sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

ALÉM de não ter sucedido nada ao carro cinzento (que esteve ali o tempo que quis e lhe apeteceu - como sucede a todos os que, neste 'curioso' local, fazem o mesmo), ainda foram chegando mais (como se pode ver em último plano).
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Repare-se, já agora, nas poças de água - em abatimentos do passeio provocados, especialmente, pelas camionetas que ali estacionam todos os dias. A própria tampa da caixa-de-visita da EPAL (que se vê no canto inferior direito) já foi destruída.

E enquanto tudo isto se passa (há anos e anos, perante a mais escandalosa passividade de uns tantos pantomineiros a quem pagamos 14 meses de ordenado por ano),
o 'Zé' paga, não bufa, e vota novamente 'neles'.

… só no fim do jogo

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Por Antunes Ferreira

NO PRIMEIRO DIA deste 2011, falar do predecessor que acaba de finar-se não tem qualquer originalidade. Mal o Ano Velho começa a deixar as muletas para passar à cadeirinha de todas, logo toda a gente o empurra para a carreta funerária. Cumpre-se, assim, o caminho para a cova? Mal parecia: actualmente é mais para o forno crematório. Que a Servilusa o acompanhe. Passe a publicidade.

Antever o que vai ser o que hoje começa, não é, de todo impossível. Em tal estado nos encontramos que a pitonisa lá em Delfos prescindiria dos fumos sulfúricos. No entanto, a afirmação que ficou para os anais da História, da autoria do Senhor João Pinto, antigo defesa esquerdo do FêCêPê e treinador de futebol, continua, impávida e serena: «Previsões, só no fim do jogo».

Quando o ainda-PR-futuro-PR promulgou anteontem o Orçamento de Estado para estes 365 dias a contar de hoje, as coisas não têm muito para descobrir. É apenas apertar o cinto. Dos mesmos de sempre. Foram-se os tempos de Henrique de Sagres a empurrar os seus marinheiros para que fossem descobrir que o fim do Mundo afinal não o era. E o Instituto de Meteorologia de Portugal, IP, vai caindo no risco de ser desnecessário.

A famigerada bola de cristal já deu também o que tinha a dar. Resumindo: até neste particular a pasmaceira do Rossio e adjacentes corre o risco de não passar disso mesmo. Na Baixa pombalina já não se descobre nada; as termas romanas vulgarizaram-se, o metro já passa, submarino, sob o Terreiro do Paço. Está definitivamente perdida a expectativa. Normalizou-se o ram-ram. A isto chegámos. Pessimista? Sou, como todo o Português que se preze.

É a crise a nível nacional em que o Governo nos encerrou – enterrou? Ou é a crise a nível internacional que, de acordo com o mesmo Governo, a tal estado nos atirou? Cara ou coroa? Funerárias ou futebolísticas? O Senhor Mourinho bem poderia dar uma ajudinha. Mas, se ele nem à selecção deu…

Não há-de, portanto, ser nada. Quem vier a seguir nem precisará de fechar a porta. Porque, pelos vistos, haverá quem venha a seguir, localmente falando? De fora? Isso, já são outros quinhentos mil réis.

Trágico balanço

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UM TRÁGICO balanço, o do presente ano de guerra civil nas estradas. Mas, no mundo de fantasia em que vivem o MAI e a ANSR, está tudo "no melhor dos mundos" (como diria o Cândido, o de Voltaire, ao ser lançado para a fogueira de um auto-da-fé no Rossio lisboeta).

Semanário O SOL
30/12/10

«PROVAVELMENTE este ano vai encerrar com mil mortos». A previsão é de José Trigoso, director-geral da Prevenção Rodovíária Portuguesa, referindo-se ao novo método de contagem da sinistralidade (‘mortos a 30 dias’), que entrou em vigor este ano e vai permitir saber quantas vítimas perdem a vida já nos hospitais, após o acidente.

Só até 21 de Dezembro, note-se, já morreram 725 pessoas, mais cinco do que em igual período de 2009.

Defendendo que este padrão se aproxima mais da «realidade», Trigoso sublinha que é preciso redireccionar esforços para a segurança dos peões e dentro das localidades: «Os dados (disponíveis apenas até Maio) mostram que existe um acréscimo geral de 35% de mortos. Dentro das localidades, o aumento é de 48% e, na categoria dos peões, o agravamento é de 82%».

Rede nacional de radares por criar

Esta, porém, foi «a única alteração visível» introduzida este ano. «A Estratégia Nacional de Segurança Rodoviária (aprovada em Conselho de Ministros em Maio de 2009) previa muitas outras acções, mas até agora esta foi a única posta em prática. Os grupos de trabalho constituídos há mais de um ano não voltaram a reunir», critica Trigoso, temendo que este documento, cuja execução compete à Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR), «não saia do papel», como sucedeu com o Plano Nacional de Prevenção Rodoviária, de 2003.

Segundo o calendário das acções, que se prolongam até 2015, a rede nacional de radares, por exemplo, já devia ter sido executada (o prazo terminava este ano). Mas, até agora, nem o concurso público internacional foi lançado para esta operação, que envolve dois mulhões de euros.

Por outro lado, também a fiscalização policial, observa Trigoso, te pecado por defeito: «Somos os país da União Europeia com menos condutores punidos por excesso de velocidade; a Holanda chega aos nove milhões».

No terreno, atesta o coronel Lourenço da Silva, que comandou a Brigada de Trânsito (BT), os problemas perpetuam-se, desde logo com uma «visível» ausência de policiamento: «A criação da Divisão de Trânsito e Segurança Rodoviária não foi mais que um mero órgão burocrático que, tardiamente, pre-tendeu, sem qualquer resultado, dar sequência ao trabalho da comissão criada para corrigir as consequências da destruição da BT».

Uma situação «difícil de inverter a curto prazo», considera Manuel João Ramos, da Associação de Cidadãos Auto-Mobilizados: «O impressionante aumento de mortes infantis (mais de 20%, mesmo ainda sem a contagem a 30 dias) e de vítimas em motorizadas (mais 20%) são sinais da dísfuncionalidade na fiscalização».

Auditoria arrasa ANSR

Manuel João Ramos vai mais longe: «Temos um ministro desgastado , sem capacidade de dialogo e de acção, que se tornou parte do problema em vez de ser parte da solução».

O balanço das políticas de 2010 é, portanto, pouco optimista: «Mesmo que a contragosto e por imposição europeia, o Estado português transpõs duas importantes directivas: a contagem de mortos a 30 dias e as auditorias de segurança rodoviária».

A primeira medida, embora com dados ainda frágeis, aponta já «graves problemas estruturais». A segunda está por aplicar, porque o diploma só foi aprovado anteontem – o prazo fixado era até 2009.

«Benéfica», acrescenta João Ramos, foi ainda a auditoria realizada pela Inspecção Geral da Administração Interna à ANSR (divulgada pelo SOL em Novembro passado), por ter «evidenciado que este organismo está a funcionar muito mal (600 mil multas prescritas nos últimos anos)», A resolução do problema, defende, «poderá passar pela demissão da equipa dirigente».

Para já, a ANSR anunciou apenas uma actualização do SCOT (Sistema de Contra Ordenações de Trânsito) que vai «encurtar os prazos de notificação dos infractores, ao mesmo tempo que lançou mais uma campanha de prevenção, desta feita intitulada ‘Nestas festas o melhor que pode oferecer é estar presente’.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

O ano em que a crise ganhou

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Por Rui Tavares

NUNCA GOSTEI da frase “a única coisa a temer é o próprio medo” que Roosevelt disse no seu discurso de investitura no mês de março de 1933, em plena Grande Depressão. Nunca gostei da frase porque a achava pirosa, o que é uma péssima mania; eu era novo e não queria admitir que uma boa parte das coisas verdadeiras e/ou importantes acabam por força sendo pirosas. O problema das pessoas novas é — mais do que não terem experiência — não terem imaginação para recriar mentalmente um momento em que uma frase destas possa ganhar todo o seu sentido.

(O problema das pessoas velhas é igualmente falta de imaginação. Por experiência a mais ou a menos, a falta de imaginação é sempre um problema.)

Pela mesma mania, nunca gostei de outra frase, desta vez dita por Lula quando perdeu uma eleição: “o medo ganhou à esperança”. Parecia-me, igualmente, uma frase pirosa. Mas acontece o medo ganhar à esperança, tal como acontece ficarmos tolhidos pelo próprio medo. Agora sei, porque o vi acontecer.

Esta crise formou-se subterrânea desde a década de 1980, e nos primeiros anos deste milénio era já inevitável e (digam o que disserem) previsível. Foi aliás, prevista: a única questão era saber se a queda ia ser dura ou suave. Quando, no verão de 2007, a bolha imobiliária americana deu os primeiros sinais de rebentar, ficámos à espera: agora íamos saber.

Ainda assim, durante um ano inteiro esta crise foi observada em embrião por uma minoria de curiosos, enquanto ainda era teimosamente negada pelos poderosos, cuja frase de eleição era: “os fundamentos da economia são sólidos”. Ah, sim! Chegou setembro de 2008 e os alicerces da economia desmoronaram-se sob os nossos olhos. Uma série de falências em cadeia teria levado bancos e seguradoras para o buraco se as suas perdas não tivessem sido, no fundo, nacionalizadas. E quando se experimentou deixar cair um banco aparentemente dispensável — o Lehman Brothers — a economia mundial viu o abismo. A crise foi tão má como nas piores previsões.

Logo no fim desse ano de 2008, apesar de tudo, a sociedade reagiu e, num primeiro combate, a crise apanhou um belo soco no olho. A eleição de Obama foi uma vitória da esperança contra o medo, a frase não deixa de ser pirosa, mas foi o que foi. E até achámos que estávamos preparados para fazer frente à crise. Não seria fácil mas conhecíamos o exemplo histórico da Grande Depressão, sabíamos o que estava em causa, tínhamos alguma ideia do que fazer e, sobretudo, os erros da ideologia dominante estavam identificados.

Era cedo para cantar vitória; como num daqueles jogos de futebol em que uma equipa voluntariosa mas desorganizada marca um golo nos primeiros minutos, o resto do tempo tem sido passado a ver a vantagem fugir, primeiro, e uma derrota avolumar-se depois.

Nos EUA, Obama passou este tempo todo com medo de tudo: da Fox News, do Tea Party, de ser acusado de ser “socialista”. Logo no início do mandato, recusou nacionalizar os bancos por parecer uma coisa “não-americana”. Roosevelt não teve medos desses quando, poucos dias depois de chegar à presidência, fechou todos os bancos por uns dias e reabriu apenas os que se revelaram sólidos.

Na Europa, a influência do medo tem sido ainda mais penosa. Não é um medo-pânico, como talvez devesse ser, mas uma cobardia instintiva, feita de receio, mesquinhez e paralisia. Em 2010 instalou-se, e não se vê como vamos sacudir esta coisa de cima dos ombros.

