quinta-feira, 30 de setembro de 2010

EDWARD, O VAMPIRO

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Por Maria Filomena Mónica

SE EU TIVESSE catorze anos, como a minha neta mais velha, também gostaria de Edward Cullen. O herói inventado por Stephenie Meyer representa o amor interdito. Pálido e magro, a beleza de Edward não é a de James Dean – o herói da minha geração – mas a do rebelde sem causa do século XXI. Quando Bella é obrigada a trocar Phoenix, a cidade onde vivia, por Forks, fica vulnerável. «Bela, frágil, assustada» é assim que, pela primeira vez, olha Edward. Tal como Lady Caroline Lamb, após ter conhecido Lord Byron, também ela se apercebe que ele era «louco, mau e perigoso».

Para o ser, a paixão tem de ser imaterial, um tema que, entre outros, Eça de Queirós glosou no conto José Matias. Sei, porque a vivi, tinha exactamente a mesma idade de Bella. Educada num colégio de freiras, apenas sabia que havia pecados. Ouvira falar de uns relacionados com a carne, mas, até tarde, imaginei estarem eles ligados ao jejum das Sextas-Feiras, em que, nós, os católicos, éramos obrigados a abstermo-nos, à mesa, do consume de carne. O máximo que um confessor me perguntou, na altura, foi se eu dava beijos na boca ao namorado. Percebi logo que o sexo dava mais prazer quando interdito.

A Revolução dos anos 1960 veio alterar os costumes. Hoje, tudo é permitido, o que, como é obvio, diminui a possibilidade de se viverem paixões. Neste contexto, Stephenie Meyer tinha de inventar qualquer coisa de extraordinário para fazer do parceiro amoroso um objecto proibido. A solução foi arranjar um vampiro. Mesmo que Edward ame Bella, e ama-a com todas as suas forças, se consumar o acto, matá-la-á, o que o leva a um leque de emoções desencontradas. Não conseguindo explicar o comportamento errático de Edward – o qual tão depressa parece desprezá-la como amá-la – Bella fica obcecada por ele. Nada mais conta na sua vida para além daquele jovem simultaneamente incompreensível e sua alma gémea. Não é por acaso que Bella cita O Monte dos Vendavais. Sob certos aspectos, Bella e Edward retomam a relação entre Cathy e Heathcliff. Veja-se o que Cathy diz a Nelly (a ama que funciona como narradora): «Nelly, eu sou Heathcliff – ele está sempre no meu espírito, não como um prazer – tão pouco sou eu invariavelmente um prazer para mim própria – mas como a minha essência.» Antes, afirmara: «Se tudo o resto desaparecesse e ele ficasse, eu continuava a existir; e se tudo o resto permanecesse e ele fosse aniquilado, o universo transformar-se-ia num mundo estranho de que eu já não faria parte.»

É evidente que o livro de Emily Brontë é uma obra prima e o de Stephenie Meyer uma obra literariamente menor – embora tenha diálogos bem conseguidos – mas a razão que leva as adolescentes a gostar desta série de livros – Crepúsculo é o primeiro de uma tetralogia – é a atracção de certas mulheres por homens pérfidos. Ao longo de meses, os livros de Stephenie Meyer ocuparam, em todo o mundo, o primeiro lugar na lista de best-sellers. Lançado em Portugal, em 2005, pela Gaialivro, foi imediatamente reeditado. Pouco depois, o filme chegava às salas portuguesas, acabando de ser posto à venda em DVD. Até em Portugal, Edward tem uma longa fila de apaixonadas à espera.

Perante isto, não me venham dizer que os adolescentes não gostam de ler. É verdade que, por sua iniciativa, só lerão o que lhes diz qualquer coisa sobre o período que estão a atravessar – um dos mais difíceis da vida – mas fazem-no com avidez. É igualmente verdade que o livro contém passagens convencionais, mas não é tão conformista quanto se tem dito. Note-se que a heroína é filha de pais divorciados, que a mãe é uma irresponsável e o pai um ser destituído de capacidades afectivas. Aquele mundo, entre a casa disfuncional, os alunos de gel na cabeça e as discussões sobre quem gosta de quem, está próximo dos jovens.

Deixei, de propósito, para o fim a questão das convicções ideológicas da autora. O facto de ser mórmon tem sido referido como se o facto contaminasse o produto. Ora, a mim, pouco me importa que Edward saia da cabeça de alguém que acredita nos escritos de Joseph Smith ou de alguém que se entretém a analisar a Summa Theologica de São Tomás de Aquino. Como a Bella, o que me atrai é o facto de Edward ser belo e fugidio. Não há melhor receita para uma paixão.
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«GQ» de Setembro de 2009

A medidazita que faltou

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Por Ferreira Fernandes

ELE É VOGAL de uma dessas entidades reguladoras portuguesas - insisto, não é ministro de país rico, é um vogal de entidade reguladora de país pobre - e foi de Lisboa ao Porto a uma reunião. Foi de avião, o que nem me parece um exagero, embora seja pago pelos meus impostos. Se ele tem uma função pública é bom que gaste o que é eficaz para a exercer bem: ir de avião é rápido e pode ser económico. Chegado ao Aeroporto de Sá Carneiro, o homem telefonou: "Onde está, sr. Martins?" O Martins é o motorista, saiu mais cedo de Lisboa para estar a horas em Pedras Rubras.
O vogal da entidade reguladora não suporta a auto-estrada A1. O Martins foi levar o senhor doutor à reunião, esperou por ele, levou-o às compras porque a Baixa portuense é complicada, e foi depositá-lo de volta a Pedras Rubras.
O Martins e o nosso carro regressaram pela auto-estrada a Lisboa. O vogal fez contas pelo relógio e concluiu que o Martins não estaria a tempo na Portela. Encolheu os ombros e regressou a casa de táxi, o que também detestava, mas há dias em que se tem de fazer sacrifícios.
Na sua crónica nesta edição do DN, o meu camarada Jorge Fiel diz que o Estado tem 28 793 automóveis. Nunca perceberei por que razão os políticos não sabem apresentar medidas duras. Sócrates, ontem, ter-me-ia convencido se tivesse também anunciado que o Estado passou a ter 28 792 automóveis.
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«DN» de 30 Set 10

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Rapaziadas

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Por Baptista-Bastos

AS ÚLTIMAS SEMANAS foram copiosas em demonstrar que Portugal é um país para se levar pouco a sério. Dois rapazolas transformaram-no num terreiro de berlinde, cada um com um abafador que destinará quem venceu. O pior é que ninguém ganha e todos estamos a perder. Um deles possui um sentido circense que legitima todo o faz-de-conta. O outro manifesta uma devoção ingénua pelo poder que, na realidade, não possui. Ambos resultam desse milagre convencional que nos fez reféns de dois partidos desprovidos de grandeza, intelectualmente asténicos e politicamente impostores.

Na verdade, os dois partidos nunca foram grande coisa. Nas paredes das suas sedes estão retratos poéticos daqueles que os dirigiram. Percorremos o olhar por esses rostos líricos e chegamos a conclusões deploráveis. Poucos socialistas e poucos sociais-democratas. Há nomes cuja evocação lembra épocas festivas. Foram eliminados: eram socialistas ou sociais-democratas de intenção e decisão, coisa que não interessava a quem na sombra agia. É uma época ilustrada pela má-fé e frustrada pela traição.

Os dois mancebos que jogam o berlinde correspondem a uma inconsciência dócil, que opera no contexto histórico, e se esclarece nas relações de poder. São semelhantes na leviandade e na carência de conhecimentos. Nada mais do que isso. Não é só serem incredíveis. Sobretudo, são imaturos, ignorantes e tragicamente incapazes. Um deles já deu o que podia dar. E atingiu as funções que assume por completa ausência de antagonista. A dr.ª Manuela era um susto; e os seus antecessores, personagens menores de uma pungente ópera-bufa. Quanto ao outro rapazola, rapidamente se percebeu tratar-se de um moroso equívoco, uma bizarra consequência de época e, sobretudo, um produto incapaz de se conduzir a si próprio.

Estamos perante um imbróglio perturbador. E o dilema é este: como se passa do patológico para o normal? Ignoramo-lo. Desde a aparição mística do dr. Cavaco que aumentou o perigo de uma sociedade amolgada. Aquele senhor alimentava (e alimenta) um distorcido entendimento do que é a democracia. A década em que foi primeiro-ministro saldou-se pela recusa da modernidade e pela imposição de uma rigidez emocional que ainda hoje persiste. Pedra e betão substituíram a alma e a coragem.

As rapaziadas a que temos assistido procedem dessa cultura de ilusionismo que conduziu à relativa despersonalização do português, o qual vira no 25 de Abril uma porta de esperanças. O dr. Cavaco nada tinha ou tem a ver com o apostolado da liberdade. Ele nunca mexeu uma palha com esse objectivo. E até chegou a inventar uma rústica e grotesca história que o ungia como mosqueteiro da democracia. As rapaziadas destes rapazolas provêm da mesma matriz.
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«DN» de 29 Set 10

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Econometria da educação

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Por Nuno Crato

UMA DAS DESCOBERTAS mais surpreendente dos modernos estudos sociais quantitativos é a «não existência de uma relação sistemática nem de relações forte entre os gastos da escola e o desempenho dos estudantes». A frase é de Erik Hanushek, um dos principais fundadores da chamada «economia da educação», uma área académica que recorre a métodos estatísticos e a conceitos e modelos de economia para estudar o ensino.

A descoberta é surpreendente e perturbante, pois uma das premissas habituais dos responsáveis educativos é a de que, colocando mais meios à disposição da escola — por exemplo, computadores — ela educará melhor os seus alunos. Mas não é nem surpreendente nem perturbante para quem nela trabalha. Claro que há sempre recursos que faltam e que é importante, por exemplo, melhorar o acesso às modernas tecnologias. Mas o essencial é a formação dos professores, os pais, a boa estruturação e a exigência dos programas, a qualidade dos manuais, o rigor da avaliação e outros factores da actividade lectiva.

