso e mais se afastavam as médias. Miguel era agora reconhecido pelos professores como um brilhante e promissor economista enquanto António parecia condenado a um lugar intermédio, com sorte, numa empresa estável.

Um dia, porém, Miguel teve uma aflição. Depois de um jogo de ténis em que esmagou o adversário (mais uma vez vencedor), ao entrar no balneário verificou que lhe tinham roubado o saco com o livro de estudo e todos os apontamentos. Os seus apontamentos! E agora? Acima de tudo estava a reputação de aluno brilhante e essa, ele não podia pôr em causa.

Ligou ao António pedindo-lhe ajuda, mas este negou-lha não cedendo nem os apontamentos, nem devolvendo o livro à Biblioteca para Miguel o requisitar. Apesar disso, Miguel tirou mais um 17 e António o 13 do costume.

Acabaram com notas diversas. António mal celebrou, acabrunhado no meio dos colegas, pelo seu desempenho modesto. Miguel era chamado aos palcos. Melhor aluno, mais celebrado e desejado pelas melhores empresas (e raparigas).

Anos mais tarde encontraram-se na mesma empresa onde António trabalhara desde sempre, sendo um antigo director da casa. Miguel, recém-chegado à direcção da firma, preparava-se para ascender rapidamente à administração. António apesar de mediano, sentia que tinha o direito a aspirar ao topo. Casado e com 3 filhos a estudarem, viu a mulher ficar desempregada em resultado da crise. Miguel continuava casado com uma executiva de sucesso, mas de quem não tinha filhos.

Três meses após a entrada de Miguel na empresa, soube-se que a empresa tinha "gorduras" para queimar, comunicando-se a extinção da direcção do António que, amargurado, percebeu que era o seu fim.

Miguel, sempre o mesmo, sentou-se na secretária e escreveu uma carta à administração. Saiu do gabinete, entrou na sala do presidente e depositou-lhe a carta nas mãos: uma carta de renúncia ao cargo. António ficou na empresa e ocupou o lugar do Miguel.

Era Natal de um ano qualquer, numa história que não é verdadeira, é apenas um conto de Natal.

Bom Natal!
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«DE» de 17 Dez 09

quarta-feira, 16 de Dezembro de 2009

Passatempo-relâmpago de 16 Dez 09 - Soluções


Um prémio e um homem

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Por Baptista-Bastos

O PRÉMIO PESSOA homenageia um homem e o seu trajecto social, artístico e moral. O prémio de 2009 é atribuído a D. Manuel Clemente e não se alarga à instituição a que ele pertence. Mas a possibilidade de se associar a Igreja ao homem será, porventura, abusiva; porém, a hipótese fica em aberto. E, caso D. Manuel Clemente não fosse bispo, o Prémio Pessoa ser-lhe-ia concedido?

De certo modo, o galardoado, pela sua activa e heterodoxa curiosidade intelectual, contraria a cultura de repressão, o arbítrio da verdade única, a cumplicidade com os poderosos de que a Igreja é funesto exemplo. Sem deixar de ser um "deles". A questão reside, quanto a mim, nessa contradição fundamental. De que modo D. Manuel Clemente objecta contra as regras e contraria os postulados da hierarquia, pesada e retrógrada, de que, afinal, faz parte?

Creio que nos limites das alternativas: pisando o risco da liberdade até que as autoridades eclesiásticas e afins digam: basta. Do padre Abel Varzim a D. Manuel Martins, passando por D. António Ferreira Gomes, sem esquecer D. Januário Torgal Ferreira, nem o padre Mário de Oliveira, da Lixa, e frei Bento Domingues (cujos artigos, no Público, incitam-nos a reflectir e a agir) - de uma maneira ou de outra, servindo-se dos processos que a cada um são caros, estes homens, sem negarem os votos, procuraram a assunção de um outro compromisso. É o que neles me interessa.

