sábado, 29 de janeiro de 2011

Medo, pânico ou pavor?

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Por João Duque

A CHINA com medo da fraqueza do dólar. Os cristãos com medo dos árabes. Os árabes com medo da dívida portuguesa.

Andam todos assustados. Os funcionários públicos com medo do dinheiro não chegar ao fim do mês. Os açorianos dependentes do orçamento, com medo de não poderem ser compensados pelos cortes. Os médicos reformados com medo de não poderem acumular. Os bolseiros com pavor por terem de devolver parte do que receberam. Os jovens licenciados com medo do desemprego.

O desemprego com medo do INE. O INE com medo de não conseguir baixar o número de desempregados com a nova metodologia. O IGCP em pânico com os leilões. O mercado com medo de Portugal. As escolas privadas com medo de fecharem.

Manuel Alegre assustado só de pensar em ficar atrás de Fernando Nobre. Francisco Lopes de ficar atrás do Coelho da Madeira. A Alemanha com medo da crise espanhola. A França com medo das atitudes alemãs. O Governo com pavor de não conseguir travar as providências cautelares dos professores. A minha filha com medo de não terminar o curso.

O Ministério das Finanças em pânico com a execução orçamental. A Direção-Geral dos Impostos com medo de não cobrar o que todos lhe imploramos. Os juízes com medo dos cortes nos complementos salariais.

O BCE com medo de ficar demasiado exposto aos créditos exorbitantes a bancos portugueses e ao Tesouro nacional. José Sócrates com pavor do FMI. A China com medo da fraqueza do dólar. Os cristãos com medo dos árabes. Os árabes com medo da dívida portuguesa. As Fundações e institutos públicos com medo do FMI. José Eduardo Bettencourt com medo das derrotas do Sporting. Os reformados com medo de cortes nas pensões. As eólicas com medo de serem devidamente avaliadas. Os irlandeses, gregos e portugueses emitentes com medo das agências de rating. Teixeira dos Santos com medo dos 7%, dos 8%, dos 9%... As agências de rating com medo de serem pouco conservadoras.

A Caixa Geral dos Depósitos com medo do BPN. A Galp com medo do Amorim. O mercado com medo de Steve Jobs. O José Mourinho com medo de não ganhar a liga espanhola. O Bloco de Esquerda com medo de ter razão. Os nossos submarinos com pavor de meterem mais água. A WikiLeaks com medo de não ter mais informações para divulgar.

Os portugueses com medo do estado do Estado Social que lhes mentem manter. As famílias numerosas com medo da perda do subsídio. O FMI com medo de Portugal. O Reino Unido com medo da inflação. O Benfica com medo de não ganhar nada. A RAVE com medo de não ter TGV. Todos com medo dos preços do petróleo. O Banco de Portugal com medo do preço do ouro. Os exportadores com medo do euro. Os importadores com medo do euro.

O Medina Carreira em pânico porque tem razão. O Alberto João Jardim com medo de fumar. E eu com pavor da Conceição!

Que raio de maneira de começar a década!

Até o António de Almeida está com medo...
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«Expresso» de 21 de Jan 11
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NOTA (CMR): O António de Almeida referido no fim do texto é o autor das crónicas publicadas no «Expresso-Economia», nas colunas ao lado das de João Duque.

Lisboa tem de ir ao dentista

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Por Antunes Ferreira

LISBOA PRECISA de ir ao dentista; está cariada por tudo o que é sítio. É uma boca desgraçada com uma dentadura desdentada. A odontologia é como o algodão: não engana. Já lhe implantaram duas pontes, mas precisa de uma terceira. Só que não há euros; e os que vai havendo são cada vez mais caros e raros. A sabedoria popular não é de meios-termos: quem não tem dinheiro, não tem vícios. A capital não tem dinheiro, mas tem vícios. E cáries.

E qual é o objecto destas mal alinhavadas linhas? Trata-se da saga dos prédios tristes. Logo no início de quem sobre a Domingos Sequeira, a caminho da Ferreira Borges, entrando em Campo de Ourique, à direita há um exemplar incontornável do propósito que me anima, no caso presente, me desanima. É o fantasma vivo do que foi o Cinema Paris. Utilizo já a palavra vergonha, fazendo o aviso de que ela seria repetitiva ao longo de todo o texto. Daí que tenha a intenção de não a repetir, tantas vezes teria de a usar. Tantos e tamanhos são os crimes urbanístico-alfacinhas, que a partir de agora só com o Dicionário de Sinónimos.

O amarelo sujo da fachada apodrecida tenta esconder a estrumeira no interior. É só merda, o que por ali abunda. Porque tudo o que é submundo, tudo o que sem abrigo, tudo o que é drogado ali satisfaz as necessidades fisiológicas, um verdadeiro reino de dejectos. Envolvendo o infeliz há tapumes repintados de cartazes os mais diversos, desde os espectáculos de circo, até às orações a São Judas Tadeu. E grafiti; mal pareceria se não existissem em tal local.

Está devoluto há mais de uma vintena de anos. Em 2008, a Câmara, timidamente, mandou um buldozer e uns quantos operários para retirar o entulho e o resto. Debalde. Bastaram uns quinze dias para tudo voltar ao mesmo, incluindo as varejeiras. Há um alerta de ameaça, apesar do escoramento, o edifício pode ruir. De cansaço de estar em pé, muitos já caíram. Mais um, menos um…

O bairro é, de resto, zona de mais prédios decrépitos. De janelas e portas entaipadas a tijolo, de frontarias esburacadas, de vidraças estilhaçadas. Não é, infelizmente, o único. Bem pelo contrário. Volto atrás no percurso. Que não é, de forma nenhuma, passeio; é uma coisa bem diferente. Consulto o dicionário, como avisei antes. Opróbrio deve servir. É, por conseguinte, uma forma de opróbrio.

Madragoa e a própria Lapa têm muitas. Esta última é um bairro fino, de tias a estacionar em cima dos carris dos eléctricos na Rua de Buenos Aires, lado a lado, conversando de carro para carro com os guarda-freios a olhar e os passageiros a protestar. Pois por ambos os bairros o que não falta são casas em ruínas. Onde se acoitam os mais diversos representantes das desgraças.

Descendo a Santos, continua a saga. E pelo Calvário, e por Alcântara, e pelo Dafundo, e pelo Lumiar e por toda a parte. O centro da cidade não escapa. Basta sair do Marquês do Pombal e logo na Fontes Pereira de Melo há um quarteirão delas. Que esteve anos tapado por uma cobertura enorme onde se lia o número de prédios… recuperados pela CML e que hoje está pintalgado de desenhos mais ou menos abstractos, uma anedota.

Na Avenida da Liberdade, na Avenida da República, no Saldanha, na Graça, no Bairro das Colónias, em Sapadores, na cidade inteira e arredores é um formigueiro de alvenaria morto. Aqui e além ponteado por gente de passagem, sem eira nem beira, nem pé de figueira, nem muda de roupa de baixo. O rol estende-se aos arredores, eu sei. E pelo País fora. Em todo o Mundo deve haver disto. No Brasil é o que se conhece.
Mas, Lisboa, a bem ou a mal, é a minha terra, porra! Quando ainda se consegue abrir num sorriso, o que se vê é uma dentadura com muitas teclas pretas; demasiadas. Vendo bem: será caso para dentista ou para um afinador de pianos?

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

E se não desculparmos?

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Por João Duque

PORTUGAL está assim. A organização do acto eleitoral fica manchado pela incapacidade dos sistemas electrónicos funcionarem adequadamente em momento da exigência.

O planeamento desta actividade falhou. A execução da mesma foi gravemente desadequada. Não houve maneira de resolver o assunto nem forma de o mitigar. Tratou-se de um assunto menor, trivial? Não. A base da Democracia é o voto e o sistema eleitoral. Por isso, há delegados dos organismos internacionais às eleições dos países emergentes. Em qualquer país da Europa o ministro tinha pedido a demissão. Em qualquer ditadurazeca o ministro tinha sido posto no olho da rua. Em Portugal pede-se desculpa. Por cá só Jorge Coelho assumiu as responsabilidades políticas pela queda de uma ponte. Queda da ponte que não supervisionou, por uns burocratas que não mandaram vistoriar, por um sub-director geral que não sub-dirigiu, por um director geral que não dirigiu, por um Secretário de Estado que não secretariou... O assunto foi grave. Ele assumiu. Isso elevou o estatuto da política em Portugal.

2. O Ministro das Finanças apresenta a execução orçamental de 2010. Apesar de estar há 5 anos no lugar e de ser urgente tomar medidas para corte nas despesas do sector Estado, o resultado da péssima execução de 2010 é feito à custa de aumento de despesa financiada por um aumento de receita. A ideia foi simples: como dá trabalho e é impopular cortar despesa, como é difícil escolher, vai-se buscar onde "ele" está, e que é o bolso dos portugueses, sempre na ideia vã de que fazendo as coisas sob a tutela do Estado se faz melhor que no privado. Para o subsector Estado o saldo primário, o saldo corrente e o saldo global, tiveram pior desempenho que os do ano de 2009. Salvou-se o saldo dos Fundos e Serviços Autónomos à custa do célebre artifício contabilístico do Fundo de Pensões da Portugal Telecom. Viva a habilidade! O dinheiro que recebemos é receita de hoje, mas a sua contrapartida que são as pensões a pagar no futuro, são despesa dos que as pagarem! Quem vier atrás que feche a porta e apague as luzes. Aqui nem desculpas houve.

O Governo embandeirou em arco com a vitória de um défice mascarado e irreal, abaixo do prometido, e a única satisfação que me dá, no meio de tudo isto, é saber que os actuais ministros e primeiro-ministro irão ser mais tarde pensionistas de Portugal, e que assim, irão ficar com as migalhas do pão que eles próprios destruíram. É pouco o consolo, mas é algum e a prazo...