Recentemente, como já aqui referimos, um grupo de investigadores da Universidade Duke, na Carolina do Norte, (www.nber.org/papers/w16078.pdf) analisou uma amostra gigantesca, de 150 mil estudantes, seguidos ao longo de cinco anos, concluindo que os jovens não melhoram os seus conhecimentos pelo simples uso de computador pessoal. Os rapazes têm mesmo a algum retrocesso escolar, um retrocesso modesto, mas estatisticamente significativo.

Mais recentemente ainda, investigadores do Instituto Superior Técnico e da Universidade de Carnegie Mellon, estudaram os resultados da introdução de banda larga nas escolas portuguesas. Analisaram mais de 900 escolas entre os anos 2005 e 2009 e registaram as classificações dos alunos no 9.º ano de escolaridade. Construíram um modelo de “função de produção” com base nas “primeiras diferenças”, de onde extraíram as suas conclusões.

Uma função de produção é uma função matemática que relaciona os resultados com os recursos e que pode ser estimada com instrumentos estatísticos estudados em econometria. A equação que os investigadores utilizaram não é linear e os interessados poderão analisá-la em papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=1636584 . O método das “primeiras diferenças”, por seu turno, é a consideração dos incrementos em vez dos valores originais. Ou seja, em vez de comparar as notas com o uso da internet, compara-se o aumento ou a diminuição das notas com o aumento ou a diminuição do uso da internet ao longo dos anos. Tentam-se assim isolar os factores em estudo, eliminando a influência de condicionantes perturbadoras, como a qualidade das escolas ou os rendimentos das famílias.

O que os investigadores verificaram foi que as escolas em que mais tinha aumentado o uso da internet foram aquelas em que os resultados escolares mais diminuíram. Notaram ainda uma tendência, embora menos evidente, a que os resultados piorassem mais nas escolas piores, aquelas em que o acesso à internet terá, possivelmente, sido menos bem enquadrado.

Os resultados são provisórios, limitados a uma série curta, que apenas mede um primeiro efeito, e sujeitos à crítica, como tudo em ciência. Mas é encorajador que os temas de educação sejam estudados com este rigor quantitativo. Hanushek, Daniele Checchi, William Schmidt e outros grandes nomes da economia e econometria da educação estarão em Portugal em Janeiro (cemapre.iseg.utl.pt/events/1e3). Será interessante ver como esta área está desenvolvida entre nós e que resultados serão apresentados.
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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 25 Set 10

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Está lá fora o inspector

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Por João Paulo Guerra

A PRIMEIRA INICIATIVA para rever a Constituição da República Portuguesa, na altura escrita e aprovada de fresco, foi da autoria de Francisco Sá Carneiro e continha um item memorável.


Rezava mais ou menos assim: Portugal aceita os limites à sua soberania decorrentes da integração europeia.

Isto de um país aceitar voluntariamente e por sua iniciativa limites à própria soberania seria coisa para arrepiar qualquer patriota. Mas a verdade é que as pátrias dos conservadores - sejam eles de que colorações forem - já não são o que eram. As pátrias passaram a ter o símbolo do mercado e a cor do dinheiro. De maneira que a soberania, a independência nacional, e coisas desse quilate, jazem numa espécie de vala comum dos valores, nas traseiras do Panteão Nacional.

Isto dito porque, como assinalam as gazetas, está lá fora o inspector. Não, não se trata da reposição da peça de teatro do inglês John Boynton Priestley que celebrizou João Villaret, em Portugal, e Fernanda Montenegro, no Brasil. O inspector que para entrar em Portugal nem sequer vai bater à porta, como o da peça, e que vem por aí dentro para vasculhar as contas públicas, é o liberal polaco Janusz Lewandowski, que tem como facto mais notável do seu currículo a titularidade no Ministério das Privatizações do primeiro governo de Varsóvia após o derrube do Muro, ali ao lado, em Berlim. O segundo facto mais notável foi ter governado de tal maneira que na legislatura seguinte não conseguiu sequer a eleição como deputado. Mas na Comissão Europeia o currículo necessário e suficiente é a escolha pessoal do dr. Barroso.

E estamos neste pé em matéria de democracia: os portugueses elegem um Parlamento, que escolhe um Governo, e depois vem de lá o inspector e decide.
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«DE» de 27 Set 10

sábado, 25 de setembro de 2010

A resistente e a vizinhança

Um David no meio de dois Golias...

Escutai-os!

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Por João Duque

JÁ É DIFÍCIL imaginar um governo a aderir às mais avançadas técnicas de venda, quanto mais um governo socialista! Fiquei por isso surpreso quando ouvi o senhor secretário de Estado das Obras Públicas explicar, detalhadamente, a política de preços a introduzir nos troços de autoestrada sem custos para o utilizador, as famosas SCUT.

A ideia, parece, é aplicar uma taxa universal pela utilização do serviço, discriminando positivamente alguns eleitos. Em princípio, tratar-se-á de discriminar, baixando o custo, os residentes nos municípios de baixo rendimento das regiões envolventes. Começam por oferecer as 10 primeiras utilizações mensais e depois praticam um desconto nas restantes utilizações do mês, quer a empresas quer a particulares.

A ideia de usar o preço para regular a utilização do serviço e levar até pessoas a agir de determinado modo é a forma como os economistas pensam, e essa forma de pensar até me sensibilizou inicialmente.

Porém, olhando o problema de modo mais detalhado, fico com a sensação de que esta não será seguramente a forma ideal de estabelecer uma tarifa para utilização de serviços que se querem justos, equitativos e simples.

A primeira questão que se coloca é sobre a definição do beneficiário da discriminação. Disse o senhor secretário de Estado, ser esta "uma medida feita em nome da justiça". Mas será justo assumir que todos os residentes de uma determinada região padecem do baixo rendimento para justificar o benefício?

Podia invocar-se que não há maneira de discriminar entre os residentes de uma região. Mas se todas as viaturas estão em nome de pessoas (singulares ou coletivas) e identificadas pelo número fiscal de contribuinte, porque não usar essa informação, que está de posse do Estado, se querem fazer a dita discriminação e até alargá-la?

Depois vêm os descontos que vão beneficiar certamente os mais ricos e espertos. Como vivo num município 'rico', terei o maior prazer em poder ajudar os pobrezinhos dos concelhos envolventes que só têm três viaturas (para escolher de acordo com a cor da gravata), pois vão passar alegremente, e de borla, durante todo o mês porque têm 30 viagens gratuitas (cada chip terá 10 passagens gratuitas por mês). Acrescem a estes os outros descontos à utilização nas demais viagens se passarinharem mais...

E agora, pergunto eu, porque não usam mais imaginação na política de preço e a alargam a outras regiões? Não haverá pobres e desgovernados por todo este Portugal?

Porque não usam a happy hour, cupões de oferta de serviços (por x passagens 1 lavagem de estrada), cartão milhas, lotarias, etc., etc., etc.? Vá lá, puxem por essa imaginação!

Esta parece-me uma forma simples de desvirtuar a ideia do benefício, e vai resultar em manifesta injustiça. Mas será sem dúvida, como disse o senhor secretário de Estado, "uma medida solidária", em que os pobres dos concelhos ricos financiam os ricos dos concelhos pobres.
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«Expresso» de 18 Set 10

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

«Dito & Feito»

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Por José António Lima

O ESTADO SOCIAL tornou-se a última bandeira de um poder socialista que continua, irresponsável e alegremente, a afundar o Estado num endividamento galopante a caminho da insolvência.

«A agenda do Governo é promover e defender o Estado social», insiste José Sócrates, dia sim dia não, ao mesmo tempo que vê as dívidas de 15 empresas públicas (da Refer aos CTT, do Metro à Estradas de Portugal) chegarem quase a uns incomportáveis 20 mil milhões de euros.

Enquanto vê os juros da dívida portuguesa baterem recordes à grega nos mercados internacionais. E enquanto se mostra incapaz sequer de reduzir a imparável despesa pública na execução orçamental de 2010.

À falta de melhor, também Manuel Alegre elegeu «o Estado social» como ideia central da sua campanha para Belém. Alegre quer o Estado social para salvaguardar «a segurança no trabalho e o apoio no desemprego».

Mas o Governo de Sócrates, além de apresentar uma folha de 600 mil desempregados, cortou nos apoios sociais ao subsídio de desemprego ou ao rendimento social de inserção, entre outros. Alegre exige um Estado social em defesa «da Saúde e da Educação públicas» e contra «a aplicação de políticas que agravam as desigualdades, de políticas anti-sociais que são um retrocesso civilizacional».

Mas o Governo de Sócrates obriga os idosos mais necessitados a deixarem de ter medicamentos grátis, fecha centenas de escolas por todo o país, aplica portagens em todas as SCUT com mais ou menos desigualdades, agrava fiscalmente as pensões dos reformados. Como se vê, o Estado social dá para tudo. Alegre e Sócrates poderiam, pelo menos, entender-se.

Já a Ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, com a franqueza e a liberdade de expressão próprias de uma outsider no Governo, veio há dias declarar que «o Estado social está em colapso há décadas na Europa. Não é um problema português».

Sócrates e Alegre, cada um a seu modo, empunham, pois, uma bandeira que há muito entrou em colapso na Europa, segundo diz a ministra. E não deixa de ter a sua graça ver o silêncio e o embaraço do PS oficialista que se abateu sobre as palavras de Canavilhas.
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«SOL» de 24 Set 10

… como a pescada

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Por Antunes Ferreira

O ORÇAMENTO PARA 2011 arrisca-se a copiar o ditado que diz que a pescada antes de o ser já o era, noutra versão, como o vestido que afina pelo mesmo diapasão. O tema tem tido uma sucessão de peripécias qual delas pior do que a outra. Pepineira similar, naturalmente com consequências muito menos graves, é o famigerado caso Queiroz. Entre um e o outro, venha o Diabo e escolha. Mas, no fim deste despautério, na hora da verdade, deverá sair aprovado o que se dizia que não seria. Daí a parecença com a pescada e com o vestido.

Toda a gente tem metido o bedelho no patético confronto PS/PSD, e curiosamente ainda nem sequer é conhecido o documento que será apresentado no hemiciclo de São Bento. Estamos perante mais uma originalidade à portuguesa, que faria os cidadãos rirem-se a bandeiras despregadas, não fora o caso de poderem vir a estar confrontados com uma situação muito mais difícil do que a actual, o que não é, de todo, impossível.

