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domingo, 3 de janeiro de 2010

Crónica piegas de fim de ano

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Por Alice Vieira

ESCREVER A CRÓNICA DE HOJE é uma coisa estranha, porque estou a escrevê-la em 2009, mas quando a lerem já estamos em 2010 - e sinto-me assim naquela terra de ninguém que são sempre as vésperas dos anos novos.

E ponho no leitor de CD’s músicas piegas, porque hoje tudo é permitido, e encho-me de aznavours e domenicos modugnos e coisas do tempo em que o tempo demorava muito tempo a passar, não era como agora em que as horas têm cada vez menos minutos e os minutos menos segundos.

E de repente voltam-me à cabeça as imagens do almoço de ontem, daqueles almoços anuais de gente que anda perdida mas que, quando toca a reunir, não falta: e eu no meio dos meus velhos camaradas de trabalho do “Diário de Notícias”, mais de trinta, da redacção, do laboratório, da revisão, da contabilidade, da preparação, do arquivo, palavras que se calhar hoje já nem se usam, mas que foram a nossa casa comum durante anos e anos.

E tal como as músicas no leitor de CD’s continuam piegas, este texto também o vai ser, e ridículo, evidentemente, como todas as cartas de amor desde Fernando Pessoa.

Não sei o que os novos jornalistas entendem hoje por “amor à camisola”, “espírito de corpo” e outras expressões igualmente em vias de extinção. Não sei se serão capazes de imaginar um jornal onde havia pessoas — e não máquinas. Pessoas que berravam, barafustavam, insultavam, davam murros na mesa — mas que eram um corpo só, capaz de enfrentar, como um corpo só, tudo o que viesse. Pessoas de todas as ideologias (num tempo em que isso ainda estava quente…) mas que gostavam verdadeiramente umas das outras. Pessoas que não eram apenas jornalistas mas gente de todos os sectores, incluindo motoristas e contínuos. Nós todos éramos o “Diário de Notícias”.

É evidente que esta é uma geração que acabou. Nunca haverá outra igual. Uma geração de gente que esteve no “Diário de Notícias” uma vida inteira e não apenas meia dúzia de anos (ou de meses, que isto agora é tudo efémero...).

Hoje os tempos são outros, a maneira de fazer jornais é outra, as relações entre as pessoas é outra.

E nestes últimas horas de 2009, quando é da praxe desejarmos felicidades aos nossos amigos, eu só desejo às novas gerações de jornalistas que um dia, já reformados, possam reunir, todos os anos, mais de trinta velhos camaradas das suas redacções e terem, como nós, tanta coisa, para lá das notícias, a recordar em conjunto.

(Uma palavra só para o nosso velho chefe de redacção, que por doença não pôde estar connosco: chefe Pires, eu sei que lhe demos um trabalhão dos diabos, mas todos bebemos à sua saúde, e todos concordámos que foi consigo que aprendemos tudo.)

Repito: foi uma geração que acabou.

Mas sinto um orgulho enorme em lhe ter pertencido.

«JN» de 2 Jan 10

sábado, 19 de dezembro de 2009

O Salvador da Pátria

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Por Alice Vieira

O SR. LUÍS CONCEIÇÃO guia o carro n.º 25 de uma cooperativa de táxis de Oeiras.

Apanhou-me naquele descampado que é, à noite, a TVI, e quis logo saber se eu era figurante.
Eu estava estafada, e não dei grande troco.

Mas nem vale a pena falar, porque o Sr. Luis Conceição só quer que o oiçam, e a tudo responde:

- Só conto ao Sócrates.

O Sr. Luis Conceição, que diz já ter feito de tudo na vida, desde pertencer à Marinha Mercante que, segundo afirma, lhe está a dever milhares de contos, até andar pelas Américas, tem um plano infalível para pôr Portugal no primeiro lugar entre todos os países do mundo, no que toca a bem-estar, emprego, saúde, cultura, tudo.

Claro que é um plano que, à partida, exige algum investimento mas, ele já fez as contas, estará completamente pago “dentro de 14 a 21 anos”.

Garante que é um plano facílimo, já completamente estruturado na sua cabeça, - mas não cai na asneira de o divulgar.

Ele quer, pura e simplesmente, enfrentar o Primeiro-Ministro na televisão. Mas também só divulga o plano depois de o nosso Primeiro lhe passar uns milhõezitos para as mãos (“olhe que é mais barato que esse TGV que não serve para nada!”)

De repente vem-me à cabeça uma rábula de uma revista do Parque Mayer, em que a Dora Leal, fazendo de cigana à porta de uma barraca da Feira Popular, berrava: “Um escudo, um escudo, e a Dora diz tudo!”

É claro que isso já foi há muitos anos, o custo de vida aumentou muito, a inflação é o que se sabe e, por isso, por um escudo já ninguém diz seja o que for.

Mas por alguns milhões, o Sr. Luís Conceição dá a receita da felicidade.

Já tentou a televisão, mas respondem-lhe que, se ele não escrever exactamente aquilo que pretende lá ir dizer, nada feito. E ele não vai nessa, tá quieto ó mau, ele revelava o plano e depois outros apropriavam-se dele, não? Garante que não quer enriquecer, mas apenas uma vida desafogada. O que não é muito para quem tem nas mãos o santo-e-senha da entrada para o paraíso.

Interlocutor só aceita um: José Sócrates.

E é bom que Sócrates se apresse. Primeiro, porque o país está numa crise que não aguenta mais. Segundo porque, se a resposta tardar, ele vai direitinho a Espanha oferecer (“oferecer” é, como já vimos, uma força de expressão) os seus serviços.

Eu, se fosse ao engº Sócrates, apressava-me a mandar chamar o sr.Luis, antes que ele — mesmo sem TGV — desande para Espanha.

Há alguns séculos houve um tipo que fez isso como pretexto para dar a volta ao mundo — e ficou-nos sempre atravessado…

Quando quiser, Sr. Primeiro-Ministro, é só dizer, eu tenho todos os contactos. Até porque o Sr. Luis prometeu fazer a minha felicidade se eu o ajudar a fazer a felicidade de toda a gente.
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«JN» de 18 Dez 09

sábado, 5 de dezembro de 2009

A propósito de orquídeas...

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Por Alice Vieira

COM TANTA GRITARIA que vai por aí - ouviu ou não ouviu, foi ou não foi escutado, roubou ou não roubou, foram milhares de euros ou uns trocaditos para o parquímetro, a vacina mata ou a vacina salva — hoje decidi fechar para férias.

Isto é: decidi impermeabilizar ouvidos e olhos a todo o arraial que vai lá por fora, e ficar a olhar para as minhas orquídeas.

Qual Nero Wolf de S. Sebastião da Pedreira.

Claro que hoje já ninguém hoje sabe quem era o Nero Wolf.

Os ingénuos romances policiais, de detectives a escorrer brilhantina com secretárias a escorrer Chanel n.º 5, foram à vida.

Mesmo os que se consideravam “negros” são hoje cor-de-rosa claro, comparados com todas as séries do género que a televisão mostra. E, sem o cigarro na ponta dos dedos, os “private-eyes” e as mulheres-fatais ficaram, definitivamente, desempregados, porque toda a gente sabia que era daquelas baforadas de fumo que havia de sair a resolução do problema (no primeiro caso) e a ida para a cama (no segundo)

Mas Nero Wolf (criado por Rex Stout) nem sequer se encaixa muito nessa categoria, nem é sequer das minhas personagens preferidas, com os seus mastodônticos 130 quilos, bebedor compulsivo de cerveja, de uma inteligência fora do normal e vaidoso dela (“não sou Deus, sou apenas um génio”), sempre metido em casa, e resolvendo os casos depois de o seu assistente lhe ter feito o trabalhinho todo.