O reconhecimento do erro de más execuções sistemáticas é agora patente. O Governo acaba de aprovar o Decreto-Lei que estabelece as normas de execução do Orçamento do Estado para 2011. E aqui se reconhece como não se pode funcionar. E como só se mexe em equipa que perde, esta perdeu. Desculpe?...
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«DE» de 27 Jan 11

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

E de Alegre se fez triste a leda madrugada

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Por Pedro Barroso


E POR MAIS cinco anos, crispado Silva viverá seu esgar altivo de glória financeira mal explicada... eleito por 1/4 dos eleitores nacionais!
Percebesteis? Vamos lá a ver. Então eu explico melhor o que sinto.

A democracia vale pela expressão do voto. Claro. Que, por sua vez, reflecte um sentimento perante a conjuntura actual e a sensibilidade popular aos candidatos, suas propostas, ideias e as eventuais mudanças que signifiquem.

Nesta conjuntura, apesar das acusações que ficam por explicar – e todos aguardamos que isso aconteça...- Cavaco é legitimamente eleito, sem espinhas. Nem outra coisa eu esperava, sinceramente.
Mas as pessoas que não saíram a voto são metade dos portugueses. E trezentas mil ainda votaram branco ou nulo.

Não gosto de abstenção, nem me revejo nela; tal como duvido da eficácia politica do voto branco ou nulo.
Mas sinto que isso significa o descrédito duma classe politica que tem os mesmos protagonistas há quase 40 anos. Um cansaço.

Alegre, curiosamente tal como se sentia ab initio, foi prejudicado - na 1ª vez por não ter o PS consigo; e desta vez por ter o PS consigo.
Porque há cansaço deste PS. Autismo mesmo, face à revolta montante do povo e ao paleio cansativo dos "tais sacrifícios" eternos. Sem dar exemplo.

Alegre perde por, como eu próprio lho disse, ninguém poder querer ser e não ser ao mesmo tempo. Devia reformar-se e pronto. Cumpriu o seu papel. É um histórico, fica histórico. Ninguém lhe roubará o "canto e as armas" nem o seu lugar de qualidade na "praça da canção". Para mim, já deitara tudo a perder quando teve um milhão e cinquenta mil votos e fundou uma coisa que não era partido, nem ninguém percebeu muito bem o que fosse. Chamada MIC, ainda por cima; nome a meio caminho entre a esferográfica barata e a sempre indesejável micose.

Procurar eludir o espantástico de uma união entre o BE e o PS actual, é também uma forma de se reformar da análise politica por sério problema de dioptrias. Este PS contem em si o toque de Midas, só que ao contrário - tudo o que toque definha, empobrece e desaparece.

Nobre revelou que ser outsider compensa; mas ficou com uma vitória "moral". Vale o que vale. E a falar em público falta-lhe alma, audácia, panache, fascínio, grito, ardor, não sei... Se o homem fosse artista e tivesse à sua frente público para seduzir, o pessoal adormecia.

Ganhou humanidade e força com o andamento da campanha. No fim... estava pronto a começar. Mas é obviamente um vencedor.

O discurso-revolta tipo motorista de táxi cristaliza no Coelho. Mas atenção nele. O homem fala como o povo na rua entende; e tem muito mais valor do que aparentava. Deram-lhe o estatuto de indigente mental e acabou como um dos grandes vencedores da noite. E ganhar no Funchal ao Jardim não é para todos.

O Dr. Moura deu a descasca que se tinha proposto dar no Aníbal e nela se cumpriu. Nada mais o pareceu interessar muito e ressentiu-se disso.

Digno, discreto, omisso. Esteve lá? Valeu a pena?

O Lopes é o candidato do PC e levou 7%. Tudo normal. Viva o PCP, punho erguido, avante camaradas, e etc etc. "Fixou eleitorado, confirmou alternativa, dignificou os democratas" etc.

Já sabemos todos. Viva. Chega.

Conclusão:
Cavaco ganha bem; porque, de certo modo, não havia alternativas.

Cavaco ganha mal; porque, na realidade, perde meio milhão.

E porque nunca nenhum "já Presidente" foi reeleito por tão pouca margem.

Já agora, para ficarmos todos amigos, convinha agora que nos explicasse os 140%, a casa de luxo de cuja escritura não se lembra, e as amizades sujas que o estornicam cada vez que se mexe no BPN.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Peças do 'puzzle'

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Por Baptista-Bastos

MÁRIO SOARES foi o vencedor das eleições. A astúcia e a imaginação do velho estadista permitiram que Fernando Nobre, metáfora de uma humanidade sem ressentimento, lhe servisse às maravilhas para ajustar contas. É a maior jogada política dos últimos tempos. Um pouco maquiavélica. Mas nasce da radical satisfação que Mário Soares tem de si mesmo, e de não gostar de levar desaforo para casa. Removeu Alegre para os fojos e fez com que Cavaco deixasse de ser tema sem se transformar em problema. O algarvio regressa a Belém empurrado pelos acasos da fortuna, pelos equívocos da época, pelo cansaço generalizado dos portugueses e pelos desentendimentos das esquerdas (tomando esta definição com todas as precauções recomendáveis). Vai, também, um pouco sacudido pelo que do seu carácter foi revelado. Cavaco não possui o estofo de um Presidente, nem um estilo que o dissimulasse. Foi o pior primeiro-ministro e o mais inepto Chefe do Estado da democracia. Baço, desajeitado, inculto sem cura, preconceituoso, assaltado por pequenas vinganças e latentes ódios, ele é o representante típico de um Portugal rançoso, supersticioso e ignorante, que tarda em deixar a indolência preguiçosa. Nada fez para ser o que tem sido. Já o escrevi, e repito: foi um incidente à espera de acontecer. Na galeria de presidentes com que, até agora, fomos presenteados, apenas encontro um seu equivalente: Américo Tomás. E, como este, perigoso. Pode praticar malfeitorias? Não duvido. Sobre ser portador daqueles adornos é uma criatura desprovida de convicções, de ideologia, de grandeza e de compaixão. Recupero o lamento de Herculano: "Isto dá vontade de morrer!"
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«DN» de 24 Jan 11

domingo, 23 de janeiro de 2011

Prémios António Costa (Correcção)

Este texto, publicado no suplemento Domingo do Correio da Manhã de 23 Jan 11, tem algumas incorrecções, como se pode ver comparando-o com o texto original - [AQUI].

sábado, 22 de janeiro de 2011

Abertura fácil

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Por Antunes Ferreira

HÁ ALGEMAS em Portugal que são como os pacotes de Tetra Pak: com abertura fácil. Não se sabe ao certo se são muitas ou são poucas. Mal pareceria, num País em que não se pode acreditar em sondagens (pelo menos no entender de muitos candidatos ao que quer que seja), em que não se pode acreditar nos dados do Instituto Nacional de Estatística, em que não se pode acreditar nas previsões meteorológicas, que se soubesse a quantidade delas. Em tempo: e, ainda, em que se não pode acreditar no Governo, uma cambada de mentirosos a começar pelo chefe.

Diz-se por aí que as algemas distribuídas às forças de segurança são tão fraquinhas que há agentes que compram das fiáveis com a bolsa própria. O tema veio à cena, a propósito do episódio trágico-caricato da fuga de três perigosos traficantes de droga, que se terão livrado delas numa carrinha de transporte de presos e fugido nas barbas dos guardas prisionais que os custodiavam – e à porta da local onde iam ser interrogados: o DCIAP, sigla que quer dizer Departamento Central de Investigação e Acção Penal. Dois dos fugitivos continuam a monte. O terceiro consta que não tinha nada a ver com o assunto: limitou-se a aproveitar a deixa. Curiosa situação que, no entanto, não causa grande espanto: nesta terra bendita espera-se tudo.

No dia da singular ocorrência, terça-feira passada, o director-geral dos Serviços Prisionais Gomes, admitiu que ele próprio conseguira retirar com alguma simplicidade umas algemas semelhantes às usadas pelos suspeitos evadidos. «Estas algemas não são específicas nossas, são de todas as forças de segurança. Fiz uma experiência, consegui abri-las sem chave e não sou bandido. Isso preocupou-me. Uma das medidas a tomar será mudar este tipo de algemas». Lapidar.

Complementarmente, o referido dirigente não se coibiu de declarar no Parlamento, onde era ouvido, que as algemas não eram lá grande coisa. Não chegou, no entanto, ao não valem nada. Pudera. Mas, quem o quiser entender assim - está no seu direito. Pelo sim, pelo não, mandou fazer uma investigação completa sobre a anedota no mínimo inquietante.

Brada aos céus. Tudo parece indicar que uma vez mais, a culpa vai morrer solteira neste desgraçado torrão natal. Depois de casas roubadas, trancas à porta diz a sabedoria popular. Pelo andar das carruagens das investigações, sabe-se lá quando sairão as conclusões. Se saírem, ou seja, se as houver.

Sindicatos das polícias e afins declararam que a qualidade e a quantidade dos equipamentos entregues aos diversos agentes de todas as forças de segurança são irrisórias. Por outro lado, neste episódio de ópera bufa, o presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público (que estranha situação esta de titulares de um dos poderes do Estado serem sindicalizados), ainda que não tivesse escutado as declarações do reponsável já mencionado, estranhou o seu conteúdo. E disse que não sabia «se o director das prisões se transformou agora num instrutor de retirar algemas…»

Desde os tempos de Viriato e de Sertório, somos um caso sério. Foi o romano, depois de se passar para o lado dos lusitanos, quem escreveu numa carta para amigos na cidade do Tibre que «os lusitanos são um povo estranho: não se governam, nem se deixam governar». O mais comum dos mortais sabe disto; mas, de quando em vez, parece-me bem recordar a epístola, que até hoje retrata sucinta e concretamente o que realmente nós, os Portugueses somos. Heranças dão nisto e em muito mais.

