terça-feira, 30 de novembro de 2010

As botas mágicas dos macacos aranha

Por Nuno Crato

UM HOMEM BÊBADO, passeando ao acaso pelas ruas, sem memória do percurso andado nem ideia da direcção a tomar, é a imagem mais frequentemente usada para ilustrar o conceito matemático de passeio aleatório. Falámos deste conceito várias vezes, desde a primeira crónica que aqui saiu com este título genérico até uma outra de há poucos meses atrás. Se a ideia é repetida, é porque este modelo matemático tem aplicações em áreas tão diversas que estão sempre a surgir notícias das suas aplicações.

O passeio aleatório, entendido como um movimento ao acaso obtido por choques de impulsos, apareceu pela primeira vez em 1900 nos trabalhos dum obscuro matemático francês chamado Louis Bachelier — o objectivo era modelar os movimentos de preços nas bolsas de valores. Cinco anos mais tarde reapareceu pelas mãos de Albert Einstein para explicação dos movimentos de pequenos grãos de pólen mergulhados num líquido, um fenómeno que tinha sido pela primeira vez observado pelo botânico Robert Brown e que acabou por servir de prova experimental da existência de átomos e moléculas.

Em 1935 e nos anos seguintes, outro matemático francês, Paul Lévy, começou a estudar um tipo de movimento em que os saltos podem ser tão bruscos que, de um golpe, se pode andar mais do que em milhares de pequenos saltos (tecnicamente: a distribuição normal é substituída por uma outra de variância infinita). Chamou-se a este tipo de passeio aleatório “voos de Lévy” (Lévy flights). Tudo se passa como se o nosso bêbado, de repente, passasse a usar botas mágicas, como o Pequeno Polegar da história das botas de sete léguas.

Foi preciso passarem muitos anos sobre os trabalhos teóricos do matemático francês para que se encontrassem na natureza fenómenos deste tipo. Foram descobertos por acaso em 1990, no movimento microscópico de moléculas arrastadas em agregados de longos filamentos (micelas). Depois disso, encontraram-se muitos exemplos semelhantes. Ainda recentemente, em Junho deste ano, descobriu-se que os tubarões praticavam voos de Levy quando procuravam comida em águas de caça pouco abundante.

Este mês foi feita uma nova descoberta (doi: 10.1103/PhysRevLett.105.190601). Estudando os movimentos dos macacos aranha — uma família de símios de pernas e braços muito longos que vivem na floresta amazónica — dois investigadores da Universidade da Califórnia notaram que esses animais descrevem trajectórias semelhantes aos voos de Levy: passam muito tempo movimentando-se aleatoriamente em pequenos movimentos e, de repente, cobrem grandes distâncias.

Notaram ainda que os movimentos que fazem, com saltos longos que lhes permitem explorar em pouco tempo vastas zonas da floresta, são especialmente propícios a caçadas dispersas em que os caçadores evitam encontrar-se. Tudo se passa como se, na procura de comida, esses símios procurassem a maneira de maximizar a plausibilidade de encontro de comida e a minimizar a probabilidade de encontros adversos. Os dois investigadores chamaram a estes movimentos “voos de Lévy viciosos” (vicious Lévy flights) e estudaram matematicamente as implicações deste modelo. Os macacos aranha só têm a lucrar com as botas mágicas do Pequeno Polegar.

RECTIFICAÇÃO: Na última crónica afirmei, erradamente, que a exposição de Escher em Évora era a primeira no nosso país. Na verdade, uma outra mostra, que desconhecia, teve lugar na Fundação Calouste Gulbenkian em Janeiro de 1982. Peço perdão aos leitores e à Fundação pelo erro, que um leitor notou e generosamente me indicou.
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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 27 Nov 10

Passatempo Caos e Impunidade

O da esquerda é português e o da direita é austríaco.
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Os vencedores, 'Mg' e João Rodrigues, têm 24h para escreverem para medina.ribeiro@gmail.com, indicando morada para envio dos livros, que são: «Prova os melhores vinhos portugueses», de Jancis Robinson e «Austria - Guide to fine wines», de Manfred Flieser.

Penúria

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Por João Paulo Guerra

O LÍDER DO PSD vaticinou, qual Bandarra, 8 anos de penúria para que Portugal se restabeleça da crise. Certamente que o guru do PSD, tal como o régulo do PS, entendem que basta o vaticínio para que os portugueses amochem numa apagada e vil resignação perante os desígnios do destino. A política conduziu ao desastre, a banca promoveu o crédito e o endividamento com todas as facilidades e para todos os fins, o País caminhou para o abismo perante a alegre e irresponsável política das promessas irrealizáveis para arrebanhar votos... E agora, tomem lá oito anos de penúria, escassez, miséria, pobreza para pagar a irresponsabilidade dos políticos - que vão aliás continuar a governar em alternância de impunidade - e o endividamento mais os astronómicos lucros da banca.

Oito anos de penúria significam miséria para a generalidade do povo e perda de oportunidades para milhares de jovens construírem o seu futuro. Mas claro que isso não é questão que preocupe a classe política e económica dominante que, entre velhos e novos-ricos, vai cada vez constituindo uma casta de opulência num país de miséria. Segundo o próprio FMI, é este fosso entre ricos e pobres que está na origem da crise. Portanto, o empobrecimento geral de um país mergulhado em oito anos de penúria só vai gerar novas crises.

A greve geral do passado dia 24, para lá do ilusionismo do Governo em relação aos números, mostrou uma quantidade e qualidade de contestação raramente vista em Portugal. Mas tanto o primeiro-ministro do PS como um eventual primeiro-ministro do PSD sabem que têm na mão o queijo da democracia como a faca da repressão. Ou, em linguagem mais terra-a-terra, a imposição da política da penúria como os blindados e outro equipamento que sobrou da Cimeira de Lisboa.
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«DE» de 30 Nov 10

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Por Manuel João Ramos

Interrrupção da democracia. Por seis meses apenas?

“Não sei se temos capacidade de resistir”

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Por João Duque


«DE»: Portugal deve pedir ajuda?

JD: Se Portugal tiver de pedir ajudaé porque os mercados assim o impõem e em resultado daquilo que pode ser a incapacidade de Portugal vir a recolher financiamento no mercado internacional. Ou seja, é um pouco resultado daquilo que é uma impossibilidade. Agora, de livre e espontânea vontade é difícil de dizer, até porque esse tipo de pedidos agravam as condições do rigor do controlo orçamental e normalmente nãoé fácil. É preferível não a pedir e pedirmos créditos e controlara despesa, admitindo que temos condições e que o mercado não nos penalize.

«DE»: Em que condições deveria Portugal negociar essa ajuda se a pedisse?

JD: Pedir ajuda depende das condições financeiras do apoio. Seria caricato pedir ajuda para estarmos a pagar o mesmo preço sem ajudas. O custo de capital terá de ser mais baixo. Mas o que deveria acontecer era haver emissão de dívida europeia, era um passo importante. Se conseguíssemos emitir dívida federal, duvido que o preço fosse além dos 3,5 ou 4%, o que é completamente diferente do que financiá-lo a 7% como estamos agora. Se conseguíssemos crédito em condições razoáveis, acho que era bom não termos de recorrer à ajuda. Para mim, o ‘trade off' é: se forem razoáveis as condições que nos oferecem para o custo desta dívida, devemos pensar se de facto vale a pena.

«DE»:Até Dezembro, a pressão para pedir apoio vai ser maior?

JD: Infelizmente, acho que a pressão já é enorme e eu não sei se temos capacidade para resistir. O problema põe-se ao nível dos bancos. O BCE vai começar a empurrar os bancos para o mercado do crédito internacional e aí, sim, temos um grande problema porque depois o mercado não concede crédito aos bancos. Ou o mercado internacional está depois aberto ou então o Estado tem de entrar com dinheiro fresco no capital dos bancos para não deixar cair em incumprimento. E isso piorava a situação. O Estado teria de recorrer a mais financiamento.
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«DE» de 29 Nov 10

domingo, 28 de novembro de 2010

Em greve

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Por Rui Tavares

HÁ 17 ANOS, salvo erro, passei este dia em frente à Assembleia da República, numa manifestação de estudantes contra o aumento das propinas.

Não éramos muitos; mas estávamos determinados a ficar ali o tempo que fosse preciso. Tinha havido um jogo de avanços e recuos com a polícia nas escadarias do parlamento. Eles ganharam. Ao fim da tarde, estávamos arrinconados no pequeno largo cá em baixo das escadarias de São Bento.

De repente, sem dar aviso, avançou sobre nós a polícia de choque. A intenção era limpar o largo, e conseguiram-no. Alguns de nós fugiram pela rua de São Bento. Outros — entre os quais eu — pela Rua do Quelhas. A violência foi inesperada e, mais do que desproporcional, injustificada. Num recanto ajardinado da Rua do Quelhas lembro-me de ter visto em espasmos e com dificuldade de respiração uma miúda frágil e perfeitamente inofensiva.

Portugal não tinha então — e não voltou a ter, valha a verdade — hábitos de repressão policial sistemática e agressiva. Ficámos surpreendidos, embora pouco tempo antes de nós tivesse acontecido com os trabalhadors da TAP. Pouco depois viria a acontecer, de forma mais séria, com os trabalhadores da Pereira Roldão na Marinha Grande. E depois, de forma grave e mesmo criminosa, na repressão aos acontecimentos da Ponte 25 de Abril.

