sábado, 30 de maio de 2009


sexta-feira, 29 de maio de 2009

Provador – ou provador?

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Por Antunes Ferreira

QUE RAIO DE PALHAÇADA é esta? Depois, venham queixar-se. Quem? Os partidos políticos que tentam jogar desesperadamente na Assembleia da República o tema do Provedor de Justiça. Principalmente o PS e o PSD; mas também os outros que disfarçadamente assobiam para o lado, criticam os dois e fingem que têm solução – quiçá na manga. Mas, não têm.
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O Provedor tem de ser eleito por 147 deputados. Não há volta a dar. Para tanto, os dois «maiores» têm de chegar a um entendimento. A que não chegaram, pelo menos até ontem. Cada um puxa a brasa à sua sardinha. E Henrique Nascimento Rodrigues já há dez meses e picos que devia ter sido substituído. Dizia, ontem ainda, que ele iria renunciar, depois de conversas com Cavaco Silva e Jaime Gama. Já não lhe basta a espera inqualificável. Ainda por cima, está doente.
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Muitas vozes se têm erguido contra esta caricatura parlamentar e para lamentar. A última foi a do Presidente da República que não desaproveitou a oportunidade: o impasse «atinge a dignidade das instituições democráticas». O recado foi direitinho ao Parlamento e, bem assim, às forças políticas. É muito mais do que o meio caminho andado dos CTT. No caso, para chegar ao(s) destinatário(s) não é preciso o Código Postal.
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Cavaco usou assim o ditado que diz que «cá se fazem, cá se pagam». E vai ser muito difícil a São Bento encontrar uma saída airosa. Nem resposta aceitável, até porque Cavaco teve o cuidado de acrescentar que lamentava que os esforços que fez no sentido de uma solução para esta questão «não tenham dado resultado». E terminou: «vamos agora esperar a decisão do Parlamento». O hemiciclo ficou com a batata quente nas mãos.
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O que, pelo andar da carruagem, não quer dizer grande coisa, muito antes pelo contrário. Já aumentaram os decibéis usados por uns quantos (não tão poucos assim, infelizmente) para dizerem que os Portugueses – bem dizia o saudoso Senhor Doutor Oliveira Salazar – não sabem viver em democracia, não gostam do parlamentarismo, que é um perfeito entrave à ordem e ao progresso que devem reinar no País. Ou, melhor, em Portugal, expressão que é mais nacionalista.
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Se a Assembleia da República é desde há muito objecto de críticas, mas principalmente de troça, não será qualquer defensor que nomeie que lhe conseguirá retirar o estigma. Aquilo é uma bandalheira – afirmação que vem sendo frequente acompanhada as mais das vezes pela galhofa. Donde, o regime também é, a democracia idem e a liberdade, aspas.
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Estarão, então, em perigo estas três componentes? Será, então, necessária a intervenção providencial que redima este pecado capital, senão mesmo original, de nós Portugueses? Mas – qual? Quem? O espantalho do Senhor Dom Sebastião será mesmo um espanta-pássaros? Ou antes – um espanta-partidos? A bruma e o cavalo branco são desnecessárias. Basta o Messias.
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Penso que não, felizmente. Ainda que gostemos de mirar o passado e nele apoiar as nossas infantilidades, as nossas incapacidades e as nossas demissões, a Liberdade e a Democracia (aqui com caixas altas) têm o vigor bastante para ultrapassar este quiproquó. Mas, ai das bancadas parlamentares se não forem capazes de chegar a bom porto. O Provedor de Justiça não pode ser o provador de comportamentos no mínimo estranhíssimos.
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Lagos - O velho e o novo

Em 1.º plano, a estação da CP desactivada (porquê?)
Ao fundo, a nova...
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Repare-se no relógio de parede desaparecido e na cama do sem-abrigo.
As imagens daqui para baixo mostram aspectos da estação nova
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Perdoem-se os erros de ortografia, mas não o vandalismo nem a incúria.
Estes grafitos estão aqui há anos.
Só as lages quebradas é que são novidade da época balnear 2009.




O Estado-Providência

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Por Maria Filomena Mónica
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AO LONGO DESTA SEMANA, terminei a missão de dirigir, como «cabeça da família», o processo de partilhas após a morte da minha mãe. No meio das previsíveis polémicas, deparei-me com um facto inesperado: o subsídio (equivalente a seis salários mínimos) que o Estado concedeu à minha família para o enterro. Apesar da ruína do meu pai, pertencemos à alta classe média. Três dos quatro filhos são licenciados: uma filha é doutorada, a outra completou o mestrado e ele é advogado. Ironicamente, a única que não completou o Ensino Secundário é hoje a mais rica.
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Criado após a II Guerra Mundial em Inglaterra por Attlee, Bevin e Bevan, o Estado Providência moderno destinava-se a dar a todos, «do berço ao túmulo», condições de vida minimamente dignas. Os ideais eram nobres e, durante várias décadas, o sistema suscitou admiração. Em Portugal, no país do «pobres sempre os tereis entre vós», nada aconteceu, mas a elite sabia de onde sopravam os ventos. O marcelismo e, depois, a Revolução distribuiu algumas regalias. Acontece que, entretanto, as sociedades haviam mudado. De um triângulo – em que no topo havia poucos ricos, no meio uma classe média reduzida e na base uma multidão de pobres – passara-se para uma bola de râguebi, em que as classes médias haviam crescido substancialmente. Embora isto devesse ter levado o poder político a rever as políticas sociais, por temor do eleitorado mais numeroso e articulado, isto é, as classes médias, em nada tocou.
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Esta covardia teve um efeito: os pobres ficaram mais desprotegidos do que o necessário. Enquanto a minha família, que dele não carece, recebe um subsídio de enterro, as pensões dos velhos portugueses – as mais reduzidas da Europa - não podem aumentar, por o Estado carecer de receitas para o fazer. O dinheiro que o Ministério da Segurança Social nos entregou para o enterro da minha mãe é uma prova da iniquidade do actual Estado-Providência. A universalidade dos subsídios tem de acabar.
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Janeiro de 2008
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NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

quarta-feira, 27 de maio de 2009

O grau zero da política


Por J.L. Saldanha Sanches

A DISCUSSÃO sobre o bloco central tem esquecido o mais importante: o PS e o PSD só se coligarão se o país se encontrar de novo sob tutela, com um programa de reequilíbrio imposto de fora e em estado de necessidade financeira, tal como sucedeu no tempo de Mário Soares/Mota Pinto.
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A má vontade do PS e do PSD em relação a qualquer possível coligação explícita é uma característica central na nossa cena política. A acrimónia patológica da actual dirigente do PSD para com o primeiro-ministro pode ser doentia, mas tem raízes muito fortes no seu partido.

Contudo, como a própria já reconheceu para desmentir a seguir, naqueles avanços e recuos desastrados que marcam o seu estilo de actuação, essa aversão não impede nada.

Se a Europa sair da crise e Portugal continuar instalado na sua eterna crise com o défice externo sempre a subir, a dívida pública com problemas de refinanciamento e a necessitar de novas e mais radicais reduções da despesa pública, um governo minoritário não pode funcionar.
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O primeiro governo de Cavaco Silva tomou posse imediatamente a seguir ao bloco central ter suportado o odioso da redução do défice externo, dispôs de boas condições financeiras e durou pouco. Da sua existência nada se pode concluir.

O longo governo minoritário de Guterres só se pôde manter no poder com concessões a todos os interesses especiais, sem necessidade de decisões duras que em minoria nunca poderia ter tomado e só durou enquanto foi possível adiar estas decisões. O tal pântano que justificou a sua demissão era a apenas a necessidade de mudar de rumo sem que uma maioria qualquer o permitisse.

Governar em minoria negociando tudo e dando tudo a toda a gente, pressupõe um orçamento confortável com receitas fiscais a subir sem penhoras, nem aumentos de taxa. Na economia nunca se pode prever nada, mas será possível que isso se repita?

Além disso, o pior bloco central, com a sua merecida má reputação - o bloco central dos tráficos de influência e da corrupção – existe para além das coligações políticas e não depende delas. O bloco central governativo depende de uma não-existência da margem de decisão: uma solução única na política que é exigida pela existência de uma solução única na economia.
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As caras da solução podem ser várias: o bloco central não é um casamento, é uma convergência de políticas imposta pela situação de tutela exterior em que os desequilíbrios crónicos das balanças de pagamentos deixam um país: quando começam as negociações para financiamentos de emergência estas têm de ser feitas com uma maioria que possa pôr em prática as medidas desagradáveis que as acompanham.