As relações entre o Governo e o maior partido da Oposição foram marcadas por compasso musical – e continuam a sê-lo. Corrijo: talvez seja melhor utilizar ralações. Ainda há escassos meses, Sócrates e Passos Coelho davam os primeiros passos de um tango que o Gardel não enjeitaria. Ainda que a afinação fosse muito fraca, na vida tudo se aprende e evolui concomitantemente. Sendo necessário, um curso rápido mas intensivo nos Alunos de Apolo ajudaria imenso.

Porém, os filhos das pautas foram o que se tem vindo a ver. São eles os resultados confrangedores, a desafinação, a chinfrineira desaustinada, as contradanças, as notas falsas desde o dó ao si, em resumo, a asneira musical. E política. Poder-se-á até acentuar que neste momento o desgraçado do País assiste a um vira total e a um malhão que ninguém sabe até onde pode malhar. E, recordo, ainda bateram no ministro Santos Silva pela utilização do termo. Agora, há que o louvar, pela antevisão.

Bem pode o dito maestro convocar os intérpretes para o coreto de Belém. Falta-lhe a batuta para acertar os acordos, perdão, os acordes. Pelos vistos, ninguém quer acordar do pesadelo em que esta questão se transformou. A sintonia é des; a pretensa sinfonia orçamental está pelas cordas; e a orquestra é da outra banda.

Alvitra-se, numa verdadeira aberração, que venha de Washington quem seja capaz de acalmar esta ópera buffa, que nem opereta é, de tão desirmanada. Muitos, felizmente, não querem tal visita, sobretudo os que já foram brindados por ela. Mas, bem vistas as coisas, será mesmo que não somos capazes de tocar sozinhos alguma coisa que se oiça? Infelizmente, temo bem que sim.
Mas, como a esperança é a última coisa a morrer, talvez os deuses do Olimpo Polifónico nos cubram… de bênçãos.

Vem nos livros: tudo muda

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Por Ferreira Fernandes

HOLLYWOOD sabe farejar o ar do tempo. Num filme gentil, Você Tem Uma Mensagem, com Tom Hanks e a então namoradinha da América, Meg Ryan, contava-se a eterna história do tubarão que engole o peixinho.
No filme, de 1998, Meg tinha uma livraria familiar, dois empregados, e estava ameaçada pela megalivraria do Tom que abria na vizinhança. No fim, eles amavam-se, eram felizes, mas a ameaça ficava sugerida para além do "The End": as pequenas livrarias tinham os dias contados.
A história era inspirada por um facto real: o efeito de eucalipto da livraria Barnes & Noble, perto da Ópera de Nova Iorque, que secou à volta.
A Barnes & Noble, com 1357 lojas, é - com a Borders, cerca de mil lojas - um dos dois grandes grupos de livrarias americanas. Ora, contou ontem o jornal espanhol El País, estão ambas à beira da falência por causa da venda de livros na Internet.
A Barnes & Noble já fechou este ano 71 lojas. E, suprema ironia, a tal loja que serviu de pretexto ao amor de Meg Ryan e Tom Hanks é das que estão destinadas, já em Janeiro, a esvaziar as estantes dos seus seis andares.
Segundo o New York Times, uma dúzia de anos depois do filme, o que está a voltar a dar são as pequenas livrarias, lugares de convívio. Poderia haver um Você Tem Uma Mensagem (Parte II), com o ricaço Tom a ir pedir emprego à pequena Meg? Podia, mas as histórias justas não têm sucesso.
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«DN» de 24 Set 10

Apontamentos de Lisboa

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Traseiras do Centro Comercial Acqua Roma, na Rua Oliveira Martins, em Lisboa, com a saída de emergência 'devidamente' bloqueada. O logótipo colado no ecoponto identifica a entidade a quem se deve esta curiosidade de Lisboa.

A entrada principal é do lado da Av. de Roma, mesmo em frente ao edifício da Assembleia Municipal de Lisboa - uma simbologia perfeita!
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Actualização (Janeiro 2011): entretanto, foram retirados 2 dos 3 ecopontos. O que foi deixado foi, precisamente, o que está em frente à saída de emergência! Genial!

Cegueira

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Por João Paulo Guerra

LÊ-SE NOS JORNAIS e custa a crer: “A escola de Lamego que, no ano passado, foi escolhida pela Microsoft para integrar a rede mundial de escolas inovadoras, fechou as portas.


Os 32 alunos da EB1 de Várzea de Abrunhais - que dispunham de ‘wireless' e em cujas aulas os Magalhães trabalhavam conectados com o quadro interactivo - foram transferidos para um centro escolar onde não há telefone nem Internet".

Será possível? Claro que é possível. Passa-se em Portugal, onde toda a alarvidade fruto de uma política cega é possível. Fechou agora uma escola eleita pela Microsoft como já fecharam unidades de saúde acabadas de equipar. A EB1 de Várzea de Abrunhais nem sequer estava na lista negra das escolas com menos de 21 alunos que, por esse cego e estúpido motivo, estão condenadas ao encerramento. Fechou, porque sim. Porque o Governo manda e a Direcção Regional pode. E lá se vai a razão que colocou uma aldeia de Portugal no mapa-mundo da inovação tecnológica, o que parece não constituir motivo de orgulho para um país atrasado. Portugal prefere os trágicos recordes europeus do abandono e do insucesso escolar e da desertificação.

Há seguramente quem se recorde, como eu próprio me recordo, das primeiras escolas encerradas em Portugal pelos governos de Cavaco Silva - anos 80 e 90 do século passado - perante a maior indignação e a denúncia da oposição socialista, a nível central como local. Mas a verdade é que também os socialistas mudaram nas últimas décadas.

Cada escola que encerra é mais uma pazada de terra que se deita sobre o futuro de um Portugal ilustrado e desenvolvido. A política do fecho de escolas e de estabelecimentos de saúde é cega. Mas a cegueira do poder político é o complemento necessário e suficiente dos olhinhos das clientelas.
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«DE» de 24 Set 10

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

O penteado de Hillary

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Por Ferreira Fernandes

O LÍDER IRANIANO Ahmadinejad discursou em Nova Iorque, garantiu que não tem bomba atómica e provavelmente essa é uma questão menor. A vedeta da abertura da Assembleia Geral da ONU foi Hillary Clinton. Mais exactamente, o seu novo penteado. A chefe da diplomacia americana deixou o cabelo crescer pelos ombros, com um gancho agarrando-o no alto da cabeça.
O assunto foi ontem motivo de editorial no Times de Londres e, já há dias, o Washington Post tratava-o (ao cabelo de Hillary) num longo artigo de mil palavras. O jornal inglês, em jeito de desculpa, explicava no começo do seu editorial a importância que dava à matéria. Citou a própria: "O cabelo conta. Preste atenção a ele, porque os outros fazem-no", disse Hillary numa conferência na Universidade de Yale, há dez anos.
Eis o que sucede, agora, com todos os olhos fixos no novo penteado da n.º 2 do Governo americano. E, não, talvez não sejam razões superficiais que levam tão respeitáveis jornais a interessar-se. Aquela que era contestada como mulher promovida a conselheira pelo marido presidente, aquela que falhou a oportunidade de concorrer à Casa Branca, tornou-se o membro do Governo americano que revelou mais autoridade neste mandato.
"Yes, eu penteio-me", é mero pretexto para se falar dela. Olha-se para o seu penteado para se ficar certo de que ela está bem consigo - isto é, que haja uma líder.
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«DN» de 23 Set 10

Vão? Ou não vão?

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Por João Duque

A GRANDE DÚVIDA que agora assalta os espíritos mais ocupados com as finanças públicas e a economia portuguesa, é a de saber se Portugal vai ou não vai cumprir os almejados 7,3% de défice público em 2010 projectados pelo Governo.

O Governo continua a afirmar que sim, a oposição a optar pelo não. Se estivéssemos no Reino Unido, país conhecido pelo amor que os seus súbditos têm às apostas, estaríamos já com um contrato de apostas a ser cotado nalguma das suas casas da especialidade.

Como o assunto não é de natureza desportiva, não é razoável esperar umas apostas na bwin...

De qualquer modo é um tema aliciante, e como estas crónicas são lidas por muitos leitores no formato ‘online', desafio esses leitores a fazerem as suas apostas. Isto é: o défice orçamental de Portugal vai ficar acima dos 7,3% ou fica igual ou abaixo disso? Quanto é que apostavam hoje para receber €100 no final do ano se ganhassem a aposta do lado do Governo? E quanto é que pagavam hoje para receber €100 no final do ano se ganhassem a aposta pelo lado da oposição?

Para que uma aposta seja realmente aceite numa casa de apostas, é necessário que se sinta que o jogo não é viciado. Isto é, só se aceitam apostas sobre eventos que são de natureza aleatória, onde nenhum interveniente pode, por si só, definir o resultado final do jogo. Ora, será este um evento aleatório?

O saldo do défice está, em finais do mês de Agosto, nos 9.190 milhões de euros negativos, quando, por esta altura do ano anterior rondava os 8.744 milhões de euros também negativos. É sabido que, nos últimos 10 anos, em média, o saldo até ao final de Agosto tem representado 66% do saldo verificado no final do ano, o que significa, sensivelmente, um crescimento de acordo com a proporção do ano já passada. Se tal voltasse a verificar-se este ano, e tendo em conta uma possibilidade de crescimento do PIB da ordem dos 1% em 2010, então seria expectável um crescimento do saldo orçamental até aos 8,1% do PIB.

Isto é, se a gestão orçamental fosse simples, então o Governo não conseguiria ganhar a aposta...

Mas há medidas que foram tomadas, há efeitos que ainda se esperam que funcionem mais activamente (o efeito das taxas do IVA) e depois há os milagres: a venda de dívidas fiscais, as transferências de activos e passivos dos fundos de pensões, as cativações, as vendas em leilões, as privatizações, e eu sei lá que mais "ões"...

