domingo, 30 de novembro de 2008

Calados Famosos

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In Almanach Bertrand de 1929

O burro e os donos

ONZE MESES

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Por Nuno Brederode Santos
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DECORRIDA QUE FORA mais de meia legislatura - talvez já perto dos três quartos - escrevi aqui, creio que sob o título "A meio do Rio", uma espécie de balanço in itinere, aberto o todos os futuros. Não me proponho agora prossegui-lo ou emendá-lo. Apenas o evoco, para os efeitos que seguem.
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Temos hoje uma maioria absoluta, que é, na Europa, a solução mais corrente de governo. No nosso caso, ela é monopartidária (como já o foram duas experiências anteriores do PSD), mas isso tem sobretudo a ver com a sobrecarga ideológica de um processo revolucionário que é relativamente recente e com o lado traumático da experiência do bloco central. Porque o modelo mais corrente de formação das maiorias governamentais europeias há muito que o não exige.
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Acontece apenas que, para fugir ao "centrão", não há - não tem havido - grandes escolhas. A qualquer um dos dois partidos de poder em Portugal (PS e PSD), quando ganha umas eleições com maioria relativa, o que se oferece para formar maiorias é uma falsa escolha. Ele pode aceitar a quase incondicional oferta de um CDS reduzido e redutor,que inventou o "arco da governabilidade" - a que alguns dos seus já vão chamando, num abuso clamoroso, o "arco constitucional" - para poder namorar com qualquer dos grandes (mas que, antevendo que qualquer deles, embora por razões diferentes, rejeita as coligações pré-eleitorais, é o primeiro a declarar que a elas se recusa, como se isso o impedisse de estar sempre aberto e disponível depois da contagem dos votos). Chegada a altura e perante o impasse de qualquer maioria, reconheça-se que, a avaliar pelas experiências mais recentes, o CDS não é careiro e não se porta mal nesses casamentos de conveniência: quanto maior é a falta de princípios, maior é o seu temor pelo fim de cada aventura de poder.
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No extremo oposto, as hipóteses - que, pelo menos, até hoje inexistiram - são menores. O PCP ainda não encontrou um novo ponto de equilíbrio que lhe permita encarar, sem problemas ou complexos, uma coligação (com quem quer que seja, de resto). Órfão da URSS, ele refugia-se na sua implantação interna - que é aparentemente crescente junto dos sectores decrescentes na sociedade portuguesa - reforça o nacionalismo (que procura atenuar com as absurdas irmandades da Coreia ou do Laos) e, hostil ao parlamentarismo, ao mercado e à Europa - aposta no protesto e na rua (para o que ainda vai conseguindo lançar mão de várias bases sociais de conjuntura, cada vez menos operárias, cada vez menos camponesas). E sente-se tanto mais incomodado quanto mais vizinho lhe for o partido de governo: daí os "matizes fascizantes" que vê nas actuais "políticas de direita", preferindo, à razoabilidade da crítica, as fobias alucinadas de um filme-catástrofe. Quanto ao Bloco de Esquerda, essa convergência ideológica improvável que se quis de vocação eleitoral, receia assumi-la. Porque, não podendo contar com uma base eleitoral sociologicamente estável e enquanto não tiver realizado o sonho de se instalar uns largos pontos à frente do PC, não larga a lógica do protesto parlamentar e mediático, cujo sucesso tem permitido fazer passar a ideia de que respira na rua como aquele. Nascido para olhar o poder de frente, ainda não passou a fase de o não poder fazer enquanto houver gente a olhar. O episódio de José Sá Fernandes, em Lisboa, é a mais recente ilustração do paradoxo.
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A uns meros onze meses de eleições legislativas, tudo parece assim estranhamente prematuro, a merecer consulta nas adivinhações de Vilar de Perdizes. Até lá, terá o Governo de, com uma plasticidade de que nem sempre deu mostras, retomar um curso afirmativo que, aqui e além, já o vai cansando. E as oposições de porfiarem, com renovada eficácia, a sua tarefa de esvaziamento da legislatura. Por um lado, promovendo adiamentos não recuperáveis: "Não somos contra, mas há que parar para pensar"; investimentos públicos, não - ou investimentos públicos, sim, mas só os rentáveis e que acrescentem competitividade à nossa economia (não se diz quais são, para o governo não copiar); ou reclamando novos diálogos sem calendário pré-definido; ou inundando um aparelho de justiça inoperante de providências cautelares. Por outro, procurando travar, no terreno e na rua, o Parlamento. Enfim, carreando para a primeira linha mediática a suspeita e o escândalo - o que sempre faz parecer sorrateira ou desleal uma governação em cruzeiro. São onze meses, para que todos estejam à altura das responsabilidades que escolherem.
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«DN» de 30 de Novembro de 2008.
Este post é uma extensão do que está afixado no Sorumbático [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

sábado, 29 de novembro de 2008

Uma teoria dos tomates

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Por Antunes Ferreira
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A AMIZADE NÃO SE COMPRA nem se vende. Vive-se. E os Amigos não são bons nem maus. São apenas e só Amigos. O resto é conversa para encher pneus, como dizem os Brasileiros. Os Amigos são, também e ainda, para as ocasiões. Alto lá. Não se veja aqui qualquer intenção exclusivista, não se infira oportunismo, muito menos calculismo. Não é que eu seja um anjo celestial. Ninguém ainda me encontrou com um par de asas. De ases sim, mas noutras ocasiões.
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Sempre considerei, considero e continuarei a considerar que uma das melhores coisas da vida são os Amigos. Uma minúscula parentética: não me vou repetir no patético e as Amigas. A generalidade diz-me que me fique pela expressão uni – Amigos. Diz-se, a propósito ou a des, que quem tem filhos tem cadilhos. Com o, para que não haja mal entendidos, nem bancos envolvidos. Negócios à portuguesa. Mas também se afirma que quem não tem Amigos morre mouro. Inch’Allah.
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Num destes dias de sol radioso e com o frio a apertar, amesendei-me com um desses Amigos que a gente usa para dar como exemplo aos outros, de preferência, Amigos. Amigalhaço, na verdadeira acepção do vocábulo, daqueles de aperto no pólo sul da orelha, um gajo bué da fixe, na expressão que os netos me inculcaram. Almoço a condizer, bebidas a condizer, má-língua a condizer.
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Estes repastos são pasto para tudo, salvo seja. Principalmente para o dizem e mais especificamente, deste ou daquele figurão. Grandes revelações acompanhadas, de preferência de um bom uísque irlandês, que nestas coisas não sou de modas. Ele é mais gin tónico. Mas são estas diversidades de gostos e de opiniões e de coscuvilhices caseiras que imprimem aos encontros bilaterais. Está na moda usar o termo, logo aqui o pranto. Sem pranto.
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Ratar, na verdadeira acepção da ratice, entre duas garfadas – é excelente. Entre dois goles – excelentíssimo. Se fosse com o Zé Cardoso Pires havia que acrescentar dinossauro. Divagações perante uns secretos de porco preto, ainda que um tanto discriminatórias, têm um especial sabor. As divagações e os segredos do ex-suíno de Barrancos, está visto. Em frente, que já aí vem um pudim do tal abade de Priscos, que não se vos diga, se vos conte.
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Inopinadamente (estes termos são quase sempre motivo de mofa, eu sei; mas também calham que nem ginjas para mostrar a erudição do autor, antes do Acordo) desfechou-me o dito cujo: sabes, ando a congeminar e penso que descobri no mais recôndito do meu ser, uma teoria que, quiçá, apresentarei na Academia. A medo e um tanto intrometido, interrompi-o: de Alcochete? Ele não se impressionou com o ponto de interrogação. Não, meu. A outra. Sem trunfos, passei.
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Ouve com atenção. Eu era todo ouvidos. Orelhas, é mais o Vieira. Penso, estou quase seguro, que no cérebro possuímos uma substância que até à data ninguém sonhava que existisse. Ela está na origem da calvície. Porém – nesta altura já eu saboreava um guardanapo ensalivado, ao arrepio de qualquer protesto das papilas gustativas, tal a minha concentração e, até uma ansiedade crescente – porém, repetiu o meu Amigo. Homessa!?
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O problema está na correlação. Na correlação? Pois, menino, na interdependência, no princípio dos vasos comunicantes. Não resisti a uma tal comunicação. É esse o busílis da questão. A substância ainda sem nome de que falava, sussurrou, tem, como tudo na vida, um nexo causa efeito que não sei até onde me levará. E?...
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Olha: à medida que a cabeça vai ficando a caminho da bola de bilhar, a brilhar, o que acontece simultaneamente é que os testículos vão mirrando, mirrando, mirrando. Estás a ver, pá? É uma grande porra! Era. Eu até estava agoniado da dor me se me infiltrara nas virilhas. Uma coisa, passe a dislexia, dos tomates! Mas, porque não paras? A ciência, meu rapaz, a ciência. Para que o progresso avance a ciência, os conhecimentos, enfim isso tudo e mais umas botas, também avança. A aspirina, sem a guerra, não seria.
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Pasmei. E, pelo sim, pelo não, abandonando o guardanapo a caminho da deglutição, olhei em volta para ver se nas mesas adjacentes algum calvo tinha ouvido a explanação, no receio, aliás legítimo, de reacção próxima da sevícia. Tudo impávido e sereno, incluindo o empregado da mesa que, honrada e galhardamente, nos inquiriu se estava tudo bem e de sobremesa?
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Decidi que o suplício não passaria sem o abade do pudim. Digo, vice-versa. Não havia, mas sim uma sericaia com ameixa de Elvas. Era uma proposta alternativo-aliciante. Que viesse. Veio. O resto já não conta, nem vos conto. Só acrescento que, à saída, em passeio compassado para ajudar o quimo e, talvez mesmo o quilo, fui congeminando que a teoria do meu Amigo podia, no mínimo, ter a dimensão de um tsunami à enésima potência. Só um exemplo: que seria do dito tão nosso e popular – é dos carecas que elas gostam mais?