Conheço Manuel Clemente de um encontro televisivo que teve com José Saramago, na SIC, já lá vão largos anos. Raramente o diálogo entre um marxista e um católico atingiu níveis tão elevados. O então reitor do Seminário dos Olivais rejeitou a tundra intelectual e glosou, com nitidez argumentativa, a natureza religiosa do ateísmo. A mentalidade da época não era propícia a diálogos que comportassem essa espécie de entendimento entre o confessional e o elementar. A verdade humana do cristianismo e do marxismo enjeitava as eternas discriminações, e a conversação dos dois homens abriu um parágrafo (infelizmente logo fechado) no debate sobre o irracionalismo, a injustiça e a ignorância.

Mais tarde, estabeleci correspondência com D. Manuel Clemente que não se considerava refém de coisa alguma, inclusive da fé, mas sim partícipe na procura de uma verdade fugidia. Sabe-se: um homem de Igreja é sempre objecto de juízos opostos. E as injunções anticlericais de uma cultura amiúde unilateral explicam as reservas feitas a quem anda de cabeção. Não alimento preconceitos de nenhuma espécie, muito menos em matéria religiosa. O preconceituoso esconde um racista e um racista oculta um verdugo e dissimula um canalha. O Prémio Pessoa deste ano homenageou um homem cuja virtude maior é a de tentar corrigir-se a si próprio para melhor compreender o que em seu redor ocorre.

«DN» de 16 Dez 09

terça-feira, 15 de Dezembro de 2009

Pergunta de algibeira - Solução

Ao soprar como se vê na imagem de cima, o ar acompanha as bordas do funil, desviando-se da chama. Assim, a solução mais simples consiste em inclinar o funil - alinhando uma geratriz do cone com o pavio.
Talvez seja necessário soprar com um pouco de força, mas posso garantir que é verdade, pois experimentei...
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NOTA: Apesar de parecer infantil, este é um problema clássico de Hidráulica (escoamento de fluidos).

Passatempo-relâmpago de 14 Dez 09 - 3ª fase - Solução

segunda-feira, 14 de Dezembro de 2009

De Derrida a Darwin

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Por Nuno Crato

ONÉSIMO TEOTÓNIO de Almeida escreveu um dos livros mais interessantes que li nos últimos tempos. Intitula-se De Marx a Darwin e saiu há pouco. Explica como o ponto de vista marxista, dominante numa corrente de intelectuais europeus e norte-americanos de meados do século XX, começou a ser substituído por referências continuadas ao darwinismo. Para muitos intelectuais, e não apenas para biólogos evolucionistas, Darwin tornou-se uma referência maior do pensamento moderno.

Karl Marx (1818–1883) e Charles Darwin (1809–1882) foram contemporâneos. O primeiro foi uma referência marcante da filosofia, economia e política dos séculos XIX e XX; foi um revolucionário consciente e teve pretensões de criar uma doutrina que fornecesse uma visão completa do mundo. O segundo criou uma revolução na biologia; foi contudo um homem pacato, modesto e sem ambições de mudar sequer a sua aldeia. A doutrina de Marx teve os seus dias. E a de Darwin está a ter os seus. Não exactamente por contraposição a Marx, mas sim a uma corrente pós-moderna, influenciada nas intenções e na crítica social pelo marxismo, mas oposta a vários pontos chave da doutrina de Marx.

O pós-modernismo critica as ditas “grandes utopias” — que deverão incluir as marxistas —, rejeita as ditas “grandes narrativas” — que deverão incluir as revolucionárias — e descrê da capacidade de a ciência fornecer algum conhecimento objectivo sobre a realidade — também aqui contraria Marx e Lenine, que acreditavam no “socialismo científico”. Os críticos pós-modernos, como Jacques Derrida, sublinham o aspecto cultural da literatura e da vida, rejeitando a ideia de uma natureza humana ou de algo que possa não ser socialmente construído. Tudo é texto e tudo é impossível de ser finalmente entendido, porque tudo é contraditório. E se isto não se perceber, é porque também é um texto. Percebe-se?!

