terça-feira, 21 de outubro de 2008

O Ano de António Costa

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Por J. L. Saldanha Sanches
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QUANDO ANTÓNIO COSTA foi eleito presidente da Câmara de Lisboa havia a esperança que ele conseguisse mudar a Câmara. Agora o que voga por aí é o receio de que a Câmara consiga mudar António Costa.
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A CML são 13.000 funcionários e não se sabe quantas empresas municipais. A causa é uma estrutura produto de uma aliança sagrada entre o PS/PSD/PCP/CDS (o Bloco ainda tem as mãos limpas) que distribui centenas de empregos, geralmente de Administração ou de direcção com VUPs (viaturas de uso pessoal no sofisticado jargão da nomenclatura municipal), cartão de crédito e cartão frota NI (gasolina ilimitada no território nacional-internacional).
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Tudo isto torna as opções dramaticamente claras: dinamizar a cidade, ou criar espaços para a cultura é, por enquanto, secundário. O alvo central é livrar a cidade das sanguessugas que são as empresas municipais.
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A fradaria mata-nos, a fradaria devora-nos, dizia Alexandre de Gusmão no Séc. XVIII exasperado pela multiplicação dos conventos que sugavam o ouro do Brasil. A forma mudou mas a substância mantém-se: agora são as múltiplas empresas municipais, encarregadas das tarefas que deviam competir à Câmara e alimentando as bases dos partidos que nos devoram.
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A questão das casas e as toscas explicações de Ana Sara Brito são apenas um sintoma deste ambiente: há uma nomenclatura municipal que se sente com direito aos impostos cobrados em Lisboa - e se a derrama, o IMI e o IMT não chegam cria-se uma taxa sobre os esgotos. A apropriação de fundos públicos sob a aparência de legalidade é um sugadouro infindável.
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O drama para António Costa é que para governar neste ambiente é melhor Santana Lopes. Se se trata de música e de fardamentos novos, de terrenos para o Benfica e o Sporting então ninguém bate Santana (em especial se a dívida que criou estiver meio paga). Por isso, ou António Costa, mesmo com maioria que tem, dá sinais claros de limpar Lisboa ou perde a única vantagem que pode ter em relação a Santana Lopes (n. b. Santana, 2001, 131.094 votos; Costa, 2007, 56.751 votos).
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Claro que estas políticas não agradam ao aparelho do PS com os seus arranjinhos com o PSD, mais umas migalhas para o PCP que também é gente.
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As bases dos partidos existem para conseguir favores e lugares, querem a sua multiplicação e não a sua redução. Não lhes interessa que as empresas municipais sejam eficientes e deixem de ser geridas com o rigor do tarot. As bases odeiam os gestores chatos que pensam nos custos, na eficiência e na lei, em vez de se concentrarem no bem-estar dos apaniguados. Por isso uma gestão dura das empresas municipais, extinguindo as que são casos incuráveis de corrupção e compadrio, seria uma traição ao aparelho.
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Contra isto os lisboetas não vão fazer barricadas: votam com os pés, procuram casas mais baratas nos arredores e deixam Lisboa que envelhece e perde população.
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António Costa não é um político como os outros. Mas esse facto tem tido dificuldade em passar. Ainda vai passar menos se António Costa, no ano que lhe resta, continuar a pactuar com a nomenclatura municipal com os seus pequenos e grandes arranjinhos.
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PS - A CNPD não autorizou a instalação de vigilância nos táxis. Uma decisão sensata: com o desemprego actual, não há qualquer dificuldade em substituir um taxista assassinado.

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«Expresso» de 18 de Outubro de 2008 - http://www.saldanhasanches.pt/
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Este texto é uma extensão do que está publicado no Sorumbático [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.