domingo, 19 de outubro de 2008

A MORTE DE CLEÓPATRA

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Pormenor de A Morte de Cleópatra- Hans Makart, 1875.
Por Nuno Brederode Santos

PELOS SEUS PRÓPRIOS MEIOS - e porventura engenho e vontade - o PSD recolocou-se numa dilacerante encruzilhada. Um dia se saberá se por acção ou omissão, mas o certo é que Manuela Ferreira Leite (MFL) abriu as portas ao regresso em força de Santana Lopes, desencadeando uma espécie de segunda volta do último Congresso, que todo o País julgava encerrado. Um Congresso que ela ganhou (mesmo que por magra margem), deixando Passos Coelho num segundo lugar (que uns considerarão honroso e outros promissor) e fechando estrondosamente as portas ao populismo da componente mais arcaica do partido, na pessoa de Santana, mas com óbvias e graves repercussões para as ambições de Luís Filipe Menezes e Alberto João Jardim. Agora - e sem razão aparente - é ela que lhe reabre o caminho para uma candidatura à Câmara de Lisboa, um cargo que Jorge Sampaio elevou a umbral de todos os cargos e que, num partido de oposição, corresponde ao segundo ou terceiro mais importante de todos os lugares electivos.

Santana vive depressa. Por isso, é já hoje mais currículo e circunstância do que ele mesmo. Pessoalmente, até tem coisas estimáveis, como a de ser um dos políticos mais antipuritanos do seu partido. Mas é prisioneiro do seu modo leviano, impulsivo, caprichoso e improvisador de fazer política, acreditando que os problemas se resolvem, não no plano substantivo, mas sim no plano mediático. O que lhe interessa numa reunião não é o que lá se passa, mas o que ele puder dizer aos jornalistas à entrada ou à saída (e, por isso, entra mais tarde ou sai mais cedo, à hora dos telejornais). Ou, na falta de cem mil lisboetas motivados, faz um comício com artistas populares para reclamar a salvação do Parque Mayer pela instalação de um casino (que até requer alterações legislativas), para tudo afinal desembocar no casino instalado na Lisboa oriental e o Parque Mayer ficar no seu abandono de sempre. Para abreviar razões e poupar memórias, direi apenas que Santana demonstrou uma total ausência de sentido de Estado e uma permanente tendência para jogar a multidão contra a lógica das instituições. Isto é o populismo. E dele o povo nunca é o autor, mas sempre a vítima.
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Como é de regra (e por paradoxal que pareça), as virtudes menores estão ao serviço dos defeitos maiores. E o indomável sentido de sobrevivência de Santana tem complicado a vida ao seu partido. Julgo que MFL já terá pensado que, se Rasputine fosse Santana, depois de levar com um ferro na cabeça e de ter sido esfaqueado, baleado e envenenado, ainda hoje estaria vivo e a mandar, por caminhos mais ínvios do que os do Senhor, no czar de todas as Rússias. E talvez também MFL acredite na tese ousada de que, afinal, Cleópatra não se suicidou. Quando o camponês lhe levou a mortífera áspide e lhe disse (na versão de Shakespeare) "Senhora, deveis lembrar-vos de que a serpente fará sempre o que o instinto lhe ditar", ela olhou tensamente o viperídeo, mirou-lhe a boca, a língua, os dentes e adivinhou-lhe o veneno. E então pensou (na minha versão): "Ná! És perigosa de mais para andares aí a passear pela cama. Mais vale ter-te do meu lado" E aconchegou-a ao seio que a áspide, sucumbindo ao instinto, lhe mordeu.
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Daí talvez a tentação, racionalmente inexplicável, de chamar Santana a si ou de o neutralizar pela sedução política. Incorrendo no mesmo - mas então bendito - erro de Menezes que, ao abrir-lhe a liderança da bancada parlamentar, fez a voz dele mais audível do que a sua. Com a agravante, para MFL, de que o derrotou no campo aberto democrático, para agora se render nas vielas escuras do tacticismo, do eleiçoeiro, do mediático. No campo, em suma, da denegação de tudo aquilo por que e para o que a elegeram em Congresso.
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Encontraram-se, portanto, nas supostas conveniências do imediatismo. Santana escolheu bem: o curto prazo é o terreno onde o predador político pode ter por armas a rapidez e o improviso. Mas MFL escolheu também - e mal - o curto prazo. Provavelmente porque já se convenceu de não ter outro.
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É certo que tudo isto pressupõe que ela já não poderá voltar atrás, desfeiteando a distrital de Lisboa. Só que agora, mesmo que o faça, optará apenas pelo mal menor. O excesso de recato e de distância já a pôs na situação de não ter qualquer saída sem danos.
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«DN» de 19 de Outubro de 2008 - Este texto é uma extensão do que está publicado no Sorumbático [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

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