domingo, 28 de agosto de 2016

Porra! Ano esfarrapado

Antunes Ferreira
P
orra! Permitam-me e desculpem o desabafo pessoal mas tenho de descomprimir e contar o pesadelo por que vou passando. Conto, como sempre, com as vossas paciência, benevolência e aceitação. Enquanto que para Cristiano Ronaldo 2016 é o melhor da sua vida profissional, para mim é um ano esfarrapado. Não é, no entanto, o horribilis de Isabel II (que teima em sobreviver), mas realmente é esfarrapado. Se não veja-se o que me tem acontecido desde o dia 1 de Janeiro, o que prova o que anteriormente enunciei: e-s-f-a-r-r-a-p-a-d-o! Não acreditam? Eu conto e depois me dirão se tenho ou não tenho razão. Desculpem-me a chatice que vos dou.
A

penas chegados a Goa tivemos, a Raquel e eu, a dolorosa noticia dada pelo Miguel, o nosso primogénito, de que a Bebé, a Maria Gabriel, falecera. Estava internada no Pulido Valente com um cancro nos pulmões – fumava mais do que uma chaminé de carvão para produzir electricidade. E além disso carregada de metástases por tudo o que era corpo.  Toda a gente a tinha avisado; parava, mas mal o anunciava, já estava a recair no cigarro. 

E
ra muito mais do que nossa irmã; era nossa Amiga. Durante quarenta anos. Em muitas situações, algumas muito graves, estava sempre presente para nos ajudar e amparar. Comia aos sábados colectivos connosco, era mais uma da nossa família. Viúva aos 26 aos de um Amigo excelente desde os tempos em que jogávamos râguebi nunca voltara a casar. Fora militante do MRPP, mas o tempo “curara-a”. Completara 62 anos.

T
ínhamos ido visita-la antes de partirmos; bem ao contrário de muitos maus dias, estava bem-disposta, não se sentia atabafada e o médico aquando da visita diária, dissera-lhe que lhe daria alta. Logo que entrámos no apartamento de Miramar, nossa habitual pousada em Goa, a Raquel telefonara-lhe para saber como passara a noite. Excelente, o médico quer-me amanhã em casa. No dia seguinte foi o telefonema do Miguel: morrera durante a noite, sufocada.

L
ogo como se fora uma rajada, menos de um mês passado, recebia por imeile uma desgraçada informação: falecera de cancro o meu vogal no Conselho Fiscal da ANACOM, a que presido, e também meu bom Amigo José Vieira dos Reis ex-bastonário da Ordem dos Revisores de Contas que eu ajudara a mudar para de Câmara passar a Ordem, OROC. E que depois do ministério das Finanças (eu estava num dos piores momentos da depressão bipolar) me levou a para a nova Ordem como assessor dele e chefe da informação. Mau! O ano prometia…

E
m Goa tudo corria (e felizmente correu) no melhor dos mundos. Regressámos a Lisboa e logo recomeçaram as chatices. Recebemos a triste notícia de que o Ion Floroiu, antigo embaixador da Roménia em Portugal e outro grande Amigo tinha partido (sei lá para onde) em Bucareste, vítima de mais outro cancro. Antes de partir para Panjim tínhamos ido durante duas semanas à capital da Roménia – coisa que há muito nos “pedia” – para passa-los com a família e estava tudo bem. Agora, reconhecíamos que fora como que uma despedida.

P
orém, ainda teria de haver mais merdas.  Estávamos em falta na apresentação do IRS em comum, como sempre, porque estávamos em Goa. O Miguel fez-nos a declaração, também como sempre, através da Internet. As Finanças aceitaram-na. Simulação: tínhamos de pagar 747,86 euros. Melhor do que no ano anterior. Parecia que tinham desaparecido as nuvens negras que sobre nós pairavam.

M
as veio carta da Autoridade Tributária: havia qualquer coisa mal e tinha de me deslocar à Repartição de Finanças. Para além da multa, aliás coisa pequena, tínhamos de fazer duas declarações separadas. Resultado 2.867,06 euros. Caiu-me tudo o que tinha pendurado aos pés. Já era pior do que o deus-me-livre. Tinha de pedir que o pagamento fosse em seis prestações sem juros, pois não tinha tais massas disponíveis. Ainda aguardo a decisão, mas parece que a solicitação foi deferida. Vá lá...

E
ntrementes, mais uma facada. O Miguel era há 26 anos director financeiro e administrativo da AVIS – Rent a car – e em 2011 fora considerado (e galardoado) o melhor da Europa nas suas funções. Mas os americanos tinham comprado a firma e começaram a moer o espírito do meu filho. Ao fim de quatro anos em que lhe “fizeram” a cabeça para ver se ele se demitia, pois já tinham eliminado quase todos os trabalhadores a começar pelo Director-geral de Lisboa, tinham-no considerado péssimo e sem mais aquelas demitiram-no.