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Costa e o Caos

Av. das Forças Armadas - Faixa BUS
Em breve será um dos Prémios António Costa
.Placard à altura do toutiço de uma pessoa de altura mediana

Em breve será um Prémio António Costa
. Entrada para o pátio/estacionamento da R. Frei Amador Arrais, n.º 1, permanentemente bloqueada, muitas vezes com carros, carrinhas e camionetas em 2.ª fila.
Já é um dos Prémios António Costa
. Seja porque os estacionamentos para motos, ali na zona, estão permanentemente ocupados, ou porque a impunidade está garantida...
. Martim Moniz / Mouraria
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Av. Guerra Junqueiro
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Estacionamento para ambulâncias, SEMPRE ocupado por carros particulares.
Em breve será um Prémio António Costa
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Em breve será um Prémio António Costa
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Praça de Londres
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Praça de Londres
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Impunidade para "Amigos"?

Em breve será um dos Prémios António Costa
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Em breve será um dos Prémios António Costa
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Um dos 6 parquímetros existentes na Av. EUA, a nascente da R. Conde de Sabugosa.

Nem um único funciona.

Em breve será um dos Prémios António Costa
. Esquina do Santander-Totta, na Av. de Roma

Estado dos pilhões, convertidos em caixotes-do-lixo que ninguém esvazia
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Av. de Berna - Respeito pelos peões...
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Um dos 6 parquímetros existentes na Av. EUA, a nascente da R. Conde de Sabugosa.
Nem um único funciona.
Em breve será um dos Prémios António Costa
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Estado habitual do estacionamento para motos junto ao Luanda
Em breve será um dos Prémios António Costa
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Av. Guerra Junqueiro, num dia "normal"
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Em breve será um dos Prémios António Costa
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Em breve será um dos Prémios António Costa
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Repare-se no sentimento de absoluta impunidade:

Os caixotes identificam perfeitamente a loja que ali os coloca
. Av. de Roma

Em breve será um dos Prémios António Costa
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Av. Almirante Reis

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

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O 1.º prémio vai para 'ART' (1590g, erro de 6g)

O 2.º prémio vai para 'Marco' (1600g, erro de 16g)

Pede-se a ambos que, nas próximas 48horas, escrevam para sorumbatico@iol.pt. ART deverá indicar qual dos 5 livros prefere, e Marco deverá indicar dois, por ordem decrescente de interesse. Ambos deverão, também, indicar morada.

Obrigado a todos!

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

A inútil declaração

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Por Baptista Bastos
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VIVEMOS ENTRE O ABSURDO, a omissão, a calúnia e a perplexidade. Os caprichos do momento contrariam, violentamente, as categorias da cultura, subvertendo não apenas a ética como a identidade. Alguma coisa está desarticulada, no tecido social português, quando um presidente da República vem a terreiro dizer que nada tem a ver com determinada instituição bancária. Nada fazia prever a inusitada declaração. Não conheço nenhuma notícia, insinuação, boato que conectasse o residente no palácio de Belém aos acontecimentos que transformaram um banco em assunto de primeira página. Talvez a circunstância de alguns altos dirigentes do PSD terem desempenhado cargos importantes no BPN estivesse na origem da aflição e do sobressalto presidenciais. É um despropósito. Cuja natureza o prof. Marcelo entendeu elogiar. Fez o elogio do nada. A confusão instala-se, cada vez mais, em Portugal. Se a não-notícia, contida neste boato inexistente, suscita o grave comunicado, torna-se imperioso o cotejo com a afronta, de que o dr. Cavaco foi objecto, na ilha da Madeira, quando o dr. Jardim o impediu de visitar o Parlamento da região. Aí, sim, o exercício do poder pela indignação encontrava razão de ser. Se o valor moral tem atenuantes, dependendo o juízo das circunstâncias, então, aceitemos a política como práticas de mentira para cada ocasião. O dr. Cavaco é responsável por muito de mau e de mal que incutiu no País. Acaso por incompetência política e fundas lacunas culturais. Podemos acusá-lo de uma série de amolgadelas na democracia; porém, de desonestidade, creio que nunca.
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Há uma coisa assustadora que se exige de nós: conhecermo-nos; por isso, fazemos por esquecê-la. Conhecermo-nos, e manter essa memória, pode ser mau ou bom, mas é sempre perigoso. Sei do que falo. A atonia da sociedade portuguesa, o explícito conúbio entre zonas seculares, antagónicas por essência, resultou na irremediável fatalidade de os dirigentes não estarem à altura das nossas urgências e necessidades. Repugnam-me os dez anos "cavaquistas", durante os quais tudo parecia moldado à semelhança do maioral. O que ocorreu nas redacções dos jornais, das rádios e das televisões, com a imposição de uma nova ordem que principiava pela substituição das chefias e a remoção de jornalistas qualificados, mas desafectos ou mesmo dissentes - é uma história sórdida, e esquecida por muitos. Assim como o encerramento político de importantes títulos da imprensa, em nome da "desestatização" e do "pluralismo". O autoritarismo, consequência do medo e da insegurança, cria os seus próprios medos e inseguranças. O documento de Belém não representa a instância de um protesto nem constitui o esclarecimento de coisa alguma. É a imagem de um homem. Daquele homem.
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«DN» de 26 de Novembro de 2008
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Este texto é uma extensão do que está publicado no Sorumbático [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