Sabemos como estas coisas continuam: com um enfraquecimento da cidadania, primeiro, e da democracia depois. Eu, apesar dos sinais, ainda me recuso a admitir que a democracia não seja mais forte. Mas pode ser que — tendo vivido em democracia desde os dois anos de idade — simplesmente me falte imaginação.
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RuiTavares.Net

Euro ou novo escudo?

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Por João Duque

QUANDO EM 1998 nos preparávamos para aderir ao euro participei em inúmeras reuniões de trabalho para prever as consequências e questões práticas dessa adesão. Para além das questões legais que se colocavam, os detractores de tanto tempo consumido em reuniões e demais preparações sumariavam todo o esforço à "questão dos arredondamentos". Isto é, para além de leis que obrigavam a que nenhum devedor se furtasse ao pagamento de dívidas em escudos (moeda que ia desaparecer, podendo invocar-se que não se poderia entregar o que já não existia), as questões resumiam-se a muito trabalho de computação para preparar os sistemas às novas unidades monetárias, à educação para a nova moeda, e aos arredondamentos (para que contas iriam verter todos os arredondamentos feitos em milhões de contas).

Hoje há já países recentemente chegados ao euro que expressam opinião pública, através dos seus ministros, de que Portugal deveria sair do euro e é com tristeza que assisto a um governo impávido e sereno a ver pespegarem-lhe com tudo isto na cara sem que tenha a mais pequena reacção ao tema ou que explique aos portugueses quais os problemas que se colocariam a essa nova mudança.

Podemos pensar que sair do euro é simplesmente o movimento inverso ao da entrada. Isto é, pode imaginar-se que o problema se resume, mais uma vez, à lei, à educação, à informática e aos arredondamentos. Mas não. O problema é que agora, ao contrário do que sucedeu na entrada, a moeda de que sairíamos continuaria a existir, pelo que a questão legal passa a ser bem diferente da anterior, porque teria imediatas e pouco conhecidas consequências económicas. Antes, quando entrámos, bastava decretar que todos os títulos expressos em escudos (e que são passivos ou deveres de uns, são activos ou direitos para outros) seriam automaticamente convertidos em euros. Caso o não fossem caducariam pela impossibilidade de entrega do que já não existia. Hoje, porém, se saíssemos do euro, essa moeda ainda existiria e haveria que decidir se converteríamos ou não na nova moeda todos, só alguns, ou só os novos os activos e passivos, à medida que fossem criados.

A discussão da valorização das variáveis ‘stock' (direitos existentes), associada à da valorização das variáveis fluxo (rendimentos futuros gerados já na nova moeda escudo se originados internamente, ou noutra moeda, se produzidos externamente), e, ainda mais relevante, a discussão em torno da potencial reacção dos mercados a esta conversão, ou sobre o interesse desses mercados por activos expressos no novo escudo está ainda por fazer. Mas uma coisa parece-me certa: se convertermos todos os direitos e responsabilidades na nova moeda, com a desvalorização imediata que prevejo, com o pouco crescimento que a nossa economia parece prometer, mesmo num regime de câmbios livre e controlado pelo nosso Banco Central, teríamos a debandada generalizada dos credores internacionais que veriam nessa desvalorização um forte ‘hair cut' nas suas posições. E pergunto, quem depois subscreveria novas emissões de dívida feitas em escudos? E que taxas não teríamos de oferecer para atrair novos credores? Deus queira que essa não seja a contrapartida exigida pelos "amigos" (FMI e Fundo Europeu de Estabilização Financeira) que prevejo cada vez mais prováveis a envolverem-se na nossa recuperação.
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«DE» de 30 Dez 10

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Sonata para um menino que está a chegar

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Por Baptista-Bastos

VENS JUNTAR-TE a nós e, em si mesma, a tua vinda é já um acto de comovente beleza. Há muito que te esperávamos, provindo dessa interminável sequência na qual se tecem os fios da nossa condição. As coisas não estão boas, por aqui. Mas os tormentos que nos assolam não calam a voz das nossas esperanças. Vem, menino. Pertences a uma estirpe que acendeu o seu lume em muitos campos alheios e fez um leito de nações num concerto de poesia que dura há séculos. Que quer, rigorosamente, dizer isto? Que o parágrafo das nossas vidas tem sido extenso e que, no encontro com os outros, alargámos os laços da nossa pessoal intimidade.

Vem, menino. Menino novo, cujo coração unânime vai bater como o coração de um anjo que sorri e nos acena. Sei que vais ser um menino feliz, como eu sou feliz ao escrever esta afirmação pausada. Menino feliz porque te espera um coro de risos, de faces radiantes; a paixão de quem quer dar tudo pela fortuna de te ter consigo e o regozijo de nos pertenceres para te pertencermos.

Há muito que te esperávamos. Há muito que te esperava, como o louvor de uma boa nova ou o sinal de uma luz rigorosa para a festa de todas as festas. E aí vens.

Já se sabe como é o mundo: sombrio e venal, cobarde e duro, obscuro e triste, glorioso e valente, tímido e arrogante, calado e grosseiro. Já se sabe. Mas a qualidade áurea das criaturas que o habitam e que o moldam, com a argila das suas individuais deficiências, faz com que, todos os anos, continuemos a acreditar. E assim nascem meninos como tu, produtos dessa crença confusa na concórdia que nos impele para todos os recomeços.
Em cada ano que atravessa outro ano renovam-se os risos, remoçam os alvoroços, renascem os velhos no olhar dependente dos meninos, porque os velhos são meninos que se prolongam na pontualidade e no espanto das coisas permanentemente inauguradas. A vida, como é hábito.

Espero-te com a emoção de quem viajou por muitos bares, muitas cartografias, por muitas palavras, por muitos socalcos. Mas não quero dar-te conselhos. Os conselhos são o modo de os antigos imporem uma ridícula superioridade. A expressão: "No meu tempo..." é o início de algo de enfadonho; a fastidiosa e inútil frase que pretende doirar o passado de misérias e afrontas. Como se isso fosse possível. O tempo é todo nosso, o teu e o meu, pode levar tudo, mas nunca lava tudo.

O mundo anda atrapalhado e aflito. Há quem pense que deixou de haver lutas e que a nitidez do entendível perdeu-se no opaco e na desistência. Vais ver que as realidades não são bem assim e que as razões da existência dispõem de argumentos poéticos com os quais se pode enfrentar a manipulação, a omissão, o medo e a mentira.

Não te demores.
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«DN» de 29 Dez 10

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

«Dito & Feito»

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Por José António Lima

NUMA DAS MUITAS entrevistas que José Sócrates vem dando, a cada dia mais crente nas virtudes da propaganda, o primeiro-ministro contesta que o Governo tenha falhado, ultimamente, todas as suas previsões. «Em 2009, temos um défice de 9,3% - que aumentámos de 2,7%, salvo erro -, mas há uma boa razão: é que tivemos a maior crise internacional dos últimos 80 anos», alega Sócrates.

Ora, esta justificação é apenas uma parte da verdade. Pois foram razões nacionais (a crise do nosso crónico endividamento, o despesismo do Estado e a falta de competitividade da economia) que levaram o défice português para valores bem acima da maioria dos parceiros da UE - e o nosso PIB para valores bem na cauda da lista europeia.

E foram razões político-eleitorais que levaram o Governo socialista a distribuir em 2009, ano de legislativas, generosas benesses, como aumentos de salários ou a descida do IVA - só admitindo que havia uma enorme derrapagem do défice já depois de realizadas as eleições.

Quanto ao igualmente problemático défice deste ano de 2010, o primeiro-ministro explica assim o recurso à receita extraordinária do fundo de pensões da PT: «Tivemos também uma despesa extraordinária chamada submarinos. Como compensaríamos os mil milhões de euros dessa despesa extraordinária sem recorrermos a uma receita extraordinária?». Ora isto é, mais uma vez, uma meia-verdade. O fundo da PT vai pagar os mil milhões dos submarinos, mas ainda sobram 1,7 mil milhões. Que vão servir para quê? Para encobrir muitas outras derrapagens extraordinárias.

Como o incontrolável buraco da Saúde. Onde as dívidas do SNS, dos hospitais-empresa, às farmacêuticas, etc., atiraram o défice para um nível alarmante. Que a ministra Ana Jorge recusa confirmar, mas não ousa desmentir. E, pela primeira vez desde há muitos anos, o seu Ministério da Saúde omitiu agora o valor do défice acumulado nos mapas que o Governo entregou no Parlamento para a discussão do OE.

Eis como se gere a política da meia-verdade. Ou da meia-mentira, como se quiser.
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«SOL» de 23 Dez 10

O MENINO JESUS

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Por Maria Filomena Mónica

QUANDO a minha mãe morreu, deixou-me um Menino Jesus. Depois de alguma hesitação sobre o seu destino, segui o conselho das minhas netas e coloquei-o ao lado da árvore de Natal. Devido à composição da família moderna, com segundos e terceiros casamentos, tal é o número de avós que as criancinhas têm de visitar que, cá em casa, a Consoada tende a prolongar-se até aos Reis. Assim, em vez de apenas ser exibido um ou dois dias, o Menino fica na sala até o último embrulho desaparecer. Não tive outro remédio que não fosse o de me habituar à sua presença.

Da minha infância católica, ficaram-me vestígios nem sempre evidentes. Gosto de Anunciações, de Nossas Senhoras do Ó, de Anjos sobrevoando humanos. Sou capaz de ficar horas a olhar as madonnas de Filippo Lippi, as adolescentes com asas de Boticelli, o menino salvador do mundo de Josefa de Óbidos. Tantas saudades albergo do latim dominical da minha infância que, este Verão, dei comigo na Igreja de St Aloysius, em Oxford, pela qual, ao longo de trinta anos, passara sem jamais nela ter entrado, a fim de ouvir a missa celebrada segundo o antigo ritual. Uma vez em Lisboa, decidi rever os anjinhos, em talha barroca, que decoram a capela de Nossa Senhora da Piedade na igreja de S. Roque. E, chegada a quadra natalícia, considerei apropriado ouvir, vezes sem conta, o exaltante coro «For unto us a child is born…», do Messiah, de Handel.

Mas nada me comove tanto quanto o Menino Jesus da minha mãe. Com aqueles olhinhos de vidro, aquela tanga doirada e aquela camisinha decorada a estrelas, parece um menino qualquer, só que mais bonito. Depois de o ter retirado do armário, onde fica guardado durante o resto do ano, tive um sonho, no qual ele aparecia ao lado de um senhor desconhecido, que disse chamar-se Alberto Caeiro. O Menino vinha, com ele, a correr, rolando-se pela erva do jardim, arrancando as hortênsias dos canteiros, rindo-se com gargalhadas que ecoavam por todo o prédio. Tinha fugido do céu, após ter chegado à conclusão de que lá tudo estava em desacordo com as flores e as árvores e as pedras deste mundo. Descobrira que, no Paraíso, não o deixavam, como sucedia com outras crianças, ter pai e mãe. O seu pai era duas pessoas: um velho chamado José, um carpinteiro que não era bem pai dele; e uma pomba estúpida, que não era do mundo nem pomba. E a sua mãe não tinha amado antes de o ter. Um dia, em que Deus estava a dormir e em que o Espírito Santo andava a voar, fora à caixa dos milagres e roubara aquele truque que permite a alguém fugir sem que tal facto seja notado. Em 2006, descendo pelo primeiro raio de sol, aterrou em minha casa.

