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domingo, 13 de junho de 2010

Curtas-Letragens - GTB

Por Miguel Viqueira

DAS COISAS QUE FAÇO com prazer é falar dele, Gonzalo Torrente Ballester, o romancista que há exactamente cem anos, nesta manhã de Santo António, nascia no vale de Serantes, a dois passos do Ferrol (Galiza), e de quem tive a sorte de ser muito amigo. E o privilégio de aprender quanto sei de algumas coisas importantes para mim.

Diz-se que os artistas não têm biografia, têm obra. E que é melhor que assim seja porque as vidinhas deles soem ser um desastre humano de proporções insuspeitas, muito em particular as dos escritores. Neste caso está longe de ser verdade: a biografia de GTB faz jus à magnitude da sua obra, não pela quantidade nem a importância dos feitos mas pela qualidade humana com que se conduziu neste mundo, comportamento que fez dele talvez o último dos cavalheiros que eu conheci, uma pessoa cabal, um ser humano completo, inteligente e divertido, de rara compaixão, um exemplo humilde de rectidão moral e de bondade não contaminada.

Acendeu-se naquela manhã atlântica a luz de um escritor que atravessaria o século, que resistiria todas as suas tragédias e acabaria por nos deixar um legado de extraordinária importância sob a forma de uma obra literária que não tem par na Espanha contemporânea e cujo alcance nos sobreviverá a todos longamente. Admirador de Portugal, país que julgava o seu mais afim, não escondia o gosto pela literatura portuguesa: Eça e a geração de 70 eram a sua devoção; Pessoa o seu poeta e Torga o seu descobrimento tardio: três marcos de um muito mais vasto conhecimento lusitano com o qual se identificava, como sujeito atlântico que sempre fez questão de se reconhecer.
Ficou apenas uma coisa por fazer, que lamentarei sempre: passar uns dias de verão em Sintra (“É inevitável imaginar, por trás das janelas esconsas, vidas extraordinárias, sucessos suculentos, sem que isto seja exagerar, pois toda a vida humana, se se conhecesse na sua substância e não apenas na aparência, contada, seria extraordinária e única: contada com graça, entenda-se. Mas isto não o sabem alguns escritores”), ir de charrete à vila nas manhãs de neblina, mantinha escocesa sobre as pernas e um ar de romântico inglês em férias...

A luz de GTB iluminou as vidas de quantos o conheceram. A minha alterou-a completamente: fiquei seu eterno devedor e não passa dia que o não lembre. Restam-me as memórias e os seus livros, muitos dos quais se podem encontrar bem traduzidos em português. Ninguém o deixou escrito melhor do que ele próprio: “Quando morre um escritor, o melhor que se pode fazer é procurar nos seus livros o testemunho da sua relação com a realidade, e que o leitor o faça seu como puder e enquanto puder. Que não desespere na busca: por trás da obscuridade aparece sempre alguma coisa”.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Curtas-Letragens - «Natal...»