Vivemos no domínio do surrealismo mais puro. Não vale a pena assobiar e olhar para o lado, como se tornou hábito por cá. Um episódio destes nem Franz Kafka não faria melhor. Portugal, para além de continuar a ser um caso sério, não pode ser levado a sério.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Prémios António Costa (Desenvolvimento 2)

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Local E
Saída de emergência do Centro Comercial Acqua, na Rua Oliveira Martins
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TALVEZ um dia a CML resolva desimpedir este acesso - o que deve ser fácil, até porque está a poucos metros da Assembleia Municipal.
Se isso vier a acontecer, o
1.º leitor que me enviar uma foto comprovativa receberá, como prémio, um café e um bolo no referido centro comercial.

NOTA: Outras fotos deste local - ver [aqui].

Prémios António Costa (Desenvolvimento 1)

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O condutor da carrinha cinzenta pretende aceder ao estacionamento que possui no n.º 1 da Rua Frei Amador Arrais (portão verde, a meio da foto). Como habitualmente sucede (apesar de o sinal «Art.º 50» estar bem visível), a entrada está obstruída (e duplamente!).
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Fica, então, ali parado (vê-se por detrás da carrinha branca), à espera que libertem o acesso.
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Entretanto (e devido ao estacionamento em 2ª fila - o tal que ia acabar se António Costa fosse eleito...), gera-se um gigantesco engarrafamento, que se propaga a toda a Av. de Roma.
(Vista de sul)
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(Outra vista)
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Esta foto e a seguinte mostram um cego, completamente perdido no meio do caos, perante a indiferença geral - excepto de um senhor sexagenário, que ia a passar, e que desatou aos berros «Isto é uma vergonha! Isto é uma vergonha!» (porventura passando por maluquinho).
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COMO exemplo bem elucidativo do que se denuncia na página principal dos Prémios António Costa - que se pode ver [aqui] -, esta cena decorreu nos locais referidos como B e C, ao fim da manhã do passado dia 7.
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NOTA: A 1.ª foto foi tirada dias depois das restantes 5. Mas, como a situação é recorrente (incluindo os intervenientes), aqui se afixa, para que se perceba melhor o que está em causa: o caos, a falta de civismo e a impunidade total, dia após dia, ano após ano - nada que preocupe minimamente a corja que, por acção ou omissão, é responsável por esta vergonha.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

As escolas e os números

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Por Nuno Crato

NA ÚLTIMA SEMANA assistiu-se em Lisboa a uma série de encontros sobre educação que tinham uma singularidade: quantificavam os problemas. Pode ser estranho que esse facto seja sublinhado. Mas os debates, as análises e as reflexões sobre educação são frequentemente tão manchados pelo facciosismo e pela ideologia, e têm sido tão descritivos e especulativos, que usar números para analisar o ensino é, infelizmente, uma raridade que merece ser destacada.

Eric Hanushek, um dos fundadores da Economia da Educação, uma nova disciplina que usa os métodos da análise económica e as técnicas da estatística para estudar os problemas educativos, teve oportunidade para apresentar os seus trabalhos sobre o impacto da educação no desenvolvimento económico mostrando, em particular, que as estatísticas dos diversos países não evidenciam que exista impacto do número de anos de escolaridade sobre o desenvolvimento económico. O que condiciona o desenvolvimento é, isso sim, a qualidade das aprendizagens, medida pelas comparações internacionais, e da forma que é possível, com estudos como os do PISA. Como teve oportunidade de dizer, «se os aluno se sentarem mais tempo nas aulas sem nada aprenderem, isso não tem qualquer efeito na evolução de um país». Parece óbvio. É um «no-brainer», como dizem os americanos, algo que não precisa de grande esforço para compreender. Mas é algo que, para ser evidenciado com base nos dados, precisa de instrumentos estatísticos que separem as variáveis e evidenciem a correlação existente entre a qualidade da aprendizagem e o desenvolvimento.

Os estudos de Hanushek e de outros economistas dão-nos ideia da magnitude da importância da educação, mas não explicam como pode o ensino melhorar. Outros, como o estatístico William Schmidt, que também esteve em Lisboa pretendem entrar dentro dessa «caixa preta», isto é, ver o mecanismo educativo e investigar o que funciona e o que não funciona.

Uma das conclusões quase unânimes destes estudos quantitativos é a importância da escola e o papel que ela pode desempenhar, para além das condicionantes sociais, para melhorar o ensino. Ao contrário de uma visão fatalista, que imagina que contrariar as limitações dos filhos das classes mais desfavorecidas é uma violentação da sua cultura própria e que pensa que ser-se exigente com todos condena os menos favorecidos ao fracasso, vários estudos apresentados no fim de semana passado num encontro no ISEG mostram que as escolas que são mais exigentes são, pelo contrário, as que mais favorecem os oriundos de classes mais desfavorecidas. Outros estudos europeus apresentados no mesmo encontro desmontaram outro mito, o da impossibilidade de tratar com igual exigência os filhos dos nacionais e os filhos dos emigrantes.

O citado William Schmidt destacou dois factores que condicionam a qualidade do ensino: o currículo e a qualidade dos professores. Um currículo deve ser coerente, progredir de forma sistemática e não ao sabor de problemas, actividades exploratórias ou aplicações — é o que conclui de um estudo estatístico sobre as características dos currículos escolares dos países com mais sucesso. E os professores devem ser seleccionados sobretudo com base no seu conhecimento das matérias que ensinam e não dos seus estudos de pedagogia — é outra conclusão que retira da mesma comparação internacional. Vale a pena ouvir o que nos dizem os dados.
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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 15 Jan 11

Nevoeiro

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Por João Paulo Guerra

“Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
define com perfil e ser
este fulgor baço da terra
que é Portugal a entristecer,
brilho sem luz e sem arder,
como o que o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...
É a Hora!"


AS MANHÃS de nevoeiro que se abateram sobre parte de Portugal nos últimos dias são propícias a que se evoquem profecias e se alimentem ânsias como a do regresso de D. Sebastião. Não é que os portugueses se dediquem propriamente a ler, analisar e discutir a Mensagem, os mitos pessoanos. Não é nada contra o autor da Mensagem, excelente Pessoa. Os portugueses também não se dedicam propriamente ao estudo da retórica de Vieira, como não percorrem a terra Mátria de Natália, nem sequer se procuram identificar nas Profecias do Bandarra. Excluindo alguns marginais letrados que teimam em ler, pensar, expor ideias, construir teorias, idealizar e partilhar beleza, a actividade intelectual dos portugueses não vai além da Taprobana. Aqui para nós, talvez não chegue mesmo a Cacilhas.

Mas estes nevoeiros, a envolver esta crise e a emoldurar uma melancólica campanha eleitoral, sugerem figuras de Encobertos que - quem sabe? - talvez tenham na mão, ou pelo menos na ideia, a chave do nosso futuro. Ora observando a vida política actual do Portugal do nevoeiro e dos fogos-fátuos - que emanam do metano dos pântanos - dá ideia que alguns ínclitos portugueses já encontraram para lá do nevoeiro o respectivo D. Sebastião. Chama-se FMI. Que, como o outro e como dizia Pessoa, talvez venha ou não.
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«DE» de 17 Jan 11

domingo, 16 de janeiro de 2011

«Dito & Feito»

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Por José António Lima

COMPARADA com a original candidatura de 2005, insubmissa e contra a corrente, esta reincidência presidencial de Manuel Alegre apareceu como um remake sem grande imaginação, tolhido pelos compromissos das amarras partidárias e enredado nas insanáveis contradições político-ideológicas entre os seus dois alicerces oficiais, o PS e o Bloco de Esquerda.


E se o caminho presidencial já era estreito e apertado, a crise em que o país mergulhou, os PEC uns atrás dos outros e as medidas de austeridade do Governo tornaram a campanha de Alegre virtualmente impossível. O candidato ficou sem linha de orientação, hipotecou a coerência do discurso, abandonou qualquer estratégia. Apoia a greve geral? Nem sim, nem não. Votaria o OE para 2011? Nem a favor, nem contra. Concorda com o corte de salários dos funcionários públicos? Não, mas eram talvez inevitáveis. E com a redução das pensões e apoios sociais? Há o Estado Social, mas também há a necessidade do Governo...

Foi neste estado, sem ânimo nem discurso político sustentável, que Manuel Alegre chegou ao debate com Cavaco Silva. No qual foi rápida e repetidamente encostado às cordas, como se esperava. Aí abandonando qualquer esperança, se é que ainda existia, de poder forçar uma segunda volta.

É por isso - pela falta de outras armas ou argumentos - que as pequenas baixezas políticas vieram ocupar o espaço da campanha: como as tendas alugadas do 10 de Junho, a fadista a contratar, as escutas inventadas ou a venda de acções do BPN (esquecendo-se, ao mesmo tempo, a colaboração de Alegre em anúncios do BPP).

É por isso e porque ao Governo de José Sócrates interessa, no problemático e perigoso ano político de 2011, que Cavaco Silva saia o mais debilitado possível da sua inevitável reeleição. E com a menor força política para os confrontos que se avizinham com o Governo. Daí a incessante campanha sobre as acções do BPN a encher páginas de jornais. Vale tudo. E quando o desespero aumenta, vale mesmo tudo.