Hoje, é uma criança saudável, alegre e brincalhona. Atira pedras aos gatos, rouba a fruta da nespereira e foge dos cães. Corre atrás das raparigas que, em rancho, vão pela rua, levantando-lhes as saias, porque sabe que elas não gostam e que toda a gente se ri do disparate. A mim, mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as tem na mão, conta-me que a Virgem Maria leva as tardes da Eternidade a fazer meia e que o Espírito Santo se coça com o bico. Quando adormece, levo-o, devagarinho, até à sua almofada carmim, decorada com um resplendor monumental. Vive na minha cave, entre garrafas de vinho do Porto vintage, que considera demasiado doce para o seu paladar, e meia dúzia de atoalhados de linho, que aprecia. No Natal, dá-me a mão, a mim e aos meus três netos, a Rita, a Joana e o Miguel, e vamos os cinco pelo caminho que houver, gozando o nosso segredo, que é o de saber que não há mistério no mundo e que tudo vale a pena.

O Menino e eu damo-nos tão bem que não nos interrogamos jamais sobre a sua origem. Ao anoitecer, conto-lhe histórias dos homens de carne e osso, sorrindo ele, porque tudo lhe parece incrível. Ri dos reis, que não são reis, e não gosta de ouvir falar de guerras, porque são cruéis. Às vezes, acorda de noite e vira os meus sonhos de pernas para o ar, batendo palmas. Quando morrer, depois de ter despido o meu cansado e humano ser, levar-me-á até ao meu prado favorito, perto do rio Isis, onde depositará as minhas cinzas. Eis a história do meu Menino Jesus. Por que razão não há-de ser mais verdadeira do que aquela que os teólogos nos impingem? A minha versão não teria agradado à minha mãe, mas, seja onde for que se encontre, pode estar sossegada. O seu Menino encontrou um lar onde se sente feliz.

«GQ» de Janeiro 2010

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Newton e o Homem Aranha

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Por Nuno Crato

QUEM É MAIS conhecido? Neil Armstrong, o primeiro homem a pisar a Lua, ou Marylin Monroe, a actriz com mais sucesso em Hollywood? Quem é mais popular? O Homem Aranha ou o Rato Mickey? Há tempos, esta questão podia entreter-nos em animados debates. Hoje, basta ir ao Google, digitar os nomes e contar o número de ocorrências. Claro que há alguns cuidados a ter, por exemplo restringir-nos a páginas escritas numa determinada língua ou escrever “Mickey Mouse” e “Spyder Man”, se nos centrarmos no idioma original destes dois. Se, contudo, quisermos saber quem era mais popular nos anos 1970, já o Google de pouco nos serve.

Também se quisermos discutir, como muitos nacionalistas o fazem, qual é a língua que tem mais um vocabulário mais extenso, teremos de usar outras técnicas. Podemos, por exemplo, ver os maiores e mais completos dicionários desses idiomas e contar os vocábulos que cada um deles comporta. Este método é discutível, claro, pois pode-se dizer que algumas línguas não têm a felicidade de ter dicionários tão bons como outras. E ainda maior dificuldade teremos se quisermos saber como aumentaram os respectivos vocabulários. Em 1700, o inglês tinha mais palavras que o alemão? E em 1800, o italiano tinha a primazia sobre o francês?

Todas estas perguntas, que há poucos anos pareciam nunca poder alcançar resposta condigna, começam a ser objecto de estudos quantitativos muito sérios. Num artigo que esta semana foi publicado pela “Science” (doi: 10.1126/science.119964), relatam-se resultados de um estudo linguístico que se enquadra no que se pode chamar “culturologia” (“culturomics” em inglês).
Um grupo de investigadores de Harvard, que inclui o linguista Steven Pinker e colaboradores da Enciclopédia Britânica e da Google, usou os frutos do trabalho desta última empresa para começar a perceber como tem evoluído quantitativamente o corpus linguístico.

Até hoje, a Google reuniu uma biblioteca digital de mais de 15 milhões de livros, o que representa aproximadamente 12% de todos os volumes publicados. Desses, os investigadores seleccionaram cinco milhões, com uma digitalização de melhor qualidade. No total, isso corresponde a 500 mil milhões de palavras, nas quais predominam 361 mil milhões em inglês, 45 mil milhões em francês e outros tantos milhões em espanhol. Os livros mais antigos são de 1500, totalizando nas primeiras décadas do século XVI apenas algumas centenas de milhares de palavras. O total de palavras sobe para 60 milhões por ano em 1800, 1,4 mil milhões em 1900 e 8 mil milhões em 2000.

Há muitas perguntas profundas que podem começar a ser respondidas com esta gigantesca base de dados. Os investigadores concluíram, por exemplo, que o léxico da língua inglesa subiu de 554 mil palavras em 1900 para 597 mil em 1950 e para um pouco mais de um milhão em 2000. Na última década, o crescimento tem sido inacreditável, de cerca de 8500 palavras por ano.

Como há muito se sabe, o uso das palavras é muito desigual. Há as que são utilizadas frase sim frase sim e as que muito raramente aparecem. A sua distribuição estatística é bem descrita pela célebre lei de Zipf, que postula que a ocorrência de cada palavra é inversamente proporcional à sua ordem na lista de frequências. Assim, no caso mais simples, a palavra mais frequente ocorre duas vezes mais que a segunda na lista, três vezes mais que a terceira, e por aí adiante. Os investigadores verificaram mais uma vez que esta lei estatística se aplica ao léxico e estimam que 52% das palavras em língua inglesa têm um uso tão raro que os dicionários não as documentam.
Notaram também que as presenças femininas na literatura têm vindo a sobrepor-se às masculinas. Da mesma forma, Newton fica acima do Homem Aranha em número de ocorrências.

«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 23 Dez 10

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

O rebuçado

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Por Baptista-Bastos

ÍAMOS, OS CINCO,
nos Restauradores. O dinheiro era pouco e, por isso mesmo, rateado. Fazia frio e éramos felizes. Decidimos, dentro do frio e na nossa felicidade frugal, sentarmo-nos na casa dos sorvetes e comer meia cassata. Antigamente, no tempo do frio, ninguém, em Lisboa, comia gelados, e arrepiávamo-nos quando víamos, nos filmes, miúdos e graúdos a lamber cones de sorvete. Mais tarde, muito mais tarde, em Moscovo, surpreendi o deleite, para mim inaudito, de ver magotes de gente a medir-se com enormes invólucros de plástico repletos de sorvetes de várias cores. Caminhava pelas ruas cheias de neve, na companhia do meu amigo José David Lopes, camarada do Diário de Notícias, e resolvemos beber vodca pelo gargalo de uma garrafa avulsa, acaso como retaliação absurda pela quantidade de pessoas lambedoras de sorvete.

Mas, naquele dia, éramos os cinco e não havia infelicidade que nos tocasse no batente. Sorríamos uns para os outros, e eu estava com aquele orgulho, um pouco tolo, um pouco ufano, do patriarca que nunca se desentende da sua condição. Os nossos três rapazes estavam naquela idade em que a música dos sonhos nunca se esfuma e tudo é permitido e possível. A minha mulher, jovem, serena e vigilante, observava-nos a todos, e eu sentia a pulsão do imperativo que a animava. Um dia, pensei, hei-de escrever sobre este momento, no qual se desprende o íntimo de um coração, e se ignora a metáfora. Não sei se chegou a altura.

Ela e eu tínhamos combinado comprar umas prendas aos filhos, era Natal, e eu recebera um bónus do jornal onde trabalhava. Dava para muito pouco, o bónus, mas sempre dava para alguma coisa. Por outro lado, o nosso filho do meio decidira trabalhar, na quadra de Natal, numa empresa de mudanças, a fim de amealhar trinta contos, o preço de umas botas de bico longo, suas preferidas que eu detestava por as considerar grosseiras. Ele tinha 17 anos e contrariávamos essa ideia tida por nós como disparatada. Por fim, ganhara a sua perseverança, e lá andara, durante um período, a carregar móveis. A mãe, preocupada e inquieta; eu, um pouco orgulhoso.

Chupávamos a cassata, calculados no que fazíamos e exactos no prazer modesto, na felicidade pequena que nos abrangia. Eis senão quando o nosso filho do meio se ergueu, sorriso de ponta a ponta da boca, braços abertos na exuberância afortunada que até hoje se lhe mantém. "Ah!, ganda Gabriel!", exclamou, para outro rapaz que se lhe aproximava, também exuberante e também alegre. "É um amigo meu das mudanças." Abraçaram-se, no júbilo de um reencontro inesperado. O Gabriel meteu a mão no bolso. Procurava o que não descobria ou não tinha. Por fim, extraiu algo pequeno e, pelo seu olhar, fútil. Estendeu um rebuçado.

"Bom Natal!", disse
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«DN» de 22 Dez 10

sábado, 18 de dezembro de 2010

Num quarto de hotel

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Por Antunes Ferreira

FAÇAM O FAVOR de me acreditar, o que desde já agradeço: não tenho vontade nenhuma de escrever. E, se eu gosto de o fazer… Porém, há momentos em que uma pessoa nem tem vontade de gostar daquilo que gosta. Este é um deles. Aqui onde me encontro, fora do País para onde voltarei já amanhã, afinal hoje para quem tem a paciência de (ainda) me ler, continuo a sentir o mesmo peso – se não maior – que me caiu em cima na quarta-feira, à noite.

Desculpem-me este desabafo. Talvez ele me ajude a acertar nas teclas do meu portátil, num quarto de hotel que não é a minha casa e por isso um tanto claustrofóbico. Mandei vir o combinado n.º 6 e o empregado do Room Service entregou-mo há uma meia hora. O ovo mexido e as fatias de presunto, enfim, engoli-os. As salsichas, as batatas fritas e o ketchup, abandonadas no prato, são um insulto aos que neste Mundo passam fome. E que são muitos.

A viagem contra-relógio impediu-me de acompanhar o nosso CPC aos Olivais. Na noite de quinta-feira, as horas no velório foram difíceis, sobretudo por encontrar gente que já não via há anos. A sala do Palácio Galveias fora-se enchendo, num ritmo de romagem que se acentuava momento a momento. Fora dos primeiros a chegar, estava agoniado do sofrimento, saíra para o frio da noite, sem eira nem beira.