Por isso o bloco central é o grau zero da política, acompanhado da descrença generalizada na coisa pública e na morte das ideologias: PS e PSD unem-se porque o eleitorado e o estado da economia não foi capaz de escolher e não lhes deixa outra alternativa. Os eleitores não escolhem porque não conseguem confiar em nenhum dos programas e, por isso, nem mesmo afastam o Governo em funções; a sua indecisão conduz a uma solução que lhes repugna e os afasta ainda mais da política.
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Nesse sentido o bloco central é a incapacidade de escolher e de decidir: a crise política a acompanhar a crise económica.
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«Expresso» de 23 de Maio de 2009- http://www.saldanhasanches.pt/

NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

CONVITE
Conferência sobre o livro «Morte na Picada», de Antunes Ferreira
28 Mai 09 / 19h
Biblioteca-Museu República e Resistência/Grandella
Estrada de Benfica, 419 - Lisboa.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Resposta: 1938

Há 90 anos, na ilha de Príncipe

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Por Nuno Crato
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EM 1919, A TEORIA da relatividade de Einstein, formulada em 1905 na sua versão restrita e em 1916 na sua forma geral, era já famosa entre os investigadores, mas era ainda desconhecida do público e ainda muito pouco referida nas universidades. Era então, em grande parte, uma formulação matemática que explicava fenómenos paradoxais sobre o comportamento da luz, mas que não tinha sido objecto de nenhum teste decisivo. A ocasião surgiu em 1919, com um eclipse total que permitiria registar a luz das estrelas passando perto do Sol. Nesse alinhamento, as estrelas tornam-se invisíveis para nós, pois o muito maior brilho do Sol esconde-as.
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Mas durante um eclipse total passam a ser visíveis, pois a Lua esconde completamente a nossa estrela. Fotografando as estrelas no limbo do Sol, pensaram os cientistas, seria possível medir o seu deslocamento aparente. Esse deslocamento seria devido à deflexão da luz na passagem por perto de um objecto de grande massa: o Sol. Ora a teoria de Newton previa um afastamento diferente do previsto pela teoria de Einstein. Era altura de pôr à prova a teoria da relatividade geral.
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Organizaram-se duas expedições para fotografar o eclipse. Uma à ilha de Príncipe e outra a Sobral, no Brasil, dois locais situados na faixa de totalidade do eclipse e dois territórios de língua portuguesa. O astrónomo britânico Arthur Eddington, figura central na comprovação e divulgação da relatividade, esteve em Príncipe, numa expedição atribulada. Outros astrónomos britânicos deslocaram-se a Sobral. Os resultados das medidas, que essencialmente corroboraram a relatividade, deram a Einstein uma notoriedade internacional.
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Tudo isto, e a introdução da relatividade em Portugal, foi discutido esta semana em animadas sessões na Sociedade de Geografia de Lisboa e na Biblioteca Nacional. Nesta última, decorre actualmente a magnífica exposição "Estrelas de Papel", dedicada à astronomia, onde se mostram as obras mais emblemáticas dos séculos XIV a XVIII, incluindo o período da revolução astronómica. A mostra é complementada com alguns instrumentos científicos da época.
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Quinta-feira 28 de Maio, no Observatório Astronómico de Lisboa, à Ajuda, a partir das 14h30, há um outro evento público comemorativo dos 90 anos da expedição de Eddington. Nele se fala do papel dos astrónomos portugueses no acompanhamento das novidades científicas que Einstein e outros trouxeram ao mundo.
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Os interessados, além de seguirem as sessões, podem ler um artigo (doi:10.1017/S0007087408001568) recentemente publicado no "British Journal for the History of Science", onde Elsa Mota, Paulo Crawford e Ana Simões explicam o desinteresse das instituições portuguesas na revolução einsteiniana, mas sublinham o papel de alguns astrónomos, nomeadamente de Manuel S. Melo e Simas (1870-1934), que tentou uma verificação observacional da teoria da relatividade. Este cientista procurou medir a deflexão da luz ao passar perto de Júpiter, o planeta de maior massa do sistema solar, de forma a complementar as observações do eclipse de 1919.
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Quem for ao observatório da Ajuda terá ainda ocasião, no final, de fazer uma visita guiada ao próprio observatório. É uma oportunidade, infelizmente rara, de ver uma das maiores preciosidades científicas do nosso país.
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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 23 de Maio de 2009
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NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Amor virtual

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Por Alice Vieira
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OS COMPUTADORES E A NET dominam cada vez mais a nossa vida.
E o jeito que nos fazem…
Já se ama e se desama através da net.
Rápido, eficaz e indolor.
Em vez de chorarmos no ombro do homem que nos deixou implorando-lhe que volte, clicamos para o Youtube, escolhemos uma cantiga daquelas que o vão pôr — esperamos…- de rastos, e não pensamos mais no assunto.
Aznavour é óptimo porque tem cantigas para todas as ocasiões e poupa-nos o esforço de arranjarmos palavras nossas.
É claro que há também quem responda aos ataques e se queira defender, deixar-te, eu?, sabes que se não fosse a minha mulher eras tu a mulher da minha vida! Para esses recomenda-se o recurso aos e-cards (convém misteriosamente assiná-los “Alguém”…) : tem muita saída aquele com dois ursinhos de peluche abraçados, e de dentro do peito de ambos explodem dezenas e dezenas de coraçõezinhos vermelhos, tantos que o écran até parece montra de loja de chinês em Dia dos Namorados.
Se não se trata de namorados mas de simples amigos ou familiares, as possibilidades são infinitas.
Nunca mais teremos remorsos por passarmos meses e meses sem falarmos com a tia Carlota, ou com a Prima Felisbela que é tão nossa amiga, coitadinha, mas também tão chata e, se a gente cai em ligar-lhe, acabamos por perder o episódio da “Anatomia de Gray” em que, pela 500ª vez, a Meredith manda o Dr. Sheppard às malvas.
Há uma gama infinita de textos que só querem o nosso bem.
Podemos escolher textos clássicos ou recorrer a autores contemporâneos (e já agora: se escolherem umas imagens de Paris com palavras de Garcia Marquez, pelo menos avisem que aquele texto é uma aldrabice, e que o pobre está careca de explicar que nunca escreveu uma piroseira daquelas).
E há textos muito jeitosos, com música de fundo tipo “El Condor Pása”, ao melhor estilo Rua Augusta, e que explicam o que é um amigo e para que serve.
E ficamos a saber que um amigo é aquela pessoa para quem tu vens sempre em primeiro lugar, para quem podes ligar a qualquer hora da manhã, da tarde, da noite e da madrugada porque está sempre disponível e, viva onde viver, vem a voar se sonha que precisas dele. E então a gente clica e manda aquilo para todos os que estão na nossa lista de contactos, sem esquecer de os separar por vírgulas, e por isso no espaço de segundos todos recebem exactamente o mesmo texto mas não faz mal – e embora a gente não tenha tempo de fazer um simples telefonema para dizer “olá”, garantimos, por interpostas pessoas, que estamos disponíveis para tudo e para todos.
E que, virtualmente, amamos o mundo inteiro.