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Por Miguel Viqueira

POIS, NATAL OUTRA VEZ... Para uns o pior é coleccionar os pares de peúgas que os mais velhos oferecem, impenitentes; para outros, arrumá-los. Para aquele seu conhecido, o pior do Natal é suportar os cunhados. O Natal, que perdeu o sentido religioso de antanho e se converteu na festa da família, ou na chatice da família, que diria o tal outro, para ele foi sempre época de melancolia, desde miúdo. E de saudade. Apetecia-lhe sempre estar com quem não podia e tinha saudades do impossível. Hoje lembra-se sempre de tipos e de coisas perdidos na noite dos seus dias, como aqueloutro desconhecido, de umas duas vezes a idade dele da altura, que se perfilava no meio da rua deserta cada anoitecer. Era uma álea de plátanos, lisa e direita, mal iluminada, algumas folhas outonais ainda no chão húmido de chuva recente teimando em não sucumbir ao inverno, ninguém por perto, o silêncio apenas quebrado pelo rumor da cidade que então parecia longínquo. O que recorda é só as sombras da noite, o frio, as luzes pálidas, uma brisa fresca e seca, como de montanha, e o tipo ali parado, direito no seu fato de treino azul, toalha à volta do pescoço, a concentrar-se, movendo as mãos e os ombros em pequenos círculos, rítmicos, lentos, como num ritual estranho e de fim imprevisível. Depois respirava fundo e arrancava. Corria devagar, como a trote, doseando o esforço, disciplinando o alento, uma nuvem de vapor a desenhar-lhe a aura, e sumia ao fundo da rua, já no escuro. Pouco depois emergia da esquina e volta a começar: assim por horas, todas as noites... Já no colégio ouvia-o passar no beco das traseiras, os passos cadenciados batendo perfeitos no chão da noite; e na camarata, às escuras, ouvia-o ainda nas últimas voltas, até que o silêncio completo se abatia sobre ambos. Uma noite atreveu-se a perguntar-lhe o que fazia. Treinava. Queria correr os dez mil metros nas olimpíadas e corria todas as noites dez mil metros. Todas. Calculara as voltas a dar ao longo e sombrio quarteirão dos colégios e tornara-se sem o suspeitar sequer na companhia nocturna daquele miúdo. Com a persistência do artesão e a pontualidade do carteiro, nunca falhou uma noite, nunca deu um passo em falso, jamais alterou o ritmo cadenciado, nunca desistiu. Ele nunca chegou a saber como se chamava. E também não soube nunca se alguma vez conseguiu participar nas olimpíadas. De vez em quando pensa nele, e ouve-lhe os passos, e vê-o ainda desaparecer na noite do colegio como despareceu na noite dos seus dias. Pois, Natal...

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Curtas-letragens - “Carrnaváu”

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Por Miguel Viqueira
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“OLHA SÓ dona Marrta...!” era o remoque favorito a propósito de tudo e de nada da “faxinêra” da dona Marta, “nega” carioca de grande pandeiro, que mais que andar se contornava ao deslocar-se, risonha mesmo quando não ria, de grandes dentes alvos e olhar fundo debaixo do lenço atado na nuca e que passava o dia nestas e noutras lamentações que mais pareciam já uma cantilena amável, um traço de identidade inconfundível.
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Um dia chegou acabrunhada, olha só dona Marrta, e não parou de se lamentar, a fazer tudo ainda em marcha mais lenta, até que para o fim do dia a dona Marta lhe arrancou o olha só. O pai estava doente, muito doente. E logo agora, vésperas do “carrnaváu”...! Conselhos, recomendações, promessas de que tudo se comporia, você vai ver, conseguiram arrebitar a “faxinêra” que voltou para a favela um pouco menos olha só dona Marrta.
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Na manhã seguinte apareceu de rastos: olha só dona Marrta...! Papai piorou! E o carrnaváu aí chegando, minha nossa...! A coisa parecia séria, o velho estaria mesmo nas últimas, e a olha só desesperava por causa de ter de ir bailar o carnaval com o pai moribundo, olha mesmo só!
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O carnaval chegou enfim, a olha só desapareceu como fizera sempre com ou sem papai doente, e a dona Marta bazou do Rio, que é o que fazem nessas alturas críticas as pessoas de bom gosto. Passada a festa, todo o mundo de volta ao Rio, a faxineira reapareceu enfim, chorosa, completamente destroçada. A ressaca, talvez? Olha só dona Marrta... Papai morreu mêmo. Logo logo no mêmo dia que saí daqui, olha só...! Então mas... e o carnaval? Oh o carrnaváu fô o maó barato, dona Marrta olha só...!
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Contou à estupefacta dona Marta que quando chegara à favela dera com grande carpidação familiar: o velho morrera essa mesma tarde, ao que parece desconsolado por não poder já ir viver o carnaval iminente. Deixaram-no na cama onde falecera, amortalhado e bem tapadinho, fecharam a porta do quarto, trancaram bem a casota da favela e lá se foram todos bailar o carnaval. Três dias e muito samba depois reabriram o quarto, alertaram as autoridades, chamaram de urgência o padre, e procederam ao velório e ao enterro cristão, como era de rigor. E ali estava ela, compungida e chorosa na aflição do luto, olha só dona Marrta...!
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NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [v.
aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Curtas letragens - "Good luck, mister Gorki!"