A espécie humana interessava-lhe muito pouco, mas amava, apaixonadamente, orquídeas.

Milhares de orquídeas povoavam-lhe o telhado e a vida. De um pé de orquídea nasciam logo mais dez ou vinte.

E é só por causa das orquídeas que eu hoje me lembrei do Nero Wolf.

Por causa da minha orquídea que, se calhar, é descendente de alguma das que ele teria cuidado nas suas estufas.

Porque a minha orquídea não pára de florescer.

Devo dizer que, por ser muito quente no verão e muito fria no inverno, a minha casa não é propícia à criação de flores. Todas as plantas que procuro trazer para dar um ar mais verde ao ambiente, passadas umas semanas já estão a entregar a sua alma vegetal ao criador.
Todas — menos a minha orquídea.

Foi o meu amigo António, o meu habitual “fornecedor” de flores, que ma ofereceu há uns anos. E sem nenhum cuidado especial, a minha orquídea não pára de se reproduzir. Todos os anos tenho orquídeas novas, dou orquídeas a amigos, distribuo orquídeas pela casa toda - e no ano seguinte lá vêm mais.

Esta semana acabei de colocar as últimas em todos os cantos disponíveis.

E faz bem ficar a olhar para elas e ver como, apesar de tudo e contra tudo, todos os anos renascem.

Se calhar o velho e insuportável Nero Wolf é que tinha razão: que se lixe o que vai lá por fora a minha orquídea não desiste.

«JN» de 4 Dez 09

sábado, 21 de novembro de 2009

O que vale a pena

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Por Alice Vieira

NÃO SOU DAQUELES que andam sempre a rir — até porque, como diz o Millor Fernandes, quem anda sempre a rir ou é tolo ou tem a dentadura mal ajustada.

Mas também me aborrecem muito os que passam a vida a chorar, a queixar-se, a lastimar-se, os que vêem sempre o copo meio vazio, e têm um discurso onde repetem, à exaustão, “só neste país é que…”

Pelo que dizem jornais e televisões, parece que realmente nestes últimos tempos não temos tido motivo para grandes alegrias…

Mas se calhar os jornais e as televisões não dizem tudo.

Porque a verdade é que, apesar de tudo, “este país” já tem muita coisa de que se devia orgulhar, não fosse o caso de sermos irremediavelmente mais propensos à pateada do que às palmas.

Há dias eu vinha no avião do Funchal para Lisboa a ler a revista da TAP.

E, pelo meio de vários artigos mais ou menos turísticos, descubro um artigo do Prof. Alexandre Quintanilha sobre o estado actual da investigação científica no nosso país.

E, para meu grande espanto, ele não se lastimava de falta de apoio, não pedia subsídios, nem fazia o choradinho do “tão pobrezinhos que nós somos”.

No artigo, o Prof. Quintanilha dizia que já era compensador fazer investigação científica no nosso país e que muitos jovens cientistas tinham decidido trabalhar cá e estavam a desenvolver trabalhos de grande importância em laboratórios, universidades e centros de investigação portugueses.

Eu bem sei que uma revista que se faz para ser lida enquanto o pessoal anda pelo ar tem de ser uma revista optimista.

Mas também sei que o Prof. Quintanilha não é nem um “entertainer”, nem membro do governo a puxar a brasa à sua sardinha - e portanto sabe muito bem do que fala.

De resto, pouco depois chegava a notícia de que a jovem cientista portuguesa Mónica Bettencourt Dias, a trabalhar no Instituto Gulbenkian de Ciência, tinha sido incluída, pela Organização Europeia de Biologia Molecular, na lista dos mais talentosos jovens cientistas da Europa. (E acrescente-se que já tinha sido, em anos anteriores, distinguida internacionalmente pelas suas pesquisas, que podem levar a novos métodos de diagnóstico e combate ao cancro).

E o que se passa na área científica, passa-se noutras áreas. É notável o trabalho actual de muitos jovens músicos, compositores e intérpretes – que, infelizmente, não são divulgados pela televisão nem têm direito a grande espaço nos jornais.

Mas existem. E estão a trabalhar muito bem. E, se não há condições, eles inventam-nas.

Tenho a certeza de que se as pessoas entendessem que há vida para lá da chicana política e do futebol, vendia-se muito menos Prozac e os consultórios dos psiquiatras não estavam tão cheios.

«JN» de 21 Nov 09

domingo, 8 de novembro de 2009

A Vacina

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Por Alice Vieira

O MEU AMIGO ANTÓNIO acaba de receber uma carta avisando-o de que, a partir do dia tal, deverá ir ao centro de saúde, das tantas às tantas, para lhe ser administrada a dose de Tamiflu a que tem direito.

O meu amigo António é mais novo do que eu, professor recentemente reformado. Solteiro e sem filhos, vive sozinho lá no seu casarão numa pequena cidade dos arredores de Lisboa, entre quadros, livros e música.

O meu amigo António não é obeso, não tem asma, não tem nenhuma doença crónica, não sofre de coisa nenhuma em especial e, evidentemente, não está grávido.

O meu amigo António não guia táxi, não é deputado, não atende ao balcão, e não pratica enfermagem nos tempos livres.

Além disso o meu amigo António teve a asiática em pequenino (“foi uma festa, fecharam as escolas todas!”) e parece que isso garante uma certa imunidade à gripe-A.

O meu amigo António olhou para a carta, leu-a e releu-a, e de repente começou a sentir-se mal.
Muito mal mesmo.

Porque, sendo uma pessoa absolutamente saudável, o meu amigo António sofre de uma doença absolutamente incurável : é hipocondríaco em altíssimo grau.

E neste momento anda a incomodar meio mundo (médico de família, médicos da urgência a que costuma recorrer, família, amigos chegados, meio chegados, afastados, afastadíssimos, vagamente conhecidos) para que lhe digam a verdade.

Ou seja: ele deve estar muito mal e não sabe.

Ele deve estar em risco de patinar e toda a gente lhe anda a esconder o seu estado.

“Ó doutor, o doutor já me conhece, eu aguento, juro que aguento, mas não me esconda nada! Se os serviços de saúde me convocaram — e olhe aqui, não há dúvida, é o meu nome todo... — é porque devem saber mais do que eu… Diga-me lá, doutor: é grave?”

O pobre do médico já lhe disse quinhentas vezes que ele não tem nada, está em óptimas condições de saúde, até a tensão é a de um jovem, nem colesterol alto, nada de nada.

Mas ele não se conforma: se os serviços de saúde o chamaram, é porque é prioritário; se é prioritário é porque alguma coisa de mal deve ter…

De vez em quando telefona-me e, em voz cava, pergunta:”já te chamaram?”

E eu vou sempre dizendo que não, mas ele que não perca a esperança, um dia destes se calhar lembram-se de que tive hepatite-C há 50 anos, e um cancro já lá vão mais de 20 — e também me consideram prioritária.

Mas ontem o António telefonou muito mais animado. Assim como se lhe tivessem tirado um peso de cima. É que segundo leu nos jornais, parece que os centros de saúde lá da cidade dele receberam doses de Tamiflu que nunca mais acabam, e por isso vai ser tudo vacinado a eito.