Desde então, muitos governos nossos têm caído, cada um à sua maneira: em fuga ou em farsa. Mas nenhum como esse governo terminou com aquela mistura de agressividade, repressão e teimosia, com um bocadinho de burla e faturas falsas à mistura.

O primeiro-ministro era Cavaco Silva. O ministro do interior era Dias Loureiro.

É curioso ver como parte dos nossos problemas têm as suas raízes naqueles tempos. Quando nos aumentavam as propinas e tornavam os estudos mais caros, os ministros de Cavaco diziam-nos que seríamos compensados com empréstimos bancários. A sugestão era: endividem-se para estudar, antes de se endividarem para comprar casa. Esses estudantes estão hoje sub-empregados ou no estrangeiro, e as dívidas acumulam-se.

O outro lado dessa moeda foi a banca, com a sua mistura de irresponsabilidade, promiscuidade com a política e práticas predatórias — tudo tão bem representado pelo mesmo Dias Loureiro que Cavaco Silva manteve até à última no Conselho de Estado já em pleno caso BPN.

A última Greve Geral convocada por duas centrais sindicais foi em 1988, mais uma vez no tempo de Cavaco Silva, e um dos poucos sucessos da oposição nesses anos.

As coisas mudaram muito entretanto. Esta é provavelmente a primeira Greve Geral para essa geração de há dezassete anos, e para os jovens que vieram depois dela. Estes já não são o trabalhador clássico, mas uma nova mão-de-obra precarizada e subaproveitada — as vítimas do neoliberalismo, e da crise do neoliberalismo.

E esta é também uma greve geral em que não há um único adversário definido. Não basta escolher um primeiro-ministro mal-amado. À nossa frente está uma constelação de ideias erradas, debilidades institucionais em Bruxelas, egoísmos nacionais na Europa, os termos enviesados de uma competição injusta com a China — e as nossas boas velhas dificuldades estruturais.

O sentido de uma greve, no entanto, continua o mesmo. É o povo parar e perguntar — sem os nossos braços que fariam vocês? Para quem governam afinal? Chegou o momento de o usar.
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RuiTavares.Net - 25 Nov 10

Palavras para quê? É um ministro da propaganda à portuguesa

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De Manuel João Ramos


No Semanário SOL de 26/11/2010

CAOS NAS MULTAS DE TRÂNSITO

Auditoria da IGAI alerta para a “grave situação” da Autoridade de Segurança Rodoviária
Sónia Graça

UMA AUDITORIA bastou para pôr a nu o que o Governo nunca admitiu: a Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR), sucessora da Direcção-Geral de Viação, encontra-se numa “grave situação: os serviços demonstraram um “elevado nível de incapacidade para dar seguimento, em tempo útil, às diversas fases de tramitação dos autos”. Só no ano passado, prescreveram 600 mil processos; em média, por ano, a Polícia abre um milhão.

Em causa, segundo uma auditoria financeira da Inspecção-Geral da Administração Interna (IGAI), estão várias lacunas. Desde logo, a manifesta falta de pessoas: para 164 lugares previstos no quadro, apenas 72 estavam preenchidos no início do ano.

A auditoria - a que o SOL teve agora acesso - foi entregue em Abril ao ministro Rui Pereira. Desconhece-se se foram entretanto adoptadas as recomendações da IGAI.

Só... estruturas

As deficiências apontadas à ANSR, colmatadas pelo outsoursing, estão na origem de outras anomalias. Criada em Maio de 2007, a ANSR ainda não tem um conselho administrativo com serviços de tesouraria e contabilidade para gerir as contas bancárias e os movimentos financeiros.

Uma das 10 contas, por exemplo, é do BES e está reservada para verbas das contra-ordenações. No entanto, nem o BES nem o instituto de Gestão da Tesouraria e Crédito Público enviam à ANSR extractos detalhados sobre as centenas de milhares de movimentos de conta, cujo controlo é “quase inexistente”.

Razões pelas quais, denuncia a IGAI, “não estão garantidas, de forma alguma, as boas práticas da gestão dos dinheiros públicos”. Passados três anos, não existe um arquivo de documentação dos processos que dê resposta quer às necessidades da própria ANSR, quer às múltiplas solicitações de entidades externas. Há uma grande dificuldade de preparação dos processos para remessa a tribunal”, lê-se na auditoria.

Os inspectores confirmaram o pior quando solicitaram a responsáveis deste organismo 39 processos (suporte físico) para verificar o seu controlo: 14 pura e simplesmente não foram localizados e os restantes estavam deficientemente organizados”, dada a falta de documentação (originais dos autos, gulas de pagamento, avisos de recepção de notificações, etc).

86%de prescrições...

Quase todos os processos analisados, aliás, tramitaram no SIGA (sistema informático de gestão de autos) sem que existisse o original do auto ou o comprovativo do seu pagamento. São, portanto, tomadas decisões como se o infrator ainda não tivesse pago a coima. À conta deste erro, acaba por ser condenado ao agravamento da multa, acrescida de custas e da aplicação da sanção acessória.

As fragilidades do sistema informático são muitas: como o SIGA não gera listagens de situações relativamente às quais devem ser feitos reembolsos. Nem existem mecanismos de controlo automático para o efeito, são muitas vezes os próprios condutores que reclamam a devolução das quantias, uma vez absolvidos ou prescrito o auto.

A prescrição é, de resto, o desfecho da maioria dos processos. No ano passado, assim terminaram 598.013 autos - dos quais 516.400 (86%) “morreram” numa “fase muito embrionária” antes de ter sido proferida qualquer decisão (297.048 ainda não tinham sido registados no sistema).

Recorde-se que em Março de 2008, quando a ANSR celebrou um protocolo com a Ordem dos Advogados, sob orientação do Ministério da Administração Interna (MAI), para agilizar o processamento dos autos, o ministro Rui Pereira prometia: “Daqui a um ano não haverá processos atrasados nem em risco de prescrição».

E menos 12 miIhões de receita

Em termos práticos, a prescrição significa que deixam de ser aplicadas sanções acessórias de inibição de condução e ficam por registar, no Registo Individual do Condutor, as infracções graves e muito graves. Resultado: o condutor continua muitas vezes a beneficiar de penas suspensas e atenuação especial das sanções», diz a IGAl. Facto que, advertem os inspectores, “em nada contribui para a diminuição dos comportamentos de risco na estrada, antes potencia convicções de impunidade”.

Quando, além disso, as decisões implicam sanções pecuniárias (coimas e custas), a prescrição significa a não arrecadação da receita – que registou, aliás, uma quebra de 13% entre 2008 e 2009, equivalente a cerca de 12milhões de euros.

Mas há erros - descobriu a IGAl -, que começam nas entidades fiscalizadoras. Em 2009, a ANSR devolveu nove caixotes com originais e duplicados de autos à Direcção-Nacional da PSP e seis ao Comando Geral da GNR. Uns foram recebidos em situação irregular ou sem documentação essencial. Outros diziam respeito a infracções cometidas há mais de dois anos (neste caso, a IGAI recomenda que se apurem os motivos que levaram à prescrição dos autos na posse das polícias).

Enviada ao presidente do Sistema de Controlo Interno da Administração Financeira do Estado e ao controlador financeiro do MAl, o relatório da IGAl deixa um recado ao Governo: “Esta realidade deverá motivar uma cuidada reflexão, sob pena de estarmos perante a completa descredibilização das entidades intervenientes em todo o processo relacionado com as infracções estradais”.

sábado, 27 de novembro de 2010

Um mágico português – só?

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Por Antunes Ferreira

O MÁGICO Luís de Matos assinou contrato com a cadeia britânica BBC para uma série de cinco programas a serem emitidos em Janeiro do próximo ano. Isto de acordo com a assessoria de imprensa do ilusionista português. Mais se soube que o programa, com o título de «The Magicians» será apresentado pelo britânico Lenny Henry, e Luís de Matos aparecerá ao lado do norte-americano Chris Korn e da dupla britânica Barry & Stuart, contando cada episódio com diversas celebridades britânicas convidadas.

Neste Portugal a fingir, nada mais natural que um mágico da casa se notabilize lá fora. Lá fora é um velho bordão que, se usado frequentemente, se transforma em chavão mais ou menos calino, mais ou menos cabotino. Não admira que numa terra em que uma boa quantidade de gente, nomeadamente com responsabilidades, anda a tentar enganar menos os restantes, um prestidigitador se alcandore a níveis mundiais.

Matos não é um David Cooperfield, não será um Houdini, nem sequer um Dai Vernon. Mas é portuga. E lá diz o Nicolau Bryner no anúncio televisivo, prefira produtos portugueses. De resto, deixem-me que diga que é repetitivo, pois já anteriormente se dizia tal. Mesmo assim, concordo. O difícil é encontrá-los.

Retrocedo até o mago Merlin e continuo à procura ao longo dos séculos de um semelhante a Luís de Matos. Tarefa difícil, pois nisto de ludibriar o próximo somos dos melhores. Socorro-me da banda desenhada: o Mandrake e o seu ajudante Lotar, a Maga Patalógika, a Madame Min são de outras estórias, doutros quadradinhos, não podem entrar nestas comparações.

Fico-me, então pelo panorama da magia da actualidade, do ilusionismo da crise, dos passes dos políticos que tiram os coelhos das cartolas; no caso, é mais o Coelho e são passos, com o, sem e. Neste espectáculo circense quotidiano, o que não falta, por conseguinte, são os ilusionistas. E os mentirosos, com o pedido de perdão aos magos. Mas, não nos esqueçamos de que mentir é enganar. Daí que tenhamos parido o rifão com a verdade me enganas.