Um economista amigo, especialista em finanças públicas, aposta na não concretização nem do orçamento de 2009! Eu sou mais moderado. Se a coisa funcionasse sem intervenção do Governo, iríamos romper o orçamento do ano anterior e o descalabro seria absoluto. Mas conhecendo quem conheço - como diz o povo, "o que a casa gasta" - não tenho dúvidas que os milagres se vão suceder nos finais do ano... Veremos se serão suficientes para acalmar os investidores internacionais e se não vamos mesmo ter de chamar o FMI para nos vir socorrer. Apesar de tudo aposto do lado do governo e vou divertir-me com a engenharia orçamental!
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«DE» de 23 Set 10

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Questão simples: quem mente?

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Por Ferreira Fernandes

Resenha.

1) A 18 de Setembro, o Expresso entrevista Manuel Maria Carrilho, embaixador na UNESCO. O entrevistado critica o Governo.

2) Dois dias depois, Carrilho é demitido de embaixador. Ele diz aos jornais: "Soube pela Lusa. Ninguém falou comigo."

3) No dia seguinte à demissão, Carrilho lança um livro, compilação das suas crónicas no DN. A editora faz um comunicado dizendo que a demissão foi consequência "da publicação do livro e da entrevista ao Expresso". Embora seja pouco provável que o livro seja causa da demissão (ninguém se irrita por textos em livro quando em jornal passaram sem queixume), é natural que a editora aproveite para propagandeá-lo.

4) Ainda a 21 de Setembro, o Ministério dos Negócios Estrangeiros diz que Luís Amado e Carrilho se reuniram a 15 de Abril, tendo o ministro informado o embaixador de que ele saía da UNESCO no Outono.

5) Um dos dois mente. Ou a) Amado mente de forma seca e despudorada sobre um facto inexistente (ter informado Carrilho, a 15 de Abril, da demissão); ou b) Carrilho mente, de forma mancomunada, preparando a entrevista ao Expresso e o lançamento do livro para ocorrerem aquando da demissão, que ele conhecia.

6) É inadmissível que o mentiroso sobreviva politicamente quando a verdade se souber. E a verdade que interessa é esta: a 15 de Abril, Carrilho foi ou não informado da sua demissão pelo ministro? Sim ou não?
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«DN» de 22 Set 10

A República ameaçada

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Por Baptista-Bastos

"SEM DISCURSOS NEM TROMBETAS, os inimigos da República tomaram o poder na sociedade. Na primeira linha, o dinheiro e a imagem. A sua aliança sucedeu ao trono e ao altar." Eis as primeiras frases de um texto notável, de que só agora tive conhecimento, e no qual o autor, o dr. Miguel Veiga, advogado e intelectual que vive no Porto, procede a uma análise do estado actual das coisas. Quando a cultura deixa de ser o paradigma da relação com o outro, a colectividade perde o lugar confluente onde se cruzam os preceitos éticos e estéticos que a justificam.

Diz Miguel Veiga: "Agravando a opulência pela notoriedade, multiplicando a desigualdade dos rendimentos pela da consideração pública, ela ataca os fundamentos do orgulho da República: o desinteresse e o anonimato que subordinam os interesses e as vaidades ao interesse geral. A República não é um regime político entre outros. É um ideal e um combate." O texto foi lido em Arcos de Valdevez, há menos de dois meses, numa homenagem a Mário Soares, e a sua importância reflexiva não mereceu, da imprensa a atenção necessária. A imprensa, cada vez mais abandonada à futilidade e ao pequeno escândalo, aumenta a hipótese repressiva da conduta política.

Essa conduta política repressiva expressa-se nas formas mais diversas. A última das quais, porventura, a da tentativa de alteração dos códigos constitucionais. Lembremos que o autor principal dessa revisão, proposta pelo dr. Passos Coelho, é um importante dirigente da Causa Real, Paulo Teixeira Pinto, ex-banqueiro, convertido aos fascínios da pintura e da edição. A tomada do poder, na sociedade, pelos inimigos da República, de que fala Miguel Veiga, não é uma metáfora. A lassitude com que assistimos à destruição dos princípios e dos padrões fundamentais da ideia republicana é sinal da nossa indolência moral. Antero chamou-lhe a "decadência da alma". É-nos imposto um novo modelo de desenvolvimento que desrespeita os tempos do homem e cria uma violência social destruidora da espontaneidade, da imaginação e da própria vida associativa. Nada fazemos para nos opor. E aceitamos a identidade dominante, rudemente aplicada, sem nos insurgirmos contra esse notório abuso de poder. Não é ingénua a leviandade com que muitos jornalistas portugueses aceitam este totalitarismo mascarado de democracia de superfície. A leviandade nunca é ingénua. E o silêncio da memória não protege o homem dos perigos que sobre ele impendem.

As ameaças à República são reais e corroem a identidade da democracia. É cada vez mais difícil reapropriarmo-nos das heranças legadas há um século. E cada vez mais fácil fomentar o mal-entendido que tem levado ao desleixo de cuidarmos dessas heranças.
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«DN» de 22 Set 10

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Bingo!

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Por Rui Tavares

LÁSTIMA É QUE, quando num dia futuro se fizer a história das presidenciais de 2011, vá passar despercebido o vigoroso momento de viragem que foi a passada sexta-feira. Efetivamente, foi nesse 10 de Setembro de 2010 que ocorreu a publicação de uma crónica de Vasco Pulido Valente em que este profetizava que “Alegre vai a caminho do desastre e não percebeu”.

Deveria até ser alcandorado a tradição eleitoral, no mesmo patamar das straw polls das aldeias do Maine nos EUA ou das previsões do polvo Paul na Alemanha, o impreterível facto de que em Portugal nunca nenhuma vitória eleitoral, — em verdade, nunca nenhum facto político —, se pôde dar sem que o Vasco Pulido Valente que todos conhecemos e amamos não lhe prognosticado a sua evidente impossibilidade. Manuel Alegre tem ainda muito caminho para percorrer; mas pode já respirar de alívio por saber que este primeiro escolho lhe foi removido.

Com infalível falibilidade, note-se, a previsão de Vasco Pulido Valente não vale só pela forma, mas também pelo conteúdo, a saber, que “o dr. Manuel Alegre condenou anteontem a decisão dos ministros das Finanças da União Europeia de impor um “visto prévio” ao Orçamento dos países-membros”. O problema não é ser isto incorreto — “formalmente, Manuel Alegre tem toda a razão” — mas que a “atitude de Alegre” o “torne assim, indiscutivelmente, o candidato do Bloco”.

Vale a pena perder algum tempo descendo a estes pormenores.

Para ser justo, é enfermidade crónica do comentarismo político (de que eu não juro que não padeça) pretender que os candidatos digam ou não digam isto ou aquilo por razões táticas — para se distanciarem ou não deste ou daquele partido, por exemplo. Às vezes estes conselhos ganham até a forma de suposta preocupação desinteressada pelo destino de um candidato, aquilo que em inglês ganhou o nome de “concern trolling”.

Mas isto é esquecer um singelo motivo pelo qual um candidato a Presidente deve dizer certas coisas: por ter “toda a razão”, formalmente ou não.

E no caso, Manuel Alegre tem toda a razão substancialmente também. O “visto prévio” de Bruxelas aos orçamentos nacionais é um problema de democracia essencial para o futuro de Portugal e da Europa. Um candidato que não tenha opinião sobre ele, e que não faça disso um tema de campanha, estará a menosprezar o eleitorado e a trair o cargo para que se candidata ainda antes de lá chegar.

A opinião de Manuel Alegre é diferente da posição oficial do governo e semelhante à posição do BE? Tanto pior, ou tanto melhor, como quiserem. Haverá na campanha muitas ocasiões para Alegre tomar posições próximas do PS e distantes das do BE. Para dizer a verdade, qual é o eleitor que se rala com isso? A única preocupação que devemos ter com Manuel Alegre, como com qualquer candidato, é que as suas posições sejam apenas idênticas — não às do partido X ou Y — mas às de Manuel Alegre ele-próprio. É por isso que temos eleições presidenciais uninominais. E a propósito: alguém se lembra de como Barack Obama “caminhava para o desastre” por ter sobre a Guerra do Iraque uma posição contrária à do seu partido? Pois é.

O que nós deveríamos estar a perguntar é: que pensa Cavaco Silva sobre o visto prévio de Bruxelas ao orçamento do seu país, que vai estar em cima da mesa precisamente ao tempo das eleições?
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RuiTavares.Net

21 Set 10


A guerra dos 'piercings'

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Por Ferreira Fernandes

O CENTRO EDUCATIVO dos Olivais, em Coimbra, achou, porque trabalha com miúdos difíceis, em "reinserção social", que os piercings não deviam ser autorizados aos alunos. Certo? Errado? Podemos passar horas a discutir a eficiência da medida mas temos de admitir que, sendo o piercing um sinal, pode ser considerado negativo.
É legítimo pôr-se como hipótese que o seu uso transmite uma identificação que os educadores daquele centro querem afastar dos seus alunos. Em tempos da semiótica rainha, em tempos em que as marcas e a imagem são tudo, é prudente dar-se atenção aos sinais. O Centro Educativo dos Olivais deu atenção àquele, o piercing, proibindo-o. Errado? Certo? Por enquanto, regulamento e para ser aplicado. E só devendo ser modificado em função do entendimento do que é melhor para os alunos. Sublinhem essa palavra, alunos, a razão de ser daquele centro.
Mas intrometeu-se nesta história um professor que tem três piercings e foi proibido de os usar na escola. Sei que é de Educação Física e que, indo por aí, eu explicaria mais facilmente a minha tese de que ele não pode usar os piercings por ser perigoso no ginásio. Mas tenho um argumento melhor e definitivo para que um professor com piercings não possa ser professor num Centro Educativo onde o regulamento proíbe os piercings aos miúdos em reinserção social. O argumento é: porque sim.
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«DN» de 21 Set 10

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Passatempo-relâmpago de 20 Set 10 - Solução

O logótipo da EPAL (mostrando o aqueduto das Águas Livres) não engana...
Assim, "macy" tem 24h para escrever para medina.ribeiro@gmail.com, indicando 2 livros (por ordem decrescente de preferência) da lista que se pode ver [aqui].
Pede-se-lhe, também, que envie morada (mesmo que já a tenha mandado anteriormente).