A
os 52 anos um homem (e economista) por cá é considerado “velho”. Ainda anda à procura de emprego sem grandes hipóteses, mesmo com a experiência de quem trabalhou mais de duas décadas e considerado sempre o melhor até virem esses pulhas americanos conluiados com outros pulhas – os espanhóis - que ansiavam fechar Lisboa e passar todo o serviço administrativo para Madrid.

U
m homem não é de ferro. O meu primogénito anda descoroçoado. E eu como pai também ando. Mais uma machadada que levei. As coisas pareciam ter acalmado. Pura ilusão. O que viria a seguir – e veio – por inesperado, fez-me ter medo o que não me é vulgar até que... Nas picadas angolanas como oficial miliciano tive-o; um homem não é de pau e não nasci para ser herói. Porra! Estou farto de 2016!

E
 agora estou metido num grande “alhada”.  Mais uma. Resumo: há umas semanas fui à minha médica de família que, depois de me ter observado cuidadosa e minuciosamente, pelos sintomas que eu apresentava disse-me que poderia ter Parkinson. Caramba! Como devem compreender, fiquei muito abananado, quase perdi a cabeça, enchi-me de receios e até pensei em abandonar a escrita – o que para mim seria fatal!

A
té escrevi um imeile à Maltamiga a contar o que se passava, mas sem mencionar o nome da doença, o que motivou centenas – exactamente centenas – de resposta desejando-me as melhoras e solidarizando-se comigo. Malta bué da fixe!!!! Entretanto, com a ajuda de dois médicos meus amigos durante os primeiros cinco anos do Camões fui-me acalmando. Novos medicamentos tinham aparecido durante os últimos anos; com eles iria passar sem problemas até ao fim da vida. E indicaram-me neurologistas, para tirar dúvidas.

T
enho andado à procura de um deles, qualquer que seja, para tentar marcar já uma consulta ao que encontrar primeiro. Os meus amigos disseram-me que todos eram competentíssimos. Depois do diagnóstico final, iria saber o resultado. Mas, em Agosto, toda a gente vai de férias.  Devo, pois, de aguardar sem me enervar, não vá de novo aparecer a maldita depressão bipolar, Vade retro Satanás. Foram quatro anos de pesadelo que não posso nem quero repetir!

E
 hoje (2016/08/24) quando estava a terminar este escrito, telefona-me o meu irmão Braz, (o único que agora tenho, pois o outro, João, há muitos anos dera um tiro na cabeça com a espingarda com que caçava elefantes em Angola…) a comunicar-me chorando, que acabara de saber que tem um cancro na próstata. Ele vive e tem escritório no emirado Ras Al Khaimah (EAU), como engenheiro consultor de cimenteiras. Que posso fazer daqui? Gaita! Claro que, mesmo assim, contactei o Vasquito, primo da Raquel (e meu) que vive no Dubai, e que logo começou a ampara-lo. Boa gente…

E
 agora digam-me se 2016 não é para mim um ano muito esfarrapado. Já chega. Como dizia um senhor numa telenovela brasileira: que mais me irá acontecer? Porém aqui chegado faço uma reflexão. Diz o ditado que não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe. E a esperança é a última a morrer. As nuvens negras vão desvanecer-se e o sol brilhará intenso. Tenho de olhar em frente e seguir o meu caminho. Com força e firmeza. Nada de fatalismos; nada de fados. A força da razão vencerá a razão da força (?) É com este espírito tão positivo quanto me é possível que termino esta crónica/catarse. Não esquecendo o que disse o marquês de Pombal. "O homem tanto pode que, mesmo depois de morto, ainda são precisos quatro para tira-lo da sua casa.."

(Aproveito o ensejo para agradecer do fundo do coração a todas e todos que me manifestaram a sua preocupação, a sua solidariedade, o seu apoio e a sua amizade; por isso deixo aqui um muitíssimo obrigado!)








sábado, 1 de agosto de 2015

1 AGO 15 - Resposta do Prof. Galopim de Carvalho a um leitor

Pedi ajuda para poder responder a este comentário e obtive, através do Carlos Fiolhais a resposta dada por Francisco Gil.
Assim sendo peço-lhe o favor de responder por mim ao dito comentário.

Tendo dificuldade em responder ao seu comentário sobre uma matéria demasiado especializada, pedi ajuda a quem sabe do que está a falar e eis a resposta de Francisco Gil que recebi através do meu amigo Carlos Fiolhais
“ Em estilo de resposta resumida, poderei dizer que o comentador tem razão ao invocar algumas questões. Passo a expôr:

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Podemos resumir a questão da cor dos objectos a três aspectos: a luz incidente sobre o objecto, a forma como a luz interfere com o objecto, que depende da sua constituição, e o observador (olhos para os animais, ou detectores para os aparelhos de captação de imagem).

Fixando a questão do observador num padrão de percepção, podemos falar no que se costuma chamar 'luz visível', que corresponde a uma gama restrita de frequências (ou de comprimentos de onda, dependendo da escala com que se trabalhar) no espectro das ondas electromagnéticas.