Avião é uma chatice, preciso sempre de pedir à assistente que me forneça a extensão do cinto de segurança; problema dos gordos. E a cadeira é-me incómoda de tão apertada, num abraço desgarrado de violação da identidade – e da rotundidade. E, ainda, a impossibilidade de baixar a mesita das refeições também me mexe com os nervos. Tudo isto sem ter medo de voar. Que seria, se o tivesse?

No entanto, estou a debitar prosa sem sentido, quiçá sem qualquer intenção. Não obstante, há alturas em que, mesmo violentando-se, um homem tem de escrever. Há quem espere o texto habitual – e a esse não se deve faltar. Aprendi assim desde miúdo, reaprendi na lufa-lufa da informação, tinha de ficar algo que me levasse a fazer o que estou… a fazer.

Há textos que nunca gostei, nem gosto, nem gostarei, de alinhar no papel, agora no monitor do Compaq. São difíceis de parir, saem aos arranques, comprimem-me, deprimem-me. Não são impossíveis, são passíveis de auto-flagelação. Na vida e na morte, fatalmente. Porque a todos nos espera o mesmo fim.

Pronto, fico-me por aqui, esgotei a bílis, esgotei as meninges, esgotei-me. Hoje, sábado, o artigo não falha junto dos que esperam por ele. Os dias continuam. A perda, essa, ir-se-á atenuando. Raio de porra.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Miséria

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Por João Paulo Guerra

OS TRABALHADORES empregados vão passar a descontar para a indemnização mais barata que poderão vir a receber quando, mais dia, menos dia, forem despedidos.

Este é o requinte máximo da nova legislação laboral de um governo socialista. E aqui está o verdadeiro socialismo da miséria, como contribuição portuguesa para o ‘stock' das ideologias.

As oferendas ao patronato que, a par de outros "incentivos", poderá agora despedir mais barato e, em última instância, pagando as indemnizações com descontos dos salários dos trabalhadores, é uma das medidas do pacote laboral do PS pós-moderno, uma espécie de pós para um socialismo solúvel. Dizem especialistas que tais medidas terão impacto diminuto no combate à crise da zona euro. Ora isto apenas confirma que a crise do euro, como antes a crise da delinquência financeira, como todas as crises em que Portugal tem vivido mergulhado nas últimas décadas, está a servir de simples pretexto para reduzir a zero os direitos sociais que, para além da Constituição da República, estão inscritos na Declaração Universal dos Direitos do Homem. Mas isso de Direitos do Homem também já foi chão que deu uvas. Os Direitos do Homem encheram a boca de governantes e respectivos mandantes quando se tratava de combater os países chamados socialistas. Constituíram um ‘slogan' e não uma causa. E agora já há quem tenha coragem para dizer que os direitos sociais são parte da tralha de um mundo que acabou.

Quanto ao Portugal que está a ser criado, só difere da escravatura porque ainda permite que, quem quiser, opte por morrer à fome sem trabalhar, em vez de morrer a trabalhar com salário reduzido, suspenso, em atraso, com impostos e tributos agravados para tudo e até para financiar o despedimento.
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«DE» de 17 Dez 10

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

A última lição

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Por João Duque

HÁ, NAS UNIVERSIDADES, uma prática comum de solicitar aos professores que se aposentam, a prestação de uma “Última Lição”. É uma aula triste por natureza, porque é suposta ser essa a última lição formal do lente. E é sempre triste quando um professor se despede da sua profissão, haja embora alguns que vêem na sua saída a maior das alegrias...

No caso do professor Ernâni Lopes, que eu saiba, não houve a última lição. No entanto, sem a saber, ele proferiu-a, e de que maneira, ao participar em Junho de 2010, num programa da SIC-Notícias (Plano Inclinado), e em que tive o prazer de partilhar a sua companhia em estúdio.

Porque estas coisas da imagem podem desaparecer dos ‘sites' onde ainda podem ser visitados, relembro aqui, por escrito, os meus apontamentos dessa última lição. Sinto que ele nos deixou uma lição para vermos e revermos durante os próximos anos, porque nos legou uma visão para Portugal, para um tempo entre o fim do 1.º e o final do 2.º quartel do século XXI.

Deixando a visão do curto prazo que ele designou de "superficial" e que no espaço temporal do imediato levava a focar as atenções para os mercados, para a emergência das Bolsas, para a angústia opressiva da dívida externa, as quais iam exigindo medidas concretas e de projecção mediática, ele pedia a nossa atenção, o nosso fôlego, para o mergulho de profundidade. Ele sabia que essa é a zona onde ninguém quer mergulhar e por isso, ao saber que é difícil, mais importante se torna a nossa dedicação e meditação.

Nesta óptica ele chamou a atenção dos portugueses para a relação de Portugal com a União Europeia, embora não esquecendo o que tem de voltar a ser vital: a nossa relação com África e com o Brasil.

E depois chamou para as acções a realizar no longo prazo. E essas passam por uma alteração dos valores, das atitudes, dos padrões de comportamento, no fundo o que mexe com a nossa credibilidade.

A isso chamou a "Via Útil para o Futuro" e foi aconselhando: o facilíssimo, deve ser substituído pela exigência; a vulgaridade, pela excelência; a moleza, pela dureza; a golpada pela seriedade; o videirismo pela honra; a ignorância pelo conhecimento; a mandriice, pelo trabalho; a aldrabice, pelo trabalho.

Fiquei sem saber se a lista indicada e as transformações propostas eram, de algum modo, uma finíssima ironia aos Governos de Portugal, que muito ocupados com o curto prazo, vão descurando o que de profundo e importante deve ser pensado, devendo agir-se em conformidade.

Mas sei que, se dedicarmos um lustre a cada uma destas alterações sugeridas pelo professor Ernâni Lopes, temos aqui trabalho para 40 anos. E chegaremos ao final da primeira metade deste século com a casa bem arrumada para prosseguirmos com serenidade e determinação para o final do 1º milénio da nacionalidade com uma cabeça bem diferente: mais erguida e mais orgulhosa.

Sei que dificilmente poderão contar comigo para 40 anos de actividade tão difícil e tão árdua, mas vale a pena tentar. Vamos começar o ano a fazer um bocadinho de força nesse sentido?
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«DE» de 16 Dez 10.

NOTA (CMR): o vídeo do programa referido no 2.º parágrafo pode ser visto [aqui].

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

A encruzilhada

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Por Baptista-Bastos

A AD, nas suas variantes e máscaras, foi sempre um equívoco. Por inconsistência ideológica, pela insatisfação dos seus próceres, cuja ânsia de poder sobrelevava as urgências nacionais, e pela obstinação absurda de que não encontrariam resistência. É um empreendimento que pretendia assegurar a continuidade -não se sabe bem de quê. Porque a História deixara de ser o que fora, e a crença na renovação de uma convergência de direita, que os seus entusiastas procuravam inocular ao "projecto", constituía uma espécie de sobressalto emocional. Todas estas ligações não só foram inúteis como se revelaram perigosas.

Ao que parece, os drs. Passos Coelho e Paulo Portas andam muitíssimo afobados em ressuscitar o cadáver esquisito. Não desejam, pelos vistos, seguir a parábola de Santo Agostinho sobre o ser e o ter; sobre o despojamento dos bens materiais em favor de uma empolgante ascensão espiritual. E cito Santo Agostinho porque eles o nomeiam, dizendo condenar a tirania das desigualdades. Mas a direita que representam é mais inclinada a ter - para desprezar o ser. E a referência ao teólogo é da ordem da retórica.

O futuro que se nos apresenta é de molde a causar arrepios. O "socialismo moderno", de José Sócrates d'après Tony Blair, tornou impossível a valorização de cada um (individual ou de grupo), fechado numa indiferença social e numa soberba que recusaram os princípios fundamentais da solidariedade. Ninguém acredita no que diz inflamado e assertivo, este estranho primeiro-ministro. E Passos Coelho nada promete de benéfico: quer privatizar a saúde, a educação, a Segurança Social, os transportes, e transformar o País numa empresa gerida através do manual do "mercado". Os elos que caracterizaram a civilização comunitária foram sistematicamente destruídos. Esta democracia de superfície é uma aliada do capitalismo e dos defensores do controlo civil. Mário Soares disse, há dias, que é preciso bater o pé à direcção da União Europeia. Como?, se foi com as traições "socialistas" e com a abdicação dos antigos valores que a direita mais caceteira tomou conta do Parlamento em Bruxelas. Quem manda e quem nos manda é o Partido Popular Europeu, cuja solidez reside não apenas na sua força como na debilidade asténica da esquerda.

Podemos mudar o sentido das coisas? Podemos. Basta que as nossas escolhas sejam racionais e que não temamos o risco de desafiar. Sophia de Mello Breyner, num dos seus mais belos poemas, escreveu: "Nestes últimos tempos é certo que a Esquerda muita vez / Desfigurou as linhas do seu rosto / Mas que diremos da meticulosa eficaz expedita / Degradação da vida que a Direita pratica?"

Que a voz da poetisa ecoe como uma advertência e que saibamos merecer a grandeza da sua dimensão.
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«DN» de 15 Dez 10

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Passatempo-relâmpago de 13 Dez 10 - Solução

In «Fernão Mendes Pinto», de Mário Domingues, Ed. Civilização
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Pode considerar-se que, no essencial, a resposta dada por 'Karocha' está certa, pelo que ela tem agora 24h para escrever para medina.ribeiro@gmail.com, indicando morada para envio do prémio.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Informar é muito perigoso

Julian Assange entregou-se às autoridades inglesas, e os Estados Unidos manifestaram, de imediato, um contentamento um pouco pacóvio. Assange, australiano, fundador do WikiLeaks, revelou, através de um “site”, montes e montes de documentos, que põem em causa a seriedade e a decência, não só dos meios diplomáticos, mas, sobretudo, dos governos, especialmente dos governos norte-americanos.

Assange fez o que a Imprensa deveria ter feito. Acontece um porém: ele não procede à triagem ou à selecção dos documentos; essa tarefa é-nos atribuída, com a responsabilidade que acarreta. A questão talvez resida aí. Mas, pergunta-se: um jornalista, pelo facto de o ser, está acima do que se entende ser a cidadania do comum dos mortais?

A montanha impressionante de informação, pela quantidade e qualidade, é de molde a fazer estremecer os governantes de actuam na perversidade da sombra e do silêncio, preferindo a omissão, a trapalhice e a indignidade à transparência e à clareza que são atributos da democracia. Mas, na verdade, onde paira a democracia? Que nação do mundo pode arrogar-se à exemplaridade de ser “democrática”?

Através daqueles testemunhos ficámos a saber que George Bush, pai e filho, são criminosos de guerra, culpados de medonhas atrocidades e de cometimentos políticos que não deixam os céus sossegados. Sabia-se, clara ou vagamente, do sucedido no Irão e no Iraque; das negociatas dos sinistros Rumsfeld e Cheney, cujas mãos estão encharcadas de sangue. Mas a natureza minuciosa dos seus crimes estava mergulhada nesse aluvião de mentiras e de omissão com que as Administrações nos EUA articulam e escoram as suas políticas.