P.S. - Eduardo Azevedo Soares foi um militar seduzido pela política, que analisava com prazer e recusando a superficialidade. Discreto e encantador no trato, era firme nos valores e sólido nos princípios, intransigente perante o populismo e o oportunismo na vida política. Foi sempre uma companhia estimulante, um cidadão íntegro e civicamente empenhado. Como poucos.
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«SOL» de 14 Jan 11

sábado, 15 de janeiro de 2011

E o Magrebe aqui mais perto

Por Ferreira Fernandes

MAGREBE em árabe quer dizer "Ocidente" e isto não é uma aula de etimologia - quer dizer que o Magrebe (a região onde fica a Tunísia) é aqui mesmo ao lado. A geografia não muda, foi sempre assim. Mas a política muda: ontem, o Presidente tunisino, Ben Ali, ditador durante 23 anos, fugiu. E isso como que tornou a vizinhança do Magrebe com a Europa não só mais próxima como mais perigosa.
Quando a Europa ocupava o que pensava ser do seu interesse, a França colonizou ou fez protectorado esse Magrebe: Tunísia, Argélia e Marrocos. Depois, vieram as independências, a Tunísia tornou-se o mais laico dos estados árabes, a Argélia construiu-se com as forças armadas como coluna vertebral e Marrocos uniu-se à volta da sua monarquia.
Nos tempos mais recentes, quando começaram a soprar os ventos islâmicos radicais, os três países do Magrebe resistiram a eles com os seus esteios: o exército argelino, o rei marroquino e os costumes liberais tunisinos. Mas nenhum dos três países se tornou democrático, nem deu aos seus jovens outro futuro que não fosse emigrarem para essa Europa próxima. Os ventos fundamentalistas continuaram a soprar. Agora, com a fuga de Ben Ali, a Europa pode regozijar-se com o fim de uma ditadura, mas seria também prudente saber que perdeu um tampão para a hipótese de outra ditadura mais grave: como qualquer radicalismo, o islâmico gosta do vazio de poder.
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«DN» de 15 Jan 11

A ilha do Tesouro

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Por João Duque

O ESTADO emitiu pelo menos 5000 milhões de euros em dívida pública que é detida pelo próprio Estado! O Estado a dever a si próprio!

Terra à vista, capitão!

E avistada a prometida guarida costeira, mandou o nosso capitão, o terror dos mares meridionais, fundear a nau e aparelhar a escuna com 15 homens que com ele foram em expedição a terra seca.

E chegados a terra, foi o capitão orientado pelo mapa em pele de índio pintado, alcançando o almejado local onde antes o escondeu. Deitaram mãos ao labor os mais fortes da marinhagem. A expectativa crescia pois as enxadas, que a terra atacavam, nada traziam, nem deixavam adivinhar sortes melhores que as de uma toca maninha. Onde estaria o Tesouro? Tê-lo-iam roubado? Estaríamos a escavar em descuidado lugar?

Fizeram saber que 18 gestores públicos, não acatando as ordens do Ministério das Finanças, terão aplicado 315 milhões de euros fora do Tesouro. Isto é, o tesouro das empresas fora 'escondido' fora do Tesouro da fazenda nacional.

A ideia do Ministério das Finanças é óbvia: concentrar toda a tesouraria e disponibilidades de todas as instituições públicas para assim evitar que o Estado se endivide mais. Para quê pedir dinheiro emprestado pagando juros elevados para financiar uns se há outros com excesso de tesouraria que o aplicam a taxas mais baixas? Quem ganha com a intermediação? Os intermediários. Quem perde com a intermediação? O Estado.

Os gestores públicos defenderam-se argumentando que nem sempre o cofre da fazenda pública permite o tipo de operações que eles desejam: contratos de fixação de taxas de juro a prazo, credit default swaps, forwards cambiais, opções sobre matérias-primas ou produtos energéticos, etc. Esses depósitos podem então ser vistos como um custo implícito destas empresas para acederem a produtos financeiros de que necessitam e que os concorrentes usam.

Nesta incessante e fundamental busca pelo corte de custos, algo me escapa com muito maior dimensão. É sabido que o Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social terá um património aproximado de 9,5 mil milhões de euros. Também se sabe que, por regulamento, mais de 50% deste património têm de estar aplicados em títulos representativos de dívida pública portuguesa ou outros garantidos pelo Estado português. E é aqui que o caso parece bizarro pois o Estado emitiu pelo menos 5000 milhões de euros em dívida pública que é detida pelo próprio Estado! O Estado a dever a si próprio!

E para quê? Para fazer face a oscilações do orçamento da Segurança Social (Estado), dizem. Mas se para poder responder a compromissos assumidos tem de vender o que tem em carteira (dívida pública nacional) como é que isso difere da emissão de nova dívida? Se não houver quem compre no mercado primário acham que alguém lhe pega no mercado secundário em caso de necessidade?

E já nem falo na bizarria dos juros pagos pelo Estado ao dito Fundo do Estado!

Se procuram formas de eliminar dívida abatam esta de imediato ou então, o que seria muito mais sensato, troquem-na por outra. Mas não se esqueçam de que em tal caso estamos a endividar-nos para financiar terceiros...

Jack Sparrow, o pirata das Caraíbas, está feliz: encontrou o Tesouro cheio de títulos da sua própria dívida!
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«Expresso» de 8 Jan 11

Em tempo de guerras

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Por Antunes Ferreira

RAIO DE PAÍS este que nos caiu em sorte. Há piores, pois há. Mas, com o mal dos outros podemos nós bem, diz o povo com carradas de razão. Em termos comparativos, há que reconhecer que não somos o exemplo do descalabro que outros são, mas lá que andamos muito próximo dele, isso andamos.

No decurso da batalha de Inglaterra, Winston Churchill, respondendo aos trabalhistas sobre a gravidade dos bombardeamentos que a Luftwafe fazia sobre as cidades britânicas, afirmou que também a Royal Air Force, em retaliação, despejava milhares de quilos de explosivos nas urbes alemãs. Clement Atlee, o líder da oposição replicou então que o mal dos outros não evitava o mal dos ingleses. Ou seja, uma espécie de déjà vu ou vira-o-disco-e-toca-o-mesmo.

Nesta altura, em Portugal, temos quotidianamente notícias da campanha eleitoral para a Presidência da República que seguem o mesmo princípio. Todos os candidatos transformaram a competição num arraial de folclore descabido, sem varapaus, mas com muitas acusações pessoais.

É certo que o Presidente da República é um órgão unipessoal do Estado, aliás o único. O equilíbrio constitucional que se tenta manter no nosso País é instável q.b. Do que decorre destes dias é uma suspeição preocupante: estamos na corda bamba. O que, em tempo de crise, a maior que atravessamos pelo menos desde o 25 de Abril, deveria estar a preocupar-nos muito pesadamente.

Mas, não. O tema mais importante da actualidade é o assassinato do colunista social Carlos Castro. Têm-se publicado verdadeiros himalaias de asneiradas. O modelo Renato Seabra, presumido criminoso, é apoiado em sites por grupos de fãs caritativos e inconformados com o procedimento das autoridades nova-iorquinas. O rapaz até era um sujeito exemplar, amigo do seu amigo, filho esmerado, namoradeiro.

Mas tudo indica que matou barbaramente, mutilou, torturou Castro, dizem também que depois deste ter sucumbido ao ataque inconcebível de Seabra. A culpa desloca-se assim do assassino para o assassinado. O alegado jornalista, provocador e praticante exímio do assédio homossexual, foi, para estes beneméritos, quem esteve na base da sua eliminação. Portanto, avance-se com o coro homofóbico.

O que me parece é que não sabemos para onde nos devemos virar. Se para o Presidente/candidato - que afirma convictamente que é preciso que alguém nasça duas vezes para ser mais honesto do que ele - a reincarnação é assim um facto incontroverso, para o comum dos cidadãos, o coração deles balança entre Carlos e Renato. São duas telenovelas, ao fim e ao cabo. Ambas mais ou menos negras.

E o curioso é que se tenha sabido ontem mesmo que o jovem fora escolhido para ser mandatário da juventude em Cantanhede de… Aníbal Cavaco Silva

Com tudo isto, o enfarte agudo de Alberto João Jardim, tudo indica que a caminho da recuperação, limitou-se a ser uns quase peanuts. O patrão da Madeira devia ter direito a mais e melhor acompanhamento mediático. Mas, em tempo de guerras não se limpam armas.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Promiscuidade

Por João Paulo Guerra

TENHO na minha sobrelotada estante, nas prateleiras ocupadas com obras sobre o Portugal que passou à história, um pequeno opúsculo da autoria do dr. Raul Rego, “Os políticos e o poder económico”, com data de 1969, no qual o velho republicano, socialista e ‘maçon’ recenseia e desanca a promiscuidade no trânsito entre as cadeiras do poder e os cadeirões dos conselhos de administração.

O impresso do dr. Rego diz respeito aos últimos anos do auto-denominado Estado Novo, também chamado fascismo.

Ontem, ao ler no Diário de Notícias que 40 ministros e secretários de Estado saíram directamente da política para cargos em grandes empresas fui levado a comparar a situação arrolada pelo dr. Raul Rego com a actual, em democracia. E de facto a única diferença é a democracia: o opúsculo de Raul Rego saiu em edição de autor para uma "campanha eleitoral" e recolheu logo após aos subterrâneos da liberdade de expressão, enquanto a denúncia do Diário de Notícias vem escarrapachada num jornal de referência que quem quiser pode consultar, analisar e tirar conclusões. De resto, a maxarufada é a mesma, independentemente dos tempos e dos regimes. Um considerável número de políticos metem a mão na massa da coisa pública a pensar no futuro da respectiva vidinha. E a assegurar, sabe-se lá a que preço e sob que condições, um lugar ao sol de um conselho de administração deste grupo ou daquela empresa.

O dr. Raul Rego ainda viveu quase três décadas em democracia e não se sabe se a saúde e a idade lhe permitiram entender que caminhos tortuosos e perversos seguia a democracia pela qual lutou tantos anos. Certo é que o seu opúsculo de 1969 nos revela hoje que em matéria de promiscuidade, através dos tempos, só as moscas é que variam.
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«DE» de 14 Jan 11

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Safámo-nos! (por enquanto…)

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Por João Duque

O LEILÃO DE ONTEM promovido pela república portuguesa acabou com um final feliz. Não tanto em termos de taxa de custo do dinheiro, mas mais em termos de procura insatisfeita.