Respirou ele fundo e respirámos nós. A vacina pode vir a ser-lhe muito eficaz a prevenir a gripe, mas ia-o matando de coração.

«JN» de 7 Nov 09

sábado, 24 de outubro de 2009

O Psicólogo

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Por Alice Vieira

HÁ MUITO TEMPO que não via a Lurdes, minha antiga colega de faculdade.

Daí a gargalhada de ambas quando esbarrámos no café, e lá abancámos diante de uma bica, a pôr a vida em dia.

Saltaram as fotografias da carteira, e o relato fatal das gracinhas infantis.

É então que ela me diz, apontando para a cara risonha do seu neto de três anos, “este até já anda no psicólogo”.

Eu fiquei sem saber o que dizer, tanto mais que a Lurdes falara com um indisfarçável orgulho na voz, assim como se dissesse, “este já anda no judo e é cinturão negro”.

Que eu soubesse não tinha havido revolução de maior na vida da criança, nem pais separados, nem um novo irmão, nem nenhum morto, mas a Lurdes, com um sorriso condescendente, lá explicou que o recurso ao psicólogo se devia ao facto de a criança ir entrar agora pela primeira vez para a escola infantil: “ eventualmente poderá haver um problema de rejeição da escola, e é preciso tratar.”

Ainda perguntei por que não eram os pais a ocupar-se disso — mas logo a Lurdes disse que nem pensar, porque os pais não tinham “preparação técnica”.

E pronto. Lá vai a criança, de três anos de idade, todas as semanas ao psicólogo, que a ajuda a resolver um problema que muito possivelmente ela nem nunca terá.

Ou seja: que lhe dirá (espero…) aquilo que nós todos dizemos às nossas crianças em alturas semelhantes: vais gostar muito de brincar com os outros meninos, vais aprender muitos jogos, e muitas cantigas, etc, etc…

Mas hoje os pais já quase não sabem falar ou brincar com as crianças.

Pensam que brincar é uma coisa que só se faz diante de um écran. Brincar com uma criança é, cada vez mais, pô-las a ver televisão, ou atirar-lhes com um computador para que fiquem horas a fazer jogos.

E não há nada mais triste do que uma pessoa que não sabe conversar nem brincar com uma criança.

Uma pessoa que olha para uma criança como se ela fosse um país estrangeiro. Um país inimigo.

Por isso, despeço-me da Lurdes e chego a casa estupidamente cheia de saudades da minha mesa da casa de jantar, que range mal se lhe toca, que tem a tábua do meio partida e as pernas desengonçadas — mas que os meus filhos me proíbem de substituir, porque foi nela que o pai os ensinou a jogar ping-pong; e nem me importo com os buracos ainda visíveis na parede ao fundo do corredor, do tempo em que lá estava pregado um cesto de basquete onde todos exercitavam a pontaria; e lembro a choradeira que foi no dia em que decidimos lavar a parede do quarto do meu filho (o rapaz já tinha entrado na faculdade!) onde ele e o pai escreviam todas as coisas que queriam dizer um ao outro e às vezes não tinham coragem.

E nunca sequer nos passou pela cabeça saber se tínhamos ou não preparação técnica.

«JN» de 24 de Outubro de 2009

sábado, 10 de outubro de 2009

Eleições - Parte 2

Por Alice Vieira

E LÁ TEMOS de novo eleições.

E lá temos de novo as mesmas esperanças, as mesmas angústias, as mesmas horas que têm todas muito mais de sessenta minutos.

E lá encontramos de novo as mesmas pessoas, “cá estamos outra vez”, “então, tem de ser”, arrastando-se até às mesas, enganando-se de vez em quando, “então tu não me disseste que era na 5?”, “da outra vez acho que foi”, “mas a outra vez foi a outra vez, esta vez é esta vez”, “anda lá para a frente e não me chateies!”, tudo em prol da democracia e da harmonia familiar.

E de novo ficamos plantados diante do televisor, que nos informa que o político A foi passar a tarde ao cinema, que o B foi andar de bicicleta para o Parque das Nações, que o C anda com os filhos pela “Kidzania” a mostrar-lhes o que a vida custa a ganhar, que o D está de visita à avozinha que se encontra num lar, que o E aproveitou para pôr em dia as palavras cruzadas de uma data de jornais atrasados — ou seja, que só nós é que somos parvos ao ponto de ficarmos agarrados ao écran a roer as unhas.

E de novo ouvimos as mesmas análises, as mesmas desculpas, as mesmas justificações.

E de novo nos admiramos com as declarações que já devíamos saber de cor, e esperamos pelas oito horas por causa dos Açores, e mesmo em cima das oito horas já as televisões anunciam os resultados, e toda a gente fica a saber tudo, menos os desgraçados que estão a contar os votos das urnas, esses são, como os maridos enganados, os últimos a saber — o que não deixa de ser estranho, e nunca entrou na cabeça da minha tia Clara que, até morrer, coitadinha, perguntava sempre, em alturas destas:

- Se só agora é que estão a abrir as urnas, como é que na televisão já sabem quantos boletins havia dentro de cada uma?

Acho que pensou sempre que ali havia um bruxedo qualquer, quem sabe se não terá mesmo suspeitado de um intrincado sistema de escutas dentro das urnas ou qualquer outro plano igualmente diabólico.

E de novo os que ganharem, ganham; e os que perderem também ganham – mas quem na verdade ganha é o chinês da minha rua, que é o único restaurante aberto em todo o bairro em dia de eleições.

Mas ainda estou para saber por que é que a gente anda para aqui com eleições, se todos nós sabemos (porque há anos que os ouvimos…) que os melhores candidatos a deputados, a presidentes da República, e de câmaras, e de juntas de freguesia, aqueles mesmo perfeitos, aqueles que a gente tem a certeza de que nunca se hão-de enganar e que hão-de ter sempre a solução certa para todos os problemas — estão a arrumar carros, a escanhoar barbas e a guiar táxis. Íamos buscá-los, resolvíamos alguns problemas de desemprego, e o país era, finalmente, governável.

«JN» de 10 de Outubro de 2009

sábado, 26 de setembro de 2009

Em dia de reflexão

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Por Alice Vieira

PARA QUEM AGORA me está a ler, hoje é sábado, dia 26 de Setembro, e o país está em período reflexivo porque amanhã vai a votos.

Mas eu estou a escrever nove dias antes do domingo das eleições.

Eleições que espero (como espero sempre…) que sejam muito participadas, com grandes filas nas assembleias de voto, com as pessoas todas motivadas a deitar nas urnas a expressão da sua vontade, seja ela qual for, incluindo a de fazer um grande risco no boletim, a liberdade também é isso.

Só não percebo muito bem a “liberdade de não votar”.

Talvez porque vivi muitos anos sem poder livremente votar em quem muito bem entendesse, não percebo como se pode desperdiçar um bem pelo qual tanta gente lutou tanto.
Tenho realmente dificuldade em aceitar os que viram a cara e dizem “não tenho nada a ver com isso, estou de costas”. Sobretudo — e isso cada vez é mais frequente — quando se trata de gente nova.

Os tempos são outros, dizem.

Talvez.

Mas eu ainda acho que é sobretudo uma grande falta de comunicação.

A gente mais nova está cada vez mais habituada a que lhes falem diversas línguas: o gramatiquês, o futebolês, o politiquês, tudo meio cabalístico e sem comunicação com o exterior. Basta ver o enunciado de um teste, um relato de futebol, um encontro de um político com o eleitorado jovem — para se reconhecer estas linguagens.