Psicólogos, paleontólogos e muitos cientistas contemporâneos têm vindo, mesmo que inconscientemente, a pôr em causa estas ideias. Pouco a pouco, tem-se visto que há traços comuns às sociedades e aos homens que não podem ser explicados pela cultura. Matemáticos e biólogos têm aplicado a teoria dos jogos à explicação de muitos traços do comportamento humano. Psicólogos têm descoberto que há conceitos geométricos inerentes ao nosso cérebro. A luta pela sobrevivência e a evolução de milhões de anos moldaram-nos para agirmos de determinada maneira. Em muitos aspectos da vida, a natureza impõe-se à cultura. É a desafronta de Darwin.

Joseph Carroll, Jonathan Gottschall e outros críticos modernos dizem-se partidários de “estudos literários darwinianos”, tentando ver na literatura a descrição do comportamento humano, incluindo o biológico. Há que procurar explicações fora dos textos, sublinham. A teoria literária e os estudos culturais pós-modernos atrofiaram a crítica literária — dizem —, tornaram-na incompreensível e virada para a desconstrução da narrativa, destruindo a apreciação da grande literatura.

David Sloan Wilson, o biólogo que escreveu o recente best-seller “A Evolução para Todos”, onde mostra como o evolucionismo ajuda a explicar muito do nosso comportamento, dos mexericos aos símbolos de poder, dizia que a literatura é uma fonte imensa de informação sobre o comportamento humano, “é a história natural da nossa espécie”. O ano de Darwin está a acabar. A influência cultural de Darwin não.

«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 12 Dez 09

domingo, 13 de Dezembro de 2009

Palhaços

Por João Paulo Guerra

O Sindicato dos Palhaços reuniu em Fevereiro passado o seu Parlamento Mundial, em Dresden, na Alemanha, e não consta que ao longo dos trabalhos os participantes se tenham insultado uns aos outros chamando-se deputados disto ou deputados daquilo.

E CONSTITUIRIA o termo deputado um insulto? De modo algum. O termo deputado é tão pouco ou nada insultuoso como os termos contramestre, engenheiro, guia-intérprete, terapeuta ocupacional, higienista oral ou palhaço. Mas claro que ninguém ignora que o termo palhaço é frequentemente usado com intenção pejorativa. Trata-se, possivelmente, de uma reminiscência medieval, que remete para tempos em que os cómicos procediam da ralé e para lá retrocediam.

E aqui entra mais uma diferença, para pior, da sociedade política portuguesa para a comunidade mundial dos palhaços, ricos ou pobres não vem para o caso. É que a jurisprudência portuguesa, nos termos de um acórdão da Relação do Porto, de Janeiro de 2008, ilibou a expressão "és um palhaço" de qualquer sentido injurioso. Nesta coluna fez-se referência e salientou-se o mérito de tão douta como oportuna sentença. Mas a sociedade política portuguesa não anda a par da jurisprudência e ainda usa o termo palhaço como sinónimo de títere, bonifrate ou fanfarrão. O dr. Jardim, por exemplo, processou o cronista Daniel Oliveira por considerar insultuoso o epíteto palhaço.

Munidos da jurisprudência, no hemiciclo ou nas comissões, os parlamentares que se tratem por palhaço, como se poderiam chamar equilibrista, trapezista, malabarista, contorcionista, transformista ou meramente deputado. Mas que não esqueçam a questão verdadeiramente essencial que é o direito dos palhaços propriamente ditos à indignação perante certas comparações.

«DE» de 11 Dez 09

Os verdadeiros artistas...

Av. de Roma, junto ao N.º 27

Quando eles querem...

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Lisboa
Esquina da Av. Roma com a Av. João XXI


O homem que se vê de costas é, pelo que me apercebi, um polícia-a-sério, com o correspondente brio profissional: não aceitando o papel de verbo-de-encher, soube impedir o estacionamento naquela paragem simplesmente com a sua presença.
Dava gosto ver os carros a desaparecer dali assim que ele se aproximava, sem dizer uma palavra! - com uma pastinha debaixo do braço e cara de poucos amigos!