No que se refere ao objecto, podem ocorrer vários fenómenos concorrentes de interacção entre a luz incidente e o material que compõe o objecto. 
O objecto pode ser opaco a uma certa gama de frequências e ser transparente a outras. O objecto pode ser translúcido, mais ou menos reflector ou difusor. 

A transparência refere-se à possibilidade da luz atravessar o objecto, sofrendo apenas fenómenos de refracção (ao passar do ar para o interior e do interior novamente para o ar) e reflexão nas superfícies de separação entre o ar e o objecto.

A translucidez implica a existência de outros fenómenos superficiais ou de corpo com difusão da luz (ou reflexão difusa, que tem a propriedade de reflectir de forma diferente de ponto para ponto do objecto, seja a nível da superfície, seja no interior do corpo).

A reflexão total (típica de objectos metálicos, por exemplo) tem a ver com o retorno da luz para o meio de onde incide de forma regular.

Tendo em conta a constituição a nível atómico e/ou molecular dos objectos, a luz também pode ser absorvida em certas gamas de frequências e não noutras. O efeito da absorção é a não passagem dessa luz através do objecto, nem a sua reflexão. Em alguns casos, a luz que é absorvida permite alterar o estado energético das partículas (para a luz visível as interacções dão-se essencialmente a nível electrónico), depois do que o sistema regressa ao seu estado de menor energia, dissipando a energia que tinha por várias vias, como relaxação de estrutura ou por emissão de luz, tipicamente com frequências menores do que da luz incidente. A este fenómeno de emissão chama-se 'fluorescência' (também pode ser fosforescência, levemente diferente da fluorescência, em particular no tempo de emissão).

Um último fenómeno concorrente é a difracção, mais raro de observar com luz natural (do sol, ou de uma lâmpada comum, por exemplo). Este fenómeno baseia-se no facto de que em certos casos, feixes de luz que tomam um caminho podem interferir com outros feixes de luz que percorrem outro caminho, dando como resultado a interferência construtiva (é um fenómeno que está relacionado com o carácter ondulatório da luz), ou seja obtém-se luz com maior intensidade, ou a interferência destrutiva, ou seja obtendo-se ausência de luz ou diminuição de intensidade. Em certas circunstâncias, a geometria do sistema permite que a interferência construtiva e a destrutiva possam ocorrer em posições fixas e diferentes. Além disso, este fenómeno depende da frequência da luz, pelo que a localização dos pontos de interferência construtiva é diferente para frequências diferentes. Assim, mesmo com luz de espectro largo (como é o caso do sol ou de lâmpadas de filamento, por exemplo), os objectos 'adquirem' cores.

Em estilo de resumo, e lembrando que todos estes fenómenos dependem da frequência da luz incidente:

- A reflexão nas superfícies dos objectos, se for especular pode conferir cor ao objecto por redirigir a luz incidente de outros objectos para os nossos olhos, vendo nós a 'cor' dos outros objectos (exemplo da 'cor' que a água adquire dos objectos que estão fora dela e dos quais a luz que chega à sua superfície é reflectida para o observador)
- A refracção pode fazer com que os objectos adquiram cor, uma vez que, mesmo que a luz incidente cubra todo o espectro da 'luz visível', o possível desvio da luz depende da frequência - caso da luz que atravessa um pedaço de vidro através do qual a luz do sol se vai dispersar, ou seja, vai observar-se o 'arco-íris'.
- A absorção da luz depende da frequência da luz incidente, assim como da constituição do material de que é composto esse objecto. Por isso, alguns materiais não absorvem nada no 'visível', sendo que a sua cor só virá eventualmente de fenómenos de reflexão e de refracção, outros poderão absorver na zona do azul, por exemplo, deixando que apenas luz nas outras zonas do espectro visível atravessem o objecto ou sejam reflectidas ou difundidas nas suas superfícies ou interior.
- A fluorescência pode ser observada mais claramente em objectos que, iluminados com luz ultravioleta próximo, adquirem uma cor azul (não quer isto dizer que não aconteça em outras zonas do espectro visível).

Assim, tanto para objectos transparentes como para objectos opacos à luz visível, os fenómenos mais comuns de observar são a absorção, reflexão e refracção. O primeiro destes fenómenos é marcante, pois vai 'retirar' à luz incidente a 'luz' que é absorvida pelo objecto. A título de exemplo, um objecto que absorva na zona espectral do azul, tem cor amarela, laranja ou vermelha, consoante a extensão espectral dessa absorção. Do mesmo modo que um corpo absorva na zona espectral do vermelho, ficará mais verde ou azul.

Por tudo isto, diria que a primeira parte do texto sobre a cor dos minerais não está correcta.

Espero não ter contribuído muito para baralhar, mas de facto, esta questão tem várias variáveis em competição e tem que se avaliar caso a caso, para perceber quais os fenómenos mais determinantes para este efeito.