Falta, portanto, que alguém se lembre, um dia, de lhes falar português.

Alguém que se chegue junto deles e não rodeie o discurso de metáforas, ou de inglês-técnico, ou do vazio mascarado com palavras que até o Moraes (ou o Houaiss, para ser mais moderno) se veria aflito para descodificar.

Alguém que tenha a coragem de lhes dizer “a culpa também é vossa”, tal qual fez o presidente Obama, numa escola dos Estados Unidos, num discurso que circula pela net.

Ele não está com paninhos quentes e diz-lhes mais ou menos isto: eu já falei da responsabilidade dos vossos pais, da responsabilidade dos vossos professores, da responsabilidade dos vossos governantes. Agora é tempo de falar da vossa. Porque se vocês faltarem ás aulas, se não ouvirem nada do que se diz na sala, se estiverem sempre desinteressados, se passarem o tempo todo agarrado à consola, se não se esforçarem por descobrir aquilo para que têm jeito — e toda a gente tem jeito para qualquer coisa.—tudo o mais não serve de nada, e o país não anda.

É um discurso não muito longo, que era bom que circulasse nas nossas escolas, e fosse lido e discutido com os alunos — para que eles sentissem o mal que todo o facilitismo tem feito ao longo destes tempos.

E sobretudo para que sentissem o peso de uma palavra que raramente utilizam com eles, mas da qual tudo depende: a palavra responsabilidade.

«JN» de 26 de Setembro de 2009

sábado, 12 de setembro de 2009

Maria Clara

Por Alice Vieira
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A MORTE DE MARIA CLARA foi tão discreta que por momentos cheguei a pensar que se calhar eu tinha ouvido mal, que o amigo que me avisara também tinha ouvido mal, e que tudo não passava de uma lastimável confusão de nomes.

Durante dias procurei nos jornais, mas em lado nenhum a notícia aparecia, e as rádios não estavam a transmitir a “Figueira da Foz”, como seria normal.

Mas não era mentira: a discrição, que sempre a acompanhou em vida, seria a discrição que a acompanhou na morte.

A Maria Clara foi uma pessoa muito presente na minha infância e adolescência. Sempre me lembro de mim a ouvi-la na rádio, a vê-la no teatro, a trautear-lhe as canções.

Para além disso, os mexericos familiares (ainda não havia televisão, era preciso preencher os serões de qualquer maneira) muitas vezes recaíam nela: como era possível que um neto do Bernardino Machado (um dos heróis dos tios lá de casa) tivesse casado com…uma artista! (E nem vos descrevo a expressão das minhas tias ao pronunciarem esta palavra).

Mas já aí a discrição de Maria Clara se manifestava: não se divorciava, nem aparecia nas páginas da “Plateia” em declarações desbragadas.

E, no mês em que foi capa da revista “Os Nossos Filhos”, com um filho pequeno às cavalitas, as velhas renderam-se.

“Os Nossos Filhos” era uma publicação prestigiada, onde colaborava gente importante de várias áreas — e dirigida pela Maria Lúcia Namorado, nossa prima.

A partir dessa altura, a Maria Clara, lá em casa, passou à condição de ”artista-mas-nem-parece”.
Ideia reforçada muito tempo depois quando, num festival de televisão de que nem recordo o nome, o apresentador Pedro Moutinho se lembrou de se meter com ela de maneira considerada menos própria--e ela, ao vivo e em directo, se mostrou visivelmente desagradada.

Mas o que a levou, definitivamente, a entrar na galeria das pessoas que as minhas tias olhavam com respeito foi a decisão de largar as cantigas e ficar em casa a cuidar da família.

Isso sim, isso era de uma senhora! Isso era digno de uma neta (ainda que por afinidade…) do Bernardino Machado.

À distância destes anos todos, lembro-me que foi exactamente isso que eu então não entendi: como era possível que uma mulher, com aquela carreira, aquela voz, abdicasse de tudo para ser dona de casa.

Eu, que sonhava começar a trabalhar depressa para me livrar daquilo tudo, nunca lhe perdoei ter “prejudicado” a minha causa…

Mas foi tudo há muitos anos.

Hoje só sei que tenho passado os dias a ouvir a “Figueira” no Youtube e que, apesar de todos os lugares comuns, e as finas areias a rimar com as sereias, e essas coisas mil vezes cantadas e recantadas — choro que nem uma parva.

A minha filha tem razão: preciso mesmo de ir ao médico.

«JN» de 12 de Setembro de 2009

domingo, 30 de agosto de 2009

Os Amigos


Por Alice Vieira

PERDI QUATRO amigos neste mês de Agosto.

A minha cabeça e o meu coração andaram entre Lisboa e o Porto, tentando dar a cada um o pouco de mim que em vida, nalguns casos, não tive tempo de lhes dar: vamos sempre acreditando que os nossos amigos são eternos e, quando descobrimos que não são, já é tarde.

Com uma virose que teima em não me largar, e o trabalho atrasadíssimo, facilmente se compreende que este Agosto esteja a ser muito difícil de aguentar.

Felizmente os amigos que me restam conhecem-me tão bem que, sem eu dizer nada, se têm encarregado de me tornar os dias um pouco mais suportáveis.

Porque amigo é assim mesmo: conhece-nos por dentro, adivinha aquilo de que necessitamos, sabe o que nos alegra, entende os nossos silêncios, tem a capacidade de nos surpreender dando-nos aquilo de que estamos mesmo a precisar – mas sem termos de o pedir. Porque se o pedimos… qualquer estafeta serve.

Olho as rosas na minha mesa — e fico feliz por não ter tido necessidade de as pedir ao meu amigo João.

Penso no café bebido no Starbucks de Belém – e fico feliz por não ter tido necessidade de pedir à Inês que naquela manhã me levasse lá.

Espero o telefonema da Leonor, porque sei que, sem que eu o peça, ele chega sempre a meio da madrugada.

A Dina manda-me postais diariamente.

E o Vítor enfiou-me no carro e desandou comigo para o Café da Natália (em S. Pedro de Sintra, para quem não conhece) ignorando os meus protestos de que o trabalho se iria atrasar, porque sabe que nada faz melhor à alma do que as empadas que lá se comem.

Mas confesso que não esperava o telefonema do António, com quem ainda recentemente tinha estado no velório do Alberto.

À beira dos 80, o António é, de certeza, um dos melhores contadores de anedotas que existem à face da terra.

- O Alberto faz-me uma falta do caraças… – diz de repente, a meio de uma frase de circunstância — E é por isso que eu te estou a ligar.

Gaguejou mais meia dúzia de palavras, até que explicou tudo.

Do seu grupo de amigos, “amigos mesmo, mesmo a sério, tás a ver?”, já não restava ninguém.

Todas as noites o António ligava ao Alberto para lhe contar anedotas. E agora já não tinha ninguém com quem cumprir o ritual.
- Se tu não te importasses…

E pronto, todas as noites, muito antes do telefonema da Leonor, o António liga-me. Conta duas, três anedotas, ri muito, manda beijinhos, deseja boa noite e desliga.

Às vezes as anedotas são repetidas, mas eu rio à mesma, e ele fica feliz.

Só não me perdoo de não ter sido eu a pensar nisto e a tomar a iniciativa.

Acho que não fui grande amiga do António, porque precisei que ele me telefonasse a pedir o que eu deveria ter adivinhado.