«JN» de 23 de Maio de 2009

NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

sábado, 23 de maio de 2009

Entrevista empolgante

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Por Antunes Ferreira
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O QUE SE PASSOU ONTEM no Jornal de Sexta da TVI foi uma cena inqualificável. A entrevista feita por Manuela Moura Guedes a Marinho Pinto foi a demonstração perfeita do que por aquelas bandas televisivas acontece no «tempo de informação» do penúltimo dia de cada semana. Pior é difícil que volte a acontecer. Isto, se José Eduardo Moniz não voltar a aparecer no ecrã a defender o que é indefensável: a esposa e o (dito) noticiário. De resto, volto atrás na intenção de não qualificar o ocorrido: foi uma peixeirada, sem adjectivos, aliás desnecessários.
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Não pretendo vir aqui lavar roupa suja, com a qual – a existir – nada tenho que ver. Não me arvoro em juiz do que quer que seja, não me considero um moralista ou um puritano, não alinho em julgamentos televisivos, como não o faço perante os (mal) chamados julgamentos populares. Defendo, como sempre defendi e defenderei, o Estado de Direito. Que, por vezes, se me afigura um tanto esquecido entre nós – e por nós.
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O Bastonário da Ordem dos Advogados explodiu face ao interrogatório da apresentadora. A Santa Inquisição e, em especial, Tomás de Torquemada nada teriam a aprender com o procedimento de Manuela Moura Guedes. Quando muito, pôr-se-iam em dia com o que se verifica pela TVI às sextas-feiras. Obviamente sem Autos de Fé, nem fogueiras. Mas a actualização, essa, estava lá no estúdio.
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É sobejamente conhecido o feitio de António Marinho Pinto e o que ele tem motivado, sobretudo da parte de colegas que se sentem atingidos pelas afirmações dele. É um tanto estranho que causídicos, natural e normalmente caracterizados pelo conhecimento das leis e dos processos, se confessem enganados por um que elegeram para seu Bastonário. Implicitamente, está bem de ver, porque ainda não o disseram com todas as letras.
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Porém, o que é facto é que muitos advogados pedem a cabeça de Marinho Pinto. Por motivos diversos, alegam. Mas, penso eu – e penso também que tenho o direito de o pensar – pelo que o Bastonário tem de incómodo quando se pronuncia sobre muitos dos seus pares. As coisas são o que são: os que dizem o que pensam ser a verdade são sempre considerados inconvenientes. No tempo salazarento, a expressão usada era serem uns perigosos subversivos. Eu fui assim apelidado. Entre outros mimos que me endereçaram.
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O que ontem aconteceu em Queluz de Baixo deu azo a que o qualificativo geográfico dos estúdios tivesse sido completamente justificado: baixo. Na entrevista, Marinho Pinto, ao ser apelidado de «bufo» pela jornalista Moura Guedes, respondeu-lhe afirmando que ela «não tem autoridade nenhuma para emitir juízos de valor acerca do que se passa na justiça», e continuando no mesmo tom, acusou-a de fazer um «péssimo jornalismo» que «viola sistematicamente o código deontológico».
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A entrevista não acabou sem o Bastonário da Ordem dos Advogados afirmar que «se você me quiser fazer uma entrevista decente eu estarei disponível, mas… esta estação devia ter aqui uma jornalista decente e não alguém que deturpa constantemente as regras do jornalismo».
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Já não me restam quaisquer dúvidas: por vezes a TVI e a sua directora-adjunta da Informação fornecem-me motivos de sobra para usar o termo – são empolgantes.
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sexta-feira, 22 de maio de 2009

Isto não tem remédio!

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Por Maria Filomena Mónica
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ONTEM [7 Jan 08], RECEBI UM MANIFESTO intitulado «Cidadãos de Portugal», em que se apelava aos portugueses para retirarem o seu dinheiro do BCP, com base em que este iria ser controlado pelo PS, e da CGD, a qual iria passar para as mãos do PSD. Não sei como arranjaram o meu endereço electrónico, nem qual o motivo que terá levado os organizadores a pensar que teria conta numa destas organizações.
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Há muitos anos, estava o BCP em processo de parto, apareceu cá em casa um rapazola, declarando que iria ser criado um estabelecimento financeiro que se deslocaria até mim. Radiante com o serviço a domicilio, entreguei-lhe a minha poupança, mas a felicidade não durou. Pouco depois, soube que o tal banco não recrutava mulheres, o que me levou a retirar o pecúlio do mealheiro machista. Quanto à CGD, outros galos cantaram. Durante décadas, fui obrigada a receber o meu salário através do dito, com base em que era assim desde tempos imemorais. Na companhia do meu amigo Manuel Lucena, pensámos resistir, mas acabámos por nada fazer, até descobrirmos, com prazer, que o Estado abdicara do direito de pernada. Foi então que juntei as minhas contas num banco situado a dois minutos de casa, o Fonsecas&Burnay, hoje BPI.
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Apesar das peripécias da dupla CGD-BCP não me afectarem directamente, o espectáculo é deprimente, porque prova que trinta e quatro anos depois do 25 de Abril e vinte e dois após a adesão à Europa, não avançámos um milímetro. Como no século XIX e, mais tarde, no Estado Novo, é o poder político quem faz e desfaz fortunas. Durante a Monarquia Constitucional, era o contrato do tabaco – um monopólio que o Estado entregava ao seu favorito – que enchia os bolsos dos ricos (incluindo os de Henry Burnay, o fundador do meu banco), como, após o advento de Salazar, só enriquecia quem era abrangido pelo chamado condicionamento industrial. Fez-se uma revolução, houve saneamentos, nacionalizaram-se empresas, mas lá em cima, eterno e omnipotente, está, ainda e sempre, o Estado. O monstro não é o défice, mas o poder tal qual está organizado.

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Janeiro de 2008
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quarta-feira, 20 de maio de 2009

Rumsfeld vai ao teatro

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Por Baptista Bastos
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DONALD RUMSFELD, vestido a preceito, desce a escada, acompanhado da mulher. Estão sorridentes e, aparentemente, muito felizes. Vão assistir a um espectáculo. Rumsfeld, alto, elegante, delgado, é um homem rodeado de serenidade, feito de vagares, de andar plácido, e de leve sombra no olhar. A cena parece elementar e trivial. Eis senão quando entra em campo nova figura: uma mulher ainda nova, indignada, aos gritos, apopléctica, cuja voz se multiplica mil vezes: "Criminoso de guerra! Criminoso de guerra!" Abre as mãos molhadas em vermelho, e quase as enfia no rosto do cavalheiro: "Tem-las cheias de sangue!"
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O casal de elegantes está nos limites da perplexidade. São uns módicos segundos, mas pesam como os tormentos de um pesadelo. A mulher nova só pára de gritar quando a câmara faz um corte de plano. Sabemos, mais tarde, ser militante dos direitos cívicos, empenhada em acusar Bush, Rumsfeld, Dick Cheney e Condoleezza Rice de indignidade nacional e de crimes contra a humanidade.O episódio adquire outra espessura se o associarmos ao facto de, dias antes, havermos sido informados da existência de centenas de fotografias de torturas hediondas, a juntar às conhecidas, cometidas em Abu Ghraib. O cavalheiro calculado e tranquilo foi um dos acima nomeados que deram o nihil obstat às inomináveis atrocidades praticadas no Iraque.
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Nada vai acontecer a esta gente, nem sequer o sussurro de um remorso. Em causa não está apenas a repulsa moral. Mas sim a reiteração de um fenómeno totalitário que, periodicamente, se reacende nos Estados Unidos. Progride ou retrocede, segundo a conjuntura, aparece ou desaparece, é variável, e está latente na grande nação. A máscara ocultou o horror; este emerge quando a História procede a processos de desestruturação. Bush e os seus não são raridades. Resultam das armadilhas da política de última fronteira, tão comum a republicanos como a democratas. Houve a Coreia, o mcchartismo, Cuba, o Vietname, a Guerra das Estrelas, a cumplicidade com ditadores sanguinários. E há, sobretudo, o abissal desconhecimento que os americanos possuem de si próprios. O atrevimento do pobre Bush, em abrir a caixa de Pandora, reafirma uma identidade nacional muito bem expressa pelo cinema e pela televisão.Volto a Rumsfeld, tão cristão, tão tranquilo, tão imaculado, a caminho de uma festa. É a impunidade em marcha, momentaneamente sobressaltada pela gritaria da mulher em revolta. Rumsfeld sorri. Sombriamente, mas sorri. Arrasta atrás de si um cortejo de horrores, mas está protegido por um montão de privilégios abusivos. Os gritos são acusações densas, como o sangue que simbolizam.
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Sem maior segredo, enigma ou pesar, Rumsfeld sorri.