Passatempo - Solução: pág 63

Do livro Sangue e Diamantes
Quem mais se tenha aproximado deste valor tem 24h para escrever para medina.ribeiro@gmail.com, indicando morada para envio dos livros.
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Actualização (15h19m): a vencedora foi Liliana, com um erro de 15 páginas. Atenção, agora, ao prazo de 24h para reclamar o prémio.

Já compraram as cabras?

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Por Helena Matos

DEVE TER SIDO a notícia mais bizarra de todo o Verão. Como juntava bichinhos com pêlo, Natureza ou visão urbana dela e corria sob o slogan da “prevenção de incêndios” a notícia espalhou-se à velocidade do fogo num esteval. Refiro-me concretamente a um projecto, Self-Prevention de seu nome, que destina 49 milhões de euros à aquisição de 150 mil cabras, que agora se chamam “limpadores naturais” e que nessa qualidade, afiançavam as notícias, comerão o mato que prolifera na zona transfronteiriça de Portugal e Espanha. Ainda não há muito tempo faziam-se notícias igualmente exaltantes sobre o problema dos pastores enquanto causadores de incêndios, através dos quais visavam precisamente obter pastos para o gado, nomeadamente para as cabras, então apresentadas como insaciáveis devastadoras dos ecossistemas. Mas qualquer dúvida sobre o impacto de tanta cabra esfuma-se quando se percebe que o dito projecto envolverá 187 entidades públicas dos dois países.

Imaginar 187 entidades públicas de dois países gerindo 150 mil cabras é um argumento para Almodôvar e a garantia de que teremos secretárias, assessores, educadores sociais, antropólogos, a filha do alcaide e o genro do presidente da câmara todos devidamente empregados à conta das cabras. Todos falando em português, espanhol e portunhol da dinamização que este projecto vai trazer, das novas valências que os “limpadores naturais” promovem, das sinergias que se vão estabelecer nomeadamente com a cultura e o turismo. Cabras propriamente ditas e pastores é que vai ser mais difícil encontrar.

Obs. Publiquei este texto a passada semana no PÚBLICO. Hoje mesmo um destaque sobre os incêndios florestais volta à carga com a relação entre os pastores e os fogos florestais. A solução parece estar agora no ‘enquadramento’ dos pastores. Mas ainda há umas semanas as cabras e os pastores estavam de ‘limpadadores naturais’ e de solução para os incêndios. Presumo que às 187 entidades públicas que vão gerir as 150 mil cabras limpadoras naturais se vão somar outras tantas entidades para enquadrar os pastores e as cabras que destroem a natureza.
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Público e Blasfémias

Apoio

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Por João Paulo Guerra

O LÍDER DO CDS-PP apoiará o professor Cavaco Silva caso o actual chefe de Estado decida candidatar-se a novo mandato.

O líder do CDS-PP gosta tanto do professor Cavaco Silva como o professor Cavaco Silva gosta dele. E os anais da democracia portuguesa registam exuberantes trocas de piropos entre ambos. Paulo Portas, enquanto director de O Independente, disse do cavaquismo e dos cavaquistas o que Mafoma não disse do toucinho. O professor Cavaco Silva, no segundo volume da Autobiografia Política, situou Portas entre os jornalistas "pouco sérios e sem escrúpulos" que "aviltam a informação".

Mas o que lá vai, lá vai. E em matéria de candidatos e de eleitores indigestos, é do chefe Cunhal a receita dos sapos vivos. De maneira que o apoio de Paulo Portas a Cavaco Silva - que a verificar-se constituirá reincidência da opção de 2006 - é tão natural como tomar um purgante: tapa-se o nariz e lá vai disto.

Portas tem razões acrescidas para a sua opção. Primeiro, não quer queimar as pontes que poderão levá-lo de novo ao poder no marsúpio do PSD. Segundo, o apoio a Cavaco Silva é mais uma pazada de terra sobre veleidades de oposições internas. O único candidato a candidato que se manifestou na direita extra-cavaquista foi José Ribeiro e Castro e há protagonismos que o líder do CDS-PP não pode admitir nem a brincar. Há pois que desencorajar o candidato de consumar a candidatura. Por pequeno que fosse, o pecúlio de votos constituiria uma desautorização do conselho de Portas aos eleitores do partido.

Há dias passou na TV o filme O Mentiroso Compulsivo: o protagonista, forçado pelas circunstâncias, tem que dizer a verdade durante 24 horas. Se a verdade se tornasse compulsiva na política portuguesa, no dia seguinte começava a guerra civil.
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«DE» de 20 Set 10

domingo, 19 de setembro de 2010

O ZÉ POVINHO

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Por Maria Filomena Mónica

ESTOU A ESCREVER isto a 10 de Junho [2009], um feriado cuja origem caiu no esquecimento. Em 1880, um grupo de intelectuais decidiu mostrar ao mundo que Portugal era um país culto, como se provaria pela celebração, naquela data, do terceiro centenário da morte de Luís de Camões. Como é óbvio, o impacto na cena internacional foi nulo. Após a República, veio o decreto consagrando o ócio e, com o Estado Novo, a designação de Dia de Camões, de Portugal e da Raça. O actual regime manteve o feriado, alterando a designação para Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Não gostando de comemorações, muito menos de cariz nacionalista, optei por trabalhar como se nada fosse, do que resultou acabar o dia a pensar no Zé Povinho.

Cada país tem o símbolo que merece: a Inglaterra, o John Bull (um senhor rural e divertido), a França, a Marianne (uma mulher de seio revolucionário), a Alemanha, a Germânia (uma mocetona loira com uma espada na mão). Nós temos o Zé Povinho, nascido, pela pena de Rafael Bordalo Pinheiro, a 12 de Junho de 1875, no n.º 5 da revista A Lanterna Mágica. Ei-lo, no lado direito da imagem, coçando a cabeça, com ar apalermado. Dentro de um «trono», deparamo-nos com Fontes Pereira de Melo, a fazer de Santo António, tendo ao colo o rei D. Luís, como Menino Jesus. O pedinte é o ministro da Fazenda, Serpa Pimentel, com uma bandeja na mão, a fim de sacar moedas ao dito Zé. Não fosse o caldo entornar-se, está presente o Barão do Rio Zêzere, comandante da Guarda Municipal.

Poder-se-á pensar que, em 1875, o campónio estava a ser mais espoliado do que o costume. Não era o caso: depois de um triénio terrível, o de 1868/71, o país vivia dias bonançosos. As remessas dos emigrantes haviam recomeçado, a economia retomara o seu ritmo, a situação internacional acalmara. E, no entanto, nunca tantos intelectuais criticaram tanto o regime. É neste caldo de cultura que apareceu o Zé Povinho. Este foi evoluindo até acabar imortalizado na figura do saloio a fazer um manguito, a qual receberia a consagração derradeira sob a forma de uma escultura. O gesto tem sido interpretado como uma atitude corajosa, mas poucas coisas há mais desprezíveis do que um servo que, diante dos patrões, se curva, indo fazer manguitos para a cozinha.

A figura do Zé Povinho aparece noutras caricaturas, como a de 9 de Julho de 1880, publicada em O António Maria, na qual surge com uma albarda às costas. Dois anos depois, no Álbum das Glórias, a albarda está colocada no chão, podendo imaginar-se que alguém a voltará a colocar sobre o dorso popular. O texto que acompanha o desenho é de Ramalho Ortigão: «Como desenvolvimento, ele está pouco mais ou menos como se o tivessem desmamado ontem. De músculos, porém, de epiderme e de coiro, engrossou, endureceu e calejou como se quer, e, cumprindo com brio a missão que lhe cabe, ele paga e sua satisfatoriamente. De resto, dorme, reza e dá os vivas que são precisos.» Ramalho Ortigão, aliás a alma da festarola, declarava ambicionar ver o dia em que o Zé Povinho se transformasse em Povo.

O problema residia em que ninguém sabia o que este, o Povo, queria. Desde que não saísse das pocilgas que habitava, empunhando baionetas, ninguém dava a menor atenção às obscenidades a que, lá dentro, se entregava. Uma vez por outra, o Zé Povinho arregaçava as mangas, pegava num cacete e até corria um político a pontapé. Mas nunca o vemos tentando libertar-se da albarda. Leva, resmunga e amocha. O que não está sociologicamente errado. Um país rural pode conhecer, como conheceu, motins provocados pela fome, mas dificilmente dá origem a revoluções.

O regime monárquico só caiu, já Bordalo Pinheiro tinha morrido, quando a pequena burguesia urbana entrou em cena. Em 1910, após ter pedido a demissão do cargo de bibliotecário da Ajuda, por não querer engrossar «o abjecto número de percevejos que de um buraco estou vendo nojosamente cobrir o leito da governação», Ramalho Ortigão exilou-se em Paris. Afinal, o Povo não era aquilo com que tinha sonhado.

O que impressiona, ainda e sempre, é o facto de o Zé Povinho ser admirado. Feio, patego e bronco, representa o camponês no que este tem de mais grosseiro. Apesar de o governo lhe roubar os filhos para a tropa e de lhe arrecadar os tostões ganhos com o suor do seu rosto, o idiota continua a ostentar um sorriso alvar. A característica mais notória do símbolo nacional é, como se vê, a subserviência: não nos podemos orgulhar.