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Já agora, compare-se (se é que há comparação possível) com o que se vê [aqui]...

sábado, 12 de Dezembro de 2009

Queixas

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Por João Paulo Guerra

O Governo do PS está a entrar num processo de mimetismo em relação a Cavaco Silva. Já fala em “forças de bloqueio” e até já pede que o deixem governar.

O GOVERNO JÁ APRESENTOU queixas em Belém: “Deixem-nos governar”, um apelo ao qual o inquilino de Belém foi em tempos muito sensível. E as queixas do Governo confirmam as suspeitas de quantos alvitravam que este Governo não se conformaria com a modalidade de governar sem maioria absoluta. E que a palavra “diálogo” repetida até à saciedade no arranque da legislatura era simplesmente um slogan.

Porque a verdade é que o Governo não tem só razões de queixa das oposições. Quem é que salvou o Governo de ter que suspender a avaliação dos professores, o que seria uma verdadeira humilhação? Quem é que vai deixar passar o Orçamento rectificativo? Quem é que ajudou o Governo a tramar a reforma de 84 mil trabalhadores com 40 anos de trabalho e descontos para a Segurança Social? Quem é que poderá salvar o negócio dos contentores?

Agora, o Governo não pode querer tudo, porque o eleitorado não lhe deu tudo. Farto de quatro anos de poder com maioria absoluta, o eleitorado só deu uma maioria relativa ao PS. De maneira que o Governo tem que engolir as coligações negativas e as comissões de inquérito, os chumbos e as aprovações, sem puxar logo do arsenal de acusações de “irresponsabilidade” e de clamar “aqui d’el rei que nos estão a tramar a governabilidade”. Tudo isso faz parte das regras do jogo democrático, tão aplaudido para uns efeitos e tão vilipendiado para outros.

É com a relatividade da maioria que este PS não se entende, a pontos de pedir socorro a Belém. E o drama do PS é que a terrível arma das eleições antecipadas poderia revelar-se uma mera pistola de fulminantes.

«DE» de 10 Dezembro 09

Pergunta de algibeira - Solução


Enviada por Luís Bonito

Passatempo Calimero de 12 Dez 09 - Solução

O legislativo que quer ser executivo

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Por Antunes Ferreira

O DESPLANTE deveria pagar impostos – mas não paga. Deveria ter limites – mas não tem. Porque o desplante, como diria o Amigo Banana, é isso mesmo: um desplante. Não vou mais longe. Os comentários feitos pelo Presidente da República a propósito da hipótese da possível ingovernabilidade do País, são um desplante.

Cavaco Silva sustentou ontem no Porto que é possível um executivo minoritário governar bem. E citou como exemplo António Guterres que o fez ao longo de seis anos. Nada a opor. É, mesmo, quase comovente esse reconhecimento e a correspondente citação. Quem disse que na política à portuguesa não existe o fair play? Bastava esta afirmação do ainda inquilino de Belém para confirmar que sim senhor, existe.

Mas, o mais alto magistrado da Nação – repesco aqui terminologia que se aplicava normalmente ao almirante Américo Tomaz – deu-se ao luxo de simultaneamente mencionar o seu próprio caso. E sublinhou que ele próprio também governara, minoritário, durante dois anos. E, os dois, «nem por isso deixaram de aprovar diplomas», tais como «a lei de bases do sistema educativo, que elevou para nove anos a escolaridade obrigatória, o novo código comercial, lei de bases do ambiente e a lei das finanças locais e a lei de segurança interna"». A isto chamo ter o desplante de.

Cavaco Silva lembrou também que o Presidente da República «é a válvula de segurança» do Pais e apelou ao Governo e à oposição para que encontrassem «pontos em comum para resolver os problemas dos portugueses». «É tempo de diálogo aprofundado e de convergências. É isso que eu espero que aconteça». Respondia, assim, e uma vez mais indirectamente, ao apelo dos socialistas, nomeadamente António Vitorino, para que interviesse a fim de prevenir a ingovernabilidade possível.