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«DN» de 20 de Maio de 2009
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segunda-feira, 18 de maio de 2009

Duas culturas

Por Nuno Crato
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DECORRERAM 5O ANOS desde o dia em que uma figura pesada subiu os degraus da vetusta Casa do Senado, na Universidade de Cambridge, e se dirigiu ao pódio para proferir uma conferência. Não era uma ocasião qualquer. Tratava-se da prestigiada palestra Rede, proferida anualmente nessa universidade inglesa perante uma vasta plateia de professores, alunos e convidados. Não se tratava também de um orador qualquer. Na altura com 54 anos, Charles Percy Snow, tinha já sido um cientista brilhante, tinha já sido um administrador do esforço de guerra e tinha-se já destacado como político. Além de tudo isso, desenvolvera uma carreira paralela como romancista. Alcançara o estatuto de figura pública, igualmente respeitada como homem de ciência e como literato. Seria certamente alguém indicado para falar sobre a unidade entre as ciências e as humanidades.
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Decorrida uma hora, no fim da sua palestra, C.P. Snow tinha lançado uma expressão - "duas culturas" - e iniciado uma controvérsia que duraria décadas. Hoje, 50 anos depois, a polémica continua e a expressão entrou no nosso vocabulário. Fala-se de duas culturas como descrevendo duas visões inconciliáveis de ver o mundo: a das humanidades e a das ciências. C.P. Snow, apesar de particularmente qualificado para estabelecer harmonia entre essas duas culturas, é considerado por alguns críticos actuais como o homem que não teria compreendido como a ciência seria também culturalmente construída, portanto parte integrante das humanidades, cabalmente explicada pela filosofia e pela sociologia literária. Para estes críticos, a unidade dos mundos deve produzir-se a partir de uma presumida superioridade de certa cultura filosófica.
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C.P. Snow tinha opiniões contrárias. Relendo-o, pode imaginar-se que intuía a vinda da descrença pós-moderna. Na sua alocução, começou por relatar um cisma entre a "intelectualidade literária", como ele a classificava, e o mundo da ciência. Referiu-se a "um abismo de incompreensão mútua" que gerava por vezes "hostilidade e aversão". Não poupou críticas às figuras da ciência que se desinteressavam da literatura e das artes e que presumiam que a filosofia era apenas uma divagação ociosa. Mas assestou as maiores investidas contra as incompreensões da cultura científica. Os "intelectuais literários designando-se apenas a si próprios como 'intelectuais', estão a presumir que não há outros", afirmou. Citando o matemático G.H. Hardy, um autor sensível de que vale a pena ler a "Apologia de Um Matemático" (SPM/Gradiva, 2008), reproduzia o seu espanto: "Já reparou como a palavra 'intelectual' é usada hoje em dia? Parece-me que há uma nova definição que, decerto, não me inclui, nem a Rutherford, Eddington, Dirac ou Adrian. Tudo isto é bastante estranho, não acha?".
Passados 50 anos, vale a pena reler a obra de Snow. E vale a pena nela reler as suas menos conhecidas preocupações com a educação. Revoltando-se contra a prematura escolha entre as áreas científicas e de humanidades que a educação britânica na altura impunha os jovens, C.P. Snow considera que esse erro educativo tinha repercussões gravíssimas, produzindo gerações desprovidas de uma das culturas. Essas gerações estariam privadas de grande parte do mundo futuro.
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Algumas das suas frases finais são arrepiantes: "Não será tempo de começarmos? O perigo está em que fomos educados a pensar como se dispuséssemos de todo o tempo do mundo." Tê-lo-emos?

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«Passeio Aleatório» - Expresso» de 16 de Maio de 2009

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Solução do passatempo «O que fez a PSP?»

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Hotel Roma, Lisboa
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A FOTO DE CIMA mostra uma praça de táxis 'às moscas', e o que fazem alguns daqueles para quem ela foi criada.
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A do meio mostra o resultado de tal prática - mas não faz mal, pois o Zé Povinho já pagou a reparação.
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Finalmente, a de baixo mostra a Polícia Municipal a rebocar um carro que teve o atrevimento de utilizar um dos lugares que os taxistas amiúde desprezam.

domingo, 17 de maio de 2009

Sem comentários

sábado, 16 de maio de 2009

Dito & Feito

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Por José António Lima
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A NOTÍCIA de que o inquérito a alegadas pressões sobre os magistrados que investigam o caso Freeport ia dar origem a um processo disciplinar ao procurador Lopes da Mota foi uma novidade mal recebida pelo PS. Que reagiu com um silêncio gélido e preocupado. Só quebrado, depois, pelo porta-voz Vitalino Canas para responder, na defensiva, aos outros partidos que pediam o afastamento de Lopes da Mota da presidência do Eurojust. «Procurar retirar quaisquer ilações políticas é puro oportunismo», limitou-se a considerar Vitalino. Sem impedir que qualquer eleitor atento e informado vá retirando cada vez mais ilações políticas de todo este processo.
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MAS a novidade do inquérito disciplinar a Lopes da Mota, além de mal recebida, foi também mal digerida por alguns sectores do PS. O ex-ministro e advogado António Arnaut apareceu a dizer que este caso «só foi possível por delação de dois magistrados do Ministério Público». Delação?! Arnaut não mede as palavras? Confunde os órgãos da magistratura democrática com uma qualquer polícia política?
O ex-ministro do PS explica-se: «Qualquer magistrado que se preze, e é uma condição sine qua non para exercer a magistratura, quer judicial, quer do Ministério Público, não pode dizer que foi pressionado». Não pode?! Ora essa. Não só pode como deve. O que não pode, pelas funções que exerce, é deixar-se pressionar. Mas deve denunciar pressões ilegítimas, tentativas de condicionamento antidemocráticas, ameaças inaceitáveis e interferências indevidas do poder político – como parece, cada vez mais, ser o caso em apreço. E deve fazê-lo em nome da separação de poderes e da transparência da vida democrática.
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DELAÇÃO?! António Arnaut, que foi há pouco grão-mestre do Grande Oriente Lusitano, parece sofrer a síndrome do secretismo, dos círculos fechados e da informação reservada que são apanágio da maçonaria. Uma «organização discreta», como caracteriza Arnaut. Pelos vistos, a opacidade maçónica não convive facilmente com notícias pouco discretas. Como as das pressões no caso Freeport. Ou com «notícias arrepiantes», nas palavras de José Sócrates, esta semana, a propósito do BPN e do BPP.
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«Sol» de 16 de Maio de 2009
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NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

Embaraço

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Por João Paulo Guerra
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Mais uma originalidade do situacionismo português: Portugal está de momento a ser representado na Unidade Europeia de Cooperação Judiciária por um magistrado sob suspeita no seu país e que, por sinal, até preside a esse órgão da União Europeia.
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POIS O PRESIDENTE do Eurojust, um português, está a ser alvo de um processo disciplinar em Portugal por suspeita de exercer pressões sobre outros magistrados para que arquivassem um processo. Como diria o falecido general Galvão de Melo, a respeito de outra instituição e em outro tempo, a justiça portuguesa deixou de ser uma vergonha nacional. Agora é uma vergonha internacional.
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Claro que um cidadão sob suspeita é inocente até prova em contrário. Mas seria de bom tom e do mais elementar bom-senso que se evitasse que Portugal, por via do seu representante que preside ao Eurojust, fosse olhado de soslaio pelos parceiros europeus. É a representação externa do Estado que está em causa neste caso, mas isso parece não perturbar o ramerrame de interesses, conveniências, compadrios que vigora em Portugal. Escrevo ao princípio da tarde de quarta-feira admitindo que ainda reste algum laivo suficiente de sensatez que aconselhe ou leve o senhor procurador-geral adjunto a demitir-se, a suspender o mandato, a meter férias, entrar de baixa, vir visitar a família, de modo a evitar a Portugal uma situação de completo embaraço.
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O que já não é evitável é o falatório que vai no país e irá na Europa em redor do perfil do presidente português do Eurojust. Pelo seu passado e casos do seu currículo, o procurador é sem dúvida um homem de absoluta confiança e total fidelidade ao partido. O magistrado poderá ser o homem certo para o Governo. Mas para o país está no sítio errado.
«DE» de 14 de Maio de 2009

NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

Fazer amor

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Por Antunes Ferreira
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HÁ ANGLICISMOS que até nem são maus. Há, porém, outros, que nem sequer são bons. O amigo Banana não diria melhor. Aqui, apenas abordo a linguística, nada de política. Fora essa a ideia e logo viria à baila o Mapa Cor-de-Rosa, o Ultimato e o Guerra Junqueiro com o «ó cínica Inglaterra, ó bêbada impudente» contrapondo-se à conquista de Lisboa aos mouros, à aliança mais velha da Europa, à Dona Filipa de Lencastre e ao Wellington. Já para não elencar na economia a Anglo-Portuguese Thelephone, a Carris, os vinhos do Porto e da Madeira, os tecidos da Covilhã, enfim.
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Fique-me, portanto, pelo que são os registos vocabulares da nossa Língua Portuguesa provindos da Inglesa e, sobretudo, dos arrevesadamente adoptados. E é o caso do fazer amor. Expressão que não existia no vocabulário lusitano, até há bastante pouco tempo. Entretanto, com o advento do make love, lá fomos apressadamente incluí-la no corriqueiro dia-a-dia.
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Somos - apesar de em tempos apelidados e bem de colonialistas – estruturalmente uns colonizados. Volto a acentuar que me escapou a pena para a política, que, para o caso, não deve ser tida nem achada. Mas, é. Antes de tal invasão, usava-se, em bastas situações, terminologia a cair no calão. Hoje, por exemplo e só, ninguém está a ver um sujeito apostrofar outro vigorosamente sem o vernáculo.
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Quando se falava em paixão eterna, em almas juntas até à eternidade, ou se chegava mesmo ao Noivado do Sepulcro, as pessoas amavam-se, não faziam amor. É claro que faziam, mas não usavam o anglicismo. Utilizavam outros termos ainda que as práticas fossem as mesmas. E não falo do recato, mentira piedosa que era apenas disfarce para actuação atrás da porta. Falo no coito, para não falar noutra coisa semelhante mas menos publicável.
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No chiqueiro que foi o Vietname, ficou célebre a asserção make love, not war. Os hippies foram os seus principais criadores, de flor em punho, mas outros houve. Muitos. Não me posso esquecer da Jane Fonda, entre o coerente e o contraditório, pois a sua Barbarella conjugava o amor e a guerra, aliás de forma muito aliciante. Mas nem toda a gente nasceu para tais compromissos. Adiante.
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Não descortinei, pelo menos até à data, nenhuma unidade fabril que faça amor. Isto é que o produza, industrialmente falando. Nem sequer um artesão que seja. E pergunto-me se existe alguém que saiba tricotar amor, que ou que o saiba cozinhar de mil e uma maneiras como acontece com o bacalhau, ou que o saiba alinhavar, à maneira das costureiras em vias de desaparecimento.
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Apesar da intenção inicial, ocorre-me o acontecimento político de ontem, que foi a visita relâmpago do primeiro-ministro à Madeira. Onde Alberto João Jardim o recebeu «de braços abertos», tal como anunciara previamente. Não se veja aqui qualquer soez insinuação sobre o tema. Declaro, sob palavra de honra e devidamente ajuramentado – na dúvida, e em processo, ajuramenta-se o declarante – que não se trata disso.
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Mas não me admirava que, após os encontros no Palácio de S. Lourenço e a partida do chefe do Governo, o Sr. Dr. Alberto João desabafasse para Miguel Mendonça que reafirmava o que dissera, isto é, Sócrates era o pior primeiro-ministro de sempre. E que acrescentasse «ele que se vá f…azer amor… para Lisboa.
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Fama

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Por João Paulo Guerra
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O turco Mehmet Ali Agca, que cumpriu pena de prisão por tentativa de assassínio do papa João Paulo II, em 1981, pena acrescida por outra respeitante ao homicídio de um jornalista, em 1979, anunciou que já meteu os papéis para obter a nacionalidade portuguesa.
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VEJAM BEM A FAMA de Portugal, da situação e da Justiça portuguesas. Que honra!
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Ali Agca, antigo membro do bando terrorista nazi "Lobos Cinzentos", cumpriu 19 anos de prisão efectiva em Itália e mais cinco na Turquia, saindo em liberdade condicional em 2006. Em Portugal e sendo português, se tivesse alguma vez chegado a ser preso, nunca teria cumprido tanto tempo de prisão. As penas para os crimes mais medonhos são de 25 anos, que também é o tecto do cúmulo jurídico, e não deve haver um único caso de cumprimento integral de uma pena de cadeia. Por essa e por outras razões, o cadastrado Mehmet Ali Agca descobriu agora a sua irreprimível vocação portuguesa.
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De facto, para alguns espíritos tão mal formados como mal informados, Portugal pode parecer um paraíso na Terra, onde alguns delinquentes financeiros recebem chorudos apoios do Estado, certos processos judiciais hibernam ou prescrevem à pressão, há crimes que compensam e compensações, como o enriquecimento ilícito, que nem sequer são crimes, a justiça exerce-se em segredo e o segredo de justiça tem fugas perfeitamente organizadas e controladas, o tráfico de influências e a cumplicidade são modalidades instaladas para escapatórias e delongas, as leis têm mais buracos que um queijo suíço, os polícias prendem para as estatísticas e depois deixam os criminosos em paz. E, como se tudo isto não bastasse, há sempre a hipótese da cereja no cimo do bolo: um convite para um patusco congresso num destino exótico.
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«DE» de 15 de Maio de 2009
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sexta-feira, 15 de maio de 2009

Surpresa!
Aqui, o "C" de "Constructora" justifica-se, porque é o nome da empresa, espanhola.
Prémio do passatempo a realizar em breve, no Sorumbático,
a propósito do filme «Anjos e Demónios»

A minha saúde mental

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Por Maria Filomena Mónica
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HÁ DIAS, UM CONJUNTO de circunstâncias levou-me a pensar que deveria ingressar rapidamente na ordem da Cartuxa, onde, como se sabe, o silêncio é a regra de oiro. Até cheguei a indagar da possibilidade junto de uns amigos que conhecem esta congregação religiosa por dentro, mas eles logo me preveniram que uma das condições, a obediência, se não adequava ao meu temperamento. Perguntar-me-ão o que levou uma ateia como eu a pensar em tal hipótese. A resposta é simples: a poluição sonora crescente das sociedades contemporâneas.
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Raro é o restaurante de luxo onde, enquanto tento almoçar, não tenha que suportar música de fundo; não há sala de espera de clínicos, por mais famosos, onde não seja forçada a conviver com seres, aparentemente civilizados, falando ao telemóvel aos berros; não há jantares com amigos que não sejam interrompidos por um intervalo em que um deles sente a necessidade urgente de enviar um SMS; não há sala de espera VIP de um aeroporto em que não seja forçada a ouvir o bipbipbip dos mails recebidos pelos yuppies que passaram a habitar estes espaços; não há elevador de um prédio elevado que não nos ofereça uma musiquinha pateta: não há serviço, público ou privado, que antes de nos pôr em contacto com quem desejamos falar, não nos obrigue a escutar um disco qualquer; não há lanche de crianças em que se não ouça obrigatoriamente os ringringring dos Nitendos que hoje parecem fazer parte da anatomia infantil.
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Isto se mencionar apenas os meios privilegiados. Descendo na escala social, temos as televisões eternamente ligadas nas tascas, as gritarias das vizinhas que gostam de intrigar à janela, os nininini das máquinas registadores dos hipermercados e os cães encarcerados nos logradouros de Lisboa que passam o dia e a noite a ladrar furiosamente na tentativa de que alguém os salve daquele calvário.
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Se exceptuarmos a sala de leitura da Biblioteca Nacional – e mesmo esta sabe Deus! - o quotidiano moderno está a ser invadido por uma multiplicidade de ruídos que, permanentes, passam contudo desapercebido. Tem-se publicado muitos e desvairados estudos sobre as causas da criminalidade, mas em nenhum deles foi incluído a variável ruído, o que é surpreendente. A actual ASAE tem como fim vigiar a segurança alimentar. Sugiro ao governo que alargue rapidamente o seu âmbito, de forma a que a instituição persiga ainda todos aqueles que, no espaço público, quebrem o silêncio, visto ser este um bem necessário ao nosso bem-estar psíquico.
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Dezembro de 2007
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quinta-feira, 14 de maio de 2009

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Os homens incertos

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Por Baptista Bastos
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OS INCIDENTES no Bairro da Bela Vista repõem, de novo, a questão da identidade instável. Não é só a fome, a miséria, o desemprego, a promiscuidade, a ausência de perspectivas, o conceito de cerco que criaram as tensões e os conflitos. Embora essas formas de agressão social fossem mais do que suficientes para os explicar. Aqueles jovens, em última instância, não sabem quem são, e moldaram novas dimensões identitárias.
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Quem são os excluídos? Quem se excluiu? Nós. Abandonámo-los. Nasceram em Lisboa mas não são lisboetas; têm a pele escura mas não se sentem africanos; as músicas de que gostam procedem dos Estados Unidos; vestem-se, falam e comportam-se de molde a reivindicarem a "diferença" a que os temos obrigado. A sua comunidade é "outra" porque essa escolha foi-lhes rudemente imposta pela nossa escabrosa indiferença.
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Não nos queremos aproximar, descomprometemo-nos das responsabilidades que nos cabem, toleramo-los sem tentar compreendê-los e muito menos lhes manifestar a menor dose de afecto. Os gritos histéricos, e as poses, afinal grotescas, de Paulo Portas, a reclamar mais fortes intervenções policiais, seriam apenas repugnantes, não fossem extremamente perigosas. Elas reflectem a desprezível ignorância de quem deseja, unicamente, conservar o domínio sobre a diferença. Ou, parafraseando D. Manuel Martins, colocar uns de um lado e outros do outro.
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As explosões sociais que se avizinham, devido ao acumular dos ressentimentos, e a que o Governo parece alheio, são acirradas por uma comunicação social mal preparada, pouco culta e, até, terrorista. Basta reparar nas perguntas formuladas, no enquadramento (ou na falta dele), para se perceber a distorção da "realidade" e a total vacuidade do conhecimento histórico. A informação que nos servem peca por leviandade, favorece sentimentos xenófobos e racistas, e exala um forte cheiro a retaliação. O pior é que somos impotentes para inverter esta tendência maléfica. Sem compreendermos a complexidade do assunto, a natureza delicada do problema, somos empurrados para a tirania da emoção, a qual nos coage a tomar o "outro" como assassino, ausentando-nos de culpa - como se nada tivéssemos a ver com "aquilo." E "aquilo" é, no fundo, a busca de uma expressão pessoal, entre uma cultura que se defende, por desconhecimento e receio do "outro."
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Em que raio de gente nos tornámos? Fomos sempre assim, centralizando-nos num egoísmo tão feroz e num tão gelado desprezo pela humanidade? A simplificação dos elementos, a crise dos laços sociais, procria, diariamente, novas formas de indignação e movimentos irracionais de resultados imprevisíveis. "Uma fogueira preparada para incendiar o País", na acertada expressão de D. Manuel Martins.
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«DN» de 13 de Maio de 2009
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terça-feira, 12 de maio de 2009