A imoralidade faz parte do nosso universo consuetudinário. Já se sabia. Como já se admitia que a política é assim mesmo, sem rosto e sem vergonha. Porém, a riqueza de pormenores contida nas informações de Assange, as características descritas acerca de governantes, ministros, reis, rainhas e primeiros-ministros, aterra as almas mais sensíveis. É uma vistoria de ordem moral que os embaixadores fizeram, ou continuam a fazer, aos dirigentes dos países onde se encontram. Se há informações cuja importância é discutível, outras fazem lembrar as dos tempos de John Edgar Hoover, o todo-poderoso chefe do FBI, que chantageou, ameaçou e obrigou ao exílio ou ao suicídio centenas, senão milhares, de norte-americanos. É essa prática doentia e inquietante que parece não ter sido extirpada do corpo político da sociedade dos Estados Unidos.

O caso da WikiLeaks merecia um estudo cuidado dessas escolas de “comunicação social”, que têm sido viveiros de limitações, de regras apertadas, sem fins úteis à vista. E a detenção do australiano tem passado em silêncio. Acusado de crime de abuso sexual, está na cara que a perseguição, o acosso e a prisão de Assange configura uma vingança e esclarece o poder de certas potências. É claro que a proposta do Kremlin, em favorecer uma proposta para que Julian Assange seja candidato ao Nobel, é tão absurda, tão ridícula e tão infantil como o cerco e a prisão de que ele foi vítima.

O australiano é acusado de quê? De pôr em risco a segurança mundial e de facilitar a vida ao terrorismo? Sejamos sérios. E nem o encarceramento de Assange faz terminar as funções para que o WikiLeaks foi criado. Aliás, o próprio Assange já disse que a informação vai prosseguir, e que nada nem nenhum poder, político ou outro, conseguirá amordaçar a verdade dos factos. Caluniado, insultado, ameaçado de morte e de sevícias, Julian Assange não deixa de protestar as suas convicções morais. E, convém, não esquecer, que vai acontecer aos dirigentes de “The New York Times”, “The Guardian” ou “El Pais”, três dos mais conceituados jornais planetários, que publicaram as informações reveladas pelo australiano?

Informar é perigoso. Para alguns. E depende sempre da informação que se presta.

Falecimento de um homem de bem

Com 92 anos e uma vida rodeada de respeito e de honra, faleceu, há dias, Avellar Soeiro, o primeiro ‘public relations’ português, que conferiu à profissão os galões de dignidade e de prestígio de que a profissão necessitava. Nos anos de 60, estando ele no Laboratório Nacional de Engenharia Civil, onde desempenhou nobilitantes tarefas, convidou-me e ao Daniel Filipe, a organizar um gabinete de Imprensa, que promovesse as Primeiras Jornadas Luso-Brasileiras de Engenharia Civil. O Daniel e eu estávamos em situação económica dificílima, acrescida, no meu caso, de me ter envolvido em acções políticas directas. Avellar Soeiro conhecia o caso. E contratou-nos. Devo dizer que o nosso trabalho, apoiado e estimulado por Avellar, constituiu um êxito muito grande. No decorrer dos anos via-o, ocasionalmente, nas Portas de Santo Antão, e trocávamos as palavras que a nossa amizade e a cordialidade que nos era própria exigiam e explicavam. Sentia, sempre e sempre, uma grande emoção ao vê-lo e ao conversá-lo.

Monárquico, culto, elegantíssimo de trato, também eu pressentia nele a estima com que me dignificava. Sem nunca fazer referência às minhas convicções e, naturalmente, nem eu às dele, recordávamos a amizade nascida em circunstâncias tão estranhas quanto adversas. Recordo, com emoção e orgulho, o homem de bem, o português exemplarmente raro e o querido amigo que perdi.
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«J. Negócios» de 10 Dez 10

«Dito & Feito»

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Por José António Lima

A CRISE ACTUAL da economia portuguesa não é um cisne negro nem um relâmpago no céu azul, não é uma ocorrência surpreendente.

A crise identificada no início de 2007 - dependência do endividamento, insuficiência de competitividade, excesso de intervencionismo do Estado, preferência pelos sectores de bens não transaccionáveis, etc. - prosseguiu os seus efeitos acumulando factores de agravamento (impossibilidade de crescimento das receitas do Estado e incapacidade para limitar o crescimento da despesa do Estado, acentuada com o envelhecimento demográfico, com o desemprego e com o constrangimento crescente do pagamento dos encargos financeiros do endividamento, interno e externo) até ao momento em que emerge a crise económica mundial.

Em suma: a primeira década do séc. XXI salda-se por um registo muito pobre da vida portuguesa, parecendo esta incapaz de se afirmar, faltando-lhe ideias, verdade, força, lucidez, substância, garra e densidade política. Foi uma década, mais do que perdida, historicamente inaceitável, porque vazia.

Na sociedade portuguesa, que tem vivido numa atitude interesseira e egoísta, sem horizonte e sem conteúdo, vazia de substância, é preciso substituir o facilitismo pela exigência, a vulgaridade pela excelência, a moleza pela dureza, a golpada pela seriedade, o videirismo pela honra, a ignorância pelo conhecimento, a mandriice pelo trabalho, a aldrabice pela honestidade.

Os parágrafos acima reproduzidos são excertos de textos de Ernâni Lopes e, apenas, um pequeno retrato da sua inesgotável e estimulante capacidade de análise. Ernâni Lopes era um homem íntegro e sábio, como poucos em Portugal. Foi «um príncipe do pensamento português», na bela definição do seu amigo e sócio José Poças Esteves.

Aliando uma insaciável curiosidade de saber a uma escola de sólidos valores de comportamento, Ernâni Lopes era um exemplo raro, nos planos intelectual e moral.

Com a profundidade do seu pensamento, o rigor das suas análises e a clarividência das suas propostas, deixou-nos caminhos abertos para o futuro do país. Saibamos nós ter a energia e a inteligência de os prosseguir.
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«SOL» de 10 Dez 10

sábado, 11 de dezembro de 2010

O nosso teste

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Por Rui Tavares

O PROBLEMA é quando o segredo se torna a regra e não a exceção, como demonstram os documentos até agora divulgados pela wikileaks.

“Vastos ataques por parte de uma China que tem medo da internet”. Este era o título do New York Times na passada sexta-feira.

No seu contexto, vale tudo o que se tem dito nos últimos dias sobre a wikileaks, cujos documentos — ironicamente — o New York Times usava para narrar a repressão chinesa, em 2009, contra o Google.

Nesse mesmo dia um poderoso senador americano exigia que todas as companhias do seu país cessassem contactos com a wikileaks. Extraordinariamente, elas obedeceram. A Amazon tirou a página da wikileaks da rede. Outra empresa abateu-lhe o endereço. Outra ainda apagou “as visualizações de dados” — gráficos e não documentos classificados — que se encontravam no site. Seguiram-se ataques informáticos em massa. A wikileaks desapareceu. Umas horas depois reapareceu na Suíça, depois sumiu, apareceu de novo, e continua intermitente.

O Departamento de Estado dos EUA proibiu os seus funcionários de consultarem o site, mesmo que a partir de casa. Segundo a Universidade de Columbia, notificou estudantes para que não citassem a wikileaks nas suas páginas de twitter ou facebook, se quisessem preservar as hipóteses de um dia conseguirem emprego na administração. A Biblioteca do Congresso impediu o acesso à wikileaks a partir dos seus computadores.

(Na Europa, um ministro francês declarou inaceitável que a wikileaks pudesse alojar-se na França. Ao menos neste caso, a empresa francesa a que ele se referia respondeu de forma digna: senhor ministro, queixe-se a um juiz.)

Em poucos dias passámos da desvalorização — “isto não tem nada de novo” — ao mais vasto ataque por parte de governos que têm medo da internet. A China é aqui? Esse é o nosso teste.

E, no entanto, ninguém parece notar uma coisa simples: a cultura de secretismo faz mais mal do que bem.

Há segredos justificados e/ou necessários: a posição de tropas em tempo de guerra, a identidade e localização de fontes, e alguns dados sobre as vítimas ou testemunhas de crimes. O problema é quando o segredo se torna a regra e não a exceção, como demonstram os documentos até agora divulgados pela wikileaks.

Vamos recapitular algumas das coisas que já aprendemos: que os diplomatas americanos tinham ordens para recolher dados pessoais e biométricos dos dirigentes das Nações Unidas (uma violação à Convenção de Viena de 1961); que havia um “espião” dentro do governo de coligação na Alemanha, — que aliás já teve de se demitir; que o governo alemão foi pressionado com ameaça de retaliações políticas para que abandonasse o caso de um desgraçado merceeiro que foi preso e torturado por agentes secretos americanos, estando inocente de qualquer crime; que a procuradoria-geral espanhola foi pressionada num caso semelhante, e para limitar as ações do juiz Garzón.

Há mais; e só foram disponibilizados menos de mil documentos de entre os 250 mil totais. Os restantes 99,5% estão a ser tratados por cinco dos mais prestigiados jornais internacionais. As autoridades americanas tiveram oportunidade de fazer comentários e correções (e, no caso do New York Times, fizeram-no). Ao contrário do que dizem aí, isto não é vandalismo. A wikileaks publica o resultado do trabalho que esses jornais têm feito, com a edição e correção entretanto feitos.

Há justificação para que estes segredos em particular fossem ocultados dos cidadãos? Não há; e o facto de o terem sido só torna a democracia malsã e a diplomacia cúmplice.
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RuiTavares.Net

O vinho ao poder

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Por Antunes Ferreira

DE QUANDO EM VEZ, surgem coisas que nos fazem bem ao ego, o que é difícil para quem está mergulhado numa crise, desde a batalha de São Mamede, mas que, hoje, parece ter-se agravado. Se não concordam – e têm todo o direito a afirmá-lo, os crimes de opinião tiveram a época deles que felizmente já não existe – aqui se registam as afirmações de António Serrano.

Muito bem, e quem é esse senhor?, perguntará o leitor menos atento ou mais desconfiado. Apesar de ser quase desconhecido, é o ministro da Agricultura, do Desenvolvimento e das Pescas. O título do membro do Governo é um tanto longo, mas é assim mesmo. Se se disser abreviadamente que é o ministro da Agricultura, falta-se à verdade.

Posto isto, o governante, na sessão de abertura da conferência internacional «Wines of Portugal» a decorrer no Porto, afirmou que as exportações de vinho deverão atingir este ano um valor recorde de 600 milhões de euros. Ou seja, alterou-se substancialmente a propaganda da ditadura salazarista, que em 1935 afirmava que beber vinho era dar de comer a um milhão de Portugueses. O que é excelente.

Perante uma plateia constituída por 200 conferencistas estrangeiros ligados ao sector, desde jornalistas a enólogos, passando por escanções e importadores, o ministro apresentou o vinho como «um exemplo» na agricultura portuguesa, «um sector primeiro e não apenas primário, na ultrapassagem da crise que vivemos». Abreviando: o vinho ao poder.

