quinta-feira, 1 de julho de 2010

A queda de um anjo

Por Ferreira Fernandes

DO PONTO DE VISTA dramático, foram grandes momentos. Em A Queda de Um Anjo, Camilo mostrou-nos menos. Calisto Elói também caiu do céu aos trambolhões, de fidalgo minhoto austero a politiqueiro na capital, mas ele próprio não deu por nada.
Mais intensa que a do romance de Camilo foi a queda de Cristiano Ronaldo, ontem. Porque o próprio deu por isso. É cruel como as câmaras filmam tão de perto. Ontem, o palco, além de mundial, era especialmente dos seus dois países - do seu, seu, e o de onde ganha a vida. Um olhando-o como o capitão da esperança, outro, desejando que ele falhasse. E Cristiano Ronaldo sabe que falhou. Quebrou-se a magia, tal como ele vai confirmar nos próximos estádios espanhóis onde vai exercer, agora como mais um. Mais um que ele não é, porque Cristiano Ronaldo é um jogador excepcional (embora tivesse ficado a saber, ontem, que não é um anjo).
As cenas dos próximos capítulos podem ter destinos divergentes: a queda ter-lhe dado a humildade com que os bravos reconstroem a vida ou ter-lhe dado a convicção de um azar do caraças andar a persegui-lo nos grandes momentos. Esperemos todos que ele vá pela primeira via. Em todo o caso, a queda deste anjo protagonizou ontem o único grande momento. Agora que se passou a jogar a feijões não me peçam que olhe o futebol senão com crueza: uma equipa boa ganhou a uma equipa razoável, mais nada.
«DN» de 30 Jun 10