O OE 2011? Um presságio? Nada disso: uma fatalidade mágica. Porém, no contexto dos dias de hoje, a aprovação dele na Assembleia da República já entra perfeitamente no ilusionismo do seu cumprimento. Que não é o mesmo do seu comprimento. A greve geral? Uma prestidigitação. Como se tornou habitual, as forças sindicais falam em esmagadores 90% de adesão; o Governo nuns escassos 20%. Quem se terá enganado? Quem terá sido enganado?

E o FMI? E a União Europeia? E o senhor presidente Durão Barroso? E o Banco Central Europeu? E o senhor ministro Teixeira dos Santos? E o senhor deputado Miguel Relvas? E o senhor secretário geral Jerónimo de Sousa? E o senhor grande educador Francisco Louçã? E outros senhores? E, enorme Raphael Bordallo Pinheiro, o pobre Zé Povinho?

Basta de tanto sofrer. Ó senhor Luís de Matos, faça o favor de explicar televisivamente aos súbditos de Sua Graciosa Majestade que a Aliança mais velha do Mundo foi, na verdade uma magia de encantar. Nos. Na verdade, mágicos da casa não fazem milagres.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Meninas e senhoras «M/F»

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«Correio da Manhã»

Mudar a vida, transformar o mundo

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Por Baptista-Bastos

PODEM NÃO ESTAR de acordo, e ainda bem!; podem, por vezes, ser mal-educados e até grosseiros, quando ocultam a cobardia no anonimato - mesmo assim, desde que inteligentes, vale a pena lê-los. Ao longo de uma vida de combates e causas tenho sido objecto de comentários azedos e indecorosos. Não me afectam. Já o disse e escrevi em amiudadas ocasiões. Evidentemente, as injúrias ficam com quem as pratica e, acaso esses correspondentes fossem decentes e dignos, escrever-me-iam directamente. O meu correio electrónico está aposto no final das crónicas que subscrevo. E tenho por costume responder a toda a gente.

Mas há políticos, comentadores, analistas, jornalistas que são objecto de frases escabrosas, comportando insultos pessoais. Há quem não aguente esta onda de canalhice. Ainda há tempos, uma jornalista conhecida solicitou, à direcção do diário onde trabalha, a supressão dos "comentários" que leitores desbocados faziam electronicamente. Eram pequenos textos absolutamente repugnantes. Os artigos dessa jornalista atingiam os objectivos a que se propusera: zurzir nos lombos de reaccionários, de biltres e de safados. Estes reagiam com a cobardia de quem não dá a cara.

O escrevinhador anónimo não fornece, somente, a dimensão do infame. Trata-se de um espírito doente, da ordem da psiquiatria, a que os psiquiatras atribuem uma catalogação específica. O correio electrónico quase se transformou num confessionário de medrosos (e de merdosos), habitualmente ressentidos, de Direita, antigos legionários e filhos e netos de pequenos fascistas de trazer por casa.

Há artigos e ensaios que explicam estas situações. A circunstância de não haver regulação permite que indivíduos caluniem todos aqueles que entendam. Geralmente, pessoas de quem não gostam, por este ou aquele motivo, por esta ou por aquela razão. Frequentemente, essas aleivosias seguem a dignidade do visado, pegam-se-lhe como lapas e prejudicam, profundamente, a pessoa e as famílias.

Tenho para mim que a gravidade da questão reside, essencialmente, aí. E como sou absolutamente contra qualquer espécie de censura, prefiro o carácter fraudulento e desprezível do canalha anónimo do que a redução do que ele diz a uma mordaça.

A existência, e a prática, do leitor inteligente permitem que a discussão atinja níveis elevados. No caso vertente, há correspondentes (não me refiro a blogues, bem entendido) cujo grau cívico, intelectual e cultural é tão baixo que repugna. Não é de estranhar. O nível de leitura dos portugueses é baixíssimo; a escolaridade obrigatória não é nada obrigatória; os seus interesses limitam-se ao conhecimento dos nomes dos futebolistas, aos clubes a que pertencem ou a que vão pertencer; e a ter comportamentos selváticos, antes, durante e depois de certos desafios.

Digamos, sem rebuço, que o português comum ignora o que se passa em Portugal nos domínios da política, da arte, da literatura, da ciência. O programa da RTP-1, "Quem quer ser milionário" é elucidativo. Às perguntas mais rudimentares sobre História, Geografia, os concorrentes respondem com autênticas bojardas. E muitos deles possuem cursos superiores!

Na quarta-feira, p.p., o "Público" noticiava que jovens, dos mais qualificados que até hoje existiram no nosso País, estão em debandada para o estrangeiro. Não são nenhum daqueles que aparecem no tal programa, certamente. Mas a imagem de Portugal é-nos também devolvida pela Imprensa que temos. Um Imprensa acrítica, preguiçosa, notoriamente tendenciosa e sempre, ou quase sempre, favorecedora de quem está no poder - ou para lá caminha. O contra-senso é que, entre os mais novos, há excelentes jornalistas… e péssimo jornalismo.

Há dias, o meu velho camarada Germano Silva, grande jornalista e admirável historiador da cidade do Porto, telefonou-me. Discreteámos, levemente, sobre as coisas gerais e sobre o jornalismo em particular. Ele, como eu, não ocultámos a nossa perplexidade ante a regressão que a Imprensa portuguesa tem assinalado, nas duas últimas décadas. Regressão intelectual, moral, ética e estética, estilística, filosófica. Que aconteceu? Uma apressada "licenciatura" em comunicação social e logicamente, uma aberrante entrada nos jornais de pessoas mal preparadas, que são exploradas até ao tutano e, a seguir, atiradas pela porta fora.

O desleixo, a preguiça mental, a mediocridade instalaram-se em todos os sectores da vida nacional. Quando escutamos o prof. Medina Carreira há quem o acuse de apocalíptico e negativista. Porém, ele toca nas questões fundamentais do nosso viver. E há anos que no-lo diz, servindo-se de um idioma luminoso e extremamente pedagógico. Quantos políticos encartados se exprimem com a clareza meridiana de que Medina Carreira é exemplo?, quantos? Acrescente-se que ele é um homem sério, digno e fecundo porque nos ensina sem nada pedir em troca.

A crise moral do País é muito mais grave do que dizem os preopinantes que por aí pululam. Os exemplos, maus, vêm de cima. Como é que os diferentes ramos sociais poderiam ser diferentes? Que fazer? Mudar a vida, transformar o mundo.
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«J. Negócios» de 26 Nov 10

«Dito & Feito»

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Por José António Lima

PASSOS COELHO tem falado pouco, nas últimas semanas. O que só tem beneficiado a sua imagem junto dos portugueses, como se vê pelos resultados das sondagens.

Numa das suas, agora espaçadas, intervenções, o líder do PSD traçou um retrato sombrio mas realista da crise em que o país mergulhou. Falou da dívida do Estado escondida «nos passivos das empresas públicas» e nos encargos das «parcerias público-privadas que, a partir de 2014, vão ter um custo anual que pode chegar a dois por cento do PIB», alertou que o défice real deste ano será «de 9,5%» e acrescentou: «Não há capacidade para criar emprego, não há dinamismo na economia».

Passos Coelho fez, por fim, questão de avisar os portugueses que esta crise não é passageira, nem será ultrapassada em dois ou três anos: «Estamos convencidos que em duas legislaturas, em oito, dez anos, somos capazes de mudar estes dados actuais, de inverter esta situação». Louve-se a franqueza e a clareza do discurso. Onde parece ter acabado o tempo das promessas enganadoras e das ilusões de facilidades a curto prazo.

Mas seria conveniente que Passos Coelho nos esclarecesse o que se propõe fazer para inverter esta situação, que programa tem (ou não tem?) na cabeça para resolver o definhamento do país e da sua economia. Como irá, por exemplo, «baixar a despesa pública em, pelo menos, 10 pontos percentuais», segundo prometeu. Ousará atacar o gigantismo e o despesismo do Estado eliminando, pelo menos, metade dos institutos, fundações, empresas públicas e municipais que apenas servem para duplicar serviços e pagar ordenados mais altos às clientelas partidárias? Irá reduzir o enxame anacrónico de estruturas administrativas locais, baixando para 1/3 (100) o excesso de 308 concelhos e para 1/4 (1.000) a multitude de mais de 4.000 freguesias? E, já agora, para 180 (ou mesmo 150, com a revisão constitucional) os supranumerários 230 deputados? Ou ficará tudo como dantes?

Passos Coelho pouco ou nada esclarece. O que se sabe é que já recuou, a par com o PS, e abriu uma excepção à redução salarial nas empresas públicas. Não é, seguramente, um bom sinal para o futuro.
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«SOL» de 26 Nov 10

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Casa de feirantes

Irlanda

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Por João Paulo Guerra

ESTAREI enganado ou, ao longo das últimas décadas, a classe política portuguesa apontou ao bom povo português, a torto e a direito, o exemplo da Irlanda como molde das virtudes da União Europeia, do Euro e do carácter humano do capitalismo selvagem? Não, não estou enganado. Faço uma busca nos arquivos da Coluna Vertebral – já em 11 anos consecutivos de publicação – e surgem-me catervas de referências. A Irlanda para aqui, a Irlanda para ali, no discurso directo de políticos no activo, ou na oratória indirecta de políticos de reserva, lá vinha a Irlanda à baila como exemplo de um pequeno país, um pobre povo, que soube crescer com desenvolvimento e ser feliz. A Irlanda até motivou polémicas entre os seus diversos defendentes portugueses, cada um argumentado contra os argumentos de outros. Mas todos indicando ao bom povo português que pusesse os olhos no exemplo da Irlanda.

