quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Viver em Portugal

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Por Baptista-Bastos
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ANDAMOS TODOS RESSABIADOS. Invejamo-nos, desprezamo-nos; se os outros não tiverem defeitos, inventamo-los; deixámos de ser transeuntes, cidadãos: trespassamo-nos com a indiferença, o ressentimento e o ódio. A notícia da prisão deste ou daquele, banqueiro ou vizinho, amigo ou inimigo, lança no nosso íntimo uma alegria obscena. Não vivemos - existimos no pequeno mundo de obcecações que nos cegam. Que nos aconteceu? Quem nos roubou a humanidade que permite a clarividência e a energia necessárias para suportar a adversidade, a mentira, a infâmia? Tudo nos conduz e nos empurra para um futuro ainda mais amargo, mais confuso e ambíguo do que este presente. E, no entanto, é preciso perceber que o comportamento individual pode responder às exigências dos grandes compromissos e das grandes fidelidades. Todos os dias as notícias são medonhas. Todos os dias tomamos consciência de novas verdades, de novas mentiras e de constantes tentações para a irresponsabilidade. Aquele vai embora e nem um breve aceno lhe concedemos. Aqueloutro foi despedido e a nossa impassibilidade é um muro gelado. Que fizemos de nós? Nós, que somos a nossa própria criação e a criação do outro. Foi esquecida a condição de todos, que considerava a condição de cada qual. As coisas revolutearam confusamente; mas as coisas não aconteceram por acaso. Não conseguimos manter intacto o que era fundamental. E estamos envolvidos numa perplexidade sem limites que provoca desassossegos desnecessários.
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Bom. Não gosto daquilo que o eng.º José Sócrates representa, dos caminhos ínvios para os quais conduziu a pátria e nos compeliu. Porém, ele é o resultado da nossa imaturidade e da nossa atonia cívica e ideológica. Sócrates não tem convicções. Nós, também não. Vogamos ao sabor das contingências. Sócrates, obcecado pelo seu destino individual, tripudiou sobre o nosso futuro comum. Não gosto dele porque nos fez admitir a política do irremediável. Porém, este caso do Freeport fez-me reflectir sobre a natureza da indignidade e os fundamentos da sordidez. Nos últimos três anos, o homem foi acusado de forjar uma licenciatura, de ser homossexual (uma acusação abjecta, com remetente conhecido) e, agora, de estar envolvido numa tecelagem de corrupção. A história escora-se numa trama obscura, mas o estilo caracteriza a procedência. Não pertenço à matilha. As desprezíveis fugas de informação parecem obedecer a um calendário político. Seria Sócrates muito tolo, e não o é, acaso se se deixasse enredar numa teia tão rudimentar e insensata quanto os noticiários no-lo revelam. Creio que esta ruideira não o afectará politicamente. Lembram-se da campanha contra Sá Carneiro? Viver em Portugal é perigosíssimo.

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«DN» de 28 de Janeiro de 2009

NOTA (CMR): Este post é apenas (e como habitualmente) uma extensão do que está afixado no Sorumbático. Para evitar duplicações, pede-se que os comentários sejam afixados lá e não aqui.

5 comentários:

pedro frederico disse...

com pessoas como o SRº, até me espanta ser afectado, se fosse o PSL a sua pena andaria em brasa...enquanto a fome se prepara para cair sobre milhares de portugueses a pena de alguns vai arrefecendo, esfriando...

Carlos Medina Ribeiro disse...

Para evitar que os comentários sobre o mesmo texto sejam publicados em 2 locais diferentes, pede-se que, se houver novos, sejam afixados no Sorumbático.

Obrigado

Anónimo disse...

Eis uma grande verdade!



Abraços d´ASSIMETRIA DO PERFEITO

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Caríssimo BB

Esta crónica é magnífica. Eu acrescentarei ao que escreveu - viver em Portugal é perigosíssimo - que ser Portugês é "muitíssimo... perigosíssimo".

Continuo a discordar consigo em diversas coisas. Mas, como jornalista que continuo a ser (e aprendiz de escritor...aos 67 anos*) tenho escrito por muitas vezes que você escreve primorosamente e não deixa dúvidas a quem o lê.

Esta crónica é, disso, um excelente exemplo. De dinidade, de verticalidade - da Verdade. Um grande abraço deste camarada no Sorumbático.

* - Publiquei em Abril passado o meu primeiro livro de ficção, Morte na Picada», contos da guerra colonial de Angola (66/68) em que tive a desdita de participar.

Carlos Medina Ribeiro disse...

ATENÇÃO!

VER A NOTA A VERMELHO NO FIM DO POST!