Bem prega frei Tomás. O chefe do Estado acentuou ainda que não entra em retóricas de dramatização. Isto porque no seu ilustre entendimento, «as forças políticas acabarão por revelar bom senso». Não se referiu ao facto de ele próprio, no final do seu governo minoritário ter apelado dramaticamente à maioria absoluta que viria a conseguir.

Muito menos recordou o tabu que instalou em Portugal a propósito dos resultados eleitorais que se avizinhavam. Mais um exemplo de que muitíssimos homens e, entre eles, inúmeros políticos, não têm memória ou, pior, não querem tê-la. E, portanto, reafirmo que se tratou de um desplante o afirmado pelo PR.

Depois da triste figura que tinha feito através do incrível «esclarecimento» sobre a questão da insegurança informática da Presidência, que nos deixou absolutamente aparvalhados, tal a dimensão da asnática intervenção, veio agora Aníbal Cavaco Silva dar conselhos às «forças políticas», mas especificamente endereçados ao Governo. É um verdadeiro desplante.
Mas, num Portugal em que o Parlamento se quer substituir ao Executivo, tudo é possível. Pessoalmente, não me recordo de ter visto por estas bandas, alianças parlamentares que vão do BE ao CDS/PP, incluindo, portanto, os Verdes, e, ó originalidade, o PSD. Para impedir que as medidas do Governo passem no hemiciclo, apenas? Não me parece. Para detonarem a citada ingovernabilidade.

Creio que não é tempo de recusar dramatizar o que já está dramatizado. Ninguém pode pensar que a catástrofe financeira da Grécia é inatingível – por cá. Já não falo no que se disse em Atenas acerca da soberania nacional estar a ser posta em causa. Refiro-me tão-só ao retrato patético de uma «Oposição unida, que jamais será vencida». E se José Sócrates, apesar do Orçamento Rectificativo ter sido aprovado na AR, bater com a porta?

quarta-feira, 9 de Dezembro de 2009

Espiões

Por João Paulo Guerra

O poder em Portugal está acometido de uma psicose delirante de tipo persecutório: em todo o lado vê conspiração, perseguição, traição, espionagem. Trata-se de uma modalidade de transtorno delirante crónico que qualquer psiquiatra do SNS poderá diagnosticar.
HÁ QUATRO MESES, interrogava-se o jornal Público: “Está o Palácio de Belém sob escuta ou sob vigilância?” E para quem quisesse esclarecer-se sobre tão bizarra como improvável situação, o Público acrescentava que “fontes da Casa Civil” alimentavam a dúvida. Sabemos o que sucedeu depois: a Presidência desautorizou a “fonte” mas recentemente promoveu-a na hierarquia de Belém.

Entretanto, o transtorno psicótico contagiou o Governo e o PS. Um ministro, não no exercício de tais funções mas como cidadão livre de dizer coisas, comentando um processo judicial relativo a sucatas e tráfico de influências, declarou em 15 de Novembro que se estava perante uma situação de “espionagem política" (…) "extremamente preocupante". A “espionagem” ficou na agenda política e agora o PS / Governo vem denunciar que a Mata Hari deste enredo é Manuela Ferreira Leite. O que é seguramente uma absoluta surpresa para os portugueses que poderiam pensar o pior sobre a líder do PSD menos que a senhora trabalha de espia, como a Maria Albertina da Guerra de 1908 do Solnado.

A verdade é que a contra-espionagem do PS mantém a acusação. "Como sabia ela [Manuela Ferreira Leite] que o primeiro-ministro estava a mentir” [sobre o caso TVI]? A resposta é elementar, meu caro Watson: “Três meses depois percebi que esse era um facto das alegadas escutas”. Ou seja, Manuela Ferreira Leite teria escutado as escutas. Ora isto é espionagem, pura e dura. John Le Carré não argumentaria melhor.
«DE» de 4 de Dezembro de 2009

Passatempo-relâmpago de 9 Dez 09 - Solução

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Reféns uns dos outros

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Por Baptista-Bastos

O COMPROMISSO, em política, há muito deixou de pertencer aos domínios da razão moral. Ninguém cumpre e todos acham a indignidade coisa congénita. Os critérios estão entorpecidos, a verdade estropiada. Não se percebe o que quer o PSD, além da chicana metafísica sistematicamente provocada. Sabe-se, isso sim, do verdete a Sócrates alimentado, sem disfarce, pela dr.ª Manuela. Questão passional, nada a ver com política.