E foi assim que chegámos à actual situação: cada português irá contribuir com cerca de 130 euros para ajudar a Irlanda. Ou, melhor dizendo, cada português vai entrar com dinheiro para salvar do colapso o sistema bancário irlandês, dado a delírios extremos e até a frenéticas delinquências na Irlanda como em todo o mundo. Porque é nisso que consiste a «ajuda» à Irlanda, como poderá vir a consistir a «ajuda» a Portugal, por parte de instituições tão «beneméritas» como seja o Fundo Monetário Internacional. Consiste em introduzir dinheiro para salvar os bancos, tendo como contrapartida uma austeridade que vai até à miséria para o povo, com perda de conquistas históricas da civilização e recuos legislativos até aos tempos da lei da selva.

Estão todos muito calados a este respeito. Provavelmente nem se recordam de alguma vez terem falado nessa tal Irlanda.
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«DE» de 24 Novembro 10

Inexorável

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Por João Paulo Guerra

O JORNAL
«Le Monde» publicou uma reportagem do seu enviado a Lisboa à qual deu o título: «Portugal desliza inexoravelmente para a pobreza». Pela reportagem desfila um conjunto impressionante de números. Dá ideia que as estatísticas se revoltaram contra a política portuguesa e aí as temos, num tumultuoso desfile contestatário, denunciando 30 anos de conluio de interesses entre três partidos governantes e as respectivas clientelas. E o resultado é a pobreza extrema que ameaça agora, no mais elementar dos direitos de subsistência, os que já eram pobres mas também a classe média.

Quarenta por cento dos novos pobres portugueses são desempregados ou endividados que anteriormente não viviam na pobreza. É assim Portugal, campeão europeu da desigualdade: novos portugueses e os mesmos ricos, acrescidos de uma casta de novos-ricos que proliferam na babugem dos velhos donos do País, cada vez mais ricos. A reportagem de «Le Monde» assinala, aliás, que Portugal chega a esta fase de crise à beira da falência «sem ter conhecido os delírios bancários da Irlanda» ou «as loucuras imobiliárias de Espanha».

Tem pontos altos a manifestação das estatísticas que desfilam contra as políticas de 30 anos de clientelismo, de destruição da indústria, das exportações, da agricultura e das pescas, tudo em favor da finança e da especulação. Desfila agora a estatística que dá conta de novo impulso da mortalidade infantil. Logo atrás vêm os números que dizem que os cortes orçamentais ameaçam afastar doentes dos tratamentos e que estão iminentes recaídas no consumo do álcool e das drogas ilícitas.

Mas isto é apenas uma manifestação virtual. De resto, e como comentava um leitor desta coluna aqui há dias, «reina a calma na panela de pressão».
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«DE» de 23 Nov 10

Dois anarquistas conversando

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Por Rui Tavares

NO FINAL de fevereiro de 1861, Pierre-Joseph Proudhon — que era uma das maiores celebridades filosóficas e políticas da Europa — recebeu a visita de um jovem conde russo. Este russo já tinha passado por algumas mudanças. Fora militar e participara na repressão a revoltas no Cáucaso, mas agora tinha pretensões literárias. Tivera um filho bastardo com uma camponesa, de entre os servos “propriedade” da sua família. Mas estava agora noivo de uma jovem da corte, dezasseis anos mais nova do que ele. As coisas pareciam mais encaminhadas. Nasceriam filhos, muitos; quando em Moscovo, a família daria festas no palacete; passariam grandes temporadas em Iasnaia Poliana, no campo.

Ainda assim, Lev Nicolaievitch Tolstói, o jovem conde russo, trinta e três anos, não sabia que fazer da vida. Proudhon — um tipógrafo, filho de um tanoeiro, que aprendera latim sozinho e se tornara famoso pelos livros e jornais como a primeira pessoa a dizer-se “anarquista” — encorajou-o a fazer aquilo que ele já queria. Se não isso, para quê atravessar a Europa e visitá-lo?

Aquilo que Tolstói queria era voltar a casa, libertar os seus servos, libertar as suas propriedades — no fundo, libertar-se a si mesmo. Por isso ganharia a incompreensão da família e dos seus pares, e a da igreja ortodoxa russa.

E também queria fazer escolas, ideia que Proudhon aplaudiu. No regresso, Tolstói abriu uma dúzia delas onde os filhos dos camponeses e os seus próprios filhos estudavam segundo um método que ele próprio ia experimentando.

E queria ainda escrever romances. Proudhon estava a terminar um tratado de política chamado Guerra e Paz. Tolstói gostou do título, e roubou-lho para um romance. Proudhon, que tinha proclamado “a propriedade é o roubo”, não se queixaria. A Tolstói — que viria a recusar os lucros dos seus livros — não passaria outra coisa pela cabeça.

Passo muitas vezes, de bicicleta, pelo prédio onde isto aconteceu. É o número 16 da Rue du Conseil, em Bruxelas, onde Proudhon vivia exilado sob nome falso. Nenhuma placa lembra o encontro.

Há tempos um dos três apartamentos do prédio estava para alugar. Fingindo-me interessado, liguei para a imobiliária e marquei um encontro. O agente trazia debaixo do braço notas que andava a compilar sobre livros de psicologia. Uma amiga que me acompanhava, para disfarçar o meu embuste, lá perguntou umas coisas sobre o soalho e as áreas da casa. Eu deixei-me ficar na varanda, de onde se via uma enorme nogueira no quintal das traseiras.

Pergunto-me por vezes o que diriam eles se tivessem continuado aquela única conversa que tiveram. Que diriam sobre a Europa, sobre a Rússia, a Tchetchénia e o Afeganistão e os EUA e a China e a Crise. Que diriam da cimeira da NATO e a polícia prendendo “anarquistas”?

Enfim, naquele dia fiquei só olhando para a nogueira, na casa onde talvez — a probabilidade é de 33,3% — se tenham encontrado ambos.

Regressado à Rússia, Tolstói viria a tornar-se mais famoso — como escritor, filósofo e anarquista — ainda do que Proudhon. Nos cinquenta anos seguintes, escreveu livros, renegou livros, disse-se cristão, foi renegado pela igreja — até hoje. Até ao dia em que, irritado com tudo, fugiu de casa aos oitenta e dois anos. Procurava libertação e paz. Morreu em fuga, numa estação de caminhos-de-ferro, fez anteontem cem anos.
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RuiTavares.Net - 23 Nov 10

Isabel de braços cruzados

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Por Baptista-Bastos

A PALAVRA greve comporta em si um prestígio e uma emoção transversais a várias gerações. E contém uma forte componente moral que se não restringe, unicamente, a opções ideológicas ou a orientações partidárias. A greve é contra alguém? É. Contra as iniquidades, as prepotências, a soberba e as injustiças do poder político. A de hoje faz de nós sujeitos representativos do combate a uma crise de valores e a padrões exportados - cidadãos que não querem ser governados assim.

Desde rapaz, na Redacção de O Século; nas tipografias onde paginava jornais; nas conversas com aqueles homens que recusavam a agressividade das classes dirigentes - desde esses tempos da minha educação sentimental, soube de greves lendárias, e da heroicidade incomum de gente comum. E aprendi a desprezar delatores, fura-greves, "amarelos".

Quando nisso me falavam, os velhos jornalistas não deixavam de nomear aqueles que haviam traído os testamentos e abjurado do sentido das coisas decentes. Guardo um montão de histórias e não esqueço as diversas formas de perversão com que muitas vezes alguns de nós foram confrontados.

No Governo de Sá Carneiro, quando este preparava uma lei que punha em causa liberdades recentemente conquistadas, o Sindicato dos Jornalistas organizou uma greve. Pela situação conflitiva em que vivíamos, as circunstâncias que precederam essa greve pertencem ao historial das nossas lutas e das nossas revoltas. Mas a adesão foi impressionante. Nas oficinas gráficas do semanário O Jornal editou-se uma folha protestatária, e os jornalistas desceram à rua apregoando a natureza do seu combate. "A democracia em perigo!", "Mil e oitocentos jornalistas defendem o que nos querem roubar!" O Jornal da Greve era pago pela generosidade dos transeuntes, atraídos por aquela estranha forma de representação. O João Paulo de Oliveira e eu fomos destinados para o Largo do Camões; depois, despacharam-me para o Parlamento, onde o próprio Sá Carneiro me comprou um exemplar e por ele pagou cinco contos.

As horas eram de exultação e de fervor. Contávamos as percentagens, somávamos os números e a quantidade dos aderentes. O Dia furou! O Dia está a trabalhar! Até que veio a informação lacónica e grandiosa: "Isabel Valadares entrou em greve." A única mulher de O Dia cruzara os braços e seguira as instruções do sindicato. A jornalista desdenhara das consequências advenientes do seu comportamento e contrariara as próprias características ideológicas do jornal, em nome de valores mais profundos. É um momento inesquecível, pelo que simboliza de consciência de uma razão intensa.