No liceu, há 50 anos

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Por Alice Vieira
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NESTES TEMPOS escolarmente muito conturbados, lembro-me muitas vezes dela.
Não me lembro do nome, mas nunca hei-de esquecer a sua voz mansa, o cabelo todo branco (embora ainda fosse nova), o casaco comprido castanho, e a malinha enfiada no braço.
Tinha vindo de outra escola, e também não aqueceu ali o lugar: eram tempos complicados, e pensar pela própria cabeça ( e — pior do que isso — pôr os alunos a pensar pela deles) pagava-se caro.
Nunca soubemos o que lhe aconteceu. Como na cantiga, “às duas por três chegou/ às duas por três partiu”.
A primeira vez que entrou na nossa sala de aula, olhou para todas como se não soubesse o que havia de nos dizer.
Depois abriu a malinha.
Da malinha tirou um livro.
Um livro muito pequeno, de uma colecção chamada “Miniatura”.
Voltou a olhar para nós, abriu o livro e começou a ler.
Era uma história estranha, que se passava numa terra que nem sabíamos onde ficava, uma história onde não havia mulheres a apaixonarem-se por homens que não lhes ligavam nenhuma, ou exactamente o contrário, como nos romances da “Biblioteca das Raparigas”, que habitualmente líamos.
Era a história de uma terra aparentemente normal onde, de repente, começavam a aparecer ratos mortos, muitos ratos mortos.
E, depois dos ratos mortos, começaram a morrer pessoas, muitas pessoas, até que alguém ordenou que a cidade fosse fechada.
Foi assim que nós, meninas de 15 anos, num liceu lisboeta no Portugal salazarento de finais dos anos 50, nos apaixonámos todas pela “Peste” de Camus.
A seguir à primeira leitura, ela explicou-nos quem era o autor, que terra estranha era aquela Oran onde tudo se passava, e disse-nos que estivéssemos sempre com muita atenção, porque às vezes as histórias tinham de ser entendidas para além das palavras.
Nos outros dias tudo se processava da mesma maneira: entrava, abria a malinha, tirava o livro, “ora vamos lá ver onde ficámos da outra vez”— e lia.
Sem floreados, sem “powerpoints”, sem “Magalhães”: a sua voz e mais nada.
Cinquenta minutos depois, a campainha tocava, ela fechava o livro, metia-o na malinha, e saía.
E nós saímos da sala meio atordoadas, com a sensação de sermos muito mais adultas. E, no recreio a seguir, nunca tínhamos vontade de falar.
Não, evidentemente que “A Peste” não fazia parte do programa!
E as aulas que ela nos dava não eram de português, ou de francês, ou de outra disciplina curricular.
Acontecia apenas que tínhamos duas professoras que faltavam muito.
E ela vinha, pura e simplesmente, dar-nos aulas de substituição.
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«JN» de 23 de Novembro de 2008
Este texto é uma extensão do que está publicado no Sorumbático [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.
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NOTA: o melhor comentário feito a esta crónica até às 20h do próximo sábado será premiado com um exemplar de «O Que é Ser Professor de Literatura», de Carlos Ceia - v. [aqui].
Actualização: se esta crónica receber 8 comentários (ou mais), haverá um 2.º prémio. O vencedor poderá escolher o livro atrás referido, de Carlos Ceia, ou «A Peste», de Camus; o 2.º classificado ficará com o outro.

Prémios do passatempo Alice Viera de 29 Nov 08




O JÚRI considerou que os 2 melhores comentários feitos à crónica de Alice Vieira foram, afinal, 3: os de ART, Musicólogo e António, mas não os conseguiu ordenar!

Arranjou-se, então, um prémio suplementar, e a atribuição far-se-á assim:

Esses 3 leitores deverão, NESTE MESMO post e a partir deste momento, indicar qual dos 3 livros preferem, sendo os pedidos atendidos por ordem de chegada. O 3.º a responder ficará, logicamente, com o que os anteriores não quiseram.

NOTA: O processo deverá ficar concluído nas próximas 48h, incluindo a indicação de morada para envio (escrever para sorumbatico@iol.pt).

"Regulador automático de filas de carrinhos de supermercado"

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«O bicho Homem é preguiçoso por natureza, e então com este regulador automático, com carrinhos de 3 cores, ao fim do dia as filas estão iguais e pode-se fechar a porta da garagem dos carrinhos. As fotos são de uma localidade perto da cidade de Leer (Baixa-Saxónia). O sistema é usado também em outras regiões da Alemanha»
Enviado da Alemanha por Luís Bonito.

Poluição Sonora

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Por Nuno Crato

NÃO SEI SE O LEITOR costuma ir ao supermercado. Quem vai de manhã, pouco depois da abertura, e procura um carrinho, repara que eles foram estacionados em filas paralelas, mais ou menos do mesmo comprimento. Durante algum tempo, as filas vão diminuindo ao mesmo ritmo e mantêm-se de comprimentos semelhantes. Mas se o leitor passar pelo mesmo sítio umas horas depois, reparará que há filas de carrinhos muito mais longas que outras e que o comprimento das mais longas vai aumentando.
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Ao princípio, enquanto os carrinhos estão a ser retirados dos locais de depósito, os clientes equilibram automaticamente o comprimento das filas — cada um, preguiçosamente, retira o carrinho que está mais perto de si, ou seja, o que está no final da fila maior. Assim, os comprimentos das filas tendem a ser reduzidos em paralelo. Quando os primeiros clientes voltam e o ritmo de retorno dos carrinhos aumenta, há filas que crescem muito e outras que ficam pequenas. A preguiça dos clientes leva-os agora a depositar os carrinhos na fila maior. E quanto maior for a fila mais tende a crescer.
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O problema tem sido estudado matematicamente e sabe-se que apenas ao princípio do dia o sistema tende a um equilíbrio. Nessa altura, corrige-se a si próprio — é estável. Quando o ritmo de depósito aumenta um pouco, torna-se divergente ou instável, como se diz.
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No corpo humano há muitos sistemas que se regulam a si próprios, mas alguns são divergentes. Quem passa muito tempo com auriculares nos ouvidos, ouvindo música muito alto, não só aborrece quem está ao lado, no café ou no autocarro, como pouco a pouco começa a ter problemas de audição. Isso fá-lo ouvir a música mais alto, o que ainda provoca mais problemas. O mesmo se passa com as «aparelhagens» aos berros nos carros, que não só perturbam quem está nas redondezas como vão ensurdecendo os ocupantes, que vão precisando de berros cada vez mais altos, que cada vez mais os ensurdecem e ainda mais incomodam os outros. O sistema é divergente.
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Há tempos, considerava-se a perda de audição como um problema exclusivo dos idosos, mas hoje sabe-se que essa perda é sobretudo resultado de exposição exagerada ao ruído, tanto nos níveis como na sua duração. Relatórios recentes da Comissão Europeia revelam perdas de audição em níveis assustadores nos jovens, em resultado de elevados níveis sonoros durante períodos prolongados.
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As ondas de som chegam ao nosso ouvido interno amplificadas cerca de 20 vezes, depois de terem sido recolhidas pela orelha e concentradas pelo ouvido médio. A pressão dessas ondas transmite-se à cóclea, um canal em forma de caracol preenchido por um líquido que activa as células ciliadas, uma espécie de pêlos que originam os impulsos nervosos. Sabe-se hoje que os ruídos extremos ou continuados vão matando essas células, que não são substituídas. São percas permanentes, que vão prejudicando a audição.
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Portugal, segundo a Organização Mundial de Saúde, é um dos países que mais sofrem com o ruído numa outra vertente ainda — a psicológica. O ruído prolongado causa inquietação e distúrbios no sono. Calcula-se que os problemas de saúde resultantes provoquem mais mortes que a poluição do ar. O pior de tudo isto é que o sistema não se regula a si próprio. Quanto mais surdos houver, mais os outros ensurdecem.
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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 22 de Novembro de 2008
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NOTA-1: Este texto é uma extensão do que está publicado no Sorumbático [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

NOTA-2 (CMR): Ver [aqui] como o problema pode ser facilmente resolvido.