Com o António, sinto que fui um bocado estafeta.

«JN» de 29 de Agosto de 2009

sábado, 15 de agosto de 2009

A minha quase gripe

Por Alice Vieira

COM ESTA PARANÓIA DA GRIPE, qualquer ponta de febre que se tenha nos parece de imediato os 40 graus que é suposto a gente ter quando ela ataca.

Até eu - que me gabo de não me deixar influenciar - me vi um dia destes, às quatro da madrugada (mas sem passarinhos a cantar) a ligar para a Linha-24, convencida de que ia engrossar as estatísticas.

Porque, com as rádios e as televisões a divulgarem constantemente os casos que vão aparecendo – e é mais um nos Açores, e mais três no Algarve, e a creche que fechou e a que vai fechar — a gente de repente tem a certeza de que a gripe já entrou na nossa casa, ó para ela a subir as escadas do nosso prédio, e agora é a vizinha do 1.º, depois a do 2.º, e de nada vale a gente tentar ser racional e pensar que não é possível porque está tudo de férias e não há ninguém no nosso prédio.

Então lá estava eu ao telefone a debitar os meus sintomas, e a enfermeira (cujo nome não recordo, com muita pena, porque aquela conversa foi das poucas coisas boas que me aconteceram nestes últimos tempos) a acalmar-me, sobretudo porque a todas as perguntas que me ia fazendo, eu ia respondendo que não: não, não tenho dores de garganta, não, não tenho o nariz a pingar, - e sobretudo não, não tenho febre.

Foi então que a enfermeira, com paciência evangélica, me disse uma frase que há-de ficar para todo o sempre na galeria das frases que mais marcaram a minha vida: “nem todas as gripes são Gripe-A; nem todas as viroses são gripe”.

E, se calhar porque já não sabia que mais dizer, perguntou :

“Por acaso esteve ontem com muita gente?”

Tive de confessar que tinha estado rodeada de meia Lisboa, aos abraços e beijos a meia Lisboa, a chorar nos braços de meia Lisboa, e que um enterro de um amigo não é lugar ideal para se fugir de contágios.

De qualquer maneira a enfermeira garantia que, se fosse mesmo A gripe, a febre já estaria a trepar pelo termómetro e não se ficaria pelos míseros 36,5, que era o máximo que eu conseguia atingir.

Mas ela era rigorosa (ó que bom, haver neste país alguma coisa que funciona bem, mesmo às quatro da madrugada!), e perguntou:

“Tem feito muitos esforços ultimamente?”

Explico-lhe o que tem sido o meu ritmo de vida nos últimos meses e ela acaba por descobrir o que realmente determina aquele terrível cansaço, aquelas terríveis dores no corpo todo: “o que a senhora está é cansada!”

E de repente a voz do meu querido amigo Raul salta para o meio da nossa conversa, naquela sua magnífica "Ida ao Médico" (“Tussa! O que o senhor tem é tosse!”), e os ben-u-rons ficam à espera de serem necessários, e a paranóia acalma, e a madrugada enche-se de gargalhadas e, pelo menos por enquanto, a gripe ainda não entrou no meu prédio. Acho que tem medo de gargalhadas.

«JN» de 15 de Agosto de 2009

sábado, 1 de agosto de 2009

Em louvor do Magalhães

Por Alice Vieira

AINDA NÃO É HOJE que vou falar da gripe. Toda a gente fala da gripe, toda a gente acorda a fazer contas aos novos caso que aconteceram durante a noite, ou, se não aconteceram, se Deus quiser estão mesmo, mesmo para acontecer — que é fatal falar da gripe.

Mas de cada vez que eu penso “é hoje!”, acabo sempre por ler nos jornais qualquer coisa que passa à frente do Tamiflu e dos kits e de toda essa parafernália gripal.

No caso presente… o Magalhães.

Concordo que já não é assunto novo, mas eu ainda não falei do Magalhães, e até me estou a sentir mal por isso, a Senhora Ministra até pode pensar que eu não gosto do Magalhães, que tenho qualquer coisa contra esta espécie de Tamagochi a que as crianças dão mais carinho do que aos velhotes lá de casa, o que até se percebe, no Magalhães está a salvação da pátria, e os velhotes só dão chatices, estão sempre a precisar de remédios, pingam do nariz, e não servem para nada.

Pois hoje li num jornal (não me lembro qual, mas não faz diferença porque deve ter vindo em todos, agora todas as notícias vêm em todos os jornais, a palavra “cacha” até já deve ter desaparecido) que as desigualdades educacionais se acentuavam cada vez mais porque nem todas as criancinhas tinham recebido os Magalhães a que tinham direito.

Assinei logo por baixo - e tenho até ideia de organizar um movimento no meu facebook: “Ajuda a fazer desaparecer as desigualdades: oferece um Magalhães usado em troca de um livro por abrir”. Tenho a certeza absoluta que, em menos de um segundo, o país inteiro estava a comentar: “gosto disto!”, acompanhado de milhares de hugs, e flowers, e suns e smiles.

Sou até capaz de jurar que, a esta hora, o meu amigo Sérgio Godinho já terá modificado a letra do refrão de uma das suas canções mais conhecidas e não tardaremos a ouvi-lo: “que era eu sem o Magalhães?/ que era o Magalhães sem mim?”

O meu homem, que tem a mania de ler o que eu vou escrevendo, está para aqui a dizer que a educação não se mede em Magalhães, e que se os professores continuarem todos a ser obrigatoriamente transformados em burocratas, a preencher papelada e relatórios em vez de utilizarem esse tempo a ensinar os miúdos — não há Magalhães que valha a este país. E que se os miúdos não forem ensinados a raciocinar, a fazer uma pesquisa, a usar um texto como deve ser, a não se limitarem a copiar o que vêem no écran — o Magalhães não serve para nada.

Mas isto é evidentemente má vontade dele, que está feito com os comunistas do sindicato…

Não lhe dou ouvidos: se em tempos idos um Magalhães deu a volta ao mundo, este vai dar a volta à cabeça de toda a gente. Que é exactamente o que se pretende.

«JN» de 1 de Agosto de 2009

sábado, 18 de julho de 2009

Na mó de baixo


Por Alice Vieira

NÃO SEI SE SE LEMBRAM de uma imagem televisiva que ficou famosa, no tempo em que o nosso (quase) completamente consensual Presidente da República era ainda o nosso (quase) completamente anti-consensual Primeiro-Ministro.
Não, não é a da fatia de bolo-rei.
Nem a do coqueiro.
É aquela em que, durante uma cerimónia pública, ao falar à comunicação social, ele se deixou ir abaixo.
Ali, diante dos nossos olhos, tínhamos, ao vivo e a cores, um desmaio de quem mandava em nós.
Desmaio não muito longo, convenhamos, mas, mesmo assim, desmaio.
E se nunca mais esqueci essa imagem não foi porque ela tivesse tido grandes consequências: o senhor, felizmente, recuperou bem e está de boa saúde; e acho que a política portuguesa não se ressentiu por aí além dessa breve indisposição.

Foi por uma coisa completamente diferente.

É que no dia seguinte a esse episódio encontrei a minha amiga Lena lavada em lágrimas.
A minha amiga Lena, que era uma anti-cavaquista primária, lavada em lágrimas por causa de um desmaio do nosso Primeiro.
Aquilo, palavra, tocou-me fundo.
Estava já a começar um brilhante discurso de elogio às suas qualidades humanas que, diante de um problema de saúde, a faziam esquecer antipatias políticas para ficar apenas, humanamente, preocupada — quando ela olha para mim e exclama “estás parva ou quê?”