Lembro-me muitas vezes deste episódio. Em nome dele e em recordação grata da Isabel Valadares, poiso as palavras e entro em greve.
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«24 Nov 10

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Escher em Évora

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Por Nuno Crato

QUEM SE DESLOCAR ao Fórum Eugénio de Almeida, em Évora, terá oportunidade para ver uma sucessão surpreendente de gravuras. Algumas são paisagens, desenhadas de forma convencional, mas com um pormenor e um cuidado pouco usuais. Outras são figuras míticas — dragões, felinos com asas, castelos flutuantes. Outras ainda são jogos visuais que surpreendem o visitante, pois nunca são o que parecem ser. Há esferas que afinal são círculos, há pássaros que se transformam em campos lavrados e talhões de terreno que se transformam em aves. É um mundo de surpresas.

“A Magia de M.C. Escher”, como foi com propriedade chamada a exposição, traz até nós 50 gravuras do artista Maurits Cornelis Escher, que nasceu em 1898 na Holanda, trabalhou em Itália, Espanha, Suíça e Bélgica, e veio a falecer no seu país em 1972. É a primeira vez que uma mostra de originais deste artista tem lugar no nosso país, o que por si só justifica uma viagem até à cidade alentejana. O visitante não ficará desiludido. É uma oportunidade para ver uma retrospectiva de trabalhos que vão desde 1927, quando o jovem Maurits desenhava paisagens, até 1965, quando estava completamente absorvido num mundo interior de figuras impossíveis e de abstracções dominadas pela ideia de infinito.

A grande viragem deste artista dá-se entre 1934 e 1937, quando deixou o sul da Europa, que o absorvia pelas suas paisagens, e se deslocou para a Suíça, a Bélgica e, finalmente, a Holanda. Na passagem por estes países, deixou progressivamente de se inspirar no mundo visual externo e começou a empenhar-se em construções mentais abstractas, que expressam conceitos matemáticos. Foi a partir daqui que as suas gravuras ganharam um cunho próprio, sem par no munda das artes visuais.

Entre 1937 e 1945, no que o seu biógrafo Bruno Ernst designa como “período das metamorfoses”, Escher construiu motivos que gradualmente se transformam noutros. É disso exemplo a gravura “Sky and Water I”, em que pássaros se transformam em peixes e peixes se transformam em pássaros. Nesta exposição há várias obras deste período, incluindo o celebérrimo “Magic Mirror” em que dragões tridimensionais se esvaem numa superfície plana, apenas para reaparecerem a três dimensões do outro lado do espelho.
No chamado “período das perspectivas”, que decorre de 1946 a 1956, Escher explora ângulos pouco habituais. Leva a ilusão da observação fotográfica ao limite, juntando na mesma figura imagens que corresponderiam a pontos de observação distintos.

Finalmente, no seu “período das aproximações ao infinito”, entre 1956 e 1970, o artista holandês explora repetições de motivos, aparentemente sem limites, e desenvolve várias figuras impossíveis.

Ao longo da vida, Escher foi estudando o contraste entre a ilusão tridimensional que a perspectiva nos fornece e a realidade plana da superfície a que os desenhos estão confinados. São temas geométricos a que se juntam muitos temas matemáticos, como a banda de Moebius, uma superfície que tem um lado apenas, as curvas loxodrómicas de Pedro Nunes, as pavimentações do plano e os cinco sólidos platónicos. Não é de espantar que os matemáticos gostem de Escher. O que é fabuloso neste artista é que todos, incluindo as crianças, se maravilham com a sua arte.
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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 20 Nov 10 (adapt.)

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Há palavras a menos na política portuguesa

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Por Rui Tavares

SEJAMOS HONESTOS, Cavaco Silva se pudesse sufocaria estas eleições no berço porque, simplesmente, é o que lhe dá mais jeito.

Faltam palavras na política portuguesa. Por exemplo, palavras como “sonso”. E falta utilizar essas palavras quando Cavaco Silva, atual presidente da República e candidato à sua própria sucessão, diz que “há palavras a mais na nossa vida pública”.

Cavaco Silva está a matar, devagarinho, qualquer hipótese de termos uma campanha presidencial esclarecedora.

Fá-lo porque nunca entendeu o valor do confronto de ideias; Cavaco Silva não é, essencialmente, um pluralista. Sempre insistiu que duas pessoas confrontadas com os mesmos dados têm a mesma opinião. Isto significa que não entende porque têm os outros outra uma opinião diferente da dele; essa é uma realidade que ele aceita (se aceitar) a custo, e que portanto não se percebe como pode prezar. Adicionalmente, sempre atacou a retórica, ou seja, o lado público e discursivo da política, que é o alicerce da democracia. Não reconhece que a vida pública precisa de palavras a mais, todas diferentes, algumas erradas, para se aperfeiçoar.

Mas, sejamos honestos, Cavaco Silva se pudesse sufocaria estas eleições no berço porque, simplesmente, é o que lhe dá mais jeito. Com a mobilização a zero, não há surpresas; o ideal seria que ninguém reparasse que há eleições. Não haver cartazes nas rua é um bom começo, principalmente quando se tem a TV e os jornais todos os dias assim: “Cavaco defende previsibilidade”, “Presidente recomenda precaução”, “Cavaco Silva condecora empresários” Ui, que profundo.

Isto não é programa político nem plataforma eleitoral e, acima de tudo, é demasiado mau para ser verdade. E porquê? Porque uma eleição é um momento supremo de clarificação para uma sociedade; nós gastámos os nossos cartuchos já no ano passado e o país ainda precisa de saber o que lhe vai acontecer. O próximo presidente vai, talvez, dissolver o parlamento, assistir à entrada do FMI e ver a União Europeia desmanchar-se ou mudar.

Qualquer candidato que não fala claramente sobre estas coisas está a faltar às suas obrigações para com o eleitorado.

Na crónica da semana passada sobre a “austeridade”, cortando caracteres para que coubessem na coluna, acabei por suprimir um parágrafo. Dizia assim:

“Além disso, a Irlanda já fez todos estes cortes, e os mercados não a deixam em paz. É até a nossa principal esperança para ir à nossa frente no caminho da bancarrota Como os irlandeses já sofreram demasiado, não lhes desejo essa sorte.”

Hoje, estou arrependido. Deveria ter deixado essa frase e acrescentado que Portugal deveria ter um plano para quando isso acontecesse.

Infelizmente, como lembram no blogue de economistas “Ladrões de Bicicletas”, o único plano de Portugal é dizer que é diferente da Irlanda, tal como o único plano da Irlanda é pedir que não a confundam com a Grécia, e o plano da Espanha é explicar que nada tem a ver com os outros.

Têm razão no fundo. A Irlanda de sonho dos neoliberais tem pouco a ver com a Espanha superavitária de há dois anos, ou com a Grécia de contas fraudulentas, ou o nosso Portugal que tão bem conhecemos e nos aflige.

Mas estão errados na forma. A forma como o euro está feito prejudica todas as economias periféricas, e estas têm de se juntar para dizer isto mesmo. Não precisam de mais do que fazer uma reunião em qualquer das capitais e escrever uma declaração simples. Berlim e Paris não podem mandar sozinhas em prejuízo imediato dos outros, e ruína final de todos.
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In RuiTavares.Net

domingo, 21 de novembro de 2010

Em que ficamos, então?

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O QUADRO que em cima se vê (existente no MNAA, em Lisboa) tem, cravada na moldura, uma etiqueta que indica ter sido pintado por Velasquez.
No entanto, uma outra, que figura ao lado da obra (e que, para todos os efeitos, é a 'legenda oficial'
e que em baixo se mostra), põe em causa essa autoria.

sábado, 20 de novembro de 2010

Desentupidor em espiral...

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Frente e verso de uma embalagem de parafusos, a que deram um estranho nome...
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A explicação para isto deve ser a seguinte:

Eles vendem, também, «desentupidores em espiral», que são uma espécie de molas, com vários metros de comprimento e uma manivela numa das pontas. Enfia-se a outra numa extremidade do cano entupido, e vai-se dando à manivela ao mesmo tempo que se empurra. Com isso, removem-se os detritos que possam estar a entupir a canalização - pelo menos os maiores.
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O que aqui sucedeu foi que usaram esse texto para uma embalagem de parafusos, porventura confundidos pelo facto de eles também serem "em espiral"!

Auditando as PPP

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Por João Duque

PORQUE NÃO FAZEM uma análise séria de simulação às responsabilidades futuras com base nos pressupostos usados?

Como já vem sendo meu hábito, preocupado com o futuro, fui ler com atenção especial o capítulo do Relatório do Orçamento do Estado dedicado às PPP (Parcerias Público-Privadas) para perceber qual o passivo que vou herdar...

O quadro da previsão desses encargos futuros começa a ser verdadeiramente preocupante para um 'jovem' como eu, isto porque os fluxos previstos vão até ao simpático horizonte de 2050, isto é, quando eu tiver 89 anos...

Adiante. O quadro que até há dois anos apresentava os dados agregados anualmente para todos os tipos de PPP é agora dividido em dois. Será por medo aos valores? Não tem problema porque eu ainda sei fazer contas de somar e verifiquei que para o ano de 2011 o encargo com as PPP será de 842 milhões de euros (84 por cada português). Depois, esse valor vai subir nos anos mais próximos até atingir um pico de 1362 milhões de euros no ano de 2016. A partir daí, 'a coisa' começa a jogar a 'nosso' favor, no pressuposto de que as SCUT passarão a ser COMCUTS - Com Custo para o Utilizador, permitindo um 'lucro' que chegará a 2483 euros no ano de 2050!

Quando somamos todos os valores apresentados no quadro a que me refiro, verifica-se que o valor final é muito positivo. Dirão os fãs das PPP que somando todos os custos e todos os proveitos das ditas, o valor final, e total, é positivo e ronda 19.825 milhões de euros! Coisa extraordinária, no mar de dívidas em que hoje nos movemos!