domingo, 23 de novembro de 2008

DA BOA OU MÁ CRIAÇÃO

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Por Nuno Brederode Santos
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"Eu não acredito em reformas, quando se está em democracia": eis a frase que antecedeu e contextualizou o verdadeiro detonador da escandaleira. E este foi: "Até não sei se a certa altura não é bom haver seis meses sem democracia, mete-se tudo na ordem e depois então venha a democracia." Manuela Ferreira Leite falou estes dez segundos e, durante três dias, a balbúrdia das indignações chutou para canto os remansos da razão. Indignaram-se à esquerda com o apelo à suspensão da democracia. Aproveitou o CDS para também se indignar um bocadinho. Indignaram-se o secretário-geral e o líder parlamentar do PSD com a indignação de todos os indignados. Sempre achei que a indignação é um pedregulho atravessado no caminho da inteligência. Mas o facto é que ela foi arvorada em direito e eu sou pró: se a criação de um direito não vier prejudicar outros mais importantes, sou sempre a favor. Mas uma coisa é tê-lo e outra usá-lo. O direito à indignação deve ser usado com grande e sábia parcimónia, senão só atrapalha quem o exerce. Eu gostaria até de reservá-lo para os seis meses sem democracia.
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É óbvio que aquela segunda frase não tem a mais pequena graça. E quem viu as imagens televisivas, reparou que, aparte três ou quatro sorrisos amarelos da mais generosa cerimónia, a sala não riu, antes se conteve e arrefeceu por dentro. Não tanto pelo que ouviram, mas por logo lhe adivinharem as consequências. Dizerem-nos que foi ironia é tentar impor-nos um dogma de fé. E demonstra que o não foi, porque, se o foi, não tem de se explicar. A ironia mede-se pelos resultados. Como um grito mudo ou a visão das trevas, uma ironia falhada só existe enquanto liberdade literária. A ironia é uma arte do subtil, uma filigrana de sentimentos e razão. Ninguém é obrigado a fazê-la e é prudente não tentar. Mas também é óbvio que a - apesar de tudo - oradora não propôs seis meses de suspensão à democracia.
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É bem pior o que foi menos criticado, ou seja, a frase contextualizadora: "Não acredito em reformas, quando se está em democracia." Porque também esta deve ser contextualizada no quadro próprio, que é o currículo da pessoa. MFL governou várias vezes e foi a segunda figura de um Governo. Foi a governante autoritária que todos recordamos. Mas foi uma governante de gestão, não de reformas. Impôs-nos tudo para o combate ao défice e nada conseguiu. Não ousou tocar na administração pública. Não anunciou nem tentou qualquer reforma educativa. Não custa nada admitir que genuinamente não acredite em reformas em democracia. E não a vou pregar à cruz de uma convicção que é livre. Pode é um eleitorado que acredita na absoluta necessidade de reformas entender que assim não se justifica apostar nela.
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Mas o mais digno de atenção, por mais revelador, foi o mais singelo: essa visão do mundo, da vida e da espécie que vem embrulhada na ideia de que, em democracia ou ditadura, "se está". Pois, nós bem sabemos. Mas é uma abordagem que sulca ondas melindrosas. Porque pressupõe distância e alteridade. A democracia não se vive e frui, como a ditadura não se sofre. Numa e noutra, está-se. Como quem diz: a gente nasce e logo vê. Logo vê o modelo de organização social e política em que nos foi dado viver. Paridos, olhamos em volta: se há liberdade, melhor, mas, se não há, a gente governa-se. Porque isso da liberdade, ou falta dela, é um dado. É um adereço rígido da própria Criação, entendida esta como tudo o que está - ou seja, tudo o que sempre foi, ligeiramente alterado pelos poucos menos e mais que a humanidade, laboriosamente, lá foi conseguindo introduzir. É contingência, é circunstância, e nada podemos (ou nos cumpre) fazer contra o que nos transcende e formata. Como já aqui escrevi, este capitulacionismo moral é maioritário em qualquer democracia acabada de instituir. E subsiste em qualquer democracia fresca de 30 anos. Porque, sem ele, a democracia - que pressupõe a maioria - não poderia existir. Ele molda o espírito dessa amarga e omissiva maioria com que os ditadores governaram, ainda que o hajam feito contra ela também. Mas, integrando um pacto histórico com a minoria que quis e soube resistir, faz parte do regime, com todos os direitos de cidade. Claro que tudo isto vai deixar de ser problema: os sexagenários de hoje - que tiveram 30 anos ou mais para se escolherem antes do 25 de Abril - são a última geração cujo está-se é revelador. E sempre sujeito ao normal, sereno e necessário contencioso das ideias.

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«DN» de 23 de Novembro de 2008

NOTA-1: vídeo com as palavras referidas no início desta crónica - ver [aqui]

NOTA-2: Este texto é uma extensão do que está publicado no Sorumbático [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

sábado, 22 de novembro de 2008

Passatempo "Rififi"

1 - Prémio Rififi: o livro tem 208 páginas e pesa 111 gramas, pelo que a resposta certa seria 319.
2 - Prémio adicional: os leitores que concorreram mas não ganharam o prémio anterior podem concorrer ao prémio adicional, que será atribuído ao primeiro que, também no Sorumbático, responder correctamente à seguinte questão-dupla: qual o nome verdadeiro e qual a nacionalidade de Ross Pynn?

Como ir do C. C. das Amoreiras para a Byblos...

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Durante 7 meses, este lugar fez parte dos chamados Prémios António Costa, instituídos para premiar os casos em que ele tenha cumprido as suas promessas eleitorais
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Em tempos, eu oferecia almoços de lagosta aos primeiros leitores que, em cada mês, me enviassem uma foto da PSP, EMEL ou P. Municipal a rebocar um carro destes - um único! Divulguei o desafio em vários blogues, nomeadamente os dedicados a Lisboa. Ao fim de 7 meses, desisti - até à data não houve um único candidado...

A desafinação nacional

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Por Antunes Ferreira
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PECADO CONFESSADO é pecado meio perdoado, diz quem sabe, neste caso o Povo, de cuja voz também se afirma que é a de Deus. Máxima que parece ter caído em saco roto, apesar de alguns, mais crentes, ainda a aceitem. Mas, convenhamos, o que era ontem pecado, hoje já não é – e, em certos casos, é até uma quase virtude. Quer se queira, quer não, as coisas já não são o que eram. Por uma segunda vez consecutiva, falo de futebol. O que para nós Portugueses não é óbice, dado que é o tema nacional por excelência. Mas, não só.
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Já no que respeita à voz do Povo ser a voz de Deus, nada mais desactualizado, no mínimo. Os decibéis do Povo serão iguais ou, no mínimo, semelhantes aos que a Divindade utiliza? Creio bem que não. Nesta época em que os sintetizadores são reis, as vibrações vocálicas andam um tanto abastardadas. Há uns anos falava-se no dó de peito. Agora, comenta-se que metem dó. Prismas.
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São os danados dos chips, são sim senhor, que deram cabo do que era inatacável. Há quem diga mesmo que nos dias que vão correndo os registos sonoros, de tão aviltados, distorcidos, desmotivados, só justificam a rouquidão em treinadores de futebol no final do jogo – ou em animadores de manifestações, ao volante de veículo dotado de altifalantes condicentes com.
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Tomem-se três exemplos. Depois do cataclismo ocorrido na cidade de Gama, ali ao pé de Brasília, o técnico (?) luso Carlos Queirós veio dizer que a equipa (?), perdão, os dez jogadores restantes, não sabe jogar para o Cristiano Ronaldo, como acontece no Manchester. O dito treinador (?) era ou não era ajudante do Sir Ferguson? Não é capaz de trazer para a selecção o que ali se esforçava por aprender com o mestre? Neste caso, apetece referir que o Povo também não tem pejo em afirmar que vozes de burro não chegam aos céus. Com todas as letras, sem tirar nem pôr.
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Outro: a operação Fair Play. Detonada a ocorrência, veio a Procuradoria Geral da República informar que «foi possível recolher prova para indiciar os arguidos, que se organizaram no âmbito da claque de futebol denominada No Name Boys, pela prática de vários ilícitos criminais, designadamente dos crimes de associação criminosa, posse e tráfico de armas de fogo, tráfico de estupefacientes, ofensa à integridade física qualificada, roubo, incêndio, explosões e outras condutas violentas especialmente perigosas». E mais. O texto da PGR veio sublinhar a acção da polícia face à «firme determinação de combater o sentimento de impunidade existente em alguns sectores da sociedade portuguesa, sejam eles quais forem, o que só poderá resultar de uma eficaz articulação entre o Ministério Público e todos os órgãos de polícia criminal, como vem sendo incentivada». Neste particular, esta voz é quase semelhante à da Callas. Boa, excelente.
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Finalmente, o caso BPN e a detenção do seu ex-presidente José Oliveira e Costa, antigo Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais de um governo Cavaco Silva. Foi ouvido na Boa Hora, reza a Comunicação Social, durante cerca de nove horas. E pronunciado por sete crimes. Continua em prisão preventiva. Mas também se acrescenta que quando foi detido, o referido cidadão estava acamado em sua casa. Não se ouviram declarações aos advogados do arguido quando terminou o interrogatório deste. Assim, sem voz.
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Fico por aqui. Ainda pensei em apontar ainda a voz da Dr.ª Manuela Ferreira Leite opinando sobre a suspensão por seis meses da democracia. Mas, de tanto que se tem dito e escrito, nem valia a pena. Não vale. País desafinado, o nosso. Demasiadas vozes e nenhuma harmonia. Musicalmente falando – e não só. Há quanto tempo não usava esta expressão…
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NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no Sorumbático [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