Depois explicou: ela estava era zangada, muito, muito zangada com um Primeiro-Ministro que se deixava adoecer.
“Porque”, dizia a Lena, “eu não posso embirrar com uma pessoa que está doente! Eu não posso atacar, provocar uma pessoa que não está bem de saúde! Não me dá gozo nenhum! Aquilo de que eu gosto, mas gosto mesmo a sério, é vê-lo ali de pé, forte, muito saudável, e eu aqui a embirrar, a embirrar com ele, e a chamar-lhe nomes, e a odiá-lo por tudo o que ele faz! Ele ali a destilar saúde, todo direito, a apanhar tudo, e eu a berrar contra ele e a fazer tudo para o tirar do poleiro!”
Fez uma pausa e concluiu: “agora se o homem está doente, acabou-se, não consigo atacá-lo, lá se vai o meu gozo todo…”

Lembro-me muitas vezes desta história e da minha amiga Lena, sobretudo quando vejo aqui o maralhal desatar aos pinotes e aos berros quando o alvo dessa gritaria e excitação não se encontra, digamos, nos seus melhores momentos. Quando está, para usar uma expressão bem popular, na mó de baixo.
É facílimo insultar quem está na mó de baixo.
É facílimo contar anedotas, reencaminhar mails, mandar cartas ao director, blogar a torto e a direito.
Não serve de nada mas sempre são os tais 15 segundos de fama a que todo o mortal tem direito desde Andy Warhol.
Camões escreveu, há muitos anos, que “é fraqueza entre ovelhas ser leão”.
O pior é que já ninguém lê Camões.

«JN» de 18 de Julho de 2009

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Sete anos depois


Por Alice Vieira

VIVI EM CASCAIS alguns dos melhores anos da minha vida. Anos que me marcaram profundamente: escrevi uma peça para o TEC e acompanhei os ensaios e todo o trabalho do teatro; escrevi um livro sobre a história da vila, que me fez praticamente “viver” meses na lindíssima biblioteca do Museu Castro Guimarães; entrevistei meio mundo para o “DN” ; corri as escolas todas da terra - e ainda tinha tempo para ouvir as histórias que o Sr. António, do bar da Praia da Duquesa, tinha para me contar de manhãzinha, quando eu acabava a volta pelo paredão e a freguesia ainda não tinha chegado.

Lisboa ficava no final da linha do comboio, que eu apanhava às 9 para ir para o jornal, e aonde regressava pelas sete da tarde.

A vila era luminosa, passeava-se pelas suas ruas, havia espaço para as pessoas.

Mas para mim os lugares nunca valem só por si: estão sempre intimamente ligados às pessoas que neles vivem comigo. E eu, que me gabo de ser racional, cabeça fria, pés na terra, a partir do momento em que a minha vida afectiva se desfez — fiquei absolutamente incapaz de voltar à vila.
Há sete anos que não entro naquela casa.

Há sete anos que não entrava em Cascais.

Até ontem.

Infringindo, não sei como, aquela regra de oiro que o Rui Veloso tão bem canta numa das suas canções—“nunca voltes ao lugar/ onde já foste feliz”— deixei-me levar pelo entusiasmo de um amigo, que achava que eu “precisava de espairecer”, e de repente vi-me enfiada num carro que corria pela marginal fora (desde que há auto-estrada, quem é que vem pela marginal?!), e a entrar em Cascais.

No centro de Cascais.

Sete anos depois.

Confesso: senti-me perfeitamente na pele de um emigrante que regressa à terra depois de 30 anos de ausência, queixos caídos, olhos esbugalhados, e uma porção de ”oh!” e “ah!” a saírem da boca (“que é do coreto?”, “coreto? qual coreto?”,”o que ficava ao pé da junta de freguesia!”, “ ó tempo que foi abaixo!”,“ah!”)

Cascais está a abarrotar de edifícios, de estruturas de vidro ou plástico no meio do jardim, de centros comerciais, de hotéis e mais hotéis e ainda mais hotéis, não deve haver palmo de terra que não tenha um hotel em cima, até a casa do ex-rei de Itália é um hotel!, só me espantei que o Museu dos Condes de Castro Guimarães não estivesse também já transformado num “Village” qualquer, mas não deve faltar muito.

Dizem-me que há óptimas coisas, o paredão arranjado, a ciclovia até não sei onde. Pois deve haver.

Mas olhamos, olhamos - , e não estamos em Cascais.

Olhamos, olhamos e de repente descobrimos que estamos, sei lá, em Marbella! E isto não é um elogio!

E volto a Lisboa, repetindo o verso de um poema de Manoel Bandeira: “Diabo leve quem pôs bonita a minha terra!”

«JN» de 4 de Julho de 2009

segunda-feira, 22 de junho de 2009

A trabalheira

Por Alice Vieira

JÁ DEVE SER para aí a terceira vez que a oiço dizer a mesma coisa, mas não entendo.

Longe de mim dar parte de fraca, a linguagem dos adolescentes muda todos os dias, eu já devia saber, e por isso continuo na conversa, e ela vai falando.

Ela, que ainda há tão pouco tempo se alimentava da “little Kitty”, e do “meu pequeno poney", e dos livros da Miffy - e agora troca de t-shirts comigo, e entra nos meus segredos e eu nos dela.

Ela que, num dia de crise (minha) me deu o sábio conselho de que “nenhum homem merece que se engorde por causa dele”.

Ela, em tantas coisas tão adulta, vai falando das amigas, da escola, do grupo de teatro, e da “seca” que foi ter de ler o Garrett.

Armo em avó pedagógica, lá saio em heróica defesa do Garrett, mas ela repete “uma seca” e, logo a seguir, a misteriosa palavra. Interjeição? Onomatopeia? Grunhido?

Pelo menos agora distingo os sons: “lol”.

Entre duas frases, aquele estranho vocábulo: lol.

Não me contive:

“Mas o que é que tu estás sempre a dizer?”

Ela olha para mim, sem entender, encolhe os ombros, “então, respondo ao que tu perguntaste”, e eu “não, não é isso, é aquela palavra que tu disseste depois, mesmo no fim da frase”, e ela faz um ar admiradíssimo, e lá repete “o quê? Lol? Ó avó, tu não me digas que não sabes o que quer dizer “lol”!

É evidente que sei, também não ando assim tão afastada dessas magníficas aquisições linguísticas que as novas tecnologias motivaram! Sei perfeitamente que “lol” é a sigla que corresponde à expressão “laugh out loudly”, ou seja, a maneira de, em telemóvel e e-mail, se explicar às pessoas, que não nos vêem, que estamos a rir que nem uns doidos. O meu espanto é essa linguagem já ter passado à oralidade.

“Então”— proponho —“ e se em vez de dizeres isso, tu te risses, muito simplesmente, não era bem melhor?”

Faz um ar espantadíssimo, como se eu lhe propusesse qualquer coisa do outro mundo e, com aquele ar condescendente que se deve ter para com quem ainda certamente privou de perto com os dinossauros, explica que agora todos falam assim, porque assim é muito mais fácil.

E remata: “ai avó, se tu soubesses a trabalheira que dá a gente rir…”

Rir dá trabalho?

Pelos vistos dá.