«GQ de Julho/Agosto 2009

A floresta e as árvores

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Por Ferreira Fernandes

HOUVE EXAGERO na comissária europeia Viviane Reding quando aludiu às perseguições nazis a minorias étnicas, comparando-as ao que foi feito, agora, aos ciganos romenos e búlgaros pelas autoridades francesas. De facto, não são a mesma coisa. Mas o balanço foi positivo: na indignação de Reding, sinal de que não está esquecida a página mais negra do nosso continente, e na discussão que se instalou - até nos parlamentos nacionais, pela Europa fora - quando as vítimas são pobres, poucas e nem têm por elas um lóbi organizado.
É bom sinal que tenha havido tanto escândalo, mesmo que só sustentado numa simples frase de uma circular oficial em que, preto no branco, se aconselhava a perseguir uma minoria étnica, os ciganos.
Num mundo em que as marcas sérias de automóvel recolhem milhões de carros só porque se detectou avaria em alguns, foi bom saber que a Europa das nações também fica alerta porque um todo é perseguido, quando se deve, nos crimes, só perseguir aqueles que o cometem. Dito isto, era bom que essa floresta de princípios não fizesse esquecer que a perseguição das ilegalidades - concretas e cometidas por indivíduos - é até mais necessária para que a amálgama não se repita. Por exemplo, uma mulher não pode trazer um bebé nos braços e andar entre carros a pedir esmola nos cruzamentos.
A Europa não deve permitir nem circulares daquelas nem mulheres destas
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«DN» de 19 Set 10

sábado, 18 de setembro de 2010

A ciência da mentirologia

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Por Antunes Ferreira

HÁ SESSENTA e poucos anos, era uso (e era também abuso), a referência jocosa aos mentirologistas. Andava pelos meus oito/nove anos, ou seja 1949/1950, e por esta altura do ano aguardava ansiosamente a chegada do dia 20 para me regalar com as prendas do aniversário. Abro uma parentética para vos comunicar, portanto, que na segunda-feira já me podem enviar os presentes que bem entenderem. Mercedes com puxadores em platina ou BMWs com grelha em ouro com diamantes de bons carates incrustados serão bem acolhidos.

Era o tempo em que as estações do ano, ao contrário das dos comboios, eram certinhas, respeitavam o calendário, sentiam-se como pessoas de bem. Nada das trocas e baldrocas que agora brotam como cogumelos. As temperaturas situavam-se no plano da modéstia que então se defendia, não havia grandes caloraças, nem frios polares. Também no astro vigorava o aforismo latino in medio start virtus, que o mesmo é dizer no meio está a virtude.

É certo que ocorriam as cheias do Tejo, a estrada nacional Lisboa Porto ficava intransitável nas baixas de Santarém, as trovoadas decorriam com toda a normalidade em Portalegre, nas abas da Serra de São Mamede, de acordo com as Notas à Imprensa do SNI, o País estava calmo, a paz reinava, enquanto houvesse um Português sem pão, a Revolução continuaria. Santa época, santas gentes, Santo António.

O milagreiro dos amores e das bilhas, por estranho que pareça, afinal eram dois. Singular situação, que podia sintetizar-se em verso de pé quebrado oriundo de mente maldosa, insultuosa e impenitente. Veja-se só:

Dos dois Antónios
de que Lisboa desfruta,
um é filho da Sé
e o outro… também é.

De resto, é preciso que se diga que a felicidade que inundava os corações lusitanos era fruto da simplicidade, da ternura, da alegria de cada dia, tal como o pão-nosso. E facílima de alcançar. A Casa Portuguesa, que se tornaria o must da canção nacional, afirmava, sem motivos para dúvidas ou reparos que…

… Numa casa portuguesa fica bem
pão e vinho sobre a mesa.
Quando à porta humildemente bate alguém,
senta-se à mesa co'a gente.
Fica bem essa fraqueza, fica bem,
que o povo nunca a desmente.
A alegria da pobreza
está nesta grande riqueza
de dar, e ficar contente.

Quatro paredes caiadas,
um cheirinho á alecrim,
um cacho de uvas doiradas,
duas rosas num jardim,
um São José de azulejo
sob um sol de primavera,
uma promessa de beijos
dois braços à minha espera...
É uma casa portuguesa, com certeza!
É, com certeza, uma casa portuguesa!

No conforto pobrezinho do meu lar,
há fartura de carinho.
A cortina da janela e o luar,
mais o sol que gosta dela...
Basta pouco, poucochinho p'ra alegrar
uma existência singela...
É só amor, pão e vinho
e um caldo verde, verdinho
a fumegar na tigela.
Etc.

O Serviço Meteorológico Nacional, no meio de toda esta serenidade, desta bem-aventurança, desta simplicidade, era, porém, matéria para muitas dúvidas. As rádios avisavam de acordo com o SMN que no dia seguinte, já se estava em pleno Outono, os cidadãos deveriam sair à rua com os respectivos guarda-chuvas e, muitíssimas vezes, apanhavam com um sol para mangas de camisa e óculos escuros, pelo menos. Ou vice-versa, sendo que este último era muito mais mal recebido. Ingratos, sempre os houve.

A plebe não ia muito à bola com estes lapsos. Onde estava, então, o tão propagandeado rigor científico? Tinha-se instalado, ainda que a contragosto de São Bento, alguma desconfiança que ameaçava generalizar-se e transbordar. E não se tratava da gota de água que dava cabo do equilíbrio do copo; eram muitas as gotas das chuvadas que os meteorologistas não tinham previsto, muito antes pelo contrário.

Donde, o aparecimento da Serviço Mentirológico Nacional e dos mentirologistas. As condições de trabalho eram outras, bem diferentes das que hoje existem, bem como os meios utilizados para as previsões. Se alguém, nessa altura, pusesse a hipótese de satélites, seria a galhofa geral, e apontado a Rilhafoles, depois do gesto do dedo indicador em circular na fronte. Logo, os erros que ocorriam eram motivados, principalmente, pela carência logística e instrumental.

Corria a graçola que dizia que de manhã, chegados ao SMN, os mentirologistas abriam as janelas, deitavam um dedo de fora e se ele voltasse para dentro, molhado, podia-se prever aguaceiros; se o punho da camisa também molhada tivesse ficado era chuva grossa; se a mão abanasse era o vento em rajadas moderadas; se o braço quase voasse era uma ventania dos diabos; se o edifício abanasse ainda que mansamente, aos abrigos, era terramoto. Os Lusitanos de cepa sempre tinham sido especialistas nas anedotas, piadas, chuchadeiras e afins.

Hoje, o caso é muito diferente. O Instituto de Meteorologia, I.P. vai quotidianamente às televisões com infografias animadas, as nuvens a correr, as gotas a pingar, o sol a resplandecer electronicamente sofisticados. E outras modernices. A Internet vai a todas e não há blogue que se safe que não tenha, no mínimo, as temperaturas do dia seguinte e dos outros. As previsões a longo prazo são triviais. Não se sai de sombrinha e galochas, sai-se de telemóvel.

A Meteorologia e a Geofísica subiram a escada da glória - previsível. Restabelecida a confiança dos homens, desapareceu a sensação de aventura desses velhos tempos, aliás não tão idosos como tal, passaram sessenta anos, o que é isso face ao Senhor Einstein?

È por isso que quotidianamente consulto o site do IM e vejo cuidadosamente a previsão para dez dias. Acompanhada da ressalva que reza que os primeiros três dias são previsões elaboradas por Meteorologista, os restantes sete através de modelos numéricos. Mas, com o sol, as nuvens brancas, as nuvens cinzentas, as gotas azuis, as temperaturas máxima e mínima, os ventos, o estado do mar, a temperatura da água, os índices Ultra-Violetas.

E se quiser aperceber-me da evolução climatérica em 1971 e 2000 observo com algum cuidado e atenção o gráfico de curvas com as Médias da temperatura do ar e o outro, de barras, que informa da quantidade de precipitação total no mesmo período de tempo. Satélites, radares, mapas evolutivos, cartas, uma verdadeira panóplia Para nos alertar com a correcção possível.

Mas, o Padroeiro do Meteorologistas, que é o muito idoso São Pedro, com seus achaques e inconstâncias, quando mete o bedelho nestas psicadélicas previsões dos tempos, dá frequentemente, raia. Tudo visto e acompanhado, não há maneira de controlar o velhote guardião das chaves do Paraíso que no quotidiano hodierno é uma reminiscência dos mentirologistas do antigamente. Se, por inspiração dos três patrões celestiais, previsse o Santo da pedra (e, obviamente sem anemómetros, aneróides, barógrafos, barómetros, birutas, higrómetros, pluviómetros ou radar Doppler, instrumentos miseramente terrestres q.b.) qual o vendaval que trará de volta a este nosso País o caridoso FMI e quando isso acontecerá, então, outro galo cantaria.

Assim, fico-me pela consulta ao site da IM, IP. E pelos zigue-zagues dos políticos, que persistem em afirmar que, em tais meandros, nem sol na eira, nem chuva no nabal, o que for soará. Mentirologistas.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Análises

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Por João Paulo Guerra

BEM PODE António Arnaut clamar que “nem a falta de recursos deveria alguma vez pôr em causa o SNS”.

Os actuais governantes e dirigentes do partido do Governo não só não têm memória nem sensibilidade social, como não têm muito de socialistas. De maneira que encaram Arnaut, o fundador do Serviço Nacional de Saúde, como uma flor de lapela, um ornamento, um patusco, mas não lhe passam cartão. O PS continua a agitar a bandeira de António Arnaut, porque tem ali um taxímetro para facturar votos. Mas governos e ministros do PS têm liquidado na prática, em doses suaves ou à bruta, a herança de António Arnaut.

E assim, de corte em corte, o "tendencialmente gratuito" do SNS está cada vez mais caro e inacessível. Nem se percebe a contestação dos "pê esses" aos propósitos dos "pê esse dês" que querem riscar da Constituição da República um preceito que nenhum governo tem respeitado. Muito pelo contrário: um preceito que todos os governos têm desrespeitado.

O mais recente corte que se anuncia no sistema de saúde é um atentado não apenas ao espírito do SNS e à Constituição como também ao direito à vida de muitos portugueses, doentes ou gozando de saúde. De acordo com o Correio da Manhã de ontem, as análises e exames clínicos têm os dias contados de modo a que o Governo "poupe" 13 milhões nos encargos com a Saúde. Para já, trata-se de contas de mercearia: o Governo "poupa" numa parcela que lhe sairá muito mais cara no futuro. Em segundo lugar é um sinal da maior insensibilidade e desumanidade afastar milhares de portugueses da possibilidade de terem um diagnóstico precoce de uma eventual doença. Há pacientes portugueses que se salvaram de doenças cardiovasculares como de doenças oncológicas mas que temem agora não sobreviver à política de saúde do actual Governo.
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«DE» de 17 Set 10

Passatempo-relâmpago de 17 Set 10 - Solução A

O fotógrafo ia a passar e não resistiu a tirar a foto que em cima se vê. Nesse momento, por coincidência, vê um carro da PSP a aproximar-se, e tira a 2ª foto. Os agentes param, actuam, e em poucos minutos tudo fica limpo, como se vê em baixo. A legenda poderia ser «Quando eles querem...»