A Quadratura do Circo - Carta Aberta a Carlos Queiroz

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Carlos,
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Meu querido e bom amigo
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Eu avisei-te a tempo. Não ouviste.
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Isto do Futebol depende de toda a tua ciência e de todo o teu estudo, mas também da inspiração do momento e da cabeça fria. A dos dirigentes, do público e dos jogadores. Coisa que, como sabes, há muito pouco em tal mundo à parte. E ainda doutra coisa terrivelmente pragmática - as bolas que entram ou não nas balizas do adversário.
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Que, por sua vez, também é feito de gente, e, por isso, também está a viver o mesmo drama.
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Devo ter sido o único português, segundo lembro, que te disse - em tempos de colegas na Escola de S. João do Estoril, lembras-te? - que te dedicasses a alguma matéria mais pura e inocente, mais cientifica e menos humoral, mais pedagógica e menos brutal.
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- Futebol, Carlos!? – disse eu – tu vais-te especializar em futebol?!
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De facto. Bom aluno e estudioso, podias ter sido um investigador da Fisiologia do esforço, da Metodologia do Treino físico, das virtualidades psicossomáticas por influência do anel gama no tecido muscular estriado, dos mecanismos do gesto ao pensamento e vice-versa. Coisas assim, que este povo não entende. Quer golos. Obviamente.
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Sendo José Augusto seleccionador nacional, precisava de um teórico; um talento com capacidade, conhecimentos e verve para dar a cara. E escolheu-te, pouco depois, para as camadas jovens, onde tiveste o privilégio de deparar com uma geração de ouro de Paulos Sousas, Figos, Joões Pintos, etc. Num pulo, foste campeão do Mundo duas vezes de seguida e maior curriculum não era possível, nem de encomenda.
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Já no futebol profissional, rodearam-te e fizeram-te a cama, quando timidamente comandaste o Sporting, onde percebeste como eram as coisas no mundo dos clubes, saindo depois para uma viagem sem fim, que fui acompanhando de longe - eu músico, tu treinador de futebol - desde a África do Sul, a Américas, Japões, coisas assim.
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Um dia encontrámo-nos no aeroporto e falámos, como se o tempo não nos tivesse afastado e ainda compartilhássemos a mesma secretária. E avisei-te, mais uma vez, como colega mais velho e amigo. Tem cuidado com o Futebol.
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Quando tentaste o Real Madrid, senti que ias meter-te num ninho de víboras e chacais, e que a coisa ia dar para o torto com tanta prima-dona. Mais uma vez, estava certo. Voltaste ao ninho chuvoso de Manchester de asa caída.
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A apetência de ser o Treinador deste país era forte e, se bem que da primeira vez a coisa não fosse brilhante, agora havia Decos e Ronaldos, Nanis e Ricardos Carvalho. Uma tentação.
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Mas os miúdos ricos são quase sempre temperamentais e parvos no momento das grandes escolhas e prioridades. Na vida, e em campo. Torna-se difícil motivar uma manta de retalhos de gente tão vãmente e tão pré-matura-mente idolatrada. E tu lá vais arcando com resultados infelizes, numa espiral sem fim, de infelicidade e descalabro. E o Portugalzito está a jogar cada vez pior, sem alma nem entrega, nem velocidade, nem engenho, nem teia estratégica, nem fogo, mesmo contra dez heróicos albaneses. Desculpa, Carlos, mas tens de ser mais duro. Chicoteia o templo, como fez o outro.
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E mais uma coisa: As vedetas, sejam quais forem, assim, a fazer teatro para a galeria e a terem birras de meninos mimados, não podem ser capitães, de braçadeira ao peito. Capitão? Aquele miúdo? Por muito extraordinário que fosse – e, ao serviço da selecção, não é, ou não tem sabido ser… - dar-lhe aquela braçadeira histórica é, além do mais, ofender todos os outros.
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Que tem ele a mais que os colegas mais internacionais e, logo, mais logicamente indicáveis? É capitão, afinal, porquê?! Eu, se fosse Simão ou Maniche ou Nuno Gomes ou Deco, ou fosse lá quem fosse, pensava isso. Justamente. “Se tenho mais internacionalizações e não sou capitão, é porque o acham melhor que eu”. Isso desestabiliza e irrita. E ele, com todo o vasto repertório de cabriolas inúteis e rodriguinhos para a bancada ainda não o é. Ponto.
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Capitão, aquilo?! Coluna era um Capitão!!! Respeito e saber. Trapio, como se diz dos touros de lide. Ordem na casa. Disciplina. Tarimba. Autoridade. Cabeça fria, mesmo quando todos os outros a perdem. Capacidade de comando natural. Visão global. Aura. Controle dos colegas. Maturidade. Eis tudo o que o jovem Ronaldo ainda não tem.
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Aquele miúdo está precisar de terapeuta. Conheço um tipo que é formado nisso, homem sério e, curiosamente, também licenciado em Educação Física como tu. Pratica preços módicos, só pelo prazer de pôr esses miúdos na ordem, com disciplina e humildade prática. Dou-te o telefone, se ainda não o tiveres.
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Assim, estás a contribuir para o endeusamento de um carburador poderoso, mas que só funciona a pleno gás quando lhe dá na bolha. E demasiado ocupado com o verniz das unhas e o corte do cabelo, para rasgar a roupa e comer a relva, como faz, em sofrimento, qualquer albanês anónimo faminto de fama.
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Põe ordem nas prima-donas e fecha-me a porta daquela capoeira. Pobre Quim. Ele não tem culpa, mas os trincos andam muito desconexos, ferrugentos. E o rapazito da Madeira, o tal habilidoso e maldisposto, se não anda a saber outra vez marcar livres, e se estiverem lá o Deco, o Maniche, o Bruno, o Moutinho, ou o Sabrosa, entre outros, olha que eles ainda pode ser que se lembrem. Monopólios, já o Marquês de Pombal acabou com eles. E dá-me alegria, entrega e criatividade do meio campo para a frente. Ralha. Explica. Expõe. Eu sei. Infelizmente, são tudo coisas que não se compram na farmácia.
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Mas compra tu uma agulha e começa a coser devagar esta manta de retalhos. Se for preciso, vai à segunda divisão arranjar gente peituda e ambiciosa. Pede ao Rui que empreste uns juniores, uns sub-21, qualquer coisa.
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E atalha a direito, pragmático, sem diplomacias. A coisa está preta e eu gostava muito de ter amigos em sítios importantes. E assim…
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Deste que te abraça teu velho amigo
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Professor Pedro Chora Barroso
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NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no Sorumbático [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Contra o crime de amanhã

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Por Baptista-Bastos
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ESTOU EM CRER que a dr.ª Maria de Lurdes Rodrigues deu um pontapé na maioria absoluta que os disparates políticos da dr.ª Manuela Ferreira Leite presumivelmente garantiam ao eng.º José Sócrates. Como a ministra da Educação não decide, na solidão alcatifada do gabinete, sem escutar, inevitável e antecipadamente, o primeiro-ministro, infere-se que este é o principal responsável da situação. Não há parábola que remova esta sucessão de evidências.
Sócrates está longe de ser um bom governante. Porém, a presidente do PSD ainda seria pior. As perspectivas não são de molde a alegrar-nos. Estes "mandantes desabusados" (para usar uma expressão cara a Aquilino) tornaram insuportável a vida portuguesa. A nossa inalterável ingenuidade cimentou-os no poder.
A verdade é que, depois do PREC, com ligeiras variantes, o descontentamento, a raiva, o desespero causados pelas mentiras sistemáticas e despudoradas converteram o nosso regime numa duvidosa democracia. Direi: numa democracia distanciada, sem alma nem paixão, ausente do "outro", como certos preopinantes quiseram moldar a "modernidade" do jornalismo a essa obscenidade ética e deontológica da "distanciação".
Em todo este comportamento político reside algo de tirânico, resultado de uma educação que se manifesta larvarmente, e cujas origens podem ser encontradas numa Igreja que se não desproveu da rigidez e de uma classe dirigente organizada na mediocridade, no autoritarismo, e destituída de grandeza.
Para essa gente, as declarações de Manuel Alegre, ao Diário de Notícias de domingo, suscitam um leve desdém, um trejeito de enfado ou, então, um trovejar de frases inócuas. "Ele diz sempre o mesmo", formulou um dirigente "socialista", muito adicto à felicidade de ser a voz do dono, qualquer que esse dono seja.
Não é assim. Alegre tem sido um respingão incómodo, ante a inqualificável inércia e o desacrediante desvio ideológico do PS. E há um núcleo central das suas opiniões que se mantém, exactamente porque ele não se deixa pacificar, possui convicções, e, goste-se ou não, tem combatido a lassa indiferença de muitos dos seus "camaradas".
O documento recolhido por João Marcelino e Paulo Baldaia é particularmente importante, porque cria uma declarada ruptura com "este" PS, ao mesmo tempo que o deponente recusa o exílio interior. Penso que a questão dos professores, adicionada a todas as querelas conhecidas, determinou este desabafo, que nada tem de secundário nem de sentimental. Manuel Alegre sente-se embaraçado num partido que se fechou à sociedade e que traiu os testamentos legados, em nome de uma "esquerda moderna" cedo naufragada em soluções parciais e em repugnantes concessões - que permitirão, acaso, o crime de amanhã. Ele é contra.
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«DN» de 19 de Novembro de 2008. Este texto é uma extensão do que está publicado no Sorumbático [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

terça-feira, 18 de novembro de 2008


Comentário a post publicado no DE RERUM NATURA

Uma outra vista do conjunto afixado em O Carmo e a Trindade

Poderia Deus fazer um Universo diferente?