A tese agora, é a seguinte: o PS serve, Sócrates tem de ir embora. A alegação faz caminho. E, apesar dos surpreendentes apoios de Mário Soares à governação, nos socialistas (ainda há alguns no templo) o mal-estar é grande. Assistem a vitórias que garantem o poder; mas o poder está enfermo.

Com arfante sobressalto teme-se um "Governo de Assembleia", curiosa expressão, entre o antipático e o gracioso, tão ao gosto da confusão portuguesa. Quer-se dizer: receia-se que o Parlamento substitua o Executivo. Há, aqui, algo de brumoso. Vejamos: logo-assim haver perdido a maioria absoluta, José Sócrates preparou a estratégia do remendo. À Esquerda e à Direita procurou aliados providenciais. A dr.ª Manuela disse-lhe logo que não. Outra resposta não seria de esperar. O ódio pessoal sobrepõe-se a qualquer salvação da pátria. Os outros partidos, com o perfume do mando a entrar-lhes nas narinas, pareciam coristas a sorrir de enlevo.

Cedendo ao CDS e concedendo ao Bloco e ao PCP, montando umas cenas de teatro de revista e uns pequenos atritos retóricos, o Governo não deixa de ser refém da Assembleia. Mas a Assembleia é, também, cativa do Governo. Sócrates joga com a ameaça de ir a Belém dizer ao Chefe do Estado ser impossível gerir o País, dada a negação dos partidos em colaborar com a circunstância. Vai a votos e pode obter a maioria absoluta, repetindo a estranha proeza do dr. Cavaco. A História, por vezes, semelha-se a páginas humorísticas.

O PSD é a desgraça que aí está. Ninguém quer a dr.ª Manuela, mas a perspectiva é Passos Coelho ou Aguiar-Branco: uma novela nada recomendável. Que fazer?, a obscura natureza dos problemas leva-nos à interrogação leninista. Surge o dr. Balsemão e, com a graça discreta de um patrício romano, adverte dos perigos de extinção que corre o partido. Apresenta não sei quantas soluções para a crise. Ninguém as vai seguir, cumprir ou respeitar.

As regras da arte estão à vista. A identidade dos partidos é mediatizada pelo simulacro. Tudo é mentira, tudo é meia-verdade. E não parece que a sociedade esteja inclinada a modificar o que quer que seja. A erosão dos padrões, o assustador avanço da iliteracia política e a vitória do descalabro sobre a consciência constituem a representação da vida política portuguesa. Não há batalha que não comporte uma ideia de grandeza. Quem dirige o País nunca a teve.

«DN» de 9 Dez 09

domingo, 6 de Dezembro de 2009

Independência?

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Por João Duque

Independência - subst. f.; estado qualidade de ser livre, de não depender de ninguém; qualidade do que tem autonomia política ("Kernerman Portuguese Learners Dictionary").

DEZASSETE ANOS acabados de fazer. Uma semana em Londres e a sensação de poder sair quando quisesse (todos os dias) para fazer o que quisesse (visitar museus e andar pela rua encantado com aquela sociedade) e entrar em casa quando me apetecesse (sempre cedo porque não havia dinheiro para copos ou noitadas).

Chegado a Lisboa comecei as guerrilhas em casa com a mãe e o pai. "- Onde vais?" "- O que é que isso interessa?" "- Mau!... Onde vais, com quem vais, e a que horas chegas?" "- Isso não interessa!" "- Ai não? Então vais ver como elas te mordem. Olha lá, como é que vais pagar o passe para andares por aí a vadiar?"...