Francisco Gil

segunda-feira, 20 de julho de 2015

A Chegada dos Primeiros Escravos a Lagos

Vista da Baía de Lagos (Portugal), local privilegiado para a partida
e chegada dos navios de exploração e tráfico - de escravos, mas não só.
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O Infante D. Henrique, o impulsionador das viagens de descobrimentos no séc. XV,
ficava com 1/5 de tudo o que chegava a Lagos, incluindo, obviamente, os escravos - tendo começado logo por aqueles de que aqui fala Zurara.
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Local onde em tempos existiu o 1.º mercado de escravos da Europa
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Réplica de uma caravela do séc. XV, neste caso aquela com que Bartolomeu Dias dobrou o Cabo da Boa Esperança, em 1488, confirmando que era possível contornar a África pelo sul e chegar à Índia por mar (o que veio a suceder 10 anos mais tarde). 
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Localização da Baía de Lagos, o porto português mais indicado (pela sua dimensão, calma das águas, ventos N/S e localização, bem perto de África) para a partida e chegada dos navios que se dedicavam ao tráfico com as populações das costas africanas.
Curiosidade: à esquerda, em baixo, o Cabo de S. Vicente, o ponto mais a sudoeste do continente europeu.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Nomes com História

Por Antunes Ferreira
Ainda não tinha contado que o Amigão Dr. Zito Menezes, já muitas vezes citado nas colunas da nossa Travessa, decidira levar-me à Professora Doutora Flora Miranda para que ela me visse a perna esquerda muito escalavrada. Assim aconteceu e ilustre médica receitou-me um antibiótico forte, um sabonete desinfectante e… Betadine. Pela consulta, paguei a exorbitância de 300 rupias, pouco mais de… quatro euros; uma exorbitância… Já comecei o tratamento e a pata esquerda parece melhorar.
 Por isso, voltou-me alguma disposição, animado pelos Amigos Zito Menezes, Carminho Costa e Álvaro Amorim, este de longa data e que é o “presidente” da nossa tertúlia Sabores & Saberes que todas semanas às quintas-feiras se reúne no restaurante “Sabores de Goa” no Bairro das Colónias aí em Lisboa. Note-se que foi a única denominação escapada ao frenesim salazarento que, como bom provinciano, pensou ter enganado a ONU com a transformação em… províncias ultramarinas. Porém o Bairro manteve orgulhosamente a assim e ninguém foi capaz de do derrotar, por decreto-lei aprovado na Assembleia Nacional.
Daí que hoje na antevéspera do Carnaval (que por estas bandas é também e ainda muito comemorado, com desfile de carros alegóricos e toda a parafernália do entrudo) me decida a escrever um textículo tendo por cabeça ÁGUA DE COCO. Quem nunca a experimentou faça como disse o Camões: “mais vale experimenta-lo que julga-lo; mas julgue-o que não pode experimenta-lo. Serão prosas curtas e convalescentes. Férias são férias, serviço é serviço, conhaque é conhaque.
Um exemplo: no centro de Pangim, mais coisa menos coisa, a caminho da praça da igreja da capital, há um jardim (que já vi mais do maltratado) e agora reconstruído pela “câmara municipal” da cidade, o City Council. Chama-se ele Garcia de Orta - quando puto o desgraçado que dissesse Garcia da Orta ira imediatamente premiado com cinco palmatoadas pela dona Clélia Marques, directora da escola Mouzinho da Silveira e professora da quarta-classe – em homenagem ao médico e botânico que chegou a físico da Imperatriz da Rússia, no século XVI.
Pois num dos prédios que o rodeiam pode encontrar-se o Clube Vasco da Gama onde nos tempos dos portugueses decorriam bailes famosos até de madrugada, com serviço aprimorado (e apropriado), onde eram famosos os croquetes de carne bem picantes, O clube fica num terceiro andar, debruçado sobre o jardim, mas hoje está reduzido a um restaurante sem grandes motivos para aplauso. Nele continuam a pontificar os croquetes, que posso dizê-lo por experiência própria têm vindo a definhar. A freguesia é cada vez mais menor. Por lá param muitos cabelos brancos, que mais dia, menos dia seguirão o seu destino final.
Nesta terra de contrastes mas também de singularidades, é curioso para um luso-viajante que aqui aporta encontrar esta curiosidade. Para quem já está habituado, com é o caso do escriba, não tem especial significado esta coincidência. No entanto, e mesmo assim, em prédios onde há mais de cento e muitas lojas que na maioria dos casos ostentam nomes como Vishal, Karmonkar e outros, um clube denominado Vasco da Gama com photographya e pendão do descobridor que inaugurou o caminho marítimo para a Índia sem transferência em qualquer estação e sem cor identificadora da linha – é obra. Ainda que os croquetes já não sejam o que era, Sic transit…
 (Um destes dias sou capaz de recair; no textículo, no trambolhão nem pensar. Quando me der na bolha…)

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Entrevista ao «DN» de 10 Outubro 14