Por Nuno Crato
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SEGUNDO UM RELATO do matemático Ernst Straus, Einstein dizia que o que realmente lhe interessava era «se Deus poderia ter criado o Universo de maneira diferente; por outras palavras, se a necessidade de simplicidade lógica lhe teria deixado alguma liberdade». Sabe-se que Einstein não era crente. Dizia que acreditava num Deus um pouco à maneira de Spinoza; acreditava que a natureza era regida por uma lógica. Não falava de uma divindade específica no sentido religioso tradicional. Numa carta recentemente descoberta, escrita em Janeiro de 1954, um ano antes da sua morte, tinha sido ainda mais claro: referia-se à ideia de Deus como sendo «um produto da fraqueza humana».
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A concepção de Einstein, de traços panteístas, é partilhada por muitos profissionais da ciência. O grande físico acreditava numa realidade externa que a observação, a experimentação e a razão podem progressivamente assimilar. Via lógica nessa realidade. Nas suas Notas Autobiográficas (1946), repetiu-o: «Lá fora há este mundo imenso, que existe independentemente de nós, seres humanos, e que se ergue perante nós como um grande e eterno mistério, parcialmente acessível à nossa inspecção e pensamento».
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Adoptando uma visão quase platónica, a unidade lógica do mundo físico existiria externamente. Não seríamos nós que daríamos sentido ao Universo. O sentido do Universo estaria à espera de ser descoberto. Naturalmente, esse sentido não era arbitrário. As leis físicas não podiam ser outras.
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Einstein ficaria contente se pudesse conhecer alguns trabalhos de natureza matemática que, nos últimos tempos, têm vindo a tentar desenvolver a teoria da relatividade sem recurso ao célebre postulado da constância da velocidade da luz. Como se sabe, experiências muito rigorosas feitas no fim do século XIX não conseguiram detectar a mudança de velocidade da luz quando o observador se afasta e se aproxima da fonte luminosa. Muitos físicos procuraram explicações ad hoc para este fenómeno surpreendente. Einstein teve a ideia de postular que a velocidade da luz no vazio era uma constante universal e daí tirou um conjunto de conclusões revolucionárias sobre o espaço e o tempo que ainda hoje fascinam cientistas e leigos. Mas há mesmo algo de especial na luz, ou a relatividade deriva de algo de muito profundo na estrutura do espaço e do tempo?
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Mitchell J. Feigenbaum, um físico-matemático da Universidade Rockefeller em Nova Iorque, acaba de mostrar (http://arxiv.org/abs/0806.1234) que todas as conclusões de Einstein se podem deduzir de princípios mais simples.
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Feigenbaum volta a Galileu e ao seu célebre exemplo do navio em movimento. Dizia o físico italiano que, num mar sem ondas e dentro de um navio em movimento uniforme, um observador olharia para o cais e julgaria estar parado, sendo o cais a mover-se. Uma vez fechado na cabina, tudo se passaria como se o navio estivesse parado. Não lhe seria possível distinguir o repouso do movimento uniforme.
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Estendendo este princípio de relatividade de Galileu com recurso a conceitos puramente matemáticos e esquecendo por completo a velocidade da luz, Feigenbaum redescobriu as chamadas transformações de Lorentz, que estão no cerne da relatividade de Einstein. Não é necessário atribuir um papel especial à velocidade da luz. Talvez, afinal, Deus não tivesse podido construir o Universo de outra maneira.
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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 15 de Novembro de 2008- adapt.
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domingo, 16 de novembro de 2008

À desgarrada

Por Nuno Brederode Santos
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ANTES QUE A MEMÓRIA ME SEJA CONFISCADA, recordo aqui o jogo do rato e do gato que todos, em grau maior ou menor, fomos obrigados a travar com a Censura até 1974. Vivíamos vésperas, entre a ironia e a angústia, antecipando aquelas deslocações ao Bairro Alto, as quais, de facto, valiam bem a insónia que causavam. Depois, chegados lá, muitas vezes nos entregavam as prosas arrasadas pelo lápis azul, com grande sobriedade administrativa: era uma mera operação de “guichet”, como a compra de bilhete na estação dos comboios. Porque o desclassificado funcionário que nos atendia nada sabia, nem podia, explicar. Era assim o corte do censor mau. Outras vezes, porém, davam-nos o direito de acesso a um qualquer militar reformado, mas senhor do latinório de bolso que permitia, não discussão, mas algumas – generosas – explicações para as largas manchas azuis nas provas de página. Não esquecerei a surpresa que partilhei com o Mário Sottomayor Cardia, aí por 1964. Pedindo nós explicações para os cortes quase integrais numa série de artigos, sem os quais estaria em risco a publicação atempada de uma edição mensal da “Seara Nova”, fomos conduzidos ao gabinete de um coronel reformado que, enquanto se desdobrava, embaraçado, em argumentos trapalhões, quis provar-nos ser também ele um homem de letras e ofereceu-nos um seu livro de poemas. Um caso comovente de censor bom.
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Duas coisas tinham em comum o censor mau e o censor bom. A primeira é que cumpriam com igual aplicação as directivas para mutilarem o pensamento alheio e matarem no ovo a liberdade de expressão. O que era natural: um censor com problemas de consciência seria ainda mais precário do que um carrasco a recibos verdes. Mas a segunda, convenhamos, era a de confinarem a repressão ao âmbito da nossa iniciativa, ou seja, do que nós seleccionávamos para publicar.
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Vem isto ao caso quando vemos Manuela Ferreira Leite proclamar que “não pode ser a comunicação social a seleccionar aquilo que transmite”. Bom, naquele tempo podia. O que não havia era garantia alguma sobre a extensão do que se podia transmitir. E eu, que conheci esses tempos durante alguns anos menos do que MFL, habituei-me a associar à ditadura a possibilidade de nos calar, mas nunca me ocorreu essa violência maior que teria sido pôr-nos a falar por ela. Claro que nunca a censura deixaria passar um “abaixo Salazar”. Mas não há memória de ter querido que publicássemos um “viva Salazar” em nosso nome.
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Bem me podem dizer que nem pensou o que disse. Eu sei. Se pensasse, até não era mau para o nosso combate ao tédio: um partido do centro-direita com um pensamento nazi converteria esta democracia num parque de folguedos para o mundo inteiro. O problema não é ela pensar. É, sim, dizê-lo, sem se aperceber da enormidade. Ou deixar para a entrevista seguinte, sempre tarde demais, a necessária correcção.
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É certo que já tínhamos feito o tirocínio, quando MFL enunciou o seu pensamento sobre o propósito essencialmente procriador da família, em termos que, nem um patriarca quaker, nem o mais caceteiro homofóbico, ousariam usar. Também aí, não creio que a sua ideia fosse impedir o casamento a um casal previamente conhecedor da sua infertilidade ou a um parzinho de octogenários que decidissem enfim coroar o seu amor platónico de vida inteira. Mas disse-o.
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Isto sugere falta de mundo e de vida. O que ainda piora as coisas quando extravasa para a políticazinha, esse calvário de ser e fazer oposição até depois de o Sol se pôr todos os dias. Porque aí, não se pode dizer que não se apresentam ideias “para os socialistas não as copiarem”. A questão nem é que o risco não exista: os governos têm o péssimo hábito de roubar ideias à oposição, se e quando as acham boas. É, de resto, um comércio respeitável, pois MFL também gosta de proclamar que foi ela quem pôs na agenda as PMEs ou as preocupações sociais – presume-se que a contragosto de uma comunicação social apostada em não deixar passar a mensagem (e com a assinalável excepção da oposição à subida do salário mínimo, que conseguiu pôr em torno do Governo todos os partidos e sindicatos e a Igreja). A questão é que torna absolutamente inverosímil o chavão predilecto da “respeitabilidade” política: pôr sempre os interesses nacionais acima dos interesses partidários. Esse, sim, é um terreno armadilhado. Porque o eleitor interroga-se: se as ideias são boas e instantes para o país, em nome de que bizarro altruísmo é que as guardam para a “altura própria” (ou seja, a campanha eleitoral)? Claro que, também aqui, sabemos que as ideias e as propostas alternativas não existem. O erro é fingir que sim e tentar apresentar como “táctica” a sua retenção.
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«DN» de 16 de Novembro de 2008
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O chuto-na-canela nacional anda «muitíssimo agitadíssimo»