Pelos vistos agora já não é só a escola que dá trabalho, não são só os livros que é preciso ler que dão trabalho, não é só o Garrett que dá trabalho. Agora, até rir dá trabalho.

Olhámos uma para a outra, muito sérias ambas, mas de repente não houve “lol” que nos valesse, e desatámos as duas a rir, mas a rir mesmo, gargalhadas das boas, das genuínas.

Se calhar daquelas que dão mesmo uma grande trabalheira, mas que ainda nada conseguiu substituir.
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«JN» de 20 de Junho de 2009

Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

sábado, 6 de junho de 2009

Domingo à mesa


Por Alice Vieira

NO DOMINGO PASSADO fui com as minhas crianças ao Jardim Zoológico. Acho que a última vez que lá entrei ainda havia um professor (“de cor”, como me lembro de então ouvir dizer às minha tias) que ensinava a miudagem toda a andar de patins.

Estava um calor de torrar as meninges, e a fila para a bilheteira tinha mais de um quilómetro. Estive quase tentada a propor que desandássemos dali e fôssemos apanhar sol para o Fun Center do Colombo — quando me apercebi de que a fila avançava vertiginosamente. Em menos de um quarto de hora estávamos todos lá dentro, a louvar a simpatia da menina que nos calhara no guichet e que, mesmo no meio daquela multidão, e a escorrer suor, coitadinha, ainda tinha conseguido sorrir, e lançar uma piada a um dos meus netos, que levava uma t-shirt a dizer “Benfica, minha vida!”

Estávamos, por isso, muito bem dispostos.

E bem dispostos continuámos na visita guiada dentro do minúsculo comboio, com a guia a contar tudo por palavras que as crianças entendiam. E no teleférico, e no reptilário, e nessas atracções todas.

Até que — como era fatal…- deu a fome ao pessoal menor. Dissemos adeus aos bichos, prometemos voltar e apadrinhar um deles, e saímos para o recinto público dos restaurantes. Entrámos no maior e quase vazio, e imediatamente encomendámos o almoço, prato do dia para não demorar. Meia hora depois, sem comida à vista, perguntámos se, pelo menos, não teríamos direito a pão. Deram-nos um minúsculo cesto com duas carcaças — o que, para seis pessoas, nem mesmo a crise justificaria… Mais meia hora depois, enquanto um solícito fotógrafo nos tirava a fotografia da praxe, (e eu já tinha ido buscar mais pão) perguntámos pelas bebidas, e elas lá vieram.

Da comida, nem rasto.

De cada vez que alguém passava, eu perguntava o que tinha acontecido mas todos viravam as costas e desandavam. Quando faltavam dez minutos para se completarem as duas horas de espera (o fotógrafo já tinha vindo com os negativos, já tínhamos escolhido, pago e recebido a foto), bati as palmas e disse: pessoal, vamos embora!

E fomos mesmo.

“Sem pagar o pão, nem a manteiga nem as cocacolas?”, riam as crianças. “Era o que mais faltava!”, ria eu em resposta, explicando o mais pedagogicamente que me era possível, que tudo se teria resolvido com uma explicação, mas nunca com o virar de costas como resposta.

O Zoo não tem nada a ver com isto, mas é pena: poderia emprestar a empregada que na bilheteira aguenta, horas e horas, com a avalanche dos visitantes e com o calor sem perder o sorriso e a paciência - para dar umas liçõezitas de profissionalismo a quem, pelos vistos, dele está tão necessitado.

«JN» de 6 de Junho de 2009
NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Amor virtual

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Por Alice Vieira
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OS COMPUTADORES E A NET dominam cada vez mais a nossa vida.
E o jeito que nos fazem…
Já se ama e se desama através da net.
Rápido, eficaz e indolor.
Em vez de chorarmos no ombro do homem que nos deixou implorando-lhe que volte, clicamos para o Youtube, escolhemos uma cantiga daquelas que o vão pôr — esperamos…- de rastos, e não pensamos mais no assunto.
Aznavour é óptimo porque tem cantigas para todas as ocasiões e poupa-nos o esforço de arranjarmos palavras nossas.
É claro que há também quem responda aos ataques e se queira defender, deixar-te, eu?, sabes que se não fosse a minha mulher eras tu a mulher da minha vida! Para esses recomenda-se o recurso aos e-cards (convém misteriosamente assiná-los “Alguém”…) : tem muita saída aquele com dois ursinhos de peluche abraçados, e de dentro do peito de ambos explodem dezenas e dezenas de coraçõezinhos vermelhos, tantos que o écran até parece montra de loja de chinês em Dia dos Namorados.
Se não se trata de namorados mas de simples amigos ou familiares, as possibilidades são infinitas.
Nunca mais teremos remorsos por passarmos meses e meses sem falarmos com a tia Carlota, ou com a Prima Felisbela que é tão nossa amiga, coitadinha, mas também tão chata e, se a gente cai em ligar-lhe, acabamos por perder o episódio da “Anatomia de Gray” em que, pela 500ª vez, a Meredith manda o Dr. Sheppard às malvas.
Há uma gama infinita de textos que só querem o nosso bem.
Podemos escolher textos clássicos ou recorrer a autores contemporâneos (e já agora: se escolherem umas imagens de Paris com palavras de Garcia Marquez, pelo menos avisem que aquele texto é uma aldrabice, e que o pobre está careca de explicar que nunca escreveu uma piroseira daquelas).
E há textos muito jeitosos, com música de fundo tipo “El Condor Pása”, ao melhor estilo Rua Augusta, e que explicam o que é um amigo e para que serve.
E ficamos a saber que um amigo é aquela pessoa para quem tu vens sempre em primeiro lugar, para quem podes ligar a qualquer hora da manhã, da tarde, da noite e da madrugada porque está sempre disponível e, viva onde viver, vem a voar se sonha que precisas dele. E então a gente clica e manda aquilo para todos os que estão na nossa lista de contactos, sem esquecer de os separar por vírgulas, e por isso no espaço de segundos todos recebem exactamente o mesmo texto mas não faz mal – e embora a gente não tenha tempo de fazer um simples telefonema para dizer “olá”, garantimos, por interpostas pessoas, que estamos disponíveis para tudo e para todos.
E que, virtualmente, amamos o mundo inteiro.

«JN» de 23 de Maio de 2009

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segunda-feira, 11 de maio de 2009