"Empresários não têm liberdade para dizer e fazer o que querem"

Em pouco mais de meia hora de entrevista, o sociólogo fez a análise política e económica do país. O Presidente da República, o governo, o novo líder do PS, os empresários e as famílias através das lentes de António Barreto,
"Portugal gosta de ser especial mas está a ficar como os outros países"

Em pouco mais de meia hora de entrevista, António Barreto varreu o país de ponta a ponta e analisou a situação económica e política. Sobre os empresários, por exemplo, diz serem dependentes e que "dão para os dois lados, para a esquerda e para a direita"

Texto: Sílvia de Oliveira e Hugo NeuM(TSF) Fotografia: Orlando Almeida/Global Imagens

É um dos mais respeitados sociólogos e pensadores da cultura portuguesa e autor de numerosas obras de história e de sociologia. Passou pelo Partido Comunista antes de aderir ao Partido Socialista, foi ministro, deputado no final dos anos 80, mas cedo abandonou a política. Mais recentemente foi presidente da Fundação Francisco Manuel dos Santos, onde criou a base de dados Pordata. Demitiu-se em abril.
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Passámos o período de resgate a ouvir dizer que o que se estava a operar não era apenas uma transformação económica, mas também uma transformação cultural e que o português médio iria sair da crise diferente. Isso aconteceu?  
 
É muito cedo para avaliar os efeitos e consequências do tratamento de choque da troika. E o tratamento ainda não acabou. Estou convencido de que vamos ter mais um, dois ou três anos, ou quatro ou cinco, em que será necessário, por outros meios, manter uma tensão grande sobre os níveis de endividamento, despesa, investimento público e finanças públicas.  
 
Portanto, os resultados verdadeiros só serão conhecidos mais tarde. Por outro lado, tudo o que diz respeito às mentalidades e costumes são as últimas coisas que mudam numa sociedade. Demora muito tempo. É mais fácil assinar um cheque para comprar um carro do que mudar os comportamento e as mentalidades. Quando um político não sabe o que há de dizer, diz logo que o que é preciso é mudar as mentalidades. Isso, em geral, quer dizer que não faz a mínima ideia do que é que está a falar nem o que vai fazer. Vivemos, nestes três anos, uma grande crise de necessidade. As pessoas perderam empregos, rendimentos, casa, as condições de vida que tinham e a ideia, que alguns defendem, de que se começou a ter consumos mais racionais, que se vai ver o que é a pegada ecológica, se se está a prejudicar as gerações futuras, isso, para já, são devaneios.  
 
Precipitações.  
 
Muitas pessoas emigraram, outras reformaram-se ou tiveram de ir para o desemprego, por exemplo, com 45 ou 50 anos e nunca mais vão ter trabalho sério, regular na vida, essas pessoas mudaram. Muitas delas, que ficaram cá, estão talvez mais amargas, resignadas. As que emigraram talvez não, talvez tenham uma espécie de ressurreição. Passado um primeiro embate de dificuldades, as pessoas habituaram-se a fazer um esforço de sobrevivência, a lutar pela vida, pelos filhos, por eles próprios. O que isso vai dar nos próximos anos ainda não sabemos, é muito cedo. A esperança que cada um de nós tem - cidadãos, empresas, bancos e Estado - é de que ficássemos com um pouco mais de consciência do que é o endividamento. Um alto endividamento é escravidão.  
 
Não se pode viver com o que não se tem.  
 
Há a ideia de que são só os pobres que estão endividados, mas não, são sobretudo os ricos, as empresas, o Estado. Toda a gente se endividou. O endividamento pode retirar-nos a independência -já tirou a maior parte -, pode tirar-nos a liberdade e o bem-estar.  
 
Há dias, soubemos que no primeiro semestre o crédito ao consumo, tão diabolizado pela troika, cresceu 17%. Este não é um facto que deita por terra a ideia de uma espécie de revolução cultural, de higienização das finanças pessoais?  
 
Cresceu tão fortemente também porque tinha baixado. E as pessoas estão a tentar recuperar um bocadinho.  
 
Uma pessoa que está habituada a comer certo tipo de carne, não necessariamente bife do lombo do mais caro, e que teve de baixar para coelho, depois para frango e depois para salsichas, e que na primeira oportunidade que tem para voltar a comer um bocado de frango não posso dizer que essa pessoa está a exagerar no consumo. Isso é uma loucura. Talvez a classe média queira recuperar níveis de consumo. Temos de esperar para ver.  
 
Mas este indicador não revela que não se aprendeu com o passado?  
 
Se isso significa endividamento, a minha conclusão então é pessimista, muito cética, quer dizer que as pessoas continuam a pensar que podem viver mais endividadas.  
 
E agora, após a intervenção da troika, o que é que o país ganhou?  
 
É uma dúvida de muitas pessoas.  
 
Era necessário fazer grande parte do que foi feito. Mas foi mal feito, com maus prazos, maus níveis de juros, más maturidades, más escolhas, de bater nos pobres ou nos ricos, na classe média, nos velhos ou nos novos.  
 