Paradoxos dos Jogos

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Por Nuno Crato
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IMAGINE QUE ENTRAMOS num casino que nos propõe o seguinte jogo. Colocamos 100 euros em cima da mesa e ganhamos ou perdemos atirando uma moeda ao ar. Se cair caras ganhamos 40 euros; se cair coroas perdemos 30 euros. Devemos aceitar o jogo?
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Se a moeda estiver equilibrada e a lançarmos honestamente, as probabilidades são as mesmas. Ganhamos 40 euros com probabilidade 1/2 e perdemos 30 euros com probabilidade 1/2. O valor esperado deste jogo é 40/2-30/2, ou seja, 5 euros. Isto significa que, se pusermos muitas vezes 100 euros em cima da mesa e repetirmos o jogo, ao fim de um número grande de lançamentos teremos ganho, aproximadamente, 5 euros por cada lançamento. Ao fim de mil jogadas deveremos acumular uns 5000 euros. Vale a pena ir a este casino. Para nós, é uma máquina de fazer dinheiro.
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O funcionário, contudo, sabe que é uma maçada estar sempre a colocar 100 euros em cima da mesa e resolve simplificar-nos a vida. Em vez de ganharmos, de cada vez, 40%, ou perdemos 30%, sobre 100 euros, como ao princípio, colocamos os 100 euros em cima da mesa e repetimos o jogo ganhando de cada vez 40% ou perdendo 30% do que tiver ficado em cima da mesa. Assim, por exemplo, se sair “caras, caras, coroas”, os 100 euros transformam-se em 140, a que se somam 40% de 140, ficando 196, a que se retira 30% de 196, ficando 137,20, e assim por diante.
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O funcionário do casino parece estar a facilitar-nos a vida. Por que não? Pomos a máquina de fazer dinheiro a rolar e vamos dar uma volta, satisfeitos. Aproveitamos para jantar bem e beber melhor. É à conta do jogo.
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Passadas duas horas passamos pela mesa para recolher o nosso dinheiro. Entretanto, a moeda foi lançada ao ar 100 vezes. Quanto dinheiro esperamos recolher? Vários milhares de euros, não?
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Ficamos surpreendidos, pois o funcionário dá-nos apenas 36 euros. E as nossas testemunhas dizem-nos que, caso extraordinário, “caras” apareceu 50 vezes e “coroas” outras tantas. O jogo foi equilibrado. Como pode isto ter acontecido?
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Pode! Ao fazer o jogo sequencialmente, o resultado é o produto de 100 euros por 140%, 50 vezes, e por 70%, outras 50 vezes. Faça o leitor as contas. Sobram-nos 36 euros. É que 140% vezes 70% é 98%, ou seja, por cada sequência “caras-coroas” perdemos 2% do dinheiro em cima da mesa.
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Este paradoxo, que afinal se percebe bem fazendo contas simples, é uma curiosidade simples da chamada Matemática Recreativa, tema que na semana passada trouxe a Portugal vários peritos internacionais da área. Realizou-se um colóquio em Évora, por iniciativa da Associação Ludus, e houve várias pequenas conferências em Lisboa. Numa delas, organizada pelo centro de investigação Cemapre, o matemático David Wolfe teve oportunidade de discutir este pequeno paradoxo dos jogos, que vale sobretudo pelo que sugere noutras áreas. Uma coisa é somar valores esperados outra coisa é multiplicá-los.
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Transponha o leitor o problema para o seu cálculo de juros bancários. Se um banco lhe fizer um empréstimo cobrando 4% de juros em cada semestre e o remunerar em 8% ao ano pelos seus depósitos a prazo, quem fica a ganhar?
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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 9 de Maio de 2009
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segunda-feira, 11 de maio de 2009

Pode o crime ajudar a combater o desemprego?

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O autor de tão estranhas palavras foi Karl Marx, tendo o texto sido traduzido de «Matériaux pour l' économie», in «Économie II», La Pléiade, Paris, pp.399-400.
As imagens aqui afixadas foram extraídas do saboroso livro «Cadáveres Esquisitos», de Ernst Mandel Ed. Cotovia, pág. 29 e 30.

Livros para deitar fora

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Por Alice Vieira
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CONFESSO: não sou capaz de deitar livros fora.
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De resto, eu pertenço a uma geração que tem muita dificuldade em deitar fora seja o que for. Por isso os objectos se vão acumulando e eu perguntando-me “o que é que faço a isto?” Já pensei em fazer uma trouxa e ir vendê-los para a Feira da Ladra, mas os meus horários não me permitem ficar lá uma data de horas à espera de ver aparecer multidões interessadas em galhardetes, quadros com o brasão de juntas de freguesia de terras que nem sei onde ficam, frascos de perfume há muito vazios, amostras de tecidos, restos de lãs que nem para quadrados de mantas de patchwork já servem, etc.
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Mesmo assim, de vez em quando tapo a vista com a mão, encho-me de coragem, e reúno sacos a abarrotar de lixarada, e venho colocá-los à noite ao lado dos contentores, não vá passar alguém que ainda lhes descubra serventia.
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Mas livros é que não.
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Livros não sou mesmo capaz.
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O pior é que, para lá de receber muitos livros (os meus amigos pertencem quase todos ao ramo…), eu ainda sou uma compradora compulsiva! Compro livros porque são de autores de que eu gosto, ou porque li uma crítica que me entusiasmou, ou até — assumo…- porque têm capas que são um espanto… Mas às vezes, prometem muito e dão pouco.
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Então, periodicamente, encho caixotes de livros que vou enviando para bibliotecas ou escolas: livros que sei que nunca mais vou reler, livros que tenho em várias reedições, ou até livros de que eu, pessoalmente, até posso não gostar mas entendo que outros amem de paixão.
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Mas não é desses que estou a falar: refiro-me àqueles que não mereceriam (se eu fosse capaz…) outro destino a não ser o lixo. Tão maus, ou tão inúteis, ou tão fora de prazo que não me passa pela cabeça dá-los nem ao meu pior inimigo.
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Nos primeiros tempos da revolução, quando, de repente, descobrimos que podíamos viajar para os países até então proibidos da Europa de Leste, era fatal: regressávamos todos de lá vergados ao peso de toneladas de volumes encadernados com todas as intervenções dos camaradas nos diversos órgãos de soberania dos seus países. E – requinte dos requintes! - muitos deles na língua original.
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Lembro-me de ter tido de comprar um saco só para nele enfiar os discursos do camarada Jivkov, que me ofereceram na minha primeira ida à Bulgária.
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Digam-me: o que é que eu lhes faço?
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Contava o meu querido Alçada Baptista que uma das suas tias, ao ver-se confrontada com a pergunta de uma das criadas (“o que é que eu faço às listas velhas do telefone?”) terá respondido: “dê a um pobrezinho.”
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Se calhar, vou seguir-lhe o exemplo. Tal como eu, ela também era de um tempo em que não se deitava nada fora.