Mas aqui é que a chamada porca torce o rabo, porque se por um lado é altamente duvidoso que os fluxos previstos a 40 anos de distância tenham a mesma certeza dos previstos para os anos mais próximos, por outro, quando se atualizam estes valores para os dias de hoje, de acordo com uma técnica simples ensinada no primeiro ano de qualquer faculdade de economia, para podermos comparar e somar com verdade os capitais exigidos ou disponibilizados em momentos de tempo diferente, chegamos à conclusão que esse valor atual é negativo e na ordem dos 6284 milhões de euros... Quer isto dizer, que se o Estado quiser transferir estas responsabilidades para alguém terá de pagar hoje esse valor equivalente para se livrar de mais este volumoso fardo...

Depois fui testar qual o impacto que terá uma alteração às taxas de atualização, neste valor atual, por variação das taxas de juro que a República portuguesa suporta com o seu financiamento. Concluí que, admitindo que os fluxos previstos são completamente independentes dessa variação de taxa de juro, uma subida de um ponto percentual nas taxas de juro implica um agravamento de 700 milhões de euros no passivo que representam hoje essas PPP.

Por que razão não publica o Estado, no Relatório do seu Orçamento, este tipo de análise que qualquer caloiro de Economia ou Gestão sabe fazer? Porque não fazem uma análise séria de simulação às responsabilidades futuras com base nos pressupostos usados? Têm medo da auditoria?

Não receiem, pois hoje até há antidepressivos em genéricos!
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«Expresso» de 13 Nov 10

Ouro sobre azul

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Por Antunes Ferreira

O ANÚNCIO do casamento entre o príncipe William de Inglaterra e a sua namorada de longa data, Kate Middleton, teve enorme destaque na comunicação social por todo o Mundo e, naturalmente, na imprensa britânica, que lhe deu a importância que para o Reino Unido o futuro (e «esperado») enlace tem.

Quase todos os grandes jornais ingleses - incluindo o formal «Financial Times» - dedicaram as principais páginas ao casal, ilustrando as notícias com as fotografias de William e Kate, assim como do anel que oficializa o noivado, anunciado publicamente na terça-feira. «Finalmente chegámos lá, querida», titulou o «Daily Mail». O periódico referia-se desta maneira ao longo e por vezes atribulado romance entre dois jovens, que se tinham conhecido na universidade, em 2001.

A verdadeira instituição que é o «Times» apresentou ao público uma parangona simpática: «New Romantic», que aludia ao anel oferecido pelo príncipe William à namorada, uma safira rodeada por diamantes, que antes pertencera a Diana de Gales, mãe do noivo, que por sua vez o recebera das mãos do pai do príncipe, Carlos «o eterno sucessor adiado», por ocasião do pedido de casamento.

O tablóide «Daily Mirror»" classificou o casamento como «um momento brilhante para a história da realeza» e «um tributo comovente de um filho à mãe», Diana, que como se sabe morreu em 1997 num acidente de carro, em Paris. Outro diário, o « Sun» abriu a sua edição titulando «Com o anel da mãe, eu irei casar", frase escolhida para enfatizar a comparação entre os dois matrimónios.

Abreviando: um verdadeiro festival. Muitos dos órgãos da comunicação destacaram, também, as origens plebeias de Kate Middleton; o já citado «Sun» publicou que «Kate vai permitir-nos adaptar a monarquia ao século XXI". Já o «Times» referiu, no respectivo editorial: «Há momentos como este, em que a monarquia é renovada». Entretanto, o «Guardian», classificado como de centro-esquerda, preferiu colocar a tónica no momento de crise em que ocorreu o anúncio do casamento, pondo em título «Um casamento real em tempos de austeridade».

Mas, nestas alturas aparecem sempre os desmancha-prazeres. No caso, em Hong Kong, astrólogos chineses previram logo que casamento de William e Kate terminará em divórcio. Eles terão uma vida de casal muito difícil e, devido às infidelidades do marido, tudo terminará em divórcio.

«O casal terá graves problemas durante dez anos, depois do príncipe William completar 39 anos»", afirmou Anthony Cheng, mestre de feng shui de Hong Kong. O príncipe divorciar-se-á ou sofrerá um acidente, acrescentou. «Uma das duas coisas acontecerá. E se ele sofrer um acidente, será mortal», afirmou ainda. Mais uma comparação com o destino de Lady Di.

Feng shui é uma corrente de pensamento em que na relação yin/yang, os ideogramas Feng e Shui (respectivamente Vento - yang - e Água - yin ) representam o conhecimento das forças necessárias para conservar as influências positivas que supostamente estão presentes num espaço e redireccionar as negativas de modo a beneficiar os que a usam. Muito cuidado, portanto com o que previu Cheng.

Mas, nem tudo é uma desgraça anunciada. Em completa discordância com tais presságios terríveis, o astrólogo indiano Arun Kumar Bansal afirmou, por seu turno, que o futuro casal tem 24 pontos em 36 no teste da compatibilidade. «Eles desenvolverão uma relação cordial e não discutirão em público», sublinhou. Segundo ele, o único problema do casal serão os filhos, que demorarão a chegar.

Ainda só se anunciou a boda e já se fala em divórcio. Pelos vistos, a bola de cristal sobrevive. E nem tudo que parece é ouro; mesmo que seja sobre azul.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

A propósito de "tolerâncias de ponto"

In «Praxedes, Mulher e Filhos - Cadastro de uma família lisboeta»
de André Brun

Alicate de afiado focinho

«Dito & Feito»

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Por José António Lima

O MINISTRO Luís Amado apareceu a pedir um Governo «de coligação já», sem o qual o país correria o risco de ter de sair do euro. Paulo Portas voltou a insistir na formação de um Executivo «PS-PSD-CDS» de salvação nacional, sem a dispensável presença de José Sócrates.

E várias foram as figuras políticas que surgiram a secundar tão instantes apelos a um Bloco Central mais ou menos alargado. São pedidos que, todavia, esbarram logo à partida numa impossibilidade e numa inutilidade.

A impossibilidade é eminentemente política. Nem o PSD está disposto a qualquer coligação em posição subalterna antes das eleições, porque tem a noção de ser já neste momento, e de continuar a ser em 2011, o maior partido em termos eleitorais, de acordo com todas as sondagens.

Nem Sócrates tem a natureza de se automarginalizar e assumir que expirou o seu prazo de validade, mesmo que a pedido de várias famílias. Nem o PS tem condições para fazer Sócrates sair de cena antes de uma derrota eleitoral (inevitável, mas que o aparelho e a clientela socialistas esperam adiar o mais possível). E, já agora, nem o CDS será forçosamente imprescindível numa hipotética solução de entendimento alargado.

Ou seja, é absolutamente inviável qualquer cenário de Governo de salvação nacional antes de umas clarificadoras legislativas antecipadas definirem o novo quadro político-eleitoral. E de se saber se o PSD terá, ou não, condições para governar em maioria. Até lá, basta que o actual Governo saiba levar à prática o Orçamento que o PSD se prestou a viabilizar. E que saiba assumir as consequências desse Orçamento.

A inutilidade é a de um Governo de Bloco Central - além de ser democraticamente esterilizador, por esgotar e anular as soluções de alternância política ao seu eventual insucesso - não ter condições para executar um programa de emergência nacional e de ruptura com o despesismo e o gigantismo da máquina do Estado. Nenhum líder do PS, ainda para mais recém-eleito num partido saído de uma derrota nas urnas, daria o seu aval a tal programa de Governo.

Bem pode, pois, Luís Amado forçar a sua demissão a curto prazo. Bem pode Paulo Portas continuar a pôr-se em bicos de pés. Não será o Governo de salvação nacional que os irá salvar.
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«SOL» de 19 Nov 10

Espiões

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Por João Paulo Guerra

DAVID JOHN Moore Cornwell, a.k.a (‘also known as’) John Le Carré, havia de ter gostado de inventar esta história. Mas lá na Cornualha, onde vive, não há histórias destas. E assim, o autor de "O espião que saiu do frio" tem que se contentar com a sua própria imaginação. E desse modo perde, porque a ficção a consideraria provavelmente absurda, a história do chefe dos espiões que anunciou a demissão na véspera de uma Cimeira da NATO no país cuja espionagem externa chefiava. O caso estará para a espionagem com Saltillo esteve nos anos 80 para o futebol: desencadear uma cena de contestação ao sistema mesmo em cima do acontecimento.

A verdade é que a Cimeira da NATO traz a Portugal mais de três mil espiões. Três mil credenciados, porque com os espiões a sério serão muitos mais. E num tal cenário, mais espião, menos espião não aquece nem arrefece. Acontece, porém, que o demissionário não é um espião qualquer: é, ou era, o chefe do Serviço de Informações Estratégicas de Defesa, apresentado pelo conhecedor Diário de Notícias como uma espécie de "CIA portuguesa". A velha raposa David John Moore Cornwell exultaria com a informação de que o demissionário frequentou com aproveitamento o Curso de Língua Russa na Associação de Amizade e Cooperação Iuri Gagarin e não descansaria enquanto não lhe encontrasse na biografia uma passagem discreta por Cambridge. Mas isso daria apenas uma novela de ficção.

A realidade é que o chefe dos espiões portugueses anunciou a demissão em cima do acontecimento da Cimeira da NATO, apresentando como razões os cortes orçamentais que vão levar ao encerramento de várias estações da espionagem portuguesa.