Isto mesmo depois de ontem terem sido reveladas as estimativas do Banco de Portugal (BdP) sobre a evolução da economia portuguesa para 2011 e 2012.

E, nessas previsões, o que muda face às últimas que foram libertadas sobre Portugal, isto é, as do Governo?

Em primeiro lugar "o grande número": enquanto o Governo afirmava na publicação do orçamento, e com entusiasmo, uma subida de 0,2% do PIB (eu acho que ficaríamos mais felizes se tivessem anunciado 0,24% o que não mudava grande coisa, mas dava mais alento por estar mais próximo de 0,25% e assim mais próximo de 0,3%, o que já era uma variação de 50% face ao previsto...) o Banco de Portugal vem agora anunciar uma desgraça, isto é, uma recessão com queda do PIB na ordem dos -1,3%.

Em segundo lugar há diferenças (justificadas) nas previsões dos diferentes componentes do Produto.

Para o consumo privado o BdP prevê uma quebra de 2,7% em resultado das medidas restritivas impostas pelo novo Orçamento do Estado, enquanto o Governo estimava apenas uma insignificante descida de 0,5% como se o aumento dos impostos e redução de salários fosse irrelevante... Para o investimento o BdP estima uma quebra de 6,8% enquanto o governo antecipava apenas uma descida de 2,7%. Para as exportações o BdP apenas antecipa uma subida de 5,9% quando o Governo aguarda uma subida de 7,3%. No diferencial entre as exportações e importações o BdP estima 7,8% o Governo delirava com uns expressivos 9%...

Afinal, nesta panóplia de expectativas, apenas para o consumo público se espera uma descida mais acentuada no Governo do que nas previsões do BdP. E isto é realmente bizarro... Se o Governo se compromete a cortar seriamente no consumo público, prevendo em Outubro uma descida de 8,8%, então como entender que o BdP venha agora declarar que só antecipa uma quebra de 4,6%? Significa isso que o BdP não aceita a capacidade e empenhamento do Governo na execução orçamental, ou que o modelo de estimação do Governo neste aspecto não vale um caracol?

Ora, a acreditar na vontade do Governo (mesmo que forçada) para reduzir o consumo público, e se introduzirmos no modelo a sua estimativa, então a minha previsão para quebra do PIB passa logo para -2,1%. E se formos menos optimistas quanto à capacidade de substituição de importações ou do efeito da queda da procura interna nessas importações, a somar ao efeito da quebra do consumo público apontado, então estamos já a falar de quebra do PIB na ordem dos 3,1%.

Isto é, quando ouvi "o grande número" de quebra estimada pelo BdP para o PIB para 2011 o que me passou pela cabeça foi: "Só?" É que já no DE no Outlook para 2011 apontei um número para a queda do PIB: nunca inferior a 1,8%.

Grandes conclusões:

1) atenção, rapaziada da passa, se querem LSD de qualidade experimentem os passadores da zona da Estação de Sul e Sueste;

2) Carlos Costa, quando sair do Banco de Portugal terá de procurar emprego noutro lado se o Partido Socialista ainda estiver no poder...
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«DE» de 15 Jan 11

Previsão

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Por João Paulo Guerra

DESDE A CRÓNICA de 1 de Outubro passado, a respeito do PEC III, que escrevo nesta coluna que a austeridade, tal como é pensada e posta em prática pelo Governo, arrastará inevitavelmente o país para a recessão económica, com todas as suas consequências.

E nem sequer estou a gabar-me de qualquer modalidade de presciência. A crónica de 1 de Outubro citava o vaticínio da Ernst & Young sobre o perigo de nova recessão, considerando errado que "a solução em que o Estado pensa sistematicamente" seja a de pedir aos contribuintes que "paguem as suas ineficiências".

Três meses volvidos, vem o Banco de Portugal prever que a austeridade, agravada entretanto para extremos inimagináveis do PEC III para o Orçamento de Estado, irá provocar a maior quebra de sempre do consumo privado em Portugal. E, como se está mesmo a ver, da previsão da queda do consumo privado no abismo à previsão da recessão económica vão só alguns parágrafos no relatório do Banco central. Portanto, só não vê quem não quer ver que são, como se sabe, os piores dos cegos.

O objectivo da austeridade em curso é precisamente a derrocada do consumo privado. O Governo entende que Portugal e os portugueses não merecem mais que o rótulo de um dos países mais pelintras da Europa. As consequências serão a diminuição brutal do nível de vida do comum dos portugueses, falências em cadeia de sectores da produção e comércio, ainda mais desemprego.

Andamos nisto há três décadas, pela mão dos partidos do costume: recessão austeridade, austeridade recessão. A única diferença é que o actual Governo, e os que viabilizam e promulgam as suas políticas, decidiram que desta vez seria muito mais doloroso e até mesmo fatal. Garrett interrogar-se-ia: quantos ricos vão engordar em Portugal à custa de tantos pobres?
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«DE» de 13 Jan 11

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Éramos todos tão novos...

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Por Baptista-Bastos

VÍTOR ALVES foi embora deixando a pátria numa situação que ele não desejava. Gostava muito deste homem sereno, culto, generoso, cordial a afável, que jogara, no regueirão de todos os perigos, a sorte pessoal e o desígnio colectivo. Ele e outros como ele são credores da minha maior gratidão. Ele e outros como ele resgataram os silêncios impostos e os medos compulsivos da minha geração e os das anteriores. O risco que Vítor Alves correu foi soberano entre os demais: o da vida, o da carreira, o da família.

Os jovens capitães de Abril possuem uma dimensão de coragem adveniente da espessura comovente do seu humanismo. Há qualquer coisa de épico e de poético na arrancada militar desse dia tão longínquo, tão próximo e tão delido no tempo e no esquecimento dos nossos desleixos. "O dia inicial inteiro e limpo", como lindamente lhe chamou Sophia, era o dia esperado pelos melhores de nós. E os melhores de nós desanimavam de o conhecer quando um grupo de homens muito novos nos convidou a ressurgir.

Às vezes, ia conversá-lo no seu gabinete. Os dias eram incertos, mas os sonhos nada tinham de indecisos. Ele transportava consigo uma cultura transeunte e uma bonomia que jamais ocultou as preocupações nascidas dos grandes embates ideológicos. Também bebíamos o uísque da amizade no João Sebastião Bar, reduto privilegiado de todos os imprevistos. Mais tarde, Álvaro Guerra, embaixador, escritor e jornalista, reunia, em almoços prolongados, nas casas de Mafra ou de Vila Franca de Xira, um grupo imponderável de amigos, em diálogos já perfumados de passado e de esperanças partidas. E era reconfortante ouvir este homem, apesar de tudo jovial e sorridente, a rematar os desalentos com uma frase benfazeja: "Mas as coisas estão muito melhores do que eram." A juventude já se fora; éramos uns senhores portugueses de cabelos brancos a quem a sabedoria do tempo ensinara a falar escasso para se dizer muito.

Queríamos mais do que havíamos obtido, porque sabíamos o que a "recuperação" consigo arrastava. A responsabilidade não deve ser dissimulada. Fomos nós todos que fizemos "isto". Víamo-nos mais espaçadamente. Mandava-lhe os meus livros, dirigia-me cartas generosas, calorosas e fraternas. Disse-me, há anos, que estava com problemas de saúde. Vasco Lourenço revelou-me a gravidade desses problemas. Estavam a ir alguns daqueles que eu mais respeitava; alguns daqueles, agora transfigurados em memórias e em penumbras, que tinham dado consistência à História.

Nada do que foi voltará a ser. Mas estar é, já em si, o bastante. Observo, na gelada noite da igreja do Paço da Rainha, os capitães de Abril, que se curvam ante o esquife do camarada de armas. Tínhamos todos a mesma idade.
Adeus.
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«DN» de 12 Jan 11

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Alimentos

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Por João Paulo Guerra

PORTUGAL e os portugueses, sugados pelos credores e esmifrados pelo Estado, têm ainda no horizonte a ameaça de uma nova crise alimentar.

É que os preços das matérias-primas alimentares estão a disparar nos mercados internacionais e Portugal passou a ser um país indigente sem produção própria de quase nada daquilo que come. Um trabalho do jornal Público revelava ontem os défices e fragilidades da balança alimentar do país.

A questão é que, olhando os indicadores dos textos do Público, os portugueses são necessariamente induzidos a reflectir - os que ainda reflectem - sobre o destino trágico deste país que transitou das hortas e dos latifúndios salazaristas para a destruição da agricultura e pescas: Portugal importa mais de 60 por cento da carne e dos cereais que consome, deixou de produzir açúcar, o olival é em grande parte espanhol, todos os dias abate mais unidades de pesca.

Em parte, esta política alimentar tem sido ditada pela Europa e pelos interesses dos gigantes europeus da produção agrícola. Mas a Europa não veio a Portugal arrancar culturas nem varar barcos de pesca na areia das praias. Isso foi obra de sucessivos governos de Portugal que até criaram algumas castas de "agricultores" de subsídios, que enriqueceram a arrancar culturas ou, eventualmente, a nem sequer as plantarem. Como se conta - talvez como anedota - que em França um espertalhão se inscreveu como candidato a subsídios para não criar porcos e, já agora, para ser ressarcido pela perda de rações que os porcos não criados não iriam consumir.

Décadas de políticas de liquidação da independência do país não poderiam ter outros efeitos. Mas eles aí estão, os agentes dessas políticas ruinosas, nos cadeirões do poder ou inscritos na dança das cadeiras para a valsa seguinte.
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«DE» de 11 Jan 11

Amigo de Sócrates

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Por Nuno Crato

QUANDO SE QUER separar conhaque de negócio ou falar honestamente sem com isso comprometer uma amizade, costuma dizer-se que se é amigo de Sócrates, mas mais amigo ainda da verdade. É um grande dito, que deveria ser tão aplicado como afirmado.