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Por Miguel Viqueira
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CIRCULA POR AÍ esta história mas desconheço se chegou a ser escrita, e por quem. Como sempre a achei fascinante, quero assentar aqui o seu registo, para (boa) memória futura...
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Concluído o histórico passeio lunar naquela noite mágica para a Humanidade, Neil Armstrong voltava para o módulo da Apolo XI seguindo Aldrin, e ao subir a escada, consciente ou não de que o micro continuava aberto, proferiu a frase mais misteriosa dos seguintes quarenta anos: “Good luck, mister Gorki!”. Em Houston foi primeiro o desconcerto, depois o pânico: quem demónios era esse tal Gorki, e, sobretudo, que ligações poderia ter com Armstrong, com a Nasa e em última análise com a segurança dos USA? O que estava afinal em jogo aqui? Seria o mais recente e maior herói do mundo um espião a soldo de Moscovo? Imaginem o que se terá passado com Armstrong logo após a apertada quarentena a que os três astronautas foram submetidos no regresso...
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Por décadas tombou um silêncio de ferro sobre as estranhas palavras, que por milagre não chegaram a ser retransmitidas urbi et orbi, até que o esquecimento as varreu de quase todas as memórias. Passaram-se muitos anos, a guerra fria terminou, a corrida espacial também, o muro tombou, e Neil Armstrong, convertido em lenda viva e já para sempre habitante do olimpo dos heróis norte-americanos, dedicava-se a dar conferências para entreter a sua velhice e a receber homenagens por toda a parte. Numa destas um jornalista mais afoito perguntou-lhe, em público, se realmente tinha dito aquelas palavras e, afinal, quem era mesmo esse senhor Gorki. Armstrong baixou a cabeça por instantes, acenou-a levemente, e sorriu com ternura envergonhada. Depois confessou que sim, que era verdade que dissera aquilo, que na altura se guardou o maior segredo entre outras razões porque ninguém iria acreditar, mas que hoje já não tinha qualquer importância nem fazia sentido ocultar a verdade, afinal tudo não passava de um simples episódio da sua remota infância.
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E contou, entre sorrisos embaraçados, que quando era garoto um dia a bola lhe escapou para o quintal do Sr. Gorki, seu vizinho. Saltou a sebe e foi apanhá-la, mesmo por baixo do quarto do casal. Sem querer ouviu então uma acesa discussão entre eles. A senhora Gorki gritava, furiosa: “Sexo oral? Sexo oral...?! Só mesmo quando o miúdo daqui ao lado caminhar na lua!”. No regresso ao módulo, de tão feliz, Armstrong lembrou-se daquilo e a frase saiu-lhe da alma. Eis tudo.
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Pois neste dia histórico para Obama e para os Estados Unidos da América, eu não consigo deixar de pensar nos outros Gorkis que porventura ainda haverá espalhados por aquele imenso e belo país adiante, e desejar-lhes a melhor das sortes...