Silêncio. Percebi onde queriam chegar. A minha revolta acabara ali. Tal como o gato de D.ª Sância, Mago, em "Os Bichos" de Miguel Torga, amoleci, "vendi-me", e anichei no humilhante recato da casa materna.

Afinal, cresci.

Portugal endivida-se todos os dias a uma escalada de verdadeiro desvaire. Se for verdade o que prevêem os economistas que acompanham a economia portuguesa nas várias agências internacionais, o défice público deve crescer à razão de 8% do PIB ao ano nos próximos três anos.

Se a essa dívida somarmos a que vai crescer à custa do endividamento de empresas públicas, municípios e demais entidades parapúblicas, a situação é um verdadeiro descalabro. A coisa este ano vai atirar para um endividamento público que sobe à razão de 1,7 milhões de euros à hora!

O ritmo a que esperamos que cresça a nossa economia é magro e insuficiente, pelo que o crescimento da taxa de juro, que vai seguramente começar em breve, irá rebentar com os cenários mais pessimistas dos orçamentos de estado.

Por outro lado, a baixa taxa de poupança nacional leva-nos a recorrer a sistematicamente a financiamento externo, o qual se mostra cada vez mais necessário, infelizmente para fazer face a financiamento de consumo em lugar de investimento, e com prazos cada vez mais curtos.

Perante este cenário está em causa a independência nacional. Em bem chegando ao limite que bem temo chegarmos em breve, as agências de rating vão tocar as campainhas. Ao mesmo tempo, o Banco Central Europeu vai começar a sua política de enxugamento da liquidez excessiva no sistema, o que vai aumentar significativamente o custo do crédito para quem tiver piores notações de rating. Os investidores internacionais que nos financiam vão exigir taxas de juro cada vez mais elevadas para fazer o mesmo tipo de financiamento que hoje nos concedem e vão exigir, pela lei do mercado, que o investimento público e privado seja realmente produtivo.

Se não vai a bem vai a mal. Ou ganhamos juízo ou o custo do capital público para Portugal passa a ser de tal forma elevado que os grandes investimentos públicos ficam escancaradamente negativos e já nem os generosos pressupostos dos estudos lhes vão valer.

Independência nacional? Só até D.ª Sância nos encher a malga com as inesquecíveis sopinhas de leite. Depois...

Expresso de 28 de Novembro de 2009

sábado, 5 de Dezembro de 2009

A Crise Financeira

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Por Maria Filomena Mónica

EM PARTE POR JAMAIS ter tido dinheiro suficiente para investir, sou uma analfabeta financeira. Até 1995, quando a minha mãe adoeceu, a poupança era a última das minhas preocupações. Aquilo a que assisti levou-me a mudar de rumo, tendo começado então a colocar, numa conta a prazo, as migalhas arrancadas à despesa quotidiana. Anteontem, fui ao banco, a fim de averiguar se o meu dinheiro corria risco. A resposta foi negativa. Daí a acreditar vai um passo de gigante.

Perante a confusão, decidi reler Adam Smith e Karl Marx, dois autores geralmente incompreendidos: nem um é o apologista acrítico do mercado que se proclama nem o outro o panfletário delirante que se imagina. Em «A Riqueza das Nações» (1776), Smith ousou proclamar que o comércio não era desvantajoso. Segundo ele, uma sociedade em que os indivíduos fossem livres de tratar dos seus interesses, sem ter, por detrás, um poder centralizado, produziria uma ordem susceptível de elevar o nível de vida da população. O egoísmo era um vício, mas, em muitos casos, a «mão invisível» encarregar-se-ia de transformar o mal privado numa pública virtude. No fundo, o que A. Smith estava a tentar era a dar cabo dos monopólios, uma causa, então ou agora, insusceptível de ser apreciada pelos poderosos. A ideia de que desejava abolir o Estado é falsa: o que pretendia era retirar o poder político da esfera da economia, o que não implicava que o mesmo deixasse de assumir funções noutras áreas.

