domingo, 27 de julho de 2008

UM MUNDO PACHOLA

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Por Nuno Brederode Santos
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ESTE PEQUENO VALE ALENTEJANO onde, uma vez mais, busquei refúgio, põe-me à frente uma porta luminosa. Por tudo quanto sei, pode ser o umbral de uma máquina do tempo ou um parêntesis tridimensional. Nem cuido disso. Aprendo apenas que ainda há onde o céu traga mais novas e nos suscite mais atenção do que o vago e ternurento nada que nos toma os ombros e recobre as pernas esticadas, a fazer ponteiros de um relógio de sol impreparado. Lá em cima, passam nuvens irrepetíveis, no mesmo tempo em que, cá por baixo, só há rotinas: a ursa branca e estilizada que, ao longo da tarde, avança, nos vagares do tecto azul, cobre a cria que não trazia ontem; mas o cão que finge cheirar-me as pernas (suspeito que para se certificar de quais são os jornais que empilhei para ler hoje) é o mesmíssimo rafeiro de todos os dias, de todos os meses, de todos os anos (vai velho, o cão: dizem-me que já conta 16 anos - 16, a almejar em silêncio ansioso a felicidade que já teve).
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Mas este tem sido um ano benigno, talvez para dar espaço a que as tão faladas crises se manifestem. Respeitou-se, é claro, o essencial, mas em doses comportáveis. Tivemos um pouco de miserabilismo voyeur nos doloridos caminhos de Fátima, mais o decepcionante e fugaz leão da Maia e uns fotogramas em sépia dos nossos carinhos por Timor. Na falta de uma ruidosa escandaleira à Max Mosley, ainda arranjámos por cá umas traquinadas com uma extrema direita incipiente. Tivemos um aperitivo (breve) de bastidores do Europeu de futebol, que ainda deu para torcermos pelo Cristiano Ronaldo contra a Nereida Gallardo (que nem jogou) e para fazermos a vida negra ao Deco por ir para Londres com a mulher que já tinha escolhido. Não falhámos a animação de rua: houve que aplacar os camionistas, chegando a acordo com os patrões deles. Tivemos o sururu da estação com os armadores de pesca e chateámos a Alexandra Lencastre por causa da vida privada da irmã. A Madeira deu-nos pirotecnia insular. O PSD preencheu o vazio nervoso dos espíritos mais institucionais, com as esporádicas ajudas do Compromisso Portugal (como ele é) e da Sedes (como ela está). O caso Maddie terminou sem brio nem glória, com protagonistas devorados pela espiral mediática que quase todos alimentaram (e, como os últimos dias atestam, alguns nada aprenderam com isso): ficamos com pouca razão, mas com o amargo de boca de algum Brittania rules the waves a troar na costa algarvia. Não estando esquecido que 2009 é ano de muitas eleições, do subsolo seco brotaram imensos novos partidos, cogumelos que ninguém plantou e que, na sua maioria - que é a dos que não serão convidados a integrar listas partidárias - serão depois reabsorvidos pelo mesmo chão que os acolhia e no qual irão dormir mais quatro anos de mansidão cataléptica, envoltos nas excelsas virtudes que os fizeram vir à superfície, a cuidar da sua horta de tubérculos.
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E agora? Agora a gente vai e vem de férias e as cidades ficam baldios iluminados (mais pelo néon do que pelas luzes do espírito). A beautiful people tomará conta da vida nacional e os amores e desamores da saison proporcionarão, por certo, a nossa ração de combate de fatuidades e intrigas. Os minutos de glória serão disputados pelos mais insuspeitos, se necessário à custa de umas quantas nutridas escandaleiras. Em meados de Setembro, já quase tratamos por tu uns senhores de quem, a esta data, jamais ouvimos falar: eles tomarão o lugar de outros tantos, que no ano passado nos foram íntimos, mas que a estação fria nos fez entretanto esquecer. Haverá também um bom desastre, é claro, mas é cedo para sabermos qual (um arrastão na linha dava jeito). E fogos, claro: com cinco minutos de chamas em directo e quarenta de imagens de arquivo e entrevistas a transeuntes. E a substância?, já vejo alguém perguntar-me. Bem, faltam umas quantas greves (TAP, patrões de costa, maquinistas - já nem estou certo das que faltam), outros tantos sobressaltos corporativos e umas intrigas sobre as obras da Assembleia da República. Depois, as habituais novelas do PSD, desde o retorno do não convite à líder para as comemorações da Madeira até ao Pontal (mesmo que a direcção política se fique pela Universidade de Verão). Um ou dois membros do Governo dirão coisas que lhes exigirão desculpas públicas. E quatro ou cinco interesses de difícil compatibilidade bloquearão ruas e avenidas, a complicar a vida aos cidadãos, mas a lembrar que essa ideia de oposição circunscrita ao Parlamento é a carta ao Pai Natal de todas as maiorias parlamentares.
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E o nosso mundo, sofrido mas pachola, cá estará à nossa espera.
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«DN» de 20 de Julho de 2008.
NOTA: eventuais comentários a esta crónica deverão ser afixados no blogue Sorumbático - ver [
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