sábado, 27 de dezembro de 2008

Curtas-letragens - Prenda de Natal

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Por Miguel Viqueira
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ALGUÉM ME AVISOU que amanhã era véspera de Natal. Dei comigo a pensar na minha mãe velhinha, nas minhas irmãs, nos miúdos, a sós na humidade da província. Quando pude partir era já noite cerrada, chovia a cântaros, um desses temporais desfeitos que se abatem como a vingar-se de um pecado infame. O trânsito estava impossível, filas intermináveis à saída da cidade, luzes estilhaçadas no vidro em mil gotículas que me toldavam a visão, e subitamente um vulto, negro, espaventoso, que não atropelei por milagre. Estaquei o carro, descortinei um homem de braços abertos à minha frente mandando-me parar, com ar desesperado, e instintivamente abri a porta do passageiro. Antes de que pudesse dizer nada o homem entrava, esbaforido, de aspecto alucinado, ofegante, como a olhar para uma coisa que só ele pudesse ver. Estava tão encharcado que me salpicou quando se deixou cair no assento, o cabelo aciganado a escorrer-lhe pela testa e os olhos, a bichanar algo que me pareceu “que dia, que dia!”. Arrependi-me no mesmo instante mas já não havia nada a fazer, as buzinas protestavam atrás de mim, o trânsito arrancava, seguíamos agora na grande tarasca dos farolins vermelhos. Tinha um aspecto grande e sinistro assim ensopado, um rosto contraído, abrutalhado, que me inspirou receio. Como não dizia nada, não se explicava nem se mexia, só abocanhava o desespero com que o vi e entrou, senti-me na obrigação de dizer eu alguma coisa, de meter conversa a ver se me acalmava acalmando-o. Tentei distraí-lo, falar-lhe do natal. “Natal o caralho!”, replicou mastigando as palavras. Passei para o futebol. “Futebol o caralho!”. Experimentei a chuva, “Chuva o caralho!”; já só me faltavam as mulheres, mas a tanto não chegava a minha ousadia: não disse mais nada, agarrei-me ao volante e que fosse o que Deus quisesse. De esguelha pude ver, pela abertura do casaco enfunado, a coronha gasta de uma pistola ao cinto. Senti que as pernas me falhavam mesmo estando sentado. O homem ciciava de vez em quando, julguei perceber “eu mato, eu mato” e não tive coragem nem de respirar um bocadinho mais fundo. E como tudo estava a correr tão bem, de repente umas guinadas e uns esticões no volante acabaram de arranjar a coisa: um furo, um furo com aquela chuva e com aquele tipo no carro! Fiz-me à berma sem noção do que iria acontecer a seguir, já nem me lembrava de onde estaria o pneu sobressalente, quando o homem disse, grave, “eu trato d’isto”, e antes de que eu pudesse compreender o que ouvira já ele estava no exterior à chuva e ao vento, a bater na mala para que eu a abrisse, o que fiz, quando o que me apetecia fazer era mesmo arrancar a toda a mecha. Ouvi-o a mexer nas minhas coisas, movê-las do lugar, levantar a borracha e extrair o pneu, o macaco. Depois o carro a elevar-se até ficar inclinado e o chirriar da chave nas porcas, o barulho da troca e o carro de novo nivelado no solo, enfim o ruído de arrumação apressada e o estrondo de fechar a mala; depois um curto silêncio, como se nada se tivesse passado, só a chuva furiosa a fustigar os vidros. Do meu lado vi então a sombra imponente dele a debruçar-se sobre a janela. Abri-a dois dedos e ouvi-o dizer-me “Siga! Eu fico por aqui”. A razão, a simples humanidade, quiseram perguntar-lhe se era doido, mas o instinto arrastou-me-me dali para fora sem um pio. Pelo caminho ainda cheguei a pensar se afinal o homem não teria aproveitado para me roubar... Tarde na noite, a sós à lareira de minha mãe, pensei em todas estas coisas, que se sucediam em carrossel na memória, sem sair da minha perplexidade. Vencido, fui deitar-me. Acendi a luz do quarto gelado, sobre a cama a mala ainda por desfazer. Abri-a sem muita vontade, só para tirar o pijama, e os meus olhos ficaram cravados na pistola negra de coronha gasta, deposta sobre as camisas.
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