A Cimeira da NATO começa com uma brecha no Ocidente e com Portugal a ter que tapar um buraco.
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«DE» de 19 Nov 10

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Racionalidades

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Por João Duque

POR VEZES, os governantes esquecem que os agentes económicos, apesar de tudo, são racionais. Por isso, um anunciado aumento de impostos provoca reacções que não são de espantar. O problema é que, por imposição legal, tem de haver um prazo mínimo entre o anúncio da intenção, a discussão da proposta, a aprovação da ideia e finalmente a sua implementação. Tal prazo é, por vezes, na óptica do Estado, muito penalizadora, uma vez que entre o anúncio de uma medida e a sua entrada em vigor vai um prazo de tempo tal, que permite um comportamento que é exactamente contrário ao que se pretendia, reagindo os agentes económicos por antecipação.

Se anunciam um aumento de impostos sobre o consumo do tabaco ou do álcool com intenção de reduzir esse consumo, então dispara a venda dos mesmos no curto prazo porque os consumidores, agindo racionalmente, querem antecipar a compra e reduzir assim o impacto do aumento da tributação.

Se querem penalizar os futuros reformados a partir de determinada data, aqui d'el rei que chovem os pedidos de antecipação de aposentação por parte de quem, agindo racionalmente, acaba por fazer agravar o encargo com essas reformas e obtendo-se assim um resultado oposto ao projectado.

Se querem penalizar com impostos sobre o rendimento as pessoas singulares ou colectivas, nomeadamente através de impostos sobre dividendos, eis que várias empresas correm racionalmente a antecipar essa distribuição para evitar parte do impacto previsto ...

Se querem aumentar o IVA sobre alguns bens, especialmente os de valor muito elevado (por exemplo viaturas ou barcos de recreio) então os agentes, racionalmente, antecipam-se na compra porque sabem que essa antecipação significa uma poupança significativa de impostos.

Quando se tratava de desvalorizações cambiais o mercado só era informado na exacta hora. Costumava-se dizer que a medida era tomada entre dois: o primeiro-ministro e o ministro das finanças. Nem as respectivas mulheres (se as houver) estão autorizadas a sabê-lo...

Não é assim de estranhar a notícia de que a venda de viaturas entre Janeiro e Outubro de 2010 em Portugal tenha crescido 38% face ao número do período homólogo do ano anterior.

Mas pode haver outra razão... Na Argentina, quando congelaram as contas bancárias, os bens móveis (automóveis, barcos e aviões) eram usados como forma de entesouramento e saída de divisas. Os proprietários conduziam, navegavam ou voavam para fora do país e convertiam em liquidez os meios então usados para outros fins.

Será que o mercado está a reagir do mesmo modo em Portugal e na Irlanda onde o número de viaturas vendidas mais cresceu em relação ao ano anterior?

Estará o mercado a antecipar já uma actuação semelhante à que se observou na Argentina?... Só me falta comparar os dados sobre compras de barcos de recreio e aviões...
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«DE» de 18 Nov 10

Cimeira

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Por João Paulo Guerra

VINTE E UM anos após a queda do Muro de Berlim, 20 anos depois da reunificação da Alemanha, 19 anos passados sobre a dissolução da União Soviética e a extinção do Pacto de Varsóvia, a NATO é o derradeiro arsenal, unipolar, da guerra fria. É o armazém da tralha de 46 anos de corrida armamentista e de chantagem nuclear. Não tem qualquer razão de existir, a não ser para fomentar o chorudo negócio do armamento, o poder do complexo e da clique militar-industrial que comanda a política americana, e dar emprego a milhões de apóstolos da guerra, formados em cursilhos na doutrina do poder e do terror militar, que agora pregam pelo Mundo, em vez da extinção do único bloco político-militar, o alargamento da NATO.

O objectivo é velho e relho. Já nos anos 60 do século passado, quando a NATO constituía o maior sustento do aparelho militar português nas guerras coloniais, os falcões da Aliança e os peneireiros de Lisboa sustentavam que o Trópico de Câncer deveria ser entendido "cada vez mais como um limite imaginário", de modo a não perturbar "a eficácia da Aliança". Mas terminada a guerra fria, não há justificação racional para a persistência e globalização da NATO. As ameaças invocadas - como o terrorismo ou a pirataria marítima - podem e devem ser enfrentadas num quadro multilateral de cooperação entre estados no seio nas Nações Unidas. E querer atribuir à NATO funções na luta contra o aquecimento global é o mesmo que entregar o comando das corporações de bombeiros a um incendiário. As guerras da NATO na Europa e no Médio Oriente contribuíram decisivamente para a destruição ambiental em vastas áreas do planeta.

Mas claro que a Cimeira vai aprovar tudo o que lhe aprouver. E assim será até que o mundo construído pelos senhores da guerra lhes rebente nas mãos.
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«DE» de 18 Nov 10

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Coitado do Sócrates!

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Por Baptista-Bastos

O MINISTRO Luís Amado andou por aí a dizer umas coisas. Certa gazeta semanal publicou as declarações e provocou um alvoroço que a natureza do facto não justifica. Que disse o ministro Amado? Na pureza do seu parecer, a salvação da pátria residia numa "grande coligação". Mais adiantou que, se circunstâncias anómalas assim o determinassem, Portugal sairia do euro. O tal sinédrio político seria, naturalmente, constituído pelo PS e pelo PSD. Desassossegado, o dr. Portas comunicou estar "disponível" para colaborar em tão admirável iniciativa.

Os banqueiros ficaram entusiasmadíssimos. O dr. Salgado, sempre exíguo de palavras, de semblante permanentemente carregado, impecável no penteado e na contenção do gesto, aplaudiu a virtuosa ideia e entendeu que gente daquela índole e estirpe merecia figurar na galeria dos santos.

Em Macau, aonde fora, sobretudo, pedir algum dinheiro emprestado, o eng.º José Sócrates não dissimulou a surpresa causada pelas declarações do ministro Amado. Infere-se, pois, que estas haviam sido proferidas à sua revelia. Longa e funda ruga de preocupação sulcou-lhe a testa. Inesperadamente, abria-se um capítulo de rebeldia na organização coesa do seu Governo.

A humilhação veio a seguir. O dr. Passos, sereno, elegante, sorridente, ajeitando a melena, apareceu e disse que coligações nem pensar, sobretudo com o PS de Sócrates, aprazível como uma catástrofe. Nesta excitação dos episódios e no grito emancipador do ministro Amado pode talvez descortinar-se o mal-estar no Governo, no partido, no grupo parlamentar, no secretariado, na minoria. Avantaja-se, nas sombras da intriga, nos silentes movimentos da conspiração, a ideia de que Sócrates já não é preciso para coisíssima nenhuma. E que, para se salvar alguma coisa, a tese de Lampedusa toma forma e conteúdo.

Se Sócrates não foi prevenido, pelo ministro Amado, das pesadas declarações que iria proferir, então, o caso arroga um relevo inquietante. Configura uma conjura do interior, destinada a isolar, cada vez mais, o primeiro-ministro. Aliás, este sente as teias com que o tentam envolver: tanto no PSD como no PS. A "coligação" não é, somente, uma proposta imaginativa. E se encontra muitas reservas e resistências, em todos os azimutes, há quem perceba que o PSD não obterá maioria absoluta nas eventuais futuras eleições. Os que mandam em Portugal nunca deixaram de agir consoante os seus particulares interesses.

O País está profundamente enfraquecido. Reflecte as ruidosas contradições do nosso tempo, as convulsões sociais, e a crise do sistema que roça os limites do suportável. A classe dirigente sabe muito bem que uma "coligação" não resolve o problema, prolonga-o no tempo, até se tornar numa simples questão privada. Até lá...
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«DN» de 17 Nov 10

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Boato

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Por João Paulo Guerra

EMPRESAS COTADAS
no PSI 20, que aumentaram lucros em 40 por cento nos primeiros nove meses do ano, devem estar a cantar hossanas à crise. Tal como as grandes empresas que ganham milhões escapando legalmente ao Fisco, apesar das subidas dos lucros. Assim como os milionários da Bolsa, com participações acima dos 10% e por esse motivo isentos de tributação, devem estar a aplaudir a bem-aventurança desta crise que se abate sobre o mundo, a Europa, o país mas, aqui chegada, distingue quem sofre e quem acumula.

E como é assim que se passam as coisas, não faltará daqui a pouco quem diga que a crise é um boato e que aquilo que verdadeiramente se passa é que os imensamente ricos precisam de esportular os derradeiros cêntimos dos bolsos dos últimos dos pobres para encherem um pouco mais o saco. Não me canso nunca, nesta coluna, de citar o velho e grande João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett: "E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico". Garrett foi um liberal do tempo em que os ideais liberais derivavam da liberdade contra a escravatura, e não, como hoje, procuram um étimo na liberdade de escravizar e explorar o próximo até mais não.

Por estes dias, se em Portugal a democracia e as instituições funcionassem, ter-se-ia produzido um profundo abalo com as duríssimas críticas da Igreja à absoluta insensibilidade social da classe política, uma casta que trata da vidinha, em vez que cuidar da causa pública.