Por Antunes Ferreira
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É A MINHA SINA: adoro o futebol. Aliás gosto (mais ou menos, óbvio) de tudo o que é desporto. Pratiquei, «a sério», rugby e natação. Mas vou a quase todas, desde o atletismo ao snooker. Até já percebo de curling… As vassourinhas entusiasmam-me. Medianamente, é certo, não atingem o grau de deslumbramento com uma boa placagem ou uma melée. Ainda digo assim, tal como aprendi e pratiquei. Hoje, já nem na bancada: no sofá é que é bom.
De resto, é a sina da esmagadora maioria dos Portugueses: adorar o futebol, o que normalmente corresponde a discutir o dito cujo. E aí, é sabido e re-sabido, em cada um de nós há um técnico, em cada um do nós há um crítico, em cada um de nós há um seleccionador. Nisso, somos realmente, especialistas. Natural e normalmente o seríamos – para além da política, o futebol é o outro alvo preferencial do bota-abaixo.
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Esta semana, tem sido um fartote. Desde as declarações de Paulo Bento a propósito da desgraçada actuação do árbitro Bruno Paixão, faz hoje oito dias, em Alvalade, até aos novos contemplados na convocatória de Carlos Queirós para o encontro com o Brasil, um ror de confusões, imbróglios, acusações e destemperos, não faltou nada. De resto, como habitualmente. Ninguém nos bate, em tais «modalidades».
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Sobre o que disse o treinador leonino já correu tanta tinta, já se usaram tantas palavras, já se transmitiram tantas imagens que, na realidade, só tiveram concorrência na manifestação dos professores, curiosamente também no sábado fatídico para o Sporting, fruto principalmente do tsunami da asneira que foi o malfadado juiz de campo.
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Processos vão, processos vêm, órgãos ditos representativos da «arbitragem» acima, órgãos ditos representativos da «arbitragem» abaixo», declarações bombásticas, declarações rasteirinhas, tudo tem resultado num rega-bofe quotidiano que vem nos preenchendo de forma «exaltante» o dia-a-dia da crise vinda dos United States, mas anichada por todo o Mundo.
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Nós já tínhamos, neste particular do chuto-na-canela, motivos mais do que suficientes para a má-língua nacional. A candidatura do expoente máximo do futebol portuga, ou seja, o Cristiano Ronaldo, ou CR7, aos mais altos galardões do Mundo da Bola motivou, inclusive, que se iniciassem campanhas as mais diversas para que tal se concretizasse.
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Admiro-me: falta a peregrinação a pé a Fátima para que se realizem tais aspirações; em menor escala, umas novenas ao Santo Padre Cruz, no mesmo sentido. Ou mesmo a São Judas Tadeu. Mas não se desespere. Há tempo e tempo.
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No meio de todo este estardalhaço, há, no meu modesto entender, uma situação gravíssima, qual é a dos meses diversos de salários em atraso aos futebolistas do Estrela da Amadora. À mistura com as patéticas declarações do presidente do clube, um tal fantasmagórico António Oliveira, mentiroso militante e falcatrueiro praticante. E com outras de um outro senhor Júlio Evangelista, manda-chuva do Sindicato dos Jogadores.
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É sabido. Há atletas e respectivas famílias que estão na penúria, para não dizer na miséria, com dificuldades mesmo na compra de bens alimentares. São profissionais do chamado Desporto-Rei, mas não entendem porque estão a viver sem rei nem roque. O treinador Lito Vidigal demitiu-se por falta de condições – e de remunerações.
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Raio de terra, esta. Várias têm sido as ameaças do recurso à greve por parte dos futebolistas. Agora, parece que ela se irá concretizar. Curioso: só depois do jogo com o Benfica neste fim-de-semana.
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sexta-feira, 14 de novembro de 2008

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

O livro «A Morte de Cristo em Verdun» tem 9 capítulos

Cuidado com a língua!

A propósito deste erro de ortografia (ou simples inovação devida ao novo Acordo Ortográfico?), a expressão «Cuidado com a língua!» lembra-me a velha anedota do indivíduo que entra numa farmácia cheia de gente e berra:
- Uma camisa-de-vénus, se faz favor - e depressa!
Fica toda a gente a olhar para ele, e o farmacêutico resmunga, incomodado:
- Ó amigo, cuidado com a língua!
Depois de matutar um pouco, o homem responde:
- Tem toda a razão. É melhor levar duas...

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Vitória eleitoral da estatística

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Por Nuno Crato
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OS RESULTADOS DAS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS norte-americanas surpreenderam meio mundo. Sem razão. As percentagens de votos obtidos pelos dois principais candidatos estavam exactamente dentro das margens anunciadas pelas sondagens. De que se surpreenderam as pessoas, afinal?
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Barak Obama ganhou uma das eleições mais contestadas e fascinantes da história dos Estados Unidos. Ao longo deste ano, as surpresas foram muitas. Até ao fim, houve quem duvidasse do que as últimas sondagens diziam. Falou-se dos erros de previsões anteriores. Falou-se do chamado «efeito de Bradley», que consiste em os inquiridos darem respostas falsas por terem algum receio de divulgar as suas intenções reais. Os mais prudentes mantiveram até ao último minuto uma incerteza sobre os resultados finais. Toda a imprevisível história política dos últimos meses inspirava dúvidas. As sondagens não.
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Isto significa, julgará muita gente, que as amostras usadas pelos técnicos de sondagens eram representativas. Mas os estatísticos não gostam muito da expressão «amostra representativa» e preferem, habitualmente, designá-la por «amostra aleatória». Como será que uma amostra escolhida ao acaso pode apontar conclusões sobre o que se passa no universo em estudo?
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Imaginemos um problema aparentemente simples. Queremos, por exemplo, estudar os hábitos dos estudantes universitários em Lisboa e saber a percentagem de fumadores nesse universo. Como o faremos? Vamos à porta de uma faculdade e perguntamos aos estudantes que lá estão? Não parece boa ideia, pois com a nova legislação os fumadores concentram-se nas portas dos edifícios públicos. A amostra seria enviesada. E devemos fazer o inquérito de manhã, de tarde ou de noite? Será que os alunos à noite, em horário pós-laboral, são mais velhos e fumam mais? Ou fumam menos? E escolher metade dos alunos de manhã e metade de noite? Mas isso não será dar o mesmo peso a ambos os grupos de alunos e não há muito mais alunos de dia? Não enviesará isso a amostra?
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Procurar uma amostra que, com grande probabilidade e razoável aproximação, reproduza as características do universo em estudo pode ser muito difícil. A estatística matemática inventou a amostragem aleatória. No nosso exemplo poderíamos, por exemplo, aceder a uma listagem dos estudantes universitários e fazer um sorteio ao acaso. Antigamente usavam-se urnas, como as das lotarias. Agora usam-se geradores de números aleatórios em computador. Garante-se que a probabilidade de escolher uma dada amostra é igual à de escolher qualquer outra pelo mesmo processo. A probabilidade de enviesamento reduz-se.
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Nas eleições norte-americanas o processo é mais difícil. Fazem-se estratificações para garantir que se tem um dado número de eleitores de cada sexo e de cada grupo etário. Estudam-se em separado grupos geográficos diferentes. Com isso reduz-se a variabilidade do processo, reduz-se o erro médio esperado. Podem ainda fazer-se correcções para o chamado «efeito Bradley», fazendo perguntas indirectas. As técnicas de amostragem e de sondagem atingiram hoje tal desenvolvimento que os erros elevados são muito pouco prováveis. As eleições norte-americanas foram também uma vitória da estatística matemática.