Tal como muitos dos grandes aforismos, a sua origem é obscura. Discute-se se a verdadeira frase, a original, não terá o nome de Platão em vez do de Sócrates. De facto, se recuarmos a 1615, lemos na segunda parte de «D. Quixote», numa carta do cavaleiro dirigida ao seu escudeiro Pança (2-LI), que, «conforme a lo que suele decirse: ‘amicus Plato, sed magis amica veritas’» («conforme é hábito dizer-se, ‘sou amigo de Platão, mas mais amigo da verdade’»). Se recuarmos um século atrás, vemos que, em 1515, Martinho Lutero não conseguia escolher de entre os dois filósofos — na sua obra «De servo arbítrio» escreveu «Amicus Plato, amicus Socrates, sed praehonoranda veritas» («Sou amigo de Platão, amigo de Sócrates, mas mais honrada deve ser a verdade»).

Isaac Newton, no seu caderno de estudante em Cambridge, por ele usado posteriormente para anotações filosóficas, introduz ainda outro filósofo. Em 1664, ou pouco depois, no topo da primeira página do caderno escreve «Amicus Plato amicus Aristoteles magis amica veritas».

Na tentativa de descobrir o dito original pode recuar-se a Platão. Na «República», o filósofo escreve que Sócrates afirmara que «um homem não deve ser mais reverenciado que a verdade». E em «Fédon» exorta a «que pensem na verdade e não em Sócrates».

A lista podia continuar. Alguns eruditos, tais como Henry Guerlac e Leonardo Tarán, escreveram artigos em que discutem longamente as diversas versões desta frase famosa. É interessante que os filósofos de ciência apareçam repetidamente a usá-la, numa ou noutra forma. Francis Bacon é quem a apresenta na maneira mais conhecida. Na sua «Opus majus» (I, vii) afirma que Platão dissera «Sou amigo de Sócrates, mas mais amigo da verdade.»

Em ciência, sobretudo nas chamadas ciências exactas, a ideia central deste dito é praticada todos os dias e todas as horas. Não há matemáticos anti-Gauss nem pró-Pitágoras, tal como não há físicos anti-newtonianos ou pró-Feynman. O alinhamento por perspectivas ou métodos de análise é algo de estranho. Usa-se o que funciona e tenta-se respeitar a verdade. Evitam-se as referências pessoais.

Quando viram o título desta crónica, alguns leitores poderão ter pensado que se tratava de uma alusão a um outro Sócrates. Desiludiram-se. Aqui não há aqui nenhuma mensagem escondida, embora as ambiguidades possam ser engraçadas. É o que aconteceu num episódio passado há mais de 50 anos no Instituto Superior Técnico e que os alunos do matemático Mira Fernandes gostam de contar. Reza assim:

Tinha o famoso professor dado instruções aos estudantes para chegarem a horas ao exame e advertido que não admitiria retardatários. Chegado o dia, deixou entrar os alunos e fechou a porta. Distribuiu os enunciados e sentou-se calmamente, esperando. A primeira meia hora passou e alguém bateu à porta. Visivelmente incomodado, Mira Fernandes perguntou «Quem é?». A resposta ouviu-se do outro lado, abafada, «É um aluno». O professor irritou-se e perguntou «Quem?». Do outro lado, a voz respondeu, ainda mais baixo, «Sócrates». A turma riu-se e o professor abriu a porta dizendo «Sendo assim, faça favor de entrar».
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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 8 Jan 11

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Poeta romano contra barbudos

Por Ferreira Fernandes

NO DIA 4 de Janeiro, Salmaan Taseer, o governador do Punjab, a província mais populosa do Paquistão, foi morto com 27 balas disparadas por um polícia que o protegia. Ontem, Sherhbano Taseer escreveu no New York Times sobre o seu pai: um homem dedicado ao Paquistão tal como este foi fundado por Muhammad Ali Jinnah, em 1947 - um estado secular. Hoje o Paquistão é um Estado minado por terroristas islâmicos como Mumtaz Qadri, o polícia assassino. Mas o fundador Jinnah quis um país em que todos os cidadãos frequentassem os templos ou as mesquitas, ou nenhum, como quisessem. Jinnah foi o primeiro advogado em Londres originário da península indiana e da Inglaterra adoptou convictamente a democracia. Apesar de mumificado num mausoléu e considerado o Pai da Nação, as ideias de Jinnah já não têm muitos adeptos no Paquistão actual. Por isso a sentença estava lavrada contra o seu seguidor, o governador do Punjab que visitava as minorias religiosas quando eram vítimas dos ataques dos fundamentalistas. Por isso o polícia assassino foi recebido com beijos quando chegou ao tribunal. No texto sobre o seu pai, Sherhbano Taseer cita Juvenal: "Quem guardará os próprios guardas?" Citar um poeta latino de há dois mil anos no Paquistão de 2011 não é só uma demonstração de cultura. É uma bela provocação: é afirmação de que o mundo é mais vasto do que querem os barbudos ignorantes.
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«DN» de 10 Jan 11

Passatempo Pedro Barroso - «Os Jeitosos» - Solução

Pág. 91
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Actualização (12h24m): o passatempo foi ganho por «lilia_torres_amb», com erro de 4 páginas. Tem agora 24h para escrever para medina.ribeiro@gmail.com indicando morada para envio do livro.

sábado, 8 de janeiro de 2011

O financiamento dos partidos

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Por Antunes Ferreira

AS LEIS DO FINANCIAMENTO dos partidos são sempre motivo de controvérsia, com os contras muito superiores aos prós, o que é absolutamente natural. Os primeiros fazem parte das oposições; os segundos são os seus autores, ou seja os governos. É matéria em que as abstenções não contam, pois uns, ainda que dizendo mal, estão à espera dos financiamentos; os outros produziram aquilo que lhes traz mais benefícios e mais rapidamente.

Recebi há dias um mail que me pareceu de tal modo significativo e bem humorado, o que não é normal na crise, que não resisto a fazer sobre ele esta crónica. Não posso citar o autor, porque não constava da mensagem. Nestes preparos nunca ninguém os assina, partindo do princípio de que a voz do Povo é a voz de Deus. Assim fosse.

Em plena discussão, uma televisão decide fazer um inquérito/reportagem de rua. E fá-lo em directo, o que é sempre uma aventura, pois não pode fazer-se depois a montagem mais conveniente. Mas, dizia um programa dos idos que «o perigo é a minha profissão»; os riscos correm-se e o resto é conversa.

Um cidadão com todo o aspecto de ser um denodado cumpridor das suas obrigações fiscais e de outras está sentado à mesa de um café, tomando a quantidade quotidiana de cafeína que lhe apetece e a que se julga ter direito. Note-se que ainda não há balão para o grau de rubiácea no sangue, daí a tranquilidade do sujeito.

Microfone em punho, aproxima-se o jornalista acompanhado do operador de câmara. O visado repara de imediato que vai sair na televisão e arma um sorriso um tanto alvar na face mal escanhoada. À volta, os mirones tentam passar por trás do fulano, na esperança de igualmente passarem na televisão, sendo que alguns dão-se ao cuidado de fazer adeus para a família que talvez esteja na frente do ecrã.

Mau amigo, estamos em directo para a TV Xis e queremos fazer-lhe umas perguntas, coisas simples, de resto. Concorda? Claro que concorda, oportunidade daquelas não surge todos os dias, há que aproveitá-la. Então, a primeira é… O pessoal emudece, o que será ela?

Se tivesse dez milhões de euros, dariam cinco milhões para o seu partido? Certíssimo, não tenha dúvidas. O repórter sorri, o povo também, os empregados de mesa que se foram chegando igualmente. E se tivesse dois Rolls Royce daria um para o seu partido?

Era tiro e queda, claro que sim. As convicções partidárias do homem são grandes. E se tivesse duas mansões de cinco milhões cada, era capaz de oferecer uma ao seu partido? Nem hesita. Absolutamente, teria o maior prazer nisso.

A última, agradecendo-lhe desde já a sua atenção e a sua disponibilidade. E se tivesse dois frangos, entregaria um deles ao seu partido? Nem pensar; nem pó!

Caro amigo, porquê a negativa, depois de tantos sins? Ora essa: os dois frangos são meus. Tenho-os.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Oposição

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Por João Paulo Guerra

UM DIA DESTES dei por mim a tropeçar numa frase na leitura de uma notícia de jornal. Dizia assim: "os partidos da oposição, com excepção do PSD...". Mas espera... O PSD é da oposição? O caso concreto era que a oposição de esquerda, Bloco e PCP, e de direita, CDS, queria saber as razões da mudança nos métodos da Estatística numa altura em que se espera aumento do desemprego. O PSD não queria saber coisa alguma, nem a respeito de estatísticas, como em relação ao que for que o Governo decida. A verdade é que o Governo decide, o PSD aprova e o chefe de Estado promulga. O barco da governação tem uma tripulação tripartida e só não se sabe ao certo quem será o verdadeiro homem do leme.

Quanto ao PSD, depois das farroncas com que a direcção assumiu funções - rever a Constituição, acabar com a justa causa para despedimentos, ameaças de chumbo do Orçamento - reviu em baixa as expectativas e amodorrou-se à lareira do poder: acordou com o Governo o aumento de impostos, liquidou o inquérito da Comissão Parlamentar ao caso PT/TVI, opôs-se à greve geral, deixou passar o Orçamento, etc., etc.