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«JN» de 9 de Maio de 2009
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domingo, 10 de maio de 2009

As convicções no baloiço

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Por Nuno Brederode Santos
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AO AVANÇARMOS NA VERTIGEM pré-eleitoral, acentuam-se as confusões de ideias e as habilidades verbais, os truques para os media verem, as tentações populistas, a manipulação da rua, os ataques pessoais e as excepcionalidades administrativas de curtíssimo prazo. Mantenho que nada disto seria importante se às crianças de hoje só viesse a chegar, como no futebol, o resultado histórico final. Mas como é muito duvidoso que o resultado final seja assim tão histórico, o mais certo é que, na pedra, só fique gravado o anedotário e aquela atitude impensada ou a palavrinha traiçoeira que, no calor de um debate ou no destempero de uma pose para a televisão, o actor político (ou económico ou social) deixa escapar para a eternidade possível. Como o - esse sim, histórico – voo sem rede de um deputado que se preocupava com relações sexuais sem intuitos de procriação e que Natália Correia estatelou a tiros tribunícios, com o famoso e poético “truca-truca”.
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Os últimos dias trouxeram disto exemplos vários. Como, de resto, sempre trazem. Eu pego neste. Porque gosto.
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Todos os partidos – numa unanimidade que um voto contra, uma abstenção e (creio que) três declarações de voto, por muito que honrem, não desmentem – votaram a nova versão da lei sobre o seu financiamento. Dos mais temperados pelo exercício do poder aos mais remetidos ao apostolado moralista por insuficiência de votos. Por boas e más razões, todos eles despertaram com isso hostilidades e dúvidas, não sei se generalizadas, mas, pelo menos, excessivas. Pela parte que me toca, mantenho as reservas que manifestei aquando da primeira versão: mesmo que não fosse a altura de acentuar a componente pública sobre a privada nesse financiamento, não se deveria ter aberto a porta a um retrocesso. E haverá retrocesso desde que, como é inteiramente previsível, for impossível uma fiscalização convincente e eficaz. Mas a minha posição é inteiramente irrelevante para o caso. Ao contrário do que parece ser um recuo do PSD. Dias depois da votação, ainda tão fresca – e após Paulo Rangel ter dado a cara pela decisão do parlamento e do seu partido – já Manuela Ferreira Leite recuava na colagem que fez às palavras de Cavaco e sugeria que o PSD pode mudar de posição (se vierem a surgir “efeitos perversos”, é claro). A gente sabe que toda a legislação é testada através da sua aplicação (que é o seu cotejo com o real). Mas sabe também que isso abre para a possibilidade de tal avaliação ser feita após as eleições que se perfilam, remetendo assim a apreciação final para depois delas. Por outro lado, sublinhá-lo em cima da decisão e aos primeiros embates com a hostilidade e a descrença só contribui para a insegurança do direito, o que não honra quem tanto diz preocupar-se com a ineficácia do nosso sistema de justiça. O “vamos a ver se a lei pega”, que os brasileiros reivindicam para si, é um dos maiores contributos para que a justiça não funcione. Mas a lógica eleiçoeira e populista de, em período eleitoral, tergiversar ao sopro das vozes inorgânicas é isso e mais qualquer coisa de pior. Além de que se baseia num preconceito infantilizador do eleitorado que ainda não deu grandes provas. (Declaração de interesses: cá por mim, ainda bem. Em coincidência, se não de alma, pelo menos de circunstância, com Rui Rio e Marques Mendes, mais uma listagem onomástica que não tenho aqui à mão).
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O que vale é que o cidadão eleitor já sabe. Destas e de tantas outras tropelias da razão e da vontade. E julgo que já escolhe o que mais lhe apraz para a quadra festiva que aí vem. Pode sofrer e arrancar os cabelos agarrado à televisão. Pode ser displicente e aliviar a paixão e a atenção na leitura diária dos jornais. E pode preferir recolher a um “bunker” da consciência, ajustando o despertador para as 17 horas do dia sete de Junho. Aí, levanta-se, lava-se, sai de casa e vai votar. Como responsavelmente lho mandarem a convicção, a experiência, os interesses e a livre vontade. Porque é exactamente a essa hora que ninguém pode impedi-lo de ser o dono do mundo. Do mundo que mais lhe importa, pelo menos.

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«DN» de 10 de Maio de 2009
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sábado, 9 de maio de 2009

Capa de Lima de Freitas

Fazer farinha

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Por Antunes Ferreira
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Para:
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Excelentíssimo Senhor Professor Doutor Manuel Pinho, digníssimo Ministro da Economia e da Inovação
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Cc:
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Excelentíssimo Senhor Doutor Paulo Rangel, ilustre Deputado e cabeça de lista do Partido Social Democrata às eleições europeias
Excelentíssima Senhora Doutora Manuela Ferreira Leite, insigne Presidente do Partido Social Democrata
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Excelência
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Em nome da Associação dos Antigos Consumidores das Farinhas Amparo, 33 e de Trigo Torrada (*), venho apresentar a Vossa Excelência (V. Ex.ª no seguimento deste documento) o nosso mais veemente protesto e o nosso mais sublinhado repúdio pelas palavras que endereçou ao Senhor Deputado Paulo Rangel sobre as papas de farinha Maizena.
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Tenho, antes do mais, e sempre na qualidade de representante devidamente mandatado da AACFA33TT, de reprovar a citação a um produto dito alimentar originário dos EUA e proveniente de multinacional bem conhecida. É, por isso, e logo de início, que acentuo o espanto e a indignação nacionalista que me traz junto de V. Ex.ª.
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A Associação que me honro de representar pasmou perante a inconcebível afirmação de V. Ex.ª. Em meu (e nosso) entender teria tido muito mais cabimento a referência à Farinha Amparo, à Farinha 33 ou à farinha de Trigo Torrada, de produção portuguesa, de resto bem conhecidas dos nossos concidadãos e respondendo cabalmente aos seus gostos e paladares. E, sobretudo, fabricadas a partir do trigo.
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Ao arrepio dessa norma elementar (e alimentar), nunca V.Ex.ª se deveria ter referido a uma «coisa» resultante da farinação de milho, cereal nativo da América, aliás consumido originariamente pelos peles-vermelhas autóctones. Ainda por cima vermelhos, à semelhança dos energúmenos que insultaram e agrediram um outro candidato ao Parlamento Europeu. Atente V.Ex.ª nas conotações da supra-citada Maizena.
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Não falando já no que poderia indagar de V.Ex.ª sobre possíveis insinuações publicitárias subliminares – e num País em que se refere multi-quotidianamente o cancro da corrupção – politicamente foi um erro que lhe poderia custar bem caro, não fora o permanente apoio que lhe é dado solidariamente por Sua Excelência o Senhor Primeiro Ministro.
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Deixe-me que lhe diga, Excelência, que penso que o Chefe do Governo não terá nada a ver com publicidades encobertas, nomeadamente neste triste caso. A responsabilidade da afirmação é, creio, única e exclusivamente de V.Ex.ª E se vier a dar-se o caso do Partido Socialista vir a perder as Europeias? Será V.Ex.ª o principal causador do terramoto político? A ser assim, que lhe sucederá?
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Neste Portugal em que a culpa morre habitualmente solteira, muitas dúvidas tenho a tal respeito. E fundadas, estou certo. Oxalá isso não venha a acontecer, principalmente porque a AACFA33TT aguarda despacho de requerimento oportunamente apresentado para ser considerada ONG e, nestas coisas, mais vale prevenir atempadamente.
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Dou, repito, em nome da nossa Associação, conhecimento deste protesto/repúdio aos dignos representantes do PSD nesta lamentável ocorrência, ainda que os considere, de alguma forma, coniventes. É que não bastam os protestos de não se confundir o Executivo com o Partido. É necessário que tragam para a praça pública o desrespeito de V. Ex.ª da defesa intransigente dos produtos nacionais, especialmente num momento tão delicado como é este de uma crise tão grave. Felizmente que de origem mundial.
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Sem outro assunto
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(*) Naturalmente que a nossa Associação não engloba a Nestlé.
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sexta-feira, 8 de maio de 2009