Foi tudo feito à força, à bruta. Muitas coisa podiam ter sido feitas com mais seletividade, mais organização, mais explicação. O governo não explicou bem o que estava a fazer, não pediu solidariedade, cumplicidade, apoio, agiu muito no eu quero posso e mando, tem de ser, é a necessidade, e isso não se deve fazer. O que não impede que uma parte do que foi feito tivesse de ser feito. Não tínhamos crédito, não tínhamos finanças públicas e não basta dizer que a Europa tem de pagar e que nós vamos sair do euro.  
 
Há muita gente a dizer muitas coisas muito irresponsáveis. A minha convicção é de que vamos ter mais três a cinco anos de dificuldade. Não sei qual vai ser o sistema, não sei se será um novo resgate, uma nova maneira de fazer austeridade, de reavaliar a dívida e de reestruturar. Tudo isso dependerá da capacidade negociai do próximo governo junto das instâncias internacionais e da própria situação europeia. As notícias da UE são todas más. Nada leva a crer que Portugal possa ser ajudado. E nestas coisas já percebemos, mais do que uma vez, que ninguém ajuda ninguém, a não ser que esteja interessado. Quanto a nós, importa zelar o mais rapidamente pelas condições políticas de gestão das dificuldades económicas e financeiras, uma coisa muito mal feita até agora. Não houve um compromisso interpartídário. Falharam os partidos - os dois grandes-, falhou o Presidente da República, toda a gente. Agora, há que zelar muito seriamente pelas condições políticas da gestão futura da economia e das finanças, que continuarão a ser muito duras. Estamos há três ou quatro anos numa espécie de transferência de rendimentos. Os pobres pagaram mais do que os ricos, a classe média pagou muito mais do que os ricos, a economia pagou muito mais do que as finanças, os pensionistas pagaram muito mais do que os ativos. Nos grandes dilemas nacionais, foram sempre as partes fracas a perder, tal como na Europa, onde também se tem assistido a uma transferência permanente de recursos dos devedores para os credores, do Sul para o Norte, dos pobres para os ricos, do trabalho para o capital. Isso foi reproduzido em Portugal em condições ainda piores. Era importante que as condições políticas dos próximos cinco anos pusessem um travão a isto.  
 
A troika saiu, o salário mínimo aumentou, o IRS vai provavelmente descer e em 2015 há eleições. Há uma ligação entre estes factos?  
 
Para já sim, mas quero ainda comprovar, esperar pelo próximo Orçamento para ver se, de facto, o governo resiste a esta espécie de chaga demagógica que nos habita há 3 0 ou 40 anos.  
 
É preferível não descer impostos?  
 
Há um número do Henrique Medina Carreira que sintetiza muito bem a situação em que estamos. A economia permite que o Estado gaste cerca de 70 mil milhões. Há quatro anos, chegámos a gastar 90 mil milhões.  
 
Foi o princípio do caos e da bancarrota. Atualmente, estamos a gastar 80 mil milhões. Faltam tirar 10 mil milhões. É preciso muita seriedade.  
 
Seria preferível não aumentar salário mínimo e descer impostos?  
 
Não consigo tudo ao mesmo tempo.  
 
Por um lado, tenho as pensões e as reformas, o salário mínimo, por outro, o IRS, o IRC, o IVA, tenho várias quantidades. Interessa saber o que posso aliviar sem recomeçar com a demagogia. A pergunta é inevitável: porque é que isto não foi feito um ano antes ou um ano depois e sim neste, que coincide com o mandato eleitoral? Os políticos portugueses não resistem à demagogia eleitoral.  
 
É assim há cem anos e vai continuar a ser assim.  
 
O PS tem um novo líder, António Costa, que tem um perfil diferente de António José Seguro. Mas o PS de Costa será assim tão diferente, no conteúdo, do PS de Seguro?  
 
Mais uma vez, temos de esperar, é cedo. De António José Seguro sabíamos um pouco mais. De António Costa . não sabemos exatamente o que é que ele pretende fazer. António Costa parece trazer um maior capital de tradição partidária, seja republicana, socialista, de extrema esquerda socialista, maçónica, "soarista", "socratiana".  
 
Isso não pode ser um tiro que sai pela culatra ao PS?  
 
Isto quer dizer que ele tem uma grande base de apoio. Mas, agora, António Costa tem de ser secretário-geral, tem de ter um programa de governo, vai ter de ganhar as eleições e vai ter de dizer onde é que vai buscar os recursos para as finanças públicas. Até agora tem-se limitado a dizer que a Europa paga. Isto não faz sentido. Paga o quê, como, quando e onde? Ele nunca afirmou muito claramente a sua política de alianças e o número de encenação com o partido Livre é um fenómeno novo. O partido Livre é o mais pequenino deles todos, portanto, é o que compromete menos, mas António Costa pôs o dedo numa questão importantíssimo. O PS é geneticamente anticomunista e deixar de ser anticomunista e passar a ser amigo ou aliado do comunismo, do Bloco de Esquerda, ou do Livre, põe problemas seríssimos. Não digo que não nem que sim, eu não o faria. Esta impossibilidade foi uma espécie de seguro de vida da direita e não é saudável que a direita tenha um seguro de vida deste género.  
 