De maneira que se isto fosse oposição, não haveria razões para o Governo do PS ter outras preocupações. A menos que o estatuto de oposição do PSD siga a estrelinha de Belém. Com efeito, o PSD acomodou de algum modo a sua agenda à estratégia de Belém, dando o sim do PSD ao Orçamento do PS mesmo em cima do acontecimento da apresentação da recandidatura de Cavaco Silva. E, deixando para o PS o ónus do trabalho sujo, este PSD ou outro poderá aspirar a constituir uma alternativa de poder executivo pós-presidenciais.

Seja como for, no presente o PSD é uma oposição na gaveta, sendo que todas as malfeitorias do poder têm o seu voto e a sua impressão digital.
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«DE» de 7 Jan 11

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

6.º aniversário do 'Sorumbático' - Solução

2180 gramas
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FOI decidido premiar todos os leitores que tenham dado palpites com erros inferiores a 1000 gramas. Esses deverão escrever, nas próximas 24h, para medina.ribeiro@gmail.com, indicando morada para envio do prémio, que poderão escolher entre os indicados [aqui]. Em "assunto" deverão escrever "Passatempo do 6.º aniversário" e proceder da seguinte forma:

O 1.º classificado poderá escolher o livro que preferir.
O 2.º classificado deverá indicar 2, por ordem decrescente de preferência.
O 3.º classificado deverá indicar 3, por ordem decrescente de preferência.
E assim sucessivamente.
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RESULTADO

Os nomes dos vencedores (e os títulos livros que vão sendo atribuídos à medida que as suas respostas vão chegando) são :

1.º - R. da Cunha-erro de 185g [confirmado: «Justiça Fiscal»]
2.º - Luis Bonito-erro de 305g [confirmado: «Cão velho entre flores»]
3.º - Mg-erro de 387g [confirmado: «Diz que é uma espécie de democracia»]
4.º - Eliseu-erro de 520g
[confirmado: «Crónicas da InforFobia»]
5.º - Humaneasy-erro de 620g [confirmado: «Operação JEREMIAS»]
6.º - Paulo Costa-erro de 666g [confirmado: «Diz que é uma espécie de democracia»]
7.º - Luiz-erro de 695g [confirmado: «O Bruxo de Ceide»]
8.º - Moralitos-erro de 770g [confirmado:«...Assim Acontece-Na rádio»]
9.º - Fátima André-erro de 820g [confirmado: Chocolate]
10.º - Al-erro de 895g [confirmado: «Crónicas da InforFobia»]
11.º - McManager-erro de 915g [74 horas depois de expirado o prazo para reclamar o prémio, ainda não o tinha feito ficando, pois, excluído]
12.º - Ramiro-erro de 970g [idem]
13.º - Ribas - erro de 970 g [confirmado: «Jeremias dá uma mãozinha»]
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Os vencedores que se tenham identificado com nicknames deverão, também, referi-los.
Os que, eventualmente, não respondam dentro das 24h estipuladas terão mais 24h para o fazer, mas 'perdendo a vez'.

12h27m: foram detectados 3 erros na classificação, que acaba de ser corrigida. Atenção, agora, ao prazo de 24h (a contar a partir deste momento) para reclamar os prémios.

"Freep...", perdão, "BPN, BPN, BPN..."

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Por Ferreira Fernandes

HÁ ALGUMA COISA de errado nesta maneira de conduzir uma campanha: "Eu fiz uma pergunta a Cavaco Silva...", diz Manuel Alegre, com ar de quem encostou o adversário à parede. Não encostou. Numa campanha, qualquer debate, diálogo e entrecruzadas conferências de imprensa não são para que os candidatos se esclareçam reciprocamente, são para conduzirem os eleitores a uma conclusão. Assim, uma pergunta só é assassina quando empurra o opositor para aquele lugar que a opinião pública já tinha dele. Ora a convicção de que Cavaco Silva é desonesto não me parece que seja maioritária entre os portugueses. Se havia que atacá-lo sobre a compra e venda de acções do BPN, a maneira de o fazer não devia passar por uma pergunta a ele, mas por um dossier bem preparado. E o interlocutor não seria Cavaco Silva, mas os portugueses: ele fez isto, e isto não devia ser feito, por causa disto e disto. Essa explicação iria poupar-nos do "BPN, BPN, BPN, BPN..." que vamos tragar por semanas, prima direita do "Freeport, Freeport, Freeport..." que tragámos durante anos, ambas netas da nossa incapacidade de saber do que estamos a falar, sobretudo quando estamos a falar muito.
Da enxurrada de palavras preguiçosas ficamos a saber que há lucros de 140% e que Sócrates tem primos. Dá para fazer de conta, nos cafés, que seguimos o mundo. Mas é insuficiente para chegarmos a cidadãos conscientes.
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«DN» de 6 Jan 11

Excepções

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Por João Paulo Guerra

TODOS OS DIAS os jornais anunciam magnânimas excepções ao regime ferrabrás do Governo contra a generalidade dos portugueses, os que pagam a crise.

Assim, enquanto congela promoções na administração pública, o poder vai abrindo mão de excepções para algumas castas de afilhados da situação. E não há dia que não saia a público a promoção de altos e intermédios funcionários que assim vão escapar, pela mão esquerda do Governo, ao que a mão direita tira à generalidade dos trabalhadores do Estado. "Pagam todos", apregoa o poder. Todos, menos os tais. Dizem os jornais que as promoções no Estado dispararam 15% após o anúncio do congelamento das carreiras. E assim, o próprio Estado contorna e sabota a sua norma de não promover nem aumentar ninguém na Função Pública, promovendo, e desse modo aumentando, alguns eleitos.

Mesmo quando decide dar um arzinho filantrópico, o poder político não esconde as suas preocupações e opções de fundo. E é assim, por exemplo, que o Estado anuncia que está a ajudar mais de 2.300 famílias a pagar empréstimos para habitação... aos bancos. Ou seja, esta é simplesmente uma outra vertente da linha que vai pôr os contribuintes a pagar o buraco deixado pela gestão anterior do BPN e, de um modo geral, a ajudar a banca.

"Pagam todos", insiste o poder político. Mas enquanto o comum dos cidadãos já começou - dando ou não dando por isso - a pagar mais impostos e preços mais elevados no consumo, a banca ainda não começou a pagar a respectiva contribuição extraordinária para acalmar a crise. E porquê? Porque o poder político ainda não teve vagar para elaborar, aprovar e pôr em vigor a respectiva portaria.

Sim, porque em Portugal qualquer portaria faz política de facto. Basta que não saia.
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«DE» de 6 Jan 11

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Os riscos de ler Sandokan

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Por Ferreira Fernandes

NÃO É UM rapaz do meu tempo mas é do meu tempo de rapaz: Emilio Salgari, o pai de Sandokan. Neste 2011 vai voltar a falar-se de Salgari, a sua morte faz cem anos. Eu li-o nas velhas edições da João Romano Torres & Cª., as capas desenhadas com o pirata malaio. Livros de aventuras, pois. Mas também, como alguém já disse, "um rapaz que tenha lido Salgari, quando adulto não pode ser racista." Antigo príncipe desapossado, Sandokan lutava contra os colonialistas ingleses e holandeses e isso, chamar um asiático para herói, era raro num escritor europeu que morreu há um século. Em Os Tigres de Mompracem, o malaio amava e era amado por uma loura de olhos azuis - é bom ler estas obviedades quando se é garoto. Salgari passou a vida a mentir, dizendo que conhecia o mundo que contava - as suas aventuras passearam-se pelos mares do Bornéu, Caraíbas e Faroeste americano, quando, se ele mareou, foi só em barcos de cabotagem pelo Adriático. Mas se essa irrealidade o fazia cometer erros de aparência - o principal companheiro e amigo de Sandokan era um português com o nome improvável de Yanez de Gomera -, a generosidade de Salgari fazia-o acertar no mundo. Há 50 anos, frente à minha casa, em Luanda, um grupo de homens linchou um negro. Eu tinha 12 anos, saltei para a rua e alguém me calou com um murro. Ler Emilio Salgari trazia alguns riscos, mas nunca me arrependi.
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«DN» de 4 Jan 11

Carrões

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Por João Paulo Guerra

OS PORTUGUESES têm razões que a razão não entende. E em ano de crise bateram não só o recorde da compra de automóveis que se mantinha galhardamente desde 2002 - o ano da revelação do "pântano", da fuga de António Guterres e da chegada de Durão Barroso - como melhoraram também os máximos da compra de carros de luxo. Assim é que é: cabecinhas formatadas pelas escrituras do consumismo e pelos manuais do marketing, respondendo aos apelos de mais consumo, mais endividamento.

O parque automóvel português, cujo espavento é motivo de espanto por parte de europeus mais ricos e mais esclarecidos, não cede ao choradinho da crise. E se no ano passado o brilho da chapa já ofuscava a ladainha do endividamento e do défice e afrontava a crescente pobreza do país, este ano há que manter as aparências, a ostentação. E em que modalidade poderão exibir-se os portugueses? Pela elevação do saber? Pela profundidade do pensamento e da análise? Pelo civismo dos costumes? Pelo requinte dos hábitos? Nada disso: pelo topo da gama, pelo espalhafato da carroçaria, pelo aparato da cilindrada, tudo isto apresentado em locais de grande exposição, como seja em cima dos passeios ou das passadeiras.

Aliás, os portugueses são nesta matéria muito bem conduzidos e educados pelos protagonistas e figurantes da classe política. Os carrões do Estado, em frotas permanentemente renovadas e de custos invariavelmente agravados - haja crise ou, o que não há memória, não haja - revestem e disfarçam muitas vezes a mediocridade e banalidade dos ocupantes. Qualquer funcionário de meia tigela tem direito a carro e esse é um direito adquirido com direitos colaterais: o carro pressupõe a sua própria renovação, por troca com um carro melhor. Ou, pelo menos, mais pomposo e mais caro.
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«DE» de 5 Jan 11

Da inépcia como virtude

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Por Baptista-Bastos

DEVO CONFESSAR, à puridade, um desejo modesto, porém ardente: gostava de que o Presidente fosse um homem culto, lido, cordial e descontraído. Não o é. E o meu recatado desgosto consiste no facto de ele desencadear, com as deficiências culturais e aleijões de carácter que demonstra, um generalizado reflexo condicionado. Os dez anos que levou de primeiro-ministro constituíram um cerco e o esmagamento das desenvolturas e das exaltações que o 25 de Abril nos tinha proporcionado. O País cedeu ao mito do político severo, austero, hirto e denso. E admitiu, como sua, a imagem brunida que ele expunha. Um chato. Mas um chato perigoso por aquilo que representa.