Igualmente interessante é reler O Manifesto Comunista, de 1847. Todos sabemos que algumas das teses ali expostas, nomeadamente a da pauperização do proletariado, estão erradas, mas é curioso ver a forma como Marx fala da burguesia como uma força revolucionária. Sobre o capitalismo, escrevia: «Tudo o que é sólido se derrete no ar», alertando para o facto de que «a necessidade de um mercado cada vez mais vasto para os seus produtos fazer com que a burguesia penetre em todo o globo». Aquilo a que estamos a assistir não é à morte do capitalismo, mas à da variedade tóxica que, nos últimos vinte anos, se desenvolveu nos EUA.

Outubro de 2008

Passatempo-relâmpago de 4 Dez 09 - 2ª fase - Solução



A propósito de orquídeas...

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Por Alice Vieira

COM TANTA GRITARIA que vai por aí - ouviu ou não ouviu, foi ou não foi escutado, roubou ou não roubou, foram milhares de euros ou uns trocaditos para o parquímetro, a vacina mata ou a vacina salva — hoje decidi fechar para férias.

Isto é: decidi impermeabilizar ouvidos e olhos a todo o arraial que vai lá por fora, e ficar a olhar para as minhas orquídeas.

Qual Nero Wolf de S. Sebastião da Pedreira.

Claro que hoje já ninguém hoje sabe quem era o Nero Wolf.

Os ingénuos romances policiais, de detectives a escorrer brilhantina com secretárias a escorrer Chanel n.º 5, foram à vida.

Mesmo os que se consideravam “negros” são hoje cor-de-rosa claro, comparados com todas as séries do género que a televisão mostra. E, sem o cigarro na ponta dos dedos, os “private-eyes” e as mulheres-fatais ficaram, definitivamente, desempregados, porque toda a gente sabia que era daquelas baforadas de fumo que havia de sair a resolução do problema (no primeiro caso) e a ida para a cama (no segundo)

Mas Nero Wolf (criado por Rex Stout) nem sequer se encaixa muito nessa categoria, nem é sequer das minhas personagens preferidas, com os seus mastodônticos 130 quilos, bebedor compulsivo de cerveja, de uma inteligência fora do normal e vaidoso dela (“não sou Deus, sou apenas um génio”), sempre metido em casa, e resolvendo os casos depois de o seu assistente lhe ter feito o trabalhinho todo.

A espécie humana interessava-lhe muito pouco, mas amava, apaixonadamente, orquídeas.

Milhares de orquídeas povoavam-lhe o telhado e a vida. De um pé de orquídea nasciam logo mais dez ou vinte.

E é só por causa das orquídeas que eu hoje me lembrei do Nero Wolf.

Por causa da minha orquídea que, se calhar, é descendente de alguma das que ele teria cuidado nas suas estufas.

Porque a minha orquídea não pára de florescer.

Devo dizer que, por ser muito quente no verão e muito fria no inverno, a minha casa não é propícia à criação de flores. Todas as plantas que procuro trazer para dar um ar mais verde ao ambiente, passadas umas semanas já estão a entregar a sua alma vegetal ao criador.
Todas — menos a minha orquídea.

Foi o meu amigo António, o meu habitual “fornecedor” de flores, que ma ofereceu há uns anos. E sem nenhum cuidado especial, a minha orquídea não pára de se reproduzir. Todos os anos tenho orquídeas novas, dou orquídeas a amigos, distribuo orquídeas pela casa toda - e no ano seguinte lá vêm mais.

Esta semana acabei de colocar as últimas em todos os cantos disponíveis.

E faz bem ficar a olhar para elas e ver como, apesar de tudo e contra tudo, todos os anos renascem.

Se calhar o velho e insuportável Nero Wolf é que tinha razão: que se lixe o que vai lá por fora a minha orquídea não desiste.

«JN» de 4 Dez 09

sexta-feira, 4 de Dezembro de 2009

Passatempo-relâmpago de 4 Dez 09 - Solução da 1ª fase

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Ainda acerca deste livro, haverá, em breve uma 2ª fase!