Mas acha que Costa pode chegar ao Partido Comunista?  
 
Ele já deu vários sinais. Sinceramente, não sei. E Costa não esclareceu. As boas frases, ambíguas e equívocas, são as que deixam interpretações possíveis. Quando ele diz "é tempo de acabar com uma esquerda que não se sabe somar"... Agora, esta discussão tem de ser séria. António Costa não quis dizer diretamente o que quer fazer. Acho que vai esperar pelos resultados do debate, mas ele está a correr o risco de perder o próprio partido, porque a força anticomunista do PS é muito grande.  
 
Se António Costa vencer as legislativas, terá condições de fazer diferente e melhor, ou a presença da troika continuará a pressionar e nada acontecerá de diferente?  
 
Ele vai tentar fazer diferente, melhor, vai tentar puxar por todas as hipóteses da solidariedade europeia que existem, que são muito poucas. Não sei se vai conseguir fazer melhor.  
 
Mas há condições para um governo verdadeiramente socialista, menos liberal?  
 
Não sei se temos condições para isso, se temos dinheiro para isso, se há recursos suficientes. O pior de tudo é que estamos numa espécie de oscilação e hesitação entre a independência e a liberdade. Se queremos muita liberdade, temos de nos proteger e só a União Europeia nos protege. Se queremos muito a independência, vamos perder a liberdade, porque teríamos de sair do euro, da União Europeia e deixar de ter amigos lá fora. Tenho a minha saída pessoal e prefiro a liberdade. Já estou resignado a vivermos praticamente sob protetorado, como atualmente. O nosso regime constitucional está de pantanas, porque estamos a viver contra a Constituição.  
 
A Constituição não permite o que estamos a fazer, nomeadamente, com as decisões políticas internacionais que mandam o que Portugal está a fazer hoje em dia. Qual é a margem de liberdade do António Costa em tudo isto? É muito curta. E o problema não é do António Costa, é de qualquer outro. Por isso, o compromisso de uma grande maioria da ordem dos 60% a 70% era indispensável.  
 
Na sua vida profissional recente foi presidente da Fundação Francisco Manuel dos Santos e esteve muito próximo dos empresários, nomeadamente do presidente do grupo JERÓNIMO MARTINS. Os nossos empresários são competentes?  
 
Não é a minha proximidade da família Soares dos Santos que me vai fazer ter ideias sobre a classe empresarial portuguesa. A impressão que tenho dele e da família não tem nada que ver com o resto. O resto são ideias que vou acumulando desde há muitos anos. E não estou particularmente feliz com o que vejo. Grande parte dos empresários viveram sempre à sombra do Estado, ainda vivem e querem continuar a viver, são dependentes do Estado, muitos deles não têm liberdade para dizer e fazer o que querem por causa dos contratos do Estado, dos interesses. E vivem com uma enorme facilidade e promiscuidade relativamente à política. Dão para os dois lados, para a esquerda e para a direita. O que se tem visto relativamente ao ex-grupo Espírito Santo é demonstrativo disso. Estive a ler o relatório da comissão de auditoria da PT, onde novamente aparece o grupo e a família Espírito Santo, e fiquei com uma péssima impressão do que foi a privatização dos grandes serviços públicos. Na verdade, nada foi privatizado no sentido do investimento, foi sim privatizado no sentido de vendido rapidamente para obter dinheiro estrangeiro, que não cria emprego, novas indústrias, novos produtos e novos serviços, que não arranja emprego, que não investiu nada. O que se passou com a PT e com os 900 milhões e a ligação que agora está evidente ao grupo Espírito Santo deve-se, em grande parte, aos maus hábitos, às más tradições de grande parte da elite empresarial portuguesa. Digo grande parte porque ao lado há umas centenas ou milhares de empresas que salvaram Portugal com a exportação. Deste grupo, curiosamente, fazem parte os que falam menos, os menos mediáticos.  
 
O Presidente alertou para uma possível implosão do sistema partidário, culpou os partidos e insistiu no apelo ao compromisso. Cavaco Silva tem razão, o atual sistema partidário está em risco?  
 
Sim, o sistema está em risco e o Presidente da República deu o seu contributo para isso. O mandato poderia ter sido feito de outra maneira, com os partidos políticos, com mais visibilidade pública. Se estas preocupações são dele há já dez anos, já o deveria ter dito antes. Só o está a fazer no fim do seu mandato, tem mais um ano.  
Porque só o faz agora no fim?  
 
Está a construir a memória final do seu mandato.  
 
A pulverização de votos que está a acontecer em Portugal e que acontece, até com maior intensidade, em outros países da Europa, será um fenómeno circunstancial, ou um movimento sem retomo?  
 