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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 8 de Novembro de 2008
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Os nossos heróis do 4 de Novembro

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Por Alice Vieira
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TUDO COMEÇOU quando um amigo me telefonou a perguntar: “que fazes esta noite?”, e eu respondi, como devem ter respondido milhões de pessoas por este mundo fora, “fico a ver as eleições americanas na televisão”.
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O amigo passou palavra a outro amigo, que passou a outro, que passou a outro — e de repente eu tinha a casa a abarrotar de amigos, todos simpaticamente a abastecerem-me de tinto alentejano e queijos diversos, preparando-nos para uma maratona televisiva.
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“Lembram-se do sr. Diamantino de Macau?”, perguntou de repente um deles, e ficámos todos a olhar para ele, que fazia Macau naquela anedota, mas ele só se ria e repetia “tenho a certeza que era Diamantino, do apelido é que eu já não me lembro, só me lembro do pobre do Joaquim Letria a aguentar aquilo, horas e horas, porque nunca mais se conheciam outros resultados, só esse, o primeiro deputado a ser eleito, o deputado por Macau, e o Joaquim perfeitamente à rasca, mas sempre a sorrir, horas e horas em directo só com a notícia do sr. Diamantino já eleito!...”
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E, de repente, todos nos lembrávamos.
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E, de repente, tínhamos todos voltado aos idos de setenta.
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E, de repente estávamos nas nossas primeiras eleições, as primeiras do resto da nossa vida, as que demoraram a noite inteira e os nossos olhos já vermelhos do esforço de se colarem ao écran.
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Claro que depois descemos por momentos à terra, fomos deitando os olhos pelos vários canais, rimos à gargalhada com o “Daily Show”, de que todos nos descobrimos fanáticos admiradores, - enquanto as garrafas se esvaziavam e a meia-noite ainda vinha longe.
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E fomos ouvindo comentadores, e correspondentes no Kentucky e em Chicago e em Washington e no Quénia, e no Hard Rock Café ali aos Restauradores, que aqui o pessoal também é gente e merece.
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E fomos abrindo mais uma garrafa, e dando vivas ao Obama, e à avó do Obama, e aos meios-irmãos do Obama - mas depois havia sempre um de nós que dizia “eh pá, a falta que o Joaquim Letria faz nesta televisão!”— e pronto, lá vinha o Sr. Diamantino de Macau, e a risota generalizava-se e já ninguém podia falar doutra coisa e voltávamos ao nosso tempo de há tanto tempo, e tínhamos todos menos trinta anos, e ainda acreditávamos que o mundo ia ser aquilo que sonhávamos que ele fosse.
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Por isso nesta noite de 4 de Novembro, não foi apenas Obama que ganhou. Foi também a recordação do que há cerca de trinta anos esperávamos que ganhasse.
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Obama a ganhar por todos nós. Incluindo, obviamente o Sr. Diamantino de Macau.
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(E as saudades que todos tivemos de ti, Joaquim!)

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«JN» de 9 de Novembro de 2008
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domingo, 9 de novembro de 2008

A NOITE AMERICANA (E OUTROS CONTOS)

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Por Nuno Brederode Santos
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COMO TANTA GENTE, vivi entre amigos a noite americana. Uma poltrona, um copo à mão e um cinzeiro que começa imaculado, mas sobre o qual chovem beatas ao ritmo do apuramento dos votos. Em volta, vozes familiares, risos conhecidos, exaltações antigas - ou seja, idiossincrasias da minha colecção pessoal. Não quero chocar ninguém, mas nem James Bond, nem Indiana Jones, nem Rambo: as grandes emoções são sedentárias.
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Vivida a festa, porém, logo na manhã seguinte vemos alguns, dos que era lícito pensar que a celebravam, falando agoiros em nome da prudência, com caras soturnas e olhar sombrio. É deprimente a militância no cinzento. É a recusa do encanto em nome de qualquer desencanto que aí venha. É a recusa dos afectos porque amanhã estaremos todos mortos. Nós sabemos que os valores iluminam o sentido da História e os interesses fazem a gestão do cruzeiro da vida. Mas os valores libertam muitos condenados e assustam muitos carcereiros. Devemos-lhes a literatura, a música, a pintura. Já os interesses, esses, são contas em papel pardo, sem as quais o merceeiro não nos fia. Depende deles o nosso dia. Nós sabemos. E creio que Obama, o "menino magricela com um nome esquisito", saberá que quase sempre os valores desaguam nos interesses e dissolvem-se neles. Mas, que raio!, isto avança por marés. Sigamos esta por agora. Se e quando esmorecer e sobrevier o desencanto, pois também esse é finito e precário - como nós e como o encanto que ele matou. Mas então sobrevirá outra maré alta de valores, trazida por outro alguém que ousou e que subirá um pouco mais no areal dos interesses. Talvez relembrar os interesses seja pôr um frio juízo nos calores da noite americana (ou nesse novo imaginário que mobilizou, de mãos dadas, a maioria de tantas velhas minorias). Mas a ilusão que galvanizou essa noite, por muito que desfaleça, terá deixado na praia alguma verdade irreversível. E a verdade, como as baleias, não tem guelras: mais tarde ou mais cedo, tem de vir à superfície respirar. Depois de Martin Luther King, poucos acreditavam na viabilidade de um caminho entre o Pai Tomás e Malcolm X. Afinal havia um e Obama fez dele uma alameda: subentender as raças, em vez de falar delas. Pressupô-las como experiência e memória, para logo as superar na proposta de uma acção conjunta. Ele sabe e nós sabemos que não há mandato que chegue para endireitar os dois de Bush. E que, mesmo sem Bush, já havia na América muito para endireitar. Mas a aventura ainda mal começou. Deixem tentá-la, porque algo, senão de bom, pelo menos de melhor, irá ficar.
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Um ambiente de rixa de taberna em fim de noite, em tempo de salários em atraso. Um chefe de Governo (e chefe de tudo o mais, de resto), sentado entre a potestade e o escárnio, brada "fascistas!", por cinco ou seis vezes, dirigindo-se aos adversários políticos. Acácios em pose de Estado embrulham, com pompa e latim, inconstitucionalidades, ilegalidades e agressões várias às regras mais rudimentares da coexistência democrática. Há deputados façanhudos que pensam o impensável e dizem o indizível. Uma maioria prepotente que impede o exercício de um mandato popular e que aproveita pretextos para suspender o funcionamento da própria assembleia em que impera. Tudo isto para calar um deputado que à falta de senso comum acrescenta a arreigada convicção de que a política se faz para os media, pelo que nada melhor do que jogar com o circense e o bizarro (e ao qual acabaram por proporcionar um dia fasto). E tudo isto é assegurado por seguranças privados, pelo receio de tais mandantes de que a PSP obedeça à normal cadeia de comando que culmina no "colonizador". Grandes momentos de televisão. Grandes momentos de democracia. Durante tudo isto - e até ao recuo em toda a linha do PSD/M - o PSD nacional não tugiu. Escondeu-se no silêncio e no embaraço. Não sei como vai ser: Jardim não consegue impor-se no continente, mas ninguém, no PSD nacional, consegue refrear os seus abusos na Madeira.
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No passado domingo, escrevi aqui "O parlamento no seu labirinto", brincando com o título de Gabriel Garcia Márquez. Já de madrugada e correndo a blogosfera, encontrei, no "Bicho Carpinteiro", uma prosa de José Medeiros Ferreira sobre o mesmo tema e sob o título "Cavaco Silva no seu labirinto". Logo calculei que haveria quem visse no meu texto a réplica ou a indirecta que ele não era (o que, de facto, viria a suceder). Por isso, logo no domingo, entendi dever explicar-me a JMF, que recebeu o caso com a bonomia que as velhas amizades consentem. Faço aqui este registo, para esclarecimento de todos os que hajam lido ambos os textos.
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«DN» de 9 de Novembro de 2008 - Este texto é uma extensão do que está publicado no Sorumbático [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.