É sobejamente conhecido o fado cantado em primeira mão pela grande Amália e interpretado hoje pela também grande Marisa. Mas, para quem não seja muito destas coisas das vielas e das violas, aqui se registam uns passos da canção em causa. Isto apenas para demonstrar que, nos dias que vão correndo, há que desconfiar de tudo e de todos, a começar por nós próprios. É triste, mas é a vida.

«Oiça lá ó senhor vinho,
vai responder-me, mas com franqueza:
porque é que tira toda a firmeza
a quem encontra no seu caminho?

Lá por beber um copinho a mais
até pessoas pacatas,
amigo vinho, em desalinho
vossa mercê faz andar de gatas!

É mau procedimento
e há intenção naquilo que faz.
Entra-se em desequilíbrio,
não há equilíbrio que seja capaz.

As leis da Física falham
e a vertical de qualquer lugar
oscila sem se deter
e deixa de ser perpendicular».

O inquirido, sentindo-se ofendido com a pergunta e as considerações dela decorrentes, responde que

«… E só faço mal a quem
me julga ninguém
e faz pouco de mim.
Quem me trata como água
é ofensa, pago-a!
Eu cá sou assim.

E terminam as coplas:

«Vossa mercê tem razão
e é ingratidão
falar mal do vinho.
E a provar o que digo
vamos, meu amigo,
a mais um copinho!»

Fico-me por aqui. Sendo assim, viva o mosto! Que, pelos vistos, sublimando-se, nos ajudará a sair da malfadada crise. Parece pois que longes vão os tempos em que se dizia «o vinho é que induca, o fado é que instroi».

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Graxa

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Por João Paulo Guerra

O MINIsTRO Fernando Teixeira dos Santos não tem culpa que lhe queiram dar e lhe dêem graxa. De maneira que a crítica vai inteirinha para o autor de uma suposta notícia que pretenderia glorificar o ministro das Finanças, apresentando-o como "o décimo sexto melhor da Europa em 2010", numa tabela elaborada pelo Financial Times e que contemplava um "total de 19 governantes". Ou seja, o ministro estaria à beira de disputar a "liguilha" para descida de divisão, se falássemos de futebol, ou em vias de despedimento, se se tratasse de avaliação pelos respectivos superiores no âmbito de uma repartição pública. Porque na verdade, "o décimo sexto melhor", num universo de dezanove, é mais propriamente o quarto pior.

Mas este é um bom exemplo para caracterizar o regresso do espírito de bajulação - se é que alguma vez ele se foi embora - tão característico dos tempos em que estava "tudo bem assim" e o chefe tinha sempre razão. Eram os tempos dos "muito bem", dos "apoiado", com que as solenes assistências pontuavam os enfáticos discursos dos próceres do regime. Alguns exageravam e conta-se que um governador civil de Lisboa, muito dado a discursos engraxadores, chegou a ser mandado calar por despacho da Presidência do Conselho.

Agora que o situacionismo instalou o faz-de-conta, a encenação, o culto da imagem sobre o inculto do discurso, a par do carreirismo, da lisonja, da adulação e também da reverência e do medo, eis de novo os homens providenciais ao leme do país, a avaliar por certas notícias publicadas no diário de bordo.

Pegar numa tabela de dezanove lugares e designar o pré-antepenúltimo como "décimo sexto melhor" é algo de caricato, que enxovalha o rigor jornalístico. Mas o mais dramático é que a caricatura é um sinal dos tempos.
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«DE» de 9 Dez 10

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

A herança

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Por Baptista-Bastos

A PASSAGEM do 30.º aniversário da morte de Francisco Sá Carneiro determinou uma volumosa série de artigos, livros, documentários, depoimentos, notas, observações. A hagiografia em detrimento do conhecimento do homem e da sua circunstância. E a insistência no adensar do mistério de Camarate, que uns dizem ser acidente, e, outros, atentado. Sou favorável à reabertura de todos os inquéritos e investigações. O carácter dubitativo em que a questão assenta impede qualquer tropo de verdade que sossegue os espíritos mais sobressaltados.

Sá Carneiro morreu novo e esse facto inspirou a compaixão e alimentou o mito. Seria bom que soubéssemos o que está por detrás desses sentimentos, e qual a natureza dessas devoções. Os "viúvos" e as "viúvas" das celebridades não conseguem dissimular a ânsia de protagonismo, à sombra dos venerandos finados. Chegou-se ao ponto de se fazer vaticínios temerários, com a condicional a servir de pretexto. "Se" Sá Carneiro fosse vivo, como seria o País, hoje? O absurdo como molde da realidade e manifesto subterfúgio para a manipulação.

A verdade é que Sá Carneiro não era consensual, tanto no País como no partido que fundara. E não teve tempo nem, decorrentemente, oportunidade de provar uma estirpe de estadista ou uma compleição de político. Arrebatado, autoritário, impositivo, impulsivo e, diz quem o conheceu, um ser despótico que não ocultava a irritação quando contrariado. Possuía uma ideia de Portugal e um projecto inovador e socialmente equilibrado e justo para o País? Os seus textos não são concludentes. A sua conduta ideológica, emaranhada. Tanto social-democrata como demoliberal. Dependia dos humores. Dispunha de um pessoal conceito de liberdade e uma teimosia formal, calculada e dispersa, que desconcertava os seus próximos. Essa ciclotimia provinha, sem dúvida, da rígida educação católica, um espartilho sufocante de que nunca, em definitivo, se libertou. Mesmo quando a bela, doce, inteligente e culta Snu lhe iluminou a vida e lhe despertou a ideia de que a felicidade pode não ser ilusão e, por vezes, aparece em qualquer idade e vicissitude.

Resta-nos admitir que as coisas possuem, quase sempre, uma relação clara ou subtil, e que a História é uma deusa cega. O legado de Francisco Sá Carneiro está centralizado no "eu", e na invasão da esfera pública pela esfera privada. A lógica desse procedimento leva à desvalorização ou à mediocretização do mando. O resultado está à vista: Cavaco, Santana, Durão são produtos do mesmo molde, crias da mesma matriz. Definem-se pela ausência do sujeito de razão, e pela expressão de um equilíbrio muito frágil entre a sua identidade íntima e as representações da realidade.

Que fundada dimensão possui esta herança?
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«DN» de 8 Dez 10

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Excepção

Mais uma vez, o presidente do Governo Regional dos Açores lançou uma pedrada para o pântano de águas turvas da política portuguesa.

Desta vez, o Governo do socialista Carlos César decidiu atribuir um subsídio compensatório aos funcionários que, auferindo vencimentos entre 1500 e 2000 euros, seriam abrangidos por cortes salariais. A decisão do Governo Regional dos Açores levantou de imediato uma vozearia de condenação, abrangendo um largo espectro político, de correligionários PS do líder açoriano, ao excêntrico Governo Regional da Madeira e às hostes do PSD acrescentadas neste caso pelo chefe de Estado.

A crítica mais viperina à decisão do Governo Regional açoriano procurava igualizá-la às numerosas excepções que o Governo da República tem vindo a instituir para pôr a "boysada" das empresas públicas e sectores da classe política a salvo da austeridade que vai deixar de rastos a sociedade portuguesa. Nada mais falso. O Governo do socialista Carlos César não pretende beneficiar quem já é de si privilegiado, por razões de sangue ou de cartão partidário. Não pretende salvaguardar os que auferem pensões e salários escandalosos, num país pelintra. Os visados na decisão do Governo Regional são trabalhadores comuns.

A classe política central, centralizadora e centralista, ficou em polvorosa. O chefe de Estado, que quando lhe falam no Governo dos Açores puxa logo pelas tábuas da lei, suscitou dúvidas sobre a constitucionalidade da decisão. O chefe do Governo invocou suposta falta de solidariedade. Mas o que verdadeiramente os incomoda é que o Governo Regional dos Açores por mais de uma vez se constituiu num perigoso exemplo para a estabilidade da paz podre. Nem tudo está bem assim e as coisas podem fazer-se de outra forma.
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«DE» de 7 Dez 10

Se non è vero

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Por Nuno Crato

EM CIÊNCIA, como em tudo, há historietas que são mitos ou simplificações da realidade e que, muitas vezes, são ditas porque estão bem apanhadas ou porque servem para enquadrar as ideias numa narrativa sedutora.

Conta-se, por exemplo, que Gauss, ainda criança, conseguiu fazer de cabeça a soma de uma sucessão de números de um a cem, deduzindo a fórmula dessa soma. A estória é curiosa e serve por vezes de intróito à discussão das progressões aritméticas, ou seja, das sucessões de números que progridem somando sempre a mesma quantidade ao número anterior. A sucessão 1, 2, 3, … é uma progressão aritmética, tal como 7, 10, 13, 16, …

Gauss teria reparado que podia somar os números de 1 a 1000 somando 1 com 1000, depois 2 com 999, depois 3 com 998, e por aí adiante. Cada uma destas somas parciais tem 1001 como resultado. Como deveria fazer 500 para esgotar todos os termos de 1 a 1000, Gauss teria simplesmente calculado 500 x 1001 = 500500. Nada mal para uma criança de sete ou oito anos!
A história é engraçada. Tem apenas um senão: é que não existe nada que prove que ela realmente tenha acontecido. Que se deve concluir daqui? Que se trata de uma lenda que deve ser banida dos livros?

Em “Tudo é Relativo e Outras Lendas da Ciência e da Tecnologia”, uma obra acabada de ser traduzida para português pela Gradiva, o físico Tony Rothman apraz-se a contar algumas destas histórias, para a seguir as questionar.

Na realidade… Na realidade, os cálculos de Leverrier que levaram à descoberta de Neptuno em 1846 acertaram na localização do planeta apenas por um acaso feliz — uns anos mais tarde ou uns anos mais cedo, a divergência entre a posição calculada pelo mesmo processo e a posição real do planeta seria demasiadamente grande para que este pudesse ser localizado. Na realidade, não foi Henry Becquerel quem descobriu a radioactividade em 1896 — o oficial de cavalaria Abel Niépce tinha já feito essa descoberta em 1857. Na realidade, não há provas documentais de que Galileu tenha atirado pesos de chumbo e de madeira do topo da Torre de Pisa e, dessa forma, contrariando Aristóteles, tenha chegado à conclusão de que os corpos caem à mesma velocidade, independentemente do seu peso. Na realidade, é questionável que as medidas dos desvios das estrelas no eclipse de 1919 tenham comprovado inequivocamente as previsões de Einstein. Na realidade…

Na sua obra, Tony Rothman, ajuda a reabilitar alguns nomes esquecidos da história da ciência e diverte-nos com muitos dos erros comuns da histórias que, por vezes com a maior boa vontade, nos são contadas. O autor, contudo, não cai no erro muito comum a alguns sociólogos e historiadores pós-modernos, que deduzem da fragilidade dessas histórias a impossibilidade de se saber o que na realidade se passou. Nem cai no erro, ainda mais grave, de dizer que a história da descoberta científica é uma história de arbitrariedades “socialmente construídas”, convencionadas entre os actores de um grupo social, o dos cientistas, de forma a gerar “narrativas da realidade”, tão arbitrárias como quaisquer outras.