Livros para deitar fora

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Por Alice Vieira
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CONFESSO: não sou capaz de deitar livros fora.
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De resto, eu pertenço a uma geração que tem muita dificuldade em deitar fora seja o que for. Por isso os objectos se vão acumulando e eu perguntando-me “o que é que faço a isto?” Já pensei em fazer uma trouxa e ir vendê-los para a Feira da Ladra, mas os meus horários não me permitem ficar lá uma data de horas à espera de ver aparecer multidões interessadas em galhardetes, quadros com o brasão de juntas de freguesia de terras que nem sei onde ficam, frascos de perfume há muito vazios, amostras de tecidos, restos de lãs que nem para quadrados de mantas de patchwork já servem, etc.
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Mesmo assim, de vez em quando tapo a vista com a mão, encho-me de coragem, e reúno sacos a abarrotar de lixarada, e venho colocá-los à noite ao lado dos contentores, não vá passar alguém que ainda lhes descubra serventia.
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Mas livros é que não.
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Livros não sou mesmo capaz.
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O pior é que, para lá de receber muitos livros (os meus amigos pertencem quase todos ao ramo…), eu ainda sou uma compradora compulsiva! Compro livros porque são de autores de que eu gosto, ou porque li uma crítica que me entusiasmou, ou até — assumo…- porque têm capas que são um espanto… Mas às vezes, prometem muito e dão pouco.
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Então, periodicamente, encho caixotes de livros que vou enviando para bibliotecas ou escolas: livros que sei que nunca mais vou reler, livros que tenho em várias reedições, ou até livros de que eu, pessoalmente, até posso não gostar mas entendo que outros amem de paixão.
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Mas não é desses que estou a falar: refiro-me àqueles que não mereceriam (se eu fosse capaz…) outro destino a não ser o lixo. Tão maus, ou tão inúteis, ou tão fora de prazo que não me passa pela cabeça dá-los nem ao meu pior inimigo.
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Nos primeiros tempos da revolução, quando, de repente, descobrimos que podíamos viajar para os países até então proibidos da Europa de Leste, era fatal: regressávamos todos de lá vergados ao peso de toneladas de volumes encadernados com todas as intervenções dos camaradas nos diversos órgãos de soberania dos seus países. E – requinte dos requintes! - muitos deles na língua original.
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Lembro-me de ter tido de comprar um saco só para nele enfiar os discursos do camarada Jivkov, que me ofereceram na minha primeira ida à Bulgária.
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Digam-me: o que é que eu lhes faço?
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Contava o meu querido Alçada Baptista que uma das suas tias, ao ver-se confrontada com a pergunta de uma das criadas (“o que é que eu faço às listas velhas do telefone?”) terá respondido: “dê a um pobrezinho.”
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Se calhar, vou seguir-lhe o exemplo. Tal como eu, ela também era de um tempo em que não se deitava nada fora.

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«JN» de 9 de Maio de 2009
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sábado, 25 de abril de 2009

Os retratos

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Por Alice Vieira
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ANA DAVA AULAS numa escola no meio do nada, para lá do sol posto, sem as mínimas condições para nela se ensinar fosse o que fosse. Ana dizia muitas vezes que aquilo devia ser o Ministério a testar as suas capacidades pedagógicas e a sua resistência física.
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A escola não tinha nada, absolutamente nada, do mínimo que uma escola devia ter: não tinha mapas, não tinha a caixa de sólidos para ensinar geometria, não tinha nenhuma espécie de material, até mesmo o quadro preto já se limpava com dificuldade, tantos os anos de uso.
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Mas a Ana foi sempre de um optimismo inquebrantável: todos os meses, aliando uma perseverança notável a uma ainda mais notável caligrafia, escrevia uma carta ao Ministério, pedindo material, dizendo que era impossível ensinar fosse o que fosse - acrescentando, para ver se os comovia - que a escola nem sequer tinha na parede os retratos do Senhor Presidente da República nem do Senhor Presidente do Conselho, e que aquilo era uma vergonha.
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A D. Cândida, que de manhãzinha limpava a escola, até se ria, “eu nem sei para que é que gasta tanto dinheiro em selos se eles não ligam nenhuma”.
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Mas todos os meses Ana escrevia a carta, e todos os meses o Ministério respondia com o mais profundo silêncio.
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Até que um dia, ao chegar à escola, Ana viu D. Cândida numa imensa euforia, correndo até ela, gritando que o material tinha chegado, milagre!, ela nem queria acreditar mas a verdade é que estava ali um caixote, vindo do Ministério, que uns homens tinham largado logo de manhã.
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Ana também não queria acreditar, finalmente ia ser professora a sério e ensinar a sério.
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Feliz diante do milagre, D. Cândida não parava de falar, dizendo que a única coisa esquisita tinha sido a pressa dos homens, nem tinham saído da carrinha,” abriram a porta e zás!, atiraram com o caixote”, e ela a perguntar “então não é preciso assinar uma guia nem nada?”, e eles a berrarem que depois se via, que aquilo em Lisboa ia uma grande confusão, que eles nem sabiam bem o que era, mas não devia ser nada de bom e o melhor era porem-se a andar depressa.
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D. Cândida ria e quase jurava que eles tinham falado em revolução. Ana deu uma gargalhada, “ó D. Cândida, revoluções em Lisboa?”, mas logo deixou de rir: no caixote, o único “material escolar” que o Ministério lhe mandava eram os retratos do Senhor Presidente da República e do Senhor Presidente do Conselho. Nem um mapa, nem sequer um pauzinho de giz. Os retratos, mais nada.
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E é por isso que hoje, quando lhe perguntam “onde é que estava no 25 de Abril?”, Ana responde sempre: “ a olhar para dois retratos, que nunca foram pendurados.”

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«JN» de 25 de Abril de 2009
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sábado, 28 de março de 2009

Depois logo se vê

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Por Alice Vieira
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VIVEMOS NO PAÍS do logo-se-vê. Do pode-ser-que. Do em-princípio. Do se-tudo-correr-bem.
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A dificuldade que temos em tomar decisões já quase se tornou característica nacional. É qualquer coisa que deve estar nos genes.
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Diante de qualquer problema dizer “é assim, é assim, pronto, vamos a isso” - é frase que os portugueses nem sabem como se pronuncia.
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E essa capacidade de ser rápido e eficaz - tipo “o que tem de se fazer que se faça depressa” - reflecte-se nas coisas (aparentemente) banais do dia a dia.
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Por exemplo: já repararam na dificuldade que as pessoas têm em pôr fim a uma simples conversa telefónica?
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“Adeus, adeus, beijinhos, sim, eu depois ligo, tá bem, adeus, sim, não me esqueço, sim, em princípio eu vou, beijinhos, então vá, pronto, tudo bem, adeus, adeus, beijinhos, vá, tá bem, sim..”— são capazes de ficar naquilo horas seguidas!
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Será tão difícil tomar a decisão de desligar depois de um honesto “então adeus” ou qualquer outra variante do mesmo género?
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Uma amiga minha esteve quase um mês zangada comigo porque, segundo ela, eu lhe tinha desligado o telefone na cara, coisa que evidentemente ela não admitia a ninguém.
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Tudo porque eu pensava que receber três doses de “beijinhos, beijinhos” era mais do que suficiente para uma despedida calorosa q.b.
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Pelos vistos não era.
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Nunca é.
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Ontem fui embalada ao telemóvel pelas palavras de despedida de uma vizinha o tempo todo que durou a viagem de metro da Baixa-Chiado a S.Sebastião. Sempre que eu me preparava para clicar, lá voltava ela “adeus, até um dia destes, se puder ligo, sim, adeuzinho, boa tarde, adeus, adeus, obrigada, adeus”.
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Tomar decisões , nem que seja a banalidade de desligar um telefone, é trabalho demasiado hercúleo para os nossos pobres ombros.
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Por essas e por outras é que eu venho desde há muito tempo a divulgar por todos os meios ao meu alcance aquela extraordinária canção dos “Deolinda”, chamada “Movimento Perpétuo Associativo” em que, depois de um incitamento revolucionário às massas para que tome uma atitude (“agora sim, temos a força toda/ agora sim, há pernas para andar”) lá vem, em contraponto, o desfiar de todos os habituais impedimentos desta terra do logo-se-vê: “agora não, que é hora do almoço”, “agora não, que me dói a barriga”, “agora não, porque joga o Benfica”, “agora não, porque falta um impresso”, “agora não, que há engarrafamento”, etc, etc, etc…
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Há sempre uma justificação para prolongar todos os “agora não” do nosso fado.
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«JN» de 28 de Março de 2009
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