Nestas coisas da política a previsão pode brilhar pela certeza ou pela asneira. Nunca fui grande simpatizante da previsão. Estou convencido de que, gradualmente, vamos caminhar para uma fragmentação política, isto é, vão aparecer novos partidos. Tanto dentro do PS como no PSD, poderão existir fenómenos importantes de separação.  
 
Como é o caso do Livre?  
 
Sim. Vamos ver qual o efeito do Livre no Bloco de Esquerda, mas a minha convicção também com o novo Partido Democrático Republicano é que pode ser uma explosão efémera de primavera que de repente acaba, como o Carnaval para durar três dias. Mas pode ser que não. Em toda a Europa há casos destes. Portugal não é diferente. Apesar de resistir muito, Portugal está a ficar um país como os outros. Portugal gosta sempre de ser especial, geralmente pelas más razões, mas está a ficar como os outros países. E nos outros países os novos partidos surgiram e estão a surgir, muitas vezes, a partir ou a esfacelar os partidos existentes. A minha convicção é de que nos próximos dez anos vamos ter novos partidos e que alguns dos atuais vão ficar irreconhecíveis.  
 
Esse fenómeno de aparecimento de novos partidos pode forçar o tal compromisso que defende?  
 
Esperemos que seja esse o resultado, porque senão será o caos político. Em 100 ou 150 anos, Portugal nunca reviu as constituições, ou, antes, as constituições foram feitas à força, não foram referendadas. Estamos em vias de nos aproximar de uma época em que o regime e a Constituição, se não evoluírem pacificamente, democraticamente e em liberdade, sê-lo-ão pela força. Se o caminho for o da fragmentação, sem compromisso nacional, para garantir a responsabilidade da direção política, então teremos o esfacelamento, a Constituição e o regime por terra, como no passado, tantas vezes.  
 
Portugal já deveria ter tido eleições?  
 
Estamos a viver um ano e meio dramático. Desde as eleições europeias tudo tem corrido mal dentro dos partidos, entre os barões dos partidos, no sistema político, no Parlamento, nas comissões de inquérito, no caso Espírito Santo, na PT, na TAP, nas PPP, na Educação. A abertura do ano letivo é um escândalo nacional e internacional. O escândalo da Justiça é uma coisa que já não é do domínio do autismo político, é do domínio do psicadélico. Este Orçamento vai ser de crispação, o do ano que vem vai cair em cima das legislativas, a poucos meses das presidenciais. Já devíamos ter arrumado a casa, já devíamos ter novo Parlamento, novo governo, um compromisso político para podermos viver o futuro. Qualquer dia que passa sem eleições é mau. A partir das europeias deveríamos ter feito logo legislativas.  
 
Começa-se a falar de março.  
 
É qualquer coisinha, mas é o costume, em Portugal tudo se faz com atraso. Deu-se cabo da ditadura com atraso, da descolonização com atraso, da Guerra Colonial com atraso, a revisão da Constituição foi feita com atraso, foi tudo sempre com atraso.  
 
António Costa poderá vencer as legislativas?  
 
É possível, sim. Duvido que tenha capacidade para ganhar com maioria absoluta, mas penso que há uma possibilidade de ele ganhar.  
 
E precisamos de uma revisão constitucional nesta fase?  
 
Profunda. Que impeça governos minoritários, que decida definitivamente a relação de poder entre o Presidente e o Parlamento, que continua a ser equivalente. É preciso inscrever limites máximos ao défice, é preciso retirar da Constituição meia dúzia de coisas puramente bacocas e demagógicas. O que é que é tendencialmente gratuito? Não sei o que isso é. Era necessário dar mais liberdade às gerações atuais para que possam rever a sua Constituição. É preciso permitir as eleições independentes, de novos partidos, é preciso que haja eleições uninominais, de confiança pessoal dos candidatos.  
 
Defende a candidatura de cidadãos independentes nas legislativas?  
 
Absolutamente. Não que queira eleger independentes, não quero fazer um Parlamento com 150 independentes. Isso seria uma balbúrdia, ingovernável. Quero é que a pressão dos independentes seja tal, que obrigue os partidos a ter os melhores.  
 
Quando os partidos perceberem que ao lado dos seus camafeus de conservação, educados nas suas alcovas partidárias e nos seus laboratórios de confeção da juventude em geral, de confeção dos agentes partidários, e que em vez disso na sociedade há pessoas que trabalham, trabalhadores e empresários, cientistas, diretores, advogados, o que quer que seja, que são boas pessoas profissionalmente, humana e culturalmente, os partidos têm de os ir buscar porque senão perdem.  
 
Estaria disponível se isso acontecesse, se fosse possível?  
 
Na minha idade já não, já não estou disponível para nada na política há 15 anos.  
 
PONTO FINAL António Barreto defende a realização de eleições legislativas quanto antes. Tal deveria ter acontecido logo a seguir às europeias.