Habitualmente, as simplificações da realidade contidas nas lendas e nas estórias simplificadas que se contam sobre as descobertas científicas contêm uma parte da realidade e são instrutivas. Os profissionais da história da ciência não se podem ficar pelas lendas. Mas não há mal nenhum em conhecê-las. Por vezes, “se non è vero è ben trovato”, como dizem os italianos. Nada mais.
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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 4 Dez 10

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

4 de Dezembro (1980-2010) - Solução: pág. 117

Pág. 117
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Quem mais se tenha aproximado tem 24h para escrever para medina.ribeiro@gmail.com indicando morada para envio do livro. (Em caso de empate tem prioridade o 1.º apostador).
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Actualização (20h16m): O vencedor foi jgoncal, com erro de 4 páginas.

O problema não é bem esse

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Por Helena Matos

A QUESTÃO dos vencimentos dos funcionários públicos dos Açores não é propriamente um assunto de solidariedade ou de falta dela. Não partilho duma visão igualitária da sociedade e não me choca particularmente que um governo regional possa alterar o sistema de vencimentos da função pública daquela região. (O que já não me parece normal é que uma região autónoma possa alterar os poderes do seu parlamento, do parlamento nacional e do presidente da república, como tentou fazer o governo regional dos Açores, e que os partidos assobiem para o ar, deixando o único que tentou travar efectivamente este desmando, no caso o presidente da república, a falar sozinho).

Mas voltemos aos cortes nos vecimentos dos funcionários públicos dos Açores. Quando Carlos César declara que o apoio aos funcionários “não custa um cêntimo” ao Estado porque vai ser utilizado dinheiro que já está afecto à Região Autónoma dos Açores revela duas coisas: a primeira prende-se com a concepção do Estado como um fabricante de dinheiro. Donde vem o dinheiro que já está afecto à Região Autónoma dos Açores: do céu? Dos vulcões? Da Atlântida? A não ser que as rotativas loucas tenham voltado a trabalhar o dinheiro vem dos impostos ou de empréstimos pagos com impostos. Logo todos os cêntimos dessa medida do governo dos Açores virão do bolso dos contribuintes. Mas enfim até aqui nada de novo: todos os dias somos bombardeados com o SNS gratuito e com a escola gratuita, quando na verdade esse gratuito nos sai caríssimo.

O verdadeiro escândalo desta medida de Carlos César é que ela revela que ele trata dos interesses da rede indispensável à sua manutenção no poder - funcionários públicos – e se está bem nas tintas para o povo dos Açores: para que os funcionários públicos ganhem mais os açoreanos que não são funcionários públicos vão receber menos. Pois se a verba estava afecta à Região Autónoma para algo seria. Ou não? Enfim, já se sabe que os serviços, as acções de promoção, os gabinetes, as direcções disto e daquilo… absorvem a quase totalidade dos recursos do estado dito social. O que Carlos César fez foi assumir sem rodeios que o dinheiro é mesmo para isso: para sustentar a malta. Aquela malta que mal se fala em abrir sectores à iniciativa privada, em acabar com a mistificação do gratuito… faz um ar piedoso, gritam solidariedade e clama pelo estado social. Ou seja o seu tacho.
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In Blasfémias

domingo, 5 de dezembro de 2010

Um inestimável serviço à democracia

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Por Rui Tavares

QUE FOI AGORA? Quando a wikileaks publicou documentos das guerras do Iraque, — incluindo um vídeo que mostrava assassinatos cruéis e gratuitos por parte das tropas americanas — a resposta foi que “era verdade mas não era notícia”. O Pentágono, com a ajuda de um jornal preterido na divulgação, tentou alegar que a wikileaks estava a pôr vidas em risco e não a salvá-las (recuaram meses depois, quando já não era notícia). Agora, a divulgação de 250 mil de documentos diplomáticos também tem sido alvo de tentativas de desvalorização, desde os que dizem que “isto tudo já se sabia” até àqueles que acham que “há segredos importantes que é preciso guardar”.

Reparem como estes argumentos são contraditórios: se “isto tudo já se sabia” é porque não são “segredos importantes”, sacou?

Ora, por mais que “achemos que sabemos” o que pensam os sauditas acham iranianos, não conheço nenhum jornalista que não ficasse doido por uma citação do rei saudita chamando ao Irão “a cabeça da serpente”. E quanto à falta de interesse público, vejamos o príncipe André de Inglaterra justificando subornos no Cazaquistão — país de onde, uns meses mais tarde, saiu o homem que lhe comprou uma mansão por quinze milhões de libras, mais três milhões do que o pedido —; será que o contribuinte inglês e o cidadão cazaque, pelo menos, não têm interesse em saber como se faz uma “diplomacia económica” que tresanda a corrupção?

Como nota futura, duas coisas só aparentemente menores chamaram a minha atenção.

Em primeiro lugar, as ordens que diplomatas norte-americanos receberam para coligir informação pessoal (número de cartão de crédito, número de passageiro frequente, dados biométricos, senhas de email) de altos-funcionários internacionais, e em particular de Ban Ki-Moon, o secretário-geral das Nações Unidas. Esta ordem, provavelmente ilegal, não significa apenas que os diplomatas fazem espionagem (sabe Zeus que farão então os espiões). Com alguns desses dados, é possível saber muito sobre uma pessoa: por onde andou e que coisas comprou, se empresta dinheiro ou tem falta dele, em que hotel ficou e quem mais estava no quarto. Não precisa de ser nada muito profundo; mas saber que o ministro x tem uma amante (ou um amante) pode vir a dar jeito um dia.

Não gostei de saber que os EUA recolhem deliberadamente estes dados, e por uma razão: são os dados que, nos casos “SWIFT” ou “PNR”, eles pretendem ter de milhões de cidadãos europeus como você ou eu. Os dados “PNR” — de passageiros, incluindo cartão de crédito e email — são guardados em servidores nos EUA e tratados antes de você embarcar num avião; os dados “SWIFT” — basicamente, as suas transferências bancárias na Europa — já são enviados para os EUA à razão de noventa milhões de mensagens por mês.

E aqui vem a segunda parte. Os documentos agora revelados mostram que quando o Parlamento Europeu chumbou o acordo SWIFT, em fevereiro, os EUA desenvolveram pressões junto dos governos, em particular do alemão, para que estes “controlassem” os seus eurodeputados. É uma pena, aliás, que as fugas de informação se fiquem por fevereiro; é que em maio um acordo levemente diferente foi a votos e passou: que pressões terão ocorrido dessa vez, nomeadamente junto da presidência espanhola?

O futuro da liberdade passa pela segurança e pela integridade dos nossos dados pessoais — e não sei se os EUA, depois de terem perdido 250 mil dos seus documentos secretos, estarão em condições de garantir qualquer delas.
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RuiTavares.Net

sábado, 4 de dezembro de 2010

Passatempo-relâmpago de 3-5 Dez 10

Página 101
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O passatempo foi ganho por C. Eliseu que deu a resposta exacta. Tem, agora, 24h para escrever para medina.ribeiro@gmail.com indicando morada para envio do livro.

E vem aí o 'tio' FMI?

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Por João Duque

PORQUE É QUE acusam os mercados de serem impiedosos se não somos capazes de fechar a boca aos bolos e às guloseimas?

O tio FMI foi ajudar a nossa prima irlandesa. Jovem e estouvanada, a nossa prima é uma gastadora como não há. Imaginem que o Orçamento do Estado irlandês é 93% do nosso em termos de despesa total quando eles são um pouco menos de metade que nós em termos de população, mas com a mesma dimensão em termos de PIB. Ainda por cima, a pequena meteu-se com um banqueiro a quem arruinou e a quem a família quis compensar.

Conclusão, como os primos da Irlanda não têm fortuna para tudo, ajoelham aos pés do tio solteirão, para a habitual ajuda: o tio FMI, aquele velho solitário, mas cheio de dinheiro, a quem todos recorrem em caso de aperto sério.

Mas o velho é exigente. Empresta e safa quando necessário, mas depois não larga a porta... Sempre de volta de nós, não deixa fazer mais nada. Não podemos ir passar férias, não podemos jantar fora, não podemos mudar de guarda-roupa, jóias ou automóvel. As festas passam a ser vistas de fora e passados um ou dois anos já suspiramos com saudades do tempo em que nos ríamos na cara dos credores com o descaramento de quem pede e sabe que não vai pagar, pelo menos com o suor do seu rosto...

A Irlanda estava em apuros. Gastava muito mais do que nós. No curto prazo o caso parece mais grave, mas ela tem várias qualidades que invejo. É jovem (a população de jovens abaixo dos 15 anos de idade é de 21% enquanto a nossa é de 16%). Tem menos velhotes para cuidar (a população de idosos acima dos 65 anos de idade é de 12% enquanto a nossa é de 18%). A língua materna é o inglês, faz parte da cultura e da mentalidade anglo-saxónica, e é mais educada. A composição do PIB irlandês ainda depende mais de 50% da agricultura (5%) e da indústria (46%), bens que pode exportar e com isso recuperar a beleza de outrora. O nosso PIB depende 74% dos serviços, a vasta maioria deles não transacionáveis...

Somos mais pobres do que a nossa prima, gastamos menos per capita em termos de despesa pública e não desgraçámos (por enquanto) nenhum banqueiro de vulto (há dois que se queixam, mas nada que se compare com a encrenca irlandesa).

Agora sentimo-nos sós e abandonados ao sabor dos maus investidores que não dão tréguas ao custo da nossa dívida. E a dúvida é saber se seremos capazes de fazer o que prometemos. Até agora, mês a mês, a nossa execução orçamental é uma vergonha no confessionário. A promessa de que "para o mês não voltarei a pecar" esbarra com a nossa incapacidade para estancar a gula pecaminosa... Mais dois pai-nossos e duas avé-marias... O ano de 2010 ainda está para acabar e todos sabemos que não vamos conseguir cumprir as juras prometidas sem malabarismos contabilísticos. E não são os juros... Eles só desequilibram quem já está em queda!

Porque é que acusam então os mercados de serem impiedosos se nós não somos capazes de fechar a boca aos bolos e às guloseimas?

Acabámos de prometer descer os salários e já corremos a excecionar um grupo!

O tio FMI chegou a Dublin e já começou a apertar: 25 mil funcionários borda fora, cortes adicionais ao prometido.