Passatempo-relâmpago de 17 Set 10 - Solução C

A sra. fiscal da Emel apenas multou o carrinho branco (imagem de cima), que estava em zona reservada para cargas e descargas de uma determinada loja. Ignorou, em absoluto, todos os outros (quer os que já ali estavam, quer os que foram chegando!!!), e foi-se embora. Como se percebe, as fotos foram tiradas todas de seguida.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Escape

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Por João Paulo Guerra

O PRESIDENTE da Pastoral Social, o bispo Carlos Azevedo, verberou o actual “modelo económico” considerando-o “indecente, injusto, desigual, desproporcionado, dele resultando o agravamento da pobreza e da exclusão social”.


As palavras do bispo Carlos Azevedo, pelo conteúdo e pela forma, estão obviamente mais perto da doutrina cristã que a bênção das desigualdades como ordem natural das coisas, que muito pregam dentro e fora da Igreja de Jesus Cristo. "Indecente, injusto, desigual, desproporcionado" não são pecadilhos que se absolvam com umas tantas rezas. Mas claro que todos aqueles que se enchem com o actual "modelo económico", mesmo aqueles que simultaneamente batem com a mão beata no peito, estarão pouco preocupados com as palavras de Cristo ao preconizar que lhes será mais difícil entrar no Reino dos Céus que a um camelo passar pelo fundo de uma agulha. Na verdade, o paraíso goza-se na terra, no bem-bom da riqueza material e do poder do dinheiro.

De vez em quando, ergue-se uma voz a quebrar a monotonia do pensamento único que aponta a selvajaria do capitalismo como uma inevitabilidade da história e destino dos homens. Por vezes, essas vozes evocam a doutrina social da Igreja e os seus originais valores de generosidade pregados por Cristo. Mas Cristo, por essas e outras, acabou pregado numa cruz e dois mil anos mais tarde os princípios da solidariedade são motivos ou de chacota ou de suspeição, alimentados pelos ‘gauleiter' dos valores do mercado.

As palavras severas do bispo Carlos Azevedo ecoaram nos jornais de ontem. O poder tem capacidade para suportar uma crítica. E mais vale abrir, aqui e ali, uma válvula de escape que permita que salte a tampa da panela de pressão. Mas tão cedo não volta a falar-se do assunto. Ouviram?
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«DE» de 16 Set 10

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

O caso do chinelo encontrado morto

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Por Ferreira Fernandes

ESTA SEMANA, alguns sites dos jornais portugueses trouxeram o mais interessante título das últimas décadas. Esse texto veio da agência Lusa, e o Expresso e o jornal i pespegaram-no felizmente sem emenda. O título, óptimo, era: "Espinho: 'Não há indício de crime' no caso do chinelo encontrado morto', diz a PJ".
Os títulos são isca e anzol e raramente vi um tão aliciante. Fala-se muito da crise da Imprensa mas houvesse mais histórias destas e não faltariam leitores. Mesmo dando de barato a sugestão da bófia, "não há indício de crime", o caso do chinelo encontrado morto tem daqueles atractivos que antigamente faziam os ardinas apregoar e o povo comprar. Quem encontrou o chinelo morto? E, tendo-o encontrado, como lhe confirmou o passamento? Fez-se, antes, respiração boca a boca?... Enfim, ainda que oficialmente morto em toda a legalidade, o caso do chinelo morto cheirava a esturro.
Infelizmente, como é próprio do costume português, tendo uma bela história entre as mãos (ou melhor, pé), os jornais decidiram destruí-la. Depois do título (óptimo, como já disse), acrescentaram um texto desmotivador. E ficámos a saber que o magnífico chinelo morto era, afinal, um infeliz chileno encontrado morto em Espinho. O que podia ter sido uma boa história não passou de uma dislexia ortográfica.
Ora lobas! Perdão, bolas.
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«DN» de 15 Set 10

Convite

Por Manuel João Ramos

CONVITE

Lançamento do livro

The Walker and the City

Coordenação de Manuel João Ramos e Mário J. Alves

16 de Setembro, 17h30, CES Lisboa

(Picoas Plaza, Rua Tomás Ribeiro, n.º 65, 1º andar, Lisboa – Estação de metro: Picoas)

Assinalando a Semana Europeia da Mobilidade (16 a 22 de Setembro de 2010), a Associação de Cidadãos Auto-Mobilizados (ACA-M) e o Centro de Estudos Sociais (CES Lisboa) têm o prazer de convidar V. EXa. para o lançamento da mais recente publicação da ACA-M - The Walker and the City (actas do Colóquio Internacional O Peão e a Cidade – The Walker and the City, 12 de Novembro de 2008).

Este livro propõe uma reflexão colectiva sobre a importância crescente dos direitos dos peões e a necessidade de atender às suas necessidades qualitativas no interior dos sistemas urbanos europeus. Conta com a colaboração de importantes especialistas internacionais na área dos estudos da pedonalidade, e constitui um contributo português para a Acção 358 do Conselho de Ciência e Tecnologia da Fundação Europeia de Ciência e para as actividades do Walk21.

The Walker and the City é o 3º volume da colecção de Estudos Pedonais da ACA-M.

Com a presença de Reinhard Naumann (FES Portugal), Mário Alves e Manuel João Ramos (ACA-M) e Isabel Seabra (IMTT).

Publicado com o apoio da Fundação Friedrich Ebbert e do Instituto da Mobilidade e dos Transportes Terrestres.

Membro da FEVR - European Federation of Road Victims

Membro da ICART-International Coalition Against Road Trauma


Membro da IFP - International Federation of Pedestrians

Atendível

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Por João Paulo Guerra

AFINAL, por alguma justa causa ou razão atendível, o PSD decidiu mexer à última hora no projecto de revisão com o qual pretendia tornar irreconhecível a Constituição da República.


A discussão da revisão, por força do calendário introduzido pelo PSD, vai cair em cima dos debates do Orçamento e da campanha presidencial. Certamente que alguns itens do projecto inicial de revisão eram susceptíveis de provocar desgastes ao partido proponente em momentos tão sensíveis.

E assim, o PSD retirou do projecto inicial as previstas alterações aos poderes presidenciais. Não faltariam, na corrida a Belém, remoques confrontando o candidato e o partido genética e sociologicamente ligados. E assim caiu o processo de simplificação de demissão do Governo, não fosse alguém levantar a questão de que se tratava de uma revisão constitucional por feitio e medida para uso imediato.

O grande mistério do projecto de revisão constitucional do PSD - à hora a que escrevo - é porém de natureza semântica. Os social-democratas - ao arrepio da própria designação genealógica que ostentam - queriam simplesmente acabar com a justa causa como condição para despedimentos.

Confrontados com a brutalidade da proposta, mudaram-lhe a denominação para "razão atendível", o que pura e simplesmente não quer dizer nada em concreto mas abre as portas para tudo. Mas o disfarce da "razão atendível" também caiu e agora o PSD promete uma modalidade de ginástica semântica para dizer aquilo que quer - despedimentos sem condições - de uma forma menos brutal que passe na nota artística.

O tempo dirá se a revisão constitucional deste PSD teve entradas de leão e saídas de sendeiro. É que a revisão não se vota com resultados de sondagens e o PSD, por enquanto, precisa da cumplicidade do PS.
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«DE» de 15 Set 10

Edite escreveu uma carta

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Por Baptista-Bastos

EDITE ESTRELA escreveu uma carta aos seus camaradas. Embora não sendo camarada de Edite, o texto chegou-me às mãos. É uma carta de instigação e de crítica, por igual impetuosas. Num Portugal entediado, precaucionista, com vocação concêntrica para a manhosice e as meias palavras, o texto de Edite Estrela constitui um tonificante sobressalto. Entendem-se as preocupações subjacentes. Já se não entende o alarido indisposto da Direita, a qual, à falta de melhor argumento, fala, indignadíssima, que Edite Estrela "roça o insulto" ao Presidente da Republica [Marcelo Rebelo de Sousa dixit].

Andei, infatigável e arfante, à procura do insulto de Edite, da injúria de Edite, do indecoro de Edite. Vasculhei a prosa; procedi a um varejo intenso e minucioso; esquadrinhei o adjectivo; perscrutei as eventuais insinuações que se escondessem, sinistramente, por detrás das locuções adverbiais. Nada. A carta mais não adianta do que repetir o que muitos portugueses alfabetizados pensam e dizem do dr. Cavaco. E fá-lo com prudência, com equilíbrio e com gramática. Não diz que o rei vai nu. Aponta os perigos que o reino corre com este rei vestido, crispado, desprovido de ironia, regido por um projecto político no qual o humanismo e a compaixão estão ausentes. Nem um sopro de novidade. Diz Borges que os homens assim configurados ocultam sempre algo de sinistro. Diz Borges, não Edite.

Parece-me que o furor do PSD tem mais a ver com o lumbago do que com angústias existenciais. Lê-se o que, por encomenda, diz Jorge Moreira da Silva, e não se acredita. Moreira da Silva é uma figura irrelevante, mas não deixa de ser vice de Passos Coelho, e antigo assessor do dr. Cavaco. Moreira foi encarregado de responder a Edite, em nome da artificiosa emoção causada, no partido, pela carta. São declarações confrangedoras, por desajustadas e medíocres.