Um Natal Ecuménico

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Por Maria Filomena Mónica
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ESTÁ O LEITOR A PAR do dia exacto em que nasceu o Menino Jesus? Se a sua resposta for afirmativa, provavelmente está enganado. A descrição da Natividade aparece, sem data, nos Evangelhos de S. Mateus e de S. Lucas. Até ao século IV D.C., em toda o mundo cristão, a festividade era celebrada na Epifania (6 de Janeiro) como ainda o é nos círculos ortodoxos. A data em que os portugueses celebram o Natal, 25 de Dezembro, deve-se ao desejo da Igreja Romana substituir um ritual devasso, as saturnais, festejado por esta altura. Por razões que a seguir explicarei, esta indefinição cronológica do Natal convém-me.
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Quando era menina e moça, só havia um Natal, o da Missa do Galo. À mesa, sentavam-se avós, tias e até primas afastadas. A minha mãe, que adorava a festa, costumava montar uma árvore gigantesca e um presépio sumptuoso. Hoje, o panorama alterou-se, não só devido à sua morte, mas à evolução da sociedade. Os casamentos deixaram de ser até à eternidade, o que levou a que os meus netos tenham não quatro, mas aí uma dezena de avós, lutando por os ter junto de si na noite da Consoada. Todos os anos me vejo aflita para conseguir obter um buraquinho no calendário. De tal forma se multiplicaram os festejos que eles mal dispõem de tempo para abrir os presentes que coloco debaixo da árvore tailandesa mandada vir do Canadá. A polémica sobre o dia aumentou não só porque o meu actual marido é do Porto - e legitimamente considera que a sua família também conta – mas por a minha filha ter um varão do seu segundo casamento.
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Depois de reflexão individual e de um debate com a descendência, optei por organizar, não um, mas dois Natais: os que adoptarem a tese de Sextus Julius Africanus, virão a 24 de Dezembro; os que preferirem seguir o costume instaurado em Constantinopla, fá-lo-ão a 6 de Janeiro. Pela primeira vez, vou celebrar um Natal ecuménico.
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Dezembro de 2007
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quinta-feira, 7 de maio de 2009

No Reino do Absurdo - Passatempo com prémio

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Acabei de receber, enviado por um velho amigo, o texto que adiante se transcreve. A cena relatada passou-se há menos de uma semana, numa cidade portuguesa com pretensões a destino turístico de qualidade, e, dado o papel de destaque que as Taxas Moderadoras têm nesta história, merece ser 'comemorada' com mais um prémio da série «No Reino do Absurdo».

Os leitores são, pois, desafiados a comentar o acontecido, havendo um prémio para o melhor comentário afixado até às 20h da próxima 2ª-feira, 11 de Maio.

Ah!, terão preferência os que usarem uma (ou mais) das expressões que constituem os títulos dos livros disponíveis para prémio(s) e cujas capas aqui se mostram.
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NOTA: até 30m antes da hora limite, aceitam-se comentários enviados para sorumbatico@iol.pt
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«O episódio de polícia que vou relatar talvez não seja novidade para quem jogue ao boxe, mas, para um cidadão pacífico como eu, foi grande a surpresa com que acolhi os incidentes que me caíram em cima esta semana.
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Indo para casa a horas relativamente decentes, fui abordado e agredido por um homem que nunca tinha visto. Não foi nada de especial: apenas um murro bem dado que me deitou ao chão e que não cheguei a perceber porque foi aplicado.
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Embora não tivesse muito para contar, por certa ingenuidade cívica, achei que a polícia devia tomar conhecimento do sucedido e dirigi-me à esquadra. Estive longe de ser bem atendido e explicaram-me que não havia nada a fazer sem uma ida minha ao hospital. Sem mais a lamentar que os óculos tortos e a falta de sono, definitivamente, não precisava de cuidados médicos; preferia ir para casa do que enfrentar as urgências do hospital, mas, bem mandado, lá dei por mim num diálogo bilingue com o médico de serviço.
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Saí do hospital com duas facturas para pagar: uma taxa de €8,40 (para que eu me modere...) e um outra de €108 que, tal como o murro, não percebi porque é que foi aplicada, mas que doeu um bocadinho mais...
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Na próxima semana, terei de faltar ao emprego para prestar declarações e, quer-me parecer, ainda terei muito com que me entreter.
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As boas notícias são que, como o mês está no início, ainda tenho dinheiro na conta para levar mais uns sopapos...»
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NOTA: Os eventuais comentários deverão ser afixados no Sorumbático [aqui].

Farinha

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Por João Paulo Guerra
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Antes de mais um esclarecimento, o seu a seu dono: não foi Manuel Pinho o pioneiro da farinha de mistura com a política.
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FOI MARCELO REBELO DE SOUSA, em As Escolhas de Marcelo, RTP, 22 de Abril de 2007, disponível no YouTube, ao declarar que já se tinha percebido que determinado "canudo", muito badalado na época, era "uma licenciatura tipo Farinha Amparo". Portanto, "trigo limpo", agora coube então a vez ao ministro da Economia: numa tirada que vai certamente enfarinhar a política portuguesa por muitos e bons, Manuel Pinho disse de Paulo Rangel que "ainda tem que comer muita papa Maizena".
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A tirada do ministro veio lançar nova receita para a campanha das europeias: talvez não esclareça nada os eleitores mas com farinhas, papas e bolos se esclarecem os tolos. A Maizena, pelas reminiscências de infância que suscita, poderá contribuir para identificar os eleitores com os eleitos, desígnio sempre perseguido pela classe política. Acontece, porém, que o ministro introduziu na campanha um problema de concorrência e lealdade. É que se o ministro da Economia promove a Maizena, outros dos seus pares terão que vir a público, em acções de campanha, propagandeando a Milupa ou a Cerelac, a Nestlé ou a Nutriton, assim alardeando a isenção do Governo.
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A menos que os outros partidos, estimulados por este original modo de fazer política, decidam meter também as mãos na massa. Já estamos a ver os cartazes: "Vota Farinha 33 e comerás por 3"; "Com Farinha Predilecta, vota pela avó e pela neta"; "Com Farinha Pensal, mais Bloco Central".
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Manuel Pinho fez a sua original prestação eleitoral em Ponte de Lima, colocada no mapa da política por via do queijo. Agora chegou a rota da papa. Come a papa, eleitor, come a papa.
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«DE» de 7 de Maio de 2009
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NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Do livro de J. Paulo Guerra «Diz que é uma espécie de democracia»

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Os ausentes da indignação

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Por Baptista-Bastos
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EM DEZ ANOS, João Ubaldo Ribeiro foi duas vezes censurado, no nosso País, por um zeloso vigilante da moral. O grupo proprietário da cadeia de supermercados Jumbo, voltou a pôr, no seu Índex privado, A Casa dos Budas Ditosos, por sinal um belíssimo romance. Acusação: o livro "é um produto pornográfico". Ubaldo é baiano, escritor importante, viveu em Portugal, e já foi distinguido com o Prémio Camões, valha isso o que valer. Em condições outras, a extraordinária proibição suscitaria, entre os "intelectuais" portugueses, um alarido de protestos, de abaixo-assinados, de repulsa, e a comunicação social seria levada a transformar a vergonha em causa.
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Nada disso aconteceu. Os "intelectuais" portugueses andam tão exaustos de escrever livros maus, de participar em colóquios ridículos, debates patéticos, conferências inúteis no estrangeiro, que são indiferentes às minudências da solidariedade para com os seus camaradas. Neste caso, a João Ubaldo Ribeiro.
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Que abstrusos critérios levaram alguém do Jumbo a apontar à execração o romance do brasileiro? Que conceito de "pornografia" possui o pequeno Torquemada de supermercado? E de que extraordinário poder dispõe, que iluminada noção de valores contém, com que espírito superior foi bafejado para assim atirar pedras a uma obra literária editada em numerosos idiomas? E, sobretudo, quem é ele? Esse "ele" não tem nome, como aqueles blogues que insultam, injuriam, mentem, caluniam com absoluta impunidade. Esse alguém, misterioso e, certamente, crudelíssimo, de olho feroz e ânimo comprometido com as trevas, usa uma "agência de comunicação" para revelar as suas tristes decisões. Não dá a cara: é um esboço de pessoa, um ser vago, estéril, arfante de gozo como todo o censor que se preza.
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O romance foi proibido no supermercado e - insisto - que fizeram os nossos desenvoltos "intelectuais"? Limitaram-se ao silêncio que tem sido a capa da cobardia na qual se envolvem. Nelson de Matos, o editor, diz que tem recebido solidariedade de "gente grada". Ninguém sabe, ninguém viu, como se canta no samba. Essa "gente grada" também não tem nome? Protesta por sussurro? Telefona-se com cauta indignação e voz baixinha? Então, e a APE, e a SPA, também andam meio aladas?
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Ao longo dos últimos vinte anos temos assistido à mais vil das demissões daqueles que deveriam arriscar o ónus da sua pretendida importância. Habita, neste mutismo miseravelmente defensivo, uma viscosa e esgueirada indignidade. Claro que é uma imprudência, um perigo, um desafio alguém afrontar os poderes que se constituíram como as estruturas da sociedade. Porém, há ocasiões em que os "intelectuais" têm de estar à altura das circunstâncias - as próprias e as históricas.
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«DN» de 6 de Maio de 2009
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NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.