Nada tenho de pessoal contra o senhor. Ele pertence a uma sociedade velha e relha, que apenas assegura formas de autoritarismo. Estes cinco anos de Presidência acentuaram o infortúnio. Os debates nas televisões foram expressivos do desagrado que algumas intervenções causavam no dr. Cavaco. Trejeitos de ira, contorções dos músculos faciais, movimento descomedido dos lábios, frases desmedidamente agressivas. A medonha panóplia de exercícios paliativos forneceu-nos a estirpe do indivíduo e a compleição do político.

O pior foi o discurso da quadra. Se o de José Sócrates representou a vacuidade total, o do dr. Cavaco fundamentou a admissão de uma era vindoura de incertezas. Apenas a reiterada advertência de que "eu bem avisei a tempo". O disperso, confuso e absurdo afastamento de responsabilidades que também lhe cabe. Depois, o caso do BPN e da Caixa Geral de Depósitos. Então, as debilidades da natureza moral do candidato emergiram de roldão. Ao acusar de incompetência a administração do banco das fraudes, trucidou alguns dos seus antigos comparsas de Governo, entre os quais o perplexo e honesto Faria de Oliveira. Procedeu como o fizera com Fernando Nogueira, Santana Lopes, Fernando Lima: serviu-se e descartou-se. Perante as acusações de tibieza que lhe foram feitas, o homem, atabalhoadamente, tentou proteger-se usando o pretexto que lhe é comum: disse que não dissera o que tinha dito e acusou os jornalistas de interpretação abusiva. Uma televisão retransmitiu a verdade dos factos e as declarações proferidas. Nem por isso o prevaricador se retractou.

Já cansa repetir que o dr. Cavaco é um incidente desgraçado na nossa história próxima recente. Metáfora de um país sem juízo, também não chega. Ele resulta de uma confusão entre a ignorância e a beatífica admissão de uma cultura de aparências. Surpreende (o não?) haver gente de envergadura intelectual e moral a apoiar, para reeleição, uma criatura que, por incultura, inépcia e desadequação nunca encontrou a fórmula de viver e de actuar perto das questões e do coração dos portugueses.
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«DN» de 5 Jan 11

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Indicadores

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Por João Paulo Guerra

LEMBRO-ME dos tempos em que os portugueses tinham vergonha dos indicadores sociais que identificavam um país atrasado, pobre e tacanho, um baldio de uma Europa civilizada: o analfabetismo, a mortalidade infantil, a miséria, a emigração para fugir à má sina de ser português.

Acontece que hoje, lentamente, sinistramente, esses indicadores estão a voltar a retratar a realidade portuguesa e não se dá, ao menos, que tais dados envergonhem os titulares do poder das últimas décadas, tão cheios de si, tão ufanos não se entende bem de quê, tão convencidos e, no entanto, com a verdade dos números a atestar a sua irremediável mediocridade e incompetência.

Enquanto a classe política tagarela sobre a saúde pública confrontando-se com esse problema terrível para o Estado que são os utentes, os índices da mortalidade infantil em Portugal retrocederam 25 anos: estamos nessa matéria de novo em 1985, quando em Portugal se decidiu que "quem quer saúde, paga-a". E assim, esse indicador que revela o grau de civilização de uma sociedade, depois de ter dado tímidos passos para a frente, andou para trás num recuo desordenado.

Entretanto, na educação, uma auto-avaliação do sistema concluiu que os alunos do oitavo ao décimo segundo ano de escolaridade "não sabem raciocinar nem escrever". Mas constituindo esta sentença um chumbo categórico e sem apelo de um sistema de ensino, nada acontece para lá da constatação. É assim e paciência. Os alunos não sabem o elementar para saberem mais e melhor. Mas não consta que tenha havido um ministro, um secretário de Estado, um director-geral da Educação chamado à responsabilidade.

Portugal enfrenta muitos problemas. Mas na raiz de todos eles está a incompetência de uma classe política que se perpetua e alterna no poder.
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«DE» de 4 Jan 11

6.º aniversário do 'Sorumbático' - Prémios

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A Língua Franca da tecnologia

Por Nuno Crato

O MUNDO DAS LÍNGUAS dá voltas inesperadas. O imperador Carlos V gostava de dizer que falava em latim com Deus e em italiano com os músicos, enquanto usava o francês para as senhoras e o inglês para os cavalos… Que diria ele se soubesse que esse idioma desprezado, falado na altura por pouco mais que uns ilhéus excêntricos, se tornaria na mais internacional das línguas?

Ao contrário de Carlos V, os falantes de diferentes idiomas precisaram sempre de recorrer a uma língua única para comunicar. Podia ser para as trocas comerciais, para a expansão de uma fé religiosa, para a guerra ou para a administração de impérios. Um século antes de Cristo, quem soubesse grego podia viajar desde a Península Ibérica até à Índia usando esse idioma, com a certeza de encontrar sempre alguém que o compreendesse. No século XIV, era preciso saber árabe para o poder fazer. Dois séculos mais tarde, o português era entendido por mercadores desde a costa ocidental de África até à Índia. Uma língua como essas, que serve para comunicar entre falantes de diferentes idiomas, recebe a designação de “língua franca”.

De todas as línguas francas, o latim foi a mais duradoura. Dois milénios depois do seu aparecimento, era a linguagem de comunicação entre cientistas e europeus cultos — Pedro Nunes escrevia em latim, tal como Copérnico, Newton e Thomas Moore. Mas o inglês é a língua mais universal. É o idioma que os turistas alemães falam quando estão em França e que os empresários japoneses usam quando chegam a Timor. Não é apenas o idioma do comércio ou da gestão. É também a língua do turismo, da ciência e da navegação. É em inglês que os pilotos falam quando se aproximam de um aeroporto, mesmo que sejam franceses e aterrem em Paris.

A partir da segunda grande guerra, o inglês impôs-se no mundo científico — até então usava-se igualmente o francês, o alemão, o russo ou o italiano. Nos fins do século XX, o domínio da língua de Charles Darwin e Alan Turing tornou-se indisputável entre os que fazem ciência. Usá-la não é escolher uma língua de um país em detrimento de outra. É simplesmente escrever ou falar de forma a se ser entendido em todo o mundo. Usa-se como se utilizava o latim, com a vantagem de ser uma língua viva, que tem outros préstimos, além dos científicos.

Até quando? Se nunca nenhuma língua franca perdurou, que acontecerá ao inglês daqui a algumas décadas? Nicholas Ostler, um estudioso britânico da história das línguas, tem uma teoria que está a levantar celeuma entre os linguistas. Diz ele que o inglês está condenado a breve prazo. Não para ser substituído por outra língua, mas para dar origem a uma fragmentação dos idiomas. As ferramentas de tradução automática são, diz ele, o futuro. No seu livro “The Last Lingua Franca: English Until the Return of Babel” (Princeton 2010), sugere que o inglês está no seu apogeu, que sobreviverá enquanto grande idioma, mas que deixará de ser usado para a comunicação internacional. Os computadores tomarão o lugar dos tradutores nas Nações Unidas e os leitores digitais poderão traduzir automaticamente os diversos textos. Os cientistas poderão escrever na língua que entenderem, sabendo que poderão ser entendidos em todo o mundo. A tecnologia, que espalhou o inglês pelo mundo, seria responsável pelo fim dessa língua franca e pelo aparecimento de uma nova Babel.

Este futuro — a ser assim o futuro — está longe. Entretanto, tenha um Bom Ano!
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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 30 Dez 10

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Tendências

Por João Paulo Guerra

AS TAXAS moderadoras da Saúde “tendencialmente gratuita”, como diz a Constituição da República Portuguesa, estão tendencialmente mais caras e vão ser cobradas a desempregados e reformados. Claro que o conjunto de pessoas que formam o poder, de Belém a São Bento, pode discordar da Constituição e tentar alterá-la. Mas terá forçosamente que a alterar por meios legítimos, e não como faz o poder. Em Portugal, o poder toma posse nos termos de uma Constituição da qual discorda e que, por isso, não só não respeita como a desrespeita. E é assim que antes de alterar o preceito constitucional que manda que a Saúde seja "tendencialmente gratuita", o poder altera o preceito na prática, dando a alteração como facto consumado. E isto não incomoda nenhum dos agentes políticos que, ao tomar posse, jura solenemente respeitar e fazer respeitar a Constituição da República.

Quanto aos salários, estão tendencialmente mais baixos. A Constituição manda que as condições de remuneração do trabalho sejam "de forma a garantir uma existência condigna". Mas, como vimos, a Constituição da República é uma flor de estufa da democracia que não é respeitada nem sequer pelos seus mais elevados zeladores. De maneira que depois de décadas de baixos salários e congelamento salarial chegou a grande novidade: o Governo propõe-se baixar salários. Ora o que manda a Constituição é a actualização salarial, tendo em conta, entre outros factores, as necessidades dos trabalhadores, o aumento do custo de vida. Mas parece que a Constituição é cada vez mais um rosário de letras mortas, sem efeito na vida da comunidade e sem respeito dos agentes do poder.

Ou seja: as tendências para 2011 são do piorio. Porque não são apenas injustas como, à luz da Constituição, são ilegais.

«DE» de 3 Jan 11