Depois da inabilidade demonstrada nas anunciadas alterações à Constituição, do consequente trambolhão nas sondagens, e da dubiedade nas posições sobre o Orçamento, Pedro Passos Coelho continua a passeata displicente para o despenhadeiro. Ou as cabeças dos seus conselheiros riscam o diamante ou são socialistas infiltrados. Passos parece não dispor de muitas ideias de seu. De disparate em disparate criou, agora, este ilusório problema. E arrastou o dr. Cavaco para afirmações infelizes, indicativas de que este não leu a carta. Ao asseverar que é "pessoa educada", o dr. Cavaco acusa, subrepticiamente, Edite Estrela de má educação, acaso por ela defender Manuel Alegre, promover a "vitória da cultura contra a tecnocracia" e contrariar "uma visão restrita e preconceituosa" da sociedade. Mas não há, no texto, um pingo de descortesia. Apenas meia dúzia de verdades.
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«DN» de 15 Set 10

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Os princípios e a sua aplicação

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Por Ferreira Fernandes

É COMUM os Estados pagarem resgate aos terroristas que sequestraram os seus cidadãos. A Argélia quer que a ONU denuncie essa prática e compreende-se o seu interesse. Com a vaga de sequestros no Magrebe, a Al-Qaeda já recolheu 50 milhões de euros, dinheiro com que melhor se armou e organizou - e desestabilizou os governos locais. Argel apontou os governos europeus que cederam à chantagem e pagaram pela libertação de seus cooperantes e turistas: este ano, à cabeça vem Espanha, que deu 8 milhões de euros por três raptados.
O jornal El Mundo perguntou ao embaixador argelino na ONU: "Não acha que se os resgates não fossem pagos, os cooperantes já estariam mortos?" Resposta: "Se calhar sim, mas se Espanha pagou os resgates, mais cidadãos seus serão raptados..."
O preço de um resgate hoje anda à volta de cinco milhões de euros por refém, o que torna a libertação só possível num negócio entre os terroristas e os governos - um cidadão isolado não pode pagar tanto. O "dever ser" é claro: governo que paga, não só alimenta os terroristas como, mostrando-se fraco, torna mais vulneráveis os seus cidadãos a futuros raptos. Mas depois há os casos concretos para complicarem as certezas claras. Este ano já foram mortos um francês e um inglês porque não foi pago resgate.
Suspeito que os respectivos governos não sejam populares em casa desses infelizes.
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«DN» de 14 Set 10

NUCLEAR: JA, DANKE?

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Por Carlos Fiolhais

NO FINAL DO SÉCULO passado tornou-se comum, na Alemanha, a expressão Nein, Danke, quando se falava de energia nuclear. Em 1986 tinha acontecido o acidente de Chernobyl, que originou uma nuvem radioactiva sobre a Europa Central. A romancista alemã Christa Wolf escreveu um romance sobre o assunto: Acidente. Multiplicaram-se na época os protestos contra as centrais nucleares. No ano de 2000, o governo alemão, sensível a esses protestos, resolveu determinar o encerramento a médio prazo das 17 centrais nucleares existentes. E não seriam construídas outras.

Mas os tempos hoje são diferentes. No passado recente, o aumento das necessidades energéticas, o risco do aquecimento global, a instabilidade no Médio Oriente e o elevado custo das energias renováveis têm feito repensar a questão da energia nuclear. O governo alemão, presidido por Angela Merkel (que estudou Física e tem um doutoramento em Química Quântica), acaba de anunciar um adiamento do projectado fecho das centrais em funcionamento, concedendo uma moratória de oito anos para as centrais mais antigas e de 14 anos para as centrais mais recentes. A revista Der Spiegel noticiou com algum humor: “o governo deixa radiantes os amigos do átomo”. Isto acontece numa altura em que outros países europeus têm centrais em construção, em avançado estado de planeamento ou em fase preliminar de proposta. Na Europa, a Finlândia e a França estão a construir um reactor nuclear, e a Eslováquia dois. Países que torceram o nariz ao nuclear como o Reino Unido e a Itália têm agora centrais planeadas ou propostas. Fora da Europa, entre os países mais desenvolvidos, os Estados Unidos têm uma central em construção, o Canadá duas, o Japão também duas e a Rússia dez. E, em países com economias emergentes, o avanço do nuclear é ainda mais visível: a China tem 24 reactores em construção (além de 33 planeados e 120 propostos!), a Índia quatro e o Brasil um.

Em Portugal, onde a electricidade é das mais caras da Europa, o debate sobre a energia nuclear tem reaparecido a espaços, embora não seja tão nítido e produtivo como noutros países. O actual governo tem procurado evitá-lo e, quando não o pode fazer, tem-se pronunciado contra, preferindo defender as energias renováveis. O ex-governador do Banco de Portugal Vítor Constâncio, do partido do governo, não hesitou, porém, antes de ir para a Europa, em defender o estudo da opção nuclear, apontando o exemplo finlandês. O principal partido da oposição, embora não advogue claramente a alternativa nuclear, tem-se pronunciado a favor da discussão sobre ela. Na minha opinião, o assunto não deve ser considerado tabu. A controvérsia que se vai agudizar nos próximos meses na Alemanha não deixará de ter um impacto aqui.
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«SOL» de 10 Set 10 e De Rerum Natura

Escola

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Por João Paulo Guerra

COMEÇOU O ANO escolar com alunos sem professores, professores sem alunos, escolas fechadas sem alunos nem professores, escolas em obras.

O costume. Nos tempos do salazarismo, as escolas chegavam para todos, porque eram frequentadas por uma minoria. Havia como hoje os colégios particulares, os estabelecimentos públicos designavam-se escolas da Câmara, mas a maioria da miudagem, nas aldeias, vilas e cidades, andava descalça e não ia à escola. Ainda sobrevivem desses tempos tenebrosos de obscurantismo meio milhão de analfabetos. Depois, com a democracia, o ensino passou a ser obrigatório e funcionar para as estatísticas. E o insucesso e abandono escolar varrem-se para debaixo do tapete.

No Público de ontem podiam ler-se opiniões muito interessantes, de investigadores e professores, sobre o papel dos pais no combate ao insucesso escolar. Pais interessados pela vida escolar dos filhos, desde o primeiro dia de escola, folheando em família os manuais, interessando-se pelo circulo de colegas e amigos dos filhos, sobrelevando os valores do esforço e da ética do trabalho. Um quadro idílico próprio da vida em democracia, como a "pobreza lavadinha" - expressão do Luís Filipe Costa - era a representação pastoril da cinzenta sociedade salazarista.

Porque a questão que está por saber é quantos pais terão disponibilidade, ou meios materiais e intelectuais, para servir de esteios a um combate dos filhos contra o insucesso escolar. Quantos estão em casa com os filhos em tempo útil, com horários cada vez mais escravizantes, com distâncias imensas a percorrer entre o trabalho e a casa, com preparação insuficiente já adquirida na balbúrdia do sistema português do ensino, com mentalidades herdadas do antigamente ou formadas já na actual sociedade da indiferença?
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«DE» de 14 Set 10

O peso de Júpiter, e o seu

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Por Nuno Crato

SE O LEITOR tem o hábito de olhar para o céu nocturno após o pôr do Sol, terá certamente reparado que aparecem agora nele dois pontos de luz muito brilhantes. A oeste, vê-se Vénus descer lentamente para o horizonte. A leste, vê-se Júpiter levantar-se. Cerca das nove, é possível comparar os dois planetas em lados opostos do céu. São inconfundíveis; não haverá nenhum astro no céu nocturno com brilho comparável.

Ambos estão a grande distância da Terra. Nenhum ser humano os observou de perto. No entanto, sabemos muito sobre eles sem precisar de os os alcançar. Sabemos, por exemplo, a sua massa. Segundo um novo método ontem publicado por um grupo de astrónomos (doi: 10.1088/2041-8205/720/2/L201), conseguimos medir a massa de Júpiter com um erro inferior a uma parte em dez milhões. É uma precisão impressionante, que envergonha as nossas balanças. Se o leitor, imaginando que tem cerca de 70 quilogramas, quisesse medir o seu peso com precisão equivalente, teria de comprar uma balança que fosse sensível ao peso de um pequeno grão de açúcar. Quer dizer: os astrónomos conhecem a quantidade de matéria de Júpiter com maior precisão do que o leitor conhece a sua.

O novo método baseia-se numa ideia surpreendente. Os astrónomos usaram um dos relógios naturais mais precisos que se conhece: os pulsares. Essas estrelas rodam sobre si próprias a tremenda velocidade emitindo feixes de luz — funcionam como faróis que emitem sinais a intervalos muito regulares. Recebendo os sinais de alguns pulsares conhecidos, os astrónomos notaram que eles se atrasam e adiantam com alguma regularidade. O movimento da Terra em torno do Sol, aproximando-nos e afastando-nos do pulsar, é responsável pelo avanço e atraso desses sinais.

Até aqui, nada de estranho. Mas os astrónomos repararam que há irregularidades cíclicas no atraso e no avanço da luz dos pulsares que não correspondem ao que é explicável pelo movimento elíptico do nosso planeta. É que não somos os únicos a orbitar o Sol. Os outros planetas, nomeadamente Júpiter, exercem o seu efeito gravítico sobre o conjunto do sistema solar, de forma que o nosso movimento no espaço é condicionado pelos seus.

Aqui, os astrónomos recorreram a uma técnica matemática que agora fez 200 anos: a chamada análise de Fourier. Com essa técnica, é possível analisar todas as observações de atrasos e avanços ao longo dos anos e ver quais são as que se repetem em sintonia com os ciclos de cada planeta. Imagine o leitor que tocava num piano cinco teclas ao mesmo tempo. Com a análise de Fourier, podia decompor o som resultante, filtrando à vez, cada uma das notas. O piano tocava as cinco teclas, o som era recebido num microfone, transformado num computador e, à saída dos altifalantes, aparecia apenas uma à sua escolha. Parece ficção, mas é a realidade. Foi assim que as televisões tentaram filtrar o irritante som das vovuzelas durante as transmissões do mundial. Por vezes com pouco sucesso, reconheça-se.

Para os astrónomos, a música é dada pelas oscilações de posição dos astros. Conseguindo decompô-las, conseguem medir o efeito de cada planeta no movimento do sistema solar no seu conjunto. Com isso, calculam a massa de cada planeta. É simples! Esta noite, ao olhar para Vénus e para Júpiter, lembre-se que a massa desses planetas é mais fácil de medir do que a sua, caro leitor.
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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 11 Set 10