segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Relato de um brigadeiro (não é de chocolate)

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Por Manuel João Ramos


"Relato de um Brigadeiro sobre a Volta a Portugal em Bicicleta 2010

Caros amigos, caros companheiros de luta, caros e digníssimos Brigadeiros, senhores e senhoras, Sr. Comandante da Volta.

Permita-me a ousadia de, porventura ter esperança de que venha a ler estas palavras, tanto é assim, que as escrevo simplesmente a pensar em si.

Tive oportunidade de assistir à passagem da Volta a Portugal deste ano no decorrer de inúmeras etapas e devo dizer-lhe assim franca e abertamente: O senhor está a coordenar a segurança das etapas e dos ciclistas de uma forma indizível, paupérrima, má demais para ser, porventura, o senhor um ex-brigadeiro, não o foi nunca... seguramente. Como é que me explica a disposição dos agentes policiais que comandava, por exemplo na etapa Lamego/Castelo Branco? Eu vou descrever os factos para todos estes camaradas perceberem.

Eu estava num cruzamento, apeado e à civil e aguardava pela passagem da caravana . Ao meu lado e com ar de apático, bêbado ou cansado, estava um elemento do territorial que não tinha testículos para se opor à vontade dos condutores que seguiam os trajectos que mais lhe convinham, mesmo depois de já se estar a ouvir a sirene policial de um veículo. Esse veículo veio depois a surgir completamente desgovernado, tripulado apenas por um elemento com a patente de capitão, curiosamente, a mesma que a sua. Esse senhor, a bordo de um veículo do territorial, parou bruscamente e berrando como capado disse ao militar que já podia cortar o trânsito, depois arrancou a patinar.

OK, até aqui o senhor ainda não tem culpa, a menos que aquele tal capitão (de Pinhel) seja mais moderno, facto que o obrigava a si, a pelo menos tê-lo insultado e até agredido, na verdade, mais atrás e serenamente, aparecia a patrulha guia de um DT. Entretanto e depois de terem passado cinco motos do trânsito completamente amontoadas, (já ouviu alguma vez falar de ligação à vista?) aparece vossa Ex.ª. com um grupo de fugitivos, talvez 10. Sim, nesta altura já começa a ter culpas no cartório, pelo simples facto de que toda a gente deveria levar fugidos, menos o comandante da volta.

O pior estava para vir, decorreram 9 minutos e 48 segundos até surgir nova sirene no opaco da curva sombria da estrada. Aconteceu portanto, que durante este tempo e este espaço a via esteve completamente à mercê das conveniências dos tristes condutores, uns apressados outros néscios, tentam sempre recuperar o tempo perdido e reiniciam a marcha em todos os sentidos e direcções. Azar dos azares, na frente do pelotão, mesmo quase a serem envergonhados pelos ciclistas, vinha o restante magote de motociclistas, em monte, a par, numa ligação visual que quaisquer cinquenta metros chegavam para se verem todos uns aos outros. Na frente deles, como carneiro tresmalhado, vinha um automobilista que entretanto deve ter reiniciado a marcha e estava a ser enxotado para a frente como quem foge de um tsunami.

Toda a gente a rir às gargalhadas e eu a ferver de cólera.

Como brigadeiro que sou, não resisti e pedi a um motociclista que passava mais perto, para parar e disse-lhe: "Então, há um espaço morto de quase dez minutos e vocês vem à manada?" O pobre respondeu-me ironicamente: "O "três tiras" quer assim..." veja, Sr. comandante, a triste figura que anda a fazer...

Queira reflectir e pense bem na sua missão. Se pretende combater o nosso orgulho e a luta que trazemos de pé há 2 anos, como aliás, já me constou, então está a ser capaz."

in: http://www.brigadatransito.com/