Alguém tem dúvidas que, dado o nosso trajeto de incumprimento sucessivo, vamos mesmo chamar o tio FMI? Então o melhor é gostar dele. Tratá-lo por um carinhoso 'tio' é um bom começo.
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«Expresso» de 27 de Nov 10

O Dia da Restauração

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Por Antunes Ferreira

O DIA DA RESTAURAÇÃO já lá vai. Passados dois dias do feriado (motivo que leva muito boa gente a comemorá-lo patrioticamente) dou-me conta de uma entrevista sobre o tema, dada pelo chefe da Casa Real, D. Duarte de Bragança, à Lusa. Disse o ilustre Senhor que os cem anos de regime republicano, recentemente comemorados, têm sido «uma grande perda de tempo», visto que todas as realizações da república estavam igualmente ao alcance da monarquia e podiam ter sido obra desta. O eterno pretendente à Coroa, no singular, poderia muito bem ter afirmado, convictamente, que se o pai dele não tivesse morrido, ainda hoje era vivo.

D. Duarte Pio ainda teve tempo para se referir ao facto, no seu entender, de o País estar falido, o que nem é de espantar pois, após esses cem anos de desgraças, Portugal volta «à situação dramática em que nos encontrávamos no começo da República», ou seja, a falência. De passagem, aproveitou para igualizar os três movimentos militares que marcaram o século XX português: «Cada um desses golpes militares - 1910, 1926 e 1974 - provocou grandes perturbações, grandes atrasos na nossa economia, até situações de perseguição e perturbações políticas gravíssimas».

O chefe da Casa de Bragança repetiu que «um rei facilitaria a unidade dos países lusófonos porque não se punha tanto o problema de quem seria a chefia de Estado dessa união». Donde, é mais do que absolutamente necessária a restauração da monarquia. Se houvesse um referendo, D. Duarte acredita, piedosamente, que a esmagadora maioria dos Portugueses escolheria o regime monárquico.

Até aqui, nada de inédito, nem de muito mérito. O curioso foi a novidade que revelou: pediu a nacionalidade timorense, devido às «relações profundas com Timor-Leste». Presume-se que são as dele, porque acentuou especificamente que «gostaria de ter a nacionalidade timorense»; para isso, «a Casa Real já encetou os contactos para a obtenção da dupla nacionalidade, portuguesa e timorense, através de um pedido comunicado ao Presidente José Ramos Horta». E que sempre apoiou a causa da independência timorense. «Eu sou o liurai de Portugal». Bonita comparação, acrescento eu.

Estas declarações do pretendente desenganado, levam-me a que vos confidencie que tenho defendido, entre a brincadeira e a convicção (mais a segunda do que a primeira), que face às ocorrências do Primeiro de Dezembro de 1640, quem devia ter estátuas por toda a parte era o senhor Miguel de Vasconcelos, o que quer dizer que o defenestrado teria sido o senhor João Pinto Ribeiro.

Aliás, este último teve, logo no momento, muitas dificuldades em convencer D. João de Bragança a colocar a coroa real. E foi uma andaluza, D. Luisa de Guzmán, pelo casamento Gusmão, que o empurrou para a aventura: mais vale ser rainha um dia do que duquesa toda a vida. Parece que a forma terá sido ligeiramente diferente, mas a substância era mesmo essa.

Donde, hoje seríamos una Región Autonomica, falando Português e confrontando-nos com o Señor Zapatero, mas tendo um rei que fala a nossa língua. Deste modo, outro galo cantaria e não apenas o de Barcelos. Sou, assim, um traidor, de acordo com o que me têm dito frequentemente. Há, porém, que tomar em conta uma circunstância. Farto de dez milhões de loucos gastadores e ingovernáveis, Madrid, a braços com problemas também quanto aos juros da dívida pública, já nos teria concedido a independência. Daí, porquê continuarmos a festejar o Primeiro de Dezembro?

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

«Dito & Feito»

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Por José AntónioLima

O PRESIDENTE da PT, Henrique Granadeiro, recusa entregar ao Parlamento o relatório da auditoria feita à actuação de Rui Pedro Soares e Paulo Penedos no caso TVI .

E recusa, sublinhe-se, faltando à palavra e ao compromisso assumido pelo CEO da PT, Zeinal Bava, de facultar essa auditoria à Comissão Parlamentar de Inquérito. Granadeiro alega agora, para sonegar os factos apurados, que são «questões do foro interno» da PT. Não, obviamente não são. São questões de interesse público. E do foro da sociedade portuguesa como um todo, pois ajudam a perceber até que ponto se desenvolveu uma malsã promiscuidade entre o poder político e o poder económico e financeiro. Uma promiscuidade que permitiu (ao que por enquanto se sabe) fazer ascender boys da clientela partidária, como estes Soares e Penedos, a altos cargos de grandes empresas, deixá-los manipularem milhões de euros a seu bel-prazer, porem em prática esquemas para controlar a comunicação social e a liberdade de expressão, etc., etc.

Questões de foro interno da PT?! Granadeiro está muito enganado. E ver-se-á obrigado a perceber que é insustentável manter o encobrimento num caso que exige absoluta transparência cívica. Que é inaceitável caucionar a insalubridade político-empresarial numa questão onde se impõe a mais profiláctica decência democrática.

ASSINALE-SE que a PT beneficiou nas últimas décadas de condições verdadeiramente privilegiadas, por parte do poder político, para exercer a sua actividade - tal como a EDP, a Galp e outras empresas do sector não transaccionável -, em situação de monopólio ou duopólio, impondo os seus preços, as suas taxas, as suas próprias regras de mercado ao país e aos consumidores. Acumularam milhares e milhares de milhões, chamaram a si os maiores talentos universitários e os melhores quadros (com condições de salário, de investigação e de carreira incomportáveis para a maioria das outras empresas - por exemplo, as exportadoras que enfrentam a concorrência internacional), distribuíram prémios milionários.

E, no momento em que se cortam salários, se aumenta a carga fiscal e redobram os sacrifícios para a maioria dos portugueses, a PT recorre à artimanha de antecipar os dividendos aos accionistas para, assim, fugir a pagar 70 ou 80 milhões em impostos.

Cabe, pois, perguntar: quanto valem, nesta altura, para a PT valores como a responsabilidade social, a ética empresarial ou a solidariedade nacional? Estes dois exemplos respondem por si.
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«SOL» de 3 Dez 10

Fome

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Por João Paulo Guerra

AS REPORTAGENS mais ou menos dramáticas que começam a encher páginas de jornais e revistas com o retrato de um país de miséria e fome – este país, o País da Fome, chama-lhe esta semana a revista Visão – não retratam ainda resultados da presente crise nem da próxima austeridade.

Reflectem, isso sim, efeitos de uma política seguida nas últimas décadas. Mas, muito particularmente, reproduzem consequências da política do Governo actual: o poder de compra dos salários e das pensões degradou-se, o desemprego acelerou, o número de pessoas com trabalho em risco de pobreza explodiu, a percentagem de crianças pobres no conjunto da população escolar disparou, a desigualdade impôs-se como regra ao longo dos mandatos do governo de um partido que se chama socialista.

Já não há termos de comparação com outras situações em democracia mas lá chegaremos - a tempos mais dolorosos que os da fome em Setúbal nos anos 80 - não tanto por efeito da crise mas por consequência da cura decidida pelo Governo PS apoiado à bengala do PSD. Como chegaremos, muito provavelmente, aos tempos da penúria salazarista. Esta semana, o primeiro nevão do Outono trouxe notícias de milhares de crianças privadas de ir às aulas, porque não tinham transporte para escolas longínquas das suas residências, uma vez que as escolas mais próximas fecharam. A diferença é apenas que nos tempos negros da ditadura as crianças percorriam aqueles caminhos a pé e descalças. Mas também não sabemos se com a austeridade sobrará dinheiro para a gasolina da camioneta da Câmara e mesmo para os sapatos.

Começa a ser urgente que o Governo promova um lauto almoço de trabalho com os parceiros do costume para discutir, na hora dos fumos e dos néctares raros, o problema da fome em Portugal.
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«DE« de 3 Dez 10

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

A malta do "bloco" - Solução

AS FOTOS são de Lagos, e os blocos de betão têm a função de bancos de jardim e de pilaretes, para impedir o estacionamento em cima deste passeio, recentemente feito. No entanto, o pessoal habituou-se de tal forma a estacionar em cima deles que, quando aparecem obstáculos como estes, a primeira reacção é ignorá-los! Veja-se nas duas imagens de baixo como a rua não lhes basta...

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A generosidade e o rancor

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Por Baptista-Bastos

E, DE REPENTE, abriu-se o caminho de uma vida generosa. O português com extremas dificuldades veio socorrer o português com fome. A grande força espiritual que se move nas horas de desespero, e parecia ameaçada de inanidade, irrompeu no último fim-de-semana. Uma ruptura surda com a indiferença, uma explosão de solidariedade, a contrariar os sinais do tempo e a cupidez que nos tem sido inculcada. As toneladas de comida entregues ao Banco Alimentar podem não constituir a fulguração de uma felicidade perpétua, mas representam sentimentos que rasgam os silêncios de uma sociedade cercada.

A ideologia dominante, que estimula o individualismo, a insensibilidade social e a neutralidade cívica, não sai derrotada desta acção, nem esta experiência de generosidade resolve o drama português. Se a boa vontade não é esclarecida, e os limites do amparo não forem definidos pela política, o balanço da iniciativa apenas momentaneamente é positivo.

O sistema de ganância, de dissolução de valores, destruiu os laços relacionais formativos dos povos e das instituições. É necessário não só renunciar mas, sobretudo, combater esta doutrina que não concilia o respeito mútuo com a dimensão e as exigências civilizacionais. As nossas heranças só serão desiguais quando desinvestimos no carácter humanista da condição a que pertencemos. As decepções e as insatisfações permanentes talvez justifiquem algumas das nossas debilidades morais, como a indiferença ante o sofrimento dos outros. Mas não podem nunca caucionar a duplicidade dos nossos comportamentos nem a capitulação das nossas batalhas.
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NO MOMENTO - O Miguel Sousa Tavares fez publicar, na gazeta semanal onde costuma deixar as escorrências a que chama artigos, um texto sobre a greve, cujo teor me abstenho de qualificar. A meio, insere um comentário, pretendidamente espirituoso, à minha crónica da última quarta-feira. Não lhe acerta uma. Deseja, apenas, fazer chicana. E demonstra uma impiedosa crueldade para quem gosta de prosa escorreita e asseada: não consegue escrever com tino, brio e gramática. Aquilo é um emaranhado de disparates, de espinoteantes tolejos, e apenas traduz a conjunção do que de mais retrógrado existe na sociedade. Ele é o xamã dessa tendência. Como só o leio quando se me refere, obriga-me, nessas funestas ocasiões, ao penoso exercício de tentar perceber o que quer dizer. Saí da árdua leitura em estado de exaustão. Sobre manifestar uma atroz inimizade com a língua portuguesa, o pobre homem é desprovido do mais escasso pingo de humor. E não é difícil descortinar, no seu carácter amolgado, sinais de ressentimento, de rancor e de despeito. É só. Mas acaso seja necessário, voltarei a tão encantador assunto...
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«DN» de 1 Dez 10