E assim vai a crise. Com a miséria anunciada de uma absoluta maioria e a riqueza acumulada dos ricos que se produzem com milhões de pobres.
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«DE» de 16 Nov 10

O tempo e a falta dele

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Por Nuno Crato

MAIS UMA VEZ, ao ir levar um amigo estrangeiro ao comboio, esqueci-me de escolher a velha estação de Santa Apolónia e fui levá-lo à Gare Oriente. Má escolha! Não tive outro remédio se não sair do carro e acompanhá-lo — ele jamais descobriria a tempo onde são as bilheteiras. Comprámos a passagem e levei-o à escada para a plataforma. O meu amigo olhava em volta, confuso, e perguntou-me: «Quanto tempo falta?»

Reparei então que não havia nenhum relógio à vista e amaldiçoei de novo a escolha. Em Santa Apolónia não haveria dúvida: o relógio está à vista de todos, no local onde todos o procuram, no centro, bem no topo, comandando tudo. Assim deveria ser.

É curioso que a hora, tal como hoje a conhecemos, uniformizada em 1884 com fusos referidos ao Meridiano de Greenwich, é ela própria resultado dos caminhos de ferro. Antes de os comboios encurtarem distâncias e terem horários a cumprir ao minuto, cada terra tinha a sua hora, com uns minutos de diferença das cidades colocadas a oeste ou a leste. Isso pouco importava. Cada um podia seguir a sua hora solar. Em 1800, havia algum problema que um cidadão de Évora chegasse cinco minutos atrasado a um encontro em Lisboa?

Meio século mais tarde, as viagens de comboio chocaram com essa dispersão horária. Era muito aborrecido estar sempre a acertar os relógios de bolso, que já então estavam difundidos entre os viajantes. Podia-se perder um comboio na estação de transferência simplesmente por a hora local estar uns minutos desfasada da hora no local de partida. Algumas estações obviavam o problema tendo vários relógios. É o caso das estações suíças, que tinham nas gares a hora de Berna, de Lucerna, de Zurique, de Genebra… todas diferindo umas das outras apenas por uns minutos.

A paixão dos suíços pelos relógios é proverbial. E há um historiador de ciência moderno — Peter Galison, de Harvard — que diz que a passagem de Einstein por Berna, entre 1902 e 1909, pode ter sido decisiva para a criação da teoria da relatividade. Galison explica o problema num livro fascinante — «Mapas de Poincaré e Relógios de Einstein» — publicado em Portugal pela Gradiva. A coincidência, pelo menos, existe. O grande físico formulou a relatividade restrita em 1905, num artigo publicado três anos depois de ter chegado à cidade dos relógios. É verdade, os relógios estão presentes em todas as ruas de Berna.
Há a célebre Torre do Relógio, bem no centro da cidade, a uns três minutos da casa que Einstein e a sua mulher, Mileva, ocuparam na Kramgasse, uma das artérias centrais da cidade, e parte do seu percurso diário para a repartição de patentes onde trabalhava. A casa está hoje transformada num museu e o relógio continua a funcionar, coloridamente, com marionetes que se movimentam e um galo mecânico que cacareja, para gáudio dos turistas que se amontoam na rua, à espera que o relógio bata as horas.

A Torre foi construída no século XIII e o relógio no princípio do século XVI. Em 1905, já estava coordenado electricamente com o sistema de relógios públicos da cidade, com um sistema que terá feito Einstein pensar se a simultaneidade dos acontecimentos é um conceito extensível a todos os sistemas físicos.

Mas a grande marca da paixão pelo tempo encontra-se um quinhentos metros a sul, dentro da catedral da cidade. Incrustada no púlpito está uma velha ampulheta, que o padre deverá rodar antes de começar o sermão. Não convêm que se alongue para além do razoável. O tempo é para usar, não é para perder.
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«Passeio Aleatório» -«Expresso» de 13 Nov 10 (adaptado)

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Blindados II

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Por João Paulo Guerra

A ADMINISTRAÇÃO não consegue já conciliar as suas mentiras sobre o folhetim dos blindados.

A campanha promocional para compra de seis carros blindados para a PSP foi rodeada do maior alarmismo sobre a iminência de ataques terroristas em Portugal a propósito da realização da Cimeira da NATO. A Administração, ao mesmo tempo que jurava não querer espalhar "cenários alarmistas", foi semeando cenários alarmantes: pululam por aí grupos extremistas, alguns dos quais já receberam treino de acções terroristas, patati, patatá.

A primeira mentirola foi detectada quando a GNR veio dizer publicamente que estava em condições de emprestar à PSP blindados que eram para ter sido usados no Iraque, mas não chegaram a tempo e foram substituídos por carros emprestados pelos italianos. O que não impediu a GNR de adquirir blindados que chegaram fora de tempo e, por esse motivo, estarão a enferrujar por falta de uso. Alguém terá percebido então que o alarmismo se destinava simplesmente a explicar o gasto de cinco milhões para compra de seis blindados excedentários em relação às necessidades da PSP e GNR.

Certo é que, sendo dado adquirido que os blindados não chegam a tempo da Cimeira, a encomenda se mantém. Até parece que Portugal não tem mais nada em que empatar dinheiro a não ser em material repressivo.

Finalmente, quando se confirmou que os blindados não iam chegar a tempo da Cimeira, a Administração deixou escapar que afinal os blindados se destinam a possibilitar a entrada da PSP nos "bairros problemáticos". E como todos os antecedentes de casos deste tipo demonstram, os bairros tornar-se-ão muito mais "problemáticos" com patrulhas de blindados.

Uma verdade parece flutuar à superfície de tanta mentira: os blindados destinam-se a combater "inimigos internos".

«DE» de 12 Nov 10

A arte do improviso...

Lagos 13 Nov 10
Guindaste feito com um carrinho de supermercado

Da importância política da sopa

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Por Helena Matos

A SOPA É UMA ESPÉCIE de barómetro das nossas crises. Como não podia deixar de ser, neste ano da graça de 2010 ou da desgraça da dívida pública a 7,22% , aí está ela, a sopa, nas notícias sobre o aumento da procura nas cantinas escolares e nas instituições de solidariedade. Algumas escolas já terão cantinas a funcionar aos fins-de-semana. Tudo isto é acompanhado por aquele vox populi do “que comam pelo menos uma sopa”.

E contudo ainda há algumas décadas a sopa era um sinal do nosso atraso. Nos anos 60 e 70 era um dado adquirido que no dia em que fossemos todos evoluídos e europeus a sopa seria substituída pelos iogurtes e pelas saladas. Enquanto não se atingia esse depurado patamar civilizacional devia pelo menos tentar-se que os etéreos purés de cenoura substituíssem, nas nossas toscas mesas, aquelas sopas de feijão e grão que, a par da roupa pendurada à janela, eram um sinal inequívoco do luso atavismo, com a agravante estética que as ditas sopas nem para postal ilustrado serviam. Convém registar que nesses tempos em que o frango assado, os bifes e os combinados passavam por alimentos modernos, o top da boçalidade era ocupado por aqueles que preferiam o azeite ao óleo no momento de temperar a salada.

Ao fim de alguns anos gastronomicamente muito difíceis percebemos que podemos invejar o regular funcionamento das instituições holandesas sem que tenhamos de colocar nos nossos pratos aquilo a que chamam comida os muito democráticos e evoluídos holandeses. As palavras, neste domínio tal como na política, querem dizer uma coisa hoje e amanhã o seu contrário: aquilo que, como acontecia com as açordas e as feijoadas, anteriormente se chamava pejorativamente farta-brutos passou agora a designar-se sofisticadamente por dieta mediterrânica.

Enfim, atrás de tempos, tempos vêm. E ao menos nesta crise já não parece coisa de pobre comer-se sopa pois quando as crises nos visitam nós voltamos à sopa. E as crianças voltam às cantinas. Note-se que até há bem pouco tempo as cantinas escolares confrontavam-se não com o aumento da procura mas sim com a debandada dos adolescentes que na hora das refeições trocavam a antiquada cantina pelo bar mais próximo, onde invariavelmente gastavam mais dinheiro e comiam muito pior. (Por ironia nos estabelecimentos particulares de ensino, os alunos, até ao 9.º ano, comem quase sempre nas cantinas, o que custa menos às famílias do que a opção pelo bar de muitos alunos do ensino público.) O aumento da procura das cantinas escolares não é portanto necessariamente uma má notícia. O que já me parece uma má notícia é o anúncio da abertura das cantinas escolares nas férias e sobretudo aos fins-de-semana, como já está a acontecer ou poderá vir a ocorrer em alguns agrupamentos de Faro, Trofa, Setúbal e Rio de Mouro.

Se o objectivo é ajudar famílias em dificuldades disponibilizem-se-lhes alimentos que as crianças e as suas famílias confeccionem e comam em casa. Não se transforme a crise num pretexto para assistencializar as pessoas e quebrar os laços familiares. Quando as crianças vão comer à cantina escolar no sábado ou no domingo onde é que estão as suas famílias? Ficam em casa à espera que a junta de freguesia ou a paróquia abram uma cantina que sirva adultos? Ou talvez as famílias não existam ou funcionem muito mal e nesse caso falar de crise económica é um eufemismo para algo que de económico tem pouco.

Quando num dos seus livros de cozinha Jamie Oliver dá conta de que a resposta invariável dos seus interlocutores italianos sobre o local onde se comem as melhores massas ou a melhor polenta é a casa da “mamma” de cada um deles está a falar de muito mais do que de cozinha.

Por cada criança que não acha a sopa da sua casa a melhor de todas ou que pelo menos não tem memória dos cheiros da sua cozinha pagamos um enorme custo social, económico e moral. Crianças a comerem ao fim-de-semana na cantina da escola pode ser uma solução numa emergência mas não é uma resposta para a crise.
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«Público» e «Blasfémias»